Orphan Circus
4 Capítulo 4 - Merlin sem-rosto
Rino chegou no fim do corredor, o garoto estava junto de Rogers, pareciam estar conversando sobre alguma coisa dele, pois pararam quando se aproximou.
– Rino! Que bom que chegou aqui, conheça Merlin! Seu novo colega de quarto! — Ela segurou o loiro alto pelo o braço esquerdo.
–P-prazer... — Olhou como se nunca tivesse visto-o antes. Estendeu a mão direita calmamente.
Ele hesitou, sua respiração nervosa era escutada sem o menor esforço. Quase que uma asma mortal. Ambos ficaram encarando um ao outro, a senhora não entendeu nada e tentou quebrar o silêncio.
–Creio que... vocês vão se dar bem juntos. — Ela cruzou os braços enquanto lançou um olhar que dizia "Vamos, aperte logo!" para Rino, que logo captou o recado e apertou rapidamente a mão do novo amigo, que saltou para trás. — Se acalme, Merlin! Ele só apertou sua mão!
–É! Relaxe, quer ir conhecer seu novo quarto? Eu te levo até lá! — Sorriu alegremente enquanto coçava a nuca esperando alguma resposta.
Ele apenas acenou, era horrível conversar com aquele loiro pois era difícil saber o que ele estava sentindo ou expressando por conta da máscara. Rogers deu leves tapinhas em seu ombro, sinalizando que estava tudo bem, que não tinha o que temer. Ela foi caminhando para o lado oposto, talvez chamar Ellie para ajudá-la com os biscoitos do café, ou talvez apenas para ver os patinhos na lagoa limpa e cristalina. Os garotos ficaram sozinhos no corredor, parados.
–Então... Seu nome é Merlin, certo? — Perguntou apontando para ele.
Merlin acenou levemente, apertando a alça da mala com mais firmeza. Rino percebeu que sua camisa cinza estava encharcada de suor, devia ser por conta da corrida anteriormente, tentando fugir dele. O moreno fez uma cara de desaprovação, observando os olhos piscaram no meio daquela coisa bizarra que usava. Viu que eram azuis, parecia o lago que vira pela manhã. Coçou os olhos junto ao um bocejo.
–Está com sono...? — Finalmente disse algo, parecia menos nervoso, isso assustou o rapaz.
–Ãh? — Encarou-o, surpreso. — N-não... é que eu sofro de insônia, fico horas sem dormir.
–Oh...
–Você não me disse qual seu problema! É sociofobia? Esquizofrenia?
Ele recusou todas suas hipóteses, começando á andar. Rino foi atrás.
–Mas... você é recluso... Hm...
–Qual é o quarto?
–Uh?
–Qual o nosso quarto? — Perguntou um pouco irritado.
–Está bem do lado dele! — Abriu com animação, revelando o cantinho que já não era mais tão solitário.
Merlin deu alguns passos para trás, olhando tudo em volta muito surpreso, levou as mãos até o rosto. Ele queria saber qual expressão estaria esboçando naquela hora. O menino loiro foi até a cama e colocou-a com delicadeza na cama, se ajoelhou sobre o chão, rezando. Rino não perguntou nada, ficou em silêncio esperando. Ele fez um sinal da cruz, se levantando e virando-se para o colega que estava mordendo um lápis qualquer.
– Muito obrigado por dividir este lugar comigo!
– S-sem problema, cara...! — Levantou uma sobrancelha. — Agora, me diga, qual seu transtorno! — Antes de qualquer coisa ele foi até a porta e fechou para que ninguém passasse, ouvisse eles conversando.
Merlin se sentou no chão sem fazer menção, já Rino continuou transitando pelo o quarto, não adiantava de nada ficar encarando o rapaz se mal sabia o que sentia, além do mais aquela máscara era assustadora.
– Nunca frequentei a escola, aprendi tudo em casa... Morava só com minha mãe, meu pai se separou dela um ano depois que nasci. Dizia que não poderia sustentar duas bocas ao mesmo tempo. — Soltou uma risada dolorosa. — Engraçado, não é? Tinha dinheiro para pagar prostitutas caras, mas sem dinheiro para cuidar de sua própria família! Agradeço por não ter conhecido-o... — O moreno olhou assustado e ao mesmo tempo triste. — Ela queria viajar para o sul, ver os avós, mas graças ao meu problema, não poderia! — Suas mãos começaram a tremer. — Aí...aí... — A cara de gatinho pingava água de novo, dessa vez infelizmente não era suor. — Minha avó ligou... — Olhou para Rino que estava perplexo. — O avião... ele caiu...
Merlin se curvou com as mãos na máscara, já chorando bastante. O garoto não sabia o que fazer, não saberia qual seria sua reação caso lhe tocasse. Permaneceu quieto, olhando-o chorar após lembrar do trauma.
–Você... tem... Síndrome do Pânico? — Perguntou sorrateiramente.
– NÃO VÊ?! NÃO VÊ QUE EU MAL CONSIGO OLHAR PARA UMA PESSOA SEM ENTRAR EM DESESPERO?! — Gritou de maneira repentina, que fez Rino dar um pulo de susto.
– M-mil perdões... — Disse se aproximando dele. — Eu também perdi meus pais... — Tocou em seu braço, Merlin notou e deu um soco em seu rosto, assustado.
Ele caiu no chão com a boca sangrando, depois que entendeu o que havia feito, se levantou para correr, mas ele não iria deixar desta vez, de forma alguma. Segurou suas pernas, cuspindo sangue. Olhou para ele com a marca da porrada na cara.
– Pare de correr de tudo! Por que faz isso?
– Me solta! — Suplicou para que ele o largasse, em lágrimas.
– Merlin, não adianta ficar fugindo toda vez que se assusta!
– Você acabou de me conhecer! Como pode querer me ajudar?!
– Por que dá pra ver no seu rosto!
Ambos travaram naquele momento, viraram estátuas trêmulas. Merlin e Rino se encarando, um sangrando e outro realmente desesperado.
– Por favor... me solta... Eu não estou me sentindo bem... — Disse chacoalhando a perna.
– Eu não vou soltar enquanto aceitar minha ajuda! — Falou profundamente sério.
– E-eu... — Meio que de forma previsível, mas ao mesmo tempo imprevisível, o rapaz ficou com o corpo mole e virou uma árvore que acabara de ser cortado, caindo e caindo ao encontro do chão. Seu coração havia parado de bater por alguns segundos...
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