Os órfãos de Nevinny
101 Até algum dia
Em seu despertar repentino um barulho que vem ecoando da cozinha começa a lhe incomodar lhe causando uma certa pontada na cabeça até que em poucos segundos, enfim ele para. Porém, quando está prestes a apoiar a cabeça de volta para o travesseiro, Lívia surge de uma vez em seu quarto meio desesperada com uma expressão de angústia, bem típica daquelas quando você recebe uma notícia que não esperava.
— S/N, S/N, acorda, meninx! Acorda! A Dona Ami!
— Ai, o que foi? Precisa entrar no quarto assim de uma vez me dando susto? — você reclama.
— Eu acabei de atender o telefone. A dona Ami... ai, não acredito.
— O que tem a dona Ami? Aconteceu alguma coisa com ela?
— Não, calma. Ela tá bem. Mas dona Ami acabou de ligar dizendo que infelizmente a dona Leca morreu essa noite — Lívia anuncia passando a mão sobre o peito.
— O quê?! Mas como?
— Ela foi encontrada sem vida dentro de casa. Os médicos dizem que foi por asfixia, como se ela tivesse se engasgado ou tivesse ficado sem ar de repente.
— Sem ar?
— É. Foi o que dona Ami me falou. Ela tá muito arrasada, tadinha, chorando ao telefone. Ela me disse que o velório é hoje à tarde e pediu nossa presença.
— Tá, mas que horas vai ser isso? Daqui a pouco eu tenho aula — você diz.
— É só pelo final da tarde. Depois das quatro horas. Mas... você quer ir ao velório, S/N? Você já foi a um velório antes? — Lívia pergunta.
— Não, mas eu já vi pela tv. Não parece tão ruim assim.
— Não é ruim, é péssimo. Ver todo mundo reunido chorando em frente a uma caixão. Eu não sei se vou. Só vi essa mulher uma vez na vida, naquela noite que amarraram a dona Ami no armário.
Nesse momento você tem um estalar na mente que automaticamente lhe faz perguntar em exclamação:
— Você acha que quem fez isso com a dona Leca foi a mesma pessoa que amarrou a dona Ami no armário?
— Não inventa, S/N. Nada a ver. Ela morreu por asfixia, não foi assassinada. Mesmo se tivesse a gente já saberia. O IML esteve no local. Eles já teriam falado.
— Ah, é verdade — você diz.
— Bom, agora que você já sabe se levanta pra se arrumar pra ir pra escola. Eu vou fazer o mesmo pra ir trabalhar.
— Tá.
Assim que Lívia sai do quarto você fica na cama paradx assimilando tudo o que sua irmã acabara de falar. O sono que estava sentindo rapidamente foi embora depois de receber a notícia de que aquela senhorinha, a dona Leca, de repente não está mais entre os vivos da Terra. É claro, como ela é uma senhora de idade já avançada, não é de se espantar que a qualquer momento ela podia... bom, você sabe. Mas saber que isso é o que aconteceu e não ter tido a chance de falar com ela novamente pelo menos uma última vez enquanto ela estava viva deixa tudo um pouco estranho.

📍 Após um tempo...
— Bom, chegamos. Eu só espero que isso não demore. Detesto velórios — Lívia diz colocando o óculos de sol.
— Pra que o óculos se tá nublado? — você pergunta.
— Você nunca foi a um velório antes? As pessoas colocam óculos escuros pra esconderem os olhos inchados quando choram.
— Mas você não tá com cara de quem vai chorar no velório.
— Não, eu não vou. Mas eu sei que óculos escuros deixam a pessoa muito mais elegante.
Ao saírem do carro, você e Lívia se direcionam logo para a entrada do Memorial Milanta, local onde será realizado o velório de dona Leca. A neve que sobrepõe o solo deixa o clima mais formidável, pelo menos em questão de estética, mas o sentimento de ter vívido isso anteriormente começa a tomar conta lhe deixando um tanto angustiadx.
— Será que vai demorar? — você pergunta.
— Não, é claro que não vai. A gente só veio prestar apoio e vamos sair rápido. Não precisa ficar até o final — ela diz.
Chegando em meio ao jardim vocês vêem todas aquelas pessoas, algumas chorando, outras se cumprimentando andando de um lado para o outro, porém nenhuma conhecida.
— Eu pensei que dona Ami estaria aqui — você fala.
— Ela não vem. Disse que não gosta de velórios. Só precisarmos falar com alguém da família pra dizer "meus sentimentos" e depois saímos. Agora a pergunta é: quem aqui é da família?
— Se aqui tivesse o homem que recebe os convidados talvez ele saberia responder.
— Bom, então a gente vai ter que se virar. Vamos encostar em alguém pra ver se a gente descobre. E eu já tenho a minha primeira vítima. Vai ser aquela mulher que tá de chapéu preto com a mão no caixão.
Indo em direção da tal mulher, você percebe a sua elegância e também como ela está triste pela perda. Parece ser alguém que conhecia dona Leca há um bom tempo ou tinha uma forte relação, pois algumas pessoas em volta chegam nela lhe dando abraços e trazendo palavras de apoio a fm de confortá-la.
Lívia vai vagarosamente chegando próximo à tal mulher, dá uma breve olhada no caixão pondo a mão no rosto demonstrando tristeza e logo diz:
— Oh, dona Leca. Não deu nem tempo da senhora se despedir de mim.
A mulher de preto vendo a ação e fala de Lívia se solta das mãos do rapaz que a abraça e se aproxima de sua irmã.
— Você também? Você também não conseguiu se despedir dela?
— Não, infelizmente. Eu tô triste. Não esperava que a próxima vez que eu encontrasse a dona Leca fosse desse jeito — Lívia fala — Meus sentimentos.
— Leca ia ser a madrinha do meu casamento. Já estava tudo decidido. Eu me caso daqui a alguns dias. Agora não tô mais preparada, eu amava ela demais. Ia ser minha madrinha perfeita, a madrinha que eu nunca tive na minha vida — a mulher diz aos prantos.
— Eu te entendo. Não é fácil. Mas acidentes acontecem. Como a gente pode prever o imprevisível? Eu só lamento muito por dona Leca. Vou sentir muita falta dela.
— Oh, minha filha. Muito obrigada pelo apoio. É muito importante ter cada pessoa aqui — ela fala — Como você se chama?
— Meu nome é Lívia. Também sou amiga de uma das melhores amigas de dona Leca, a dona Ami, não sei se a senhora conhece.
— Acho que não — a mulher diz secando as lágrimas com o paninho.
— Eu sei que em velório não costuma-se levar crianças ou adolescentes, mas eu trouxe S/N que também conhecia a dona Leca. Acho que seria importante elx se despedir. Espero que não se incomode.
— Não. Todos aqui são bem-vindos, minha filha — ela diz — Olá, S/N.
Você a responde com um breve sorrisinho sem dizer nenhuma palavra.
— Bem, vocês chegaram agora, não foi? Bem na hora do discurso do cerimonialista. Ele vai dizer algumas palavras antes de nos despedirmos de vez de Leca — diz o tal rapaz que abraçava a afilhada de Leca.
— "Amigos e familiares reunidos,
Hoje, nos despedimos de Leca Rosanini, uma mulher que trilhou seu caminho com a força e a resiliência de quem enfrentou a vida de peito aberto. Mesmo diante da solidão, Leca manteve acesa a chama da esperança, buscando alegria nas pequenas coisas e cultivando um espírito independente e forte.
Leca nos ensinou que a vida é feita de ciclos, de encontros e despedidas, de alegrias e tristezas. Ela nos mostrou que, mesmo nos momentos mais difíceis, é possível encontrar beleza e significado nas pequenas coisas, como um sorriso, uma flor ou o canto dos pássaros...
Enquanto o cerimonialista fala, você percebe que o rapaz que abraçava a afilhada de Leca se afasta indo ao encontro de um homem aparentemente com mais idade que não está tão distante de todos. Logo eles começam a cochichar por alguns segundos, mas o que chama a sua atenção é quando um deles entrega para o outro um pacote transparente com uma pequena quantidade de pó branco dentro.
O rapaz analisa o pacote e em segundos o devolve para o homem que guarda em seu bolso do paletó enquanto olha em volta. Novamente, eles voltam a cochichar e, é aí que você, então, decide chegar mais perto.
— Isso foi o que encontraram nos exames? Um pó branco? — o rapaz pergunta.
— Sim, nossos médicos analisaram a pequena quantidade encontrada no local. Misturado ao álcool fez uma combinação perfeita pra causar a asfixia na senhora. Por si só esse pó já é super potente — o homem responde.
— E que componente é esse?
— Cianeto. O lactato sanguíneo elevado e os níveis elevados de oxigênio venoso foram evidentes na conclusão. O ácido cianídrico é super letal o suficiente pra causar uma parada cardiorespiratória.
— Então ela realmente morreu por parada cardíaca.
— Sim, de fato. Mas não foi uma parada cardíaca qualquer, e sim uma parada cardíaca induzida. E isso não foi nada natural.
— O que você quer dizer com isso? — o rapaz pergunta.
— Você não vê o óbvio? Não é todo mundo que tem acesso a cianeto em pó nessa quantia, rapaz. Dona Leca foi assasinada. Alguém fez com que ela inalasse esse pó e sabia muito bem fazer isso com perfeição.
— Tem certeza? Mas por quê? Ela não podia ter em casa?
— Não. As marcas de luta corporal provam ao contrário. Ela foi induzida ao envenenamento por cianeto.
— E por que vocês ainda não divulgaram a causa real da morte? As pessoas estão pensando que ela morreu por velhice. Até eu até agora.
— Tínhamos que ter certeza que se tratava de um assassinato, agora estamos vendo o melhor jeito de passar isso pra família.
— O pessoal não vai suportar. Principalmente ela — o rapaz diz apontando com a cabeça para a afilhada de dona Leca que está abraçando o caixão.
— "Que a memória de Leca nos inspire a sermos mais compassivos, mais solidários e mais presentes na vida daqueles que amamos. Que a alma de Leca encontre a paz eterna e que sua memória seja sempre lembrada com carinho e gratidão. Convido a todos para permanecerem aqui no Memorial que dentro de quarenta e cinco minutos daremos início então ao último adeus e enterro de dona Leca".
O cerimonialista, então, sai da presença de todos e o choro da afilhada aumenta após ter ouvido tais palavras. Você apenas observa tudo em silêncio em meio ao frio que começa a sentir pelos pequenos flocos de neve que começam a cair enquanto pensa nas palavras da conversa dos dois homens se perguntando na única questão que rodeia sua mente: quem e por que alguém pode ter feito isso com dona Leca?
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