Orleans
22 Capítulo 21 - Yours
Sophia Bernard era minha única amiga no colégio. Uma garota magrela e baixinha, que parecia ter estacionado na fila do crescimento na puberdade. Fico imaginando se hoje em dia ela atingiu mais alguns centímetros ou se a vida a presenteou com generosos quilos para compensar todo aquele saco de ossos que me acompanhava pelos intervalos da escola.
No meio da grande aventura de finalizar os estudos, Sophia era meu salva vidas rotineiro. Era ela que escutava todos os meus choramingos, lia minhas histórias mais estranhas e dava conselhos quando tinha alguma crise sobre minhas espinhas e os óculos (mesmo quando ela precisava mais deles do que eu).
Éramos tão estranhas e segregadas na sala de aula, que até mesmo os professores faziam de tudo para que ficássemos juntas nos trabalhos e atividades de grupo. E quando nos separavam, não era raro que os grupos acabassem mudando durante os dias — e lá estávamos nós outra vez.
Depois dos gêmeos Whiterun e de Adria, Sophia era a primeira amiga com que sentia que podia contar. E realmente contava todos meus segredos e paixonites, incluse aqueles que acabavam errados... Ou seja, todos.
A amizade durou até pouco antes do final do último ano, quando ela decidiu que era muito divertido ir com ao baile de formatura com o garoto que estava no topo da minha lista de amores do colégio. Então se Sophia era uma estranha até a penúltima semana de aulas, na semana do baile ela se transformou em um cisne — ainda um pouco desengonçado, mas que nitidamente não queria mais andar comigo. Parecia um daqueles filmes clichês da mocinha nerd que se torna a gostosa no final, humilha todo mundo e dá a volta por cima.
O problema é que ela deu a volta por cima de mim. Tudo bem, não guardo rancores.
Apenas espero que ela tenha ganhado todos os quilos que não ganhou durante o colégio.
Mas relembrar sobre Sophia Bernard era apenas um sinal muito assustador de que estava encarando aquele retrato de formatura na parede da escadaria por mais tempo do que seria saudável dizer e que provavelmente minha mente estava em um estado de fuga muito reconhecido quando as coisas acontecem e não sei como lidar com elas.
Leopold Thomas Valois D'Orleans e Kennedy James Dalton estavam conversando na sala pouco abaixo dos degraus onde meus pés estavam. E eu não fazia a mínima ideia do motivo daquela súbita conversa entre eles.
Vale citar que na velha casa secular da família Dalton, em Nova Orleans, havia exatamente dezoito degraus que levavam desde o átrio até o corredor do primeiro andar. Cada tábua de madeira pregada por baixo do carpete puído sobre o assoalho, rangia de um jeito diferente. E Katerina Dalton contou cada um deles enquanto fazia sua caminhada turística ao lado de um tagarela ruivinho sorridente.
Podia até parecer uma tremenda falta de educação, mas não estava escutando nenhuma palavra do que Lucas dizia. Em alguns trechos meus ouvidos juraram absorver alguma coisa sobre fotografias e família, vagamente o assunto mudou para livros e bibliotecas, até que uma cristalina risada tomou o ambiente e percebi que estava parada no último degrau com Luke exatamente a minha frente, me encarando com seus grandes olhos azuis rodeados de sardas.
— Oi! — ele exclamou, acenando com a mão livre na minha direção, rindo como era tão seu costume.
— O-Oi — sorri, retornando para meu estado quase normal.
— Que bom que você voltou. Foi muito longe, Kate?
— Voltei de onde?
— Do lugar onde estava com a cabeça. — riu. — Você não ouviu nada do que eu estava falando, né?
— Bom, eu...
Poderia começar uma longa explicação que incluiria uma detalhada missão até Marte para reconhecer o terreno ou procurar sinais de vida, mas a simples forma com que ele apertava os lábios para não gargalhar na minha frente, já era bem esclarecedora. Meu rosto falava por mim e Lucas não era nem um pouco bobo.
— Tudo bem, eu entendo. Mas antes que você me pergunte, também não tenho ideia do que meu irmão quer conversar com o seu pai. Pode ser que eles negociem alguma coisa que ajude na paz mundial ou só um carregamento cheio de lã daquelas ovelhas macias que pastam lá perto da nossa casa em York.
— Resta saber qual das opções seria, não é mesmo?
— Não acho que seja muito difícil de deduzir. Tenho certeza de que o mundo agradecerá por esta noite e pelo nosso sacrifício em fugir das xícaras de café de chicória e de horas de extenuante negociação.
— Então o senhor Lucas não quer conhecer a minha casa e apenas me atraiu para cá com essa desculpa sórdida? Que ardiloso.
Os lábios de Luke se apertaram e ele não conseguiu brigar contra a vontade de rir alto e passar o braço ao redor dos meus ombros para seguirmos caminhando para o corredor espiando para dentro dos quartos com as portas abertas.
— Não fique brava, Kate. Tem algumas coisas que não posso negar para o meu irmão, ainda mais quando ele atravessa o oceano para encontrar com a atendente cantora da Barnes & Noble.
Seguimos entre risadas e pouca conversa passando pelos cômodos da antiga casa, apenas para Luke ter de fato alguma boa resposta na ponta da língua quando voltássemos para a sala de estar. Claro que o velho casarão parecia em ótima forma, mas estava muito distante de se igualar a magia daquela mansão nas terras da Rainha.
Aquela pequena explicação sem explicação nenhuma que Luke deu entre seus sorrisos havia me servido muito bem. Gostava de pensar que de alguma forma aquela conversa com Kennedy já estava nos planos de Leo quando embarcou para Nola e que talvez ele tivesse alguma ponta de nervosismo escondida por trás de sua seriedade e bons modos. Quem sabe quantas vezes ele ensaiou a melhor frase ou imaginou como meu pai responderia suas palavras pomposas?
Não custava nada sonhar que poderia ser assim, não é?
Quando o tour acabou nos levando de volta para o térreo e diretamente para a cozinha, Genevieve estava terminando de fazer uma pequena chaleira de chocolate quente. Ela sabia exatamente que as meninas Dalton não eram fãs de café, menos ainda o café tradicional de Nola oferecido para os visitantes.
Aos poucos, encorajada por Lucas, Vivi começou a contar histórias de quando moramos naquela casa. De tempos felizes, quando não havia a traição da minha mãe ou a quase perpétua tristeza do meu pai. Uma época mais leve, em que considerava os Dalton uma família perfeita e jamais imaginaria nada do que me aconteceu, nem nos meus sonhos mais doidos.
A conversa animada foi interrompida quando o barulho dos saltos de Adria chamou a atenção e ela abriu um largo sorriso por estar diante do "famoso violinista". Ela estava com o casaco um pouco torto e o batom desaparecido da boca (o que não dava margem para muitos pensamentos), e veio caminhando enquanto tirava os sapatos, esticando o braço na direção de Luke.
— Então finalmente nos conhecemos propriamente — eles apertaram as mãos. — Eu me lembro de você em Nova Iorque. Suas charmosas sardas não são facilmente esquecidas.
Adria estava rindo, o que indicava que tinha bebido alguma coisa em sua excursão noturna e Vivi foi ligeira (ao menos o quanto sua idade permitia) para servir uma caneca de chocolate para ela.
— Obrigado. Eu vivo dizendo isso para a Kate, mas aposto que ela me acha um convencido. — Luke se acomodou em uma cadeira por perto e agradeceu pela própria caneca servida. — Eu também me lembrava de você! Nos vimos quando fomos levar a Kate em casa no dia em que a conhecemos na livraria.
— Isso mesmo. O ex-noivo dela também estava lá e teve aquele convite para o seu concerto, não foi? Minha memória é muito boa.
Ela piscou para Lucas e depois sumiu em um silêncio repentino, olhando para o nada enquanto soprava o vapor da caneca. Ficamos olhando para ela por mais algum tempo antes de começarmos a rir e Adria acabou rindo sem entender direito o motivo. Ficar desconectado do mundo sem aviso prévio: mais uma qualidade de família.
— Ah, aqui estão vocês! Estamos escutando suas risadas lá da sala.
Kennedy foi entrando pela cozinha com seu roupão listrado, seguido de perto por um Leopold cuja expressão não consegui distinguir. Adria o cumprimentou com um aceno que foi tão informal que quase me deu vontade de mergulhar a cabeça dentro do chocolate. Sorte a caneca ser pequena.
— Chocolate? — Genevieve ergueu uma caneca, oferecendo um pouco da bebida. Porém Leo apenas ergueu as sobrancelhas com um pequeno segundo na demora em responder e sorriu, gesticulando brevemente.
— Eu agradeço, mas já está muito tarde e temos que ir. Foi um dia cansativo e com certeza todos querem descansar. Lucas?
Luke abriu a boca para reclamar e cruzou olhares com o irmão mais velho, contudo Leo não precisou de nenhuma palavra. Bastou sua fatídica sobrancelha se sobressair e Lucas estava logo empurrando mais dois goles de chocolate e limpando a os cantos da boca com os dedos.
— Okay. Está tarde mesmo. É que eu perdi a noção do tempo com todo o passeio pela casa e a conversa, foi uma ótima noite, meninas.
— Ah, mas tão cedo? Eu acabei de chegar... — Adria reclamou, quase debruçada sobre o balcão da cozinha. Parecia que estava derretendo.
— Tenho que concordar com o Sr. D'Orleans, Adria. Eles chegaram da Inglaterra hoje e devem estar estranhando o fuso horário. Mas por favor, voltem quando quiserem. Nossa casa está à disposição.
No meu canto com as mãos em volta da caneca quente, assistindo aquela cena no meu silêncio quase contemplativo, me parecia um tanto surreal ter os irmãos Valois dentro da casa da minha família. Eles estavam se despedindo e tudo que eu conseguia fazer era relembrar o exato momento em que coloquei meus olhos em Leo pela primeira vez e rir baixinho dos caminhos que haviam o trazido até ali, até Nova Orleans.
— Vocês vão pedir um táxi? — Adria franziu a testa ao ver nosso pai apanhar o telefone. — Posso levar vocês até o hotel, se quiserem. — ela abriu um sorriso com a constatação de que sim, ela podia dirigir e o faria. Contudo, não contava com o uníssono que se seguiu:
— Não precisa — todos falaram. Ninguém era maluco de entrar em um carro com uma Adria depois de uma noitada. Ela teria que se contentar com seu chocolate quente como final do dia.
******
Caminhei com os irmãos até o portão do casarão depois de todas as despedidas, agradecimentos e promessas de um retorno em breve. De qualquer forma, estava orgulhosa com os modos dos Dalton. Normalmente me sentiria envergonhada, mas estava degustando um novo sabor de orgulho familiar (mesmo tentando ignorar que meu pai estava espiando pela fresta da janela como se eu tivesse quinze anos).
Lucas estava contando todas as suas impressões sobre a casa e demonstrando que havia prestado muito mais atenção do que imaginei que estivesse, dando detalhes que haviam me passado bem mais desapercebidos até então. Foi quando me dei conta de que o motivo da vinda dos Valois — pelo menos a fictícia — não estava ali.
— Minha nossa, o livro! Esqueci o livro. Vou pegar, por favor, esperem por mim, está bem? Não vou demorar nada, eu prometo...
Antes de conseguir virar o corpo todo na direção da rampa da garagem e arquitetar o caminho mais rápido até minha mala no primeiro andar, Leopold segurou firmemente a minha mão e nossos olhos se encontraram.
— Não se preocupe. Você pode me devolver amanhã, Katerina.
— Mas amanhã eu volto para...
— Eu sei. Contudo, gostaria de encontrá-la no aeroporto amanhã, se não se importar. Já que nossa estadia ainda perdurará alguns dias e a sua será tão breve, pelo menos podemos conversar enquanto aguarda o seu voo.
— Vamos ao aeroporto! — Lucas comemorou e olhamos juntos para ele ao que o barulho do portão aberto o denunciou caminhando para a calçada entre seus risos.
— Seria muita indelicadeza minha negar esse pedido, Leo. Ainda mais depois da comemoração tão entusiasmada do seu irmão.
— Não sabia que a presença de Lucas era tão vital nessa questão. — ele cruzou os braços, mas ainda mantinha um discreto sorriso. Meu ego deu voltas com a pitadela de ciúmes e me ergui na ponta dos pés, roubando um beijo dos lábios do inglês que na ocasião tinha aroma de café.
— Finalmente, achei que vocês não iam se despedir nunca, poxa! — Lucas abriu os braços na calçada, no exato instante em que o táxi estacionou. Rindo, abriu a porta do passageiro e pigarreou, acompanhando uma tosse fingida em seguida. — Tudo bem, pessoal, agora chega de despedida. O táxi está aqui. Gente, não me ignore... Me desculpe, é que eles não se veem há alguns dias, o senhor sabe como são esses casais jovens de hoje em dia.
Me afastei um passo de Leo apenas quando comecei a rir do que Luke estava dizendo para o motorista, um senhor simpático que estava sorrindo como se visse um desfecho de filme romântico, pacientemente esperando o inglês entrar no carro.
— Lucas... — Leo revirou os olhos enquanto a risada do ruivinho saía pela janela do passageiro.
— Não se incomode, amado irmão. Quem vai pagar o táxi é você mesmo. O senhor... Desculpe, qual o nome do senhor mesmo? — Luke debruçou no banco para ler o nome na licença do motorista.
— Albert — o motorista riu. — Não tenha pressa, não estou cobrando pela parada.
— Viu só? O senhor Albert está comovido pela força do amor, então fiquem a vontade. A propósito, sou Lucas. Mas pode me chamar de Luke. — ele recomeçou, apertando a mão do motorista e em seguida engrenando uma conversa qualquer com ele.
Escutei o som do riso discreto de Leo perto de mim e confesso que prestei mais atenção a isso do que no que acontecia no táxi. Seria errado gostar tanto de um sorriso daquele jeito? Realmente espero que não, caso contrário já tinha infligindo muitas leis contra sorrisos na América.
E não me arrependia.
Leo apanhou minha mão e beijou suavemente sobre meus dedos, uma despedida que não poderia ser mais típica dele.
— Nos vemos amanhã. Tenha uma boa noite, Kate.
— Boa noite, Leo. — lá estava minha cara de boba apaixonada. Nunca me acostumaria com aquilo, era uma certeza.
— Boa noite, Kate! Até amanhã! — Lucas gritou de dentro do carro e até o senhor Albert acenou antes de dar partida no táxi, afastando-se dali.
Quando fechei o portão da casa tive que conter uma risada. Kennedy, Adria e Vivi estavam na janela, sorrindo como bobos e tentando se esconder e fechar as cortinas de um jeito torto quando me viram entrar.
Pelo visto uma boa quantidade de perguntas me esperava lá dentro antes de dormir, por sorte teria uma caneca de chocolate me esperando também.
******
— Bom dia, Ratinha. Dormiu bem? Acordou bem a tempo pro café.
Meu pai estava radiante para alguém que foi dormir fora do horário. O jornal estava estendido no balcão enquanto ele ajudava Vivi a colocar a mesa do café da manhã e pelo visto apanhar xícaras e colheres estava mais interessante do que o setor de economia da cidade. Um bom sinal, principalmente para alguém que teria de reinventar um pedaço da própria vida econômica dali por diante.
Em contrapartida, eu estava me arrastando. Tinha prendido os cabelos de qualquer jeito e calçado meu par de pantufas de urso que completava meu look "não estou nem aí para o que você pensa", perfeitamente acompanhada por Sir Shakespeare embaixo do braço. Minha ideia era passar os primeiros momentos do dia finalizando minha leitura de Othelo, mas duvidava que meu pai permitisse meu momento de introspecção matutino.
Depois da despedida dos ingleses no portão, não passei pelo constrangedor momento de responder as perguntas dos curiosos Dalton, o que me surpreendeu muito. Normalmente seria uma Inquisição das piores, com direito a holofote no rosto e mãos algemadas na cadeira da cozinha, além das ameaças de ficar sem aquecimento no quarto se não contasse todos os detalhes. Mas não houve nenhum interrogatório, nenhuma risadinha, nada. O que era bem alarmante.
Consegui dormir relativamente bem pela noite toda, salvo o pequeno período de ansiedade que me fez rolar pela cama até o sono chegar, apenas em ficar imaginando que tipo de conversa teria com Próspero na manhã seguinte. E como sobrevivente do encontro entre Daltons e Valois, me sentei em um canto da mesa abrindo um longo bocejo e desejando que o café rumasse para a minha boca sem precisar fazer esforço.
— Café? — Vivi colocou uma caneca na minha frente sem me dar tempo de responder. Por sorte não era mais uma dose cavalar de café de chicória e sim um encorpado líquido escuro, perfumado e espiralando convidativo dentro da louça(e aparentemente feito de grãos, não de folhas). Só os bons deuses sabem o quanto eu torci para a cafeína funcionar como algum tipo de despertador naquela hora.
Kennedy se sentou do outro lado e se serviu de uma dose generosa de geleia em um pedaço de torrada, enquanto Vivi derramava o café em sua xícara. Falavam amenidades sobre a casa e entendi que em algum trecho da conversa citaram Adria e seus roncos escapando para o corredor, coisa que não me surpreendia muito.
— Pode me passar um guardanapo, Kate? Obrigado. Animada para voltar para Nova Iorque hoje? — meu pai começou a conversa, seu sorriso paternal escapando pelas bordas do pão dourado em que dava crocantes dentadas.
— Aliviada. É bom voltar para lá com a consciência mais tranquila.
Voltei a bocejar e achei melhor colocar mais uma colher de açúcar no meu café antes de me aventurar por torradas, beignets, ovos mexidos, salsichas e alguma coisa que Vivi estava tirando do forno. Comecei a misturar aquela dose gigantesca de glicose na bebida quente quando meu pai acomodou os ombros do outro lado, um aviso de que estava incomodado com alguma coisa.
— Aconteceu algo? — achei melhor perguntar antes de voltar a minha questão existencial da manhã: manteiga ou geleia de mirtilo?
— Não, não aconteceu nada. — ele pausou. E quando Kennedy Dalton pausava dramaticamente uma frase daquela forma, com certeza havia algo além do ponto final.
Não precisei esperar muito para descobrir.
— Estava me questionando um pouco sobre o Sr. Valois. Sujeito curioso.
— Curioso? Em que sentido? — continuei misturando o açúcar na caneca. Meu sexto sentido estava gritando como uma sirene dos bombeiros.
— Um homem diferente. Talvez seja por ser inglês ou por alguma coisa nele que me incomodou, não soube decidir ainda.
— Incomodou? Ele agiu de alguma forma estranha com o senhor? O Sr. Valois é um tanto... Peculiar, ás vezes.
Meu pai gesticulou alguma coisa enquanto mastigava a torrada com as bochechas inchadas e algumas migalhas na boca. Então pegou fôlego depois de mais um gole do próprio café, que logo acabaria, e me olhou diretamente com ares de um assunto muito importante.
— Ele agiu corretamente. Muito corretamente, se quer saber. Me disse que veio até aqui para pegar o livro que te emprestou. Acho que foi isso que me deixou impressionado.
Lançamos um olhar para o grande encadernado que estava ao meu lado sobre a mesa e fiquei imaginando se Kennedy achava Leopold um pouco louco por atravessar meio mundo por conta de um exemplar de Shakespeare.
— O Sr. Valois é um colecionador muito sério das obras de Shakespeare. Foi assim que nos conhecemos na livraria, entre uma de suas compras. — ainda estava girando a colher dentro do café. Se continuasse daquele jeito, ia abrir um buraco na caneca.
— Houve um comentário sobre isso, mas ele me disse que vocês se conheceram depois de um assalto na livraria. Você não me contou sobre isso, Kate. Um assalto e você de refém?
— Foi um acontecimento ruim, mas nada grave, pai. Eu teria contado se fosse alguma coisa importante. — raptei um pedaço de pão para perto. A ideia era me entupir de comida para não poder continuar com aquela conversa. — E eu devo um grande agradecimento pelo Sr. Valois ter me salvado naquele dia.
— Entendo. — Kennedy fez outra pausa. Ah, tinha alguma coisa errada.
O café dele terminou (como bem imaginei), mas ele não se levantou para encher a xícara mais uma vez. Ficou me analisando do outro lado, claramente procurando alguma coisa que estava o incomodando e que queria expor.
— Desde quando você e o Sr. Valois estão juntos?
Okay. Eu tinha previsto isso.
Digamos que tive sorte em não estar com nada na boca naquele instante ou teria engasgado e claramente seguido para o hospital ao invés de ter uma primeira reação bem natural.
— O que? Nós... Nós não estamos juntos. De onde tirou isso, pai?
Minha voz saiu mais alta do que tinha programado e as sobrancelhas de Kennedy se ergueram, enquanto eu, quase me enfiei dentro da caneca de café para tentar disfarçar minha vergonha.
Uma reação super natural. Claramente adulta e madura da minha parte.
Já fazia mais de dois minutos que a caneca de café tinha se tornado super interessante. Mega interessante. Mais interessante do que desmascarar se o homem tinha pisado na lua ou em um set de filmagem muito bom. O líquido lá dentro já devia estar morno e péssimo para se tomar, mas eu insistia em continuar dando voltas perto da borda com minha colher, só para evitar trocar um olhar com meu pai do outro lado da mesa.
— Kate, você não vai beber isso? — ele franziu a testa, visivelmente preocupado. No prato dele só restavam migalhas e um guardanapo amassado como uma bolinha.
— Vou sim. É que está muito quente.
— Quase não tem nenhuma fumaça saindo daí.
— Claro que tem, o ângulo é que não ajuda muito. — peguei a caneca (que realmente nem estava mais tão quente) e bebi um gole (que estava uma porcaria), fazendo um sorrisinho de prazer (que era muito falso).
Kennedy começou a rir devagar. Primeiro tentou conter o riso e vendo que ia falhar, gargalhou, cobrindo a boca com a mão para não chamar muito atenção.
— Não precisamos falar sobre isso se você não quiser. Eu só perguntei porque achei que você e Sr. Valois... Bom... Você gosta dele, não é?
Respirei fundo e passei os dedos sobre a capa do livro ao meu lado, procurando uma âncora que me tirasse daquela conversa. Depois de passar a adolescência tendo apenas Sophia Bernard como ouvinte das minhas poucas paixonites (e esporadicamente Adria, quando ela não estava ocupada tirando sarro com a minha cara de boba), não sabia se estava psicologicamente preparada para aquele tipo de conversa entre pai e filha.
Tinha sorte de Kennedy não querer me explicar de onde vem os bebês.
— Bem que imaginei. — ele completou, levantando da mesa para se servir de mais um pouco de café.
— Imaginou? —senti um pequeno solavanco nas costelas.
— Claro. Você não poderia gostar de um sujeito como o Sr. Valois, não é? Um homem como aquele jamais atrairia sua atenção.
— O quê? — minha testa estava tão franzida que aquela veia Dalton podia ser sentida sem precisar ser tocada, bem ali entre as sobrancelhas.
— Presunçoso. Metido a sabichão. Orgulhoso. Com certeza deve ser mais um desses jovens criados com todos os luxos de uma família muito rica na Inglaterra, exatamente o tipo de pessoa que minha Ratinha nunca se interessaria. Estou correto?
Kennedy consultou meu rosto e Vivi riu baixinho do outro lado da cozinha, zanzando com um porta-bolo para perto da mesa como se soubesse mais do que todo o resto da casa.
— De onde o senhor tirou isso tudo? — bebi o resto daquele café morno.
— É muito fácil deduzir o caráter de um homem depois de um pouco de conversa. Tenho certeza de que você também tem essa conclusão quando olha para ele. As roupas alinhadas, o queixo erguido...
— Muito arrumado. — Vivi completou.
— Exatamente, Genevieve. Obrigado — Kennedy agradeceu o pedaço de bolo de nozes que ela serviu antes dele voltar a se sentar do outro lado da mesa com sua nova xícara de café fumegante, resmungando alguma coisa mais sobre as roupas de Leo e suas observações.
— E o senhor usou esse talento em deduções para julgar Bruce Campbell também? Não confio muito nesse dom da família. — resmunguei.
— Um erro crasso. Algo que não vai se repetir.
Quando notei estava tamborilando a caneca vazia e nem tinha prestado atenção que Vivi também tinha cortado uma fatia de bolo bem diante do meu nariz. Só queria consertar aquela coleção de bobagens que meu pai estava falando sem motivo. Não queria que ele tivesse qualquer impressão ruim sobre Leo, ainda mais depois de apenas alguns minutos de conversa.
— Eu não vejo nada disso e não sei de onde vocês tiraram essa conclusão absurda. Ele é um homem muito íntegro e inteligente, um pouco orgulhoso, isso é verdade, porém não diminui nada das suas qualidades. Pode ser que leve algum tempo até conseguir ver isso, mas posso garantir que Leopold é uma pessoa que vale a pena o esforço para se desvendar.
— Tem certeza de que estamos falando do mesmo homem? — meu pai consultou por trás da fumaça de sua xícara. — Me pareceu tão insosso.
— Ora, o senhor mal o conheceu — bufei — Mesmo parecendo um homem sério e difícil, posso garantir que o Sr. Valois tem algo muito bom dentro dele. Pode ser que ele não assuma sua boa índole ou boas intenções, e seja reservado com as pessoas que não conhece, mas posso garantir que o senhor está errado nesse julgamento.Tem algo nele que quando eu o vejo... Parece que meu coração vai parar.
Sim, aquela declaração soou tão sincera pra mim quanto podem imaginar e encontrei o rosto do meu pai sorrindo do outro lado da mesa, seus olhos nos meus até que esticou a mão para apanhar a minha.
Ele falou tudo aquilo de propósito e eu caí como uma patinha. Definitivamente estava ficando boba.
— É, bem que eu imaginei — ele riu baixinho, entrelaçando os dedos nos meus carinhosamente.
— Imaginou o quê? — soltei todo o ar dos pulmões.
— Que você não podia estar errada. E um homem que vem até Nola para buscar um livro, — claro que ele pausou para erguer as sobrancelhas e rir — não poderia ser mais merecedor do seu apreço, minha Ratinha.
— E isso quer dizer...
— Que não vou retirar que achei o homem um tanto quanto orgulhoso na minha primeira impressão, mas acho que gostei dele. Me pareceu muito sincero e do tipo que cumpre suas palavras. Mesmo quando ele usa palavras difíceis.
— Leopold gosta muito de palavras difíceis.
— E se vocês estiverem juntos, coisa que você já disse que não estão, estaria tudo bem desde que você realmente gostasse dele.
Estava ali a minha deixa e esfreguei os dedos de antecipação para passar um pouco de geleia no bolo de nozes.
— Então, sobre o que exatamente vocês conversaram na noite passada? Me pareceu um assunto realmente sério.
— Negócios.
Kennedy soltou minha mão e voltou a se dedicar ao próprio desjejum, enchendo o prato com ovos e salsicha e me deixando com aquela cara de quem foi atropelada por um caminhão e não anotou a placa. Resumindo aquela conversa toda, ele não disse patavinas sobre o que eram os tais negócios entre ele e Leo, o que me deixava repleta de caraminholas para ficar pensando.
Assim que terminei meu café, fui até o quarto me trocar e trazer minha mala para baixo, o que levou muito mais tempo do que tinha imaginado na minha cabeça. Foi uma tarefa fácil descer todos os dezoito degraus (sem contar o cotovelo da curva), apesar de estar com a bolsa de ombro mais cheia de badulaques do que tinha programado.
Além das lembrançinhas que iriam comigo para Nova Iorque, Vivi havia colocado ali um tupperware com um generoso pedaço de bolo de nozes e algumas beignets que sobraram do café da manhã, ainda bem frescos. Isso somado ao volume já comumente encontrado ali dentro, só piorava a situação do caos.
Precisei de mais de cinco minutos para tirar tudo lá de dentro, encontrar meu celular e descobrir uma logística funcional para colocar tudo de volta sem parecer que estava traficando uma cabeça humano embaixo do braço. E enquanto digitava uma mensagem para certo Valois D'Orleans, indicando meu horário de embarque e o portão, escutei Adria reclamando ao descer as escadas. Pelo visto a bebida de sua noite tinha trazido consequências, já que por poucas horas ela não acaba acordando depois do horário do almoço.
— Não acredito que dormi até essa hora — ela continuou reclamando quando passou por mim pela sala, apertando os olhos atrás de um óculos escuro de marca. Trazia com ela uma xícara de café forte e na outra mão, um copo com antiácido. — Você está atrasada, princesa? Sabe que vou te levar até o aeroporto, não é? Já ajeitou tudo? Precisa de alguma coisa antes de ir?
— Está tudo bem, Adria. E eu acho melhor pedir um táxi, você não me parece muito bem para sair dirigindo por aí.
Sem querer dizer que meu seguro de vida não cobria morte por acidente contra um bonde histórico de Nova Orleans, coisa que claramente aconteceria se Adria tentasse tirar o carro da garagem.
— Bobagem. Vou tomar essas belezinhas aqui e em minutos estarei novinha em folha. Vou me lembrar de nunca mais misturar vinho com tequila...
Fiz uma careta só de imaginar e fiquei com pena do pobre fígado da minha irmã. Ia me lembrar de torcer para que ele sobrevivesse por mais algumas décadas.
— Tenho que concordar com a Kate, Adria. Eu mesmo vou até o aeroporto com ela e a senhorita, trate de descansar bem longe da luz do sol se não quiser uma enxaqueca ainda maior do que essa. — meu pai se aproximou rindo, deixando seu jornal na mesa de centro e consultando o relógio sobre a lareira para analisar se estava de acordo com os ponteiros do exemplar em seu pulso.
Segundo minha pequena experiência com aeroportos, o ideal era sempre chegar bem adiantada. Primeiramente para evitar problemas e segundamente... Bom, era sobre mim que estamos falando, não é?
Adria resolveu seguir os conselhos do nosso pai e veio se despedir antes de todos, me apertando e beijando minhas bochechas como se nunca mais fosse me ver nessa existência. Ironicamente, marcamos de nos encontrar em poucos dias, quando ela chegasse a Nova Iorque para ir pessoalmente falar com o amigo advogado sobre o caso da Sra. Fighbright.
Genevieve me ajudou a relembrar em voz alta se estava levando todas as coisas dentro da mala e insistiu mais de uma vez para que eu levasse mais alguns pedaços de bolo dentro da bolsa. Definitivamente as pessoas tinham intenções malignas para me empanturrar ou eu precisava começar a rever meus conceitos sobre meu tamanho de calça.
Com tudo pronto, voltei a consultar o celular e encontrei uma resposta bipando no visor:
"Espero que possamos almoçar juntos, Kate. Nos vemos em breve".
Era isso. Minha saída de Nola seria fechada com estilo em um almoço com os irmãos Valois. Mas havia uma perguntinha insistente (que estava fazendo com mais frequência do que imaginava) no fundo da minha mente, um lembrete chato que ficava cutucando meu peito como uma agulha perdida no meio do meu casaco:
E depois, quando eu voltaria a ver Leopold outra vez?
— Vou colocar sua mala no carro, Ratinha — meu pai passou por mim, girando as chaves no indicador e acomodando um cachecol xadrez ao redor do pescoço.
— Eu mesma levo, não está pesado.
— Então vamos. Vou tirar o carro da garagem.
Vivi me deu um abraço e questionou sobre o bolo de novo (o que começava a me preocupar se não era a idade chegando ao invés de superproteção), se oferecendo para carregar minha bolsa de ombro até a rampa da garagem. Ainda estávamos debatendo sobre potes de bolo e bolsas pesadas quando Kennedy buzinou levemente para avisar que estava esperando.
Confesso que não esperava sentir aquele aperto no peito quando o velho casarão Dalton ficou para trás no retrovisor, com a fiel Genevieve acenando do portão. Mas de alguma forma aquele momento me lembrou minha primeira despedida daquele lugar, logo na infância.
O cheiro do aromatizador do carro ficou mais intenso quando meu pai aumentou o aquecedor. Lembrava madeira e couro, um ambiente que não parecia muito com algo que um Dalton estivesse acostumado, mas era agradável.
— Sua avó me ligou pela manhã antes do café.— Kennedy fez o comentário como se falasse sobre o clima.
— Deve ter sido uma ligação muito agradável. Ela veio elogiar suas incríveis netas? — definitivamente ironia era parte do meu vocabulário.
— Pode acreditar que não foi das piores. Viola me parece mais tranquila sobre a decisão do casamento do que eu esperava. Lógico que desconfiei de toda a calma dela, afinal uma mulher tradicionalista não muda assim tão rápido.
— Então ela não queria só falar sobre a falta de educação da sua filha mais nova?
Rimos juntos, era bem claro que Viola não deixaria passar a ocasião para falar sobre aquele tópico com meu pai. O olhar de desaprovação dela não seria esquecido tão facilmente.
— Ela me perguntou se por acaso minha filha caçula não teria algum interesse em trabalhar no ramo da família. Claro que no meio dessa pergunta ela deixou implícito de que me aceitaria novamente, mas eu neguei.
— O senhor negou? — não fiquei sinceramente muito surpresa, mas era um prazer escutar aquela decisão toda vinda do Sr. Dalton. Tanto que não notei o bipe que vinha da minha bolsa no banco de trás. Fiquei aguardando Kennedy tomar um desvio na direção da placa que indicava o aeroporto antes de fazer um som qualquer para que ele se lembrasse de continuar o assunto.
— Porque eu aceitaria? Tenho boas perspectivas adiante e estou animado com elas, ainda mais com o apoio de vocês. Acredito que as ideias que Adria vem conversando comigo nestes dias possam dar muito certo.
Abri um largo sorriso ao notar a sinceridade nas palavras do meu pai e depois olhamos na direção da estrada, acomodados com o bom silêncio entre nós. Então algo me veio em mente...
— Pai... Você tem alguma notícia sobre a Aida? — me negava a chamar aquela mulher de mãe. O respeito que tinha por ela não existia mais e a única coisa que havia entre nós era o fato dela ter me colocado no mundo. Não queria nenhum contato com ela, mesmo que uma parte dentro de mim borbulhasse em imaginar o destino dando uma lição na ex- Sra. Dalton.
— Nenhuma palavra. Mas saberemos de algo em breve. Sua avó deve dar a notícia da sua decisão em primeira mão e com certeza a reação não será bonita.
— Nunca esperei nenhuma aprovação dela. A reação dela também não me interessa, pai.
— Eu sei que não.
Respirei fundo. Sabia que aquele assunto não era fácil para nenhum de nós, mas era necessário. Tomaria todas as providências possíveis para afastar Aida da minha vida, mas não podia decidir isso por meu pai. Aquela era uma decisão que ele mesmo tinha de tomar.
— Desculpe. Sei que para o senhor lidar com Aida é um tanto... Complicado. Ainda mais com todos esses problemas, idas e vindas...
Kennedy não me olhou escolher as palavras com cuidado, mas permitiu que eu tentasse expor meus pensamentos. Sabia quer acima da responsabilidade paterna ainda havia um homem com sentimentos e não queria me envolver na questão se isso o magoasse. Já bastava de mágoas e desencontros entre nós.
— Eu amei muito a sua mãe, Kate. Por muito tempo, mais do que deveria. Engoli meu orgulho quando saí da casa da minha família, passei sobre todos meus pensamentos quando vocês nasceram por acreditar que Aida sabia o que era melhor para nós. Ignorei todos os sinais de que nosso casamento estava desmoronando e mesmo depois de tudo, estive disposto a tentar de novo e tentei.
— Acho que essa burrice faz parte da genética Dalton — sorri. Já não era mais uma criança e admirei meu pai falar daquilo tão abertamente, como se tirasse um espinho da garganta.
— Realmente nossa genética veio do meu pai. Seu avô era um homem tão gentil que por isso preferiu se afastar dos negócios da família e permitir que sua avó tomasse a dianteira de tudo, lidando com as negociações e a frieza do dinheiro. Enquanto isso ele cuidava da horta, dos filhos e dos empregados.
— Fico feliz de termos puxado ao vovô. Acho que ele ia gostar de toda a bagunça que fizemos por aqui.
— Você fez. — Kennedy me olhou de canto, o aeroporto já surgindo no vidro do carro. — E não se engane, Kate. Você tem a força da sua avó, mas de uma forma completamente sua.
Ele esticou a mão para tocar a ponta do meu nariz e não me deixou agradecer pelas palavras. Passou a falar sobre o preço do estacionamento e questionar minha plataforma de embarque, tagarelando como um bom Dalton sabe fazer.
Minha mala já estava em um carrinho e a bolsa bem acomodada no ombro quando meu pai resolveu respirar, trocar um ligeiro olhar e me abraçar apertado. Sabia que encontraria seus olhos marejados com a pequena despedida e ele não precisava sequer começar a listar todos seus conselhos paternos para a viagem. Combinamos que eu ligaria assim que chegasse em Nova Iorque.
— E se precisar de um lugar para ficar, mesmo que temporariamente...
Fiz uma careta misturada com sorriso e beijei sua bochecha. Sabia que era seu lado de pai falando, mas ele também tinha conhecimento da minha teimosia sobre o assunto. Acenei enquanto me afastava e confesso que meu peito estava apertado pela primeira vez em muito tempo, apenas em pensar que se olhasse sobre o ombro ele estaria ali parado, olhando por mim com seu carinho.
— Estou torcendo por você, Kate! — escutei a voz dele por trás das portas de vidro se fechando e sorri, me enchendo de coragem. O primeiro passo estava finalizado, hora de partir para o próximo.
*******
A fila do guichê estava demorando mais do que havia previsto. Um casal discutia sobre a troca de assentos e tudo se tornava um problema ainda maior aliado ao mau humor do atendente que estava claramente infeliz por trabalhar naquele dia. Aproveitando o tempo extra, retirei o celular da bolsa para consultar as mensagens e encontrei uma notificação de recado na caixa postal junto das dezenas de mensagens de Adria desejando boa viagem (e reclamando que ainda estava com enxaqueca).
Estava prestes a digitar a senha para acessar a gravação quando o telefone voltou a chamar e a cara sorridente de Lucas surgiu na tela.
— Oi, Luke — atendi animada, dando graças por poder escutar a voz do ruivinho para me tirar do tédio da espera na fila.
— Infelizmente não, mas posso passar a ligação para ele se fizer questão, Katerina.
A animação se tornou um arrepio e o sorriso evoluiu para uma risada quase nervosa que culminou em uma tentativa ridícula de tosse para me recompor. Olhei para os lados para ter certeza de que ninguém estava prestando muita atenção na minha (agora registrada oficialmente) cara de boba ®.
— Me contento em falar com o senhor, caro Sr. Valois. Não que eu não queira falar com seu irmão, tenho imenso carinho por ele, como bem sabe.
— De fato, sei. — ouvia a risada de Lucas no fundo da ligação, certo de que estava se divertindo. — Embora conversar sobre Lucas pareça um tópico deveras interessante, estou ligando para confirmar nosso compromisso.
— Com... Promisso? — não me questionem. Fiz o maior de meus esforços para não engasgar com a palavra que instantaneamente se prendeu entre meus últimos dentes e a garganta. Meu esforço resultou em uma meia palavra dita um pouco mais alto do que deveria.
Vergonha. Vergonha.
— O almoço, Kate. — a voz de Leo denunciava um sorriso do outro lado da ligação que claramente estava se divertindo às minhas custas.
— Claro, claro. O almoço. Sim, o almoço. Claro, está confirmado sim. O almoço. Claro.
— Respire, Kate.
Pausei e inspirei profundamente, sentindo os pulmões inflando.
— Estou respirando. Estou bem. — tossi de novo, para me convencer — Tudo sobre controle. Onde nos encontramos?
— Assim que você sair da fila do guichê e se desfazer da mala, podemos ir até um pequeno bistrô na área de alimentação. Caso não tenha nenhuma contrariedade. — Consegui escutar Luke tentando participar da conversa ao lado de Leo, possivelmente adicionando algum detalhe — Gattors é o nome do lugar.
— Diga ao Lucas que ele fez uma ótima escolha.
— Direi.
Aproveitei os segundos em que Leo estava escutando o irmão mais novo e passei a olhar para os lados, procurando localizar de onde os irmãos Valois estavam me vendo. Mas o movimento diante dos guichês não me permitiu encontrá-los.
— Eles fazem uma comida tradicional maravilhosa. Tenho certeza de que vocês irão gostar — meu lado de guia turística quis adicionar, apenas para demonstrar que eu não era uma desconhecida em termos culinários (mesmo adorando comer em fast foods e pouco me aventurar diante de uma cozinha funcional).
— Veremos, Katerina. Agora preste atenção na fila, já é sua vez.
Bastou olhar para frente e encontrar o olhar cansado do rapaz dentro do guichê, pigarreando para chamar minha atenção, já um pouco impaciente. Entreguei os documentos e o atendimento correu rapidamente com a pesagem da bagagem e a confirmação da minha poltrona. Senti então quando alguém debruçou ao meu lado e minha visão foi roubada pela passagem de uma barra de chocolate bem diante do meu nariz.
— Quer, Kate? — a risada arteira do ruivinho tomou espaço antes de me roubar um beijo na bochecha e espiar o monitor de atendimento. — Você já terminou por aqui, não é?
Luke não me deu muito tempo pra pensar e deixou o chocolate entre as minhas mãos antes de se esticar e pegar o voucher de embarque, tirando minha bolsa do ombro e colocando no dele, me guiando para longe do guichê sem muitas explicações e repleto de agradecimentos para o entediado atendente da companhia aérea. Seu irmão esperava na saída da fila, mãos nos bolsos e um discreto sorriso que alvoroçou alguma coisa dentro da minha barriga.
— Próspero — sorri (como uma idiota, apenas para constar).
— Megera — ele cumprimentou, estendendo a mão pra minha direção. Por um segundo pensei que ele fosse me dar um aperto de mão, mas como não podia esperar menos de Leo, tive a pele tocada por um suave beijo como cumprimento.
— Lucas, prazer. — Luke tentou não rir daquela troca de apelidos, limpando a boca suja de chocolate com um pedaço de guardanapo. — Preciso de um renome Shakespeariano também. Talvez Ariel ou Dom Pedro de Aragon...
— Como passou desde nosso último encontro? — Leo ignorou completamente os devaneios do ruivinho.
— Ansiosa, pensativa e particularmente intrigada... Então, vamos até o Gattors? Vocês vão adorar, com certeza.
— Eu disse para o Leo que minha escolha tinha sido perfeita, mas ele insistiu que queria almoçar em um restaurante cheio de frescuras. Ele precisa aprender a confiar mais no meu incrível bom senso gastronômico — Lucas passou logo o braço no meu, piscando maroto conforme caminhávamos para a área de alimentação.
— Senso que muitas vezes é nulo, Lucas. Contudo, vamos ignorar este detalhe em nome dos bons princípios e do nosso tempo restrito. — Leo alfinetou.
O Gattors possuía um espaço reservado muito típico no piso de alimentação. Todas suas mesas e decoração tinham o cuidado de transparecer a cultura do bayou e as cores do carnaval. Crustáceos e o cheiro bom de pão torrado enchiam o espaço entre as mesas de metal moldado, que faziam um suave círculo ao redor de uma pequena banda de jazz que embalava a refeição e a felicidade de algumas crianças que davam pulinhos numa tentativa de dançar. E diferente das redes de fast-food ao redor, o Gattors podia se gabar em ter três garçons simpáticos atendendo as mesas com rapidez.
Escolhemos um lugar de onde conseguíamos ver os músicos, acomodamos minha bolsa em uma cadeira vaga, enquanto um garçom trouxe três cardápios. Lucas permaneceu quieto claramente procurando por alguma coisa sobre personagens do Homem em sua mente.
— Romeu? Hamlet... Não, muito dramático e problemas familiares demais.
— Puck. — Próspero finalizou, deixando o cardápio descansar na mesa. — Perfeito pra você.
— Puck. Puck... — o ruivinho analisou, coçando o queixo. — Vamos aproveitar esta questão para esclarecer algo muito importante. Fado ou fada-macho, Leo?
O Carma espiou o irmão de canto com os olhos estreitos e incrédulos do teor da conversa. Era como se tentasse ignorar a existência de um Lucas curioso quase pendurado em seu ombro, mas sabia que não conseguiria se esgueirar daquela explicação.
— Nenhum dos dois, Lucas. Não existe um masculino da palavra. Fadas são apenas mulheres. — finalizou com sensatez.
— E como nascem as fadinhas? Não me venha contar o básico porque eu já sei, nem me venha com conversa sobre repolhos ou cegonhas. Fadas são criaturas mágicas mas não devem nascer das árvores.
— Mitologicamente, o mais próximo de uma "fada macho" — ele revirou os olhos visivelmente,— seria um silfo, Lucas. Um Elemental do ar.
— Hm... Não gostei. Prefiro a minha versão. Ah, vamos fazer os pedidos! — estendeu a mão para o garçom, tomando a iniciativa de eleger o prato que considerou perfeito para a ocasião. Depois permitiu que fizéssemos nossas escolhas e entregou os cardápios com um sorriso satisfeito.
Consultei o relógio. Não podia perder o horário do voo de vista ou não teria como arrumar outro tão cedo naquele dia.
— Ansiosa para voltar à Nova Iorque, Katerina? — Leo questionou por trás de um panfleto da rede de restaurantes como se tivesse lido meus pensamentos ao observar o relógio do aeroporto.
— Preocupada. Ainda tenho alguns caos para solucionar antes de considerar minha vida um pouco mais normal.
— Vidas normais são tediosas. — Luke decidiu enquanto petiscava uma fatia de torrada do centro da mesa. — O caos sempre trás algum movimento.
— Algum, claro. Não todo o movimento do mundo! — rimos. Contudo, Leo parecia um pouco mais sério, os dedos tamborilando discretamente antes de sumirem por baixo da mesa. Conseguia imaginar como estavam batendo sobre sua perna, de praxe.
— E o seu apartamento, Kate? — Lucas quebrou o momento como de costume. — Leo contou o que houve. Você já tem onde ficar?
— Estou com a Samantha por alguns dias. A família dela foi muito gentil e estamos dividindo um quarto, pelo menos até que eu consiga alugar um lugar. É apenas temporário.
— Você pode ficar na nossa casa se quiser — Luke disparou, mostrando suas fileiras de dentes brancos e atraindo o olhar do irmão mais velho e a longa e conhecida curva de sua fatal sobrancelha. — Pelo menos até encontrar um lugar legal. É perto do seu trabalho e tem um quarto de hóspedes, você pode usar a cozinha e com certeza Collins vai adorar saber que alguém vai cuidar daqueles temperos dele na horta.
Se eu não os deixar morrerem primeiro, Luke. Não me dê muito crédito por cuidar de algo mais além do pobre Tabby.
Abri a boca para negar o pedido assim que terminei de observar bem o tamanho daquele arco que iniciava perto do nariz de Leo e fazia um acento em sua testa. Porém minhas cordas vocais foram interrompidas pelo sotaque britânico que fluiu do outro lado da mesa, exatamente a minha frente:
— Lucas está certo.
O ruivinho arregalou os olhos claros e depois franziu a testa, arrebitando o nariz com estranheza.
— Estou?
— Sim, está. Se Katerina desejar se hospedar em nossa casa em Nova Iorque, será bem vinda.
— Serei? — era minha vez de ficar muito espantada. — Mas eu não posso...
— Temporariamente. Até que encontre uma casa do seu agrado. Ou outra toca, se preferir. Com uma porta amarela.
E fez o silêncio. Juro que até o jazz animado há poucos metros da nossa mesa pareceu desaparecer. Meus olhos estavam fixos nos de Leo, tentando desvendar algo, esperando por uma palavra a mais que fosse.
— Aceite, Kate! — óbvio que a animação de Luke tomou a mesa quando ele se segurou no meu braço e deitou a juba ruiva sobre o meu ombro, agitando os cílios como se quisesse me encantar. — Aproveite que meu irmão está sofrendo de uma súbita mudança de personalidade nos últimos dias.
— Bom, eu... — o olhar do Carma não deixava dúvidas a respeito do assunto: ele estava sendo muito sincero. E isso não facilitava em nada uma resposta rápida. — Preciso pensar melhor.
— Você pode levar o seu gato! — Luke se lembrou de Tabby enquanto recebíamos nossas bebidas.— E seus livros!
— E as galochas horrendas.
Foi aquele comentário que estralou algo dentro de mim. Não sei se foi alguma peça meio solta na minha cabeça ou no coração, mas simplesmente pareceu tão certo, tão perfeito, que percebi que aquela suposta aversão de Leo por minhas botas de borracha amarela tinham um fundamento. Guardei aquela pequena informação para usar em outra hora.
— Juro, meninos. Vou pensar com muito carinho. Só me deem algum tempo para chegar em Nova Iorque.
Os dois concordaram, cada um a sua maneira, exatamente quando os pratos foram postos sobre a mesa, enchendo o espaço e os pensamentos com outras coisas menos importantes e mais saborosas. Então a conversa se tornou uma série de pequenas observações sobre a comida creole (cheia de recomendações pessoais sobre meus restaurantes preferidos) e algumas curiosidades que achei divertidas de se contar para uma dupla de ingleses vindos de York.
A comida estava quase terminando em todos os pratos quando Leo calmamente limpou os lábios em um guardanapo e indagou.
— Acredito que seja esta uma boa hora para questionar que sua súbita viagem para Nova Orleans tenha outros motivos além de reencontrar sua família ou reaver um apartamento perdido, Katerina. Conseguiu atingir seus objetivos?
— Posso deduzir que essa pergunta veio por conta de algum tópico na sua conversa com meu pai, Sr. Valois? — minha vez de curvar a sobrancelha, sempre a direita para contrariar.
— De certa forma. — notei quando ele disfarçou algo por trás de um guardanapo.
— O apartamento foi apenas uma parte pequena da minha viagem, realmente. Digamos que meu ex-noivado foi o prato principal da virada de ano.
— Você desfez o noivado, Kate? — Lucas ficou interessado, descansando os talheres no prato.
— Por mim nunca houve noivado nenhum, Luke. Mas vou tentar resumir pra vocês exatamente o que aconteceu. Já me basta dos problemas que ganhei quando não fui sincera na primeira vez!
Comecei a contar as coisas de uma forma mais amena, partindo da minha chegada e das horas boas com Adria e Kennedy até finalmente chegar na conversa com a matriarca Dalton. Falei sobre o acordo matrimonial e a fusão de empresas, sobre Bruce, minha infeliz mãe e a vigia de Maxwell. Então nesse trecho da narrativa os irmãos D'Orleans permaneceram em um silêncio incômodo, seus pratos ignorados sobre a mesa e os copos sendo brevemente tocados. Era a primeira vez que via Lucas erguer a sobrancelha exatamente como o irmão mais velho, o rosto apoiado sobre uma das mãos e quase sem piscar.
— Você nem devia ter vindo até aqui pra isso, Kate. Eu teria ignorado todo mundo e seguido minha vida como eu bem quisesse. Sua avó e sua mãe me parecem pessoas horríveis!
— Lucas... — Leo repreendeu.
— Ora, eu estou certo! Obrigar alguém a se casar com uma pessoa apenas por dinheiro? Colocar um vigia na minha porta? Isso é tão ruim que eu não tenho uma palavra pra isso e olhe que eu costumo inventar palavras muito boas pra coisas muito ruins.
— O importante é que no final, ela parece que compreendeu que não pode me manipular e eu deixei muito claro que todos os acordos terão de ser desfeitos por que não vou aceitar mais nada dela ou da família. Meu pai não possui mais nenhum vínculo com a companhia e as coisas vão ficar bem. — sorri (ou tentei o meu melhor) para não parecer que ainda restava uma pitada de insegurança desesperadora em estar diante de uma porta aberta e repleta de um futuro livre e cheio de oportunidades.
— Você não está certa disso.
— Claro que estou. Eu vou pegar meu voo e voltar para casa... Bem, para a casa da Sam e pegar minhas coisas e procurar um lugar, que não seja caro e que aceite alguns atrasos e ... Ainda tem a Sra. Fighbright e o Maxwell, também tenho um anel pra devolver e...
— Não tem ideia de onde começar, não é? — a calma com que Leo disse aquilo foi mais assustadora do que a imagem de que eu estava listando todas aquelas coisas e sendo imensamente transparente para eles. Acho que Collins estava mesmo certo quando disse que não consigo esconder algumas coisas.
— A que horas sai o seu voo, Kate? — Luke pareceu subitamente chateado, porém a mudança de assunto veio bem a calhar. Não sabia se estava pensativo sobre a minha partida, pela minha história ou por não ter encontrado uma sobremesa interessante no cardápio.
— Daqui trinta minutos.
— Ótimo, deve dar tempo. Já venho. Não vão embora sem mim!
O ruivinho saiu da mesa sem dar tempo pra nenhum tipo de repreensão, piscando com seu conhecido jeito de moleque e sumindo entre as pessoas da área de alimentação. Me entreolhei com Leo mais uma vez antes de suspirar fundo, soltando meus ombros contra a cadeira.
Um garçom surgiu por um canto da mesa, retirando os pratos e Leopold pediu por duas xícaras de café — que felizmente não era de chicória e claramente era uma desculpa muito boa para continuarmos conversando na ausência de Luke. Foi revigorante receber o perfume bom da bebida quente quando foi servida e me peguei num longo suspiro, observando o rosto sério de Próspero por trás da xícara, seus olhos rapinos analisando algum ponto distante, provavelmente procurando pelo mais novo dos Valois D'Orleans antes de nossos olhares voltarem a se encontrar.
— Queria tanto ser como seu irmão. — suspirei mais uma vez, pensando alto.
— Peralta, descabeçado e rindo a toa? — Leo sorriu de canto.
— Também isso, mas Luke sempre me parece tão leve, mesmo nas questões difíceis. Ás vezes eu me pergunto o que ele faria na minha situação.
— Espero que não esteja usando meu irmão como espelho para suas decisões, Katerina.
— Oh, não. Mas gosto de imaginar as reações dele e pensar se não poderia mesmo dar certo me focar em sobremesas e músicas clássicas, preocupações com fados ou cordas novas. Então me lembro que posso fazer melhor do que isso, e aí eu me pergunto: O que o Carma faria? O que ele diria?
Leo pausou e entre um breve sorrir e seus dedos coçando o queixo, retrucou:
— O Carma diria que você fez o seu melhor, mas que poderia ter sido mais.
— Ele diria isso? — ri. — Me parece mesmo alguma coisa que ele falaria, ácida e descortês.
— O que seria do Carma se não fosse seu adorável humor? E com certeza ele não teria feito melhor, Kate. Você atingiu seus objetivos de alguma forma, não?
— Não tão adorável. Adicionaria irritante e insuportável... Mas, sim. Atingi os objetivos, contudo tinha outras expectativas. Não gostaria de sair daqui imaginando que vou ser lembrada como um furacão na vida familiar ou como alguém que parece uma turista na própria cidade — fuzilei Leo com os olhos. Ele sabia do que eu estava falando.
— Sua preocupação é com a expectativa que os outros tinham sobre você, presumo.
—Talvez eu não seja feita para atingir as expectativas das pessoas, compreende? Acredito que nunca consegui superar o que esperavam de mim em nenhuma área da minha vida.
— Você se superou agora. — Leo olhou de canto e pausou seus pensamentos quando a música parou do outro lado, apenas para aplaudirmos os músicos. — Você impôs sua vontade e tomou as rédeas diante dos seus problemas. Posso estar errado, mas me parece uma boa superação para alguém que se julga tão incapaz.
— Me diga uma coisa, Leo... Por um acaso, eu frustrei suas expectativas sobre mim? Digo, sobre o que esperava de mim depois de tudo, de saber sobre a minha vida e o turbilhão de problemas que me rodeiam, minha família torta, a conversa com meu pai e...
Ele estendeu o indicador no ar e me fez prender a respiração com a boca aberta na melhor expressão de peixe morto. Sim, eu estava tagarelando. Sim, Leo sabia disso e pelo visto, tinha suas táticas para me impedir de continuar falando dúzias de bobagens desnecessárias.
— Saiba, senhorita Katerina, que não costumo criar expectativas sobre as pessoas.
— Oh, então isso é muito bom. Um sinal de que não se decepcionou tanto comigo, não é? — (sim, soei muito amarga nesse momento, confesso).
Com um suave aceno, Leo negou o que eu estava falando e havia um sorriso suave em seus lábios, algo que beirava a incredulidade.
— A questão é que julgo o ato de criar expectativas algo muito egoísta.
— Bom, nem sempre isso é ruim, não é? — voltei a molhar os lábios no café.
— Algumas vezes sim.
— E isso quer dizer... — ergui as sobrancelhas, um pouco confusa com toda aquela discussão filosófica enquanto a imagem de Leopold estava um pouco embaçada pelo vapor da bebida embaixo do meu nariz.
— Que você nunca atendeu minhas expectativas, Kate. Criar expectativas é esperar que as pessoas sejam exatamente como você quer que sejam. E eu quero que você seja exatamente como é.
— Caótica, desengonçada, tagarela e com péssimo gosto por galochas? — desafiei.
— Principalmente as galochas. — Leo finalizou o assunto, dedicando os segundos seguintes ao seu café e um olhar atento ao redor, que parecia disfarçar aquelas conhecidas roldanas que se moviam em sua mente, trabalhando em alguma coisa que eu não conseguia imaginar. Mas sua mão livre estava sobre a mesa, discretamente tamborilando, os dedos movendo o guardanapo de papel por baixo deles.
— Posso fazer uma pergunta e interromper seu momento de meditação, Sr. Valois? — arrisquei. Era aquele o momento pelo qual tinha aguardado desde a noite passada. A hora de colocar a limpo o que estava me atormentando. Leo dedicou o canto de seu olhar gélido para mim e moveu os dedos para me incitar a continuar.
— Qual era o assunto que você tinha de tão importante a tratar ontem com meu pai? E não me venha falar que era sobre negócios. O Sr. Dalton já esgotou essa resposta hoje.
— Negócios. — Leo repetiu simplesmente, descansando sua xícara sobre o pires. Não encontrei nenhum vestígio, nenhum vinco nos lábios, nada que indicasse um sorriso que denunciaria sua mentira.
— Que tipo de negócios?
— Do interesse do seu pai.
— É um resposta muito ruim, principalmente partindo de você, Próspero. Não tenho o direito de saber sobre que tipo de negócios traria o Sr. Valois D'Orleans até a América para tomar café de chicória além de recuperar... Santo Edgar Allan Poe! O livro!
Pode parecer um deja vu barato, mas não conseguia mais me surpreender com meu grau excepcional de incapacidade de fazer as coisas perfeitamente. O livro de Shakespeare, aquele da capa negra e letras douradas que Leo havia me emprestado, naquele momento deveria estar gentilmente deslizando pelas esteiras de embarque e para dentro de um avião da companhia aérea, bem distante de ser devolvido para seu verdadeiro dono.
E seu dono havia atravessado o oceano por ele (não completamente, eu sei). E agora o maldito estava no compartimento de carga, fazendo companhia para as minhas meias, calcinhas e casacos de inverno ao invés de seguro e retornando para uma biblioteca invejável em York.
— Vou começar a achar que você quer que eu siga você até Nova Iorque, Katerina. — a sobrancelha dos infernos estava ali, acompanhada daquele presunçoso sorrisinho de canto.
— Ora, não seja tão...
A banda voltou a tocar uma composição alegre e um casal de senhores se arriscou a deixar suas malas de lado e tentar alguns passos; então Luke sentou ao nosso lado de supetão, deixando uma sacola de papel pardo sobre a mesa e finalizando o assunto. Ali havia toda a sorte de coisas: balas redondas de alcaçuz, caramelos, duas barras de chocolate, lenços de papel, duas revistas de palavras cruzadas, palitos de chocolate e uma amostra grátis de um sabor novo de salgadinho — que parecia bastante suspeito.
— Kit sobrevivência patenteado por mim, para viagens curtas e tediosas sem a minha presença pra alegrar seu dia, Kate. Não precisa agradecer.
— Tudo isso? — contive o riso, examinando um caramelo roxo antes de enrolar a ponta da sacola para colocar dentro da bolsa. — Precisaria de uma viagem bem maior pra comer tudo, Luke. Mas obrigada e...
Uma campainha soou nos alto-falantes e a voz aveludada do locutor avisou a segunda chamada para os voos que estavam prestes a sair (e por quê eu não tinha escutado os chamados antes?). Repetiu a notícia em diversos idiomas, tempo o suficiente para me permitir conferir os dados da minha passagem e saltar da cadeira, apanhando minhas coisas para pegar alguns trocados para pagar o almoço.
— É o meu voo, tenho que correr! — suspirei, arrumando a alça que insistia em escorrer pelo meu ombro.
— Sabemos disso. — Leo ergueu a mão apenas para tirar minha bolsa e me impedir de continuar a vasculhar em busca do dinheiro. — O almoço já está pago, Kate. Vamos, nada de perder o voo.
— Pago? — olhei ao redor, esperando uma explicação, mas o sorriso peralta de Luke já me dava uma ideia do que o ruivo havia feito na sua curta ausência. Segui caminhando ao lado de Leo (que parecia mais preocupado com o horário do que eu). — Você devia ter me deixado pelo menos pagar minha parte do almoço...
— De nada.
— Não que eu seja mal agradecida, — fui logo explicando, desviando meu ombro de uma trupe de crianças no caminho — mas vocês são as visitas por aqui e eu não acho que seja correto deixar mais uma vez...
— Seu orgulho de lado e aceitar que alguém pague pela sua refeição porque você acredita profundamente que este ato possa significar algum tipo de humilhação para sua independência? Eu compreendo, Katerina, mas podemos discutir isso em outra ocasião.—Leo apenas me consultou com o canto do olhar, ainda carregando minha bolsa de ombro quando nos aproximamos da área de embarque.
Paramos por um momento, observando a pequena fila de pessoas que entregavam suas passagens e passaportes, em silêncio até Lucas se pendurar no meu ombro e me puxar para um abraço apertado.
— Faça uma boa viagem, Kate. E coma os doces. E mande notícias das suas revoluções, tá bem?
— De todas elas, Luke, pode deixar.
— E não desapareça — riu, se curvando pra cochichar no meu ouvido.— Desapareça com aquele livro. Leo não vai ter muitas desculpas pra ir atrás de você se você devolver, então pode jogar no lixo se quiser. Ele tem livros demais do Homem pra reler se quiser.
Senti minhas bochechas arderem e tive que me conter pra não dar uma gargalhada com aquela despedida inusitada. E antes de responder qualquer coisa, Luke se afastou e Próspero estendeu minha bolsa no mesmo momento que o último aviso soou mais uma vez pelos alto-falantes.
— Nos despedimos mais uma vez, senhorita Dalton. — nossos olhos se encontraram depois de observarmos a tela pouco adiante onde o número do voo ficou em destaque.
— Estou aprendendo a detestar despedidas, Sr. Valois.
— O importante é o que passamos antes delas, afinal não haveriam despedidas se não houvessem encontros.
Leo sorriu um pouco e suas mãos seguraram meu rosto apenas para me puxar através do curto espaço que nos separava. Seus beijos continuavam me surpreendendo e conseguindo tirar meus pés do chão durante o breve instante de lábios se tocando.
Muito breve, aliás. Foi o barulho de uma câmera fotográfica muito próxima que chamou nossa atenção.
— Lucas... — Leo revirou os olhos assim que localizou de onde o ruído vinha. Seu irmão estava com o celular em mãos e um palito de alcaçuz entre os dentes, aquele sorriso arteiro estampado no rosto sardento.
— Que foi? Mamãe pediu provas de que vocês estavam juntos, então não podia perder o momento. Ela vai adorar essa foto. Mando uma cópia pra você depois, Kate. — piscou, guardando o aparelho no bolso do jeans antes que fosse confiscado pelo mais velho e iniciaram um pequeno debate sobre privacidade enquanto eu me dava conta dos meus dedos entrelaçados com os de Leo.
A sensação retornou dentro de mim, aquele frio inconstante da incerteza e a relutância em me soltar daquela mão fria e estranhamente aconchegante e segura. Mas como todas as coisas no rumo de Katerina Dalton devem ser, era a hora de colocar os pés no chão.
— Eu... Preciso ir. — atrapalhei a breve conversa entre eles com um rápido beijo na bochecha de cada.
Muito a contragosto meus dedos foram se soltando dos de Leo, porém fui surpreendida por um abraço que veio sem aviso negando o meu afastamento, meu rosto colando contra o perfume bom que se soltava do suéter cinza que o Carma usava por baixo de seu pesado casaco de lã. Senti quando os lábios dele beijaram o topo dos meus cabelos e o abracei de volta como pude.
Pelas boas Brontë, Leo... Não torne isso mais difícil do que é.
— Preciso ir... — sussurei.
— Eu sei.
— Guarde a foto por mim, Próspero.
Não chore, Kate. Não chore. Não chore...
— "Conservar algo que faça eu recordar de ti seria o mesmo que admitir que eu pudesse esquecer-te". Como esquecer do caos quando ele é mais bem vindo que a calmaria, Megera?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Não pude evitar apertar mais forte aquele abraço pra quem sabe de algum jeito o perfume dele pudesse ficar comigo, mas não podia ficar mais ali, a hora era minha inimiga (maldita, só pra constar). Então roubei apenas um suave beijo dele antes de separar nossas mãos e a corrida até o embarque nunca me pareceu tão longa, demora e amaldiçoada.
E simplesmente não olhei para trás.
*******
— A senhorita aceitaria algo para beber?
A aeromoça desfilou seu sorriso resultado de caras sessões de clareamento, esticando um copo de plástico que servia de convite para um gole de água; mas não estava com sede. Meus olhos inchados como resultado desastroso da minha falta de auto controle depois de uma despedida digna de ser contada em um Jazz tristonho de Nola, era a prova via de que não estava com ânimo nem mesmo para a hidratação do meu pobre corpo.
Quem mandou ele nascer como Katerina Dalton?
Bastou a mulher se afastar da minha poltrona para começar a me contorcer na tentativa frustrada de cobrir minhas pernas com aquele cobertor tão pequeno, suspirando um mantra longo de que meu frio era apenas psicológico e de que nas próximas horas de voo eu poderia me divertir tentando pegar no sono e eliminando da mente todos os tópicos problemáticos da minha vida.
Decidida a dar uma mão para meu infeliz cérebro, abri minha bolsa no colo e procurei pelos fones sem fio que Luke havia me presenteado no natal, dando de cara com aquela sacola parda um pouco aberta e convidativa.
— Doces... — falei sozinha (um claro caso de loucura). Em seguida puxei a sacola e armei a pequena bandeja plástica do avião sobre as minhas pernas para derramar tudo sobre, imaginando quantas dúzias de coisas Adria falaria sobre me ver afundando minhas mágoas em centenas de caramelos coloridos, balas e...
Um molho de chaves?
Não, eu não estava alucinando. Não, você também não leu esse relato errado.
Havia um molho de chaves no meio de todo aquele mar de glicose colorida e perfumada, salgadinhos, palitos e balas. Um conjunto de quatro abre portas diferentes unidas por um chaveiro com ícones ingleses e um papel, que havia caído do fundo da sacola junto do peso. Apanhei por curiosidade, antes mesmo de raciocinar exatamente o que estava havendo.
Tratava-se de um canhoto de bilhete de embarque com meu nome escrito nele em letras bem grandes, com direito a data e horário da minha viagem de Nova Iorque até Londres há alguns dias atrás. O detalhe de que a poltrona era da primeira classe estava bem legível — e contornado com uma caneta azul para chamar a atenção — a mesma que foi usada para rabiscar as costas do voucher com uma letra redonda e inclinada, que não reconheci imediatamente.
Porque aquele canhoto estava ali?
Me apressei para ler o verso e quando terminei era uma mistura bagunçada de riso e choro, alguns palavrões e vontade de apertar as bochechas sardentas de alguém com muita força. E talvez dar alguns puxões de orelha:
"Rua 35, número 144. A porta da frente abre com um empurrão — use a chave azul. Você me agradece depois. Aliás, nunca perguntei como foi viajar na primeira classe. ;) Faça uma boa viagem, atendente cantora! Beijos, Luke".
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