Os últimos dragões
11 Capítulo XI
Viserys despertou com um sol escaldante sobre seu rosto, o calor seco da manhã contrastando brutalmente com o frio mortal da tempestade da noite anterior. O mar agora estava calmo, sua superfície apenas ondulando suavemente enquanto ele flutuava em um pedaço de madeira, os dedos rígidos de tanto se agarrar à única coisa que o mantinha acima da água.
Ele piscou os olhos, tentando entender onde estava. Seu corpo estava dormente, a cabeça latejando como se alguém a tivesse batido contra o casco do navio várias e várias vezes. Com esforço, ele levantou a cabeça, percebendo que a correnteza o levava para uma pequena ilha que surgia à sua frente, as árvores balançando tranquilamente ao vento, como se zombassem de sua desgraça.
Viserys, tremendo de frio e medo, arrastou-se com dificuldade pela areia até a praia, onde se deitou, esgotado, os olhos fixos no céu que começava a clarear. A realidade de sua situação começava a se consolidar em sua mente, mas ele precisava ter certeza de que aquilo não era mais uma miragem, mais um engano cruel de seu destino. Com um grito rouco, começou a esfregar a areia em sua pele, o toque áspero despertando sua carne dormente. Cada grão era uma prova tangível de que estava ali, vivo, e não perdido em um pesadelo sem fim.
Foi então que ele ouviu um som, um riso baixo e contido. Viserys ergueu a cabeça, os olhos semicerrados pelo sol brilhante. A figura que o observava era de um homem alto, de pele clara e cabelos prateados, inconfundivelmente valiriano. Mas o que mais chamava a atenção de Viserys era a espada que o homem portava. Longa, esguia, com uma lâmina que parecia beber a luz do sol em vez de refletir, como se feita de sombras e aço ao mesmo tempo. Irmã Sombria, uma das espadas ancestrais de sua casa, empunhada por Visenya Targaryen, a esposa do Conquistador, e por Daemon Targaryen, o Príncipe Rebelde.
O homem, de uma elegância quase casual, sorriu ao ver Viserys na areia, lutando para se erguer. Havia diversão em seus olhos, uma crueldade contida que não precisava de palavras para se fazer entender. Ele deu um passo em direção a Viserys, deixando que a ponta de Irmã Sombria desenhasse um leve sulco na areia à medida que se aproximava.
— Irmã Sombria… — Viserys murmurou, sua voz rouca e fraca, quase um sussurro. Era como se a visão da espada fosse algo irreal, uma ilusão criada por sua mente desgastada. Ele tentou se levantar, os braços tremendo sob seu peso, os olhos nunca deixando a lâmina ancestral. — Como… como você…?
Daemon apenas observou, o sorriso ainda presente, mas agora com um toque de orgulho. Ele sabia exatamente o que aquele nome significava, e o que a presença da espada representava para alguém como Viserys.
— Algumas relíquias passam de mãos em mãos até voltarem para aquelas a quem pertencem — Daemon disse, sua voz calma e cheia de confiança.
Viserys cambaleou, os olhos ainda fixos na Irmã Sombria, incapaz de compreender completamente como a espada que era símbolo de sua casa tinha passado para as mãos de um homem que ele não conhecia, em uma ilha que parecia esquecida pelo tempo. A confusão e o medo lutavam em seu rosto, mas havia algo mais: um brilho de reconhecimento, uma fagulha de esperança que estava há muito perdida.
Viserys sentiu o coração acelerar no peito. Ele tentou se levantar, mas suas pernas não responderam imediatamente, o medo misturando-se à adrenalina em suas veias.
— Quem... quem é você? — a voz saiu mais fraca do que ele desejava, traindo sua vulnerabilidade. O homem deu um passo à frente, um leve sorriso brincando em seus lábios.
— Eu sou Daemon — respondeu ele, sua voz profunda e segura. — Daemon Targaryen. E você? — Viserys engoliu em seco.
— Viserys III Targaryen, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhor e Protetor dos Sete Reinos — Viserys falou seus “títulos” tentando não tremer a voz.
— Não, esses títulos são de Robert Baratheon — Daemon sorriu divertido. — Você é o Targaryen exilado, assim como meu pai, Aemon, também foi.
— Aemon Targaryen? Quem? — Viserys franziu o cenho.
— Irmão de Aerys II, o rei louco…seu pai — o outro deu uma leve inclinada para o príncipe perdido, tentando analisar o máximo possível daquele estranho.
— Você... você é meu primo? — Viserys gaguejou, os olhos fixos no homem que agora parecia ainda mais ameaçador e ao mesmo tempo fascinante.
— Venha — Daemon não respondeu a pergunta, apenas ordenou e virou-se, sabendo que Viserys o seguiria.
Viserys hesitou por um momento, ainda tentando processar tudo que havia acontecido, mas não tinha outra opção. Com a mente turva e o corpo exausto, ele começou a seguir Daemon, cada passo na areia quente sendo um lembrete de sua vulnerabilidade.
À medida que avançavam, o terreno foi se tornando mais firme, e logo chegaram a uma construção imponente que se erguia no centro da ilha, um castelo antigo feito de pedra negra, que parecia estar ali desde tempos imemoriais. Viserys ergueu os olhos para as torres que ameaçavam tocar o céu, seus contornos duros e angulosos contrastando com a vegetação exuberante ao redor.
Foi então que ele a viu. Uma garota estava parada em uma das varandas, seus cabelos prateados flutuando suavemente com a brisa que vinha do mar. Ela era tão pálida que, por um momento, Viserys pensou que fosse um fantasma, uma visão que o sol e o cansaço haviam conjurado. Seus olhos lilases o encaravam com uma intensidade que o fez estremecer, como se ela pudesse ver através dele, ler seus pensamentos mais profundos.
Daemon, percebendo a direção do olhar de Viserys, parou e seguiu o olhar dele. Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios.
— Aquela é Rhaella — disse ele, sem desviar o olhar da figura na varanda —, minha esposa. — Viserys piscou, tentando afastar a névoa de sua mente.
— Ela... parece muito jovem — comentou, a confusão em sua voz clara. A imagem de Daenerys, sua própria irmã, veio à sua mente, e ele sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Daemon voltou o olhar para Viserys, a diversão evidente em seus olhos.
— E Daenerys? — perguntou ele, a voz carregada de ironia. — Elas devem ter a mesma idade…Sua irmã não foi dada a um Dothraki selvagem como se fosse uma mercadoria qualquer?
A raiva percorreu Viserys como um veneno, mas ele não conseguiu encontrar as palavras para responder. O que Daemon disse era verdade, e a lembrança de como ele havia permitido que sua irmã fosse entregue a Khal Drogo, na esperança de reconquistar o trono, o encheu de vergonha. Daemon, vendo a expressão de Viserys, apenas riu baixo.
— Nós, Targaryen, temos uma longa história de casar jovens. Não é diferente agora, mesmo que Westeros tenha mudado tanto. Rhaella... ela é diferente — ele disse isso com um tom de possessividade, mas também de algo mais profundo, algo que Viserys não conseguiu identificar.
O homem mais velho então começou a caminhar novamente, sem esperar uma resposta. Viserys, com o coração pesado e a mente confusa, não teve escolha a não ser segui-lo, enquanto a sombra de Rhaella desaparecia da varanda, como se ela nunca tivesse estado lá.
Enquanto Daemon e Viserys se aproximavam do castelo, uma sombra imensa passou sobre eles, projetando-se no chão pedregoso e fazendo Viserys parar abruptamente. Ele olhou para cima, seu coração acelerando no peito, e viu a fonte da sombra: dois dragões gigantescos, seus corpos serpenteando no ar com uma graça letal. As criaturas rugiram, o som ecoando pela ilha como um trovão, e então voaram baixo sobre eles, suas asas levantando uma nuvem de poeira e folhas.
Viserys quase caiu para trás, sua mente tentando processar o que via. Dragões. Dragões adultos. Ele sentiu seu estômago revirar e seus olhos se arregalaram com a visão dos monstros alados. Aquilo era impossível. Seus lábios se moveram, mas nenhuma palavra saiu. Foi preciso um momento inteiro para que ele encontrasse sua voz.
— Como… como você esconde dois dragões adultos? — Viserys perguntou, sua voz trêmula de descrença e fascínio. Daemon parou e se virou para encarar Viserys, seu sorriso agora mais largo, quase predatório. Seus olhos brilharam com algo entre diversão e orgulho.
— Esconder? — repetiu ele, como se a palavra fosse uma piada. — Eu não os escondo, Viserys. Apenas os mantenho onde pertencem.
Viserys ainda estava paralisado, seus olhos fixos nos dragões que agora pairavam sobre uma grande rocha, as escamas brilhando à luz do sol. Sua mente confusa e enraivecida, pensando que se Rhaegar tivesse aqueles dragões, Robert nunca teria se rebelado.
— Mas… como? Por que? Por que ninguém sabe disso?
— Porque ninguém está à altura de saber — Daemon deu de ombros, um gesto tão casual que era quase irritante. — Westeros se esqueceu do poder dos dragões, Viserys. Se esqueceu do que realmente significa ser Targaryen. Mas aqui, nesta ilha… os dragões não são apenas lendas. Eles são realidade. Eles são a nossa herança.
— Você… você os controla? — perguntou, a voz quase inaudível. Viserys sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele não sabia se estava mais fascinado ou aterrorizado. Daemon apenas sorriu novamente, aquele sorriso que parecia guardar segredos inatingíveis.
—- Eles são parte de mim, Viserys, assim como eu sou parte deles.
O rugido de um dos dragões soou novamente, ecoando nas rochas e enchendo o ar com sua ressonância aterrorizante. Viserys sentiu a pele arrepiar enquanto assistia as criaturas se erguerem nos céus, cada batida de suas asas poderosas reverberando em seu peito.
Daemon continuou a andar, como se fosse a coisa mais normal do mundo, mas Viserys hesitou por um momento, antes de finalmente segui-lo, o medo e o fascínio ainda lutando em seu interior. Ele sabia que estava entrando em um mundo muito mais complexo e perigoso do que qualquer coisa que ele havia imaginado. Um mundo onde os dragões não eram apenas histórias antigas, mas criaturas vivas, respirando fogo, e onde ele estava prestes a descobrir segredos que poderiam mudar o destino de sua família para sempre.
Quando Viserys cruzou os portões do castelo, foi imediatamente envolvido pela grandiosidade do lugar. As paredes de pedra antiga, cobertas por tapeçarias ricamente bordadas, pareciam contar histórias de tempos passados, histórias de reis e conquistadores que ele apenas conhecia em lendas. O teto alto ecoava com cada passo que ele dava, e o frio das pedras sob seus pés lhe lembrava da imponência e do poder que esse lugar emanava.
Seus olhos percorreram o salão, detendo-se nas criadas que passavam apressadas, carregando jarros de vinho e bandejas de comida. Havia um toque de desdém em seu olhar, como se ele se considerasse acima delas, mas algo no ambiente, talvez a aura do castelo ou o próprio fato de estar longe de qualquer lugar familiar, fez com que um arrepio percorresse sua espinha.
Então, ela entrou.
Rhaella parecia deslizar para dentro do salão, sua presença tão etérea e quase fantasmagórica que Viserys teve que piscar para se certificar de que não estava sonhando. Seus cabelos prateados flutuavam ao redor de seu rosto delicado, movidos por uma brisa invisível, e seus olhos, de um lilás claro, refletiam uma sabedoria e uma tristeza que pareciam muito além de sua idade. Havia algo nela que o fez congelar, um temor inexplicável, como se estivesse na presença de algo sobrenatural.
Daemon, que até então caminhava ao lado de Viserys com a confiança de um lobo, suavizou-se instantaneamente ao ver Rhaella. Era como se ele estivesse na presença de algo sagrado. Viserys observou, fascinado, enquanto Daemon se aproximava dela com uma delicadeza quase reverente. Ele se curvou ligeiramente, tocando a testa na dela, em um gesto que transcendia o físico, como se suas almas se conectassem naquele simples toque.
— Quem é esse homem coberto de sal e areia? — Rhaella perguntou com uma voz suave, mas que carregava uma força subjacente. Seus olhos se voltaram para Viserys, e ele se sentiu pequeno, vulnerável, como se estivesse sendo julgado não apenas por ela, mas por algo muito maior.
Viserys sentiu o calor subir pelo pescoço, e uma vergonha súbita tomou conta dele. Suas roupas estavam encharcadas e sujas, sua aparência mais parecendo a de um náufrago do que a de um príncipe. Ele abriu a boca para falar, mas as palavras ficaram presas em sua garganta.
— Este é o Príncipe Viserys, filho do último rei de Westeros — Daemon, com um sorriso que carregava um misto de orgulho e diversão, respondeu por ele, sua voz soando com autoridade.
As palavras de Daemon ressoaram pelo salão, mas ao invés de se sentir fortalecido por elas, Viserys se encolheu internamente. O peso daquele título, que ele sempre carregara com tanto orgulho, agora parecia uma carga ainda mais pesada sob o olhar penetrante de Rhaella. Ele não sabia o que esperava encontrar nessa ilha, mas a recepção fria e a estranha reverência entre Daemon e sua esposa o deixaram inquieto.
Rhaella continuou a olhá-lo por mais um momento, seu rosto inexpressivo, antes de desviar o olhar e retornar ao mundo que parecia existir apenas entre ela e Daemon. Viserys percebeu então que, apesar de tudo o que tinha ouvido sobre os dragões e o poder dos Targaryen, havia algo muito mais profundo e sombrio nesse lugar, algo que ele ainda não conseguia compreender, mas que começava a despertar um medo ancestral em seu peito.
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Varys, o Mestre dos Sussurros, estava acostumado a mover-se nas sombras, a tecer suas redes de informações com a precisão de um mestre aranha. No entanto, nos últimos tempos, uma inquietação sutil começava a se instalar em sua mente. Rumores e sussurros haviam chegado a ele, falas entrecortadas de marinheiros e mercadores, histórias fantásticas de dragões que rondavam as ruínas de Valíria. Mas, por mais que seus passarinhos buscassem nos lugares mais obscuros e distantes, cada tentativa de confirmação se mostrava infrutífera.
Varys estava em sua câmara privada, os dedos acariciando levemente a borda de uma taça de vinho, enquanto refletia sobre a crescente obsessão do Rei Robert com esses rumores. Se houvesse algo real sobre dragões, sobre uma possível ameaça que surgia das cinzas de Valíria, ele deveria saber. No entanto, todas as pistas que coletava levavam a becos sem saída, a histórias antigas contadas para assustar crianças e marinheiros supersticiosos.
Ainda assim, algo sobre esses rumores perturbava Robert de maneira profunda. E Varys sabia bem o que o medo e a paranoia poderiam fazer com um homem poderoso. Ele tinha visto isso antes.
Foi com esses pensamentos que decidiu procurar o Grande Meistre Pycelle. O ancião, com sua longa barba branca e ar de sabedoria, sempre fora uma figura familiar nas intrigas de Porto Real. E se alguém poderia ajudar a lançar luz sobre os temores crescentes de Robert, seria ele.
Encontrou Pycelle em seus aposentos, entre pergaminhos antigos e frascos de poções, aparentemente absorto em suas tarefas. Varys entrou silenciosamente, mas sua presença foi logo notada.
— Ah, Lorde Varys — Pycelle murmurou, sem levantar os olhos. — A que devo a honra desta visita?
— Grande Meistre — Varys começou, sua voz suave como seda — , estou preocupado com os rumores que chegaram aos ouvidos de nosso rei. Dragões... Valíria... histórias de tempos antigos que parecem perturbar a paz de Robert.
Pycelle levantou os olhos lentamente, sua expressão impenetrável, mas havia um brilho em seus olhos que indicava compreensão.
— O rei tem uma tendência a se deixar consumir por preocupações, mesmo aquelas sem fundamento. Mas, dragões, Varys? Creio que até mesmo você sabe que essas criaturas pertencem ao passado — o velho balançou a cabeça, tentando afastar esse pensamento. Varys assentiu ligeiramente.
— Sim, é o que dizem. No entanto, a mente do rei não é facilmente acalmada. Ele teme que as sombras do passado possam ressurgir, assim como teme que os fantasmas dos Targaryen ainda o assombrem.
Pycelle soltou um suspiro profundo, seus ombros curvando-se sob o peso dos anos.
— É a natureza do poder, Varys. A paranoia é um veneno que se infiltra lentamente, corroendo a mente dos poderosos. Eu temo que Robert, em sua insistência em caçar fantasmas, possa acabar se tornando aquilo que mais teme. Aerys II também começou assim, com receios e desconfianças que cresceram até que ele se tornou o Rei Louco — Varys permaneceu em silêncio por um momento, ponderando sobre as palavras do meistre.
— Então, você teme que Robert esteja trilhando o mesmo caminho? — Pycelle assentiu lentamente.
— A história tem uma maneira cruel de se repetir. Robert é um homem forte, mas o peso da coroa pode fazer até os mais poderosos sucumbirem. E com esses rumores sobre dragões, ele pode muito bem se perder nas mesmas sombras que engoliram Aerys.
Varys sabia que Pycelle tinha razão. As sementes da paranoia já estavam plantadas. Se não fossem arrancadas pela raiz, poderiam muito bem crescer e transformar o rei em uma nova versão do tirano que ele derrubara.
— Precisamos encontrar uma maneira de acalmar esses temores — Varys disse finalmente, sua voz carregada de preocupação. — Antes que seja tarde demais— Pycelle olhou para Varys, seus olhos cheios de uma sabedoria cansada.
— Sim, mas temo que palavras de conforto possam não ser suficientes desta vez. Robert Baratheon é um homem que prefere a espada à diplomacia, e fantasmas não podem ser mortos com aço.
Varys sabia que o velho meistre estava certo. O desafio à frente seria difícil. Mas ele estava determinado a não deixar que a história se repetisse. O destino de Westeros poderia depender disso.
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