Os órfãos de Nevinny Vol.2
8 Noite Svidetel
O centro do furacão não precisa necessariamente apenas ser composto por uma tempestade feita por ventos, chuvas e devastação total de uma cidade. Ele também pode ser branco e ofuscante. Estalos secos são disparados. Primeiro um, depois outro seguido de outro e outro, e então uma saraivada constante. FLASH! FLASH! FLASH! São os sons que são emitidos desses disparos infinitos e quase cegantes.
Você se move, mas parece que seu andar está lento, engolido pela multidão curiosa que se comprime ao redor e sendo miradx por repórteres segurando seus microfones como se fossem armas. Em meio à isso sente o aperto firme da mão do seu pai no seu ombro te guiando. Você não precisa olhar para saber que ele está lá; ele é a sua âncora neste pandemônio de luz e barulho.
— Foco, filhx. Apenas alguns passos mais. Mantenha a cabeça erguida — a voz dele é um murmúrio autoritário e abafado pela gritaria, mas você ouve com clareza cristalina.
Mais alguns passos e o alívio é imediato. Você desliza para o assento de couro macio e climatizado de sua limusine. O barulho diminui drasticamente quando a porta é fechada, mas não cessa completamente. É como se o mundo tivesse sido silenciado por um cobertor pesado, o rugido reduzido a um zumbido distante e insistente.
Seu pai senta ao seu lado e Feralício imediatamente já liga o motor saindo do local rapidamente. Você nem sequer olha para trás deixando toda a confusão para trás. Então, encosta-se aconchegadx no banco do carro sentindo a brisa do ar-condicionado relaxando até fechar os olhos.
Assim que o faz ouve uma breve respiração que vai ficando profunda e alta. Sem explicações Feralício e Joseph haviam sumido. A limusine está parada no meio da estrada com os faróis azuis acesos e em volta só há várias e altas árvores que parecem formar grades por todos os lados. Uma lágrima cai de seu olho e então, virando sua cabeça bem devagar para o seu lado, há uma figura parada toda ensanguentada lhe observando fixamente.
Seu cabelo escuro e um tanto assanhado lhe faz pensar o que havia ocorrido. Seu coração dispara ao passo em que ela vai levantando o dedo devagar parecendo que vai apontar para algo, mas, no final, ela aponta para você. Sua boca abre, mas, ao invés de falar qualquer palavra o que sai dela é um terrível ruído alto e grave como se fossem pneus de carros arranhando o asfalto.
Você tenta gritar mas o ar não chega aos seus pulmões. O desespero toma conta de vez quando vê que por algum motivo não consegue se mover. A intensidade da adrenalina fica muito alta nesse momento, é como se estivesse se afogando em um repleto vazio num túnel que não te levará para nada. E é aí que você finalmente acorda.
— S/N, o que tá acontecendo? Você assustou a gente — Meghan fala respirando profundamente, preocupada.
— Eu 'tava tendo um sonho. Que horas são? — você pergunta esfregando os olhos.
— É hora de você acordar. Eu e Lavínia já vamos para o spa ter o nosso dia de beleza. Amanhã já é ano novo, S/N. Precisamos estar lindas. Você não vem com a gente?
— Spa? Mas é só uma festa de ano novo. Precisa de tanto?
— É claro que precisa. Você sabe pra onde a gente vai essa noite? — Lavínia pergunta, entusiasmada.
— Pro navio da família Svidetel. Nossas famílias receberam convites de ontem pra hoje — Meghan diz.
— Não era no píer Robyn Vaultz? — você questiona sem entender — E desde quando, você, Lavínia, liga pra essas coisas de spa?
— Mudança de planos. Tudo foi confirmado ontem mesmo. É por isso que eu acordei radiante desse jeito e maravilhosa. Lavínia, você vai amar a família Svidetel. Eles têm muito dinheiro. Ser convidado pra uma festa no navio deles é uma chance única. Nem acredito que finalmente meu sonho vai se realizar.
— Com tanta gente pra convidar a gente tinha logo que ser ele?
— Ué, qual o problema? — Lavínia pergunta.
— Eu não confio em gente russa.
— Ah, eu não tô nem aí pro seu preconceito, S/N. Você não vai deixar de ir por causa disso. E se não quiser ir com a gente, não vá. Meghan me prometeu usar um vestido chiquérrimo e essa chance eu não vou ter de novo, queridinhx.
Meghan dá um pulinho e com expressão assustada com olhos arregalados põe a mão sobre a boca enquanto lhe olha fixamente.
— Tá tudo bem, Meghan. Às vezes ela dá esse pico de sinceridade, mas eu prefiro ficar aqui vendo o que posso usar sozinhx. Aliás tem tanta roupa aqui que eu nunca usei mesmo — você diz.
— Bem, você quem sabe, então — Lavínia fala.
— E o que pretende fazer enquanto a gente estiver fora? — Meghan pergunta.
— Eu vou ficar um pouco em casa vendo alguma roupa e vou aproveitar pra ver como está o senhor Joseph. Vou ver o que ele anda aprontando. Prometo que vou escolher uma roupa bem bonita pra combinar com qualquer coisa que vocês estarão usando. Eu prometo.
E, olhando para o interior de seu closet é indiscutível as diversas opções que tem de roupas que talvez nunca foram nem tocadas e tiveram sua oportunidade de uso. Passando seus olhos sobre elas, logo separa as de tom branco, já que essa cor é extremamente apropriada para o evento.
⌚️ 09:02 p.m.

O ar chicotea seu rosto. Gelado e revigorante. Conforme alguns convidados vão passando, você acena com a cabeça cumprimentando-os com um sorriso forçado com algum tipo de educação. No convés do navio olhando para o "infinito" Atlântico dá pra observar ao longe em alguns pontos pela cidade fogos de artifício sendo atirados para cima. Alguns deles, inclusive, em próprio mar.
Estamos à bordo do navio "Vigilância" ou ZAINTZA na língua original basca: uma propriedade da família superpoderosa russa Svidetel, bastante influente nos negócios e na economia de Atelis na qual Joseph, seu pai, inclusive já teve alguns desentendimentos no passado, porém, hoje, acontece totalmente o oposto já que eles estão super unidos devido ao tema que os dois mais têm em comum que é o dinheiro.
Não muito distante, no mesmo local, estão Lavínia e Meghan, de conversa com os membros da família anfitriã, os herdeiros Zakhar e Vladimir Svidetel, sendo esse último conhecido pelo significado de seu nome de ser o "senhor da paz", porém na realidade acontece totalmente ao contrário já que existem diversos comentários e burburinhos classificando o rapaz como o "filho do anticristo" ou "aprendiz de anjo caído". Ele é totalmente doce na aparência, mas sabe aquelas pessoas que não são nada o que a gente vê?
— Vista encantadora essa do Atlântico, não é? — diz Anya Svidetel, a herdeira mais velha com aproximadamente vinte e seis anos.
— Muito. Olhando pra esse mar e sentindo esse frio eu estou começando a me sentir no filme do Titanic, mas sem emoção.
Você comenta, porém logo volta atrás.
— Desculpa, eu não quis dizer que a festa de vocês tá chata, é só que...
— Não, não precisa dizer mais nada. É seu direito ter uma opinião.
Ao olhar para Anya, aprecia seu figurino para a noite que está impecável por sinal. Seus longos cabelos escuros estão presos em um coque perfeitamente desfeito. Ela está envolta em um xale de caxemira bege que estranhamente combina com seu longo vestido vermelho que provavelmente custa mais do que o carro que Feralício dirige para Joseph. Seu sorriso genuíno combina com seus olhos cinzentos e penetrantes que parecem estar sempre te avaliando ou julgando.
— Como vai a sua família? Eles estão bem? Seus irmãos já estão bem acompanhados das minhas amigas. Mas eu quero saber sobre o restante. Estão todos aqui? — você pergunta.
— Ah, claro. Estão todos aqui. Apesar de alguns escândalos que possam sair na mídia, nós estamos sempre juntos. O réveillon em família é sempre uma tradição.
— Escândalos... Nem me fale essa palavra. Eu nem sou uma celebridade e passei por tantas coisas.
— Isso é comum. Nós ricos somos agraciados com tantas coisas. Ainda mais como somos membros de famílias tão importantes pra essa e outras cidades. Se não fosse nossas famílias não existiria nada disso. Nós que fizemos tudo.
Você nada diz apenas escutando tais palavras de Anya.
— Mas, enfim, você quer saber o que estão fazendo os Svidetel, não é? Bom, essa hora o senhor Yuri Svidetel está numa reunião super importante com o seu pai e mais outros homens de negócios. Olhando assim parece que eles estão decidindo o rumo do mundo. A nossa mãe, Ofeliya, está... — Anya para e procura por sua mãe em volta, não encontrando-a — ...ah, ela está por aí em algum lugar. Enfim, meu tio Dimitri está perdendo uma partida de poker com um magnata da tecnologia que veio de Hong Kong. Tem os meus outros dois irmãos tentando impressionar suas amigas... e tem eu aqui conversando com você pra ver se o tempo passa mais depressa.
— E os seus amigos? Você não convidou nenhum? — você pergunta.
— Até parece que você não sabe que no réveillon dos Svidetel só entra pessoas exclusivamente selecionadas. Até me impressiona ver Yuri chamando Joseph pra vir passar o réveillon em alto mar. Eu achei muito esquisito e... apropriado demais pra dar um sumiço no seu pai já que eles nunca foram tão chegados. Em alto mar iam demorar séculos pra achar o corpo.
Anya toma um gole de seu champanhe com uma expressão fria e séria sem nem piscar o olho, porém logo ela volta a si e solta uma risada bem maléfica lhe assustando um pouco.
— Eu só estava brincando com você. Até parece que meu pai faria uma coisas dessas. Certamente ele mandaria alguém fazer — novamente ela ri — Mas não, eu decidi não trazer amigos pra passar o réveillon comigo e minha família. Até mesmo porque eu não os tenho.
Você dá uma leve risada e diz...
— Como assim? É claro que tem. Você é nova, rica, praticamente bilionária, herdeira de tudo do seu pai. Por que não teria amigos? Todo mundo ia querer ser seu amigo.
— Você acabou de mencionar todos os motivos de o porquê pessoas como a gente não tem amigos. O fato de herdarmos algo grandioso já é o bastante pra se afirmar isso. Nós levamos uma vida solitária e de conflitos. As pessoas se aproximam da gente por causa do que temos, não pelo que de fato nós somos. Você ainda é bem jovem, porém já era pra saber disso, mas vai entender o que eu falo uns anos pra frente. Vai saber exatamente do que eu tô falando. Você acha mesmo que seus colegas que você diz que são seus amigos e aquela moça que aceitou vir passar o réveillon num meha navio luxuoso são verdadeiros com você? Aposto que aquela moça não pensou duas vezes quando ela foi convidada pra ir pra sua mansão, não é?
Observando Lavínia socializando tão facilmente com Meghan e os herdeiros Svidetel você pensa nas palavras de Anya concluindo que de certo modo ela tem razão em fazer tais afirmações. Porém, seria esse o caso?
— Pode ser. Você tem razão. Mas a Lavínia se encaixou perfeitamente na festa. Demos essa oportunidade pra ela — você diz.
— Lavínia. É esse o nome dela?
— Sim. Ela estuda na mesma escola que eu em Nevinny. Na verdade, já passamos por diversas coisas. Mas mesmo assim não sei se posso considerar como eterna amiga — você fala, pensativx, tomando um gole de sua bebida.
— Tá vendo? Isso que eu falo. E ela já está aqui inserida no nosso meio?
— Como você já sabia que ela não faz parte de alguma sociedade?
— Oh, não acredito que você possa estar subestimando minha inteligência. Eu conheço praticamente todos nessa cidade e todos no seu novo lar. Dá pra ver de longe que ela é uma intrusa.
— ANYA! — grita o senhor Svidetel ao longe aproximando-se.
— Oi, senhor. Tudo bem na sua reunião? O senhor deveria parar com esse assunto de salvar o mundo e curtir mais a passagem de ano — Anya fala.
— Oh, tudo bem. Só alguns últimos detalhes antes de bater o martelo de fato. Eu vim mesmo cumprimentar nossx convidadx pra saber o que está achando de nossa simples celebração. E também checar se alguém está incomodando nossx convidadx já estou vendo alguém com uma taça de champanhe e quando bebe muito acaba sendo inconveniente e falando coisas inapropriadas. Por acaso Anya está te incomodando?
— Não, senhor Svidetel. Está tudo de acordo. Sua festa está simplesmente perfeita e bem-estruturada. A sua filha Anya apenas veio me cumprimentar e ela está sendo bem agradável. Ela é realmente muito simpática.
— Bom, que supresa. Então realmente ela está se comportando muito bem.
— Mas é claro. Por que não estaria? — Anya pergunta.
— Onde está o meu pai? Vocês o viram em algum lugar? Até aqui tá difícil eu ter um momento com ele, já que assim como o senhor ele é tão ocupado — você diz.
— Ah, Joseph deve estar conhecendo a minha nova amada mulher Sofia. Eu os deixei conversando antes de atender àquele telefonema — Yuri fala.
— Sim, ela é realmente agradável — Anya afirma, disfarçadamente, fazendo um olhar de desdém enquanto bebe mais um gole da sua bebida.
— Tudo bem — você fala — Anya, foi um prazer falar com você. Senhor Svidetel, a festa está ótima. Agora, por favor, me dê licença. Preciso voltar pra ver como minhas amigas estão. Sei que estão em boas mãos, é claro. É só que... ah, o senhor sabe.
— Tudo bem. Vá sim, S/N. Não precisa falar mais nada. Já entendemos que quer voltar pro seu convívio adolescente — Anya fala — Eu também vou voltar à cozinha pra poder conversar mais com os cozinheiros. Acho que vou querer uma bandeja de caviar pra ver se me dá mais ânimo pra aguentar a noite. Talvez eu os alugue por mais tempo pra serem meus amigos. Pai, você me acompanha? O seu sócio deve estar à sua espera. Não é bom deixar uma dama que nem a Sofia muito tempo sozinha na companhia de outro cavalheiro — ela ri debochadamente.
— Ah, mas que maneira de falar. Joseph é um homem santo de minha inteira confiança. Nunca que ele pensaria em uma coisa como essas. Ele iria se arrepender bastante. Disso eu não duvido — Yuri fala — Mas sim, você tem razão. Ele deve estar à minha espera. Não é bom deixar um convidado masculino à sós com sua esposa. Por favor, me deem licença.
Assim, Yuri e Anya saem de sua presença no mesmo instante, como se não tivesse falado nada demais. O tom e as palavras usadas por ele foram de fato um tanto agressivas, talvez? Ou talvez pode ter sido um engano. Mas, de alguma forma, não parece que soou como se ele estivesse fazendo uma ameaça? Isso não poderia ser pra valer... seria?
— Vem, S/N. O que você tá fazendo aí sozinhx? — Meghan grita ao longe.
Ainda faltam algumas poucas horas pra meia-noite. Você, Meghan, Lavínia e os irmãos Svidetel estão no convés principal sentados num enorme sofá branco de couro. Parece que quanto mais avançam pelo oceano menos frio o clima vai ficando. Não sabe se é por talvez estar adentrando um região de um país vizinho ou pela animação que as bebidas possam estar causando.
Os fogos de artifício pintando o horizonte aqui e ali estão cada vez mais presentes, parecendo uma contagem regressiva pro grande show de explosões que daqui a pouco vão pintar o céu. Por certo, olhar para o cenário em volta parece ser bem mais interessante do que a conversa que Zakhar e Vladimir iniciaram há pouco onde conversam sobre coisas fúteis e o tema central que eles preferem que é nada mais nada menos que... eles.
— Ah, quero ótimo. Eu tô irritado com o serviço de internet via satélite. Aqui no meio do oceano o serviço está péssimo. Estou tentando atualizar meu feed no Insta com a foto do meu novo cachorro Corgi de pedigree raro da Rainha Elizabeth e o upload está levando uma eternidade — Zakhar fala.
— Ah, eu amo Corgis! Eles são tão fofos — Meghan diz, meio timidamente.
— Eu pensei que os russos teriam uma internet exclusiva, mais avançada. Não foi na Guerra Fria onde começou tudo? — você fala dando uma leve alfinetada.
— Trata-se de um pesadelo logístico, Montenegro — Zakhar complementa — Estamos em águas internacionais. Tive que mandar meu assistente voar pra Mônaco só para comprar um novo plano de dados premium. O voo durou 15 minutos. Foi um desperdício de tempo e combustível. E eu odeio desperdício.
— Por falar em desperdício... A nossa avó, na semana passada, me deu uma Rubakha. A cor era Peach Fuzz. Peach Fuzz! Eu tive que dar pra um dos nossos motoristas, porque seria um insulto ter algo tão neutro no meu closet. Fiquei muito chateado, porque agora o meu assistente vai ter que gastar todo o tempo dele procurando uma peça de roupa rara limitada no tom exato de verde esmeralda e com as joias selecionadas pela qual eu quero trocar — diz Vladimir.
— Essa roupa deve ser bem... cara, né? Mesmo essa "cor peach" que você falou ou verde esmeralda com certeza vale o quê? Milhões de euros? — Lavínia pergunta.
— Ai, Lavínia, que coisa mais proletária de se pensar! O valor não é o ponto, é a vibração. É como usar sapatos de salto alto que não são da Louboutin. Eles podem ser de couro, mas simplesmente não tem a mesma alma, entende?
— A nossa mãe tem o mesmo problema com os carros. Ela comprou um novo Rolls-Royce Ghost. É cinza pálido. Mas o cinza pálido dela é sutilmente diferente do cinza pálido da nossa casa de campo nos Hamptons. Agora, o designer dela está tentando re-lacar a casa inteira para combinar com o carro. É tão cansativo ter que lidar com essa falta de coerência estética — Zakhar afirma, revirando os olhos.
— Que dilema esse da sua mãe pra escolher uma coisa como essa. Mas isso só pode ser sacanagem. Ela vai mesmo ter que fazer isso? — Lavínia pergunta dando uma breve gargalhada em seguida lhe olhando como se estranhasse a fala de Zakhar.
— Você acha que isso é uma dilema, meu irmão? Será que eu conto pra elas a questão sobre o meu apartamento? — Vladimir pergunta.
— Você já tem um apartamento?
— É, quase. É aí que vem o dilema: Meu pai está me dando um quarto novo no nosso apartamento em Park Avenue. Quero que seja completamente imersivo, sabe? Tipo, todas as paredes são telas OLED que mudam o ambiente. Mas estou tendo um dilema de vida: a moldura das telas. Devo usar titânio escovado ou fibra de carbono com infusão de ouro? Eu já sei o que quero, mas quero uma outra opinião só pra ver se condiz com o que tenho em mente.
— Eu pensei que você não tivesse — você fala em um tom baixo enquanto toma um gole de sua bebida, mas foi em um tom suficiente pra ser ouvidx.
— Pensou que eu não tivesse o quê? Não entendi — Vladimir pergunta lhe olhando seriamente.
Você gagueja por alguns segundos, mas logo vem uma resposta...
— Um dilema. Não pensei que tivesse um dilema tão complexo como esse pra resolver. Olha eu também sem uma resposta pronta pra te dar.
— Nossa, as pessoas não entendem como é difícil manter uma estética de vida perfeita. É um trabalho em tempo integral. Por exemplo, meu professor de história quer que eu faça um projeto sobre a Segunda Guerra Mundial. Ele disse: "Pesquise em livros!" Livros! Eu disse a ele: "Professor, eu não posso. O cheiro de papel velho da biblioteca me dá dor de cabeça. Eu vou mandar minha assistente escanear tudo e projetar em 3D no meu home theater." É impossível fazer coisas comuns quando você está acostumado com um certo padrão de excelência — dispara Meghan.
— É a regalia que temos de sermos refinados, Meghan. É por isso que não aguento ir a jantares "normais". As pessoas usam talheres que não são de prata maciça e as flores não são importadas diariamente de Amsterdã. Eu tenho que fingir que não sinto o cheiro do metal comum. É uma tortura social — finaliza Zakhar.
— Nossa, que bom que você falou isso. Por falar em cheiro, eu adorei esse fondue de cereja que a sua família escolheu pra servir nessa celebração, Zakhar. Tanto que eu lhe peço licença pra ir até à cozinha pra pegar mais — você diz.
— Ah, mas não precisa ir até à cozinha pra pegar mais um desse. Eu mando um funcionário qualquer trazer pra você. Não é pra isso que eles são pagos? — Vladimir fala dando uma risadinha.
— Mas é claro. É que antes eu preciso ir ao toilette.
— Licença concedida, então.
— Meghan, você me acompanha? Vou precisar daquela coisa que você prometeu.
Meghan faz uma expressão de desentendida porém logo cai em si e levanta-se na mesma hora se juntando à sua companhia. Lavínia também fica confusa e rapidamente arregala os olhos
sem que os anfitriões percebam.
— Ué, mas eu vou ficar aqui sozinha? — ela pergunta.
— Que isso, Lavínia? Não diga isso. Você vai ficar muito bem acompanhadíssima dos irmãos Svidetel. A gente volta rapidinho — Meghan fala.
— É, você tá se saindo muito bem. Não é educado deixar os anfitriões sozinhos, lembra? Logo a gente volta e vai ser sua vez de descansar.
— Mas descansar de quê? — Lavínia pergunta sem entender.
Então, você e Meghan saem apressadamente da presença dos três se afastando o suficiente para então falar.
— Nossa, nem acredito que conseguimos escapar um pouco desses dois. O que nós estamos fazendo aqui? Um já é altamente tóxico, se juntando com o irmão eles formam uma dupla de bomba nuclear — você comenta.
— Olha, S/N. Não brinca com essas coisas porque eles são russos, então de bomba eles entendem, viu? — Meghan brinca — Mas é um pena porque eles são tão lindos. Principalmente o Zakhar.
— Eu não acredito que você tá falando isso. Você se apaixonou por aquele garoto?
— É claro que não. Mas que dá uma vontade...
— Não fale mais nada. Agora, que história foi aquela que você falou do seu professor te pedir um trabalho sobre a segunda guerra mundial? Você quis fazer uma piada ou alguma coisa parecida? Elogiar o país deles de alguma forma? — você questiona.
— É claro que não é verdade. Eu só improvisei na hora. Não sei por que falei aquilo — Meghan gargalha claramente nervosa.
— Tá tudo bem. Não importa agora.
— Será que a gente fez bem em deixar a sua amiga sozinha com eles? Por que você não chamou ela e sim a mim? Sua amiga não está acostumada com a sociedade. E se ela falar algo que os ofenda?
— Ela não vai. Não se preocupa. Lavínia é esperta. É bom que ela aprende a conviver mais com gente da sociedade. Também vai que ela descobre algum podre deles? Ela é bonita, eles são idiotas e parecem que estão um pouco fora de si, se é que me entende. É um bom plano — você diz.
— Parece bom mesmo. E pra onde é que a gente está indo? Sei que não estamos indo só pegar essa bebida — Meghan afirma.
— Bom, eu vou atrás do senhor Joseph. Quero ver o que esse homem está aprontando. Quero saber o que esse homem tanto faz que até numa noite de réveillon onde estamos no mesmo iate mal nos encontramos. Será que ela ainda tá aqui ou foi resolver coisas fugido numa lancha?
Enquanto a festa principal acontece nos conveses inferiores — com música alta e garrafas de vodka custando mais que carros populares — você e Meghan se movem pelas sombras do convés superior, uma área VIP restrita e silenciosa.
O vento frio sopra, bagunçando o cabelo de Meghan, que faz um sinal com a mão para que você pare ao avistar uma sala reservada em determinada parte do iate.
Ela aponta em direção a tal sala, onde vê uma única figura passando lentamente atravessando a tal sala ficando de costas em seguida.
É Joseph Montenegro. Seu pai.
Dá pra ver que ele está ao telefone e como sempre parece que está falando sobre algum tema bem importante na qual precisa resolver. E é aí que aproveitando a distração, avançam para mais perto já adentrando a sala ficando atrás de uma das portas duplas que antecede a outra porta.
A voz de Joseph, embora baixa, é trazida pelo vento na direção de vocês. Ele não está gritando; o tom é de um sussurro urgente e perigoso.
— "Não... o acordo não era esse. Eu dei um prazo pra que viessem depois da virada. Talvez uns minutos depois. Eu não me importo com o que Josh disse ou o que ele quer. Eu estabeleci um prazo. Vocês têm a obrigação de cumprir com ele."
— O que será do que ele tá falando? — você pergunta ouvindo minuciosamente cada palavra dita por Joseph.
— Eu não sei. Parece que está ajustando alguma coisa ou confirmando. Confesso que estou curiosa — diz Meghan.
Não demora muito para que de uma vez, Joseph se vira e por alguns segundos fica estático olhando para suas direções. Até que dá tempo de você e Meghan se esconderem atrás das paredes, mas certamente não foi a tempo. Joseph percebe a presença de vocês.
— Eu posso saber o que xeretas fazem ouvindo minha ligação? Meghan? S/N? Podem sair de trás das paredes. Eu já vi vocês — ele fala pondo o telefone no bolso cruzando os braços para ver suas reações.
Você e Meghan sabem que ele fala sério, então obedecem e decidem sair do local e adentrar a sala onde o homem está. Sem desviar os olhos de vocês, a expressão dele muda de "conspiratória" para uma máscara de autoridade paterna decepcionada, mas com um fundo perigoso.
— Bom, finalmente te achei. O senhor já sabe que escutamos uma parte da conversa, então sim, nós acabamos escutando. A gente só queria ter a certeza de quando podíamos entrar — você explica.
— E quanto da conversa vocês escutaram? — ele pergunta.
— Só essa última parte. Nós ouvimos só o final.
— Isso é verdade, senhor Joseph. Só o final — Meghan afirma meio nervosa.
— Ah, menos mal — Joseph fala.
— Por que menos mal? Tipo, o que eu escutei foi... o senhor convidou mais alguém pra festa? — você pergunta na tentativa de descobrir algo.
— É, eu fiquei de fazer uma surpresa pro senhor russo lá fora com uns amigos que ele não vê há tempos, mas nada feito. No réveillon é muito difícil conseguir algo. Cada um ocupado com suas famílias.
— Nem me fale. Nessa época até pra conseguir um carro por aplicativo é bem difícil. Falo isso por experiência própria — Meghan diz.
— Mas... mas... vocês ainda não me disseram. O que vieram fazer aqui? Sei que não apenas pra escutar minha conversa. Ou foi?
— É exatamente pra isso que viemos atrás do senhor. Quero dizer, família. Como o senhor acabou de dizer. Hoje é réveillon, o senhor deveria estar comigo lá fora, entre amigos. Mas não sei o que tanto faz que até dia de hoje você não sai dessas reuniões — você fala.
— Tudo bem. Eu já finalizei o que eu tinha pra conversar. Já que a minha presença é tão requisitada assim eu acho que nós podemos voltar pra essa festa maçante russa.
— E achamos mais alguém que concorde com a gente. Eu acho que as únicas pessoas que realmente estão gostando disso são a minha mãe, a Lavínia e a senhorita Velasquez. Você já conheceu os herdeiros do Victor? Eles são super desagradáveis — diz Meghan revirando os olhos.
— É, mas devemos manter a pose até isso tudo acabar. Agora, andem, não podemos demorar. Vamos voltar pra festa. Daqui a pouco tem a queima de fogos. Quem sabe depois disso a festa acabe e tudo não fica mais interessante? — Joseph fala pegando um charuto do bolso.
Em sincronia, ambos saem da sala reservada e logo o som abafado do tilintar das taças e da música alta começa a crescer. Um dos seguranças da família anfitriã passa em frente de onde estão com um olhar meio desconfiado, mas parece não se importar tanto depois que o veem descer as escadas indo para algum outro lugar abaixo do convés.
No horizonte o céu ainda dá spoilers com os poucos fogos iluminantes preparando para a explosão de cores que virá em algumas horas.
Sob as estrelas e cercados pelo luxo excessivo, o trio compartilha um entendimento como um segredo ainda não totalmente explícito após mais um dos segredos de Joseph e sobre uma dúvida que rodeia a sua cabeça para saber o que tinha de tão importante na ligação.
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