O “Oi, S/N” de Lívia pareceu ecoar pelo apartamento quebrando o gelo de meses de separação em uma única fração de segundo. Ontem à noite teve um misto de lágrimas contidas, muitos abraços tentando compensar o tempo perdido e uma conversa longa que se estendeu quase até de madrugada, regada a sucos, chás, biscoitos e memórias de tudo que se passara desde o fatídico baile de inverno.


​A luz forte do sol da manhã invadiu a sala, cortando as frestas da cortina te despertando. O vento ainda continua bem frio, mas em breve em alguns dias vai dar uma amenizada. A primavera já deu as caras e o gelo vai começar a derreter pela cidade.


​O cheiro de café fresco e torrada quentinha vem direto da cozinha, misturado com o som suave de uma bossa nova que toca no rádio de pilha — um hábito antigo de Lívia que o tempo não conseguiu apagar. Fazia um tempo que ela não fazia isso, mesmo desde antes quando saiu de Nevinny para Atelis. Seria uma comemoração por estar de volta, talvez?


Ao chegar na sala, a cena que vê ainda é a mesma. As malas ainda estão posicionadas no corredor, mas a tensão do dia anterior já havia evaporado. Felizmente, Lívia ainda não havia reclamado para você tirá-las de lá e espero que ainda não faça, pelo menos não por um tempo.


E por falar em sua irmã, ela está na cozinha. Chegando lá, você a vê de costas, vestindo um moletom confortável e com o cabelo preso em um coque desajeitado. Ela se vira ao ouvir os seus passos, segurando duas canecas fumegantes. O cansaço da noite anterior tinha sido substituído por um sorriso leve, embora seus olhos ainda carreguem a profundidade de quem viveu muita coisa longe de casa.


​— Bom dia, dorminhocx — ela diz, estendendo uma das canecas — Achei que ia precisar de uma dose extra de cafeína pra processar tudo o que conversamos ontem.


— Bom dia, Lívia — você fala.


— A cidade vai estar caótica de novo em alguns dias. Toda a neve vai sair e tudo vai voltar ao normal — ela comenta olhando de relance para a janela.


— Parece que eu ainda tô sonhando. Voltar pra cidade depois de meses, depois de eu ter saído daquele jeito. Ainda é loucura pra mim.


— Não é loucura. Você está exatamente onde deveria. De volta à rotina.


— Eu ‘tava sentindo falta. A rotina de Atelis ‘tava monótona, uma coisa chata. Sentia falta da confusão e do caos daqui. Mas não daquela confusão. Você sabe bem. Logo no primeiro dia de aula já me meto numa confusão sem querer. Tenho até medo de ir hoje.


— Nem fale isso. Não vai deixar de estudar por causa dessas polêmicas. Eu sei que não é fácil estar nessa situação e confesso que eu não queria estar na sua posição…


— Ah, obrigadx pelo apoio — você dispara.


— Ué, mas é verdade — ela diz — Mas olha, você não disse que aquele homem lá, o seu pai, resolveu tudo? Limpou o seu nome e te livrou das acusações? Então não tem nada pra se preocupar.


— Ele me livrou das acusações da polícia, mas os alunos da escola ainda acham que fui eu. Até a própria Suzanne que foi quase morta começou a querer dizer que fui eu por causa das ideias que a Cynthia colocou na cabeça dela — você fala já se alterando.


— Você sabe que você pode processar essa menina, né? Ela te acusar desse jeito, sujando a sua reputação perante a escola e a sociedade dá processo e dos bons. Já pensou essa história voltar à tona e você cair na boca do povo de novo sendo vistx como assasino por causa das acusações, de achismos dessa patricinha? É melhor você fazer alguma coisa. Ouve o que eu tô te dizendo — Lívia aconselha.


— É, eu tenho mesmo — você concorda bebendo do seu café, pensativx — Acho que mais uma vez vou precisar da ajuda do meu pai. Ele conhece o pai de Cynthia pelo que me lembro. Se ela conseguir fazer a cabeça de muita gente, ele vai ter que me ajudar nessa outra vez.


— E por falar no magnata, por onde será que ele anda? Não veio nem fazer uma visita? Simplesmente mandou as suas coisas e foi isso?


— Mas por que ele iria me visitar? Passou meses comigo. E você não ia querer uma visita dele que eu sei.


— Não ia mesmo. Depois do que ele fez, querendo tirar a sua guarda de mim, te sequestrar pra Atelis…


— Ele não quis me sequestrar, Lívia. Ele só me ajudou. Da mesma forma que eu tive que vir pra cá quando tudo em Atelis aconteceu, dessa vez eu tive que ir pra lá — você explica.


— E que por lá ficasse, não é? Tenho certeza que ele queria te prender lá, não era? — ela pergunta, incomodada.


— Eu já disse que não, Lívia. Em Atelis eu mal via o Joseph. Ele sumia de repente e ficava saindo, sempre “resolvendo alguma coisa pendente”. Era sempre assim.


— Nossa, que situação — ela fala — Como pode um homem desse querer ser chamado de pai? Como pode um homem desse servir como exemplo de pai? Sempre colocando outras coisas como prioridade. Isso não se faz. Não é certo.


— Agora eu parando pra pensar nas coisas tudo faz sentido. Victor falava coisas pra mim e eu ficava sem entender. Mas tudo parece fazer sentido.


— Victor?! Que Victor? — Lívia questiona.


— Victor Walsh. Meu amigo de Atelis. O que morreu.


— Ele falava essas coisas pra você antes de morrer? Como assim? O que ele falava?


— Não. Antes de morrer, não. Depois mesmo. Nos sonhos que eu tive. Sempre achei isso tudo uma palhaçada, mas depois, quando eu vi e ouvi, tudo fica diferente. Tudo passa a ser levado a mais sério.


— Espera. Deixa eu ver se eu entendi. Você tá sonhando com seu amigo morto Victor? De Atelis? E você não tinha me contado ainda? Espera, você vai me explicar tudo isso que eu quero saber. Mas antes eu vou tomar meu banho. Você vai me contar tudo isso bem direitinho no caminho pra escola — Lívia fala, animada, logo saindo em direção ao banheiro.



📍No trânsito…



— Tá, então basicamente é isso. Victor tem falado com você pelos sonhos. Eu te disse! Eu te falei, S/N, que essas coisas podem acontecer — sua irmã diz, animada e impressionada ao ouvir seu breve resumo sobre os sonhos com Victor.


Esse é um assunto que é de imensa satisfação para Lívia. Baralho de cartas de tarô, astrologia, tudo que envolve horóscopo, búzios e tudo mais é uma extrema satisfação pra ela. Tal qual igual é acompanhar uma novela inteira pra uma pessoa de idade mais avançada digamos assim.


​— Parece loucura quando eu falo isso, mas eu realmente nunca acreditei em nada. Sempre achei uma besteira. Mas nos sonhos... não parece um sonho comum. É tudo muito real. Ele aparece calmo, com aquela mesma expressão de quando morávamos em Atelis. No começo, ele só dizia coisas soltas, avisos que eu achava que eram coisa da minha cabeça. Mas teve um em que ele foi muito específico, falei de uma coisa que aconteceu comigo aqui na cidade sobre umas cartas de tarô. Eu ainda não consegui tirar isso da minha cabeça.


Lívia pisca, surpresa, pisando de leve no freio quando o sinal da avenida ficou vermelho.


— Isso tá ficando cada vez mais interessante — ela fala — Mas me diz: que carta é essa?


​— Esse é o problema — você desabafa, ajeitando-se no banco, frustradx — Ele começou a falar sobre uma carta que eu tirei enquanto eu passava pela cidade. Talvez eu tenha te contado essa história. Eu ‘tava passando pela rua e um homem, parecia um mágico, pediu pra eu tirar uma carta. De início eu não quis, mas acabei fazendo. Victor disse que essa carta é muito importante, que é a chave pra eu entender o que tá acontecendo, uma coisa assim. Mas eu não sei, não faço ideia do que carta ele ‘tava falando.


Lívia ouve tudo com os olhos arregalados, a animação inicial dando lugar a uma expressão de profunda seriedade. Ela apoia o braço no encosto do banco, aproveitando o sinal fechado e lhe fala:


​— S/N, isso é muito sério. Se o Victor cruzou essa linha para falar com você, não é por acaso. Você precisa tentar lembrar dessa carta de qualquer jeito. Ela pode ser muito, mas muito importante para desvendar o que quer que esteja acontecendo.


​— Eu sei, eu já tentei de tudo! — você fala passando a mão pelo rosto, sentindo o peso do mistério — Forcei a mente o café da manhã inteiro, mas parece que tem um bloqueio. Só lembro do aviso dele dizendo pra eu lembrar da carta.


​— Então nós vamos procurar por essa carta — Lívia diz com firmeza, voltando a acelerar assim que o sinal abriu — Hoje à noite a gente vai pesquisar cada uma das cartas de tarô na internet. Se você olhar para as imagens, o seu subconsciente vai estalar e você vai reconhecer a carta do sonho. Sentimento não se esquece, S/N. Assim você vai saber qual é assim que bater o olho.


— Não, não precisa disso. Eu tenho outra coisa mais importante pra fazer do que encontrar uma carta. Preciso resolver minha questão com Cynthia o quanto antes, senão eu vou ser linchadx nessa escola — você afirma, aprontando-se para sair do carro.


— Resolver com a Cynthia? — Lívia franziu o cenho, o tom de voz subindo uma oitava enquanto ela manobra o carro para estacionar quase perto do portão da escola — S/N, você enlouqueceu? O que o Victor tá tentando te dizer do além pode ser a chave de tudo e você quer focar na garota que está tentando transformar a sua vida num inferno?


— Exatamente por isso, Lívia — você responde a voz firme, embora o estômago desse um nó só de olhar para o movimento de alunos no pátio. — O Victor já se foi. A Cynthia tá bem ali dentro, viva, armada com aquele veneno dela e pronta pra acabar com a minha raça. Se eu não cortar as asas dela, o resto do ano vai ser insuportável. Eu preciso encarar isso de frente.


Lívia desliga o motor, o silêncio repentino do carro deixa a tensão mais evidente. Ela olha para você por alguns segundos, a preocupação estampada nos olhos, mas sabendo que, quando você coloca uma ideia na cabeça, é impossível tirar.


— Tudo bem — ela suspira enquanto pegando a mochila no banco de trás. — Mas você não vai sozinhx. Se aquela cobra tentar armar alguma para cima de você no corredor, me avisa que eu também sei dar um jeito. Agora só me promete que, assim que essa poeira baixar, a gente vai sentar e focar na carta do Victor. Combinado?


— Tá, pode ser — você assentiu se apressando pra sair do carro.


Você ajeita a mochila nos ombros, respira fundo para encher os pulmões de coragem e abre a porta do carro, deixando o ar frio da manhã atingir seu rosto. Ao colocar os pés no asfalto, uma buzina repentina passa ao seu lado. Por um triz, quase que ele bate em você. Depois que se despede de sua irmã, sem olhar para trás, você começa a caminhar em direção ao portão principal. O mistério de Atelis e os avisos enigmáticos de Victor tem que esperar um pouco; sua batalha agora é no presente, e o primeiro round está prestes a começar assim que você cruzar aquele portão.




📍 Algum tempo depois ainda na escola…



O burburinho de conversas, risadas e o som de passos apressados criaram uma parede de som que, de certa forma, ajuda a mascarar a sua própria ansiedade. No entanto, bastou dar os primeiros passos no pátio interno para sentir os primeiros olhares. Talvez pelo fato de ontem. Pessoas viram a confusão bem na porta da diretoria, então claro que o assunto ainda correria solto por toda a escola. Mas também pode ser pela conversa de Cynthia. Pode ser que ela esteja ganhando força na escola, ficando na boca e na cabeça do povo. Bem, espera-se que não.


— Você tá ficando mestre nisso. Tá conseguindo manter o seu nome na lista de alunos mais comentados de todos os tempos da escola — Rebekah comenta.

— Ah, nem brinque com isso — você fala — Na verdade, quem tá nessa lista?

— Eu também não sei. Mas com certeza você, Cynthia e agora Suzanne estão nos “trending topics” da escola — Allison comenta.

— Esse ano tá sendo, de fato, praticamente igual ao ano passado. No meu primeiro dia de aula conheci Allison e teve aquela história do tiro na parada de ônibus.


— Esse dia eu não quero lembrar mais de jeito nenhum, pro resto da minha vida.


— Eu também não. Todos ficamos assustados quando aconteceu. Foi um horror! — Rebekah diz.


— Dois acontecimentos bem violentos em um curto período de tempo. Teve Allison que levou esse tiro, agora o mais recente com a Suzanne. Eu tô esquecendo de mais alguma coisa? — Cris pergunta.


— Eu acho que não. Mas esses foram muita coincidência. Aconteceram depois que eu cheguei aqui, não é? — você fala, pensativx dando uma pausa na sua fala — Às vezes eu me pergunto por que vocês ainda continuam andando comigo.


— Pronto, lá vem você com aquela síndrome de protagonista de novo — Rebekah reclama — S/N, nem tudo é sobre você. Que coisa chata! Foram apenas coincidências. E olha, nem só coisas tensas e ruins aconteceram depois que você chegou.


— Isso é verdade. Coisas boas aconteceram também. Não posso negar — Cris comenta.


— Ah, é? Me diga uma, por exemplo — você fala.


— Eu não vou dizer uma, e sim, mais de uma — Lavínia inicialmente — Teve o nosso baile. Claro, terminou de uma maneira trágica, horrível, mas foi o nosso primeiro baile. Todos nós juntos.


— Isso — Allison concorda.


— Eu pude desmascarar a Cynthia e fazer com que ela não concorresse mais à rainha do baile. Esse foi um dos dias mais felizes da minha vida — ela fala, gargalhando.


— Teve a nossa ida ao Super 8. Aquela noite foi mágica.


— É, mas fomos parar na delegacia por causa do Tommy — Cris dispara.


— Exato — você fala.


— Nossa, nem queria me lembrar desse episódio — Rebekah comenta.


— Apesar desse lance, eu tenho que afirmar, foi uma das melhores noites que eu já tive em todos os quesitos — Lívia declara.


— Ah, deixa Heitor ouvir uma coisa dessa. Até hoje ele treme por ter perdido o réu primário da vida dele — Allison fala.


— Que réu primário, Allison? Nós não fomos presos e encarcerados numa penitenciária. Quanto exagero! — Rebekah repreende dando uma gargalhada.


— Eu sei. Mas na cabeça do Heitor foi mais ou menos isso que aconteceu.


— Do jeito que o nosso amigo é, coitadinho, deve ter sido isso mesmo — ela comenta — Bem, teve a briga da Cynthia com a Micaella que serviu muito bem pra abrir meus olhos em relação à Micaella e o Tommy, não é?


— Tá vendo? Essa briga foi ótima também. Foi de utilidade pública pra todos. Descobrimos as verdadeiras faces do nojo e da naja — Lavínia dispara.


— Ai, Lavínia, vamos trocar de assunto. Quem vai acabar ficando com nojo sou eu — Rebekah solicita — Nós não estamos mais nos falando e é assim que eu quero continuar.


— E quanto à Tommy, Rebekah? Sem querer ser indiscretx em relação a isso, mas já sendo… o que aconteceu com ele? Voltou a te procurar alguma vez nesse tempo? — você pergunta.


— Sim, er… — ela inicia dando uma breve olhada pra Lavínia que consente balançando a cabeça em afirmação — Ele me procurou, nós conversamos, mas eu deixei bem claro que entre a gente não vai ter mais nada. Independente de tudo.


— É isso aí. Foi assim que te ensinei minha amiga! — exclama Lavínia.


— Fico feliz por você, Rebekah. Sério — você diz, oferecendo um sorriso — Pelo menos alguém conseguiu colocar um ponto final de verdade em um problema por aqui.


— É, se bem que todo esse tempo afastados acabou ajudando a poeira a baixar um pouco, né? — Cris pondera, ajeitando a alça da mochila enquanto vocês começam a dar passos lentos pelo pátio.


— Longe é apelido — Allison intervém, soltando um suspiro longo e cruzando os braços — Afinal, ficamos um pouco mais de dois meses de recesso devido às investigações intensas sobre a Suzanne. A escola parecia um verdadeiro cenário de filme policial. Eu já não aguentava mais ficar nesse clima de mistérios, suspense e recebendo e-mails e atualizações de portais de notícias envolvendo a nossa escola a cada duas semanas.


— Foi um período bizarro — Lavínia concorda, balançando a cabeça — Esse recesso foi mais que necessário, claro, já que a Suzanne quase morreu e a polícia precisava revirar cada armário e interrogar metade dos alunos. Mas caramba... pouco mais de dois meses sem aula no meio do ano quebrou o ritmo de todo mundo. Eu esqueci até como se segura uma caneta.


Você aperta a alça da sua própria mochila, sentindo o estômago dar um nó leve com a menção ao período de paralisação.


— Então nossas férias não foram nada entediantes, não é? — Allison comenta.


— Passar esses mais de dois meses em Atelis sabendo que a escola inteira ‘tava no meio de uma investigação que, na cabeça de muita gente, me apontava como culpadx... foi sufocante. Eu sentia que o relógio não andava, esperando o telefone tocar com alguma notícia ruim.


— Mas o importante é que a polícia não achou nada contra você, S/N — Rebekah diz firmemente segurando o seu braço por um momento em um gesto caloroso de apoio — O recesso acabou porque eles finalmente liberaram o prédio, as aulas voltaram e você está aqui.


— Oficialmente sim — você murmura, olhando de relance para o corredor principal que dá acesso às salas — Mas socialmente... o tribunal dos alunos não precisa de provas da polícia para me condenar.


O sinal estridente da escola toca, ecoando pelos corredores de azulejos claros e cortando a conversa do grupo. O fluxo de estudantes aumenta instantaneamente ao redor de vocês, todos se direcionando para as suas respectivas alas.


Caminhando lado a lado com seus colegas, você tenta focar nos próprios passos e ignorar os olhares de soslaio e os sussurros ocasionais que parecem te seguir conforme vocês avançam pelo corredor. A sensação de estar de volta após tanto tempo de isolamento, investigações e boatos é estranha, como se o colégio fosse exatamente o mesmo, mas a atmosfera estivesse permanentemente alterada.


Ao longe, perto dos armários da ala norte, você avista uma cabeleira perfeitamente alinhada e uma postura impecável.

Cynthia está lá. Ela está cercada por duas garotas do comitê estudantil, rindo de algo na tela do celular. Como se sentisse a energia do seu olhar direcionado a ela, ela vira a cabeça lentamente.


Os olhos de Cynthia se fixam nos seus no mesmo instante. O sorriso dela não desaparece; pelo contrário, ele se alarga de forma calculada, carregado daquele veneno silencioso que Lívia havia te alertado minutos atrás no carro. Ela faz um pequeno e quase imperceptível aceno com a cabeça, um cumprimento cínico que parece dizer: “Bem-vindx de volta ao jogo.”


Você engole em seco, sentindo o sangue correr um pouco mais rápido nas veias, mas se recusa a abaixar a cabeça. Você sustenta o confronto visual por dois segundos inteiros, demonstrando que não vai se curvar tão facilmente.


— Vocês me deem licença um instante. Eu já encontro vocês — você avisa, a voz saindo mais firme do que esperava.


— S/N? O que você vai fazer? — Allison pergunta, segurando a sua manga com os olhos arregalados ao perceber a direção do seu olhar.


— Resolver uma pendência. Agora mesmo.


Antes que Cris ou Allison possam te impedir, você dá meia-volta. A promessa feita à Lívia de encarar a situação de frente ecoa na sua mente, transformando a ansiedade em pura adrenalina. Cada passo no piso de azulejos em direção à ala norte parece calculado. As duas garotas do comitê estudantil que cochicham com Cynthia percebem a sua aproximação e se calam imediatamente, cutucando-se.


Cynthia, no entanto, não recua uma polegada. Ela apenas fecha o armário com um estalo seco, cruza os braços e apoia as costas no metal, esperando você chegar com aquela mesma expressão de superioridade de sempre.


— Ora, se não é elx — Cynthia destila, a voz mansa e audível o suficiente para quem estivesse por perto — O mistério de Atelis resolveu dar as caras. Veio ver se a polícia esqueceu de trancar alguma cela, S/N?


Você para a pouco menos de um metro de Cynthia. O espaço pessoal dela é invadido, mas você sustenta o olhar, mantendo a voz baixa, controlada e perigosamente fria.


— Deixa as suas seguidoras irem embora, Cynthia. O assunto é entre eu e você. E eu garanto que você não vai querer que elas escutem o que eu tenho pra falar.


Cynthia ergue uma sobrancelha, claramente desdenhosa, mas faz um leve sinal com a mão para as duas garotas.


— Nos vemos depois, meninas — ela diz.


As garotas saem apressadas, lançando olhares curiosos para trás. Quando elas se distanciam, Cynthia se inclina um pouco para a frente.


— Vai me ameaçar agora? Saiba que eu não tenho medo de você. A Suzanne sabe muito bem o que viu, e eu só estou ajudando a fazer justiça pela minha amiga.


— Justiça? Você só está aproveitando que passamos pouco mais de dois meses de recesso com a polícia aqui dentro para tentar costurar uma história policial onde eu sou o monstro da história. Você quer que a escola inteira me aponte o dedo para tirar o foco das suas próprias sujeiras.


— Pode falar o que quiser. A fofoca já correu, a semente da dúvida já foi plantada — ela sorri, vitoriosa — Todo mundo sabe que você é suspeitx.


— Então é melhor você começar a colher essa semente de volta antes que ela esmague a sua família — você rebate, dando um passo ainda mais definitivo para a frente.


A expressão de Cynthia vacila por uma fração de segundo.


— Vamos falar sobre o seu pai.


— O que você sabe sobre o meu pai? — a voz dela perde um pouco daquela doçura falsa.


— Eu sei que ele quer concorrer à prefeitura da cidade. E sei que uma campanha política precisa de duas coisas cruciais para sobreviver: muito dinheiro e nenhuma polêmica no armário — você faz uma pausa, deixando o peso das palavras assentar — Você se lembra do Joseph, não lembra? O meu pai? Ele passou os últimos meses comigo em Atelis, mas ele ainda conhece muita gente poderosa por aqui. Inclusive o seu pai. E o Joseph não gosta nem um pouco quando mexem com a família dele, principalmente quando tentam sujar o nome dele por tabela me acusando de tentativa de assassinato.


Cynthia engole em seco, a postura antes impecável ficando visivelmente rígida.


— O seu pai não se importaria com uma intriga de colégio. Ele deve tá mais preocupado em limpar a ficha dela de corrupto. Se não tá, deveria — ela tenta blefar, mas o tom de voz subiu uma oitava.


— Assim como o seu pai que traía a sua mãe com prostitutas? Isso não vai ficar muito bem pra um candidato à prefeitura da cidade — você sussurra, os olhos semicerrados.


— Mas o meu pai não fez isso. Ele… não fez — ela fala levantando a voz chamando a atenção de seus colegas e outros que passam por perto.


— Pode ser que não. Mas uma fake news dessa ia ser ótima pra ajudar ele nessa eleição, não é? Eu ia fazer um bem pra comunidade de Nevinny e mostrar um grande exemplo de candidato. Será que eles iriam querer um homem de família assim tão honesto e bondoso? Isso se ele não tiver mais coisas a esconder. Porque se meu pai é corrupto e eu assassinx, como explicar a relação de irmãos do seu pai com a família Montenegro? — você fala enquanto Cynthia apenas observa, calada — Se você não fechar essa sua boca venenosa e parar de espalhar esses achismos idiotas sobre mim e sobre o que aconteceu com a Suzanne, eu faço uma ligação hoje mesmo. Um estalar de dedos do Joseph e o financiamento de campanha do seu pai sofre um "imprevisto". Uma palavra dele nos círculos certos da elite dessa cidade e o nome do futuro prefeito vai parar na lama antes mesmo do dia da votação. Como você acha que o seu pai vai reagir quando descobrir que a filhinha dele destruiu a carreira política dele por causa de um capricho de escola?


O silêncio que se instala entre vocês é cortante. O sorriso de Cynthia sumiu completamente, substituído por uma palidez leve na linha do maxilar. Ela abre a boca para retrucar, mas nenhuma palavra sai de imediato.


— Entendeu o recado, Cynthia? — você conclui, ajeitando a mochila nos ombros com total serenidade — Eu fui inocentadx pela polícia. Se eu ouvir mais um único sussurro pelos corredores vindo de você ou das suas amigas, a campanha de prefeito da sua casa vira poeira.


Você dá as costas sem esperar uma resposta, deixando-a estática e sem reação ao lado dos armários. Caminhando em direção aos seus colegas, você sente o coração martelar no peito, mas dessa vez, não é de medo. É de alívio. O primeiro round está ganho, e agora Cynthia sabe exatamente com quem está lidando.