Orleans

6 Capítulo 6 - Until


Havia uma pequena ruga de expressão no meio da minha testa enquanto o carro dos irmãos ingleses e seu distinto mordomo-motorista-faz-tudo, rodava pelo início da noite em Nova Iorque.

Conseguia ver nitidamente a marca bem entre meus olhos quando observava minha expressão patética pelo retrovisor do lado de dentro e me achava bem mais parecida com minha mãe do quê gostaria de admitir. Estava fora dos meus planos ter qualquer semelhança com Aida Dalton até os 90 anos. Ou mais.

Lucas estava ao meu lado, a janela aberta chacoalhando toda aquela cabeleira ruiva desgrenhada enquanto se divertia em observar tudo ao nosso redor com ares de despedida. Fazia comentários bem humorados sobre cada pessoa diferente, táxi, prédio ou cartaz pelo caminho, e nem mesmo a demora absurda do trânsito parecia desmotiva-lo. No fundo, eu sabia que Luke estava mil vezes mais animado naquela noite por conta dos meus olhos lacrimejantes quando cheguei ao carro.

Ninguém mencionou meu jantar arruinado, meu pai ou a presença ilustre de Bruce naquela mesa verde ao lado da janela do Babillon. Próspero parecia educado demais para se meter nessa questão e Luke estava ignorando qualquer realidade de que eu tivesse um compromisso original que não envolvia os Valois.

Mas será que a opinião deles sobre mim continuaria a mesma se soubessem do meu pretenso compromisso tradicional com o Sr. Campbell? Claro que não me refiro à Próspero, pois ele continuaria me detestando mesmo se minha pele fosse feita por páginas raríssimas manuscritas pelo próprio Shakespeare. Ao menos, o sentimento era recíproco.

— Então, — Collins surgiu entre algumas risadas de Luke, movendo o retrovisor para que eu visse seu sorriso bonachão por baixo daquela barba grisalha — o quê pretendem jantar?

— Você tem outro restaurante que queira ir, Kate? Vamos aonde você quiser — Luke se acomodou perto de mim e passou o braço ao redor dos meus ombros, batendo seus cílios claros num engraçado e dramático flerte adorável.

— Nenhum em mente. Por favor, não mudem o roteiro do passeio de vocês por minha causa.

— Já mudamos — Próspero. Delicado como levar uma pedrada na cabeça.

Por quê eu ainda me surpreendia?

— Oh, me desculpe então, Sr. Valois.

— Estaríamos confortavelmente acomodados em nosso apartamento se não fosse por este desvio desnecessário e forçado.

— Ninguém obrigou o senhor a me buscar no Babillon, Sr. Valois. E se esse for o problema, basta parar o carro no próximo semáforo e terei o prazer de saltar.

— Muito pelo contrário, senhorita Dalton. Meu irmão gentilmente obrigou-nos a este desvio. E se agora, depois de todo este infortúnio, quiser descer do carro; sugiro que use as janelas.

Nossos olhos se encontraram pelo retrovisor em um duelo silencioso de segundos. Eu estava armada com minhas fatais sobrancelhas franzidas internacionalmente conhecidas na família Dalton (e que causavam aquela veia saltada na testa, como da minha ilustre mãe). E Próspero... Bom, podem imaginar bem o que a maldita sobrancelha dele estava fazendo. Criatura irritante do Tártaro...

— Já sei! — Lucas se soltou dos meus ombros e se pendurou no banco da frente, passando os braços ao redor do irmão. — Vamos para casa!

— Em Londres? — Collins riu alto.

— Não seja bobo, Collins. Vamos levar Kate até o nosso sobrado. Ela vai adorar conhecer o lugar e aposto que você vai amar mostrar seus dotes de cozinheiro pra ela. O que acham?

— Mais uma de suas brilhantes ideias, Lucas. Suponho que se tiver a chance, colocará a senhorita Dalton dentro de uma de suas malas e a levará para conhecer pessoalmente a nossa casa de verdade na Inglaterra — o Carma bufou e eu conseguia imaginar seus olhos revirando com a insensatez do mais novo.

— Eu sempre tenho ótimas ideias, obrigado. Mas acho que a Kate não caberia em uma mala. Será que ela já andou de avião?

— Lucas, não ouse.

— Foi sarcasmo, Luke. Sarcasmo. — Collins riu durante sua explicação e afastou o carro de uma fileira de táxis amarelos, pegando uma rua paralela para fugir das avenidas principais lotadas por conta da hora do rush.

— Ora, mas eu sei que Leo não vai negar o simples capricho de seu amado irmão em levar uma amiga para jantar, não é? O quê ele não faria para agradar seu irmãozinho na despedida de Nova Iorque?

O ruivinho ria entredentes, acompanhado pelo mordomo e eu tive a chance de ver quando ele usou as mãos para puxar as bochechas do Carma para força-lo a sorrir.

— Poupe-me desse discurso, Lucas — ele se livrou dos braços do irmão e em seguida puxou o retrovisor central de uma forma que eu não conseguisse mais observá-lo. Na verdade a única coisa que eu via refletida pelo espelho era o estofado no teto do carro.

Não que eu quisesse continuar observando os olhos do Carma. Não, eu não queria. Agradeceria o favor dele, se pudesse.

— Levar uma quase desconhecida para dentro da nossa casa é uma das coisas que eu nunca faria por você, Lucas — ele completou.

— Quase desconhecida? — tive de rir. — O senhor salvou minha vida, trombou comigo no meu trabalho mais vezes do que eu gostaria, me encontrou durante a minha saída da sinfonia e enfrentou um temporal para me levar uma echarpe. Acho que o senhor me conhece um pouco, ao menos.

— Não acho. Não é possível conhecer plenamente uma pessoa com anos de convivência, quanto mais uma atendente de livraria com uma vida tão conturbada quanto a sua, senhorita Dalton.

— O senhor já até tomou chá na minha casa!

— Casa? Aquilo é uma toca, senhorita Dalton. Não ouse difamar todos os lares decentes comparando-os com o porão que a senhorita parece insistir em habitar.

Abri a boca, mas nenhum argumento inteligente veio imediatamente. Toda a minha família implicava com o porão exatamente por concordar que não se tratava do melhor lugar do mundo para uma mulher solteira habitar, com ou sem a companhia excelente de um gato como Tabby. Era de fato uma toca, mesmo que fosse uma quitinete bem improvisada, mas eu não a via como se algum Hobbit fosse surgir pela porta e reclamar seu terreno roubado da Terra Média.

Não, eu não poderia me deixar ofender daquela forma!

— Se o senhor acha que seu bom gosto pode me garantir um ótimo imóvel, estou aberta a discussões. Caso contrário, aquela "toca", é tudo que posso manter atualmente, senhor Valois. Obrigada por se importar.

— Ok, ok... Vocês dois são hilários mesmo — Lucas meteu-se, rindo alto e evitando que um de nós usasse o cinto de segurança para matar o outro. — O que vocês acham de massa para o jantar?

— Um suculento espaguete com molho vermelho e lascas de parmesão, — Collins suspirou, pensando na comida — Temos um ótimo vinho para acompanhar. Eu mesmo comprei no mês passado quando sua mãe veio nos visitar. Podemos acompanhar com uma salada verde fresca e croutons.

— Adoro croutons! — Luke comemorou, acariciando a própria barriga com o vislumbre do delicioso prato que Collins deveria preparar, uma carinha sonhadora com a refeição futura.

— E ainda gastaremos um vinho? — O Carma parecia desacreditar que realmente fariam tamanho sacrilégio em minha honra.

— Pela nossa despedida, Leo — Luke atacou novamente com sua voz mais meiga, mas Próspero sequer respondeu. Pelo visto a questão para ele estava encerrada. Fim da sessão.

O carro rodou mais dez minutos no trânsito da cidade entre a indiscutível dúvida da Mãe Natureza se aquilo lá fora era uma breve garoa ou o início de uma longa chuva fria. Fizemos um retorno e reconheci de cara a rua onde estávamos, que não era assim tão longe do meu usual trajeto para a livraria.

A Rua 35 era paralela às avenidas principais e estava bem próxima de todos os pontos turísticos queridos da região. Dali você poderia fazer uma caminhada até o Madison Square ou subir o Empire State Building. Em uma crise de tédio a Biblioteca Pública ficava há quadras dali para salvar o dia e as dúzias de prédios tradicionais de tijolos à vista e toldos verdes, enchiam a rua de uma ponta a outra. E mesmo com toda essa vertente nova-iorquina a disposição, Próspero havia escolhido atazanar a minha vida semanalmente na Barnes & Noble. Que sorte a minha.

Sim, isso foi sarcasmo.

Collins manobrou o carro e estacionou diante de um conjunto de sobrados iguais, todos eles com seus seis degraus para a porta de entrada, janelas longas e retangulares e pequenos jardins e árvores na frente. Na verdade, lembrava muito a rua da Sra. Fighbright, mas as casas não eram coloridas e ostentavam uma seriedade em tons de cimento e marrom.

Assim que o motor foi desligado, Luke abriu a porta e saltou para a calçada.

— Vamos, Kate? — ele ofereceu a mão para que eu descesse, mas estava um pouco distraída, observando ao redor e analisando todas aquelas plantas e vasos que enfeitavam a frente do lugar onde paramos. Nem a chuva me atrapalhou em notar que todos os sobrados tinham porões, exatamente como o meu, e foi a ausência das gotas e o guarda chuva preto aberto sobre minha cabeça que acabou atraindo minha atenção.

— Obrigada — minha voz saiu desafinada e esquisita. Não esperava que Próspero estivesse fazendo aquela gentileza em não me deixar ensopar como a "quase desconhecida" que eu era. Mas ele nem olhou na minha direção, então acredito que o gesto era um tipo de reflexo inglês muito educado e feito a contragosto.

O mordomo travou as portas do carro e jogou as chaves para Luke, que as apanhou no ar.

— O senhor não vem? —tinha de questionar. Collins era um salva-vidas no meio da loucura entre os Valois.

— Vou comprar croutons, não me demoro. A senhorita acredita que consegue sobreviver alguns minutos sozinha com estes dois?

Entreolhei-me com Lucas e seu irmão. Claro que o ruivinho foi o único a demonstrar qualquer animação pela minha presença.

— Farei o possível.

— Se não se importam, eu gostaria de sair da chuva — o Carma bufou e seus passos fizeram com que eu o seguisse para me manter embaixo da proteção do guarda chuva. Tentei me encolher para nossos braços não ficarem esbarrando, porém a missão era bem difícil.

Lucas saltou os degraus como um tufão, rindo pelo prazer de chegar primeiro sobre o capacho da porta onde se lia "Keep Calm and Come In". Lúdico.

Ele destrancou a porta e logo sumiu para dentro e eu só podia imaginar que ele corria pelo sobrado enquanto as luzes da casa se acendiam do térreo ao segundo andar.

— Lucas, economize as luzes, sim? — Próspero suspirou antes de indicar com a mão que eu deveria seguir para dentro da casa ao invés de esperar que ele entrasse primeiro. Depois ele chacoalhou o guarda chuva e o colocou atrás da porta, junto com um cabide repleto de casacos e capas de chuva.

Quando a porta se fechou atrás de mim, senti um violento calafrio que me obrigou a esfregar os braços. Mesmo que estivesse usando meu cardigã cinza e sapatos bem fechados, aquele frio do além pareceu me abraçar. Lá estava eu, na casa de um "quase desconhecido", convidada para jantar e não desejada por quase metade dos moradores vigentes do local.

Maravilhoso, Katerina. E se eles fossem assassinos britânicos? Ou pior! Sequestradores altamente treinados para ludibriar atendentes sonsas da Barnes & Noble? Tudo aquilo podia ser um imenso plano maligno... Ou não.

— Kate, bem vinda à nossa casa!

Lucas surgiu com os braços abertos e um sorriso imenso, o que me lembrou que a ideia que eu tinha de uma casa em que o Carma fosse um morador, devia ser um lugar cheirando a bolor e livros centenários, repleto de gatos por todos os lados e sua solidão triste e arrogante. Porém a casa da Rua 35 estava definitivamente muito longe disso.

O pequeno hall onde estávamos agora era bem iluminado, mesmo com a noite chuvosa lá fora. Havia um mancebo com alguns chapéus e um guarda chuva verde muito alegre, que combinava com as plantas que estavam por ali em largos vasos azuis. E pouco adiante, depois de um degrau no assoalho de madeira, uma escada que levava para o andar superior, cuja parede estava repleta de retratos.

— É um belo lugar... — sim, eu estava com aquela cara abobalhada de novo e prestando atenção em lustres pela primeira vez na minha vida.

Compreendam que não era um palácio, mas a casa dos Valois tinha um ar tão acolhedor e confortável, que era impossível não sorrir.

— Você precisa ver o restante, isso sim! Aqui embaixo ainda temos um armário de vassouras e a lavanderia. Nos fundos existe um quintal, é minúsculo, então Collins usou todo o espaço para fazer uma horta com os temperos dele, venha ver!

O entusiasmo de Lucas me atingiu, confesso, e esfreguei as mãos para sair logo atrás dele. Isso teria acontecido muito bem se meu braço não fosse seguro por uma mão que eu nem lembrava que estava por ali.

Voltei um passo contra minha vontade e encontrei meus olhos com o círculo polar ártico nas órbitas do Carma. O quê ele pensava que estava fazendo? Ia me proibir de conhecer a casa ou me dar às regras como "Nunca vá à Ala Oeste?". Seria muito típico dele.

— Seu casaco e a bolsa, senhorita Dalton.

— Meu casaco e a bolsa?

— Sim — ele revirou os olhos e apontou o cabide na parede onde estavam todos os casacos. A casa tinha aquecimento e eu estava carregando a bolsa e nem havia notado.

— Oh... Desculpe, eu estava muito...

— Distraída, notando as minúcias da casa para adicionar a sua mania de observação? Ou talvez queira anotar mentalmente os tecidos de todos os casacos para contabilizar nas minhas visitas de rotina à livraria?

Meu Deus. Como eu o odeio.

— Estava admirando a casa, Sr. Valois. Realmente, não é surpresa que o senhor ache a minha casa uma... Qual foi mesmo a palavra? Toca. Isso mesmo.

Entreguei meu cardigã e a bolsa de ombro para ele e não dei mais ouvidos. Ali eu não tinha a obrigação de ficar escutando suas provocações e ironias, muito menos aguentando aquele nariz empinado.

Lucas estava esperando por mim ao lado da escada e me pegou pela mão para fazer um tour completo pela casa da Rua 35. Iniciando com a lavanderia (que era maior do que o meu porão, apenas para constar), o jardim de temperos do Sr. Collins e o armário de vassouras que tinha apenas uma vassoura e muitos enfeites de natal empoeirados.

Escutei Luke explicar que a casa era o refúgio dos Valois D'Orleans em suas viagens até a América e que seu pai, um executivo um pouco ausente dos detalhes da vida familiar, sempre se hospedava por ali. Também descobri que a mãe de Lucas e do insuportável Carma, era americana e havia feito uma visita aos dois no mês anterior.

Enquanto me puxava pelo braço de um lugar para o outro e para as escadarias, o ruivinho me mostrou as fotos pela parede. Os Valois pareciam uma família de posses e havia muito mais fotos de Lucas e sua mãe (sempre acompanhada por um cãozinho chihuahua amarelo muito fotogênico) do que Próspero ou seu pai.

— Esse é o Pierre, minha mãe ama mais ele do que os filhos — Luke ria alto, apontando o cachorro em uma foto bonita tirada no Central Park. — E embora não pareça, este é o Leo.

O homem na foto, embora fosse irremediavelmente Próspero, tinha uma expressão que para mim era tão inédita quanto o sorriso daquela noite de sexta. Ele estava abraçado com Luke e sua mãe, que por sinal era uma mulher muito bonita e tinha olhos tão azuis quanto os deles; e estavam claramente no meio de uma gargalhada.

— Eu também gosto dessa foto — meu pensamento foi atingido em cheio pela voz de Luke.

— Ás vezes não acredito que seu irmão saiba como rir — suspirei, voltando a subir os degraus com ele.

— Leo? Ele já foi bem mais risonho, pode acreditar. Mas ele se transformou em uma pessoa bem difícil, não é? Vocês até que se dão bem, Kate.

Bem? Será que ele queria dizer isso sobre antes ou depois de quase nos matarmos todas as vezes que respirávamos o mesmo ar?

— Não, nós não nos damos nada bem, Luke. Seu irmão me tolera por sua culpa. E por educação.

A risada dele ecoou pelo corredor e logo voltou a me puxar pelo ambiente do primeiro andar: uma sala ampla com sofás macios e muitas almofadas, conjugado a uma cozinha de dar inveja. Até mesmo a mesa de quatro lugares, toda de vidro e metal, em nada lembrava minha mesinha de madeira pintada de branco pela terceira vez.

— Vocês estão aí em cima, Luke? —vinham passos pela escada.

— Estamos, Collins! — Luke debruçou na porta para responder e se jogou no sofá em seguida, me soltando para que eu pudesse olhar o lugar.

Andei até as janelas ao lado de um pequeno e arrumado lavabo; e observei as luzes da Rua 35 e as pessoas que passavam pelas calçadas, iluminadas pelos faróis dos carros. Morar ali deveria ser um prazer e tanto.

— Gostando da casa, senhorita Kate? — Collins entrou trazendo duas sacolas de papel com ele, que deixou logo sobre a bancada de pedra e passou a esvaziá-las, repletas de coisas que pareciam muito boas de comer.

— É linda, Sr. Collins.

— Tudo graças a mim — ele piscou, puxando panelas de baixo da pia e separando ingredientes, dobrando as mangas da camisa cor de chumbo que estava usando e adicionando um elegante avental em volta da roliça cintura. Collins era adorável.

— Ele está certo. Se não fosse por Collins, esta casa seria um pandemônio! Por falar nisso, seu velho fingido... Não disse que ia só comprar croutons? — Luke surgiu na bancada, roubando um tomate cereja de dentro de um pote.

— Gosto de cozinhar com itens frescos, Lucas. Além do mais, temos uma visitante hoje e o jantar tem que ser perfeito.

— Vou ficar convencida, Sr. Collins.

— Pode ficar! Esta casa não recebe uma visita além da Sra. Valois há muito tempo, senhorita Kate. É uma lufada de ar fresco ter um rosto novo por estas bandas.

— Então seus senhores não trazem jovens para esta casa? Será que eles possuem um lugar secreto para suas conquistas? Talvez prefiram rostos novos apenas na Inglaterra.

Collins riu e eu acabei o acompanhando, enquanto Lucas enchia uma panela com água e colocava sobre o fogão. O mordomo logo o expulsou de perto da comida e nos obrigou a assistir sua desenvoltura com os preparativos para os pratos.

— Meus senhores são muito comportados, não é mesmo, Lucas?

— Claro! Eu sou um jovem violinista apaixonado, ferido pelo cupido e não correspondido — ele dramatizava, caindo deitado sobre uma das poltronas. — Só você é o rosto novo permitido por aqui, Kate.

— É mesmo? —ri, sentando ao lado dele e abraçando seus ombros. — Quem é a boba que não se apaixonou por um garoto tão doce quanto você, Luke?

Por um momento Luke se entreolhou com Collins e o mordomo tornou a rir, retirando um pedaço de queijo de uma embalagem. Ambos sabiam de quem Lucas estava falando, mas pelo visto não adiantaria muito me contar quem era a garotinha que deveria se derreter pelos olhos de filhotes do jovem Valois. Menina boba. O ruivinho era um ótimo partido.

— Bom, — Collins pigarreou, como parecia uma deixa quando mudava os assuntos de um diálogo — por que você não mostra a biblioteca para a senhorita Kate enquanto eu preparo o jantar, Lucas? Sei que a senhorita trabalha em uma livraria, mas se importaria de ver mais livros?

— De forma alguma, eu amo livros.

— Sim, Kate vai adorar a biblioteca! Leo me contou que você tem livros até no chão da sua casa. Verdade?

Próspero tinha reparado nos meus livros? Achei que ele só se importasse em ter sobrevivido pela tortura de estar em uma toca. Imagino os horrores que ele contou sobre meu humilde porão.

— Minha estante é pequena demais pra minha coleção. É vergonhoso.

— Eu acho charmoso. Vamos, é no segundo andar. Podemos ficar por lá até o jantar ficar pronto.

— Fiquem tranquilos. Chamo assim que tudo estiver na mesa.

Collins piscou, com seu modo charmoso e paternal entre uma primeira fungada e olhos lacrimejantes causados pelo corte de uma cebola roxa. E Lucas não tardou em esticar a mão mais uma vez e me levar aos risos para o corredor da escadaria.

No andar superior estavam os quartos e Luke me mostrou o quarto dele, com espaço para uma cama de casal, criados-mudos e uma cômoda bagunçada. Seu violino estava sobre o colchão, cercado de partituras de estudo e com uma vista para frente do sobrado.

Bem ao lado, estava o quarto do Carma e Luke apenas apontou para a porta fechada, sem nenhum indicativo de que ousaria incluir o cômodo no passeio turístico. E apenas enfatizou: "É uma suíte. Eu uso o outro banheiro. Tem uma banheira ótima!".

Fiquei imaginando se Próspero guardava ali os restos mortais de Sir. William Shakespeare. Ou quem sabe as vítimas do Britanicus Raptores...

Passamos pelo quarto de visitas que Collins ocupava e terminamos na porta ao fim do corredor, branca, com a maçaneta dourada exatamente como todas as outras, porém exalando uma ansiedade como um convite. O lugar parecia prestes a sussurrar um pedido para ser desvendado.

— Bem vinda à nossa biblioteca na América — Luke anunciou com um sorrisinho maroto, acendendo a luz assim que empurrou a porta de lado para que eu pudesse espiar. E acreditem, a visão compensou até mesmo o desapontamento daquele jantar furado com o Sr. Dalton.

A biblioteca dos Valois não era modesta como as minhas pilhas de livros ao redor do porão. Era uma cuidadosa estante do chão até o teto, imaculadamente branca e organizada de uma parede até a outra por título e cor, o que transformava a visão em um deleite — mesmo para alguém que não sofre de transtorno obsessivo compulsivo como eu.

O chão estava coberto com um tapete fofinho e um sofá vermelho com almofadas convidava qualquer um a se jogar ali com dúzias de livros e nenhuma hora para sair daquele lugar. Eu moraria ali provavelmente como a pessoa mais feliz do mundo!

— Que loucura, Luke... Sua biblioteca é maravilhosa! Quantos livros! E que organização mais linda.

— Sabia que você ia gostar, Kate. Esse é o refúgio preferido do Leo, sabia?

— Imaginei que fosse. Ele e Sir. Shakespeare, certo? Gostaria de ter essa intimidade toda com "O Homem" — ri, andando até as prateleiras e começando a observar os títulos. Era uma coleção impecável que reunia autores modernos e clássicos, publicações especiais, livros técnicos, ficções, roteiros e obviamente muito Shakespeare. Aposto que Lex derramaria uma lágrima de emoção com aquela organização toda.

De alguma forma, por mais que Próspero e livros estivessem intimamente ligados, não conseguia visualizá-lo naquele ambiente colorido. Ele combinava com bibliotecas sisudas e antigas, com cheiro de pó e livros amarelados.

Escutei quando Lucas se acomodou no sofá logo atrás de mim e passou a ajeitar as almofadas para assistir a minha diversão em puxar alguns títulos para folhear, ler sinopses e demonstrar imenso respeito pelos livros antigos. Não demorou muito para sua voz encher o lugar.

— Kate?

— Sim, Luke.

— Você pode responder uma pergunta curiosa que eu acabo de ter? — ele me espiava com seus olhos brilhantes por trás do encosto do sofá vermelho.

— Claro que sim. Mas nada de questionar idade, tamanho do manequim ou peso, ok?

— Jamais! Não são perguntas para uma dama — rimos juntos. — Quero saber como você conheceu o Leo. Você que faz os atendimentos dele na livraria? Ou só se conheceram depois do ato heroico do meu irmão?

— Eu não conheci o seu irmão, pelo menos não propriamente dizendo, Luke. Ele é um assíduo frequentador da livraria, especialmente do meu setor de atendimento, mas nunca permitiu que eu o atendesse ou falasse com ele até o dia do assalto. Samantha e eu costumamos chamar clientes como o seu irmão de "Carmas" — fiz as aspas com os dedos.

A gargalhada de Lucas se assemelhava a dezenas de sininhos ao mesmo tempo, parecia deliciado em imaginar que o irmão tinha um apelido tão particular quanto aquele e suas bochechas ficaram coradas de tanto rir.

— Concordo que ele consegue ser um grande carma às vezes.

— Na maior parte do tempo, eu diria. Nunca consegui atender seu irmão, ele sempre teve esse jeito...

— Chato? — Lucas riu alto.

— Eu não ia dizer isso, mas já que você citou... Engraçado... Sabia que me lembro perfeitamente do primeiro dia que seu irmão entrou na livraria?

Luke puxou os pés sobre o sofá e abraçou as pernas como uma criança esperando o começo de uma história interessante. Sorrimos um para o outro enquanto eu ainda dedilhava as lombadas dos livros naquela estante.

— Foi em janeiro. Me lembro disso porque ele tinha neve nos cabelos e no casaco e estava usando um cachecol vermelho. Ele parecia a única pessoa em toda Barnes & Noble que não se importava com o frio. Eu não pude deixar o que estava fazendo pra atender ao pedido dele, mas nem precisei me preocupar porque ele andou diretamente para a prateleira número 30. Nem sei se ele olhou as indicações ou se deu muita sorte...

— Foi o nariz. Leo fareja livros de Shakespeare a quilômetros! É uma traça!— rimos e olhamos rapidamente se Próspero não estava por perto para escutar aquilo. Parecíamos seguros da fúria do Carma.

— Quando eu pensei em me aproximar para perguntar se ele queria alguma ajuda, seu irmão só esticou o braço, puxou uma edição capa dura de Hamlet, deu as costas e sumiu. Então reapareceu na quarta seguinte e fez a mesma coisa. E na outra também, na seguinte e depois...

— E foi daí que ele virou seu cliente "Carma"? — o ruivinho fazia aspas com as mãos, rindo. Estava se divertindo.

— Depois de mais de três meses de visitas pontuais todas as quartas com o mesmo procedimento, seu irmão tinha que receber essa alcunha.

— "Carma"?

A fatídica sobrancelha acompanhou a pergunta.

Próspero estava com os braços cruzados encostado na porta, esperando uma resposta. Na verdade, já devia estar ali há algum tempo ou o suficiente para me colocar em uma situação de desejar que o chão se abrisse e me devorasse em segundos.

O quê eu fiz pra merecer? Com certeza matei muitos gatinhos inocentes na outra encarnação. É uma resposta bem plausível.

— Oi, Leo! — Lucas agiu como se não estivesse nada surpreso, muito menos preocupado com o fato de o irmão ter escutado parte daquela conversa. — Estávamos falando sobre você. E Sir. Shakespeare.

— Notei isso. Não sabia que tinha mais algum renome para me tratar, senhorita Dalton. Sua fixação por mim é um tanto perturbadora.

Apertei um dos livros contra o peito, numa esperança desesperada de que algum personagem fictício pudesse emergir das páginas e me salvar do duelo de olhares que estava travando naquele momento com Próspero. Seus olhos frios e aquele modo de erguer a sobrancelha me davam calafrios violentos.

Pelos deuses, ele devia me achar uma stalker maluca.

— Kate estava me contando que você nunca se apresentou propriamente para ela, Leo. Que coisa feia. Ela é atendente na sua livraria favorita e você nunca se deu ao trabalho de cumprimenta-la?

— E para quê eu deveria cumprimenta-la?

— Ora, para ser educado, para receber indicações de novos livros ou simplesmente fazer amizade? Você sabia que ela gostaria de aprender mais sobre "O Homem"? — Luke provocou.

— Vou até uma livraria para comprar livros, Lucas, não para fazer amigos. E se tratando de indicações, a senhorita Dalton não é uma fonte muito segura.

— Como disse? — sim, a indignação me bateu. — Para seu governo, Sr. Valois, eu sou formada em Letras e recebi treinamento para trabalhar no setor de literatura inglesa da livraria. Portanto, não existe nenhuma outra atendente mais apta na Barnes & Noble para indicar um bom livro para alguém como o senhor.

— Quanta modéstia.

— Quanta petulância — retruquei — Aliás, é exatamente por conta desse detalhe que o senhor é um cliente "Carma". E esse renome lhe cabe muito melhor do que o anterior.

— É mesmo?

— Com toda a certeza que me cabe.

— E o quê mudaria nessa questão se eu me apresentasse, senhorita Dalton? Isso a tornaria menos modesta ou diminuiria a minha suposta petulância e capacidade de comprar bons livros sem a sua divina e bem treinada ajuda?

— Como se alguma coisa no universo fosse capaz de diminuir esse nariz empinado!

Próspero encheu o peito de ar e ergueu o dedo em riste, pronto para revidar aos meus ataques. Mas não fez nada além de soltar o ar pelos lábios entreabertos.

Touché, Carma!

— Nariz empinado? — Luke começou a gargalhar e precisou abafar a voz contra uma das almofadas.

— Isso é o que eu ganho por trazer gente desconhecida para dentro da nossa casa, Lucas. Está se divertindo? — era a vez de Próspero se indignar, como sempre parecia ocorrer com aquela rebeldia de Luke.

— Muito! Kate precisa ir nos visitar em casa com frequência, Leo. É a única pessoa capaz de te deixar sem resposta.

— Pois então que sorte a minha, em viver noutro continente, não concorda? — ele bufou por final, passando a mão pelos cabelos loiros antes de tornar a apontar o dedo para mim. — Por favor, volte os livros na ordem correta, senhorita Dalton. Tenha ao menos essa consideração antes de descer para o jantar que, aliás, está pronto e Collins me pediu para avisar.

Próspero deu as costas e saiu pela porta de onde mal havia se desencostado durante a nossa pequena batalha, sumindo pelo corredor. Conseguia escutar seus passos descendo as escadas e enquanto meu coração se acalmava um pouco por conta daquele embate, senti que havia sido um pouco cruel demais com ele.

Pudera, não é? Nunca conseguia compreendê-lo! Em uma hora era meu mais improvável herói e no segundo seguinte estava me atacando de todas as formas. Ele tinha sérios problemas de bipolaridade, era insuportável.

— Não leve o Leo a sério, Kate. Ele é assim mesmo — Lucas suspirou, ainda com um sorriso doce e animado nos lábios. Pulou sobre o sofá e tirou o livro que estava em minhas mãos, ainda apertado com alguma força, recolocando na prateleira. — E tem uma mania de arrumação irritante. Vamos jantar?

— Claro. Vamos — respondi automaticamente, empurrando os cabelos pra trás das orelhas. Estava um pouco sem jeito agora que o Carma havia deixado tão claro sua posição contra a minha pessoa. Me sentia um pouco... Intrometida.

Descemos até o primeiro andar e o cheiro bom já atingiu meu nariz no meio da escadaria. Se a comida fosse tão boa quanto o aroma, Collins devia ser um cozinheiro de mão cheia.

A mesa estava posta entre os dois ambientes com louça branca, taças para o vinho, uma jarra com água e a panela convidativa de espaguete ao sugo bem ao lado de uma linda salada com várias verduras e aqueles pedacinhos crocantes de pão salpicados entre as folhas, servida em pequenos bowls coloridos.

— Minha nossa, isso tudo está lindo, Sr. Collins — elogiei, rodeando a mesa enquanto o mordomo enchia os copos com água.

— Espero que esteja mais do que bonito, que esteja saboroso!

— Impossível não estar, Collins. Seu macarrão é um primor dos deuses — Lucas beijou a bochecha do mordomo, arrancando um resmungo do velho homem antes de se sentar a mesa.

Espiei de canto o que Próspero fazia atrás do balcão da cozinha e me sentei antes que ele se aproximasse da mesa trazendo a garrafa de vinho gelado e um saca rolhas. Collins colocou o pedaço de queijo parmesão em lascas perto do meu prato e com um pegador me serviu de uma generosa porção da massa fumegante. Dava para notar o perfume do manjericão no molho e os pedaços do tomate entre os fios do espaguete. Céus, estava faminta!

Comecei a temperar minha salada com azeite e balsâmico quando o Carma apoiou a garrafa na mesa e habilmente tirou a rolha, atraindo algumas palmas de Lucas por sua desenvoltura magistral. Na verdade o que me chamou a atenção foi como o pulso esquerdo do Carma tremia levemente enquanto segurava a garrafa para servir as taças, mas ninguém pareceu ligar.

As palavras de Bruce, dentro do carro naquela fatídica sexta, me vieram na cabeça: "... uma cirurgia restringiu o movimento de seus dedos". Será que aquele tremor era resultado da mesma cirurgia? E por quê ele teria passado por isso?

Agradeci o vinho e Collins seguiu servindo todos os pratos até que todos estivessem sentados e acomodados, então Lucas apanhou a própria taça, entreolhou-se e consultou todos os rostos ao seu redor e ergueu o vinho pouco acima de seu queixo.

— Vamos brindar.

Erguemos nossas taças. Tinha a sorte de poder sorrir para Collins que estava bem ao meu lado esquerdo e trocar pequenos risos com Lucas ao direito, mas bastava olhar adiante para ter os olhos do Carma diretamente nos meus. E a fome revirou no meu estômago quando fiz isso, sumindo com o meu sorriso e restando apenas a taça erguida e a espera pelo brinde de Luke, que perdeu temporariamente a importância.

Não havia um desafio, nem mesmo um duelo naquela troca de olhares fixos entre nós. Era essa a raiz do meu incômodo. Próspero manteve seus olhos nos meus como se pudesse vasculhar alguma coisa dentro da minha alma, acessar um arquivo qualquer e encontrar todas as informações que desejasse, talvez me matar de dentro para fora — o que parecia muito fácil.

Ele me odiava, era isso. Estava impresso em cada poro.

— Pela nossa ótima viagem, pela comida maravilhosa...

— Você ainda nem provou, Lucas! — Collins riu alto.

— Mas é impossível estar ruim, Collins — mostrou a língua para ele — e eu gostaria de agradecer especialmente a presença de Kate, que aceitou todas as minhas loucuras incluindo esse jantar e que é a melhor atendente cantora da Barnes & Noble. Saúde!

— Atendente cantora? — Collins questionou.

— Longa história, Sr. Collins — sorri de canto.

— Saúde — erguemos as taças e provamos o vinho, que pareceu abrir bem mais do que o paladar ou a garganta. Para mim era como ter engolido um fósforo acesso, que fez questão de queimar tudo pelo caminho, mas me permitiu desviar o olhar do meu algoz do outro lado da mesa.

Lucas não exagerou nada em elogiar a comida de Collins: o mordomo deveria ser chef! Nunca comi um espaguete ao sugo tão saboroso, caprichado e que pedia para ser repetido até a exaustão. Confesso que comi bem mais do que deveria.

O jantar foi mais ameno do que eu previ. Imaginei que o Carma faria questão de transformar o momento em um segundo round de ataques, mas ele permaneceu em pleno silêncio por grande parte da noite. Quase escutava as roldanas esticando cabos de pensamento dentro da mente dele, arquitetando um plano maligno para colocar arsênico no meu vinho.

Quanto a Lucas, falava por todos nós. Contava suas histórias em Nova Iorque, todas as vezes que se perdeu pelas ruas ou que detestou a comida fast food, suas descobertas no Central Park, as compras... Tudo para o ruivinho rendia um bom conto repleto de risadas e caretas teatrais. Enquanto Collins por sua vez, contou um pouco de suas saudades da terra da Rainha, de como as coisas na América tinham um ritmo diferente, pessoas que viviam em uma modernidade completamente agitada ao contrário do moderno clássico da Inglaterra.

Dava para sentir que no fundo, eles estavam com saudades de casa e isso me lembrava de que às vezes (só às vezes), eu também sentia falta da minha casa. O ar mais quente e ameno do sul, a comida caseira, a boa música e as raízes tradicionais que infelizmente me trouxeram até aquele momento.

Mas olhando para aqueles três na mesa de vidro, entre pratos vazios e taças embaçadas, ficava me perguntando se trocaria todas as minhas experiências por estar ainda enfiada no apartamento da Sra. Dalton, comendo e vivendo à custa de uma mãe que não gostava de mim pelos motivos tradicionais — mas sim pelos financeiros. Se ainda estivesse na minha cidade natal, nunca teria conhecido o hiperativo Luke, encontrado a amizade de Samantha, ganho um gato de aniversário, assistido a uma filarmônica, comido aquela massa dos deuses feita pelo Sr. Collins ou então tido o desprazer de...

— Senhorita Dalton, poderia me acompanhar por um momento?

A voz de Próspero, sempre carregada daquele sotaque britânico que me rodeava naquela noite, fez a mesa toda se calar. Sr. Collins, com suas bochechas coradas pelo vinho, cobriu a boca com um guardanapo antes de tossir surpreso (sim, as densas sobrancelhas do mordomo deixavam bem claro que aquilo era muito inédito) e Luke ficou com a boca aberta, ainda manchada de molho em um dos cantos.

— O quê? Eu? — claro que não, Katerina, ele estava falando com a samambaia perto da janela... Obvio que era com você!

— Não vejo outra senhorita Dalton. Por sorte. Uma já basta — limpou a boca em um guardanapo e empurrou a cadeira, ficando em pé como se estivesse só esperando minha boa educação em me levantar e acompanha-lo. Mas o que ele estava tramando?

— Venha, Lucas. Trate de pegar esses pratos e me ajudar com a louça. Ainda temos uma sobremesa para servir — Collins bateu levemente no ombro do ruivinho e esticou os braços para apanhar pratos e talheres, fazendo barulho até Luke resolver ajudar, pegando taças e copos vazios.

— O senhor sabia que isso é seu trabalho?

— Claro. Mas como prêmio por sua última noite na América, você terá uma última atividade americana: lavar pratos por conta própria. Fará muito bem para a sua educação. Agora se levante e pegue um avental para se divertir!

— Eu sei muito bem como se lava um prato, homem! Deixe Lucas Valois D'Orleans mostrar como é que se faz isso com perfeição!

Eu sabia o que eles estavam fazendo, tentando amenizar aquela situação estranha entre o Carma e minha claramente abobalhada reação que não tinha me permitido mover muitos músculos. A ideia de que ele me arrastaria para algum canto sórdido da horta de temperos do Sr. Collins e depois sumiria com meu corpo decapitado para dentro do quarto obscuro e repleto de cadáveres, parecia bem tangível agora.

— Está bem. Eu posso acompanhar o senhor por um momento, mas não quero perder a sobremesa e...

— Chamamos quando a sobremesa estiver servida — Collins foi mais rápido do que a minha saída triunfal daquela situação. Sr. Collins estava começando a cair no meu conceito de salva-vidas.

Só tinha a opção mais óbvia: levantar-me, arrumar as roupas no corpo, erguer o queixo e deixar o Carma ir adiante, seja lá para onde ele desejava que eu o acompanhasse. E o destino ficou bem claro quando começamos a subir as escadas para o segundo andar, atravessando o corredor dos quartos para a última porta onde estava a biblioteca.

Próspero acendeu as luzes e abriu a porta para que eu entrasse primeiro no cômodo, como mandava sua rígida etiqueta. Muitas vezes tinha a impressão de que ele havia tropeçado para fora de um livro de época sem querer e trocou de lugar com o verdadeiro irmão de Lucas, que com certeza deveria ser um ótimo homem moderno. Pobre Sr. Valois original. Devia estar sofrendo as agruras de algum mundo vitoriano por aí.

Parei no centro da biblioteca, bem diante do sofá vermelho e suas almofadas que Lucas havia desarrumado, e segui o ruído dos passos do Carma passando por mim até as estantes em um silêncio velado.

Havia uma pequena tensão ali, nada tão violento quanto os encontros do Sr. Valois e o Sr. Campbell (que me dava náuseas de relembrar), mas uma quieta trégua entre nós aguardando para ser finalizada.

Fiz as honras.

— Voltei os livros na mesma ordem, como o senhor recomendou, Sr. Valois.

— Estou vendo.

— Espero que esteja exatamente do seu gosto.

— De fato. Está.

Ele passou os dedos pelas lombadas dos livros na prateleira onde estavam os tons de preto, cinza e branco, parecendo procurar por algo em particular. Os dedos da mão que não usava estavam tamborilando o ar como era de costume sobre sua perna, enquanto seu rosto impassível não se movia para ler nenhuma lombada, como se ele tivesse decorado perfeitamente quais eram os títulos apenas de olhar para eles uma única vez.

Puxou um volume largo e aparentemente pesado do alto da estante, de capa dura e letras pequenas, parecido com uma enciclopédia. Não consegui ver exatamente o que era, mas me parecia vagamente familiar. Claro, como atendente de uma livraria, muitas capas me eram familiares e eu conseguia desvendar alguns títulos à distância; mas Próspero tinha uma coleção magnífica de edições raras e diferentes que eu dificilmente saberia catalogar.

Com alguns passos, ele parou bem ao meu lado e estendeu o livro. A capa preta, o título dourado, a ponta amassada da edição antiga que parecia brevemente revitalizada por algum cuidado, me deu um estalo mental que rapidamente foi refletido pelo meu corpo, com a rapidez que procurei olhar para o rosto dele para saber do quê se tratava aquilo.

— Não estou entendendo.

— Estou lhe emprestando este livro, senhorita Dalton.

— Mas eu não pedi nenhum livro emprestado. Muito menos esse.

A edição de "Obra completa e Dramas para Palco – Peças de William Shakespeare", estava ainda entre as mãos dele e o dano do exemplar me lembrava o motivo inicial da minha aproximação daquele homem detestável. Uma dentre as raras vezes que Próspero havia me surpreendido, a primeira delas, aliás, acertando um assaltante com aquele enorme livro velho e salvando o dia. Pena que ele fazia questão de ser menos heroico e mais nariz empinado a cada vez que nos encontrávamos... Ou estava um empate?

— Quero lhe emprestar. Considere um empréstimo e uma ajuda para ampliar sua capacidade sobre a literatura inglesa. Vai ajudar no seu trabalho e desta forma talvez ganhe um salário melhor e possa sair daquele... Porão.

— Eu deveria agradecer por isso?

— Não é necessário.

— Eu sei que não — recebi o livro e passei a mão pela capa antes de acomodá-lo entre os braços. Minha nossa, aquilo era mesmo pesado. — Sr. Valois poderia me responder mais uma pergunta hoje?

— Desde que não seja...

— Uma pergunta redundante, estúpida e completamente desnecessária? Fique tranquilo, eu não acho que seja.

— Então faça, senhorita Dalton.

Na verdade, se Próspero soubesse a dúzia de questões que estavam em fila para ser feitas, nunca teria concordado com a minha primeira pergunta.

Para cada vez que o estranho destino me colocava às voltas com os irmãos Valois ou diante de Bruce Campbell, as coisas ficavam ainda mais cheias de mistérios na minha mente. Por quê Campbell e Valois viviam aquela guerra secreta de cavalheiros? Por quê o Carma havia enfrentado a chuva para me devolver uma echarpe cor de chiclete? E o quê Lucas havia tentado dizer sobre Bruce no dia da sinfonia?

Eram tantos porquês, tantas coisas que eu gostaria de obrigar Próspero a responder e tudo que consegui formular naquele instante, olhando para ele há alguns passos de mim, foi o genial, incrível, estupendo...

— O senhor tem alguma coisa pessoal contra mim, Sr. Valois?

Perfeito, Katerina. Perfeito. Deveria ter perguntado a origem do universo, o propósito da vida humana, outras questões de extremo valor para a humanidade. Mas não. Eu tinha de escolher a pergunta mais superficial possível.

— Acredita realmente que esta é uma pergunta nada redundante, nem um pouco estúpida ou desnecessária, senhorita Dalton? — ele arqueou a sobrancelha e cruzou os braços.

— Acredito. É uma pergunta muito pertinente, Sr. Valois. Visto a forma com que o senhor claramente me trata, acho que deveria perguntar se acha que tenho a obrigação de aturar seus disparates sobre mim, minha casa ou seja lá o que for.

— Incluindo suas botas absurdas?

— Especialmente sobre minhas galochas. São galochas, Sr. Valois.

— Isso não muda o fato de serem absurdamente feias e infantis.

— E sua opinião não muda o fato de que eu continuarei usando-as. Podemos nos concentrar na sua resposta sobre a minha pergunta, Sr. Valois? Ou estarei seriamente inclinada a pensar que o senhor não quer me responder.

Como se fosse possível, a sobrancelha de Próspero se ergueu um pouco mais e seu olhar de desdém só ficou mais profundo e claro (como se já não fosse o bastante). Acompanhei todo o trajeto de seus olhos de um canto ao outro do quarto, seguido de um expirar profundo e lento.

— Creio que não haja nada pessoalmente afetando meu julgamento ao seu respeito, senhorita Dalton. Porém seus modos, suas escolhas e principalmente suas ações, me levam a este, como a senhorita disse, "disparate".

— Meus modos? —minha sobrancelha que tomava a liberdade de se franzir — Por um acaso não estou me comportando de acordo com as suas expectativas?

— Algumas vezes.

— Algumas vezes? — quase esganicei, no meio de um riso nervoso. Como ele ousava falar assim? — Então não sei me portar? E o que minhas ações têm a ver com isso?

— Elas revelam muito sobre uma pessoa, senhorita Dalton.

— Então podemos falar sobre suas ações, Senhor Valois. Como ter aparecido subitamente em frente a minha casa, no meio de um temporal para me entregar uma echarpe...

— Qualquer homem educado o suficiente teria levado a peça até sua casa, senhorita Dalton.

— No meio da chuva, em um fim de noite? O senhor sequer estava usando uma capa, não pegou um guarda chuva e estava ensopado da cabeça aos pés! Como sabia que eu estava dentro daquele carro?

— Ora, qualquer um poderia ver que havia alguém dentro do carro, senhorita Dalton — foi a vez dele dar um sorriso irritado e gesticular com a imensa claridade com que via as coisas. — E este é um bom exemplo sobre suas ações.

— Oh! Então o senhor está me julgando por estar dentro de um carro com um homem na frente da minha casa ou isso tudo se deve apenas ao fato desse homem ser Bruce Campbell? Porque para seu governo, Sr. Valois, sou bem grandinha para estar dentro de um carro com o homem que eu bem quiser e isso não lhe dá liberdade alguma de me julgar pelas minhas ações. Não estamos no passado! Não seja machista!

— Infelizmente não estamos no passado!

Rangi os dentes e juro que rosnei. Estava prestes a fazer um esforço e arremessar "Obra completa e Dramas para Palco – Peças de William Shakespeare" diretamente na cabeça do Carma, mas só conseguia encarar seus olhos como se pudesse feri-lo de alguma forma. Então tive um repentino surto de coragem.

— O senhor é irritante, arrogante e não tem direito algum de me julgar pelo que faço ou não. Se queria tanto me devolver a echarpe, poderia ter deixado na livraria pela manhã e eu seria grata igualmente. Mas não ache que vou aguentar seus julgamentos só por se achar superior a mim de alguma forma ou que lhe devo alguma coisa pelo que fez por mim! E para o seu governo, Bruce Campbell é meu noivo e tenho toda a autorização de estar onde quiser com ele!

Próspero estreitou os olhos e seus braços se soltaram antes de suas mãos tamborilarem os dedos contra o ar. Sua surpresa era clara, uma espécie de recusa em acreditar que eu poderia ser noiva (futura-ex-noiva, na verdade) de Bruce era clara em seus olhos.

— Noiva de Campbell? Você? — ele deu um passo na minha direção, o rosto ainda repleto de aversão.

— Não estou à altura dele? Acha que meus modos, minhas ações e minhas escolhas não são suficientes para o Sr. Campbell? Talvez o senhor deva alertá-lo sobre mim, Sr. Valois, já que são amigos.

— Não somos amigos. E a minha opinião não foi requerida sobre esse assunto.

— Me pareceram se conhecer muito bem, Sr. Valois. Será apenas minha impressão?

Em nenhum momento Próspero desviou os olhos de mim, mas diferente daquela troca de olhares na mesa de jantar, ali havia uma inquietude, uma pressão entre nós que também não remontava a nosso primeiro duelo daquela noite. Eu não sabia de onde havia ganhado tanta coragem em bater de frente com ele, em dizer aquelas coisas, mas havia me sentido tão atacada desde seu comentário sobre o porão, que tudo parecia uma grande consequência.

— Chega de perguntas. A sobremesa já deve estar servida, senhorita Dalton — ele se afastou dois passos, colocando as mãos nos bolsos antes de dar as costas para mim e me deixar sozinha na biblioteca.

Quando não escutei mais os passos dele vindo do corredor, toda aquela pressão que estava no ambiente fugiu pela porta e eu pude respirar fundo, sentindo uma inevitável vontade de chorar. Sentei no sofá vermelho devagar e deixei o livro sobre minhas pernas ao mesmo tempo em que tentava respirar.

Limpei uma lágrima e ri nervosa. Como alguém conseguia me desequilibrar tanto quanto Próspero fazia? Estava prestes a me levantar quanto duas pequenas batidas na moldura da porta atraíram minha atenção.

— Kate? Tudo bem? — Lucas pareceu preocupado, espiando para dentro da biblioteca.

— Sim — sorri, ajeitando os cabelos e me levantando — está tudo bem. Seu irmão... Me emprestou um livro.

— Collins pediu para avisar que já serviu a sobremesa e não podemos demorar muito. Ele fez torta de maçã e quer acompanhar com sorvete de creme, então...

— Não vamos deixar Collins esperando, não é? — dei meu típico sorriso de "estou me esforçando muito para que você não me faça perguntas" e fui até o ruivinho, recebendo um meio abraço.

— Leo fez alguma coisa, Kate? — Luke não era bobo, embora sempre tivesse aquele adorável jeito de criança na maior parte do tempo, sempre senti que ele era mais adulto do que deixava aparentar.

— Não, nós estávamos conversando. Foi muito esclarecedor.

— Você gosta de torta? — Luke emendou, já que parecia saber que não ia tirar de mim mais do que aquele comentário.

— Eu amo torta.

— Ainda está quente. Você vai adorar!

O cheiro da maçã e canela estava pelo ambiente todo e Collins sorriu largo, mesmo que parecesse estar sério segundos antes, enquanto misturava uma dose de leite em uma xícara alta de chá. Earl Grey, eu aposto.

— Sente-se, senhorita. Já vou servir vocês.

— Leo, você não vai comer? — Luke questionou o mais velho, que estava sentado em uma poltrona de encosto alto, virada para as vidraças da sala e quase de costas para o restante do cômodo.

Collins levou a xícara de chá até ele em uma bandeja, acompanhada de um açucareiro de onde Próspero retirou três cubos de açúcar para mergulhar em sua bebida quente.

— Não, Lucas. Bom apetite.

O Carma agradeceu Collins e o mordomo veio cortar as fatias gordas de torta de maçã e servir nossos pratos em companhia de uma generosa bola de sorvete. E enquanto elogiávamos as habilidades culinárias do Sr. Collins e a deliciosa mistura daquela sobremesa, a luz dos relâmpagos sobre Nova Iorque permitia que o rosto de Próspero ficasse refletido na janela.

Ele parecia pensativo, a xícara elevada na altura de seus lábios, os olhos fixos no nada da noite chuvosa. Talvez eu tivesse conseguido atingi-lo também. Talvez.

Com a sobremesa terminada, Luke insistiu que eu ficasse um pouco mais e Collins prometeu me levar para casa assim que terminasse de arrumar o restante da louça e guardar os utensílios da cozinha. Mesmo me sentindo deslocada, fingi que tudo estava perfeitamente bem e me sentei no sofá próximo da poltrona do Carma e acompanhei o ruivinho animado que me mostrava fotos engraçadas do seu celular e queria que eu anotasse seu endereço para correspondências, e-mails e telefones de contato.

Me lembrei de que precisava do meu celular para anotar tudo aquilo e desci para pegar o aparelho dentro da minha bolsa no térreo. Quando o tirei de dentro dela, havia uma enxurrada de notificações, mensagens e ligações perdidas. Meu pai estava em polvorosa. Samantha estava enlouquecida. Max enviou três mensagens dizendo que estava prestes a colocar a polícia atrás de mim!

Comecei a escutar as mensagens de voz, desde a pequena preocupação com alguns minutos de atraso até o tom desesperado do Sr. Dalton na última mensagem, dizendo que estava na frente da minha casa e já havia falado com a Sra. Fighbright, com Maxwell e Samantha. Um nó se formou na minha garganta enquanto discava para o número do meu pai.

— Onde você está, Ratinha? Pelo amor de Deus, faz horas que estamos procurando você, eu estava quase indo até a polícia para notificar seu desaparecimento!

— Calma, pai. Eu estou bem, aconteceram algumas coisas, estou na casa de alguns amigos.

— Mas e o nosso jantar, Kate? Eu fiquei esperando por você, preocupado. Você não pode ser tão irresponsável assim.

— Nós podemos conversar quando eu chegar aí?

— Você está vindo para sua casa? Estamos todos preocupados, Kate...

— Bruce está com você, pai? — precisava saber.

— Quem? Ratinha, eu não...

— Campbell, papai. O Sr. Bruce Campbell, meu noivo, está com você?

O silêncio do outro lado da ligação era esclarecedor e além dele havia o bipe de uma segunda ligação tocando no meu ouvido. Pedi pro meu pai aguardar e atendi. Era Samantha.

— ONDE VOCÊ ESTÁ?

— Na casa do Carma — suspirei — longa história, Sam. Você está na minha casa? Meu pai está aí?

— Não, Branquela, eu não falei com o seu pai. Lex me ligou preocupado porque seu pai estava desesperado tentando te localizar e como você deixou o número do Lex e da livraria como contatos no seu contrato de aluguel, eles me localizaram. Mas você está bem? Quer que eu vá pra sua casa?

— Não, Sam, vai ficar tudo bem. Eu até prefiro que você e meu pai não se encontrem ou você é bem capaz de matar ele — tive que rir um pouco.

— Está bem. Mas me ligue assim que terminar de resolver as coisas, está bem? Vou avisar o Lex de que você não foi sequestrada por nenhuma máfia de órgãos humanos ou coisa assim.

— Obrigada, Sam. Mesmo, muito obrigada.

— De nada, Branquela. Fico te esperando ligar. Se cuida.

Quando a ligação retornou para meu pai, escutei algumas conversas ao fundo, outras vozes. Então ele notou que eu estava na linha e voltou a falar. Antes que ele recomeçasse com uma sessão de preocupação paterna, cortei:

— Pai, eu estou indo pra casa e é melhor que o Sr. Campbell não esteja aí, está bem? Eu não quero falar com ele, quero conversar com o senhor. Tudo bem?

— Tudo bem, Ratinha. Eu vou acalmar os ânimos por aqui e espero por você.

— Até já.

Quando desliguei o celular e coloquei o aparelho dentro da bolsa, sem sequer me lembrar de que Luke queria que eu anotasse todos aqueles dados, espantei aquela sensação ruim dentro de mim, engolindo um pouco de saliva e respirando fundo. Assim que me virei para as escadas, os irmãos Valois estavam ali, olhando para mim, provavelmente tinham escutado grande parte das minhas ligações.

Lucas passou pelo irmão e veio diretamente me abraçar forte, como se conseguisse entender a minha vontade de chorar. E só falou baixinho no meu ouvido, afastando meus cabelos.

— Não se preocupe, Kate. Nós vamos explicar tudo pro seu pai, tá bem? E pro Bruce... Se você quiser.

— Não precisa, Luke, está tudo bem. Eu só preciso ir para deixar todo mundo mais tranquilo. Eles estavam malucos atrás de mim e eu esqueci completamente de deixar um aviso sobre o nosso jantar.

— Vamos leva-la para casa, senhorita Dalton — Próspero se pronunciou, passando por nós e pegando meu cardigã do cabideiro, junto do próprio casaco de tweed e a blusa de Lucas.

— Eu posso pedir um taxi, vocês já foram muito gentis por uma noite, Sr. Valois.

— Eu insisto — ele estendeu o tecido cinza para mim. Havia um tom diferente naquela afirmação. Seria uma forma do Carma dizer " desculpe por ter sido um verdadeiro idiota com você, senhorita Dalton"? Prefiro acreditar que sim.

Collins desceu as escadas pouco depois, enquanto eles vestiam seus casacos e pegavam a chave do carro. Ele beijou minha mão ao se despedir e agradeceu meus elogios sobre a casa e a comida, além de me convidar para conhecer a Inglaterra qualquer dia desses.

Acho que eu precisava de férias. Quem sabe Collins não me abrigasse em algum porãozinho aconchegante na terra da Rainha?

Fomos para o carro. Luke correndo na frente e abrindo as portas enquanto eu seguia pensativa embaixo do guarda chuva preto do silencioso Sr. Valois. O ruivinho fechou a porta do passageiro logo que entrei e depressa estávamos deixando a Rua 35 para trás e a adorável casa daqueles irmãos britânicos.

Pelo caminho chuvoso e repleto das luzes de Nova Iorque, eu não estava preocupada se o Sr. Dalton estaria me esperando diante do portão da Sra. Fighbright com dúzias de perguntas e preocupações. Também não era todo o transtorno de ter uma briga cansativa com ele sobre levar Bruce para o jantar que havíamos marcado, nem escutar suas possíveis desculpas sobre o acontecido.

Naquele momento silencioso dentro do carro frio por conta do desembaçador ligado, sentada ao lado de Próspero com seus olhos fixos no trânsito, estava preocupada com o rumo das coisas na minha vida. Agora com a partida dos Valois, não teria mais um cliente carma para manter minhas quartas intrigantes, nem mesmo um furacão ruivo com seus abraços e ideias repentinas. Pelo menos ainda podia contar com os puxões de orelha de Samantha e as indicações de comida chinesa que Lex sempre fazia.

Era engraçado assumir agora o que Sam havia me dito dentro da livraria naquela tarde: eu sentiria falta dele. Deles.

— Estamos chegando — Próspero quebrou o silêncio, enquanto virávamos a ultima rua antes do quarteirão da Sra. Fighbright, passando exatamente a frente do Hallow's Barn.

Quando o carro estacionou em frente ao porão, pude ver Dolores espiando através de sua janela, logo atrás da cortina e meu pai na calçada abaixo, encoberto por um chapéu molhado e um guarda chuva vermelho desbotado.

Mal havia conseguido tirar o cinto quando escutei a porta de trás abrindo e fechando rapidamente, enxergando o turbilhão de Lucas atravessando a calçada para apertar a mão do meu pai. Fiquei tão aflita de pensar no que meu pai diria para Luke, que minhas mãos não conseguiram tirar a trava que me segurava no banco.

De repente senti um toque sobre meus dedos e olhei rapidamente para a mão de Próspero que segurou a minha para conseguir destravar o cinto de segurança. Um toque breve, mas que com certeza me deixou com a pior cara de olhos arregalados de toda a face do universo conhecido e desconhecido pelo homem.

— Pronto. Agora espere — ele apontou para mim, gesticulando para esperar no carro enquanto ele descia e pegava o guarda chuva. Só saí quando Próspero abriu a porta e evitou que eu tomasse a chuva para chegar até a calçada.

Óbvio que isso não o desculpava do que havia acontecido ainda há pouco, mas eu sabia que aquilo era parte do visível cavalheirismo do Carma.

— Kate! — meu pai exclamou com um sorriso de alívio imediato, deixando Luke de lado para me dar um abraço forte que quase me tirou do chão. Seus olhos estavam marejados. O velho manteiga derretida dos Dalton.

— Estou bem, pai. Estou bem — olhei na direção dos Valois e suspirei. — Estes são meus amigos.

— Já conheci o jovem Lucas Valois — Kennedy sorriu, ainda visivelmente emocionado. — E o senhor deve ser o irmão mais velho, correto?

— Sr. Dalton, pedimos imensas desculpas pela preocupação que afligimos ao senhor com a ausência da senhorita Katerina. Foi por nossa insistência que ela mudou de trajeto e infelizmente o sinal de telefonia é muito precário na nossa vizinhança. Ela não teve intenção de preocupa-lo, eu garanto.

Minha boca estava aberta. Muito aberta. E fiquei olhando para ele na espera que houvesse uma explicação plausível para aquela resposta para meu pai.

Desde quando Próspero se preocupara em criar uma desculpa por eu não ter avisado meu pai sobre o meu desaparecimento noturno? E desde quando ele me chamava de senhorita Katerina?

— Não se preocupe, Sr. Valois. Foi um mal entendido, eu compreendo. O que importa é que Kate está bem e estava aparentemente em ótima companhia, mesmo quase matando seu velho pai de susto.

Kennedy Dalton sorriu e os Valois devolveram a gentileza com sorrisos quase sinceros, nada parecido com o riso cristalino de Lucas ou com aquele sorriso do Carma no meu porão.

— Podemos entrar agora, pai? A chuva... — tive que relembrar a todos de que estava frio e molhado ali fora.

Eles concordaram e se despediram enquanto entreguei a chave de casa para o Sr. Dalton se adiantar. Tinha sorte de o meu pai ser esperto o bastante de entender que queria me despedir e não ter uma crise de pais que fazem filhos passarem vergonha diante dos outros, como aqueles velhos traumas de adolescência.

Antes que pudesse abraçar Luke, ele pediu um momento e correu para dentro do carro. Conseguia ver seus pés balançando pela forma com que ele se pendurou no banco para pegar algo e depois alcançar o porta-luvas, voltando correndo com um pedaço de papel rabiscado por um lápis.

— Aqui está! Celular, e-mail, endereço, não tem desculpa para não manter contato, entendeu?

— Pode deixar, Sr. Lucas — ri e guardei o papel no bolso do cardigã, sem conseguir nem esticar meus braços antes do ruivinho me abraçar muito apertado e beijar minha bochecha como se me conhecesse há meio século.

Bastou me soltar para sorrir com aqueles olhinhos de filhote e correr pro carro novamente, para se esconder da chuva, me deixando as voltas com o inglês insuportável uma vez mais.

— Obrigada pelo que disse, Sr. Valois. Foi muito gentil da sua parte.

Esperei uma resposta áspera ou simplesmente resposta nenhuma, mas recebi uma mão estendida na minha direção, oferecendo um cumprimento pacifico. Quando aceitei e apertei sua mão, um intenso calafrio me obrigou a encolher os ombros.

— Leo. Leopold Thomas Valois D'Orleans, senhorita Dalton. É um prazer, de certa forma.

— É um nome tremendamente grande — acabei rindo, depois de alguns segundos digerindo aquela apresentação tardia. — Mas lhe cabe muito bem, Próspero.

— Não prefere "Carma", senhorita Valois?

— Talvez... — chacoalhei sua mão, como se tivesse a apertado de novo —Katerina Emily Dalton. O prazer é meu, de uma forma muito estranha e improvável.

— Um cumprimento devido e uma despedida, senhorita Dalton.

— Não prefere "Megera"?

— Talvez. Um dia decidirei sobre isso, senhorita Dalton. Por enquanto, até logo.

— Até logo, Sr. Valois.