Orquídea Vermelha
4 God Bless You
Notas iniciais

Logo após afundar a embarcação inimiga, jogarem os pedaços inúteis do navio que estavam espalhados pelo convés no mar e separar os corpos de seus marujos para uma despedida digna, todos no Queen Ann’s Revenge foram descansar.
Cornélia auxiliou Lady Elisa em seu banho, a coitada estava tão traumatizada que mal teve capacidade de limpar o sangue de suas próprias mãos.
— Senhorita… — ela encarou Cornélia, a cena era no mínimo engraçada, Lady Elisa estava encolhida no centro da tina redonda cercada por bolhas e espuma no topo da cabeça com os olhos arregalados, agarrada nos próprios joelhos — Eu matei um homem!
— Não, Elisa. — Cornélia repetiu pela milésima vez, revirando os olhos — Eu matei, você apenas se defendeu. Ele mereceu.
A ruiva estava sentada num banquinho ao lado da banheira, com o rosto apoiado numa mão, mais entediada impossível. Porém não ia deixar Lady Elisa sozinha naquela situação.
Após o banho mais longo da história, Cornélia a rebocou para sua cabine, serviu um chá calmante que foi feito por Killian e a deixou para dormir, convencida que devido às fortes emoções ela só acordaria no outro dia. Então a ruiva seguiu para o seu próprio banho e depois se recolheu em seus aposentos. Seu pai já havia informado que estavam no rumo para Nova Providência, uma ilha desabitada que ele usava como base de operações, para consertar o navio, dar um enterro digno para os que partiram e descansarem um pouco.
Já era muito tarde da noite quando a tripulação se acalmou e os feridos foram devidamente tratados. Cornélia abriu a porta de sua cabine para constatar que não havia mais ninguém no convés e então pegou dois saquinhos de cima de sua penteadeira e um outro que ficava num pequeno baú embaixo de sua cama.
Ela foi tranquilamente até a cozinha, porém se surpreendeu ao perceber que a luz estava acesa lá dentro e que provavelmente ainda havia alguém no local. Ela empurrou a porta lentamente e colocou a cabeça para dentro a fim de espiar.
Era Killian, ele estava encostado na bancada, com uma tigela de sopa apoiada no gancho, enquanto usava a colher com a outra mão, parecendo bem concentrado em sua alimentação. Cornélia ficou irritada e fez menção de voltar, sendo interrompida pela voz do pirata.
— Precisa de alguma coisa? – ele perguntou simplesmente, sem desviar os olhos de sua comida – Está com fome?
— Hum... Não. – ela respondeu de má vontade e entrou de vez na cozinha – Só vim preparar um chá.
Killian ergueu as sobrancelhas e assentiu, colocando a tigela em cima da mesa e se virando para ela.
— Precisa de ajuda? Eu posso fazer para você.
— Eu sei me virar sozinha. – ela passou direto e pegou uma chaleira no amontoado de panelas, a encheu com a água de um dos barris e colocou no fogo que ainda estava aceso.
Ela colocou os dois primeiros saquinhos em cima da mesa e ficou com o terceiro na mão. Killian esticou o pescoço para ver o que era.
— Canela com gengibre? Está com problemas na garganta? – ele questionou.
— Não. – ela respondeu impaciente, encarando a água e torcendo para que ela começasse a ferver logo.
Killian se limitou a dar de ombros, pegar sua tigela de sopa e continuou a tomando tranquilamente como se nunca tivesse sido interrompido. Cornélia o observava, irritada pela lerdeza proposital do homem, ela não o queria ali, xeretando sua vida.
Quando a água finalmente ferveu, ela jogou a canela e o gengibre dentro e deixou por mais alguns minutos, então apagou o fogo e pegou a chaleira, a colocando em cima da bancada. Ela se virou de costas para Killian e abriu o terceiro saquinho, retirou algumas folhas da planta que havia nele, jogou na água quente e o guardou no bolso de sua calça o mais discretamente possível. Cornélia mexeu os ingredientes na água antes de colocá-la na xícara e então usou um pouco de mel para adoçar o chá.
Notando que não se livraria do marujo nem tão cedo, ela sentou de frente para ele na pequena mesa da cozinha, sem dizer uma única palavra. Só então a ruiva notou os hematomas no rosto dele e um corte aparecendo em seu peito acima da gola da camisa.
Killian franziu o cenho, sentindo o forte cheiro do chá da filha do capitão. Então ele riu levemente ao reconhecer mais um ingrediente.
— O quê? – ela questionou, tomando um gole.
— Artemísia... – ele declarou simplesmente – Também conhecida como Erva da Lua ou Erva da Mulher. Soube que é muito usada para aumento da força feminina para trabalhos mais braçais, mas nunca vi ninguém usar... É bem adequada para a senhorita. Ela tem muitas propriedades! – Killian se empolgou – Alguns usam em bebidas alcoólicas, mas é ótima para gripes, cãibras, problemas no estômago... Mas o motivo principal para as mulheres não usarem é por ser potencialmente abortiva, assim como...
Killian parou de falar, como se seu cérebro estivesse processando alguma informação.
— Assim como o quê? – Cornélia ergueu uma sobrancelha, sem entender o motivo da pausa dele.
— Assim como Canela e Gengibre. – ele pendeu a cabeça de lado, olhando diretamente para os dois saquinhos que Cornélia deixou em cima da bancada, então voltou a encará-la – A senhorita está grávida?
— Mas é claro que não! – ela respondeu prontamente, se remoendo por dentro por não notar o quão astuto e inteligente Killian era.
— Então... Por quê? – ele insistiu.
Cornélia nunca gostou de conversa mole, ela sempre foi muito direta e explícita. E naquele momento, não via razão para fazer diferente.
— É uma prevenção. – ela admitiu – Eu não sei se estou realmente grávida, mas eu também não vou esperar para ver.
— O peso da maternidade a assusta? — ele questionou arqueando uma sobrancelha e tomando mais um gole de sua sopa, fingindo indiferença — Ou não quer ter um filho porque não sabe como ser uma mãe, uma vez que não tem uma…
— Eu não acho que o modo como vivemos é apropriado para uma criança. — ela desviou o olhar — E o fato de que não tenho uma mãe não influencia em mais nada na minha vida. E eu… Não me vejo tendo que cuidar de mais uma pessoa.
— Um modo muito eficiente de evitar a gravidez é não sair por aí se entregando para qualquer homem que passa pela sua frente. — Killian sugeriu naturalmente.
— Você não sabe nada sobre mim, então sugiro que fique calado antes que eu arranque sua língua. — Cornélia o advertiu com o maxilar trincado.
Os próximos minutos se arrastaram num silêncio extremamente desconfortável que era quebrado apenas pelo barulho da colher no prato do cozinheiro, até que ele decidiu arriscar sua sorte e fazer mais perguntas à Primeira Imediata, afinal, seu objetivo ali era tentar conquistá-la e assim conquistar seu próprio navio.
— A senhorita disse que não se vê cuidando de mais uma pessoa, de quem mais você cuida? — ele tentou manter o tom o mais neutro possível, não queria parecer muito invasivo.
— De certa forma, de todos por aqui. — ela suspirou — O que aconteceu hoje, essas mortes, foram por minha causa. Eu sei que meu pai é o capitão, mas sou eu a quem eles escutam nos momentos de conflito, eu preciso ter a consciência de que serão as minhas escolhas que trarão consequências.
— Eu acho que tanto o capitão quanto o resto da tripulação entendem os riscos que essa vida traz, a senhorita não precisa se culpar…
— Fui eu que hesitei em atacar primeiro. Floyd, Bernard, Horácio, Uthred e muitos outros poderiam estar vivos se não fosse a minha teimosia. — ela falou com pesar — Eles contavam com a minha liderança.
— Pelo pouco tempo em que estou aqui, posso afirmar que se não fosse pela sua liderança, tenho certeza que mais da metade da tripulação estaria morta. — ele deu de ombros.
Cornélia o encarou surpresa, não estava acostumada com elogios assim vindo de outros homens, especialmente dos marujos. Eles raramente valorizavam suas ações, preferindo fingir que o que ela fazia não era nada demais, porém se outro homem fizesse o mesmo ou até menos, era saudado. Ela se limitou a dar um meio sorriso e assentir.
Killian ergueu as sobrancelhas satisfeito por arrancar aquela reação dela. Antes que ele perguntasse mais alguma coisa, Cornélia se adiantou.
— E você, o que meu pai te ofereceu para você brincar de cozinhar aqui enquanto tenta, inutilmente, me conquistar?
— Er… — ele foi pego de surpresa, quase engasgou com a sopa — Ele, bom, eu…
— Está tudo bem, Jones? — ela sorriu, se divertindo com o nervosismo dele.
— Sim. — ele retomou a pose — É a primeira vez que a senhorita me chama por algo que não seja ofensivo ou desprezível.
— Não fuja da minha pergunta, urubu.
— Ele me ofereceu um navio, tão grande quanto o Queen Ann’s Revenge, todas as mordomias que eu tenho e você, que nas palavras dele, já deveria ser recompensa suficiente.
Cornélia sequer tentou segurar a risada, soltou uma alta gargalhada que provavelmente acordou o navio inteiro, ela riu tão gostosamente que acabou contagiando Killian.
— O velho está realmente desesperado. — ela falou quando conseguiu retomar o fôlego, enxugando uma lágrima que caiu — E não cansa de me tratar como um troféu…
— Por que a senhorita é tão contra a ideia de encontrar um marido?
— Porque eu simplesmente não quero um. — deu de ombros — Gosto de ser livre. Os homens têm o péssimo hábito de querer aprisionar tudo, principalmente pessoas. Meus pais se amavam muito, mas ela sempre esteve abaixo dele, submissa, dependente. É sempre assim, a mulher é a criatura inferior… Eu não acredito nisso.
Killian franziu o cenho, a cada segundo que passava com Cornélia, mais acreditava que ela tinha algum problema mental, suas ideias eram completamente fora da realidade, absurdas e sem fundamento. Como poderia argumentar com ela? Como poderia convencê-la de algo?
— Mas é assim que o mundo funciona. — ele insistiu.
— Não para mim. — a ruiva levantou-se, colocando a xícara no barril de louça suja e se virando novamente para ele — Agora com licença, porque se tiver algo dentro de mim e esse chá for fazer efeito, eu vou passar os próximos dias me contorcendo de dor e sangrando. Boa noite.
Ela nem esperou a resposta dele e saiu da cozinha, deixando Killian ainda mais perdido. Ele começava a acreditar que não seria capaz de cumprir sua parte do acordo com Barba Negra e decididamente não podia usar da força com Cornélia, tivera muitas demonstrações de que ela ganharia nos últimos dias. Ele precisava usar sua esperteza, porque sim, Killian Jones era deveras esperto e tinha consciência disso. Sem contar que nunca conheceu uma mulher que não cedesse à seu charme, não era possível que logo a mulher mais promíscua que existia seria imune aos seus encantos.
Depois de terminar sua sopa, ele foi para seus aposentos, decidido a começar a bolar algum plano no dia seguinte, quando estivesse descansado.
Dois dias monótonos se arrastaram com a velocidade de uma tartaruga aleijada. A tripulação do Queen Ann’s Revenge, ainda muito afetada pelo recente conflito, ansiava pelo momento em que o navio alcançaria Nova Providência, a ilha da qual Barba Negra era proprietário. Até mesmo Cornélia, cuja agitação era indisfarçável, demonstrava sinais de inquietação. O pobre Barba Negra, entristecido pelo navio arruinado, ainda tinha de lidar com a azucrinação promovida pela filha.
— Cornélia, pelo amor de Deus! — reclamara ele, quase vinte e quatro horas depois de terem trocado farpas com o navio inimigo — Estamos todos abalados pelo recente acontecimento, faça o favor de controlar seu gênio!
— É exatamente por isso que esses molengas se arrastam com as tarefas, o senhor lhes passa a mão na cabeça — retrucara ela, afetada.
O novo cozinheiro, intrometendo-se, pigarreara.
— Desculpe-me, senhorita, mas se bem entendi, a senhorita está sugerindo que os marujos devem remar com força de modo a agilizar o deslocamento?
— Exatamente, cozinheiro! Se o mastro arruinado nos deixa em desvantagem, nossa única opção é somar força braçal à força do vento.
— Mas isto é inadmissível, Cornélia! — bradara Barba, em tom exagerado — Como pode obrigar os pobres coitados a tal esforço? Estão ainda abalados pela recente perda dos companheiros. Pobre Floyd, era tão bom cozinheiro…
— Já que vai choramingar, me dê licença para resolver problemas mais importantes — e ela saíra pisando duro, batendo todas as portas que atravessava.
Era fato que Cornélia por vezes soava como uma pessoa desprovida de empatia e compaixão. Ela, no entanto, usava a aparente frieza como máscara para ocultar sua vulnerabilidade. Era claro que ela estava também abalada por jogar companheiros ao mar, mas não demonstraria afetação diante de tantos homens: eles já eram suficientemente machistas em sua presença, não daria a ninguém a chance de tentar aproveitar-se de suas fraquezas.
Agora o navio era embalado por uma forte correnteza que acabou sendo bastante vantajosa. Barba calculara que levariam bem uns três dias para alcançar Nova Providência, mas venceram a distância com uma rapidez de impressionar. O Queen Ann’s Revenge era mesmo um navio admirável, até mesmo estando com metade do pavimento superior destruído.
— Ah, jovem Killian! — animou-se o Capitão, vendo o cozinheiro atravessar o convés para espiar o que era a agitação entre os marinheiros — Venha ver, meu rapaz!
Aceitando a luneta que Barba lhe oferecia, o cozinheiro avistou ao longe uma porção de terra que se estendia por uns dois quilômetros. Se tratava de uma ilha, na qual, entre vegetação, erguia-se uma habitação com jeito de castelo; uma torre, tão alta quanto as mais altas árvores. Rochedos ornavam toda a porção oeste da ilha e havia um atracadouro na praia em frente à torre.
— É Nova Providência, minha propriedade! — Barba estufou o peito, orgulhoso — Não é mesmo uma beleza?
— É sim, senhor! Presumo que este seja o motivo para tanta animação…
— É claro! Estes vermes sentem falta de casa! Até mesmo Cornélia está subindo as paredes em agitação.
“Talvez eu devesse fazê-la subir as paredes também”, pensou Killian, mas nada disse.
O Capitão berrou por Smee, ordenando ao mesmo que fosse ajudar Lady Elisa a se aprontar. A moça, porém, dedicada como era, já ajuntara seus pertences à porta de sua cabine. Barba suspirou, balançando a cabeça.
— Ah se Cornélia fosse como Lady Elisa… Seria um primor de filha…
Alguma coisa fora jogada no chão ao lado do Capitão. Ele e Killian se assustaram.
— Por que não a adota, já que a considera tão primorosa? — a ruiva afastou os cabelos do rosto, irritadiça.
— Talvez eu devesse! Quem sabe assim você valoriza o pai que tem? Meus pobres nervos… Não tem piedade de seu pobre pai?
— Ora, que dramalhão! Devia se envergonhar de prestar esse papel diante do maneta travestido de urubu — ela se voltou para Killian — Não vai querer esse aí como sogro, não é? Se eu fosse você, daria o fora tão logo repararmos o navio.
E, antes que Killian pudesse responder-lhe, desapareceu dentro da cabine de Lady Elisa.
— Não desista, meu caro! — disse Barba Negra em tom de súplica — Cornélia não é sempre assim… Ela só está fazendo um tipo para tentar afastá-lo.
O cozinheiro não estava nada convicto disso.
— Perdão, senhor, mas no pouco tempo que me encontro neste navio, posso afirmar com certeza que Lady Cornélia é assim por natureza. Nada que não possa ser consertado, é claro.
— Estou certo de que será capaz de domá-la, meu jovem.
— Ora, não faça tanto drama! Pretende continuar enfurnada na cabine? — Cornélia tentava trazer Lady Elisa para fora. Desde o episódio com os dois homens que a assediaram, ela se encontrava em uma espécie de choque pós-traumático. Recolhera-se a solidão de seus aposentos, dos quais se recusara a sair por dois dias.
— Pode vir, Elisa! — Smee dizia gentilmente — Fora os resquícios de destruição, tudo se encontra perfeitamente normal.
— Coitadinha, ainda está transtornada! — o capitão deu tapinhas no ombro de Killian — Com licença, meu jovem, creio que terei de acalmá-la.
Quando o cozinheiro viu todos se amontoando ao redor de Elisa, ele percebeu que o comportamento era meio exagerado, afinal, se a moça vivia no navio há um tempo, não deveria mais se impressionar com casos como aquele.
— Cansei, ela levante-se quando quiser. — Cornélia revirou os olhos para o pai e Smee mimando Lady Elisa e saiu de perto deles.
— Ora, nada fora do comum numa mulher chorando as pitangas por causa de um pouco de sangue espirrado em seu vestido… — ele comentou pressionando os lábios, com um leve tom de deboche.
A ruiva o encarou com uma expressão que mais aparentava uma possessão demoníaca. No mesmo momento, o rapaz se arrependeu de ter feito tal comentário.
— Creio que até mesmo um machão como você choraria as pitangas quando se visse em posição vulnerável, diante de dois homens com o dobro do seu tamanho, arrancando suas roupas de modo a estuprá-lo. Como é que se sentiria, cozinheiro?
— Eu… não sabia que era esse o caso…
— Pois devia aprender a não julgar o que não conhece!
E a moça se afastou em passos rápidos, substituindo o marujo que se encontrava ao leme.
A essa altura, estavam próximos de atracar, os marujos fazendo estardalhaço diante da animação de um merecido descanso. Alguns deles tentavam convencer ao Capitão que desse uma festa em homenagem aos tripulantes mortos e o mesmo parecia considerar o pedido. No entanto, Cornélia fez questão de lembrá-los de que não esperaria menos do que o empenho de todos em restaurar o navio, frisando que não aturaria corpo mole daqueles que exagerassem no rum.
Quando o Queen Ann finalmente deslizou até o atracadouro, a energia dos tripulantes agilizou o processo de desembarcar pertences e mercadoria saqueada. Após muita insistência, Lady Elisa finalmente irrompeu da cabine, os olhos imersos em olheiras, como se não dormisse há dias.
— Está parecendo um fantasma, Elisa — comentou Cornélia, evitando uma risada.
— Cornélia! — ralhou Barba, acrescentando, paternal — No entanto, devia mesmo tomar sol, querida, está muito pálida. Smee, descarregue a bagagem de Elisa.
— Não sabia que Elisa era aleijada, a ponto de não poder descarregar a própria bagagem.
— Cornélia! Vá tratar de suas obrigações e pare de implicar com Elisa.
Vendo o modo como Barba Negra tratava senhorita Elisa, Killian estava pensando que talvez, apenas talvez, no fundo Cornélia se sentisse enciumada. Ela passou por ele feito um furacão, ignorando totalmente a sua presença. Culpado pelo comentário que fizera há pouco, o cozinheiro foi ajudar Smee com os pertences de Elisa, que, muito agradecida, abriu-lhe um enorme sorriso.
— Sabe, Capitão, ele parece diferente dos outros pretendentes — comentou.
— É claro, lhe falta uma mão!
— Não, digo em personalidade — riu ela, divertindo-se — Arrisco dizer que domará o mau gênio de Cornélia.
— Esperemos que sim, Elisa, esperemos que sim…
Smee atravessou o convés da direção dos outros dois, dirigindo-se à Barba Negra.
— Capitão, o que é que faremos com o padre? Cornélia o manteve preso com os outros prisioneiros de guerra no porão, mas acredito que devamos levá-los às masmorras do castelo.
— Padre? — Barba franziu o cenho — Mas que padre, homem?
Três marujos vinham arrebanhando um grupo de seis homens, todos imobilizados por correntes. Entre eles estava o padre cuja vida fora poupada. Suando dentro da batina, ele estava com expressão de quem ia desmaiar.
— PADRE TOBIAS! — guinchou Lady Elisa repentinamente, atraindo a atenção de todos os que estavam à sua volta.
— Lady Elisa?! — o padre espremeu os olhos, fazendo força para enxergar sob o sol que lhe atrapalhava a visão — O que a senhorita faz aqui?
— Capitão! Como é que puderam escravizar o padre? É um homem do Senhor, ministra o trabalho de Deus na Terra!
— Acalme-se, Elisa! Querem me explicar quem é esse, o que faz no meu navio e por que diabos a senhorita o conhece?
Todos se puseram a falar ao mesmo tempo. Smee explicava que o padre implorara pela vida e que, diante do pecado que seria matá-lo, resolveram poupar-lhe; Lady Elisa ia dizendo que o conhecia da época em que vivia com as bondosas freiras que a haviam criado; o padre, por outro lado, resmungava o quão absurdo era o fato de uma moça tão prendada estar vivendo entre uma corja de piratas.
— ...inclusive, foi ele quem me batizou, me introduziu à religião e celebrou a minha missa de eucaristia…
— ...e Cornélia, é claro, considerou que era prudente deixá-lo preso junto aos outros, visto que, apesar de padre, bem poderia fazer algo contra nós…
— ...inadmissível! Como é que puderam deflorar a inocência de uma alma tão bondosa e…
— Mas que barraco de fim de feira é esse? — Cornélia brotou entre as pessoas, os empurrando para o lado sem a menor cerimônia, e todos se calaram diante de sua presença.
— Esperava que você me explicasse. — Barba cruzou os braços encarando a filha — Já que, aparentemente, foi sua ideia trazer um padre no navio.
— Aaah, isso? — ela apontou com desdenho para o homem desesperado — Os marujos começaram a fazer drama, dizendo que não podíamos matá-lo, então eu mandei que o trouxessem a fim de deixá-lo no próximo local que atracarmos, porém o mantendo preso para evitarmos surpresas. Qual o problema?
— Cornélia! Eu conheço o Padre Tobias. — Lady Elisa se virou para ela — Ele não faria mal à uma mosca! Foi ele que fez minha crisma! Foi uma cerimônia tão bonita, por sinal…
— Não me interessa! — Cornélia ergueu uma mão e a moça se calou na hora — Tanto faz o que farão com o padre, só parem com essa perda de tempo e continuem descarregando o navio.
E dizendo isso, ela rodopiou nos próprios pés, atingindo o rosto de um marujo ao lado com seus cabelos esvoaçantes, pegou sua mala no chão, colocou debaixo do braço e na outra mão carregava suas duas espadas, e saiu caminhando rapidamente em direção à rampa que dava acesso ao pequeno cais da ilha.
— Mas o que faremos com um padre? — Barba Negra resmungou sozinho, com os dentes trincados, se roendo por causa da teimosia da filha.
— Ele ficará fora do seu caminho, capitão. — Lady Elisa garantiu — Sr. Smee, pode soltá-lo, eu garanto que não fará mal à ninguém.
O Segundo Imediato olhou para o capitão, como se pedisse sua permissão, e o mesmo só abanou a mão indicando que ele fizesse o que bem entendesse.
— Muito obrigado, minha filha! — o padre olhava emocionado para Elisa — E sinto tanto que esteja nessa situação, vejo como está abatida…
— Isso não foi nada, padre. — ela deu um fraco sorriso e desatou a contar a história de como chegara ao navio.
Cornélia desceu a rampa marchando energicamente, empurrando sem dó nem piedade os marujos que desciam cuidadosamente com a carga, chegando a derrubar um pobre coitado na água quando esbarrou com sua mala nas costelas do homem.
Killian deu uma leve risada com a cena, pensando que Cornélia era mesmo uma figura peculiar. Ele a observou se afastar animadamente em direção à entrada da torre do local que era menor que um castelo, mas tão majestoso quanto. A ilha era, de fato, muito bonita, parecia saída de algum sonho ou algo assim, a vegetação tinha cores vibrantes e a água ao redor era cristalina.
O objeto que mais atraía a atenção, porém, era a torre. Vista de perto, sua altura colossal era de se perder de vista: o jovem Killian quase não conseguia avistar seu topo sem sentir vertigem ao jogar a cabeça para trás.
— Venha, jovem Killian, o capitão mandou que eu mostrasse os seus aposentos. — Sr. Smee o chamou e juntos saíram do navio.
Lady Elisa ainda tagarelava com o padre, que estava inconformado com toda a situação, quando entraram na torre. O jovem cozinheiro olhou ao redor, impressionado com a arquitetura do local, nunca estivera em um lugar como aquele, as paredes eram de pedras escuras, mas haviam tantas janelas que o ambiente era claro.
Marujos se deslocavam de um lado para o outro, às ordens de Cornélia, que não parara de gritar desde que pusera os pés no atracadouro. Encontravam-se numa área ampla, de pé-direito alto e na qual havia uma escada de acesso aos níveis superiores. Barba Negra subira os degraus energicamente, com Cornélia, em seus calcanhares. Com um gesto para que o seguissem, Smee levou Killian e o padre em direção aos fundos da galeria.
Anexa à torre, havia uma habitação que se parecia com uma casa de fazenda. Ali os marujos se dividiam em quartos simples que, em todo caso, apresentavam camas melhores do que as desconfortáveis redes disponíveis no navio. Como de praxe, os homens brigavam pelos colchões que não estavam carcomidos, trocando impropérios; o suficiente para que padre Tobias arregalasse os olhos, agarrando a cruz que carregava ao pescoço.
— O senhor ficará entre os marujos — Smee se dirigiu a ele — Sendo conhecido de Lady Elisa, foi o melhor que o Capitão poderia lhe oferecer. Bem, pelo menos tão melhor do que o chão duro de pedra das masmorras.
— Deus o abençoe! — retrucou polidamente o padre, meneando o sinal da cruz na frente de Smee — Comparado ao navio, este quartinho é muito acolhedor.
Sorrindo ao padre, Smee se afastou com Killian. Toparam com Lady Elisa, que vinha verificar se as acomodações do padre eram satisfatórias.
— Não entraria aí se fosse a senhorita — aconselhou Smee, bloqueando a passagem — Cheira a mofo e fossa!
— Padre Tobias devia ficar lá em cima! — indignou-se Elisa — Vou ter uma conversa com o Capitão!
Abanando a cabeça, Smee conduziu o cozinheiro em direção a uma escadinha circular que levava ao subsolo. Apanhou antes uma tocha, com a qual acendia os archotes que encontrava pelo caminho.
— Sinto que Lady Elisa se apegará muito ao padre. Quem sabe, talvez até decida abandonar o navio com ele…
— Ela me parece obstinada na tarefa de mudar Cornélia, pelo o que pude observar. Garanto que pensará duas vezes antes de desistir dessa missão… Onde é que essa escadinha vai dar, senhor?
— No seu ambiente de trabalho!
Tão logo a cozinha se iluminou, Jones abriu um sorriso. Ao contrário do que estava acostumado, este espaço era amplo, convidativo e bastante agradável. Um enorme forno de pedra dividia espaço com uma pequena lareira e mesas à guisa de bancada. Pendendo do teto, ervas já apodrecidas espalhavam no ambiente um aroma acre que perturbava as narinas. Restos de carne suína se acumulavam pelo chão manchado de sangue, o que, somado às ervas, emitia um cheiro de espantar cachorro.
— Pobre Floyd — murmurou Smee, balançando a cabeça ante a situação da cozinha -, não estava mesmo em condições de ministrar a função de cozinheiro.
— Bom, eu posso organizar e limpar, não tem problema. Aquilo é a cabeça de um porco?
— Porco selvagem. Vivem na ilha, são terrivelmente difíceis capturar, mas o Capitão aprecia a carne. Todos nós, na verdade.
Killian estava observando a diversidade de caçarolas e caldeirões amontoados a um canto. Alguns estavam quase como novos, enquanto outros, empretecidos pelo uso. Ele ainda perguntou a Smee qual era o conteúdo dos barris empilhados a um canto.
— Água potável! Os barris de rum ficam no porão. A entrada é por essa portilhola à direita.
— Imaginei que houvesse uma despensa…
— Havia! — Smee se afastou em direção a um pequeno corredor, no fim do qual havia uma porta — O Capitão me autorizou a transformá-la em meus aposentos. Sendo Segundo Imediato, tenho o benefício de um quarto individual.
Não era tão minúsculo quanto o esperado. Uma cama de madeira esculpida se encontrava no centro, um grande baú aos seus pés. Havia uma mesinha circular com duas cadeiras e um guarda-roupa pesado com uma porta solta.
— Me parece inferior ao que um Imediato devia merecer — comentou Jones, esquadrinhando o cômodo — Sem mencionar o abafamento…
— Detalhes, meu caro! Para mim, é mais do um homem solteiro pode desejar… Vamos aos seus aposentos!
Subiram dois lances de escada. Smee tagarelava animadamente, afoito pela chegada à ilha. O primeiro pavimento da torre era dividido em dois cômodos, entre os quais atravessava um corredor. Espiando pela porta à direita, Killian viu Cornélia dispondo suas armas em fila, como quem prepara uma exposição. À baixa luz do quarto, ele viu uma cama de lençóis negros. Tão logo notou o olhar do moço, a ruiva chutou a porta, que se fechou com um baque.
— Como deve imaginar, o quarto à esquerda é o de Lady Elisa — comentou Smee, indicando a outra porta no corredor. Iniciaram a subida de outro lance de escada — Barba Negra ocupa o maior quarto da torre. O seu fica logo ao lado.
Pelo o que Killian podia presumir, o Capitão se preparava para um banho relaxante. Marujos subiam carregando pesados baldes de água e Barba ralhava toda vez que alguém derramava parte de seu conteúdo.
— Smee, já mostrou os aposentos ao jovem Killian? — ele surgiu à porta, trajando apenas as calças — Ah, meu jovem, aí está você! Vou me recolher a um banho morno, Smee improvisará o que desejar… Aconselho que tome também um banho, de modo a livrar-se dos resquícios de batalha que por ventura ficaram em seu corpo. Não que Cornélia se importe, é claro, mas pode ser que ela tenha uma boa impressão, vendo-o cheiroso e bem arrumado.
— Sim, senhor…
— Não, Thomas, seu idiota! O perfume é para as roupas e não para a água — e o homem desapareceu novamente no cômodo, sem sequer despedir-se dos outros dois.
Alcançaram, por fim, as acomodações destinadas ao cozinheiro. Acostumado a dormir em redes no deque utilizado pelos marujos no navio, o rapaz boquiabriu-se diante do que lhe era oferecido. Não se tratava de uma habitação pomposa e ampla como aparentavam ser a de Barba Negra e Cornélia, mas tão mais do que ele acreditava merecer.
Uma cama macia e duas janelas de esplêndida vista o convidavam ao frescor do cômodo. Smee fez questão de frisar que o guarda-roupa estava abarrotado com as roupas usadas de Barba Negra, que Lady Elisa tivera a bondade de ajeitar ao tamanho do rapaz. Uma pequena lareira fora acesa minutos antes e, sob uma mesinha abarrotada de coisas, havia uma garrafa de um dos melhores runs da adega particular do Capitão.
— Senhor Smee — exclamou Jones, emocionado — É muito mais do que eu sonhei merecer… Muito obrigado!
— Agradeça ao Capitão, rapaz. E, acima de tudo, ao fato de ele ter simpatizado com a sua pessoa.
O rapaz concordou com um aceno de cabeça, pensando que, caso Cornélia o rejeitasse, seria privado de muitos benefícios…
Um tempo depois, Cornélia se encontrava o mais afastada possível, dentro da mata, num lugar onde a vegetação era tão densa que nem do ponto mais alto da torre seria possível visualizar, numa pequena estufa. Ela abriu a porta do local que tinha paredes de rede de vine e estrutura de bambu e parecia uma cabana primitiva e adentrou com ansiedade.
— Olá, meus bebês. — os olhos da ruiva brilharam ao se deparar com suas várias plantas de estimação espalhadas pelo local e ela abriu um enorme sorriso — Saudades de vocês!
Ela passou pela infinidade de espécies, colheu um hibisco amarelo e colocou no cabelo e foi de vaso em vaso, planta em planta, analisando e vendo se havia algo de errado com alguma delas. Ela despejou água nos vasos de Strelitzia, colocou suas orquídeas embaixo dos raios solares e em seguida parou para sentir o cheiro das plumerias, enquanto mudava suas alpínias para um local mais ventilado.
Quem visse Cornélia daquele jeito, certamente pensaria que estava louca, possuída ou até mesmo sob o efeito de entorpecentes.
— Queria poder levá-las comigo no navio. — ela sentou em cima de uma mesa e pegou um pequeno vaso com um cacto minúsculo com carinho — Mas não é um ambiente propício para vocês, principalmente para as que vieram de mais longe, como você, Bob.
Ela ficou um bom tempo entre as flores, contando suas últimas aventuras. Cornélia gargalhou em alguns momentos, coisa que poucos a viram fazer em sua vida toda e ela também chorou, algo ainda mais raro.
— E eu, toda… teimosa… — ela falava entre soluços — Deixei que eles morressem! E ainda tenho que aturar aquele urubu! Eu não quero me casar… Eu só queria viver em paz… Que meu pai entendesse
Ela chorava inconsolavelmente, agarrada no vaso do cacto Bob. Cornélia usava aquele ambiente para descarregar o que quer que estivesse a sobrecarregando de alguma forma. Fosse raiva, tristeza ou até mesmo felicidade. Nenhum ser humano era capaz de aguentar tanto dentro de si por tanto tempo, mas ela sabia que não devia, não podia, desmoronar na frente de pessoas, elas apenas espreitavam esperando o menor sinal de fraqueza para explorar. Por isso a jovem tinha como confidentes suas amadas plantinhas, que ela julgava serem melhores que qualquer ser humano na terra.
Depois de desabafar por mais de uma hora, ela decidiu voltar para a torre, não queria que começassem a procurar por ela e a encontrassem em seu lugar tão amado, secreto e especial.
Tomando o mesmo caminho de ida, uma passagem secreta no subsolo da torre, um túnel que era usado para descarte de dejetos. Era um caminho difícil e que exigia a quem passasse por ali muita força para suportar o mal cheiro ou que segurasse bem sua respiração. Mas Cornélia preferia lidar com aquilo do que com alguém descobrindo sua estufa.
Ela chegou no saguão do castelo, quando passou pela portinha que levava unicamente à passagem, se deparou com Killian, Barba Negra, Lady Elisa, Sr. Smee e o padre a encarando com desconfiança.
— O que estão olhando? — ela perguntou, tentando parecer despreocupada, fechando a porta atrás do corpo.
— O que estava fazendo aí? — Elisa questionou com cara de nojo.
— Será que posso esvaziar meu urinol sem atrair a curiosidade alheia? — a ruiva cruzou os braços.
— Cornélia, mas por que raios você foi fazer algo tão nauseante quando há marujos para fazerem por nós? — Barba perguntou sem paciência.
— Eu não preciso de homens… — ela já ergueu o dedo com uma resposta ousada na ponta da língua, mas foi interrompida por Killian.
— E cadê o urinol?
— Quê?
— Você disse que desceu para esvaziá-lo, onde está? — ele ergueu uma sobrancelha.
— Eu… — ela estreitou o olhar, caçando uma desculpa em sua mente — Joguei lá mesmo! Inclusive, capitão, vou precisar de um novo!
— Mas por que você fez isso? — Barba indagou com um tom de desespero
— Porque sim! Parem de se meter na minha vida!
E ao dizer isso, ela saiu marchando antes que alguém tivesse a chance de questionar mais alguma coisa. Barba apenas suspirou e seguiu para a cozinha acompanhado de Smee, Lady Elisa desatou a tagarelar com o padre e Killian ficou olhando na direção em que a ruiva seguiu.
— Lady Elisa… Ela estava chorando?
— Hã? — a moça se virou para ele — Por que está perguntando isso? É claro que não!
— Seus olhos estavam vermelhos e inchados, não notou?
— Não! — ela riu — Mas é bem provável que se estivessem, foi por causa do mal cheiro e não porque Cornélia estava chorando… Ela nunca chora.
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