Orquídeas

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá novamente! Eis mais um conto. Espero que gostem.

Boa leitura. =)

“Feche os olhos.”

“Abra sua mente.”

“O que você vê?”

A voz do terapeuta soa ao mesmo tempo próxima e distante. Meus pensamentos deslizam pela minha mente como se impelidos por uma força invisível. Se deslocam de uma maneira atraente e enganosa. Sinto como se estivesse num pântano escuro e que algo se move pelas aguas. Lentamente. Hipnoticamente. A temperatura começa a cair. Meus pés começam a ficar dormentes. Viro-me em meus pensamentos. Me vejo sentando na sala de casa. Da minha antiga casa. Chove tranquilamente do lado de fora. O céu está cinza. Ela está forrada de orquídeas. De todas as cores do mundo. O cheiro infesta o ar e se adere ao meu nariz, amortecendo meu olfato.

“Vejo um lindo campo florido. Todas as flores são orquídeas.”

Balbucio mentirosamente. Não quero abrir espaço para ele entrar. Não queria estar aqui para início de conversa. A casa parece estar vazia, com exceção das flores. O silêncio é enervante. Resolvo levantar e ir para o meu quarto. Quando entro me deparo com uma cena chocante. Sangue escore pelo chão. O ar estagnado fede com um cheiro metálico e ácido. Juro que se eu não soubesse que tudo isso está na minha cabeça teria vomitado. Um corpo está deitado no sofá do quarto com sangue escorrendo pelos pulsos. Cheiro de urina também empesta o ar, juntamente com o odor de mofo e de morte. Uma tristeza sem fim mergulha minha alma. Lágrimas querem sair, mas eu as reprimo. Chorar na frente dos outros é muito feio.

“O que você está fazendo nesse campo?”

Incentiva o terapeuta com olhos esperançosos. Ele sabe que não estou em nenhum campo florido, mas se obriga a acreditar. A última coisa que ele deseja é me internar. Ele é novo no ramo e cuidar de mim no hospital foi horripilante demais para ele. Dou uma leve tossida para limpar a garganta do gosto de fel que subiu.

“Estou sentado curtindo o sol e admirando o mundo. O cheiro das orquídeas é maravilhoso.”

Quase rio do quão falsa é essa imagem. Nem se eu estivesse bem estaria “admirando o mundo num campo florido”, principalmente de orquídeas. Tenho pavor de lugares abertos e observar as pessoas e suas vidas me entristece. Como gostaria de ser como elas, ás vezes. Queria ser outra pessoas. Alguém menos insignificante. Menos problemático. Menos infeliz. Os olhos do corpo no sofá estão inexpressivos. Os quadros das paredes estão quebrados. As roupas largadas pelos cantos. Cadernos e papéis riscados por toda parte. Reprimo um soluçar. O sentimento de abandono da cena me violenta a mente. Pisco uma vez para afastar a sensação. Duas. Três.

Agora sou eu quem está deitado com os pulsos cortados no sofá, contemplando mortiçamente meu clone de pé me admirando. O olhar deste é de curiosidade e diversão, não de pena. Me desprezo tanto que minha morte não significa nada, nem para mim. A cena é tão real que dói. Não lembro quando as visões de morte começaram, mas desde de que surgiram eu morro um pouco todo o dia. De formas dolorosas e tristes. Sem ninguém para me acudir ou prantear. E não há medicamento no mundo que aplaque minha dor e minha certeza. Um dia as visões serão reais e ninguém se lamentará por mim.

Uma lágrima solitária escorre sem que possa contê-la. Como queria ser mais forte e evitar vazar na frente de todos. Os olhos do rapaz no sofá a minha frente me encaram melancolicamente. Meus pulsos enfaixados ardem. Uma torrente de lembranças tristes inunda o quarto, a sala, a casa e a minha mente. Começo a chorar convulsivamente. Soluço de maneira patética. Que se dane a compostura. Sou um fracasso e até em esconder isso eu falho.

“Como o mundo ao seu redor está?”

Questiona tristemente meu entrevistador. A orquídea do vaso próximo a ele me encara, diabolicamente.

“O mundo está feliz.”

Respondo e me afogo nas palavras. A ilusão do campo se finda. O terapeuta pega uma caixa de lenços de cima da mesa ao lado e me entrega alguns. A embalagem exibe uma orquídea e outras flores. Estas me ignoram, mas aquela parece se rir da minha dor. O médico suspira pesadamente envelhecendo algumas décadas com isso. No fundo ele sabe que o tratamento não está funcionando e nem irá funcionar um dia se eu não contar o que me aflige. Mas, infelizmente, não posso ajudá-lo a me ajudar. Realmente gostaria de poder fazer algo quanto a isso.

“Você poderia morrer.”

Uma voz dentro da minha cabeça cochicha no pé do ouvido. Meu corpo começa a tremer como se tivesse levado uma ducha gelada inesperadamente. Sinto como se uma trinca estivesse crescendo sobre meu rosto, partindo-o em pedaços. Orquídeas florescem nas fissuras. Um estalo soa dentro de mim. Minha mente afunda dentro da minha cabeça como se estivesse submergindo. Pétalas de todas as cores me cobrem. Fecho os olhos. Desligo-me de tudo. Abro os novamente. Não me sinto mais o mesmo. O choro cessa subitamente e minha mente falha. Sinto algo desabrochar dentro de mim, pintando para fora.

“Rapaz. Você está bem?”

O olhar do médico vacila. Ele sente algo errado no ar. O corpo fica rígido. Silêncio. Sorrio para ele e me sento no divã em que estava anteriormente deitado. A flor próxima me incentiva. Estalo o pescoço e os ombros. Ele recua no seu sofá.

“Estou bem doutor. Já passou.”

Ele deve ter quase seus trinta. Mas parece ser mais jovem. Nunca tinha reparado como ele é bonitinho. A franja levantada. A barba bem feita. Músculos levemente definidos por baixo da roupa. Fixo o meu olhar na calça dele e o vejo se mexer desconfortavelmente. Olho nos olhos dele e vejo um antílope assustado. Uma presa em fuga e eu o predador partindo para o ataque. Levanto do divã e me espreguiço, aproximando-me dele. Minha camisa levanta exigindo parte do meu abdômen. Sei que não sou de se jogar fora e a tristeza não me deixa engordar. O vejo engolir em seco.

“O ... o ... que ... você... Alguém...”

Mal consegue articular ele. Eu peço silêncio com os olhos e sorrio novamente. Percebo que nunca o vi com uma aliança. Talvez ele seja daqueles que curtem ter várias ou vários ao mesmo tempo. Sem responsabilidade. Com quem quiser na hora que quiser. Molho os lábios provocativamente. Quero ele para mim agora, aproximando-me perigosamente. Ele tenta se afastar ainda sentado, quase tentando entrar dentro da poltrona. Como pode um homem como ele temer um garoto como eu? Rio em pensamento.

“Calma doutor. Você parece meio tenso. O senhor está bem?”

Digo aveludadamente, forçando uma cara ingênua. Encosto a mão no rosto dele. Suavemente. O perfume dele me lembra flores. Sinto-o tremer diante de mim e me satisfaço com isso. O constrangimento dele me diverte e incentiva a provocar mais. Quem está com problemas agora? Aproximo-me mais dele e me sento em seu colo, cuidando para pôr mão no membro dele. Gentilmente. Sorrio novamente para ele. Sussurro no ouvido dele, provocando-o. Algo desabrochou por completo em mim, e não há como reprimir ou esconder mais.

“Como você é bonito, Bernard. Sei que você me deseja também.”

Rio junto a orelha dele e a lambo sensualmente. Minha mão escorrega para dentro da calça dele, pegando o membro excitado dele agilmente. Ele geme em resposta. Os olhos dele ficam estalados de repente e ele me atira no chão como se desperto de um sonho e completamente enojado do que vira. Nunca paciente algum dele teve ter sido tão ousado. Ou tão insano. Ele me encara como se o tivesse violado. Faço um beicinho de quem foi magoado, de maneira fingida. Começo a rir maniacamente, explodindo em gargalhadas. O rosto dele está ardendo em fúria. Vermelho de raiva. Essa minha traquinagem o atingiu profundamente. Acho que nunca ninguém brincara com ele dessa forma. Pisoteando e sapateando no seu ego e sentimentos. Se tinha pena de mim, esta foi arremessada pela janela. Como foi divertido o espanto dele. Deitado no chão, continuo rindo não conseguindo me controlar. Minha barriga dói. Meus olhos lacrimejam. Minha boca seca. Minha mente grita. A orquídea dele se diverte comigo, concordando.

“Seguranças! Sala 13.”

Diz autoritariamente no telefone na mesa. Sabia que ele ia pedir auxílio para a secretária Betsy “a Oferecida” dele. Aquela vadia deve querer dar para ele todos os dias. Aquele cabelo loiro dela num corte curto, os óculos de gatinha safada, o uniforme apertando os peitos dela, as pernas torneadas mal escondidas na sala justa dela e aquela flor na mesa dela, como querendo o agradar. Como queria arrancar aquele uniformezinho dela e mostrar quem manda aqui. Arrancar a roupa dela e dele. Deixá-los expostos. Desprotegidos. Impotentes. Perdidos. Á minha mercê.

O terapeuta se afasta o máximo possível de mim, como se eu fosse radioativo. Sabe que estou descontrolado, mas nunca imaginara que meu problema pudesse tomar essas formas. Pobre médico. Nunca deveria ter feito psiquiatria se não tivesse estomago para isso. Lembro das mãos dele tremendo quando me aplicava calmante. Do olhar assustado quando as enfermeiras me amarraram na cama. Do choque ao ver o banheiro e meu corpo molhados de sangue quando tentei me matar. Se não sabe jogar, peça para sair do jogo. Mocinha.

“Tic ... tac ... tic ... tac ... Quanto tempo demora até teus seguranças chegarem, hein? Garotinha virgem”.

Falo rindo de maneira psicótica. Me balanço sentado no chão, feito uma criança travessa. Uma frustração me escala a garganta. Aposto que se fosse a vadiazinha da Betsy ele nem ligaria, ou quer dizer que não sou o bastante para ele? Quem sabe se eu tivesse trazido flores para a garotinha? Talvez orquídeas? Não, isso não seria suficiente. Não sou o bastante para ninguém pelo visto. Todos sempre fogem quando veem meu pior lado. Como se a culpa fosse minha por estar quebrado. Sempre tento ser quer os outros querem que eu seja. O pobre coitado. O suicida. O bem-humorado. A puta safada. Já o vi me olhando de maneira suspeita. Tentando imaginar o que há por baixo da minha roupa. Querendo tirar minhas pétalas. Querendo me despir e provar de mim. Provar do meu mel. Tenho certeza que ele já pensou em me comer e dizer que eu que me insinuara para ele. Só fiz o que ele queria. E ele fugiu como uma menininha virgem. Como se ninguém nunca tivesse tocado nele. Talvez ele queria flores primeiro. Orquídeas vermelhas de paixão. Ridículo.

Meu corpo começa a vibrar e uma fúria sobe pela garganta. Minha visão se embaça de vermelho. Quero partir o rostinho bonito dele. Violentá-lo por ele me querer e ser covarde demais para admitir. Sei que ele me quer. Todos que se aproximam de mim tem algum interesse. Ninguém quer me ajudar de verdade. Ninguém liga. Ninguém se importa. O único gesto de afeto que sabem fazer é trazer malditas orquídeas com eles. “Você acha que todos são obrigados a te aturar”, uma memória me fura a cabeça. Ardendo em brasas. Olho para o vaso de planta pequeno. As orquídeas. As flores preferidas da minha ex-namorada. As flores que recebi quando meu ex-namorado terminou comigo. As flores que minha tia pôs sobre o caixão do meu pai quando ele foi enterrado. As malditas flores que recebi quando fui liberado do hospital. Como eu as odeio. Arremesso o vaso com toda minha força no canto da sala. Grito com todo vigor dos meus pulmões. Minha respiração queima. Meu peito sobe e desce em fúria. Sinto-me um animal selvagem enjaulado. Estou pronto para matar e ou morrer. Levanto a poltrona em que ele estava e a lanço na direção dele, do outro lado da mesa. Uma força demoníaca me enche o espirito. Ela se espatifa no chão e o rapaz corre para a porta, fugindo de mim. Estou pronto para matar ou morrer.

“Para que fugir, Bernard? Você não queria me ajudar? Me ajude agora! Vamos covarde!”

Grito de maneira possuída e começo a destruir a sala do consultório. Desprezo-o com todo meu ser. Lembro da sala do meu último emprego. Do dia em que fui demitido. Dei tudo para aquela empresa e quando adoeci ela me descartou como todos. Destruí tudo da minha antiga sala. Destruí tudo da minha antiga vida. Meu quarto e meu apartamento virara um cemitério de roupas velhas rasgadas e papeis arruinados. Sem água e sem luz, pois não tinha dinheiro para pagar a droga da conta. Ou comprava comida ou morria de fome.

Quando minha mãe me visitou, o choque do meu estado a levou a me carregar com ela. Me acolher debaixo das asas dela. Me cuidar e me internar. Temia que minha loucura a infecta-se. Os olhos não olhavam os meus, pois não queria dar chance deles a envenenarem. Me internou dizendo que estava com depressão e tentara me matar. Vadia. Me prenderam naquele presídio branco. Como uma visão profética, o anuncio de suicídio se tornou real quando no banho tentei me matar. As enfermeiras aprenderam rápido que me deixar sem vigia era um erro. O doutorzinho que fora encarregado de me cuidar e me liberou por pena. Meses após isso, minha mãe marcara terapia para mim, pois notara que minha melhora era falsa. Talvez ela tenha entrado no meu quarto sem permissão e vira todas as paredes rabiscadas insanamente.

Os seguranças chegam e tentam me segurar. Debato-me desesperadamente. Uma picada no braço esquerdo é sentida e um calor parece se alastrar de lá. Meu corpo amolece subitamente e minha mente nubla novamente. Ouço grunhidos próximos e vultos se deslocando diante de mim. Sinto ser carregado para algum lugar. Não sinto nada depois. Talvez seja internado novamente. Por que as pessoas insistem em tentar manter vivo aquilo que não quer viver mais? Só esse pensamento me faz querer chorar para sempre. Alagar a Terra e afogar todos em minhas lágrimas. Uma certeza viva me toma: sei que demorará dias para eu ser liberado novamente. Talvez anos. Internamente torço para isso, pois, pelo menos enquanto estiver internado, não terei de ver mais orquídeas.

Notas finais
Que achou? Se gostou ou odiou, deixe um comentário para que eu saiba sua opinião. Obrigado por ter lido e espero vê-lo numa próxima. =)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!