Os Últimos Dias Da Humanidade
1 A noite infernal.
Notas iniciais
A noite permaneceu boa para descansar por horas, aquele tipo de noite que te faz acordar quase que às três da tarde do dia seguinte – mesmo que houvesse ido dormir cedo. Já era madrugada quando escutei um carro se chocando em alguma loja da minha rua – talvez apenas algum imbecil que acelerava seu carro na calada da noite ao encontro da morte. Levantei-me às pressas para poder ver o que havia acontecido... Cheguei na janela quase que totalmente acordado – o barulho ainda estava ecoando em meus ouvidos – fiquei alguns segundos sem reação ao olhar para a rua... Havia pessoas comendo o motorista e os outros dois que estavam no carro! O que estava acontecendo?
Cambaleei até o quarto do meu pai e ao abrir porta vi que ele já havia se aprontando para ir até a varanda tomar nota do que aconteceu.
– Pai, lá fora! Esta acontecendo algo muito estranho. Eu escutei algum carro batendo e quando fui ver de fato ele bateu em uma loja... Mas tem pessoas comendo o motorista!
– Filho, vá dormir. Já esta vendo co... – ele mesmo se interrompeu ao abrir a as janelas e ver que seu filho não estava brincando.
– Na pior das hipóteses são zumbis! – tentava analisar a situação.
– Lucas, espero que você esteja muito errado. Vá chamar sua irmã – Dizia meu pai atônito, quase caindo em desespero.
Corri meio que se jeito para o meu quarto — do qual dividia com minhas duas irmãs em uma “treliche”.
– Thaís, acorde! As coisas estão estranhas lá fora!
Ela acordou, porem não deu atenção para o que eu dizia. Fui até a janela ver como as coisas estavam, e o meu medo se confirmou; Tinham algumas pessoas andando na rua à passos lentos, mas sangravam e outras possuíam partes do corpo faltando, como se tivessem sido arrancadas por mordidas!
– Droga! É real. Como será que eles estão? Me diga que eles estão bem... – balbuciava para mim mesmo enquanto uma lagrima corria em meu rosto – não! Vai dar tudo certo! – gritava em meus pensamentos.
As ruas pereciam o inferno: pessoas sendo devoradas, sirenes soando, gritos alheios “ao fundo”. Qual seria a proporção de tudo isso? Entrei em estado de choque por alguns segundos, e quando voltei a pensar, meu pai já havia acordado minha irmã para tentarmos fazer algo. Se quiséssemos continuar vivos, essa é a hora para tentar algo!
...
– Pai, precisamos encontrar nossa família e nossos amigos. Temos um estacionamento aqui perto, certo? Vou dar um jeito de encontrar meus amigos.
– Vamos pegar o carro, sim, mas você vai ficar comigo! Vamos encontrar nossa família primeiro. — Esbravejava meu pai, furioso.
Tive de acatar as ordens sem reclamar, o que eu estava tentando fazer de certo modo era loucura. Antes de sair, preparei algo para servir de “arma”: era uma lança improvisada, uma faca fincada, colada e amarrada na ponta de um cabo de vassoura; No final das contas as séries, os animes, jogos e as horas na internet não foram completamente em vão. Abri levemente a porta do apartamento e vi que havia uma pessoa no corredor, mas ela já não se encontrava mais neste mundo... Sugeri que andássemos lentamente para não chamar a atenção daquilo com o barulho, porem ao ver a face do zumbi, Thaís soltou um grito que chamou a atenção do monstro.
– Corram! — Alertei aos dois.
Nós três descemos as escadas um atrás do outro, mas o zumbi continuava a nos seguir. “Droga, ele é até que rápido para um morto-vivo, tenho que arriscar algo ou morreremos.”pensei comigo mesmo. Logo em seguida esperei os dois passarem por mim e junto de minha lança improvisada, girei em meia lua visando investir um ataque certeiro contra seu rosto, na tentativa errei por alguns centímetros, acertando exatamente a boca da fera. Fechei os olhos por alguns segundos e quando os abri, estava caído no chão por não ter aguentado o peso do zumbi, mas a boa noticia era como eu estava descendo o penúltimo lance de escadas quando virei para desferir o ataque, a “lança” entrou de baixo para cima, da boca direto para o cérebro! O corpo se encontrava a poucos centímetros de mim e ao me dar conta disso, me levantei com um pulo. Minha camisa estava um pouco suja depois dessa “luta” e minha lança improvisada acabou ficando presa no crânio do monstro – foi difícil tirar, mas depois de um tempo eu consegui com a ajuda do meu pai.
– Woow, essa foi estranha. – comemorei
– Lucas, como você conseguiu fazer isso? – perguntava meu pai.
– Não sei. – respondi um tanto que confuso enquanto chacoalhava minha cabeça.
Depois de eu matar aquele zumbi, meu pai abriu o portão e nós saímos sorrateiramente para não atrair mais daqueles monstros. O estacionamento mais próximo ficava a 150 metros de distancia, – nunca fiquei tão feliz por morar em um lugar tão movimentado como Santana – e o caminho aparentava estar “livre”, pois eles estavam ocupados com o motorista do carro que havia batido. Não demorou muito para chegar ao estacionamento, mas ia dar um pouco de trabalho entrar nele; o portão tinha cerca de 3 metros de altura, porem não seria necessário tentar passar por ele, pois havia uma pequena casinha do lado do estabelecimento que possuía um muro mais baixo do que a media, ou seja, o caminho mais fácil era por ali. Felizmente o portão da casa estava entreaberto, facilitando a entrada na casa.
– Ei, vocês dois. Aquele muro divide a casa com o estacionamento, acho que é o caminho mais rápido e mais fácil para nós entrarmos. – sugeri enquanto apontava para o local.
– Ok, vamos tentar. – dizia meu pai.
Pular o muro foi relativamente fácil, pois alem de ser baixo, tinha um caixote na entrada da casa – que nos serviu de degrau. As coisas estavam quietas do outro lado do muro, aparentemente não havia nenhum funcionário ali, mas mesmo assim todo cuidado possível era pouco, digo, a situação era a pior das verossímeis. Os carros estavam todos organizados como sempre, e como meu pai já estava acostumado com o lugar, entrou em uma cabine para pegar as chaves de um carro qualquer e dar o fora de lá – nunca fui bom em gravar nomes de modelos de carros, então não fez a mínima diferença para mim o carro que ele pegou. Até ali tudo estava saindo “perfeitamente” bem, mas alguma coisa me dizia que o jogo iria mudar... Minha irmã abriu a porta e entrou no banco do passageiro enquanto meu pai entrava pela porta do motorista e se ajeitava para ligar o carro, já adiantando as coisas, eu estava a caminho do portão para abri-lo e logo em seguida entrar no carro.
– AHHHHHH! – gritava minha irmã, continuamente.
Ao olhar para trás vi a pior cena possível: um deles apareceu no banco de trás (aonde eu iria sentar) e mordeu o pescoço do meu pai com tamanha força que ele contorcia-se sem parar, deixando-o sem forças para revidar... Mas revidar o que? A luta já tinha acabo para ele, quando se é mordido não se tem mais escapatória. Fiquei atônito enquanto observava aquilo. Era o fim. Em pouco tempo meu pai fora perdendo a cor e sua cabeça se encostou no volante do carro, minha irmã tomada pelo terror, seguiu o mesmo caminho que ele. “O QUE EU ESTOU FAZENDO?! PENSEI QUE PODERIA DAR UM JEITO NAS COISAS, MAS OS DOIS AGORA ESTÃO MORTOS!” gritava em meus pensamentos. Aquele momento me fez beirar a insanidade por longos e intermináveis minutos, me fazendo ficar de joelhos, chorando e olhando fixamente para o chão. Sempre dizia para mim mesmo que em qualquer situação a saída era se acalmar e pensar, mas aquilo parecia demais para um simples garoto de 15 anos como eu... Enquanto fechava meus olhos, longos flashbacks apareciam em minha mente, me lembrando de bons momentos dos quais eu vivi com eles. Um turbilhão de pensamentos passavam por minha cabeça, e quando eu pensei que finalmente tinha caído no poço sem fim da loucura, um fio de esperança misturado com instinto de sobrevivência me fez voltar para aquele momento e tentar raciocinar novamente enquanto mordia as laterais de minha mão; “Merda, preciso me acalmar! Mas como!? Por sorte não fiz nenhum barulho alto demais para algum deles me escutar, mas preciso pensar em algo”.
Levantei-me com dificuldade e cambaleei até a janela do carro que meu pai tinha escolhido, ao olhar para dentro – “desviando” das manchas de sangue no vidro – pude ver que o zumbi que estava lá dentro na verdade era um funcionário do estacionamento – que possivelmente foi mordido enquanto estava na rua, entrou e trancou o estabelecimento para se esconder dentro de um carro. Minha mão já estava sangrando de tanto que eu a mordi, porem fazer isso me ajudou a “manter a calma”. Fui trambecando até os fundos do lugar e peguei meu celular para ver se alguém dava um sinal de vida.
– Alo! Mãe? – dizia eu preocupado
Felizmente ainda havia sinal nos celulares, e minha mãe atendera o dela.
– Filho! Esta tudo bem ai? – sussurrava minha mãe no telefone.
– Não. Meu pai e minha irmã foram mortos por um deles. Estou em um estacionamento. Iríamos pegar um carro e encontrar vocês... – tentava explicar a situação, com uma voz fraca e rouca.
A linha ficou muda por alguns segundos, mas minha mãe retomou:
– O que esta acontecendo, meu filho? Da noite para o dia o mundo virou um caos total. Eu escutei um barulho na sala e quando sai para ver, um desses monstros havia quebrado a janela.
– Mãe, você esta bem?!
– Sim. Ele só me arranhou. Corri para o quarto e me tranquei. E você, esta ferido? Eu só estou com um pouco de dor de cabeça e estou meio tonta...
– ELES TE ARRANHARAM? Mãe, – fiquei em silencio por um tempo – eu sinto muito, mas se tudo isso for igual aos filmes ou quadrinhos, quem é mordido ou arranhado, acaba virando um zumbi também.
– Eu estava pensando nisso... Filho, eu te amo. – disse minha mãe enquanto deixava o celular cair no chão.
Eu já sabia o que tinha acontecido com ela, mas não consegui dizer sequer uma palavra. Olhei para o chão e vi que minha arma improvisada não estava muito longe de mim. Eu poderia acabar com tudo naquele momento; cravar aquela lâmina em meu próprio pescoço e dizer adeus a todo aquele caos, mas eu apenas olhei para o céu e pensei: “eles estão bem? Eu não quero morrer assim”.
Uma fúria incandescente estava surgindo de dentro de mim, uma vontade súbita de matar todo e qualquer monstro que aparecesse na minha frente, mas como fazer isso? Precisaria de gente e de armas. Bom, meus amigos se juntariam a mim, e eu já tinha um lugar em mente para pegar armas – armas brancas, mas já era um começo. Peguei meu celular e liguei para todos os meus amigos, para confirmar quem estava vivo, felizmente a maioria atendeu e disseram que estavam trancados em suas casas.
– Ok. Eu vou te buscar, eu prometo!
Foi o que eu disse para todos. “O Vitor vai ser o primeiro e logo em seguida o Felipe. Preciso de um carro pequeno, e passar por avenidas ou ruas importantes esta fora de questão, tem muitos carros parados” – pensei. Olhei para os carros do estacionamento e apenas um deles me chamou atenção, era um pequeno, com apenas dois lugares, um smart talvez. Bom, eu não sabia dirigir, mas como sempre dizem: “para tudo se tem uma primeira vez”.
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