Orquídea Vermelha
12 So Let's Recreate Hell!
Notas iniciais

O sol estava se pondo quando avistaram a costa mexicana pela primeira vez depois de dias no mar, o tempo estava fechado e ameaçando chover a qualquer momento, Cornélia rezava para que a chuva só caísse depois que atracassem, duvidava muito que aquele navio aguentasse uma tempestade.
Ela estava no leme, observando a massa de terra se aproximar, procurando entre os poucos navios atracados aquele com a bandeira vermelha, morreria por dentro se descobrisse que seus instintos estavam errados.
— Ali. — Elisa apontou o imponente navio com uma bandeira vermelha enrolada no mastro devido à ventania — Ela deve estar por perto.
— Mande-os se organizar… — ela indicou a tripulação com a cabeça.
Devido à gentileza extrema de Lady Elisa, ou aos inúmeros gritos que ganharam de Cornélia nos últimos dias, a tripulação acatou as ordens de imediato. Assim que o navio aportou, um dos homens saiu para buscar informações sobre o caminho que Delilah e seus homens seguiram.
Cornélia, Killian e Elisa desceram a rampa quando o marujo retornou, encolhido por causa da chuva que começara.
— Consegui algo daqueles pescadores ali… Eu precisei de todo o meu talento em mímica. — ele falou com uma ponta de orgulho — Costa de Oro.
— Que talento em mímica? — Cornélia massageou as têmporas — E para que lado fica Costa de Oro? Conseguiu isso na mímica também?
— Não… — ele encolheu os ombros.
— Fica a Norte de onde estamos. — Killian falou simplesmente.
— Ah pronto, um é mímico e o outro é vidente. — Cornélia se voltou para ele — De onde tirou isso, cozinheiro?
— Tem uma placa bem na sua frente, capitã. — ele segurou o queixo dela e virou na direção de um pequeno poste com placas apontando para as praias, Cornélia deu um tapa na mão dele na mesma hora.
— Mas… DESDE QUANDO VOCÊ SABE LER? — ela o encarou novamente.
— Oh, Lady Elisa me ensinou. — ele falou simplesmente — Não esperava que nossa vida fosse parar porque a senhorita estava inconsciente nos últimos meses, certo?
— Olhe bem seu tom quando fala comigo, cozinheiro… — ela apontou o dedo na cara dele — Pouco me importa o que faz da vida.
Ela girou na ponta dos pés e seguiu na direção que a placa indicava, mandando que a tripulação a seguisse. Cornélia foi marchando na frente, rumo a rota fora da cidade. Todos estavam calados por causa da chuva que os chicoteava no rosto, isso fazia com que a Capitã ficasse presa em seus próprios pensamentos.
Não havia parado para pensar no que poderia ter mudado enquanto estava por fora da realidade de todos. De fato, Killian e Elisa estavam mais próximos… Mas quanto? E por que ela se incomodava com aquilo? Ficava repetindo em sua cabeça que era por querer algo melhor para Elisa, mas os pequenos diabinhos saltitantes em seu cérebro gargalhavam e jogavam a realidade em sua cara. Eram ciúmes, tanto de Elisa quanto de Killian, será que perderia a amiga? Será que estava sentindo algo pelo pirata? E então, sua mente se encheu de imagens dos dois estudando até tarde na biblioteca da torre, próximos…
— ARGH! — ela balançou a cabeça agressivamente para se livrar daquelas bobagens.
— Está tudo bem, Cornélia? — Lady Elisa perguntou.
— Ótimo. — respondeu com rispidez.
O grupo finalmente chegou numa área próxima à grandes rochas, perfeitas para montar acampamento. Cornélia ordenou que eles começassem a se organizar e chamou Killian para ir com ela, eles pegaram o mesmo caminho de volta para a cidade.
— É o seguinte… Você vai com um daqueles cavalos que passamos agora pouco. — ela apontou uma baia ao longe, ao lado do que parecia ser um bar — E vai na frente. Eu vou te dar três dias de vantagem, Jones. Você precisa encontrá-los, se infiltrar e fazê-la confiar em você.
— Três dias é muito pouco.
— É o tempo que você vai ter. — ela se virou para ele — Delilah não vai ficar parada no mesmo lugar por muito tempo. Na noite do terceiro dia, quando todos estiverem dormindo, provavelmente se preparando para partir no dia seguinte, nós atacaremos e você vai trazer Delilah aos meus pés para que eu possa matá-la, estamos entendidos?
— Sim, capitã. — ele assentiu — E se ela desconfiar?
— A culpa vai ser sua por estar falhando em sua missão. Lembre-se que o seu sucesso não vai apenas garantir minha vitória, mas também a sua vida.
Eles foram até os cavalos, Cornélia deixou que ele escolhesse o que parecia mais saudável e veloz, ela entregou a trouxa com um pouco de comida e água para que ele não morresse no meio do do caminho.
— Então, nos vemos em três dias. — ele apoiou um dos pés na baia e subiu no cavalo — Tente não sentir tanto minha falta, Cornélia.
Ela o encarou com desprezo e deu um tapa no cavalo, que saiu em disparada quase o derrubando durante a arrancada.
Durante o que lhe pareceram cinco horas, Jones cavalgou velozmente vegetação adentro. Praguejava consigo mesmo por ter se metido em tal empreitada, mas achava que um pouco de aventura não lhe faria mal. Passara tanto tempo enfurnado em uma cozinha que até mesmo se esquecera de como era silenciosa a solidão, afastado dos constantes berros de Cornélia.
Após parar poucas vezes para urinar e alimentar o cavalo, ele finalmente topou com sinais da presença humana meio à floresta. Entreouviu um vozerio, antes de avistar uma coluna de fumaça que ia desaparecendo rente ao topo das árvores. Precisou de alguns minutos para repassar o plano mentalmente, levando em conta as coisas terríveis a que Cornélia o infringiria caso algo desse errado. Não, ele não se permitiria falhar. Respirou fundo: não havia opção.
Os passos no solo acidentado e o farfalhar da vegetação denunciaram a sua presença. Veio zunindo uma bala, como uma espécie de advertência. O cavalo, perturbado pelo som, fez menção de galopar para longe, mas com certa dificuldade o cozinheiro o acalmou.
— Tudo bem! — disse em voz alta para o autor do disparo, alguém que não podia ver, mas cuja localização podia estimar — Estou armado, mas não busco rivalidade. Eu quero falar com Delilah!
— Anuncie-se! — respondeu uma voz grave não muito distante, e o vozerio cessou, como se toda a tripulação se calasse.
— Killian Jones! Ex-tripulante do Capitão Barba Negra!
A menção à Barba Negra irritou o outro homem. Ele respondeu com rispidez.
— Qual é o seu propósito aqui?!
— Unir-me à Capitã Delilah — ele disse, esperando que suas palavras fossem eficientes. Por mais que Cornélia o instruísse, o nervosismo ante à situação o colocava em dúvida de quais palavras usar.
O homem mandou que ele deixasse suas armas alguns passos mais à frente, próximo de onde vinha a voz. Ele assim o fez, cuidadosamente, rezando para não ser chacinado sem sequer ter tempo para se defender.
Dali a pouco, três homens troncudos surgiram das sombras, vindo por todos os lados. Apontavam suas armas diretamente para ele, que ergueu os braços calmamente, um sorriso jocoso brotando de seus lábios.
— Ora, rapazes, acho que isso não é necessário… — ele ia dizendo, mas um dos trogloditas já se adiantava em revistá-lo, brutalmente lhe passando as enormes mãos pelo corpo. Arrancou o gancho sem cerimônia quando topou com o mesmo. Killian pensou em objetar, mas a voz de Cornélia veio à sua mente, mandando-o ficar quieto.
Ele foi guiado alguns metros à frente. Caminhava confiantemente frente ao grupo, enquanto um dos homens trazia o cavalo. Passaram por mais dois guardas armados, que encararam o cozinheiro com olhares desconfiados, antes de abrirem caminho.
O acampamento de Delilah era organizado e a hierarquia era óbvia, uma vez que os piratas dormiam no chão, em sacos de dormir em frangalhos ou tendas improvisadas. A Capitã devia ter se instalado na tenda maior, no centro, frente à grande fogueira que ia se extinguindo. De fato, foi para lá que os homens o empurraram, ordenando que andasse mais depressa.
Ele entrou na tenda acompanhado de um dos guardas. Delilah não estava. Prestou pouca atenção nos arredores, limitando-se a se sentar despreocupadamente num banquinho junto à mesa no centro da tenda. Poucos minutos depois, a figura desgrenhada de Delilah brotou à entrada, dispensando o guarda com um olhar breve, ao mesmo tempo em que esboçava um meio sorriso. Tinha em mãos o gancho de Killian, o qual segurava com dois dedos.
— O que faz aqui? — perguntou lentamente, indo se postar na outra extremidade da mesa. Gancho se ergueu no mesmo momento, oferecendo à mulher um olhar de respeito — Onde está Cornélia?
— Aruba…
Houve um minuto de silêncio. Delilah estreitou o único olho, mas Jones percebeu em sua expressão um misto de orgulho e felicidade. Ela achava que a sua pista falsa funcionara. Era conveniente usar esse orgulho contra ela.
— Por que você não está lá? Você era… era um cachorrinho, seguindo a minha irmã pra cima e pra baixo. O que está fazendo aqui?!
— Me demiti… — ele suspirou, forjando uma expressão de desagrado — Se quer saber, Barba Negra está um velho patético! Ele e aquela… aquela coisa que se diz uma mulher. Eu não a chamaria de minha irmã.
— Força do hábito… — Delilah arreganhou um sorriso e Killian podia ver que ela estava satisfeita. Mas ele ainda ia precisar se esforçar — Como exatamente você me achou?
— Bem, Capitã, Tortuga é a terra da promiscuidade. Barba Negra enviou informantes e eles não tardaram a retornar com as notícias. Mas, é claro, os ignorantes foram para o lado errado… Cornélia achou que — como foi que ela disse? — que apenas um verme inútil em forma de cozinheiro se atreveria a questionar as decisões dela… e mandou que eu me atirasse pra fora do navio, caso discordasse de seus métodos. Aquela vadia desgraçada! Ela me humilhou de todas as formas possíveis… ela e aquele Capitão decrépito…
Fosse pelo tom do pirata ou fosse por sua aparência acabada e expressão irritadiça, o fato é que Delilah comprou a atuação do homem. E ele olhou diretamente para ela quando concluiu.
— Bem, eu me atirei pra fora do navio. Cansei do Barba Negra e de toda aquela corja fedorenta. Não posso apoiar uma tirana que se intitula capitã no lugar do pai. O velho sequer morreu e ela ultrapassa todos os limites do poder dado a ela.
— Hum… Imagino que seja difícil suportar aqueles dois… — ela rodopiou o gancho nos dedos e então o fincou no tampo da mesa de madeira — Mas eu ainda não entendi porque está aqui.
— Ora, não é óbvio? — ele se inclinou na direção dela, abaixando o tom de sua voz, a deixando quase sombria — Eu posso te dar o que quer. Eu posso te levar até o Barba Negra, para que o mate e estripe sua preciosa filha. Não é isso que você quer, capitã?
Delilah o encarou, deixando um sorriso escapar no canto de sua boca.
De volta ao acampamento de Cornélia, ela e mais dois marujos estavam em seu turno de vigia, para o caso de visitantes indesejados. A ruiva estava sentada a beira da fogueira, pensando a que ponto chegara em sua sede de vingança, seria um rumo sem volta? Largara seu pai, seu capitão. Forçara homens que conhecia desde sempre a segui-la naquela empreitada e nem sabia direito o que poderia acontecer. Apostou todas as fichas na vaga capacidade de manipulação de Killian Jones. Não podia negar que Cornélia era, sem sombra de dúvidas, uma mulher determinada. Mas qual o custo de tamanha determinação?
Ela olhou para trás e viu Elisa dormindo candidamente na pequena tenda improvisada. Sabia que não deveria ter levado a jovem consigo para uma missão tão incerta e perigosa, mas como poderia deixá-la? Elisa sempre esteve ao seu lado, independente de qualquer coisa. Mesmo chateada, ela era sua maior preocupação. Nunca admitiria em voz alta, mas a amiga era um dos pilares que a mantinha de pé, porque o mundo sempre parecia querer derrubar a ruiva. Porque o mundo sempre quer derrubar qualquer uma que se levante e vá contra a correnteza.
Cornélia estava sempre contra a correnteza.
Ela voltou a encarar o fogo, dessa vez pensando em seu pai. Será que ele estava muito bravo? Não por ter errado o palpite, mas porque no final das contas Cornélia estava certa e ele era orgulhoso demais para levar isso com tranquilidade. Às vezes ela se perguntava se valia a pena todo o esforço contra o pai, pareciam estar presos num ciclo vicioso, duas mentes fechadas em seus próprios ideais batendo uma na outra e rodopiando, dançando entre farpas e carinhos.
Sempre foi assim, a mesma teimosia que os une, os repele.
— Ei… — Elisa sentou ao seu lado, interrompendo seus devaneios — Creio que seja minha hora de vigiar.
— Eu ainda não estou com sono, você pode dormir mais um pouco. — Cornélia falou friamente, ainda estava doída pela descoberta da amizade entre Elisa e Killian.
— Eu não quero. — ela disse com firmeza — E posso saber o que está acontecendo? Está parecendo uma criança emburrada desde que atracamos, Cornélia.
— Só estou preocupada, Elisa. Eu não sei se o seu amiguinho vai ser capaz de cumprir sua parte nesta missão…
— Oh! Então é isso! Está incomodada porque ensinei o Killian a ler! Achei que não se importasse com ele…
— Não me importo! Mas me importo com você! — a ruiva se voltou para a amiga — Elisa, você merece algo melhor que um pirata! Você é inteligente o suficiente para saber disso, não é?
— Cornélia… — Elisa segurou o riso — Killian e eu nos tornamos amigos, sim. Mas só isso. Você ficou fora por muito tempo, por minha culpa. E ele era o único que não me julgava… Eu o ensinei a ler em retribuição por ter me ajudado com algumas coisas.
— Que coisas?
— Na hora certa você verá, não quero que crie expectativas. — Elisa sorriu — E não se preocupe comigo, eu acho que encontrar um marido está fora dos meus planos por enquanto… E Killian nunca foi um candidato. Como poderia? Ele só tem olhos para você.
— E para a fortuna que meu pai deve ter prometido.
Cornélia se levantou, cruzando os braços para se manter aquecida devido ao vento frio, se virando na direção da pequena estrada. Elisa se aproximou dela.
— Você o culparia? Não é como se você fosse uma pessoa fácil de lidar, Cornélia.
— Mas ele poderia ter no mínimo um pouco de dignidade, não?
— É isso que você pensa de mim também? — a jovem pendeu a cabeça de lado, estreitando o olhar — Porque até onde eu sei, eu também fui contratada para você...
Cornélia não respondeu, mas a realidade a deu um belo tapa. No momento, as duas pessoas mais próximas dela eram “contratadas” para aturá-la. Ela podia não esperar nada do Jones, mas Elisa provou mais de uma vez que era leal, uma amiga de verdade. Mas essa amizade nunca aconteceria se dependesse unicamente de Cornélia, porque ela nunca permitiria alguém como Lady Elisa se aproximar dela. A ruiva soltou um suspiro.
— Não, Elisa. Você é diferente e sabe disso.
Então, ela se voltou para a amiga, pela primeira vez notara o olhar duro de Elisa para ela, pela primeira vez notou algo a mais ali, atitude, talvez? Sempre respeitara a amiga, mas naquele momento Elisa tinha pego o respeito para ela.
— Então ele também pode ser. Eu não vou ficar aqui dizendo o que você deve ou não fazer, porque não adianta! Mas você bem que poderia abrir um pouco mais a sua mente.
E dizendo isso, Elisa voltou ao seu lugar próxima à fogueira, deixando claro que não tinha a menor intenção de dar um passo para trás.
Mais rápido do que o esperado, o prazo de Killian se esgotou, a terceira noite chegara e ele sabia que logo a pequena tripulação de Cornélia invadiria o acampamento. Estava na entrada da tenda de Delilah vendo os homens organizando as coisas para partir no amanhecer do terceiro dia, a ruiva estava certa, eles só ficaram tempo suficiente para saquear e reabastecer. O pirata começou a ficar preocupado com o número de homens que a loira tinha a seu lado, superavam os de Cornélia com folga.
— Não vai se preparar para dormir? Temos um longo dia amanhã… — a voz sedutora de Delilah surgiu em suas costas.
O jovem pirata se virou, ela vinha dos fundos da tenda, enrolada apenas em um lençol, quase o usando como um vestido de luxo, deixando os ombros a mostra, os cabelos loiros molhados jogados para trás. Killian só podia julgar que em algum lugar do sangue de Barba Negra havia algo que fazia mulheres estonteantes, porque ela era tão linda quanto Cornélia. Mas… Isso não fazia diferença para ele. E ele descobriu isso logo na primeira noite em que cumpria seu teatrinho.
Ele tinha consciência do quanto ela era bonita, atraente e sensual. Seu corpo poderia desejá-la. Mas simplesmente não tinha interesse. Obviamente ele cumpriu sua parte, e não pode negar que foi prazeroso, mas poderia ter passado sem essa tranquilamente. Ele não sentia atração alguma por Delilah.
— Claro. — ele fechou as cortinas da entrada da tenda — Só vou tomar um banho antes…
— Estarei esperando… — ela deixou o lençol cair quando ele passou e foi até a cama, o encarando por cima do ombro com um sorriso travesso.
Kilian retribuiu o mesmo sorriso e lançou-lhe uma piscadela antes de sumir nos fundos da tenda.
— Não comece sem mim.
Oh, Cornélia iria matá-lo! E talvez odiá-lo… Mas ele fez o que era preciso.
Mais tarde, naquela noite, o acampamento estava em silêncio. Apenas cinco homens acordados de guarda, mesmo assim não tão alertas, acreditavam que ninguém seria estúpido o suficiente para atacar um grupo tão grande de piratas.
Já tendo deixado o acampamento, Cornélia e seu grupo revisavam os últimos detalhes do ataque. Estavam a meia hora de distância de Delilah e a ruiva queria se assegurar de que todos repassassem o plano cuidadosamente.
De início, insistira que Elisa devia ficar afastada. Já escolhera um homem para protegê-la e levá-la de volta a Barba Negra em segurança caso o pior acontecesse. No entanto, a jovem fora firme em sua decisão de acompanhar Cornélia.
— Não vou me esquivar da guerra, como fiz tantas vezes antes – dissera, dando às costas à capitã, pois não conhecia outra forma de se mostrar firme sem ignorá-la.
— Você não vai adentrar território inimigo sem ter preparo para isso – a outra retrucara, seguindo Lady Elisa.
— Não tenho seu domínio, Cornélia, mas certamente estou preparada. Ver você perecendo em uma cama me deu coragem suficiente. Além do mais, não vim em seu encalço apenas para apoio moral e serviços domésticos – Lady Elisa se limitara a responder, o que deixou Cornélia embasbacada. Estava gostando dessa nova versão de Elisa, mas ainda precisava desconstruir a velha imagem que tinha da amiga.
— Você se tornou uma bela arrogante, onde foi que aprendeu?
— Não estou tentando imitá-la – Elisa sorrira –, mas você tem sido uma escola e tanto... Poupe seus esforços, Cornélia, eu vou ajudar no ataque.
E não houve nada que a capitã pudesse dizer para induzir Elisa a desistir da ideia.
O grupo parara no meio da vegetação cerrada, formando um semicírculo. Falavam em voz baixa, limitados à luz de duas lamparinas fracas. Não queriam que os vigias de Delilah divisassem o grupo à distância. O plano era simples, mas passível de falhas. Contavam com a capacidade de manipulação de Jones, que Cornélia esperava que estivesse vivo. Não que se importasse com o homem, mas detestaria que ele morresse a seu serviço.
— Estamos bem – disse a capitã, depois que cada marujo e Elisa repetiram exatamente o que cada um precisava fazer – Pete, Otis, Wayne, vão na frente e esperem um sinal de Jones. O restante, se quiserem tirar água dos joelhos, aconselho que façam agora, em dez minutos apagaremos as lamparinas.
— Cornélia – Lady Elisa chamou – Quero falar com você um segundo.
A ruiva assentiu, seguindo a jovem até uns metros mais à frente. Elisa trazia uma espada embainhada na cintura e mais cedo Cornélia a vira afiar a lâmina. Não esperava que Elisa soubesse fazer isso, mas supôs que tivesse aprendido com Jones ou mesmo por observação de como os marujos faziam. Fosse o que fosse, ver a persistência e destemor da amiga fez Cornélia apreensiva.
— Bem, eu quero te pedir uma coisa... – Elisa começou. Olhava diretamente para o rosto da capitã, embora não houvesse luz suficiente para iluminar sua expressão – Reconheço o risco que vamos correr e quero que faça algo por mim – ela respirou fundo e por um momento pareceu amedrontada – Se falharmos e eu estiver ferida, ou se Delilah nos cercar e você achar que não temos chance, eu quero que me mate.
Cornélia engoliu em seco e abriu a boca para falar, mas Elisa não lhe deu oportunidade.
— Eu sei o que eles são capazes de fazer. Eu terminaria escravizada e estuprada antes que Delilah decidisse me matar como exemplo... Eu faria o mesmo por você, se precisasse...
— Faria? – Cornélia duvidava, mas só porque aquele assunto a tirara do eixo. Ela não esperava algo assim vindo de Elisa.
— Faria, eventualmente... Você é minha melhor amiga e eu preferiria vê-la morta a vê-la maltratada.
— Eu também! – Cornélia respondeu, fechando os punhos para controlar as mãos que tremiam. Não permitiu que seu descontrole emocional fosse percebido por Elisa. Em vez disso, agarrou os braços da amiga – E seria a coisa mais difícil que eu já tive que fazer, sabe disso...
Elisa assentiu. Fez menção de abraçar Cornélia, mas a ruiva se afastou bruscamente, chamando pelo marujo Tiger. Tiger tinha esse apelido porque era um homem silencioso, ardiloso e eficiente. Matava com rapidez e se deslocava com agilidade. Fora a ele que Cornélia confiara a responsabilidade por Lady Elisa, de modo que a moça conseguiu antever o que a ruiva estava aprontando.
— Cornélia, não ouse!
— O que combinamos – a capitã se limitou a dizer ao homem, que então se dirigiu a Elisa. Ela ia puxar sua espada para ele, mas, feito um neandertal, o homem a jogou sobre o ombro sem se abalar com as suas tentativas desesperadas de escapar.
— Cornélia! — a jovem esperneava e chutava, mas Tiger não se importou — Você prometeu que ia me deixar ajudar!
— Dessa vez não, Elisa. Eu morrerei antes de precisar matá-la...
E a capitã saiu pisando duro, ignorando os xingamentos da amiga, que era levada para um lugar seguro.
Killian fez o que pode para entreter Delilah. Já estava se cansando daquele papel, mas contava que o plano de Cornélia fosse desmontá-la.
Quando a loira começou a roncar ao seu lado, caída sobre um lado de seu corpo, Jones se levantou silenciosamente e se esgueirou para fora da tenda. Checava a tripulação de hora em hora, assegurando-se de que todos estivessem distraídos demais para prestar atenção na floresta. Sabia que a essa altura o grupo de Cornélia já devia estar à espreita e se aproximou dos vigias o máximo que pode sem ser notado. Dois jogavam cartas, enquanto os outros três fumavam e caminhavam de um lado para o outro.
O cozinheiro se aproximou da fogueira principal do acampamento. Ali, muitos homens tinham o costume de fumar, de modo que ele tirara proveito disso. Fingindo preparar um cachimbo, o homem se demorou junto ao fogo. Quando achou que ninguém estava vendo, atirou um bom punhado de ervas secas nas chamas e aquilo produziu uma fumaça opaca e breve, que ninguém notou, mas que cumpriu o seu propósito.
— Capitã – o marujo Wayne cochichou para Cornélia –, aquele era o sinal de Jones.
— Eu vi... Ele está fazendo de novo...
Killian atirou outro punhado, assegurando-se de que entendessem como algo proposital. Ele então voltou para junto de Delilah, sentindo-se nervoso e enojado. Mataria a mulher em seu sono, se pudesse. Gostaria de fazer isso, mas sabia que Delilah pertencia a Cornélia e sabia que a ruiva tiraria a maior satisfação daquele ato. Se limitou, então, a esperar algum sinal de movimento.
— Otis, Wayne e Pete, vocês primeiro...
Escondida no mato, Cornélia capitaneava os marujos. Agira rápido ao estudar a posição dos cinco homens na entrada do acampamento: dois jogavam cartas junto à direita; um preparava fumo sem prestar atenção à floresta e os outros dois riam de uma piada, parados à esquerda da entrada.
Os três primeiros marujos se esgueiraram pela vegetação feito espíritos invisíveis. Por sorte, o canto dos grilos disfarçaria qualquer som de movimento, mas a capitã duvidava que os vigias mongoloides estivessem atentos a isso.
Os dois homens risonhos caíram degolados, enquanto os que jogavam cartas eram atacados ao mesmo tempo pelo segundo grupo que Cornélia acabara de enviar. O homem que ficara no meio deixou cair o charuto, mas só porque o corpo de um de seus companheiros caiu com um baque. Ele era troncudo e difícil de abater, de modo que foram necessários quatro homens para derrubá-lo. Um caiu morto ante um golpe de espada e Cornélia engoliu em seco quando pulou por cima do cadáver.
— Otis, pela esquerda. Estou vendo a sombra dos homens lá na frente... E lembre-se, Delilah é minha!
O marujo se esgueirou rapidamente na direção que Cornélia mandara. Sua função era encontrar Killian para que o homem prestasse auxílio. Durante aqueles dias, o trabalho do cozinheiro fora muito além de enganar Delilah: ele estudara o dia a dia do acampamento, se aproximara dos homens, vira onde escondiam armas e, mais do que tudo, aprendera como eles raciocinavam. Se Cornélia quisesse vencer, precisava que ele ditasse o caminho. Ela odiava depender de outra pessoa para isso, especialmente em se tratando do homem que tentava conquistá-la, mas que escolha ela tinha?
— O que está tomando tanto tempo? – ela resmungou, abaixada por trás de uma grande árvore. Notara uma movimentação perto da fogueira, dois homens estavam atiçando o fogo, mas não deram a falta dos vigias.
— Capitã, me deixe ir – pediu Wayne, agachado ao lado dela.
— Não! – ela sibilou – Tem mais um homem na fogueira, Otis deve ter se escondido...
Dois dos homens se sentaram junto ao fogo, de costas para a floresta. O terceiro ficou de pé de frente para eles. Cornélia não conseguiu ver o que faziam, mas ficou atenta. Depois de um instante, um deles se levantou e se afastou, então Cornélia avistou Jones indo em direção aos dois que ficaram.
— Espero que esse idiota não estrague tudo!
Killian se colocou de frente para o que estava de pé, distraindo o homem por um momento, enquanto Otis vinha por trás do outro e o matava com uma pancada na cabeça. Jones rapidamente enfiou sua espada na barriga do outro homem, que caiu para trás, mas foi amparado pelo cozinheiro. Killian ainda o degolou, antes de atirar seu corpo no meio do fogo.
Cornélia arregalou os olhos, impressionada com a performance, então Otis veio até onde o grupo estava escondido, enquanto Killian retornou para a tenda de Delilah.
— A maioria está dormindo, estão todos bêbados – Otis reportou à Cornélia – Se queimarmos as primeiras tendas, o fogo vai se espalhar rápido e a fumaça vai confundir os que sobreviverem.
— Então vamos recriar o inferno!
De fato, Cornélia pareceu encarnar o demônio. Seus cabelos ruivos contrastaram com as chamas, quando essas começaram a alastrar pelas tendas rústicas junto à entrada do acampamento. Em questão de segundos, gritos e urros encheram o ar abafado e a fumaça quente começou a chiar conforme era espalhada pelo vento.
— DESGRAÇADA! – foi o berro de Delilah, assim que abriu os olhos para o caos. Sabia que era Cornélia, pois ouvira os gritos provocativos da ruiva.
Killian atirou uma espada para a loira, que rapidamente se enfiou nas roupas que o pirata entregara a ela. Ele podia estar contra Delilah, mas não era tão indigno a ponto de permitir que ela lutasse completamente desnuda.
Lá fora, o som de lâmina contra lâmina começou a competir com o som das chamas. Cornélia mandou que um dos marujos tocasse fogo na tenda de Delilah e Killian se chocou quando as labaredas lamberam o tecido à volta deles. Delilah não se abalou e rasgou um buraco no fundo da tenda, por onde saiu sem esperar pelo homem.
Cornélia lutava contra três homens ao mesmo tempo, usando, como de costume, duas espadas. Embora tivesse passado muito tempo numa cama, sua habilidade e movimentos não foram prejudicados. Ela derrubou um homem com uma cabeçada no queixo, enquanto habilmente desferia um golpe no segundo. Ela se esquivou da lâmina do terceiro, um homem tão ágil quanto ela.
— Ou estou enganada, ou você está achando que consegue me matar – ela cuspiu para ele, movimentando as duas espadas para baixo. O homem bloqueou o movimento, mas desequilibrou para trás e se recuperou rapidamente com um golpe rápido que Cornélia conseguiu interceptar.
— Ela é da capitã Delilah! – Jones berrou para o homem, ele mesmo ocupado em lutar contra um homem de Cornélia, porém sem fazer muito esforço.
Mas o aviso não foi necessário, pois Cornélia já derrotara o homem. Ela gargalhou diabolicamente quando a sua espada atravessou a garganta dele. Os homens que vieram em seguida evitaram a ruiva ante o aviso de Jones, que perdera o gancho e fingira tropeçar nas próprias pernas. Os marujos de Cornélia lutavam bravamente e a ruiva viu Wayne e Pete enfrentarem Delilah, que ficara um pouco confusa com o calor do fogo e da fumaça.
A ruiva ia correndo em direção à irmã quando dois homens tentaram pará-la. Ela lutou contra eles com um sorriso debochado pintando seu rosto, mas não contava que um terceiro e um quarto homem fossem se somar aos esforços dos outros dois. Certamente não a matariam, mas fariam de tudo para derrubá-la.
Ela gritou quando uma das lâminas produziu um corte em sua coxa e, antes que pudesse se defender, um dos homens caiu derrotado. Se recuperou rapidamente e conseguiu derrubar o que estava mais perto, depois desferiu um golpe para bloquear a ação do terceiro. O quarto homem desviara a atenção, pois lutava com a pessoa que derrubara seu companheiro.
— Elisa?! – Cornélia guinchou, perplexa, pois a jovem – pequena e graciosa – estava lutando como um pirata e usava calças – Que diabo!
Elisa riu ao enfiar uma adaga na coxa do homem, que caiu com um urro. A moça o calou com um golpe no rosto.
— Eu te disse que estava preparada.
— Mas... – Cornélia estava paralisada e boquiaberta. Viu o cozinheiro sorrindo à distância e suas narinas dilataram – Jones! Ele te ensinou a lutar para que o ensinasse a ler?
— Mais ou menos isso... Não o culpe, eu quis que ele fizesse isso...
Outros homens estavam vindo em direção a elas, de modo que Cornélia se concentrou na luta, porém mantendo um olho na amiga. Elisa não era mestre na arte da luta, mas não ficava muito atrás. Obviamente, ela não enfrentava oponentes maiores do que ela e ficava na retaguarda de Cornélia.
— Como fugiu de Tiger? – a ruiva perguntou, pois Tiger acabara de chegar ao pandemônio e derrubara dois homens com um só golpe.
— Me sujeitei a seduzi-lo – Elisa balançou a cabeça – Os homens são baratos, se deixam levar por qualquer par de peitos...
— Mostrou seus peitos pra ele?!
— Não! Foi só um beijo... e o derrubei com um chute nas partes baixas…
— Essa é a minha garota! — Cornélia sorriu orgulhosa, recebendo o maior sorriso grato de Elisa em resposta.
Delilah deu conta dos dois homens de Cornélia e partiu como uma leoa para cima da irmã, que conseguiu prontamente bloquear seu ataque com as espadas. Elisa achou prudente se afastar e manter a segurança da ruiva enquanto ela matava a irmã.
— Killian! — ela foi até ele, fingindo uma luta — Você precisa manter o teatro mais um pouco.
— Como? — ele falou dando um golpe na lâmina dela. Por sorte ninguém estava atento aos dois, ou notariam que lutavam como crianças brincando com galhos secos.
— Até superarmos os homens de Delilah em números! Se eles perceberem que você foi o traidor, vão estripá-lo aqui mesmo. — ela falou entredentes — Agora preciso que me golpeie!
— O quê? Não! — ele parou, baixando sua espada — Elisa, não é necessário…
— FAÇA AGORA, KILLIAN!
Ele passou por um momento de desespero e por fim achou que era por melhor obedecer. E deferiu um golpe contra o braço dela, abrindo um corte fundo. Elisa gritou e caiu no chão fingindo ser fatal.
O grito chamou atenção das irmãs. Delilah sorriu satisfeita ao ver Killian “matar” a dama de companhia de Cornélia. A ruiva se desesperou por um momento, achando que o pirata realmente se virara contra ela e matara Elisa, mas ele a lançou um olhar, uma comunicação silenciosa para dizer que estava tudo bem.
— Viu só, irmãzinha? — Delilah girou sua espada na mão, preparando-se para atacar novamente — Seu ego enorme vai te destruir. Peguei seu cachorrinho para mim, como pode notar. E, devo dizer, entendo agora porque o mantinha por perto… Ele sabe como satisfazer uma mulher. Até mulheres peculiares como nós.
Cornélia voltou sua atenção para a loira.
— E mais uma vez você se contenta com meus restos, não é?
O olhar de Delilah escureceu, as chamas dançavam ao redor das duas, mas elas não sentiam nada além do ódio e da sede de vingança.A loira conseguiu tirar uma das espadas da mão de Cornélia, tornando agora uma luta mais equilibrada. E com a mão livre, a ruiva pegou um punhado de areia no chão e jogou na cara da irmã.
— ARGH! SUA VADIA! — Delilah deu vários tropeços para trás sem enxergar.
Aproveitando esse momento, Cornélia conseguiu desarmá-la, prendeu seu braço direito nas costas, a deixando imóvel e com uma espada na garganta, pronta para findar sua existência. Ela tentava se livrar do aperto, mas era impossível.
— Só uma última olhada, Delilah… — Cornélia sussurrou no ouvido dela — Sua tripulação toda está queimando, sabe por quê? — ela a forçou olhar na direção de Killian ajudando Lady Elisa a se levantar — Me julgou domada pelo meu ego, mas foi você que foi enganada pela própria soberba.
E sem que Cornélia esperasse, Delilah, num surto de ódio, a empurrou para trás. As duas perderam o equilíbrio e caíram no chão, rolando próximas à fogueira. E mesmo assim a ruiva se recusava a largar a irmã. Vendo que não teria outra escapatória, a mais velha tomou impulso e as rolou na direção do fogo.
Cornélia a largou antes de ser queimada e Delilah se levantou prontamente, puxando sua espada que estava jogada no chão.
— RECUAR! — ela anunciou, brandindo a espada contra a fogueira, lançando a lenha em chamas na outra.
Cornélia se encolheu para se proteger e nesse momento a loira aproveitou para fugir, assim como seus homens que estavam vivos, todos tomaram os cavalos e sumiram noite adentro, deixando o inferno para trás.
— NÃO PODEMOS DEIXÁ-LA FUGIR! — um dos marujos fez menção de segui-los.
— Cornélia? — Elisa foi até ela — Nós conseguimos pegá-la no mar se sairmos agora.
Mas ela não estava prestando atenção, seu olhar estava em um corpo no chão.
— Capitã? — Killian se aproximou — Nós vamos pegá-la… Vamos…
Mas a ruiva só ergueu uma mão, indicando que ele parasse de falar, e andou entre os corpos, os observando atentamente.
A tripulação a observava sem entender o que estava acontecendo, ela se abaixou e remexeu nas vestes chamuscadas de um dos mortos.
— Cornélia? — Elisa se agachou ao lado dela — O que está fazendo?
— Parte da tripulação dela não é pirata…- ela mostrou uma insígnia da marinha a ela — É militar.
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