Orquídea Vermelha
6 Hello, Delilah
Notas iniciais

Logo que atracaram na Ilhota de Burterre, Smee colocou os marujos para descarregarem as mercadorias que seriam negociadas e Cornélia mandou que Lady Elisa, que também conhecia o local, levasse o padre até a igreja mais próxima e o deixasse lá de uma vez.
— É seguro deixar Lady Elisa sozinha? — Barba questionou ao ver a moça descendo a rampa com o auxílio do padre.
— Ela sabe se virar por aqui. — Smee respondeu — Já descarregamos o navio, senhor.
— Ótimo! Deixe a tripulação aqui de guarda enquanto vamos ao centro negociar com uns velhos amigos. — o capitão arrumou seu chapéu e tentou desamassar sua jaqueta para parecer apresentável — Cornélia, Killian e Smee irão comigo, naturalmente.
Aquela altura, Cornélia se limitou a revirar os olhos para as tentativas patéticas de seu pai de colocar o Jones numa posição superior e o seguiu em silêncio. O grupo singular chamava atenção à medida que seguia para o centro do vilarejo, todos com exceção de Killian estavam acostumados com os olhares temerosos dos habitantes, além dos cochichos.
— … mas é o Barba Negra, não é?
— … e dizem que a filha é pior ainda!
— … quem é o bonitão com eles?
O cozinheiro não estava acostumado com toda aquela atenção em cima dele, começou a torcer para que chegassem logo ao destino.
No centro da ilha, Lady Elisa estava chegando à principal igreja de Burterre, ela tinha preparado uma cesta de mantimentos para o padre Tobias, assim como roupas que ela mesma havia costurado.
— Elisa, minha jovem… — o padre suspirou quando chegaram na frente da escadaria — Não sei como te agradecer por ter cuidado de mim naquele lugar horrível… Ainda não creio que esteja presa lá.
— Eu não estou presa lá, padre. — ela o garantiu — Tenho uma missão naquele navio e posso garantir que sou bem tratada.
— Mas pelo o tempo que passei lá posso garantir que seu esforço está sendo em vão. — ele franziu o cenho — Aquela moça, Cornélia, é uma causa perdida. Tão teimosa quanto uma mula, claramente uma marionete de satanás… Não é bom para você ficar perto daquela… Mulher. Venha comigo, podemos protegê-la com a graça de nosso senhor Jesus Cristo!
— Com todo respeito, padre, mas não fale da Cornélia assim. — Lady Elisa fechou a cara — Ela é apenas diferente, mas garanto que não há nada de maligno com ela. E acredito que sim, eu possa ajudá-la.
O padre Tobias a encarou surpreso, claramente não estava mais lidando com a jovem que conhecera desde a infância.
— Vejo que seus princípios são outros agora. — ele assentiu com pesar — E vejo que há um conflito de interesses também.
— Como?
— Você mente para mim, para aquela moça e para si mesma. Não está lá por causa dela, está lá por causa de você. Eu deveria ter notado desde o começo… Bom, agradeço mais uma vez pela ajuda e pelos alimentos, mas daqui em diante estou por minha conta.
O homem subiu as escadas lentamente devido ao cansaço e lançou um último olhar para Elisa antes de entrar na igreja e sumir de vista. A moça se pegou num conflito interno naquele momento; obviamente sempre quis ver mais do mundo e de fato conseguia isso enquanto trabalhava para ajudar Cornélia a se comportar melhor… Mas será que ajudava mesmo? Será que algum dia chegou a ajudar de verdade ou só fingia para permanecer no navio onde tinha um certo tipo de liberdade comparada a sua vida anterior? Será que no fundo, assim como o padre, ela sempre soube que Cornélia era um caso perdido e só estava lá para benefício próprio?
Quando notou que estava começando a atrair olhares curiosos pelo seu comportamento, parada na porta da igreja olhando para o nada, Lady Elisa se recompôs e tomou o caminho de volta para o cais. Ela notou um grupo de homens a encarando, estava decidida a ignorá-los e passar direto, mas os achou familiares e olhou novamente, era um grupo de piratas, claramente. Ela estreitou o olhar tentando reconhecer algum, talvez fossem a tripulação de algum amigo ou sócio de Barba Negra. E então seu cérebro processou o reconhecimento rapidamente, a deixando em alerta, pois aquela tripulação estava bem longe de ser amigável.
— Oh não… — ela ergueu a barra de seu vestido para andar mais rápido e se meteu no meio da multidão, tentando cortar caminho para ir até o navio o mais depressa possível.
Nesse meio tempo, Barba manejava o comércio ilícito de sua mercadoria. Barganhava com o fornecedor local, cujas mãos já estavam marcadas pela ilegalidade de suas permutas com piratas. Era dos fornecedores que se obtinha o sustento básico para as viagens em alto-mar. E era, também, através deles que um Capitão enriquecia como mercador.
Barba Negra usualmente traficava tabaco e óleo de baleia, além de outras potenciais mercadorias de custoso valor. Desta vez, negociava a quantia que considerava merecível pelo carregamento de açúcar que estava prestes a dispensar na ilha.
— Ora, não me seja avarento, meu senhor — ia dizendo o Capitão, balançando a cabeça em sintonia com Cornélia, que já se mostrava impaciente ante o arrastar da conversa — Bem sabe que um paladar adocicado custa bem mais do que a reles quantia que acaba de me oferecer.
— E, ainda assim, não se diferencia em nada do açúcar que embolsei três dias atrás, de um capitão que, como o senhor, alegava tê-lo saqueado dos portugueses. Ofereci a ele a mesma quantia que o ofereço e ele, de bom grado, a aceitou.
— Pois bem nota-se que este senhor não se encontrava apto a barganhar. O senhor sabe com quem está falando? Com o Capitão Barba Negra! — ele deu ênfase ao próprio nome, ao que o outro revirou os olhos, como se indiferente à fama do homem — Este nome, por si só devia fazê-lo envergonhar-se do preço que estipula sobre a mercadoria. Onde já se viu! Ofereço-lhe bem mais do que uma tonelada de doçura, não ouse me oferecer o equivalente a meia tonelada.
O jovem Killian bem se impressionava ante a energia depositada pelo Capitão na barganha. Ainda que quase sempre focado em interesses fúteis, o homem não se deixava abusar pelos fornecedores que, igualmente astutos, tentavam lhe passar a perna. É claro, Barba detinha como vantagem a sabedoria de Smee, que conhecia os preços oferecidos no mercado e sabia estipular justamente o valor de sua mercadoria.
Por fim, admitindo que estava certo o Capitão, o fornecedor concordou pagar-lhe o dobro da primeira oferta. Os olhinhos de Barba brilharam em satisfação, conforme ele embolsava um pesado saco de moedas.
— Vão logo buscar a minha mercadoria — ele espantou Killian e Cornélia como quem enxota galinhas — Rápido! Tempo é dinheiro!
Cornélia se limitou a revirar os olhos, evitando retrucar.
— Posso fazer uma pergunta? — Killian quebrou o silêncio, se aproximando de Cornélia, que estava andando rapidamente, pouco a frente dele.
— Hum, pode… — ela o olhou desconfiada.
— Como se acostumou com todos os olhares e as conversas? — ele apontou ao redor — Sinto que todos estão analisando cada movimento meu.
— É porque estão. E é muito irritante! — ela olhou os habitantes com desprezo — Mas não dá para ameaçar um por um, então só siga em frente, com o tempo você aprende a ignorar… Se quiser, é claro, parece que as moças da ilha gostaram de você.
Cornélia apontou com a cabeça um grupo de jovens que olhavam Killian com muito interesse, ele segurou o impulso de devolver seu melhor sorriso charmoso para elas, principalmente porque não conseguia nem imaginar qual seria a reação da ruiva à isso.
— Uma pena, não é mesmo? — ele murmurou.
— Por quê? Você é livre para fazer o que quiser, com quem quiser… — ela falou sem olhar para ele — Desde que a pessoa também queira, o que obviamente elas querem.
— Não sei se seu pai aprovaria isso…
— Ele vai estar mais preocupado comigo essa noite, cozinheiro…
— CORNÉLIA! CORNÉLIA! — os gritos de Lady Elisa vindos do meio da multidão que caminhava no centro a interromperam.
A moça vinha aos tropeços, segurando o vestido do melhor modo que podia para não tropeçar no mesmo. Quando finalmente conseguiu alcançar a ruiva, suas bochechas estavam vermelhas e ela estava suando devido ao esforço.
— Mas o que houve, Elisa? — a imediata perguntou preocupada.
— Ela está aqui! Acabei de ver parte de sua tripulação… — Lady Elisa explicou pausando em cada respiração — Temos que avisar aos marujos e ao capitão.
— Merda! — Cornélia grunhiu — Deixe o capitão fora disso! Eu mesma dou conta.
— Quem está aqui? O que está acontecendo? — Killian se aproximou das duas.
— Eu não tenho tempo para isso! Volte para o navio e avise aos marujos para ficarem em alerta, pois…
— Ora,ora,ora…
Cornélia pressionou os lábios numa fúria incontível ao ouvir aquela voz debochada em suas costas. A ruiva girou os calcanhares lentamente, já repousando a mão na arma em sua cintura, preparada para possíveis ataques, e encarou a recém-chegada.
— Olá, Delilah. — pronunciou o nome da moça com uma evidente aversão.
Killian ficou boquiaberto com a mulher a sua frente, pois nunca vira ninguém como ela antes. A mulher tinha cabelos loiros desgrenhados, com alguns dreads, emoldurando seu rosto fino e um pouco bronzeado, seu único olho à vista era azul, exatamente como o de Cornélia, pois o outro estava coberto por um tapa olho marrom. Ela trajava roupas parecidas com as da ruiva, porém mais excêntricas, com intuito de se destacar na multidão, além de um pomposo chapéu de capitão com uma enorme pena negra que pendia para o lado. Ela tinha um sorriso maligno brincando em seus lábios ao encarar o trio.
— Você está acabada… — ela olhou a primeira imediata de cima a baixo.
— E você está sem um olho. — Cornélia devolveu no mesmo tom — Oh! Quase esqueci que eu mesma o arranquei no nosso último encontro.
— O que é um olho perto de tudo que eu já arranquei de você, querida? — a loira nem pareceu se abalar — Sabe, notícias correm rápido… Chegou aos meus ouvidos que o precioso navio do Barba Negra está aos pedaços. Uma pena, sempre soube que aquele tronco flutuante não servia de nada. Estão presos aqui?
— Seja lá o que você ouviu, não me parece muito correto! E o que você está fazendo aqui? Apesar de que eu sei que se sente em casa em lugares desprezíveis como esse.
Killian finalmente lembrou como fechar a boca quando notou um grupo de piratas os cercando, Lady Elisa se encolheu atrás de Cornélia e ele levou sua mão até o cabo de sua espada, em alerta para qualquer ataque.
— Estava só de passagem, não esperava encontrar você e sua escória por aqui… E não precisa ficar atacada, eu não estou com paciência para a ladainha que você chama de duelo. — Delilah deu alguns passos despreocupados para frente — Mas me diga… Quem é esse jovem ao seu lado?
— Ninguém. — Cornélia franziu o cenho.
— Ele não parece ninguém. — a jovem olhou Killian de cima a baixo — Não se veste como ninguém e com certeza não estaria a acompanhando se fosse um ninguém.
— Desde quando você se interessa na minha tripulação? — a ruiva tomou a frente do cozinheiro antes que Delilah se aproximasse ainda mais.
— Sua tripulação? — ela riu — Seu desespero em alcançar o que eu tenho é hilário, Cornélia. Pode fingir que manda naquele navio o quanto quiser, mas você não é como eu, uma capitã. E tenho certeza que quando o velho Barba Negra passar o comando, não será para a besta que tem como filha, será para um homem.
E aquilo foi a gota d’água. O rosto de Cornélia se transfigurou numa máscara de pura revolta e ela partiu para cima de Delilah com as próprias mãos diretamente no pescoço. Lady Elisa deu um gritinho quando as duas começaram a se atracar no chão. Killian passou a se perguntar se deveria apartar a briga ou ajudar Cornélia, mas ao constatar que nem mesmo a tripulação da oponente parecia preocupada, ele decidiu ficar quieto.
— FAÇA ALGUMA COISA, SENHOR JONES! — Lady Elisa começou a pular no lugar — Elas vão se matar!
— Por que eu? Nem sei o que está acontecendo!
As duas mulheres rolavam no chão se estapeando e puxando uma o cabelo da outra, era bizarro. Principalmente para o jovem cozinheiro que vira Cornélia dar cabo de vários homens armados com a destreza de um soldado altamente treinado, vê-la aos tapas com alguém passava do rídiculo.
Quando a ruiva conseguiu dominar Delilah, sentada em cima da moça, gritando que arrancaria seu outro olho e enfiaria na garganta dela à força, Killian aproveitou para tirá-la de lá, a erguendo pela cintura enquanto a mesma se debatia para tentar alcançar a rival.
— O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? EU VOU TE MATAR TAMBÉM SE NÃO ME COLOCAR NO CHÃO AGORA! — ela começou a espernear — SEU DESGRAÇADO! ME LARGUE!
Delilah levantou com um pouco de dificuldade, limpando o pouco de sangue que tinha no rosto devido à um agressivo arranhão que Cornélia fizera.
— Nos vemos em outro dia! — ela acenou teatralmente para os três — Adeus, Cornélia! E adeus, cachorrinho de estimação e jovem bonitão.
Delilah girou na ponta dos pés e saiu marchando na direção oposta da ilha, seguida pela horda de marujos.
— PODE TER CERTEZA QUE EU TE VEREI, SUA VACA! PORQUE EU VOU RASGAR A SUA CARA INTEIRINHA, SUA FILHA DA PUTA DESALMADA! — Cornélia gritava em plenos pulmões ainda nos braços de Killian.
Só depois de muitos segundos ainda ofegante que a ruiva notou que o cozinheiro ainda a agarrava, ela o empurrou para trás com brutalidade e conseguiu se livrar.
— Cornélia, você está… — Lady Elisa tentou se aproximar, mas a ruiva já tinha partido em direção ao navio.
— O que foi isso que eu presenciei agora pouco? – Killian seguiu Lady Elisa de volta ao navio – Quem era aquela?
— Me desculpe, Killian, mas o assunto não diz respeito a mim. – ela o olhou com pesar – E nem adianta perguntar aos outros marujos. Nenhum vai dizer nada. Só quem pode te explicar é o capitão ou a senhorita Cornélia, porque isso é problema dos dois.
— Mas a Cornélia não vai me falar nada! – ele jogou os braços para cima enquanto subiam a rampa do navio – E duvido que o capitão fale também. Eu só quero saber quem é essa tal de Delilah e porque ela consegue provocar a Cornélia daquele jeito.
— Sinto muito. Eu não vou falar. – Elisa deu de ombros e foi em direção à sua cabine, deixando o pirata contrariado no meio do convés.
Killian repassou o recado do capitão e contou o que aconteceu, a reação preocupada e contrariada da tripulação o deixou ainda mais curioso, mas como Lady Elisa o avisara, ninguém disse nada.
Quando todos saíram para entregar a mercadoria que o capitão pediu, o cozinheiro decidiu descobrir as coisas do modo mais óbvio e perigoso, perguntando à principal envolvida na história. Cornélia estava sentada próximo ao leme, afiando uma de suas espadas sem parar, porém com o olhar perdido, como se sua mente não estivesse ali. Ele respirou fundo e foi até ela.
— Eu acho que não vai demorar muito até você conseguir sumir com a lâmina... – ele comentou, chamando sua atenção – Se esse for seu objetivo, é claro.
A Primeira Imediata foi puxada para a realidade e o encarou com indiferença enquanto ele puxava um caixote para sentar ao seu lado.
— O que você quer?
— Calma! – ele ergueu as mãos – Eu só queria conversar.
— Não estou com paciência para suas gracinhas hoje, Jones. – ela voltou a afiar a lâmina que já estava no nível de cortar qualquer coisa que ao menos encostasse.
— Eu só queria saber mais sobre aquela loira gostosa... – ele foi interrompido pelo olhar mortal que Cornélia o lançou e tratou logo de se redimir – E que claramente é uma pessoa horrível, asquerosa...
— Poupe sua saliva. – ela estreitou o olhar na direção dele – E eu não quero falar sobre aquela filha da puta desgraçada.
— Tão delicada... – Killian apoiou o queixo em uma mão, fingindo não ligar para a revolta da moça – Imagino o que ela fez de tão ruim para conseguir o seu ódio e de todo o resto da tripulação, deve ter sido algo grande.
— Qual parte de “eu não quero falar sobre aquela filha da puta desgraçada” você não entendeu? – Cornélia se levantou, guardou a espada na bainha e se virou para sair de perto dele, mas Killian a segurou pelo pulso.
A garota olhou na direção do toque dele como se um escorpião tivesse picado o local e puxou o braço imediatamente.
— Desculpe. – ele falou rapidamente, notando que seu gesto não foi nem um pouco bem visto pela ruiva – Desculpe! Eu só queria entender...
— Se me segurar assim novamente, vai perder a outra mão... Ou pior. – ela o alertou e sentou novamente ao seu lado – Bom, já que faz tanta questão de saber, acho bom que esteja preparado, porque a história é longa.
— Vá em frente.
— Para começo de conversa, a criatura que você viu lá é minha meia-irmã.
— Hã? – Killian fez uma careta de choque misturado com desentendimento.
— Por parte de pai. – Cornélia prosseguiu – O senhor Barba Negra engravidou a mãe dela em uma de suas noitadas, mas é meio óbvio que não quis assumir a criança, porque o verdadeiro amor dele sempre foi a minha mãe. Que, só para explicar, ele conheceu logo em seguida.
“Até onde eu sei, a mãe da Delilah era uma prostituta. Ela cresceu do pior modo possível, ouvindo tudo de ruim sobre o meu pai. Tem um ódio por ele que foi alimentado desde sempre. Eu não sei se culpo a mãe dela, porque o que ele fez foi péssimo. Por mais que eu o respeite, meu pai está longe de ser, no mínimo, correto. Enfim, com as péssimas condições de vida, a mulher não durou muito, morreu quando Delilah ainda era criança. E isso a deixou completamente maluca, com sede de vingança… Ela é imparável.
O que ela disse lá é verdade, eu tirei um olho dela, mas o que ela me tirou foi muito maior… — Cornélia desviou o olhar — E isso eu nunca vou conseguir vingar o suficiente.
Quando Delilah deixou de ser uma criança surtada e passou a ser uma adolescente maníaca, ela atingiu um nível de crueldade que eu nunca tinha presenciado até então… E nunca cheguei a presenciar novamente, nem nunca chegarei, eu tenho certeza.
Por um acaso, nós fomos obrigados a aportar na vila em que ela vivia. Enquanto meu pai ia fazer seus negócios, como sempre, minha mãe e eu descemos para irmos comprar algumas coisas na feira local. Eu odiava ser arrastada para feiras ou para comprar roupas, mas apreciava os momentos em terra firme na companhia da minha mãe. E na volta para o navio, assim que colocamos nossos pés no cais, lá estava ela. Em toda sua insanidade, portando uma espada e muito ódio.
Minha mãe se colocou à minha frente de modo defensivo, eu não vi como aconteceu, mas ouvi Delilah gritar e se aproximar correndo. Minha mãe foi rápida e conseguiu segurar os braços dela, a empurrando para longe de mim. Delilah era só uma menina, fraca… Mas era habilidosa e uma sobrevivente, investiu ataques contra minha mãe incansavelmente, enquanto ela só tinha a opção de desviar e a levar para o mais longe possível de mim. Eu entrei em pânico, olhava ao redor mas não havia ninguém. Eu gritei por socorro, na esperança de que alguém que passasse ouvisse e viesse nos ajudar. Mas é óbvio que isso não aconteceu. Ninguém corre para salvar uma mulher em perigo…
Eu assisti, impotente, minha mãe tentar se livrar da criatura possuída de todas as formas. E então, aconteceu. Delilah cortou seu pescoço com um golpe certeiro.
Eu assisti minha mãe agonizar, seu corpo tombar ao chão enquanto seu sangue se espalhava pelo cais e eu não pude fazer nada, porque eu era uma criança indefesa. E como se isso não fosse o suficiente para aquela besta, ela separou a cabeça da minha mãe do corpo com mais golpes, a levantou pelos cabelos e trouxe até mim.
Ela praticamente empurrou a cabeça contra o meu peito e, em choque, eu a segurei em minhas mãos.
Até o momento em que os marujos apareceram, em seguida o meu pai, eu estive segurando a cabeça da minha mãe morta.”
— Cornélia… — Killian finalmente falou, ele estava boquiaberto com a história dolorosa da ruiva — Eu sinto muito…
— Hum… — a imediata baixou o olhar, engolindo sua dor como podia — E foi assim que tudo começou, basicamente. Ela não ficou satisfeita em tirar o amor da vida do meu pai, ela queria me tirar também. Mas a altura em que nos encontramos novamente, eu já estava preparada e ela não esperava. Foram muitos encontros sangrentos ao longo dos anos e eu não sei até onde iremos.
Killian não sabia mais o que dizer. Ele esperava muitas coisas, mas com certeza não aquilo. Cornélia o encarou por um bom momento, um momento em que ela quase fraquejou ao notar o olhar de compaixão que o cozinheiro a lançava. Poucas pessoas no mundo a olharam daquele modo, podia contar em apenas uma mão todas que o fizeram e ainda sobraria dedos.
— Como ela se tornou capitã? — ele questionou num tom baixo, como se não quisesse quebrar o clima que fora criado entre os dois.
— Eu não sei… Ninguém sabe, na verdade. — ela deu de ombros — Do dia para a noite ela surgiu com um navio e uma tripulação.
Barba Negra vinha cantarolando uma canção de pirata e parou ao ouvir a última sentença.
— Quem surgiu do dia para noite com um navio? — questionou, olhando de um para o outro.
— Sua bastarda — Cornélia se ergueu, ligeiramente furiosa. Parecia querer socar o pai apenas pelo fato de ele ter colaborado em colocar tal criatura como Delilah no mundo.
— Ah, Delilah, você diz…
A ruiva estreitou os olhos.
— Há outras bastardas que não são de meu conhecimento?
— Ah, não. Não que eu saiba… — e tratou de acrescentar, vendo a expressão desconfiada da filha — Quero dizer, eu não andei me esfregando a meio mundo, como certas pessoas… Jovem Jones está a par das animosidades, imagino.
— Sim, senhor. Não que seja da minha conta, é claro — apressou-se em dizer o cozinheiro -, mas nosso recente encontro com Delilah me deixou com a pulga atrás da orelha.
— Ora, pois não pense muito nisso, meu jovem! — Barba deu dois tapas nas costas do rapaz, que quase o desmontaram, e seguiu em direção à sua cabine tranquilamente.
Killian voltou sua atenção para onde Cornélia estava sentada antes, mas ela já saíra de seu lugar. A ruiva focou em gritar com os marujos que traziam os materiais necessários para o conserto final do navio, porque entre desabafar e dar ordens, era meio óbvio no que ela era melhor.
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