Orleans
20 Capítulo Extra - You are my Sunshine
Shakespeare era um homem sábio. Disso não tenho dúvida alguma. Olhe só o tamanho da biblioteca que seus livros podem montar quando colocados um do lado do outro, repletos de romances, com direito a risadas e lágrimas, aventuras e tragédias, ensinamentos e poesias. Mas sabe uma coisa que “O Homem” sempre conseguiu ganhar na minha admiração? Ele parecia conhecer muito bem, de todas as formas, o coração das pessoas.
Tudo bem, eu não sou nenhum conhecedor sábio escritor imortalizado por todas as eras da humanidade. Mas admito que sei uma coisa ou outra, nada de mais, nada incrível — sobre o coração — principalmente daqueles mais próximos de mim.
Por exemplo: quando Mary Candace, minha professora de aulas extras de violino, teve uma crise de paixonite injustificada por Clarence Jonhson, o jardineiro australiano que minha mãe contratou na ausência de Leo; fui o primeiro a notar. Claro que a senhorita Candace não era lá muito discreta, mas era reconhecível o modo como os lábios dela se comprimiam naquele batom gasto cor de rosa que insistia em usar nas nossas aulas de todas as terças.
Ela não era mais tão jovem, nem tão velha, mas tinha alcançando aquela idade que algumas mulheres mais tradicionais costumam estampar certo desespero em ser amorosamente correspondidas. O problema não era exatamente esse, afinal o senhor Johnson também me parecia bem desesperado, principalmente quando se encontravam nas escadarias e ele não sabia onde esconder as mãos com unhas encardidas de terra.
Sabe, unhas encardidas de terra são um troféu particular muito comum entre amantes da jardinagem. A não ser que você seja uma senhorita. Nesse caso em particular, unhas pintadas com cores fortes são altamente recomendadas — ou pelo menos, é o que minha mãe diz. “Nunca se sabe quando uma visita para o chá pode aparecer enquanto se afofa um saco de esterco ao redor de petúnias preciosas, não é?”
Não que eu não goste de senhoritas. Ou de petúnias. Vocês entenderam.
A questão é que, quando percebi o desarranjo entre aquele possível casal desencontrado que estava frequentando minha casa, achei que tinha de tomar uma decisão para o bem de todos. Sigam o meu raciocínio:
Todas as terças a partir das dezesseis horas, a senhorita Candace chegava de táxi até a frente das escadas de casa e enquanto pagava suas oito libras pela viagem, procurava com o canto dos olhos entre as touceiras e arbustos, além das cercas vivas e do gramado até encontrar o claro sinal de que o senhor Johnson estava por ali. Então ocasionalmente eles trocavam um olhar, um meio sorriso, um aceno desajeitado, ela pegava suas coisas e subia os degraus para passar o restante de suas próximas enfadonhas duas horas comigo.
Não me considero enfadonho, ao inverso. Mas era bem claro que a senhorita Candace me achava a coisa mais tediosa e difícil de aturar em toda sua vida, visto que seu olhar sempre se perdia pela janela da sala de música e algumas vezes eu podia errar muito mais de cinco notas em seguida antes que ela notasse que eu ainda respirava no mesmo ambiente que ela.
Por isso, decididamente, era a hora de começar a fazer as coisas funcionarem.
Entendam: eu realmente me orgulho muito das minhas habilidades discretas em conseguir algumas coisas que quero. Como por exemplo, fazer Leo me trazer torta de nozes quando passa pela cozinha ou minha mãe se lembrar “por acaso” de que preciso de um conjunto de cordas novas. E dentre as minhas habilidades ocultas posso citar a querida “HARECA”: Habilidade Adorável de Reunir Entusiasticamente Corações Apaixonados.
Sim, fui eu quem batizou assim. Não tinha coisa melhor, caso perguntem, mas Collins insiste que na época dele as pessoas me chamariam de casamenteiro. Técnico em HARECA soa muito melhor.
Meu plano foi bem simples: nas semanas seguintes, todas as minhas aulas extras de violino seria recebidas no pequeno coreto perto das estufas, exatamente no caminho depois do jardim principal e primordialmente antes da entrada para a cozinha. Um lugar perfeito para uma fuga rápida e um encontro quase ao acaso.
Na primeira aula, Mary Candace teve uma estranha crise de tosse que a obrigou a ir embora às pressas. Collins disse que eu podia ter matado a moça se ela fosse alérgica a pólen (já que o coreto ficava ao redor da maior quantidade de margaridas possível), mas no final das contas descobrimos que foi a visão do senhor Johnson que causou o mal estar.
O caminho era exatamente aquele.
Bastaram mais algumas semanas, esbarrões, dois convites para o chá, três crises de tosse e um tombo no meio do canteiro de rosas, para o senhor Johnson tomar coragem de convidar a senhorita Candace para jantar. Ele até me consultou se deveria levar ela a algum pub mais conhecido, mas minha mãe deu uma dúzia de endereços diferentes com boa comida e poucos velhos bêbados para atrapalhar qualquer conversa que eles conseguissem ter.
Pouco antes da minha viagem para Nova Iorque, a senhorita Candace ligou para avisar que outra pessoa tomaria o lugar dela quando as aulas recomeçassem. Pelo visto ela estava de mudança para Melbourne ou alguma coisa parecida.
Ela nem me convidou pro casamento. Mal agradecida.
Minha mãe não me perdoou por ter que contratar outro jardineiro enquanto Leo não voltasse pra casa. Ossos do ofício.
Portanto, vocês podem imaginar o quanto meu cérebro fervilhou quando meu irmão entrou pela porta da nossa casa na Rua 35, trazendo com ele um copo de raspadinha azul e todo o mau humor disponível por ter salvado a “atendente mais descuidada e desligada do universo” (nas palavras dele) de um assalto na Barnes & Noble?
Claro que decifrar meu irmão é quase uma arte, mas posso dizer orgulhosamente que Leopold não consegue esconder nada de mim por muito tempo, menos ainda quando se trata de uma mulher que o fez abrir um pulso a muito machucado e tão cheio de significados e lembranças ruins.
Era muito claro que a misteriosa senhorita Katerina Dalton tinha de ter algo especial para ter atraído a atenção de Leo, ou feito ele arremessar um livro na nuca de um estranho armado; portanto nada melhor do que ir conhecer pessoalmente a dona de tamanha façanha.
Com o passar dos nossos dias em Nova Iorque e alguma ajudazinha da minha insistência e ideias geniais, não demorou muito para notar que algo estava incomodando Leo. Não era apenas a terrível coincidência de trombarmos com Bruce Campbell (e dele ser noivo da Kate!) ou a minha animação em tentar incluir a senhorita Dalton na programação restrita que tínhamos na cidade. Alguma coisa se debatia dentro de Leo e o irritava cada vez mais, exatamente como ter uma coceira no meio das costas e ninguém para ajudar a coçar.
Aquilo só ficou ainda mais insuportável depois que deixamos a Grande Maçã para trás. A principio eu imaginei que era a volta para a rotina chata de trabalho sério longe da agenda mais folgada da América, depois achei que Leo estava doente, até que por fim, no café da manhã da nossa viagem para Londres, Collins me iluminou.
O clima de bom dia foi subitamente terminado depois que Leo fez um sermão sobre minhas responsabilidades antes das minhas amizades, se referindo ao fato de que eu estava muito contente naquela manhã por ir me encontrar com Kate em Londres. Eu não sabia se continuava a provocar aquele surto de tentativa de auto controle em Leo ou se ficava chateado porque ele não assumia de uma vez que tinha alguma faísca de sentimento pela Kate.
Claro que eu tinha que fazer as duas coisas, não é?
— Ora, minha amiga está no meu país, porque eu não estaria animado? — falei com a boca um pouco cheia de panquecas e geleia.
— Porque o mundo não para de girar porque a senhorita Dalton está em Londres, Lucas. Ainda mais depois da demonstração de independência que ela fez na noite passada.
— Você só está irritado porque ela estava em um pub cheio de pessoas legais e se divertindo ao invés de dar atenção pras suas mensagens. E eu bem poderia remarcar o meu teste de hoje. A garota do violoncelo pode muito bem fazer sozinha, oras. — resmunguei.
— Eu aceito de bom grado acordar três horas antes do horário de costume e atravessar toda a região para leva-lo até Londres, mas não é possível que a presença de Katerina Dalton afete o rumo da órbita dos planetas também. — Leo respondeu por trás de sua xícara.
— Você fala isso porque vai ficar com ela a tarde toda.
— Sua amiga só se mostra cada vez mais uma distração desnecessária e trabalhosa. — ele suspirou, terminando o chá. Afastou a cadeira e só fez um movimento pra arrumar o casaco nos ombros. Até isso nele era irritante quando ele queria. — Vou esperar por você no carro. Não demore.
Mostrei a língua para as costas de Leo quando ele saiu da cozinha e Collins riu, batendo a mão sobre o meu ombro.
— Tenha paciência. Pelo menos ele aceitou levar você até lá. Grande passo para a humanidade.
— Não é possível meu irmão ficar mais chato do que isso. Vou exigir reembolso da minha mãe. Quero ser nomeado filho mais velho pra poder dar umas palmadas nele e mandar ficar de castigo. — ri entre algumas mordidas em uma panqueca.
— Não exija muito do seu irmão, Lucas. Após tantos anos vivendo dias nublados, deve ser difícil lidar com os raios de sol querendo espaço na vida dele. Quanto mais esse tipo de raio de sol, barulhento e surgindo sem aviso... Dê tempo a ele.
— Já se passou mais de um mês. Será que ele não pode ser gentil pra variar? Tudo bem que a Kate é noiva do Bruce, mas e daí? Isso não muda quem ela é e não justifica esse mau humor insuportável. Será que ele não pode aceitar que ela é uma ótima amiga pelo menos? — bufei.
— Já lhe passou pela cabeça, que alguma coisa nisso tudo parece errado? — sempre adorei como as sobrancelhas de Collins ficavam quando ele queria insinuar alguma coisa. Pareciam duas gaivotas coladas na testa dele.
— É como eu disse, Leo não pode ser assim e...
— Não, Lucas. — Collins riu, se sentando e servindo um gole de café para si mesmo. — Estou falando sobre a senhorita Katerina.
Olhei para Collins e seu sorriso insinuante, o jeito de coçar a ponta do queixo e soprar a xícara, e aos poucos tive uma severa iluminação celestial. É claro que tinha alguma coisa errada desde Nova Iorque: Kate havia evitado a presença de Bruce todas as vezes que citou o nome dele ou o viu, mesmo dizendo em alto e bom som que ele era seu noivo depois do jantar na nossa casa. Ela não tinha feito isso por educação ou porque sabia do que havia acontecido entre nossas famílias e mesmo estando na Inglaterra, não ia passar as festas com os Campbell, então...
— Ela não gosta dele! — disparei com uma garfada no topo das panquecas, gargalhando e saindo na mesa, sem antes me esquecer de beijar a bochecha do mordomo. — Eu te amo, Collins!
— Como assim não gosta? Lucas, o que você vai aprontar? Eu não disse nada disso. Lucas!
— Fique tranquilo, não vou fazer nada que você não faria!
E realmente não fiz.
Embora Leo tivesse deixado claro que toda aquela viagem para encontrar Kate era uma perca de tempo e energia sem tamanho, eu sabia que no fundo ele também estava feliz em vê-la novamente, mas seu orgulho e suas feridas não permitiam que ele expressasse isso com todas as palavras. Mas quando ele apanhou a mão dela dentro do ônibus depois do nosso passeio pelo Winter Wonderland, eu soube que alguma coisa tinha mudado.
Não sei se meu irmão tomou alguma decisão naquele dia ao lado da Kate pela cidade ou se algo nela conseguiu quebrar o muro que ele tinha construído ao seu redor. Mas mesmo resmungando sobre o convite que Juliet fez para o almoço em York Way no dia seguinte, ele foi pessoalmente escolher cada ingrediente do que ia cozinhar e trouxe as tulipas vermelhas antes que eu subisse no táxi para apanhar Kate no hotel.
Então com tudo que ocorreu em seguida, da chegada dela em York, a tarde do chá e do natal, do beijo entre eles que apenas afirmou o que eu tanto esperava que acontecesse; vocês conseguem imaginar o quanto eu estava preocupado com Leo quando ele voltou para casa depois de se despedir da Kate?
Juro que imaginei que ele não a deixaria ir embora. Que teria uma cena digna de uma daquelas histórias dos filmes, com ele a impedindo antes de pegar o National Express e tudo mais. Contudo, o que aconteceu foi um Leopold retornando com poucas palavras e explicações que não incluíam um bom motivo para ter passado a noite com Kate, mas sim um nariz Campbell quebrado na rua das pensões e uma Katerina sem ter onde morar.
Claro que pra mim o nariz de Bruce já era um bom motivo pra comemorar, mas Leo não concordava. Ele reuniu nossos pais e relatou tudo que havia acontecido, até mesmo o envolvimento com Kate (que deixou minha mãe mais feliz do que eu esperava, realmente. Pelo visto a senhora Janet tinha decifrado o filho mais velho bem antes de mim. Tsc).
Nosso pai não ficou muito feliz. Na verdade ele ficou bem furioso por Leo ter socado Bruce daquela forma e temeu que os Campbell fizessem algum novo alarde contra a família, talvez um bom escândalo de fim de ano com alguma história mentirosa para encobrir o que realmente tinha acontecido.
Mas não houve nenhuma notícia, nenhuma ligação de George Campbell ou um Bruce com o nariz inchado e furioso ameaçando todas as gerações de Valois D’Orleans. O silêncio dos dias seguintes era incômodo e foi estranho ver meu irmão em uma sequência de compromissos e tarefas que mal permitiam que ele ficasse dentro de casa. Estava sempre ocupado, sempre com as sobrancelhas apertadas e ares de preocupação, e quando não estava ausente, desaparecia dentro do próprio quarto ou passava horas naquelas tentativas frustradas com o piano, que sempre acabavam mal.
No dia 30 minha mãe anunciou que a festa de Réveillon aconteceria como de costume e isso desencadeou uma onda de barulho e gente dentro da velha mansão como se aquela fosse a última festa antes do mundo acabar. Sempre adorei festas, menos aquela, com tanta gente esquisita e curiosa pela vida dos outros que nem dava pra contar com todos os dedos de um corpo só.
Havia tanta coisa pra se fazer e Janet estava tão preocupada me puxando de um lado para o outro com todos seus enfeites, candelabros e cristais, que nem me deu tempo de responder uma mensagem com foto que Kate me enviou. Na verdade, só fui me lembrar de dar algum retorno no dia seguinte, na fuga perfeita de toda a agitação.
Foi na manhã tumultuada do último dia do ano, que Leo apareceu na porta do meu quarto com uma de suas piores expressões de mau humor, questionando se eu não queria acompanhar ele e minha mãe até a cidade. Claro que aceitei sem pestanejar, já que qualquer coisa que me deixasse longe da cara feia que Juliet me dedicava cada vez que nos encontrávamos nos corredores e ainda mais distante da crise que Claude, Marie e Collins tinham desenvolvido para me deixar longe dos petiscos na cozinha, era um alívio.
Sim, minha prima havia decidido que a culpa de todos seus planos de vida perfeita ir pelos ares, era minha. E com isso usava de todos os músculos existentes para criar a maior carranca assustadora, imaginando que isso ia causar algum efeito. Ou ás vezes agia como se nada tivesse acontecido, usando gentilezas e sorrisos para tentar convencer qualquer ser humano a contar para ela desde quando Kate e Leo se beijavam por aí.
Bom, um dia eu conto pra ela a história toda. E indico um terapeuta pra superar isso, sei lá. Quanto a mim? Não adiantava nada ficar gostando de alguém que claramente só me agradava por causa do meu irmão, não é?
— O que vamos fazer na cidade? — perguntei assim que arrumei o cinto de segurança e fechei a porta do carro, animado em sair um pouco de casa, mesmo com o frio cortante.
— Tenho algumas coisas importantes para resolver, Lucas. Não vamos demorar. — Janet ajeitou a bolsa no colo e ligou o aquecedor enquanto Leo dava a partida.
— Demore o quanto quiser — ri. — Não aguento mais aquela maluquice dentro de casa.
— Olhe como fala, mocinho. A festa de final de ano dos Orleans é uma data tradicional e muito aguardada. — ela suspirou.
— Seu rosto ainda está roxo. — Leo fez aquela afirmação quando arrumou o retrovisor, vendo meu reflexo e o lugar onde havia batido a cabeça durante minha crise. Era uma pequena fuga do assunto da festa.
— Pois é, mas continuo lindo. Agora olhem aqui pra mim e sorriam!
Apontei o celular da melhor maneira possível e tirei uma foto para mandar para Kate. Quase levei um tapa em seguida, já que minha mãe não via nenhuma graça em usar flash dentro do carro e por conta disso passou os longos dez minutos pela estrada reclamando dos malefícios da tecnologia enquanto eu respondia as mensagens.
Dava pra entender de quem Leo tinha puxado aquela aversão por celulares.
Kate e eu conversamos um pouco enquanto o carro se afastou de casa e não demorou nada para só haver o ruído do motor e do vento lá fora. Leo dirigiu em silêncio. Eu sabia que ele estava preso dentro da própria cabeça naquele instante, mesmo que sua atenção nas ruas fosse sempre redobrada. Dava pra sentir como ele continuava tenso dentro de um carro depois de tantos anos.
Deixamos minha mãe perto da Clifford Tower com sua bolsa e seu barulho, já que ela tinha “um encontro inadiável com seu cabelereiro”. Com certeza ela passaria a tarde lá e voltaria para casa da mesma forma. E pobres de nós se não notássemos qualquer mudança.
Ia comentar com Leo sobre a pequena conversa que estava tendo com Kate, mas achei melhor não fazer isso. Sabia exatamente onde estávamos indo quando ele direcionou o carro para longe do centro da cidade. Aquela alameda coberta de neve era ainda mais melancólica do que de costume, mas eu gostava das árvores e de como o vento batia nelas. Ficava bonito e tirava um pouco daquela sensação de tristeza.
— Você vem comigo? — ele questionou assim que estacionou perto dos portões de metal da entrada e apanhou um ramalhete de flores no porta malas. Balancei a cabeça para afirmar e logo estava do lado de fora, ajeitando as luvas entre os vãos dos dedos por conta do frio.
— Eu sempre gostei daqui, sabia? Tão quieto e bonito.
— Fica melhor no verão. — Leo respondeu rapidamente, já não olhava mais para mim, apenas para o caminho de pedras entre os grandes gramados esbranquiçados e as árvores formando sombra naquele dia cinzento. Só mesmo um acaso do destino pra fazer qualquer pessoa no mundo ter uma estação favorita para visitar um cemitério.
O roteiro também era conhecido: Leo sempre parava alguns minutos embaixo do grande cedro próximo da capela, nos túmulos dos nossos avós, e separava duas das flores do buquê para oferecer a eles. Então fazíamos um silêncio mais grave para uma oração e com um toque no meu ombro ele sinalizava que podíamos seguir adiante.
Porém eu nunca me lembrava do caminho que vinha a seguir, mesmo tendo acompanhado Leopold naquela caminhada muito mais vezes do que desejava nos últimos cinco anos. Só me recordava de sempre passarmos por aquela longa rua de carvalhos e depois diante do jardim de ervas — que estava bem protegido daquele inverno rígido. Ali eu me sentava em um dos bancos de madeira e dava um sorriso encorajador. Nunca seguia Leo além daquele ponto.
— Não vou demorar.
— Tudo bem, tome o tempo que precisar. E mande um abraço pra Bianca por mim.
Com um pequeno aceno, Leo ajeitou as flores nos braços e seguiu entre os jazigos de pedra coberta de neve, diretamente na direção bem memorizada.
Enquanto ele não voltava, apanhei o celular do bolso e fiquei observando a tela, indeciso se digitava mais alguma mensagem para Kate. Tinha saudades dela e das nossas risadas, mas principalmente, queria ter algum plano mirabolante que pudesse trazê-la de volta para as nossas vidas — mesmo que como uma brisa passageira para afastar o ar pesado que estar naquele cemitério significava. Contudo, eu não tinha esse direito. Não podia me meter mais, tinha que deixar os dois tomarem suas próprias decisões.
Foi então que deixei o banco para trás e segui entre os túmulos, pelo rastro do caminho que me lembrava de ter assistido Leo fazer tantas e tantas vezes. Não podia ser tão difícil assim, mesmo com a neve e as árvores, e mesmo quase errando o sentido duas vezes, não estava muito longe.
Logo consegui enxergar onde ele estava, sentado no chão frio diante de uma pedra ereta onde as flores que ele tinha trazido estavam deitadas. Era um ponto colorido no meio da palidez ao redor, um cenário bonito. Dava para ver que ele conversava com Bianca, exatamente como havia me contado tantas vezes que fazia, como se ela estivesse sentada no lugar onde estava o jazigo.
Parei um pouco distante, mas ele sorriu a me ver e fez um gesto para que eu me aproximasse. Meu estômago deu uma volta. Era estranho, mas não me sentia bem em estar ali. Nunca me despedi corretamente de Bianca e não gostava da sensação de imaginar que ela havia acabado como pó embaixo do gramado e da neve.
— Não quero te atrapalhar.
— Não seja bobo. — ele se levantou.
Leo estendeu a mão e me segurei nele como quando era uma criança, nossos ombros agora tinham quase a mesma altura e foi difícil conter um longo suspiro conforme lia a inscrição no túmulo. Bianca era uma lembrança sorridente e distante agora, parte de uma vida despreocupada e doce que ficou para trás e agora era simbolizada com seu pequeno retrato, tão linda e eternizada ao lado da data de sua morte.
— Eu vim me despedir — Leo completou uma pergunta que nem precisei fazer e me olhou com o canto dos olhos e um sorriso suave, mistura de adeus e tranquilidade.
— Despedir? Por quê?
— Não pretendo voltar aqui e queria deixar isso claro para ela. Depois desses anos todos, da dor e da sombra, acho que é hora de seguir adiante.
Eu sabia o tamanho da força que Leo estava fazendo naquele momento para tomar aquela decisão. Depois de tanta mágoa e luto, do peso da culpa, era o primeiro passo para longe do passado. Ou melhor, um dos primeiros.
— Eu tenho certeza que Bianca compreende, Leo. Ela nunca ia desejar que você passasse o resto da sua vida falando com um túmulo. É romântico, mas completamente deprimente.
Nos entreolhamos e fiquei esperando Leo começar a me xingar, mas ao invés disso ele riu. Fiquei olhando sem entender direito antes de começar a rir também.
— Você está certo, Lucas. Completamente certo.
Com um olhar carinhoso e um toque sobre a pedra fria, Leo se despediu finalmente do que restava de Bianca e caminhamos para longe dali abraçados, sem precisar falar qualquer coisa. Eu respeitava o momento dele e estava feliz em poder estar ao seu lado.
Quando voltamos para o carro, Leo não fez o caminho que ia nos levar de volta para casa, mas sim em direção ao centro da cidade movimentado. Estava procurando uma vaga para estacionar quando decidi mostrar a foto de Kate e Adria, com os cumprimentos de Nova Orleans.
— Olha só, Kate está viajando de novo. — virei o celular para Leo e a sobrancelha que ele teimava em arquear foi ficando mais alta no canto do rosto dele. Então ele parou o carro, ajeitou o casaco e suspirou fundo.
— Isso vai me custar um pouco mais do que o esperado.
— Custar? — saímos para o estacionamento, andando devagar por conta da neve. Mesmo assim quase caí de cara na calçada e precisei me segurar no braço de Leo.
— Está achando que consigo um voo para Nova Orleans sem pagar mais por isso?— ele me ajudou a levantar e me equilibrar, claramente ignorando minha cara de surpresa conforme andava com os olhos bem fixos adiante. Comecei a rir baixinho, muito feliz pela decisão dele.
— Sabe, Kate me pediu pra te dizer que começou a ler o livro que você emprestou. Ela agradeceu pelo seu trabalho... O que você fez?
— Anotações. A senhorita Dalton precisava saber como ler propriamente Shakespeare.
— E por um acaso a “senhorita Dalton” sabe que você está planejando voar para Nova Orleans?
— Ela não precisa saber. Eu só estou indo buscar o meu livro antes que ela acabe cometendo algum absurdo com um exemplar tão raro.
Juro que se não conhecesse meu irmão, diria que ele estava mesmo falando sério em se deslocar pelo mundo para buscar um livro do Homem. Mas havia um detalhe, uma linha no canto da boca, quase um sorriso, que denunciava aquela seriedade toda.
— Mais alguém sabe? Porque você não pode sumir antes da festa de Réveillon e me deixar sozinho pra contar isso pra todo mundo. Eles vão me assar no lugar do presunto da festa! — comecei a rir.
— Não se preocupe, Lucas. Não pretendo viajar na surdina, já tomei as providências necessárias. A festa será um bom momento para tanto.
— Você vai contar na festa? — já previa o desastre. — Sabe que isso é uma ideia bem... Bem...
— Tola? — paramos em uma esquina e pude ficar de frente com Leo, ainda indeciso se ria ou se me preocupava por ele. Já conseguia imaginar Juliet querendo se matar afogada com ponche de frutas, mamãe deixando os convidados para arrumar as malas de Leo propriamente e nosso pai fazendo um discurso sobre o rumo dos jovens da família e como as coisas seguiam o fluxo do mundo, etc.
— Eu ia dizer idiota, mas tolice também serve.
Leo sorriu um sorriso que eu não via há anos, algo que modificava aquele rosto repleto de cansaço, mau humor e preocupações, que o levava para um lugar mais tranquilo e distante, para os raios de sol que os dias nublados dele tinham evitado sentir exatamente como Collins disse. Acabei sorrindo com ele conforme atravessamos a rua, escutando uma das suas citações favoritas.
— Ora, Lucas. Pois “amar não é ser vencida a razão pela tolice?”.
Quase parei de andar no meio da rua e passado o meio segundo de espanto e os dois segundos de uma buzina zunindo perto do meu ouvido, apertei o passo para segurar o braço de um decidido Leopold na outra calçada.
— Acho que estou escutando mal ou ouvi mesmo você dizer o que acho que você disse? Você é mesmo meu irmão ou trocaram Leopold por um alienígena?
— É melhor limpar os ouvidos se está pensando em vir comigo. — ele apenas me consultou de esgueio.
— Eu vou pra Nova Orleans? — tenho certeza de que nunca arregalei tanto os olhos.
— Se parar de me olhar como se estivesse prestes a ver o apocalipse, sim.
— Eu vou para Nova Orleans!
É como eu estava dizendo: Shakespeare era um homem sábio. Disso não tenho dúvida alguma.
Agora os homens da família Valois D’Orleans?
Bom, acho que o ano novo ia revelar uma coisa ou outra sobre isso, com toda a certeza.
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