Notas iniciais
Olá, pessoas! Estamos de volta aqui com mais uma fic para vocês.
Esperamos que gostem, boa leitura.

O infame e pomposo Barba Negra podia se orgulhar de muitas coisas; garimpar maridos não era uma delas. Era já o ducentésimo nonagésimo quinto nome que ele riscava, balançando a cabeça com pesar e preocupação.

— Muito franzino – murmurou a Smee, que o encarava em ar de indagação –, meus netos nasceriam raquíticos...

— Bem... – disse Smee, dando-lhe tapinhas no ombro – Tenho certeza de que sua próxima tentativa será bem-sucedida, Capitão.

— Impossível, Smee! – exclamara o Capitão, erguendo-se do assento – Im-pos-sí-vel! Queria eu que esta difícil tarefa por fim findasse! Já percorri reinos inteiros, Smee, reinos inteiros! Estive à frente de condes, duques e até mesmo príncipes! Cortejei viscondes em nome dela! Humilhei-me diante de barões! – ele percorria a cabine, gesticulando vigorosamente – Ora, eu até mesmo me ajoelhei diante do Rei!

— Aquele que lhe devia um favor, não é?

— Sim, aquele velhaco! Bem concordara em casar-se e fazer de mim um corsário. Imagine só, eu, um corsário! Ora, mas, naturalmente, ela não o quis!

— Ouvi dizer que ele é muito cínico e calculista...

— De fato é! – concordou Barba, parando em meio à cabine, o olhar perdido – Desleixado também, devo dizer, não seria um bom exemplo para ela... Em todo caso, Smee, não me restou mais nada! Nada além de recorrer à nossa própria espécie! Não é mesmo terrível?!

Smee arregalou os olhos, preocupadíssimo, pois não havia nada pior do que sua própria espécie.

— Hum, e quanto aos burgueses?

— Também não serviram, naturalmente. – Barba tornou a balançar a cabeça, suspirando pesadamente – Minha última tentativa foi Otto, o peixeiro. Não gostei, era demasiado roliço; meus netos nasceriam gordos!

— Hum, e quanto aos camponeses?

— Também não serviram, naturalmente. Tinham piolhos, montes deles!

— Hum, e quanto a...

— Não sobrou mais ninguém, Smee, naturalmente!

— Ora, isto não pode ser verdade, Capitão! Um mundo deste tamanho...

De fato, o mundo era vastamente populoso, de forma que o Capitão só poderia estar sendo demasiado exagerado. Mas a verdade é que Barba estava mesmo era desiludido por suas frustradas buscas nas camadas superiores da sociedade. Os trabalhadores do campo haviam sido sua última esperança, ainda que não fossem lá muito dignos de uma mulher como Cornélia. Agora não lhe restava muita opção, a não ser eleger um candidato da camada mais vil, ordinária e impura. Explicou isso a Smee, balançando a cabeça enquanto falava.

— Mas, Capitão, como pode imaginar que encontrará o candidato adequado em meio aos promíscuos? – Smee se horrorizara. Esperava que o Capitão estivesse brincando, mas sua expressão se mostrara perigosamente austera.

— Bem, é, como o disse, minha última esperança. Talvez Cornélia tenha se assustado com a ideia de casar-se com alguém de classe superior. Conhecendo-a como conheço, garanto-lhe que foi o que ocorreu – e Barba fingiu não notar o ar de acusação de Smee, que bem sabia que o Capitão, ainda que criticasse Cornélia, era tão mais exigente do que esta – Então, pensei com minha barba, talvez ela se sinta mais confortável com seus semelhantes. Bem, não me resta outra escolha, a não ser elaborar uma nova lista. Passe-me um pergaminho!

Smee assim o fez, observando enquanto o Capitão rabiscava nomes com a concentração de um cientista obstinado. Não tinha pretensão de interrompê-lo, mas acabou por achar viável fazer uma observação.

— Capitão – pigarreou –, já lhe ocorreu que talvez Cornélia goste de moças?

Barba desviou sua atenção do pergaminho. Primeiro olhou Smee com ar de quem não prestara atenção, depois franziu a testa e, por fim, congelou o rosto numa expressão de extremo desgosto e preocupação.

— Não diga tal coisa, homem! – e bateu na madeira energicamente, como que para afastar a possibilidade de as palavras de Smee tornarem-se verdadeiras – Deus sabe que eu não me importaria, se fosse o caso, desde que ela estivesse feliz; mas as pessoas falariam demais... Bem sabe que Cornélia vive a se esfregar em todo tipo de canalhas sórdidos que encontra por aí. Deus do céu, ela até mesmo tem um mapa de conquistas!

— Hum, sim, claro... Eu apenas... Bem, vou indo verificar o trabalho daqueles miolos moles... Me dê licença... – e desapareceu mais rápido do que um tufão.

Assim que o Sr. Smee se retirou da cabine, Barba Negra voltou a fazer mais uma enorme lista de possíveis pretendentes para sua filha. Ele tinha uma pontinha de esperança que em algum lugar do mundo existisse um homem digno de sua garotinha.

— Ela não é tão ruim assim... Algum homem no mundo será capaz de domá-la... – falou consigo mesmo.

Mas o capitão teve seus devaneios interrompidos por uma confusão que começara no convés. Gritos de protesto e desespero dos marujos, um grito feminino de choque que certamente pertencia à Lady Elisa; parecia estar ocorrendo uma briga. Entretanto, Barba Negra sabia que para causar tanto tumulto assim em seu navio não precisava de uma briga, só precisava de Cornélia.

Ele soltou um longo suspiro antes de se levantar de sua cadeira e foi se arrastando até a porta. A abriu de uma vez só e se meteu no meio dos marujos em busca da origem do alvoroço. Não demorou muito até chegar no amontoado de homens desesperados próximos à borda do navio, todos com as mãos na cabeça, preocupados e nervosos, ao redor de uma mulher ruiva muitíssimo irritada que segurava um marujo magricela pendurado para fora do navio pelos pés.

— Então, marujo... – ela vociferou, ameaçando largar os pés do homem – Fale! Eu não tenho o dia todo!

— ME DESCULPE, SENHORITA CORNÉLIA! – o homem esperneava, seu rosto estava completamente vermelho e ele estava chorando de pavor ao notar os tubarões rondando o local – ME PERDOE! POR FAVOR!

— Desculpe pelo o quê? – ela deu um meio sorriso maligno, se inclinando mais na direção dele.

— POR INSINUAR QUE O MAU HUMOR DA SENHORITA É POR FALTA DE UM HOMEM! – ele agora já estava aos prantos – A SENHORITA NÃO É MAL HUMORADA! E NÃO PRECISA DE HOMEM NENHUM!

— Mas o que está acontecendo? – Barba Negra questionou, se virando para Lady Elisa, que estava observando a cena com uma mão na boca, claramente chocada.

— Eu estava acompanhando a senhorita Cornélia enquanto ela monitorava o serviço dos marujos e, bom, o senhor sabe como ela é...- Lady Elisa pensou um pouco na palavra ideal – Rígida. O marujo Billy fez um infeliz comentário, alegando que se a senhorita Cornélia tivesse um homem para satisfazê-la, não viveria mal humorada o tempo inteiro.

— Céus... – o capitão balançou a cabeça negativamente e foi até a filha – Cornélia! Coloque esse miserável para dentro agora mesmo!

A ruiva encarou o pai por cima do ombro, pensando seriamente em contestá-lo. Mas já havia conseguido o que queria do infeliz, não tinha motivos para continuar a tortura. Ela puxou o marujo de uma vez só para cima, sem tomar o menor cuidado, o deixando bater com o queixo na madeira da borda antes de jogá-lo no convés.

— Aí está seu rato desprezível. – ela apontou com desprezo para o homem que resmungava de dor, segurando o próprio queixo.

Vários outros marujos correram para ajudá-lo a se levantar enquanto o capitão e sua filha trocavam um longo olhar desafiador. Smee decidiu colocar ordem e mandou que todos voltassem para suas tarefas. Ele também instruiu que alguém ajudasse o marujo Billy a se acalmar e o levasse para se limpar depois de constatar que o mesmo urinou nas próprias calças de tanto medo.

— Cornélia... – Barba Negra suspirou impaciente – Quantas vezes eu tenho que pedir para que não ameace jogar meus marujos ao mar?

— O senhor pode pedir quantas vezes quiser. – ela cruzou os braços e falou calmamente – Enquanto eles continuarem com seus comentários ridículos, desrespeitosos e misóginos, eu vou ser obrigada a tomar as providências.

Vendo que seu pai não iria rebater sua resposta, Cornélia fez um sinal com a cabeça para que Lady Elisa a seguisse e foi em direção à sua cabine.

— Céus! A criatura que diz que ser pai é uma dádiva naturalmente não tem filhos! – o capitão murmurou e voltou à sua cabine.



Mais uma vez, Smee estava auxiliando Barba Negra na construção de sua lista interminável de pretendentes para Cornélia. O marujo já estava com pena de seu capitão por ter que chegar ao ponto de considerar piratas para o cargo de “noivo”. Ele estava claramente desesperado.

— Que tal o filho do capitão Bartholomew? Soube que é um rapaz forte...

— Vesgo, de pernas tortas e tem a língua presa. – o capitão riscou o nome do rapaz da lista com tanta força que quase perfurou o papel e passou para o nome seguinte – Quem é esse tal Anthony aqui?

— Oh, é melhor não querer esse... – Smee pressionou os lábios – Muito velho. É o cozinheiro do navio daquele seu amigo de infância.

— Deus me livre! O homem deve ter a minha idade! – mais um risco.

Smee já estava começando a ficar tão desesperado quanto Barba Negra, quando lhe ocorreu mais um obstáculo na busca.

— Capitão, o senhor acha mesmo que algum pirata vai aceitar largar a vida de liberdade para se casar com Cornélia? – Smee questionou com um leve tom de preocupação – Que vão deixar de lado a liberdade, mulheres, bebida...

— Claro que vão! Pela quantia certa. – Barba Negra falou como se fosse óbvio.

— Se o senhor diz... – murmurou Smee. Sua expressão de descrença incomodou o Capitão, que, estando ele mesmo em dúvida, esperava que o homem lhe apoiasse.

— Ora, pois tu duvida, Smee? Quem é que há de rejeitar um pesado saco de moedas? Tu rejeitaria?

— Em se tratando de Cornélia... – não chegou a terminar a frase, pois a cara do Capitão formara uma expressão descontente e perigosamente vermelha.

— Pois termine a sentença! – Barba arqueou uma sobrancelha, provocativo – Em se tratando de minha filha o quê? Ora, pois ela tem mesmo mau gênio, não se pode negar... no entanto, possui também qualidades admiráveis, como, por exemplo...

E não soube o que dizer. Notando o embaraço do Capitão, Smee achou conveniente mudar de assunto, pois Barba parecia prestes a ter uma crise de nervos. Digamos que Cornélia era, frequentemente, o principal motivo de seu desgaste emocional.

— Sim, Capitão, de fato, sei a que qualidades se refere. Não gostaria de lhe interromper a tarefa, mas devo lembrá-lo de que se faz necessário renovar nosso estoque de suprimentos.

Barba suspirou, largando a lista e se erguendo.

— Ah, pois já ia me esquecendo! Que seria de mim sem sua memória, Smee? – e deu tapinhas no ombro do homem, antes de sair para o ar fresco e ensolarado do convés.

Avistou Cornélia ao leme. A ruiva gargalhava e, pelo rubor que Lady Elisa tinha nas bochechas, parecia ter feito um de seus comentários impróprios, de modo a desvirtuar a moça.

— Mas que foi que essa libertina andou lhe dizendo? – perguntou à Elisa, afagando-lhe as bochechas em ar paternal.

— Recuso-me a repetir, Capitão. – respondeu ela, corando ainda mais.

— Cornélia, Cornélia, Cornélia – disse Barba, balançando a cabeça exageradamente – Já não lhe disse para manter suas perversões para si? A pobre Elisa não foi contratada com o propósito de ouvir suas depravações.

A ruiva soltou um risinho divertido, assistindo Lady Elisa corar ainda mais.

— Eu só estava preparando a Lady para a vida matrimonial, ensinei a ela como...

— Poupe-me dos detalhes sórdidos! – cortou-lhe Barba, erguendo uma mão – Tome a direção sul, precisamos fazer uma visita à Península Renegada.

— Aquele lugarzinho medíocre?! Não vá me dizer que pretende fazer a feira...

— Pois sim, pretendo! Nosso estoque de água está pelo fim e do rum não restou uma só gota. Além do mais, esses mortos de fome iniciariam um motim se apenas nos restassem porções mofadas de biscoito.

— Bem, se é esse o caso, paremos em Artenia, já que não há nada decente para comer naquela terra medíocre que o senhor cisma dizer que adora.

Lady Elisa, notando a ambuiguidade da frase de Cornélia, segurou um risinho quando Barba, tendo percebido o mesmo, torceu o nariz em desgosto.

— Ah sim, então é disso que se trata... – resmungou ele – Ninguém decente para comer! Então são essas as suas prioridades?

— Eu não disse isso! – exasperou-se Cornélia, fingindo inocência – O senhor não ouse distorcer minhas palavras!

— Ora, pois até mesmo Lady Elisa soube interpretar o que a senhorita quis dizer – retrucou Barba, ao que Lady Elisa se envergonhou, pois era provável que tivesse assumido uma expressão diferente da usual – Não se faça de santa e acate minha ordem!

E saiu pisando duro, maldizendo a si mesmo por não ter sido mais rígido na criação da filha. Os marujos, tendo ouvido a conversa, resmungavam baixinho, maldizendo o Capitão por não ter sido rígido o bastante na criação da filha.

— Ela deve ser mesmo louca – diziam – Nos forçar a passar um dia e meio de viagem sem suprimentos...

— Eu não sei vocês, mas, na falta do Capitão, vou me alistar em outro navio.

— Eu também! Uma mulher com prioridades sexuais mais importantes do que o alimento não pode ser uma boa Capitã.

Não era como se Cornélia fosse deixar que morressem de fome e sede apenas para satisfazer seus outros desejos. E ela tinha certeza de que se prometesse aos homens que em Artenia tinha mulheres melhores do que em Península Renegada, eles não se incomodariam em esperar mais um dia e meio. O problema dos marujos era com o simples fato de que ela também queria se divertir, mas eles achavam que, por ser mulher, ela estava errada.

— Sr. Smee! – Cornélia chamou e o homem veio o mais rápido que pode – Fique no meu lugar, por favor.

— Sim, senhorita. – ele assentiu, assumindo o leme.

— Vamos, Elisa.

A ruiva foi seguida por Lady Elisa até sua cabine. A dama-de-companhia sempre entrava no local com medo de esbarrar em uma das dezenas de armas que haviam expostas nas paredes ou largadas pelo chão. De fato, o quarto de Cornélia parecia pertencer à um pirata sádico. Se não fosse pelos móveis mais delicados que ela herdara da mãe, ninguém saberia que ali residia uma mulher.

— Sabe, se a senhorita quisesse, eu poderia arrumar o seu quarto qualquer dia desses... – Lady Elisa sugeriu apontando ao redor – Tenho certeza que podemos conseguir novos forros, cortinas que não sejam pedaços de panos rasgados com... Céus, isso é sangue?

Cornélia se virou para a cortina improvisada e respondeu com simplicidade.

— É, eu usei para limpar um corte no meu braço.

— Meu Deus... – ela balançou a cabeça negativamente e então sorriu da maneira mais gentil possível — Bom! Você não quer nem que eu limpe um pouco? Eu não me incomodo em...

— Mas eu me incomodo! – Cornélia se virou para ela repentinamente, a fazendo dar um passo para trás com a mão no coração – Você não precisa agir como se fosse minha empregada ou de qualquer outra pessoa! Você não precisa limpar e arrumar as coisas para mim, eu posso fazer isso muito bem, apenas não quero! E não preciso! Mas que inferno, mulher.

Lady Elisa ficou quieta enquanto Cornélia começava a mexer em uma pilha de roupas largadas no canto. Ela pegou uma calça preta de tecido grosso que ficava justa no corpo e arremessou na direção da cama, o mesmo fez com uma blusa branca com um decote enorme que qualquer um julgaria como, no mínimo, indecente. Mas Lady Elisa nem ousaria criticar ou questionar o vestuário de Cornélia, pois aquele erro ela só cometeu uma vez, no dia em que chegou ao navio.

Certo dia, pouco tempo depois de começar a caçada por um marido para a filha, Barba Negra teve uma epifania. Ele percebeu que Cornélia só era daquele jeito porque não tinha um exemplo feminino para seguir, afinal, sua mãe morreu quando ela era apenas uma garotinha. E decidiu que, para o bem geral da tripulação, ele arrumaria alguém para ensiná-la como uma dama deve se comportar.

Quando atracaram no porto de uma pequena cidade, ele saiu em busca de uma moça que atendesse suas expectativas. Mas seria complicado demais.

— Smee! Eu já sei! – ele falou depois de andarem metade da cidade – Vamos na igreja!

— Rezar e pedir por um milagre? – Smee indagou com surpresa.

— Claro que não, idiota! Vamos perguntar às freiras! Elas certamente sabem quem são as boas moças do lugar!

— Oh! Boa ideia, capitão! Assim nos poupa de tanto desgaste em vão. – o homem concordou prontamente, estava aceitando de tudo para acabar com aquela busca de uma vez por todas.

Eles foram até uma capela no centro, entraram, tirando o chapéu de capitão e o gorro em demonstração de respeito. Assim que os viram, as freiras logo se assustaram e começaram a se benzer e rezar, implorando para que eles não as roubassem ou fizessem mal.

— Pelo amor de Deus! Nós não temos nada! Mal vivemos com as doações dos cristãos... – uma delas até se ajoelhou.

— Calma, senhoras. – o capitão se adiantou – Eu só vim pedir ajuda.

Barba Negra explicou toda a situação, adicionando um leve drama para penalizar as freiras, dizendo que estava naquela vida por falta de opção e tudo mais. O grupo de irmãs foi amolecendo a cada palavra do capitão, porque ele tinha uma maldita lábia, e logo deram a informação que ele tanto queria.

— Bom, nós criamos uma excelente moça desde que seus pais faleceram quando ela ainda era pequena. Lady Elisa é encantadora, educada e tem muitos dons. – uma começou a explicar – Ela mora no final da rua, na pequena pensão. Acho que se explicar a situação, ela pode pensar em aceitar, tem o coração muito puro.

Diante de tal informação, Barba Negra ficara tão feliz que até mesmo dera às bondosas freiras uma brilhante moeda de ouro. E então, como se o destino – ou mesmo Deus – lhe favorecesse, topara com Lady Elisa tão logo saíra da igreja. A moça de cabelos pretos longos, pele morena clara, olhos castanhos amendoados e que era tão bonita que chamava atenção apenas de passar em um lugar, ia cantarolando distraída, num de seus passeios matinais, portando uma sombrinha para proteger-se do sol e um leque para afastar os mosquitos. Ficara levemente assustada ao ser abordada por piratas, mas, felizmente, concordara em tornar-se dama-de-companhia de Cornélia em troca de uma bela gratificação. Depois, vindo a conhecer a filha de que Barba tanto falava, sugerira amavelmente que lhe encontrassem um vestido delicado e apropriado. Ao contrário do que Elisa esperava, Cornélia encarara a sugestão como tentativa de imposição, não como gentileza.

— Como? – a filha do capitão inquiriu, colocando uma mão na cintura e franzindo o cenho.

— Um vestido! – Lady Elisa sorriu e se aproximou dela, um pouco intimidada pelas duas espadas que Cornélia carregava nas costas – Você tem belas curvas, deveria ressaltá-las, porém sem exibir demais, é claro.

Para a surpresa da recém-chegada, e também do capitão e Smee que estavam presentes, Cornélia caiu na gargalhada por uns bons minutos. Elisa olhou para os homens como se perguntasse o que estava acontecendo, mas eles pareciam tão perdidos quanto ela. Então, a ruiva parou de rir, enxugando uma lágrima no canto do olho.

— Escute aqui, senhorita. – ela falou a última palavra com desdém e a encarou seriamente – Eu não uso vestidos “delicados e apropriados”. Eles não são práticos!

— Cornélia, a moça só quer ajudar... – Barba praticamente implorou.

— Não, o senhor quer que ela faça uma lavagem cerebral em mim, não vai acontecer. – Cornélia o acusou e então se voltou para a garota novamente – Bom, nada contra você, moça, mas eu não vou me transformar... – ela olhou para Elisa de cima a baixo com uma expressão de desaprovação – nisso. E da próxima vez que sugerir que eu deva me vestir de outro modo, te farei engolir todos os tecidos que encontrar pela frente.

Elisa acabava por achar graça quando se lembrava desse primeiro encontro, porque ela sabia que, no fundo, Cornélia nunca faria mal a ela. As duas eram completamente diferentes, mas se respeitavam no final das contas. Porém, a moça tinha uma missão e fazia o possível para cumpri-la.

— Você vai para a cidade conosco? – Cornélia perguntou enquanto tirava as próprias roupas para trocá-las.

— Eu? Nunca! Digo, seria divertido conhecer o local, mas... Acho que devo ficar por aqui e terminar umas toalhas que estou tricotando.

— Credo... – Cornélia a olhava como se a garota fosse louca.

— Sabe... Você tem um corpo lindo, Cornélia. Muitas mulheres matariam para ser assim e tenho certeza que qualquer homem ficaria orgulhoso de tê-la como esposa.

Cornélia fitou o próprio corpo no espelho. De fato, ela tinha um corpo bonito. Não tinha nada sobrando ou faltando e podia se gabar de ser avantajada nos lugares certos. As únicas imperfeições eram as inúmeras cicatrizes de batalha espalhadas pelo tronco, pernas e braços. Mas ela gostava de tê-las ali.

— Hum... Se as mulheres usassem o tempo que gastam tendo filhos e cuidando de maridos inúteis tomando conta delas mesmas, tenho certeza que teriam corpos tão bonitos quanto o meu. – ela terminou de se vestir e se virou para Elisa – E para que eu vou querer um homem que tenha “orgulho” do meu corpo? Ele deveria procurar ter do dele, não?

Elisa não respondeu, apenas deu de ombros. Ela sabia que discutir com Cornélia sobre determinados assuntos era um caso perdido. A ruiva pegou uma pequena faca e a colocou por dentro do cano de sua bota e outra presa na cintura, também guardou uma arma no bolso do sobretudo que ia vestir.

— Não vai nem ao menos pentear os cabelos? – Elisa perguntou antes que ela saísse da cabine.

— Não estão tão ruins... – Cornélia deu uma olhada no espelho de longe. Seus cabelos ruivos e ondulados tinham nós nas pontas por causa da ventania constante – Ah... Não é nada que eu não possa resolver em alguns segundos.

Ela puxou os cabelos para cima e fez um coque, verificou o resultado e se deu por satisfeita. Lançou um pequeno aceno para Lady Elisa e saiu do quarto.

Os marujos já estavam tomando as providências para atracarem, a terra já podia ser vista. Barba Negra gritava ordens e Smee estava no leme. Cornélia se aproximou do pai para programar tudo e para dividir as funções entre os marujos.

— Lembrem-se! – Barba Negra chamou a atenção da tripulação enquanto Cornélia dizia para cada um o que trazer e onde ir buscar – Primeiro a responsabilidade! Depois que o navio estiver recarregado, vocês poderão se divertir pela cidade.

— Sim, capitão. – todos responderam em um único som.

— Isso vale para você também. – ele deu dois tapinhas no ombro da filha, que apenas o olhou e deu um sorriso inocente.

— Sim, capitão. – ela bateu continência, fazendo seu pai rir levemente e revirar os olhos.

Já em terra firme, saíram todos ao cumprimento de suas obrigações. Notando que a filha já desaparecera em meio ao grupo de marujos que abandonava o navio, Barba Negra perguntou à Lady Elisa se ela não gostaria de conhecer a cidade, ao que ela recusou gentilmente, dando-lhe a mesma resposta que dera a Cornélia. No fim das contas, nem mesmo Smee importou-se com o fato de que ela ficaria sozinha na embarcação, uma vez que era o comportamento esperado de uma dama decente.

— Ah, como seria feliz tendo uma filha como Lady Elisa! – suspirou o Capitão, dramaticamente – Vê só, Smee, ela me disse que prefere repousar e tricotar toalhas. Que cândida! Que prendada! Bem tinha minhas esperanças de que Cornélia aprendesse a manusear agulhas, mas ela recusou terminantemente.

— Talvez ela venha a se interessar se Lady Elisa insistir – respondeu Smee, dando a Barba um sorriso confiante – Em todo caso, Capitão, por hoje, seria bom esquecer-se de Cornélia e dos problemas que ela lhe traz. Aproveitemos a noite!

— Tem razão, Smee! Pago-lhe uma caneca de rum.

A Pensínsula Renegada, tal qual seu nome dizia, era um vilarejo pouco povoado em meio a duas praias praticamente desertas e cobertas por uma densa vegetação; devido à sua precariedade, realmente parecia ter sido renegado por Deus. Ainda assim, sua aparência rústica era agradável e convidativa, o que o tornara um dos pontos de parada preferidos dos piratas.

O Capitão e o Segundo Imediato dirigiram-se ao único bar disponível. Era ainda cedo, mas o lugar fervilhava, como se não houvesse horário para se divertir. Barba flertava com uma garçonete, enquanto Smee ria escandalosamente de uma piada que ouvira do dono do bar. Conforme concluíam suas tarefas, os marujos vinham se juntar aos mesmos. Não demorou para que o Capitão avistasse Cornélia, que retorcia os cantos da boca a cada vez que lhe ofereciam uma cantada. Era inegável que a moça chamava muita atenção, principalmente estando com o topo dos seios à mostra.

— Vê, Smee, como é impossível que um pai como eu tenha alguns minutos de despreocupação? Francamente! Mesmo odiando o lugar, ela faz questão de dar as caras.

Barba Negra sentia-se extremamente cansado, pois fazia já uns vinte anos que ele vivia em estado de alerta. Desde que Cornélia aprendera a cuidar de si mesma, não havia pausa para que o homem relaxasse. A ruiva parecia atrair confusão e poderia explodir repentinamente, a qualquer sinal de desrespeito ou mesmo de injustiça para consigo.

— Cornélia! – chamou-lhe o pai, gesticulando com o braço – Minha filha, vá fazer companhia à Lady Elisa, ela ficou sozinha no navio.

— O problema é dela! – retrucou a moça, empinando o nariz – Eu a convidei a vir conosco, mas preferiu tricotar toalhas!

— Pois era o que a senhorita devia estar fazendo! Pelo amor de Deus, por que insiste em expor seu corpo de tal maneira? Olhe aí, estão todos olhando! Vão julgar teu pai por permitir que se vista como prostituta!

— Se lhe incomoda o que os outros estão pensando, adote Lady Elisa! Tenho certeza de que será visto como pai do ano!

Smee evitou um comentário crítico, pois tinha certeza de que Cornélia o ignoraria. Ao invés, lançou ao Capitão um olhar significativo, encorajando-o a censurar a filha. Barba bem tentou educá-la com rigor, porém, falhou vergonhosamente.

— Ora, pois não diga a teu pai o que fazer! Volte ao navio imediatamente e vista-se de maneira apropriada! E não ouse retrucar! – acrescentou, quando a ruiva fez menção de abrir a boca.

— Não retrucarei! – disse ela, sem desfazer sua expressão desafiante – Já que estou aqui, vou atrás de um passatempo apropriado e que me mantenha ocupada e fora de encrencas. Com sua licença...

E lhes deu as costas. Não foram necessários mais do que dois minutos de procura: tendo dado uma volta pelo bar, Cornélia logo encontrou um objeto de desejo, que arrastou para fora do estabelecimento no mesmo instante. Barba só lamentava que a beleza da filha lhe impedisse a discrição, pois mais da metade dos presentes notara a manobra.

— Paciência, Capitão – consolou-lhe seu fiel companheiro, enchendo-lhe a caneca – Deve vencer Cornélia pela astúcia, não pela súplica.

— Smee... – começou o Capitão, franzindo a testa em ar de concentração, ao mesmo tempo em que esquadrinhava o ambiente – Estava a pensar com a minha barba: e se um desses bebuns for o candidato que procuramos?

Smee engasgou um pouco, ao tomar um gole maior do que aguentava.

— Não pode estar falando sério, Capitão... Como é que qualquer um desses baderneiros vai ser um bom exemplo? Cornélia precisa é de um homem autoritário, presente e austero. Um homem de pulso firme, que a coloque em seu lugar. Um homem respeitável e rigoroso.

Barba parou com a caneca a meio caminho da boca. Se bem entendera, Smee estava insinuando que ele não era nada disso; afinal de contas, fora incapaz de domar Cornélia.

— Smee, onde foi que eu falhei? Como pude ser um pai tão... frouxo? Ah, Smee, Smee, Smee... que criatura eu fui criar? Que desgosto, que desgosto!

— Não fique assim, Capitão – Smee lhe deu tapinhas amigáveis nas costas – O senhor deu seu melhor. No entanto, há na natureza mulheres que são como... como feras felinas incontroláveis. Cornélia é uma leoa, uma predadora. Não vê como ela luta com a ferocidade de um animal selvagem? Ah, receio que apenas um leão tão feroz quanto ela será capaz de subjulgá-la.

— Mas de onde é que ela foi herdar tão mau gênio, meu Deus? Onde foi que eu errei?!

— É isso que estou tentando lhe explicar... Ela simplesmente nasceu assim. Em todo caso, não é muito tarde para salvá-la da total perdição.

— Ah sim, sim, está completamente dotado de razão, Smee – o Capitão virou o rum de um só gole, batendo a caneca com força na mesa e erguendo-se com igual brusquidão –, e sua esperança me dá esperanças.

— Aonde é que o senhor vai?

— Tive uma grande ideia! Ah, espere para ver, meu caro, espere para ver.

Acontece que a ideia de Barba Negra não era de todo ruim, mas falível. Era comum que os capitães de navios piratas, de quando em quando, abrissem vagas em sua tripulação. Os interessados faziam fila para se alistar, enquanto o capitão, com um olhar julgador, escolhia os homens mais fortes e úteis para o trabalho pesado. Era um caso semelhante, com a diferença de que se procurava apenas um candidato, que não precisava ser forte nem útil, mas se adequar às características exigidas por Barba Negra.

— Você não leu as exigências? — perguntou ele a um velhote banguela que entrara na fila – “Procura-se homem jovem, austero, rígido, autoritário e de boa aparência”. O senhor já começou mal, cai fora da fila!

— Hum, Capitão – Smee se aproximou, lendo o cartaz que Barba pregara à parede –, é de se esperar que esses homens não saibam ler...

— Ora, pois não há problema! Fique aí controlando os que entram na fila!

Ah, Smee com certeza iria para o céu! Porque, é claro, quem mais suportaria os problemas de Barba Negra como ele suportava?

Obviamente, Barba não revelara o motivo da procura, mas algum marujo fofoqueiro devia ter andado falando demais, pois foi questão de tempo até que metade das pessoas do salão soubesse do que se tratava. E de nada adiantava a fama de Barba Negra, ninguém o queria como sogro; pelo simples fato de que, ainda que espetacular, Cornélia não era mulher para casar. Ao fim de uma hora, o pirata encontrava-se frustrado e em ar de desespero.

— Ah, Smee, desisto! Não há no mundo alguém que possa se casar com Cornélia!

— Bem... – começou Smee, sem saber o que dizer – Quem sabe se o senhor...

— Não, chega! Eu não aguento mais! Desta vez, dou-me por vencido!

— Mas, Capitão, o senhor nem mesmo...

— Nem mesmo o quê? Não ouse dizer que eu não tentei, pois Deus sabe que eu me humilhei diante de viscondes e até me ajoelhei diante do rei.

Smee parara abruptamente em meio a sua frase, pois avistara ao longe um rapaz que bebia com os amigos. Não parecia nada austero, rígido e autoritário, mas sua jovialidade e boa aparência lhe atraíram o olhar. Talvez, pensou consigo mesmo, fosse a última esperança de Barba Negra.

— Capitão! Vê lá aquele rapaz de olhos azuis e cabelo preto.

Barba girou o pescoço, tentando localizar o alvo da descrição de Smee. Encontrou-o mais rápido do que poderia imaginar. Destacava-se no ambiente, pois suas feições eram mais bonitas do que a dos outros e até mesmo mais simpáticas. Ele gargalhava prazerosamente, jogando dados com os companheiros.

— Um rapaz bem apessoado, reconheço, mas... Smee! Que horror, lhe falta uma mão!

— Sim, Capitão. O senhor certamente não se lembra, mas aquele rapaz era ainda um menino quando foi pedir-lhe um lugar à tripulação.

Barba se lembrava, é claro. Fora ele próprio quem rejeitara o garoto, usando o fato de o mesmo ser maneta como justificativa.

— Ora, mas eu bem me lembro, Smee! Quem diria, o guri tomou forma de homem! Era tão franzino que eu tinha a impressão de que voaria para longe se apanhado pelo vento.

— Pois proponho que o senhor vá falar com ele!

— Eu?! Ora, e o que é que eu diria?

— Vá direto ao ponto! É capaz de ele ainda cobiçar uma vaga na tripulação, de modo que seria facilmente manipulado a casar-se com Cornélia.

— Ora, mas isto é suborno! – e Barba riu, admitindo que Smee, muitas vezes, era mais astuto do que ele próprio – Pois assim o farei! Mas Smee... se ele se assustar, fugirá. E, Deus do céu, não posso me dar ao luxo de perder esta chance!

— Tudo bem, Capitão, pois então vá como quem não quer nada.

Obviamente, Barba Negra não sabia se portar como quem não queria nada. Atravessou o salão com a elegância e pompa de um lorde e, sorrindo largamente, abordou o rapaz, que, tão logo o viu, parou em meio ao ato de jogar os dados. Devia estar absurdamente abobalhado, pensou, pois seus colegas de mesa o encararam em ar de curiosidade.

— Olá, meu caro! – cumprimentou Barba Negra, tão alto que metade dos frequentadores do bar se viraram em sua direção – Mas que prazer revê-lo!

— Perdão – falou o rapaz, paralisado –, mas o senhor está se dirigindo a mim?

— Mas é claro, filho! – e ele ergueu a mão grande e pesada na direção do rapaz, que a chacoalhou vigorosamente, como quem cumprimenta um presidente.

— O senhor se lembra de mim, então.

— É claro que sim! Eu lhe neguei um lugar à minha tripulação. Lamento, é claro, mas vejo que acabou por se tornar um rapaz forte e bem apessoado.

O jovem pigarreou, desconcertado. Ergueu-se dizendo que voltava já e levou Barba Negra ao balcão, onde ordenou duas canecas de cerveja.

— Hum, vejo que não guardou rancor pelo o que fiz – ia dizendo Barba, felicíssimo, pois uma intuição paterna lhe dizia que aquele rapaz era o escolhido.

— Não, claro que não. Como poderia? O senhor... sempre me inspirou.

— É mesmo? Bem, orgulho-me em ouvir isso. Não me recorda seu nome, perdoe-me.

— Killian, senhor, Killian Jones.



Notas finais
E por hoje é só isso! Aguardamos comentários! Sintam-se livres para darem sugestões e críticas construtivas, além de suas opiniões! Beijos e até o próximo!