Orquídea Vermelha
3 Don't Shoot! It's a Woman!
Notas iniciais

A cada dia que passava, mais o descontentamento de Cornélia aumentava. Ela ainda não estava crendo que Killian estava vivendo no navio e quase deu um ataque ao saber que seu pai o deu uma cabine individual, pois aquilo só confirmava que ele estava ali para ser qualquer coisa, menos um simples membro da tripulação.
Porém, uma coisa a surpreendeu. O rapaz realmente era um excelente cozinheiro, nem mesmo ela podia negar. Os marujos estavam mais do que satisfeitos com a mudança, o consideravam quase um santo milagreiro por conseguir fazer ótimas refeições com os mais básicos ingredientes que tinham, até mesmo o velho Floyd, que fora substituído sem mais nem menos, estava de bem com a vida, curtindo sua “aposentadoria” e fazendo poucos serviços apenas para não ficar à toa.
— Eu ainda não estou acreditando nisso! – Cornélia resmungou, apoiada no leme, observando Killian conversando com Smee do outro lado do navio. Seu tom já deixava claro qual era o assunto, mas mesmo assim ela prosseguiu – Olha só aquela palhaçada! Vestido como um bruxo viciado em couro! Usando um gancho no lugar da mão, claramente implorando para ser chamado de aberração!
— Sem falar no delineador... – Lady Elisa, que estava em seu lugar de sempre, tricotando, comentou num sussurro que Cornélia ouviu mesmo assim.
— Exato! Tentando me empurrar um homem que usa mais maquiagem do que eu!
— Mas a senhorita não usa maquiagem alguma! – Lady Elisa a encarou, franzindo o cenho.
— Isso não vem ao caso. – Cornélia a cortou antes que o assunto “se parecer com uma dama” entrasse em pauta – Ele não deveria estar aqui! Meu pai está indo longe demais com essa história.
E Barba Negra não podia estar mais aliviado. Sentia uma esperança tão grande no jovem Killian que andava de bom humor para todos os lados. Nem mesmo a persistente carranca de Cornélia o afetava.
— Acordou de bom humor, eh? – riu-se Smee, quando Barba passou por ele assobiando uma canção marítima.
— Naturalmente, Smee. – sorriu o outro, as mãos enlaçadas atrás das costas – Me encantam as manhãs de domingo, como o sabe. Vê-la o sol a esticar-se preguiçosamente por trás das colinas. Pois o mesmo farei, estando em dia de ócio. O jovem Jones já dispôs o desjejum à mesa?
— Já sim, Capitão. Estive mesmo a conversar com o rapaz, pouco antes de sua chegada. O garoto se mostrou preocupado ante a resistência de Cornélia.
— Ora, pois direi lhe que não se preocupe – o Capitão enrolava a comprida e volumosa barba com o indicador, um olhar perdido na distância do horizonte – É certo que Cornélia aos poucos cederá ao charme do jovem Jones.
— Se tu dizes, Capitão... – Smee enrolara um cigarro de palha, que fumava entre tossidas – Em todo caso, me alivia o fato de termos um domingo de tranquilidade, para variar.
Era fato inegável que uma tripulação pirata pouco se dava ao luxo de domingos de pura recreação e ócio. A tempestuosidade e imprevisibilidade da vida em alto mar pouco lhes autorizava momentos de lazer. Claro, em parte, Cornélia também era uma contribuição, já que seu comportamento explosivo sempre era palco de escândalos envolvendo marujos.
Naquele dia em particular, no entanto, as velas se agitavam debilmente ante a brisa morna que percorria o mórbido navio. A manhã se arrastava tediosamente, conforme a embarcação deslizava por águas azul-turquesa. Menos da metade da tripulação se encontrava desperta e Cornélia, endiabrada como de costume, cogitava acordar os marujos dorminhocos com toques de sineta, de modo a colocá-los alarmados. Brincadeira a que Lady Elisa se opunha, uma vez que, ela mesma, encontrava-se em ar de exaustão; aparentava não ter dormido a noite inteira, o que era bastante vísivel por seu olhar cansado.
— Já disse-lhe que mal preguei os olhos... – explicava ela a Cornélia, que ainda lhe lançava olhares desconfiados toda vez que abria a boca num bocejo – Sinto-me como se tivesse dormido sobre o chão puro.
— Ai, Elisa, vai ver é você a princesa da história da ervilha. Eu sequer me surpreenderia se um grão de arroz lhe tirasse o sono – riu a ruiva, em tom debochado – Em todo caso, devia cogitar dormir mais cedo. Afinal, de quantas toalhas a sua casa de boneca precisa?
Referia-se, naturalmente, ao incessante tricô que Elisa nunca findava. Estava mesmo a desconfiar que a moça usasse a história das agulhas como desculpa. Só não sabia para o quê.
— Eu não tenho uma casa para a qual tricotar toalhas, ou mesmo um marido para o qual fazer meias, mas em breve a senhorita será desposada, de modo que me propus a preparar-lhe o enxoval.
A reação de Cornélia, obviamente, foi das mais explosivas. Contorcendo o rosto já vermelho numa expressão de desgosto, berrou para a pobre Elisa.
— Ora, pois cale-se, estúpida! Não ouse repetir tal afronta diante de minha pessoa!
— Pois que mal há em perder-se em devaneios? – respondeu a outra, sem abalar-se – Bem sei que meus pensamentos são demasiado fantasiosos, mas nada me impede de imaginar a senhorita bem casada e rodeada de uma porção de filhos.
— Vou lhe enfiar esta espada na garganta se não calar-se! Que tipo de pensamento aquelas freiras lhe botaram na cabeça? Se a vida de tola servil lhe apetece, pois que vá vivê-la bem longe de mim!
Elisa ria marotamente, julgando prudente afastar-se da ruiva.
— Estou apenas brincando, bobinha! Não a imagino neste tipo de vida, obviamente.
— Agora estou curiosa... – Cornélia se virou para sua dama de companhia – Em que tipo de vida me imagina?
— Sendo bem sincera, te imagino sendo capitã de um navio só com mulheres. Com alguns homens fazendo serviços de limpeza! – Elisa começou a se empolgar com as possibilidades fantasiosas no futuro de Cornélia – E navegando por aí, resgatando jovens desamparadas e que sofreram abusos e injustiças, as tornando parte da tripulação. E sem um marido, porque a senhorita se cansaria rápido dele, talvez com algum animal de estimação, para não se sentir solitária e...
Ao perceber o sorriso com tom de descrença no rosto de Cornélia, Lady Elisa parou de falar imediatamente, pigarreando e retomando seu crochê.
— O que houve? Estava divertido! – a ruiva riu suavemente – Não sabia que tinha imaginação na sua cabeça, achei que a lavagem cerebral feita pelas freiras tinha retirado essa parte.
— Eu me exaltei. – Lady Elisa falou simplesmente – E essa vida é incabível. A senhorita precisa se casar... E o Killian é um ótimo partido.
— Então case você com ele! – Cornélia cuspiu as palavras e retomou a direção do navio – Nem o conhece direito para estar...
— NAVIO INIMIGO À BOMBORDO! – Smee gritou repentinamente, correndo pelo convés com uma luneta na mão e segurando seu gorro com a outra – ACORDEM O RESTO DA TRIPULAÇÃO!
Cornélia pegou sua própria luneta e olhou na direção do navio que se aproximava rapidamente pelo horizonte. Ele parecia ter o mesmo porte do Queen Ann e a tripulação parecia agitada, provavelmente se preparando para o ataque.
— Venha, Elisa. – ela puxou a dama de companhia pelo braço em direção à sua cabine.
O capitão já gritava ordens por todos os lados, os marujos que haviam sido acordados estavam correndo aos tropeços, sem muita noção do que estava acontecendo, pelo convés.
— PREPAREM OS CANHÕES! – Cornélia gritou antes de empurrar Lady Elisa para dentro da cabine, então se voltou para a moça – Já sabe o que fazer, quando eu sair, empurre a mesa na frente da porta e se esconda embaixo da cama.
— Sim, eu sei... – Elisa assentiu rapidamente, já ficando amedrontada – Tome cuidado, senhorita!
Cornélia não respondeu, apenas fechou a porta da cabine imediatamente e voltou para a parte alta do convés. Barba Negra tinha assumido o leme e Smee berrava ordens enquanto corria pelo meio dos marujos que carregavam barris de pólvora para o andar de baixo. Ela usou uma das cordas das velas para subir no ponto mais alto próximo ao mastro principal e começou a organizar a baderna.
— Eu quero dez homens aqui em cima comigo, armados até os dentes! – apontou para um grupo que estava à direita, distribuindo armas – Dois em cada canhão principal e cinco para continuar levando munição sem parar! PREPAREM-SE AGORA!
Os marujos obedeciam prontamente. Por mais que eles criticassem e não concordassem com Cornélia, sabiam que nesses momentos, ela era uma líder melhor que o próprio capitão.
— Senhorita, devemos invadir o navio deles se chegarem a se aproximar? – Smee questionou.
— Com certeza! – ela assentiu prontamente.
Ela viu Killian pegando as armas para se juntar ao grupo que ficaria com ela no andar de cima e revirou os olhos. Mas a possibilidade de que ele morresse ali a deixou um pouco mais conformada.
Enquanto os marujos corriam para todos os lados, carregando armas e munições, Barba Negra gritava ordens desconexas para o nada e Smee disparava frases religiosas retiradas da Bíblia, Cornélia foi até o ponto mais alto do navio e pegou sua luneta para observar os inimigos novamente.
— Cornélia! — Barba a chamou — O que está vendo?
— Não são piratas! — ela deu um meio sorriso e gritou de volta para o pai, que arreganhou a boca numa risada assustadora.
— PREPAREM OS PAVIOS! — berrou, ao mesmo tempo em que deslizava rapidamente pelo convés, livrando-se do excesso de vestimenta que usava.
Cornélia agarrou-se numa das cordas e desceu novamente para o convés, marchando determinada em direção ao leme para pegar suas armas, notando novamente o jovem Killian parado no meio da confusão.
— E você, palerma maneta, vai ficar aí só olhando?
— O que ele quis dizer com pavios? São os dos canhões, certo? — Killian questionou ao notar que o capitão sumiu dentro de sua cabine.
— Claro… — Cornélia deu um sorriso maroto e voltou ao que estava fazendo.
Nesse meio tempo, o navio opositor se deslocara a bombordo, suas velas se enfunando com a forte rajada que impulsionava a embarcação. De testa franzida, Cornélia estava atenta à movimentação inimiga. Quase sem respirar, a ruiva aguardava ansiosa o momento de anunciar, em altos brados, a autorização para o ataque.
— Vejo movimentação no convés! — gritou para a tripulação, um olho grudado à luneta — Preparem-se!
— Senhorita, estão preparando os canhões! — Smee gritou de volta, ele próprio munido de sua luneta — Talvez seja apropriado atacarmos antecipadamente.
— Não! Não se mexam! Fique onde está, urubu inconveniente!
— Eu sequer me movi! — retrucou Killian.
— Senhorita! — esganiçou-se Smee, em ar de súplica — Se não autorizar o ataque eu o autorizarei.
O antagonista, agora podiam ver com clareza, se tratava de um navio mercantil de bandeira colorida. Não fosse a movimentação anormal de seus tripulantes, julgaria-se que se tratava de uma embarcação sacra: pelo menos cinco padres entoavam cânticos e orações — em latim perfeitamente audível — feito sacerdotes em missão de catequização.
— Quase tenho pena desses coitados… — alguém comentou baixinho, ao que Cornélia gargalhou.
— Senhorita! — insistiu Smee, desta vez com mais firmeza — Anuncie o ataque!
Pareados, os navios agora navegavam em mesma direção. O inimigo — apesar de tão robusto quanto o Queen Ann — se encontrava em vantagem, talvez em razão do intermitente vozerio dos padres, que pareciam suplicar a Deus que intercedesse por suas vidas. Por um momento, esperaram que o adversário não fosse comprar briga. A expressão confiante de Cornélia desapareceu, ela própria acreditando que a pureza de espírito dos sacerdotes tivesse refreado o furioso desejo de sangue do inimigo.
— Senhorita! — tornou a dizer Smee, incomodando-se ante a hesitação da Primeira Imediata — Estão blefando! Anuncie o ataque!
— Essa guerra está perdida! Estão navegando a todo pano, desperdiçaremos munição!
— De forma alguma! — opinou Killian — Se atacarmos neste exato instante há chances de atingirmos a popa da embarcação.
— É uma embarcação religiosa — retrucou Cornélia — Não vale o esforço!
— Arte sacra é feita de metais valiosos, senhorita. Eu digo que vale a pena!
— Cale-se! Retire-se à cozinha que é o seu lugar!
— SENHORITA!
Do outro navio, uma voz retumbante berrara ordem de fogo. Um ruído colossal seguiu o clarão de três projéteis que zuniram pelo ar em direção ao Queen Ann. Dois passaram de raspão pelo navio, enquanto o terceiro despedaçou metade do mastro principal. Um estrondo abalou o convés quando a pesada madeira desabou bem no lugar em que se encontrava Killian. Agarrando-se ao leme para manter o equilíbrio, Cornélia se viu com a esperança de que o rapaz tivesse também se despedaçado.
— CORNÉLIA! — berrou Smee, lutando para livrar-se da confusão de panos em que se metera quando as velas despencaram junto ao mastro — ANUNCIE O ATAQUE!
— Ainda não! — berrou ela, manobrando o leme com destreza.
Três outros canhões rugiram e, somados a isso, tiros zuniram pelo ar. Berrando como condenado, Smee fez menção de contradizer a Primeira Imediata, mas ela própria já estava berrando:
— FOOOO...
— O CAPITÃO AINDA NÃO SE APRONTOU!
— Esperem aí, falta um pavio! — Barba Negra berrou da cabine, com a tranquilidade de uma noiva que esquecera o buquê.
Erguendo-se de um amontoado de tecido e farpas de madeira, o jovem Killian desfilava o olhar entre uma coisa e outra, tão desorientado que sequer teve a precaução de procurar cobertura contra as balas que cortavam o ar. Marujos desabavam, feridos, enquanto Smee berrava com os tripulantes exigindo ação; eles, no entanto, apenas obedeciam às ordens da Primeira Imediata, sendo ela a pessoa mais estratégica no comando.
— CORNÉLIA!
— CAPITÃO!
— IN NOMINI PATRIS…
— Pavio desgraçado!
Em meios ao estardalhaço de gritos de pavor, explosões contínuas e extermínio em massa, eis que a porta da cabine se abriu com um impacto quase inaudível. Barba Negra surgiu, derrapando ante a velocidade com que marchara porta afora.
— Agora sim, anuncie… MAS O QUE ACONTECEU COM MEU NAVIO?
O jovem Killian, desviando a atenção para a chegada do famigerado capitão, arreganhou a boca ao deparar-se com uma visão no mínimo perturbadora: a vasta barba do homem fumegava, com vários pavios enrolados e acesos parecendo pequenas bombinhas com faíscas para todos os lados.
— A CARA DO CAPITÃO ESTÁ PEGANDO FOGO! — Killian gritou em desespero, correndo até o capitão.
— Ah, cale-se! — Cornélia atirou uma garrafa de rum na direção do marujo, mas por sorte do coitado, ela se espatifou em seus pés — FOOOGO!
Poucos segundos depois, o som de cinco canhões sendo disparados simultaneamente acompanhados por um tremor que abalou o navio todo. O capitão sacou sua própria luneta para acompanhar o estrago no navio inimigo, haviam acertado dois mastros menores e pego de raspão na parte frontal da embarcação.
— FOGO! — a ruiva ordenou novamente e mais cinco projéteis foram disparados — Smee, prepare os marujos, vamos nos aproximar e invadir!
— Sim, senhorita! — o segundo imediato passou a distribuir novas ordens entre os homens que permaneciam no convés.
— Capitão… — ela se virou na direção do pai, mas o mesmo já estava no leme, colocando o Queen Ann no rumo correto.
— Eu já sei! — ele encarou a filha com um olhar de cumplicidade — Você invade e eu afundo o navio.
Cornélia assentiu tentando conter o sorriso, ela sentia um calor dentro de seu coração em momentos como esse com seu pai.
Killian continuava se sentindo deslocado naquele lugar, nunca estivera num navio que funcionasse daquele jeito. Aliás, desde o momento em que encontrou com Barba Negra no bar, a realidade se moldou de outra forma; fora capturado para ser forçado a casar com uma mulher que mais parecia ser regida pelo próprio capeta de tão bonita e impossível que era, se tornou cozinheiro mas vivia como autoridade no navio, tinha que lidar com o capitão mais louco que já navegou pelos mares e integrar-se numa tripulação que obedecia às ordens da mesma mulher encapetada. O jovem se perguntava a que ponto de sua vida havia chegado.
— Jovem Killian! — Smee surgiu na frente dele, o tirando de seus pensamentos — Você pretende participar da invasão?
— Eu… — Killian notou que, apesar de estar dando ordens de disparo, Cornélia estava atenta à suas ações — Vou participar da invasão, claro.
— Então mexa-se! — Smee berrou e empurrou uma espingarda contra o peito do homem, o fazendo perder o fôlego momentaneamente.
Diante de vários disparos e muito estrago em ambas embarcações, finalmente conseguiram se aproximar. Os marujos que estavam gravemente feridos foram levados para o andar de baixo e os que ainda se sentiam capazes de lutar permaneceram em formação, aguardando mais ordens da Primeira Imediata.
— Preparem as pranchas. — ela coordenou enquanto andava pela borda do navio com uma espada numa mão e agarrada com uma corda na outra — Já conhecem o esquema e o sinal de ataque!
Assim que o navio inimigo ficou paralelo, a tripulação ficou em choque ao ver Cornélia. Todos os homens estavam com suas armas em riste, apontando para ela, porém pareciam incertos e murmuravam entre si perguntando o que deveriam fazer, até mesmo os padres cantantes se calaram.
— Não atirem! É uma mulher! — a autoridade máxima deles ordenou, se metendo entre a tripulação para se aproximar — NÃO ATIREM!
Cornélia guardou a espada que estava na sua mão na bainha dupla em suas costas, ela notou que os inimigos não eram capazes de ver sua tripulação uma vez que a borda do Queen Ann era levemente mais alta que a deles e decidiu tirar vantagem daquela situação.
— Oh, senhores! — ela acenou, com uma falsa expressão de desespero — Por favor!
— A senhorita está machucada? Foi feita refém? — o capitão questionou e muitos dos homens baixaram a guarda — Há mais sobreviventes aí?
— Não, senhor… — ela colocou a mão no peito, ainda dramaticamente — Só estou horrorizada com tamanha burrice de sua parte em se deixar levar pela conversa de uma dama indefesa.
E assim que ela deu ênfase na última palavra, dezenas de homens pendurados em cordas se lançaram contra a embarcação ao mesmo tempo em que pranchas eram erguidas e colocadas como passagem de um navio para o outro. Em meios aos gritos de ataque, os homens de Barba Negra invadiram com selvageria, aproveitando-se da surpresa dos outros que começaram a disparar tiros cegos em desespero.
Cornélia tomou impulso para saltar graciosamente até o outro lado do navio inimigo pendurada pela corda em que esteve agarrada. Ela aterrissou no meio da briga de cinco contra dois de seus marujos já sacando suas duas espadas. Os homens se surpreenderam e ela aproveitou o choque deles para atacá-los.
Ela deu um chute no peito do que estava mais próximo e desarmou um que ficou parado ao lado com cara de idiota. Então deu uma cotovelada no nariz de outro que tentou imobilizá-la por trás e enfiou uma das espadas no ombro do que acabara de desarmar.
Killian finalmente conseguiu atravessar para o navio inimigo e começou a caçar Cornélia com o olhar, preocupado que ela tivesse sido capturada. Mas quando ele finalmente a localizou, só conseguiu ficar embasbacado com a cena.
Cornélia se movia tão rápido na luta contra os cinco homens que parecia um borrão ruivo. Os dois marujos do Barba que estavam encurralados ficavam olhando sem saber exatamente o que fazer, visto que seus oponentes estavam bastante concentrados em derrubar a filha do Capitão.
Depois que ela já havia matado dois, um dos homens que ainda estava de pé, num golpe de sorte, acertou um soco na boca de Cornélia. Ela cambaleou para trás e outro aproveitou para dar um chute em seu estômago, a fazendo cair no chão.
Killian saiu de seu estado de deslumbramento e foi o mais rápido que pôde até o local. Ele conseguiu segurar com seu gancho a lâmina do homem antes que atingisse em cheio o crânio de Cornélia e enfiou sua espada no pescoço dele.
Os dois marujos do Barba foram dar conta dos dois que sobraram e Killian ofereceu uma mão para Cornélia se levantar.
— Você está bem?
— Claro que sim... – ela levantou sozinha, ignorando sua ajuda e limpando o sangue que escorria de seus lábios.
— Cuidado, filho! — gritou Barba para Killian, quando um oponente se aproximou deste.
Girando nos calcanhares, o rapaz bloqueou o ataque da lâmina, que por pouco não lhe alcançou o pescoço. Utilizando o gancho em sua vantagem, rasgou a garganta do inimigo, um homem robusto que mais parecia um armário. Outro adversário veio vingar o primeiro, lançando-se sobre o rapaz, que por instinto desviou antes do impacto entre os corpos. Imóvel, Cornélia arqueou uma sobrancelha para o momento em que Killian acertou o oponente com um soco na mandíbula; parecia esperar que ele fosse ceder ante a pressão de defender a própria vida, padecendo nas mãos do inimigo. Não foi o que aconteceu…
Atracando-se ao homem, o jovem Killian o empurrou com uma força que derrubou três outros tripulantes. Socando-o contra um dos mastros da embarcação, o rapaz agarrou uma das cordas que pendiam do mesmo e com ela envolveu o pescoço do adversário, sufocando-o com destreza, ao mesmo tempo em que lhe enfiava o gancho no coração. Comprimindo os lábios, Cornélia ainda observou o pretendente derrubar dois outros marujos, tão furiosa que sua cara queimava em rubor.
— Cornélia, não fique aí parada! — Smee cambaleou ao lado da moça, coberto de suor e sangue — Seu instinto sexual pode esperar até que estejam a sós num cenário menos caótico.
Reagindo, Cornélia ruborizou ainda mais, desta vez por vergonha.
— Cale-se, verme! Arrombem a cabine, o que estão esperando?
Enquanto isso, os devotos sacerdotes iam desabando, um a um, incapazes de lutarem por suas vidas. Um deles tivera metade das pernas decepada numa explosão e se arrastava convés afora tentando alcançar a Bíblia que voara de suas mãos. Chutando o livro para longe, Killian se abaixou junto a cabeça do padre, que, desesperado, desatou a murmurar a oração do Pai Nosso.
— Ora, não se preocupe — o rapaz alisou o cabelo ralo do idoso que sangrava — agora você vai se sentar à cabeceira de Deus Pai Todo Poderoso — e lhe enfiou a espada na garganta.
Smee e três outros marujos acabavam de arrombar a cabine do capitão, na qual, como previra Cornélia, se encontrava toda a riqueza que ele tentara proteger. Ordenando para que agarrassem tudo o que pudessem carregar, Cornélia foi surpreendida pela aparição de um padre negro que abraçava um pequeno baú. Arregalando os olhos, o homem estava com expressão de quem ia se borrar a qualquer momento; ajoelhando-se diante da moça, largou o baú aos seus pés e juntou as palmas das mãos em sinal de clemência, implorando para que ela lhe poupasse a vida.
— Não seria um terrível pecado matarmos um homem de Deus? — perguntou um dos marujos à Primeira Imediata, que parecia decidir-se quanto a poupar-lhe a vida ou gerar um cadáver.
— Deus provê bons frutos aos puros de coração — argumentou o padre, lacrimejando.
— Que tem aí no baú? — Cornélia arqueou a sobrancelha, empurrando o baú com o pé em direção ao homem.
— Fundos para a construção da Paróquia de Nossa Senhora do Consolo — respondeu o padre, revelando uma enorme quantidade de moedas de ouro dentro do baú — Nosso Capitão é devoto e mandou erguer a Paróquia no Morro Aleluia como pagamento a uma graça alcançada.
— Hum, senhorita — pigarreou Smee, coçando a barba curta — talvez fosse prudente poupar a vida do homem. Eu quero dizer… não devíamos sujar as mãos com sangue sagrado…
— Sim, senhorita — argumentou um marujo — seria um terrível pecado! Deixe o bom homem prosseguir sua missão divina.
— Levante-se! — ordenou Cornélia, embainhando a espada — Vamos despachá-lo na próxima parada. Smee, verifique se há mercadoria no porão. Vocês três, escoltem o padre até o navio.
A essa altura, o Queen Ann’s Revenge quase nem se parecia com um navio. Os canhões inimigos haviam aberto um rombo em sua lateral e, dos três mastros, apenas um se encontrava em perfeito estado.
A guerra se aproximava do fim, com cada vez menos marujos lutando. Barba Negra estava saindo vencedor, apesar dos danos consideráveis em sua embarcação. Ainda com a barba fumegando, ele agora provocava o Capitão adversário, que até então se esquivara de tomar parte na batalha. Quando não havia mais marujos que defendessem a sua honra, o Capitão não teve outra escolha senão enfrentar a assustadora figura que era Barba Negra. De espada em riste, aproximou-se titubeante, encarando o opositor com ar de quem ia implorar por piedade.
— Se for borrar as calças, sugiro que se alivie antes — debochou Barba, rindo em escárnio.
— Você deve ser o famigerado Capitão Barba Negra — retrucou o outro, sem afetar-se — A sua fama corre pelos Sete Mares. Devo dizer que esperava mais…
— Ora, é melhor para sua dignidade que não fique se gabando antes que eu lhe derrube da prancha.
— Prancha? — o capitão franziu o cenho, confuso.
— Sim, é onde iremos duelar, naturalmente. — Barba apontou uma das pranchas que interligava o navio — Ou tens medo de me enfrentar em tal cenário?
— Mas é claro que não! — o homem se colocou em pose de corajoso e no mesmo instante seguiu Barba Negra para uma das pranchas.
Enquanto isso, Cornélia passou um pente fino no navio, acabando com os tripulantes que sobraram e recolhendo tesouros para que seus marujos levassem para seu navio. Quando se convenceu que não tinha mais como explorar o navio, ela decidiu voltar para o Queen Ann e ordenar o ataque final para afundar aquele pedaço de madeira podre que já estava quase afundando sozinho.
Ela passou pelo pai se preparando para iniciar o duelo com o outro capitão, mas sequer ficou abalada, já o vira derrubar dezenas de oponentes em mar aberto naquela situação.
A luta que ocorria no convés do Queen Ann’s Revenge estava findando, muito sangue fora derramado ali, incluindo de alguns marujos. Dois dos tripulantes do outro navio tentaram se esgueirar em alguma cabine para ficarem escondidos até aportarem em algum lugar aleatório.
Para o tremendo azar de Lady Elisa, a cabine de Cornélia foi a escolhida. A pobre coitada estava escondida embaixo da cama, ainda segurando seu tricô com tanta força que os dedos estavam dormentes. Ela viu os pés dos invasores e prendeu a respiração, tentando ao máximo não fazer nenhum barulho. Mas o medo era tanto que ela começou a choramingar, medo não só por ela mas de não saber o que estava acontecendo do lado de fora, de não saber se Cornélia estava viva.
Os homens escutaram os fungados e choramingos baixinhos, se entreolharam e abaixaram no mesmo instante, sorrindo maliciosos ao ver Lady Elisa completamente aterrorizada.
— Olha só o que temos aqui… Não precisa ter medo, moça. — um deles ofereceu a mão para ela — Podemos te ajudar.
— Não… Se afastem… — ela murmurou, tentando se manter distante deles.
— Será que ela está com eles? — o outro perguntou — Igual aquela ruiva…
— Nesse caso… — o primeiro homem, que era mais alto e mais forte, se esticou embaixo da cama e agarrou o pulso da garota.
Lady Elisa começou a gritar e se debater, mas ela não tinha metade da força do homem, o segundo agarrou as pernas dela e juntos a puxaram de baixo da cama.
— NÃO! POR FAVOR! — ela gritou em plenos pulmões — SOCORRO! CAPITÃO! CORNÉLIA! SR. SMEE!
— Cale a boca dela… — o maior, que agora prendia os braços da jovem nas costas dela, pediu — Mas ela é realmente uma beleza…
— Se é! Aposto que é a meretriz do navio. — o outro tapou a boca de Lady Elisa enquanto a olhava de cima a baixo — Bom, seria desperdício não a usarmos para o propósito que serve.
— Com certeza.
Lady Elisa estava chorando desesperada a essa altura, pensando nos horrores que eles fariam, sem a menor chance de se defender. Por um segundo ela desejou morrer para não ter que lidar com aquilo, mas sabia que era provável que isso não acontecesse.
O homem à sua frente rasgou parte de seu vestido, o puxando pelo decote, a deixando somente com seu corpete, mais uma vez ela começou a se desesperar e a tentar se debater.
— Calminha… — o homem se aproximou e sussurrou, segurando o pescoço dela com mais força do que o necessário — Não é como se você não estivesse acostumada, certo?
Nesse momento, a porta do cabine praticamente explodiu ao ser aberta violentamente por um chute de Cornélia. Ao ver a cena, a visão da ruiva até escureceu e um ódio sem igual fez seu sangue ferver. Ela ergueu uma pistola e disparou contra o homem mais alto, atingindo a lateral da cabeça dele em cheio. Assim que o homem tombou para o lado, liberando os braços de Lady Elisa, a mesma enfiou as agulhas de tricô que ainda estavam em suas mãos nos olhos do outro.
O homem começou a gritar de dor e Lady Elisa de nojo e desespero ao ver o sangue que espirrou em si.
— Calma, Elisa… — Cornélia foi até ela, a coitada não parava de tremer e caiu sentada no chão, olhando para as próprias mãos ensanguentadas. A ruiva puxou um dos lençóis de sua cama e o passou ao redor da amiga enquanto tentava acalmá-la falando suavemente — Está tudo bem, ninguém vai te fazer mal agora.
Ainda aos prantos, a jovem escondeu o rosto contra o ombro de Cornélia, que a abraçou. Killian apareceu ofegante na porta da cabine, seguido por Smee. Ambos ouviram o tiro e os gritos e acharam que algo de errado havia acontecido, mas pararam na soleira, abismados com a cena. O homem que tivera as córneas perfuradas estava ajoelhado no canto do quarto, berrando de dor.
— Smee, jogue esse corpo no mar… — ela indicou o morto com a cabeça — E você, tente não ser inútil e o ajude.
Os dois se apressaram em cumprir as ordens, Cornélia ergueu Elisa do chão e a colocou sentada em sua cama e se virou para o agressor. Ela marchou regida pela raiva que sentia e puxou o homem pela gola de sua camisa o arrastando para fora de sua cabine com violência.
Ela não fez questão que ele andasse, queria mesmo arrastá-lo pelos escombros do convés, o homem pedia incansavelmente por misericórdia, mas ela nem o escutava. Muitos marujos assistiam a cena, alguns assombrados com a situação do homem miserável com as agulhas fincadas nos olhos.
Cornélia chegou no local onde Smee e Killian tinham acabado de descartar o corpo e jogou o homem no chão.
— O que vai fazer comigo? — o homem questionou berrando.
— Eu vou te dar o destino que merece… — ela começou a andar em volta do homem, falando em alto e bom tom — Que todos os homens como você merecem. Tratando mulheres como objetos, desrespeitando suas vontades e as agredindo de todas as formas possíveis… Vocês não passam de vermes nojentos que não merecem nada além de uma morte lenta e dolorosa.
— Mas eu não fiz nada de errado! — ele implorou — Por favor…
— Nada de errado? — ela rosnou se colocando na altura do rosto dele — Eu espero que os tubarões te devorem lentamente e que você mantenha sua consciência até o último segundo para sentir toda a dor, todo o desespero… Eu quero que você sofra.
E ao dizer isso, ela o ergueu do chão pelos braços e o empurrou contra a borda, o homem nem teve a chance de recuperar o equilíbrio, Cornélia chutou o tronco dele o jogando para fora do navio. Ouviu-se o grito diminuindo gradativamente até que o barulho de algo atingindo a água o cessasse. A ruiva nem olhou para trás, voltou marchando em direção à sua cabine.
— Capitão, pare de brincar e vamos embora! — ela gritou em direção à Barba Negra antes de sumir do convés.
Os marujos voltaram sua atenção para o duelo do capitão. Era visível que ele se divertia bloqueando os ataque óbvios do outro, que parecia já exausto. Barba Negra estava apenas o cansando, brincando com sua falta de perspicácia. Até que por fim ele viu que não valia mais a pena e passou a investir contra o pobre homem, bastou três golpes para desestabilizá-lo e mais um para feri-lo antes de jogá-lo da prancha. Os marujos comemoraram mais uma vitória de seu capitão enquanto ele voltava vangloriando-se.
No entanto, Killian olhava seriamente na direção em que Cornélia seguira, sem entender mais uma vez o que acabara de presenciar. Ela era diferente de qualquer mulher que ele conhecera, de qualquer homem, de qualquer ser humano… E aquilo o intrigava mais que tudo.
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