Orleans

13 Capítulo 13 - Pieces of Me


Quando aceitei o convite de Bruce para subir naquele carro e fazer uma viagem de algumas horas até York, imaginava que passaria um dia enfadonho tentando debater sobre as poucas probabilidades de um casamento forçado acontecer, ao menos no meu ponto de vista. Não me passou nem mesmo nos mais malucos pensamentos, que minha antevéspera de natal seria tão movimentada, tampouco recheada de pequenas e grandes surpresas.

Encarar Beatrice Fontaine, um zangado Sr. George Campbell e conhecer Janet Valois D’Orleans, era apenas uma parte do pacote de coisas surpreendentes que invariavelmente aconteciam comigo ao acaso. E a maior delas estava ali, segurando minha mão enquanto seguíamos um barulhento e risonho ruivinho através do corredor acarpetado que nos levaria de volta para a sala de jantar.

Ainda estava avoada demais para conseguir raciocinar como aquilo tinha acontecido, desde quando acontecia ou como acontecia; já que tudo que envolvia aquele homem tinha uma aura de mistério digno de um livro de Sherlock Holmes.

Naquele instante, estava lidando com centenas de borboletas raivosas no meu estômago e um sorriso absolutamente imenso, que não saía do meu rosto em nenhum momento, me deixando com aquele aspecto de muito mais boba do que geralmente costumo ser. Não tinha tempo para ficar conjecturando desde quando Leo Valois queria me beijar, nem se ele tinha alguma vaga ideia de que eu tinha me apaixonado por ele e sua arrogância e nariz empinado em algum lugar do trajeto maluco de encontros e desencontros que vinhamos tendo há alguns meses. Não, eu estava bem mais ocupada observando como minha mão era pequena junto da dele, que me parecia uma reflexão deveras importante.

E nem mesmo escutar a voz de Bruce Campbell logo que passamos pelo batente da porta, roubou aquela sensação acalentadora do meu peito.

— Finalmente. Achei que teríamos de montar um grupo de buscas para encontrar os três — Bruce bufou, parecendo desgostoso com a situação.

— Bruce está certo. Onde vocês estavam? — Juliet se aproximou com seu sorriso brilhante, roubando de Luke a mão do irmão mais velho. Discretamente, com alguns passos, ela levou Leo com ela e isso o obrigou a se desvencilhar dos meus dedos.

Confesso que senti mais falta daquele singelo toque do que esperei.

— Na biblioteca. Eu precisava caminhar um pouco e Leopold foi muito gentil em mostrar a gigantesca coleção da família. É um cômodo maravilhoso — expliquei gentilmente, porque não pegaria bem arrancar um dos sapatos para arremessar na cabeça loira e perfeita de Juliet imediatamente. Pegava bem um pouco de discrição.

— Eu acabei de encontrar os dois por lá. Nem demorou tanto assim — Lucas revirou os olhos com tamanho exagero pela nossa ausência e abraçou a mãe pelos ombros, assim que ela se aproximou do nosso pequeno grupo (se é que se pode chamar isso assim).

— Está se sentindo melhor, Kate? — os olhos de Janet se apertaram, como se ela precisasse de óculos para me enxergar melhor.

— Sim, estou muito melhor.

— Nota-se. Suas bochechas estão mais coradas agora, parece mais viva do que aquela garota pálida que saiu daqui. Isso é muito bom, bom mesmo. Agora você pode aceitar o meu convite para sairmos amanhã cedo.

— Convite? — examinei os rostos ao meu redor, mas ninguém parecia se recordar da parte em que Janet fez qualquer convite, menos ainda sobre a véspera de natal.

— Claro. Eu tenho certeza de que você vai adorar conhecer um pouco mais da cidade e do comércio, andar pelas ruas, ver a catedral. Não se pode ir embora de York sem visitar York Minster, pela boa Rainha! E é claro que até lá eu pretendo conseguir convencê-la a passar o natal conosco. — ela pausou, entreolhando-se com Bruce antes de preencher o conceito — Bruce também pode vir. Se achar correto, obviamente.

— Não sei nem se estarei em York amanhã, Sra. Valois... Janet. — de nada adiantaria assumir um compromisso com Janet se nem sabia ao certo onde estaria pela manhã. Tudo dependia exclusivamente da conversa com George Campbell naquela noite e como ele receberia a notícia de que seu filho não estava realmente noivo de nenhuma mulher Dalton.

— Que bobagem. Ninguém vai conseguir sair de York amanhã cedo com a previsão de tempo tão ruim assim. Confie em mim, Katerina. A neve por aqui costuma ilhar a cidade e até mesmo os ônibus trabalham apenas se necessário. Além de que você não tem nenhum outro lugar para ir, não é? Bruce disse mais cedo que sua irmã não poderá passar as festas com você, uma lástima realmente.

— Aconteceu alguma coisa com a sua irmã, Kate? — Lucas se preocupou, a cabeça ainda apoiada contra o ombro da mãe.

— Nada grave. Adria teve de resolver alguns problemas de última hora. Coisas da profissão.

— Está explicada a sua súbita mudança de planos, Katerina. Eu disse desde o começo que você acabaria vindo para York, não disse? Tinha certeza de que não deixaria seu noivo sozinho na noite de natal — Juliet piscou, como se fôssemos íntimas o suficiente para isso e abraçou o braço de Leo, erguendo os olhos e batendo os grandes cílios de um modo teatral. — O natal é um feriado muito importante para se passar sozinho.

— Não acredito que a senhorita Dalton vá passar o natal sozinha — Leo se pronunciou, encontrando seus olhos com os meus. Senti o alto das bochechas queimar imediatamente.

— De qualquer forma, preciso me retirar agora — Bruce suspirou. A conversa claramente não lhe interessava. — Tenho um jantar marcado com o velho Campbell às nove. E Kate tem que estar no Knight’s Inn até as oito, se desejar encontrar a porta aberta.

— Ela pode dormir aqui — Luke disparou, o riso estava estampado na boca dele, mas não se soltou.

— Mas é claro que Kate vai dormir na casa do noivo, Lucas. Onde já se viu? — a repulsa da ideia brilhava nos olhos de Juliet. O noivado entre mim e Bruce era tão verdadeiro em sua mente que nada parecia capaz de tirar isso dela. Aposto que imaginava como seria maravilhosa a minha noite reunida com meu amado noivo após tanto tempo separados por conta da viagem ao exterior.

Não Juliet. Não ouse. Pode guardar sua mentalidade de casinha da Barbie para outra ocasião.

Resumindo o caso: Bruce estava correto. O Knight’s Inn era uma pensão familiar e não um hotel, e suas regras incluíam estar lá até às oito para se conseguir uma chave da porta caso fosse preciso sair durante a noite. Ao contrário, a porta se fechava, as pessoas faziam sua última refeição e todos dormiriam cedo; ansiosos pela véspera de natal.

Eu não pretendia sair caminhando por York durante a noite como havia feito em Londres. Estava ficando cada vez mais frio e sentia que meu casaco não era capaz de suportar muito, já que não estava preparada para enfrentar uma possível nevasca. E acima de tudo, estava tendo aquele sentimento misto entre a imensa excitação com o que havia acontecido entre mim e Leo, e o vazio no estômago em me lembrar de que uma parte do meu destino ainda estava atrelada as decisões dos senhores Campbell pai e filho.

— Não vai se hospedar com os Campbell, senhorita Dalton? Que peculiar — a sobrancelha de Leo atacou e havia um início de sorriso no canto esquerdo dos seus lábios.

— Prefiro não incomodar ninguém — só para não citar que a ex-namorada do meu ex-futuro-noivo, estava bem acomodada por lá e que eu preferia dormir e congelar nas muralhas da cidade ao ter que dividir um quarto com Bruce. Mas acho que estava bem implícito no meu olhar.

— Por isso sempre digo: amo os tempos modernos! — Janet riu, beijando o topo dos cabelos de Luke antes de se afastar um passo na direção do marido, que estava silenciosamente sentado longe da conversa, nos sofás diante das vidraças. — Estamos combinadas então, Katerina. No Knight’s Inn, pela manhã.

Acho que perdi o momento em que concordei com o convite, e pela forma com que Luke e Leo se olharam e dividiram um curto sorriso, todo o resto das pessoas presentes também havia perdido. Ainda me surpreendia em notar como os Valois D’Orleans tinham aquela mania de aceitar as coisas no meu lugar.

Campbell foi até o Sr. D’Orleans se despedir e eu segui com ele, recebendo um forte aperto de mão de Edward e um caloroso abraço de Janet; que cheirava a marshmellows, exatamente como Luke. Juliet insistiu em me abraçar e beijar minhas bochechas quando voltei para me despedir dela. Acho que sermos amigas para sempre fazia parte de mais um de seus devaneios sobre a vida perfeita. Vai saber.

Quando Bruce parou diante de Leo e Luke, a tensão voltou a pairar, como de costume. O desafio ficava claro pelos olhos deles e na forma de se cumprimentarem com simples movimentos de cabeça ao invés de apertarem as mãos. Campbell agradeceu pelo chá e só caminhou até diante da porta, esperando que eu terminasse minhas despedidas.

— Nos vemos amanhã, Kate! — Lucas me apertou com os braços naquele jeito carinhoso, ignorando que a presença do Sr. Campbell estava apenas alguns passos dali. Aposto que ele ficaria pendurado em mim o tempo todo se fosse preciso, apenas para provocar algum olhar irritado de Bruce em nossa direção.

— Vamos Lucas, a senhorita Dalton tem um horário a cumprir. Não seja inconveniente — Leo suspirou.

— Tem gente bem mais inconveniente por aí... — Lucas riu e beijou meu rosto, dando uma piscadela antes de abraçar a prima e se afastar com ela em risos, indo para a mesa provavelmente caçar algum bolinho desavisado que ainda estivesse por ali enquanto Claude e Mary retiravam as bandejas. Tinha que agradecer Luke pelo discreto modo de afastar Juliet, mesmo que ainda sentisse o olhar dela nas minhas costas.

Apertei os lábios quando me vi frente a frente com Leo mais uma vez. Nunca fui do tipo de pessoa tímida (ou não trabalharia com vendas), nem que perde as palavras, mas estava achando muito difícil montar uma frase simples enquanto os olhos daquele inglês esperavam que eu dissesse qualquer coisa. Dei graças quando ele se adiantou e apanhou minha mão com cortesia.

— Foi um prazer recebe-la, senhorita Dalton.

— Eu que agradeço pelo convite, Sr. Valois, sua mãe foi muito gentil. Todos vocês foram.

Qualquer pessoa na face da Terra que conhecesse Leopold “Carma” Valois e Katerina Dalton saberia que estava tudo errado naquela curta despedida. Não trocávamos agradecimentos ou desejos de nos rever comumente, ao contrário; sempre havia aquela dúvida se Leo desejava que eu sumisse da existência ou deixasse sua vida em paz. Era confuso imaginar agora que talvez suas poucas gentilezas, como mentir para meu pai na noite do jantar em Nova Iorque ou passar uma tarde comigo nos pontos turísticos londrinos, continham pequenas doses de algum sentimento por mim.

Na verdade, pensar que Leo nutria qualquer coisa por mim que não fosse a vontade de que aquele meteoro de Kripton se chocasse com meu crânio, ainda era uma ideia assustadora. Boa, incrível, maravilhosa, mas assustadora.

Ele se curvou apenas um pouco e sua proximidade me roubou o ar por um momento, apenas pelo detalhe do gesto trazer irremediavelmente seu perfume e calor para perto. Beijou minha mão e me causou um intenso calafrio nos ombros, que disfarcei com um inspirar profundo e um sorriso. Só conseguia pensar que aqueles lábios mornos haviam me beijado há tão poucos minutos e tenho certeza de que isso me deixou corada.

Andar para perto de Bruce e sentir seu braço se colocar ao redor da minha cintura para me guiar para fora da sala de jantar e da casa dos D’Orleans, foi um balde de água fria depois do acontecido. O olhar de Leo nos seguiu de soslaio até sairmos de sua vista e alguma coisa no peito apertou com força meu coração, em uma dorzinha chata e incômoda. Me sentia como uma criança prestes a se jogar no chão e fazer birra de que não queria ir a algum lugar imposto pelos pais, mesmo assim, desci as escadarias ao lado de Bruce em um silêncio desagradável até encontrarmos Collins diante das portas da frente.

O bom mordomo sorriu a me ver e fez um meneio educado ao abrir a porta.

— Tenha uma boa noite, Sr. Campbell. Senhorita Kate.

Me soltei de Bruce para abraçar Collins. Ainda havia muito a conversar com ele em outra ocasião, porém meu abraço falava mais. Nos olhamos e sorrimos como bons amigos, e ele arrumou meus cabelos antes de me soltar de seus ombros.

— Obrigada, Collins.

— Não me agradeça, senhorita Kate. Não me agradeça.

Descemos as escadas de pedra até o caminho para os carros diante dos jardins, onde o automóvel de Bruce estava estacionado. Ele abriu a porta do passageiro para mim, mas não ficou para fechá-la depois que entrei. Simplesmente deu a volta parecendo apressado e incomodado, querendo logicamente tomar distância o quanto antes da casa dos Valois D’Orleans.

Dali podia ver os amores-perfeitos de perto. Todas suas cores e formas arredondadas, espalhadas pelo grande canteiro principal enquanto nos distanciávamos e minha visão ficava limitada pela janela do carro. As pequenas flores teimosas que venciam o inverno.

Fiquei com um sorriso no rosto durante todo o trajeto das vias sem asfalto até de volta para a cidade. Bruce ligou o aquecedor do carro para espantar o frio intenso que embaçava os vidros e permaneceu em um profundo silencio pensativo, prestando atenção apenas no trânsito e nas ruas que pareciam molhadas pela força da estação. Era bom não ter que discutir mais nada com ele, nem mesmo escutá-lo reclamar ou falar qualquer coisa que remetesse a sua posição ridícula durante o chá ou tentasse me recriminar por algo.

Para ser sincera, Bruce parecia chateado, preso em pensamentos enquanto mecanicamente dirigia sem nenhuma emoção exposta em seu rosto, nem mesmo animação ao entrarmos pela bela York iluminada com luzes esparsas e enfeites de natal. Alguma coisa dentro dele parecia errada, como se tivesse quebrado uma peça desde que chegamos à cidade e o problema fosse se agravando até aquele momento.

— Você precisa de algo antes de ir para a pensão, Kate? — sua voz murmurou. Não conseguia pensar em quanto tempo Bruce tinha hesitado para dizer uma única frase.

— Não, está tudo bem.

Rodamos pela rua vazia no Knight’s Inn e Bruce parou diante do pequeno portão de metal, sem nem mesmo desligar a seta do carro ou o motor. Ele queria se ver livre de mim e eu dele. Empate.

— Pretendo falar com meu pai ainda esta noite. Como prometi.

— Você não me prometeu nada.

Tirei o cinto de segurança e me curvei para pegar meu pacote de castanhas que estavam no banco de trás. Uma pequena e crescente irritação estava subindo pela minha garganta com aquelas modos estranhos de Bruce. Ele oscilava entre ameaçador, hipócrita, gentil e normal com a mesma facilidade de uma folha dançando no vento e isso era perigoso; principalmente enquanto ainda precisasse de sua boa vontade.

— Mesmo assim, o jantar com George está de pé.

— E você vai tentar resolver tudo? Mesmo depois de todos os absurdos que falou pra mim na casa dos Valois? — abri a porta. Não queria ficar fechada no carro e ter outra discussão com Bruce sem saber o que esperar dele.

Ele passou a mão pelos cabelos, nitidamente exasperado. Sua mandíbula parecia mais tensa conta o pescoço.

— Eu só quero acabar de uma vez com isso, está bem? Ligo para você de manhã bem cedo, já que tem outros compromissos depois.

— Pretendia ir embora amanhã, você sabe disso. A vinda para York só tem um objetivo, Bruce.

— Eu sei. Fui eu quem trouxe você e decididamente me arrependo disso — nossos olhos se encontraram e não soube decifrara o que Bruce queria dizer com aquilo. Se era um arrependimento pela perca de seu tempo ou por ter me trazido exatamente para perto dos Valois. — Mas águas passadas não movem moinhos, não é?

Deixei o carro com um estranho deja vú em mente. A última frase de Bruce me trazia um gosto esquisito de uma lembrança desagradável, mas ignorei. Devia ser minha intuição gritando dentro do cérebro para deixar de uma vez aquele homem e ir para dentro da pensão quentinha que me aguardava.

Agradeci Bruce pela carona, bati a porta e não perdi tempo em desejar boa noite. Se ele não conversasse com George naquele jantar, eu mesma apanharia um táxi no centro da cidade e iria até a casa dos Campbell para resolver aquele problema. Não podia mais confiar plenamente em Bruce ou em suas intenções e agora tinha um motivo a mais para acabar com aquela palhaçada de tradição.

Quando entrei pela porta do Knight’s Inn fui recebida pelos sorrisos dos donos, que estavam na sala tomando chocolate quente enquanto o noticiário falava baixo na tevê posta sobre a moldura da lareira. Além de mim, havia apenas mais um hóspede — um senhor gordo e careca, que aparentemente tinha viajado desde a Escócia para visitar a filha em York — que me cumprimentou pelo corredor antes de subir as escadas para meu quarto.

Era um lugar agradável e pelo menos tinha meu próprio banheiro, diferente de outras pensões que vimos durante o dia. A privacidade era primordial, além de que tomar banho no inverno e pensar em atravessar todo o corredor central da casa enrolada em um roupão para encontrar o quarto, estava fora de cogitação.

A calefação do quarto tornava o clima mais agradável e era bom ter uma cama arrumada com colchas coloridas e quentes, travesseiros fofos e um gostoso cheiro de lustra móveis me esperando após um dia como aquele. Após um bom banho e roupas quentinhas e confortáveis, bastava esquentar os pés dentro de uma meia fofa e esperar o sono vir.

Mas o sono não vinha. Na verdade ele devia estar em algum lugar por aí esperando por mim, mas minha memória não permitia que se aproximasse. Tudo que eu conseguia fazer era agir como uma adolescente maluca que está ansiosa em participar de um show da boyband favorita. Resumindo: estava rindo sozinha, cantarolando sozinha e rolando na cama abraçada com um travesseiro. Ridículo? Pois é.

Meu celular estava ligado no carregador, esperando um pouco de carga para ser o arauto das novidades para Samantha. Se ela me ligasse no instante seguinte após ler minhas mensagens, não me surpreenderia. Já conseguia prever suas gargalhadas e toda a euforia que cada pergunta ia ter. E isso era ainda mais adolescente da minha parte.

“Primeiro dia em York. Adivinha?”. Não me aguentei e acabei digitando, a pergunta acompanhada de uma meia dúzia de carinhas com sorrisos enormes e exagerados, mostrando os dentes.

Estava na ansiedade pela resposta de Sam quando bateram na porta. Era Christine, a dona da pensão, trazendo uma caneca de chocolate com canela já que eu não preferia jantar. Ela era uma mulher com muitas marcas pelos anos de trabalho, mas um sorriso suave e gentil, como seu tom de voz baixo e rouco. Poderia ficar escutando Christine reclamar do frio que fazia os ossos de seus pés doerem ou do quanto havia gasto para arrumar a calefação para aquele final de ano, mas o bipe do celular e o brilho do visor sobre a cama acabaram me distraindo.

Pedi licença antes de fechar a porta e carreguei a caneca fumegante e o restante das castanhas que Janet havia comprado naquela tarde, junto comigo para a cama. O colchão de molas fazia um rangido engraçado quando me deitava nele, mas o móvel estava sistematicamente arrumado ao lado de uma janela que me permitia ver a noite escura e a luz amarelada do poste fraco da calçada.

Meu coração deu um sopro estranho quando abriu o aplicativo de mensagens, um rebuliço que pareceu trocar alguns órgãos de lugar dentro de mim.

Ainda me lembrava de ter registrado aquele número no celular e ler “Próspero”, estampado no topo da tela, fez meus joelhos tremerem estranhamente.

“Onde a senhorita está?”

Tive que rir e morder a ponta do indicador ao me lembrar daquela conversa confusa que trocamos por mensagens há apenas alguns dias. Como o sentido de uma pergunta poderia mudar tanto apenas por conta de um beijo.

“No Knight’s Inn. Exatamente onde deveria, senhor Valois... Vou começar a achar que está preocupado comigo.”

Podia ver quando ele estava digitando e era engraçado ficar ansiosa e imaginando como deveria ser a expressão de Leo enquanto completava suas ideias diante de um celular.

“Eu estava.”

E depois dessa resposta, meu estômago estava oficialmente cadastrado para trapezista no Cirque di Soleil.

“Posso saber o motivo?”

“Campbell.”

A resposta veio muito rápida e me deixou com um sorriso de satisfação. Leo estava com ciúmes de Bruce? Nem me considerava tanto para causar ciúmes em alguém, quanto mais no Sr. Valois. Mas minhas táticas para dispensar homens ou atraí-los eram tão malucas quanto o resto da minha vida.

Enquanto o homem que mais me desprezava no mundo simplesmente me beijou sem aviso algum, o outro que parecia tão interessado, agora era uma mistura de marido possessivo com psicopata.

“O senhor não precisa se preocupar. Estou sã e salva na minha cama no Knight’s, tomando chocolate quente e esperando o sono chegar, mesmo que seja muito cedo para dormir. Bruce se comportou bem, eu diria. Numa escala de um a dez... Quatro e meio”.

“Costuma ranquear as pessoas pelo comportamento, Katerina?”

“Ás vezes...”

“Que curioso.”

Conseguia escutar seu sotaque nas minhas lembranças, falando daquela forma irônica e carregada nas palavras. Leo estava digitando alguma coisa enquanto isso, parando e retornando a digitar, me deixando ansiosa. Nenhuma mensagem veio, então aproveitei para dar mais um gole no chocolate que ia ficando morno antes de tomar um pouco de coragem e escrever.

“Obrigada por se preocupar. Acho que você está me surpreendendo mais do que pode imaginar, Leo.”

“E isso é uma boa coisa?”, ele rebateu depois de um minuto.

“É uma coisa muito boa, mesmo vinda de um homem tão improvável...”.

“E irritante, arrogante, irônico... Já decorei meus defeitos. São muitos.”

“Também existem qualidades. Vou me lembrar de dizê-las para você da próxima vez que nos encontrarmos.”

Esperava que nos encontrássemos. Queria me sentar em um lugar qualquer com Leo e dizer muitas coisas para ele, explicar tudo com calma, escutá-lo dizer o que quisesse ou me repreender como costumava fazer sempre, com seu revirar de olhos e algumas palavras ácidas.

“Vamos nos encontrar novamente?”, ele questionou e um frio ruim acertou minha espinha.

E se aquele beijo tivesse sido apenas realmente para me calar a boca e não um sinal dos bons deuses de que aquele homem sentia qualquer coisa por mim? Ele não havia dito nada, não havia nenhuma declaração direta, mas não é qualquer um que beija sua testa e te segura em um abraço dizendo que as coisas ficarão bem apenas por um acaso do destino, não é?

“Eu gostaria muito...”.

Minha insegurança estava sentada do meu lado no colchão, cutucando minhas costelas. Não me lembro de qual a última vez em que demonstrei interesse em qualquer pessoa tão abertamente e fiquei quase dois minutos esperando por qualquer sinal de que havia sido interpretada.

“Seria um prazer, Kate”.

— Isso! — gargalhei sozinha, batendo os pés no colchão e fazendo uma dancinha torta e improvisada com os braços. Minha insegurança tinha acabado de cair da cama, nocauteada no assoalho do Knight’s Inn.

“Aparentemente não sairei de York amanhã. Tenho um compromisso com a Sra. Valois D’Orleans, conhece?”, enviei em seguida um emoticon rindo.

“Vagamente.”

“Pois bem, eu não sei exatamente como será meu dia, mas acredito que minha noite de véspera de natal esteja vaga. Caso sua agenda não esteja cheia, é claro. Vou compreender completamente.”

“Tenho que consultar minha secretaria.”

Secretaria? Aquilo era uma piada ou ele estava mesmo falando a verdade? Ainda não sabia distinguir entre humor inglês e sarcasmo. Ou se as duas coisas andavam tão juntas que mal se sabia distinguir entre elas.

“Mantenha-me informada, por favor”.

“Manterei”.

Meus olhos estavam presos na tela do celular, nem percebi que estava mordendo os lábios para cada vez que notava Leo digitando. O chocolate quente já estava frio e deixei a caneca no criado mudo, ajeitando mais uma colcha sobre minhas pernas antes de me acomodar nos travesseiros com o coração mais calmo.

“Olhe para janela, Kate.” A mensagem era bem curta e bastava erguer o queixo para ver através do vidro do quarto. Não havia nada na rua, nem mesmo um carro estacionado. Mas havia algo lindo enchendo o cenário de York: neve.

Estava nevando e os flocos começavam a se depositar no chão e na janela, sobre as casas e as árvores, nas decorações de natal.

“Você disse que ia nevar. A flor...”. Completei com uma carinha tristonha. Os amores-perfeitos estariam sem cor pela manhã, enterrados pela neve.

“Ficará bem. Ela tem um jardineiro para ajuda-la agora. Boa noite, Kate.”

“Boa noite, Leo”.

*******

Já passava das oito da manhã e meu telefone ainda não tinha tocado. Nenhum sinal de Janet, Bruce ou de Samantha, nenhuma resposta sobre a mensagem que tinha enviado e menos ainda sobre o compromisso ou meu convite estar valendo com toda aquela neve lá fora.

Estava frio e tinha me dedicado a colocar meias mais grossas naquela manhã e um sobretudo de lã com botões grandes, que dava alguma impressão falsa de que meus peitos poderiam ser maiores do que a natureza tinha me garantido. Mera ilusão.

Christine estava servindo o café na mesa redonda que ficava junto da cozinha, onde era mais quente por conta do forno ligado, mas minha ansiedade não me permitia sentir fome. Só conseguia ficar sentada no acolchoado diante da janela hexagonal que se projetava sobre um monte de gerânios soterrados de branco ao lado de fora, vendo a movimentação de carros lentos pela rua e pessoas que vez ou outra escorregavam na calçada lisa, se segurando nas grades baixas do Knight’s para não se estatelarem por aí.

O marido de Christine, Raymond, era um homem forte e silencioso, que quebrava torradas antes de molhá-las no café. O bule de chá o envolvia em uma névoa muito particular, espiralando ao lado dele e do jornal local onde se podia ler a programação cultural dos dias de festas e os horários de funcionamento dos ônibus centrais, quais bancos estariam fechados e uma dúzia de pequenos noticiários que não me faziam diferença alguma.

Me peguei imaginando como seria morar na tranquilidade de York depois de ter conhecido a metrópole que nunca dorme, Nova Iorque. Não imaginava a cidade como um centro movimentado noturno tão vívido, mas tinha seu charme turístico, seu potencial histórico e cultural.

— Posso dar uma olhada? — estiquei a mão para o jornal assim que Raymond fez a menção de dobrá-lo e pegar duas salsichas do prato no centro da mesa.

— Claro.

Passei os olhos pelas manchetes e a lista de apresentações de um coral local em uma igreja próxima. Havia um festival de natal e também dezenas de anúncios de promoções para as festas.

A campainha do Knight’s Inn tocou enquanto estava distraída e Christine limpou as mãos em um pano antes de sair da cozinha, arrumando seus cabelos presos no alto da cabeça. Ela ainda estava esperançosa em conseguir mais dois hóspedes para encher a pensão antes do dia de natal.

De onde estava sentada, não conseguia ver exatamente quem estava na porta da frente, mas a voz que entrou pela sala ecoou diretamente até ali e foi mais do que bem vinda.

— Não se preocupe, Christine, eu não vou me demorar. Onde está ela? — aquele tom cantado britânico foi aumentando conforme andavam pelo corredor.

— Na cozinha, esquentando o corpo perto do fogão. Ela não quis comer nada logo cedo.

— Ah, esses jovens. Katerina! — Janet colocou o nariz para dentro da cozinha, vermelhinho de frio. Ela usava um cachecol violeta que dava voltas ao redor de seu pescoço e um casaco que combinava perfeitamente com suas luvas cor de caramelo, escondendo com a gola até perto de suas orelhas.

— Bom dia, Janet. Achei que a neve tinha desmotivado seu passeio.

— Minha querida, não existe nevasca neste mundo capaz de me impedir de sair para as compras na véspera de natal! Ainda mais quando isso inclui tirar você de dentro de casa para me acompanhar. Vamos, vamos! Coloque suas luvas e movimente esses músculos.

Não havia mau humor perto de Janet Valois D’Orleans que conseguisse perdurar muito, exatamente como funcionava quando se estava perto de Luke, que criava vincos no rosto de qualquer um com um sorriso em poucos minutos.

Após apanhar minhas luvas e desejar ter comprado um gorro para esconder as orelhas, encontrei com Janet nas escadas da pensão e rapidamente ela passou o braço no meu, caminhando do meu lado até a calçada.

— Cuidado para não escorregar. Essas ruas ficam ensaboadas quando neva, nem parece que se trata de água caindo do céu de outra forma. Qualquer um juraria que mais de meia tonelada de sabão em pó foi colocado nessas benditas nuvens!

O frio era cortante, mas não desmotivava ninguém pelas ruas. Ao contrário do que poderia parecer, York estava muito mais viva do que no dia anterior e suas ruas eram um vai e vem de turistas e moradores com sacolas de compras e presentes, sorrindo, tirando fotos, crianças dando gritinhos agudos quando escorregavam em algum lugar. Os carros rodavam lentos e os ônibus pareciam vagarosas tartarugas vermelhas, carregando grupos de estrangeiros para ver a cidade.

York era de fato uma miniatura de sua nova versão na América, mantendo o charme único de ser tão medieval e moderna ao mesmo tempo.

Janet me encheu de perguntas sobre cada motivo de não ter botas melhores ou de usar um cachecol, do porquê não ter tomado ao menos uma xícara decente de chá antes de sair da pensão ou se me importava de ter que carregar algumas sacolas para ela mais adiante. Ela me fazia rir e algumas vezes me parava no meio da caminhada apenas para retirar seu celular do bolso e dizer em alto e bom som:

— Vamos lá, Kate! Diga “Shakespeare”! — tirando fotos seguidas de diversos ângulos, especialmente quando passávamos diante de algum ponto turístico que ela me convencia ser imperdível para minha coleção da viagem.

Assim que chegamos nas shambles, Janet encontrou um pequeno café entre as ruas de pedras, um lugar bem discreto e arrumado, que exalava o perfume de chá quente e sanduiches.

Sentamos em uma mesinha com cadeiras altas e a Sra. Valois pediu logo um chá preto com limão (para evitar resfriados, segundo ela) e alguns sticks de queijo, fazendo questão de pagar pelo desjejum que eu deveria ter feito para me manter em pé (também segundo seus conselhos).

— Tome aqui — ela puxou para o colo sua bolsa grande e larga, estampada com um tecido de uma marca conhecida, retirando lá de dentro um cachecol vermelho vibrante, que laçou rapidamente ao redor do meu pescoço, arrumando meus cabelos soltos sobre os ombros exatamente como uma boa mãe faria. — Agora sim. Protegida.

— Obrigada — respondi sem jeito, arrumando um nó no tricô, já que o cachecol era muito longo.

O barista trouxe pessoalmente o chá de Janet em um bule prateado lindo e uma caneca alta de louça com meu cappuccino fervendo. Pedi um sanduiche e dois bolinhos de creme para acompanhar, antes que Janet mandasse o pobre rapaz fazer um almoço completo para encher meus ossos fracos.

— Tenho que dizer uma coisa, Katerina. Devo desculpas imensas a você — Janet cantarolou como sua voz parecia fazer sempre, erguendo seus olhos claros por trás da fumacinha que saía pelo bico do bule.

— Desculpas? Pelo quê?

— Pela noite passada, o fiasco daquele chá. Você é uma boa moça, Kate. Mas não precisa mentir quando eu sei exatamente o quanto foi desagradável para você ser alvo das palavras tão rudes. Eu já passei por algumas situações semelhantes quando cheguei a York, há muitos anos e não quero ninguém sofrendo nada parecido enquanto eu puder evitar.

Não entendi inicialmente o que Janet queria dizer com algo que ela tinha sofrido, mas agradecia mentalmente pelo seu cuidado.

— De forma alguma, Janet. Não precisa se preocupar, nem se desculpar por nada. Eu fiquei muito feliz pelo seu convite e pela chance de conhecer a sua casa tão maravilhosa.

Meu sanduiches e os bolinhos foram servidos, ainda quentes e muito apetitosos. Embora aquela pequena pausa no assunto fosse bem vinda, sabia que Janet tinha um senso de dignidade e educação muito maiores do que Bruce Campbell com sua infeliz escolha de palavras no início da noite passada. Mas como poderia culpar Janet por aquela completa falta de tato do Sr. Campbell?

— Sabe, eu nasci nos Estados Unidos, exatamente como você. Minha família é toda de Maryland. — Janet continuou, bebericando seu chá com o dedinho posto para fora da asa da xícara, exatamente como eu imaginava que deveria ser.

— E como a senhora... Você... Veio parar em York?

— Me casando com Edward, é claro — ela riu, cobrindo a boca com uma das mãos. — Nos conhecemos em Londres, durante uma viagem da faculdade. É uma boa época para os jovens, não é?

Concordei, mesmo que para mim a faculdade tenha sido uma batalha sem fim com trabalhos, projetos, notas e exames. Não usufrui muito da rebeldia selvagem que os alunos nos filmes parecem viver. O que não é nenhuma surpresa.

— Imagino como teria sido minha vida se não tivesse o conhecido. Provavelmente ainda estaria morando na minha velha cidade, trabalhando como manicure ou cuidando de uma dúzia de filhos barulhentos. Não teria adquirido esse sotaque, nem teria te conhecido, Kate — ela continuou, rindo.

— Não estaríamos nesta mesa tomando café, eu não conheceria seus filhos e com certeza não estaríamos nesse frio!

Janet riu comigo e apontou com o indicador na direção do sanduiche que eu mal tinha mordido. Ela era de fato uma mãe um pouco mandona, ainda mais quando se tratava de comida.

— Tive muita sorte de me casar com Edward. Ele não é o homem mais fácil de lidar no mundo, mas me deu filhos maravilhosos, que me orgulham todos os dias pelos homens que são.

— Seus filhos são muito especiais, Janet. — sorri. Era muitos sincera com ela, no limite entre ficar muito sem graça e parecer séria demais.

— Sim, eles são realmente. E têm muito carinho por você — a sobrancelha de Janet se ergueu, mas depois disso ficou muda, degustando o restante de seu chá e de seus palitinhos de queijo, analisando e pontuando às vezes algum comentário sobre o tamanho das sacolas de compras que passavam do lado de fora do café, quase arrastadas por seus donos.

Comecei a sentir um leve desconforto depois daquele assunto sobre bons casamentos e filhos. Era aquela sensação de cobrança nos ombros, que me lembrava de que Janet (assim como uma boa lista de pessoas), ainda não tinha nenhum conhecimento sobre a verdade do meu suposto relacionamento com Bruce. E depois de toda aquela bondade em me convidar para sua casa e agora para conhecer sua cidade, não julgava que Janet merecia saber a verdade pela boca de seus filhos.

Eu tinha de contar para ela e começar a desfazer os outros nós daquela mentira.

— Janet...

— Sim, querida? — ela descansou a xícara na mesa, dedicando sua atenção para mim.

— Ontem à noite você perguntou sobre o meu casamento. Se eu queria mesmo o compromisso... Eu gostaria de esclarecer algumas coisas sobre isso.

Deixei minha caneca na mesa e respirei fundo. Aquele assunto não era dos melhores para se desmentir para uma matriarca de uma família como os Valois D’Orleans, mas eu tirava minha força da pequena demonstração de apoio que todos me deram quando Bruce me tratou mal durante o chá. Qualquer outro tipo de pessoas teria me deixado resolver aquilo sozinha e não se colocando entre mim e meu suposto noivo.

— Está bem... Eu estava certa, não estava? Você não quer esse casamento.

— Não, eu não quero. Esse casamento na verdade não existe, Janet. Foi um acordo entre famílias, uma tradição antiga que envolve heranças e negócios.

— Rá! Eu sabia que estava certa! — ela deu um gritinho, abrindo um enorme sorriso — Era muito óbvio que você não tinha nenhum sentimento por Bruce, Katerina. Estava estampado nos seus olhos desde o primeiro momento em que te vi naquela mesa da Betty’s. “Fui raptar a minha noiva”... Bah! A quem ele pensa que engana?

Se eu estava chocada com a reação de Janet? Sim. Não. Totalmente. Uma mistura de muito feliz e muito assustada, talvez. Acho que Collins estava muito certo quando disse que eu não sabia mentir.

— Me desculpe por ter mentido, Janet. Eu nunca quis enganar ninguém com isso.

— Claro que não quis. Mas devia ter aberto sua boca desde o começo. Eu não teria feito o péssimo erro de convidar Bruce para o chá! Só Deus sabe quanto tempo faz desde que um Campbell pôs os pés dentro daquela casa...

Meus olhos estavam arregalados e Janet olhou para a minha expressão e começou a gargalhar alto, como se diante dela houvesse a maior piada do século XXI. Por fim deu alguns tapinhas no meu ombro, pouco antes de quase engasgar com suas risadas e bater com a mão no peito, retomando a compostura.

— Sabe, Kate, eu sou muito boa em julgar as pessoas. Quando meus filhos voltaram de Nova Iorque trazendo seu nome, além da história incrível de como você simplesmente caiu de paraquedas na vida deles, tive a certeza de que estava diante de uma pessoa muito particular. Única. Diferente.

Oh, Janet. Você não tem ideia do quanto. Não no bom sentido.

— Eu não sou, Janet — balancei a cabeça, suspirando.

— Você é sim. Não é uma mentira que corrompeu você ou o que eu penso a seu respeito, Kate. E sabe como eu soube disso?

Pelo meu bom gosto para moda? Meu paladar excepcional para cappuccinos? Minha capacidade de sumir de uma sala?

— Não tenho ideia...

Janet sorriu de uma forma diferente, calorosa, algo que parecia natural para ela em seu papel acalentador de mãe. Esticou as mãos e ajeitou novamente meus cabelos, fazendo um suave carinho nas minhas bochechas ardidas pelo frio, procurando olhar nos meus olhos.

— Eu soube disso quando Leopold disse que você tinha o chamado de “Próspero” e mesmo quando ri do apelido, ele não reclamou. Tive ainda mais certeza, quando Lucas se sentou a mesa do café sem resmungar nenhuma blasfêmia que fosse por acordar tão cedo, mesmo tendo que viajar três horas daqui até Londres para passar uma tarde com você. Por isso, minha querida, eu confio no meu julgamento e no julgamento dos meus filhos, que gostam tanto de você.

Não tinha palavras, só conseguia sorrir. Ali estava uma mulher cujos filhos tinham total confiança em contar suas vidas, uma pessoa que não me julgou em nenhum momento, uma mãe amorosa que terminou beijando minha bochecha e descendo da cadeira do café sem pestanejar ou me dar um intervalo para respirar depois daquela conversa.

— Agora, vamos andar. Tenho que comprar todos os ingredientes que faltam para o almoço de natal e entregar alguns cartões pelo caminho. E ainda temos que encontrar com Lucas para almoçar ou aquele menino vai acabar se entupindo de porcarias por aí!

Saber que íamos encontrar Luke no trajeto me deixou feliz. Claro que já estava feliz com as palavras de Janet (para não dizer emocionada, chorosa), mas ter o ruivinho por perto ajudava a deixar o ar mais leve. Não tinha nenhuma intimidade com Janet, por mais que ela me tratasse como se nos conhecêssemos há séculos.

Pagamos as contas, arrumamos os cachecóis e rumamos pelas shambles na direção de cada pequena mercearia que a Sra. Valois parecia conhecer. Ela desfiou elogios para o peru que pretendiam fazer para os festejos, comprado de um fazendeiro próximo da propriedade da família, que engordava a pobre ave o ano todo com muito carinho e abatia sem nenhuma crueldade. Só depois de toda a descrição de como colocar o recheio nos fundo do peru e como ficavam boas as cenouras mais crocantes colocadas junto com manteiga, é que Janet veio me perguntar se eu era vegetariana.

Por sorte não.

Comprei algumas lembrancinhas baratas em uma feirinha que se desdobrava pelas ruas como um verdadeiro mercado medieval. Ali se podia encontrar de tudo, desde roupas até aparelhos eletrônicos, frutas, doces, crepes e vinho quente. Encontrei algumas miniaturas da catedral de York e chaveiros para presentear Sam e Lex quando voltasse para casa, além de um lenço estampado com motivos britânicos que era a cara de Adria.

Pelo caminho liso das calçadas, levei alguns escorregões memoráveis que teriam me deixado ensopada se Janet não estivesse por perto para me segurar. Algumas vezes saíamos do caminho proposto para atravessar uma ruela ou avenida e entregar simpáticos cartões de natal para os conhecidos da Sra. Valois. Era engraçado notar o quanto os ingleses gostavam daquela tradição de trocar cartões com cachorrinhos ou criancinhas vestidas de Papai Noel.

Já era quase meio dia quando Janet pareceu se cansar de arrastar uma sacola desajeitada e cheia de batatas e creme fresco, consultando o celular para enviar uma mensagem para Lucas antes de apontar para um pub no final de uma rua estreita e bonitinha, com uma tabuleta de madeira na porta onde se lia: The Lil Brothers.

O pub tinha uma porta de vidro na entrada com um sino preso por um braço de metal. Bastou empurrarmos para o som tilintar, informando que havia novos clientes.

Uma jovem de bochechas vermelhas e olhos miúdos correu até a frente para nos receber e indicou uma mesa do outro lado do salão, onde poderíamos nos sentar e escolher se comeríamos algo do buffet ou pediríamos um prato. Janet optou por aguardar a chegada de Luke antes de escolhermos, mesmo tendo certeza de que o filho ia optar pelo buffet, para poder encher o prato com purê de batatas.

Pedimos algo para beber enquanto aguardávamos, mas não demorou muito para aquela o sino tocar novamente e o rosto sardento de Lucas surgir por trás de um grupo de jovens casais que estava decidindo uma mesa pelo corredor.

Ele acenou efusivamente, sorridente como de costume e se aproximou, ajeitando um gorro cinza chumbo sobre seus cabelos enferrujados. Chegava a ser curioso vê-lo sem aquela juba ruiva ao redor de sua cabeça, mas seu rosto ficava muito mais evidente, os olhos ainda mais chamativos.

— Mãe! Kate! — ele abraçou nós duas antes de se sentar, tirando as luvas de lã e já puxando as sacolas para espiar o que tínhamos comprado — Vocês já pediram a comida? Eu estou faminto!

— Estávamos esperando você — ri um pouco, como sempre adorando a brisa leve que acompanhava Luke.

— Oh, que gentileza de vocês. Não precisam mais esperar, eu já estou aqui. Podemos comer agora? Eles tem buffet? — a expressão de cãozinho do ruivinho ficava mais aparente enquanto ele esticava o nariz para olhar ao redor, procurando pela comida como se fosse um caçador.

Janet respirou fundo, mas estava sorrindo e mostrou com um gesto a direção do buffet quente onde poderiam se servir. Luke lambeu os lábios, rindo baixinho.

— Vocês não se importam se eu não esperar por vocês, não é? Eu realmente estou com fome. E Juliet vem almoçar com a gente, a propósito.

— Juliet não ia passar o dia fora? — Janet estranhou, levantando-se da mesa e arrumando as roupas.

— Não me pergunte — Luke ergueu os ombros, rindo. Pelo visto Juliet era um enigma para ele também. — Você vem se servir, Kate?

Ele estava ansioso e eu tinha uma pequena nuvem de preocupação sobre a cabeça. Estava pensando se por algum acaso Bruce não teria tentado ligar com notícias sobre seu pai ou se Samantha havia enviado qualquer mensagem e até mesmo Adria. Não queria parecer indelicada em ficar mexendo no celular enquanto estava com os D’Orleans.

— Podem ir na frente, eu já vou.

Luke não precisou de uma segunda palavra. Apanhou Janet pela mão e falando pelos cotovelos, atravessou o pub para encontrar os pratos quentes que esperavam por eles do outro lado. Ainda tive tempo de rir dos olhos brilhantes dele enquanto se servia, antes de puxar o celular do bolso.

Não havia nenhuma ligação. O aparelho tinha sinal e estava com a bateria com uma porcentagem razoável, mas nenhum rastro de ligações perdidas ou de mensagens não lidas. Arrisquei enviar um olá para Adria, esperando alguma nova, mas nada. Pura frustração.

Decidi fazer uma ligação para Bruce, já que pagaria o valor local e estava no meio da digitação quando um vulto de cabelos dourados se sentou bem diante de mim.

— Olá, Katerina! — Juliet chegou rindo, o rosto vermelho pelo ar gelado. Acomodou sua bolsa na cadeira ao lado, ignorando todas as sacolas de Janet que estavam ali empilhadas, e respirou profundamente, como se tivesse acabado de fazer uma maratona de inverno. — Está bonita hoje, adorei o cachecol. Realçou suas bochechas.

Juliet falava apontando para meu rosto, ignorando que estava com o celular pronto para discar.

— Bom te ver, Juliet. Veio almoçar? — o retorno das perguntas óbvias, parte 3.

— Claro. Se minha tia tivesse avisado que vinha até o Lil Brothers, não haveria marcado de sair mais cedo. Poderia ter acompanhado vocês desde manhã. Olha só todas essas sacolas. Vocês estão conseguindo carregar tudo isso?

— Pois é.

— Minha nossa — ela notou que eu estava com o aparelho entre as mãos e pareceu mortificada pelo erro. — Você estava no meio de uma ligação? Me perdoe, Kate.

— Não, eu ainda estava discando, não se preocupe — não era de todo uma mentira, era?

— Por falar nisso, eu preciso me desculpar com você.

Juliet queria se desculpar comigo? Minha desconfiança apitou como um sensor aranha. Não era possível que ela tivesse qualquer senso de que tinha feito algo errado em sua existência, ainda mais se tratando de mim, sua melhor amiga imaginária.

— Eu sei que tenho agido de uma forma um pouco intimidadora desde Londres, Katerina. Talvez nem tenha me portado muito bem ontem à noite, mas você tem que compreender que às vezes não sei controlar a minha animação e felicidade.

Quase ninguém notou.

— Está tudo bem, Juliet. Eu sei que você está animada com todo o assunto do meu casamento com Bruce e...

Ela me cortou rapidamente, com alguns risinhos.

— Sim, é claro que esse assunto é maravilhoso e eu prezo demais pelo seu relacionamento com Bruce Campbell, mas a verdade é que eu gostaria de te fazer uma pergunta. Por favor, não me leve à mal, mas você é a única pessoa com quem eu posso conversar sobre isso no momento.

As mãos de Juliet eram longas e delicadas, com unhas perfeitamente feitas e apanharam as minhas com urgência, seu corpo quase se debruçando na mesa do pub para poder abaixar o tom de voz enquanto me olhava nos olhos. Juro que fiquei com uma pitada de medo do que viria a seguir.

— Mas você tem sua tia... Prima da sua mãe, não é?

— Sim, tia é um modo carinhoso de chamar. Janet é maravilhosa, mas esse é um assunto de que preciso da sua opinião. Eu preciso saber, Kate... O que você acha do meu primo?

Ai, santo Edgar Allan Poe. O sangue sumiu do meu rosto e eu sentia perfeitamente que o covarde havia fugido para meus dedos dos pés. De onde ela havia tirado aquela bendita pergunta?

— Co-Como assim? — perdi um pouco do senso de direção, precisando balançar a cabeça para focalizar.

— Eu sei que vocês são amigos e que você o conhece de uma forma diferente da que eu conheço, por isso eu queria a sua opinião sobre ele.

— Seu primo. Lucas? — Oh, deuses interplanetários, essa era uma pergunta que eu não queria escutar a resposta.

— Lucas? Não, não! — Juliet riu e suas mãos ficaram ligeiramente geladas. Ela estava visivelmente nervosa, mordendo os lábios rosados, batendo um dos pés embaixo da mesa. — Leo.

— Ahn... Bom... — gaguejei todas as letras dali por diante. Acho que fiz uma completa seleção do alfabeto soletrado perfeitamente enquanto olhava nos olhos de Juliet, que esperavam ansiosamente por uma resposta minha, batendo aqueles irritantemente belos cílios longos.

— Eu sei que você pode julgar essa pergunta um tanto quanto errada. Que vai pensar que é um absurdo eu te questionar uma opinião tão pessoal, sendo que pouco nos conhecemos. Mas você é uma mulher jovem e está noiva, deve saber como é se apaixonar por alguém.

— Me apaixonar por alguém? — espere, essa conversa estava me deixando confusa.

— Claro! Você não está apaixonada por Bruce? Vocês vão se casar e serão felizes, mesmo que você não goste de planejar seu futuro. Sabe, eu respeito a sua decisão.

Já estava olhando para os lados, incomodada. Nunca desejei com tanto fervor que alguém aparecesse para me acudir naquele instante. Eu não queria ouvir aquilo. Não queria!

— As coisas não são assim, Juliet. Na verdade, Bruce e eu...

— Eu sei que as coisas entre os adultos é diferente. Sei que a minha diferença de idade com meu primo é um pouco grande, afinal são treze anos, mas eu acredito que o amor pode vencer qualquer barreira, Kate! — ela apertou minhas mãos, me obrigando a olhar para ela novamente.

— Amor?

— Sim, o amor! Eu sei que você deve ter notado desde que nos conhecemos, Katerina. Não consigo esconder as coisas que sinto, sou muito transparente. Por isso estou te pedindo desculpas se fui grosseira com você em algum momento, mas eu estava com muito ciúme de vocês. Você e Leo pareciam tão... Ligados, entende?

Estava passando mal. Aquela conversa começava a revirar meu estômago e o que ainda existia dentro dele do cappuccino e bolinhos. Meu coração batia tão forte que estava doendo perto da garganta.

— Achei que vocês eram namorados... — murmurei mais para mim do que para ela, mas Juliet abriu um sorriso gigantesco de satisfação.

— Verdade? — apertou as minhas mãos — Você não sabe por quanto tempo idolatro meu primo. Desde pequena, desde que o vi pela primeira vez. Durante todos esses anos eu tive a certeza de que conseguiria me casar com ele. Todos os meus planos, minhas pastas de organização, cada foto e recorte de revista, o vestido perfeito, a festa dos sonhos... Eu fiz por ele.

Minha boca não conseguia se fechar. Estava muito estupefata para mandar meus músculos agirem.

— Você acha que ele é um bom homem, Kate?

— Eu... Acho que... — consegui engolir a saliva e franzi a testa, séria. — Juliet, você sabe se ele te corresponde?

— Sim, sim, sim! — ela balançou as mãos, em uma animação quase histérica. A felicidade transbordava dos olhos dela como a realização de um maravilhoso sonho. — Sou completamente correspondida e a garota mais feliz desse mundo, Kate! Eu sei que Leo não é um homem que demonstra seus sentimentos para as pessoas, mas nós temos intimidade o suficiente para que ele possa confessar para mim. Você acha que eu devo aceitar, se ele me pedir?

— Te pedir?

Oh. Céus.

— Em casamento, óbvio!

Juliet estava ainda mais corada do que quando chegou e com seu último chacoalhar de mãos, me fez notar que havia alguém próximo da mesa, simplesmente parado há alguns passos. Olhei de soslaio para lá e senti meu coração trincar, mesmo que não fosse exatamente isso que deveria sentir.

Lucas estava ali, seus olhos pareciam enevoados e distantes, o prato de comida generoso entre as duas mãos, oscilando um pouco. Tinha certeza de que havia escutado uma grande parte do que a prima tinha dito e eu sabia que isso devia ter destruído suas poucas esperanças com ela. De alguma forma, aquela trinca que senti no peito, era dele e não era alguma coisa fácil de consertar.

— Se vocês não forem se servir, a comida vai acabar. Tem um grupo de turistas que já comeu grande parte da carne assada, sabiam? — ele se sentou ao meu lado, com seu melhor sorriso, exatamente como se nada tivesse acontecido. Mas eu notei que seu rosto tinha empalidecido e que seus lábios não estavam firmes como costumavam ser quando ele sorria.

— Vamos nos servir, Kate? — Juliet levantou com sua animação redobrada.

— Não estou com fome, sinceramente. — anui, deixando que ela se afastasse.

Não tive tempo de falar nem mesmo uma palavra com Luke. Janet se aproximou em seguida e fez alguns comentários sobre a quantidade abusiva de sódio naqueles molhos e como Claude sabia temperar um bom pato, muito melhor do que aquele que estava fazendo a fama do pub. Depois ela abriu espaço para Juliet se sentar e a mesa ficou em uma sinfonia de talheres e ruídos de canudinhos dentro das latas de refrigerante, um silêncio educado, mas que era dolorido escutar.

O prato de Luke não ficou vazio. De todo o montante de que havia se servido, poucas coisas foram movidas pelos talheres, empurradas de um lado para o outro enquanto ele claramente pensava. Sua expressão era dura, de uma seriedade que rapidamente o deixava com uma aparência muito mais velha do que de fato era.

Em algum lugar entre nós, um celular vibrou e todos se moveram para consultar seus aparelhos, mas foi Lucas que sinalizou ter recebido alguma coisa. Com a comida deixada de lado, ele firmou os olhos no visor colorido e se colocou a digitar rapidamente. Parecia estar em uma discussão com a pessoa do outro lado da tela.

— Para onde vocês vão depois daqui? — ele perguntou para a mãe, que limpou a boca em um guardanapo antes de responder qualquer coisa.

— Vou buscar as tortas e o bolo para amanhã. Você sabe que Collins não permite que eu encomende o pudding também, aquele homem teimoso.

Luke digitou mais alguma coisa antes de guardar o aparelho mais uma vez, dentro do bolso frontal de seu moletom pesado.

— Eu estava pensando em dar uma olhada no Norman’s depois daqui. Leo disse que vai estar lá perto e eu poderia me encontrar com ele, assim vamos todos embora juntos. O que acham?

— Norman’s? Lucas, você esteve lá há poucos dias — Janet suspirou.

— Eles sempre trazem novidades nos dias antes do natal. Ah, por favor, mãe. Kate pode ir comigo e nós dividimos o peso dessas sacolas todas, para vocês ficarem livres para os bolos e tudo mais. Vai ser rápido, eu prometo. — ele piscou para Janet, arrancando um sorriso dela.

— Está bem. Se Kate quiser ir com você, mas tomem cuidado com essas calçadas lisas.

******

Luke não tinha ideia do favor que estava me fazendo quando saímos do pub para a rua gelada e seguimos a sinalização que indicava as ruas do centro novo da cidade. Não aguentaria ficar nem mais um minuto ao lado de Juliet e seu sorriso afetado de hiper felicidade exagerada.

Não sabia até onde aquela conversa dela era apenas um devaneio bobo de uma garota apaixonada ou uma verdade qualquer que eu ainda não conhecia, mas suas palavras tinham me machucado um pouco, admito. Uma parcela de peso caminhava comigo enquanto tentava acompanhar o passo de Luke, que estava sempre um pouco à frente. Parte de mim não acreditava que Leo tinha noção da adoração doentia de Juliet e a outra parte, rezava para a primeira estar certa.

Havia levado comigo uma das sacolas desengonçadas de Janet e impedi que o ruivinho a carregasse por mim. Na minha mente, Lucas já estava carregando um peso maior do quê tubérculos para o almoço ou cartões de natal multicolores.

Atravessamos uma avenida devagar, para evitar qualquer acidente e chegamos a uma paralela repleta de lojas, magazines, boutiques e até uma delicada livraria. Nosso alvo parecia bem fácil de encontrar, já que era muito visível a marquise da Norman’s.

Com um violino vermelho pendurado por duas elegantes correntes, o Norman’s Music não era uma loja grande do lado de fora. Em cinco ou seis passos largos, qualquer um via toda sua frente e não parecia muito tentador entrar por sua estreita porta de madeira e vidro.

— Chegamos. — ele olhou sobre o ombro, me notando depois dos últimos dez minutos andando com o olhar fixo em outro mundo.

— Que bom — resmunguei, tentando ajeitar a sacola pesada no meu outro braço, para deixar a circulação correr.

Luke entrou pela porta do Norman’s Music e se não fosse por aqueles fios ruivos escapando por baixo de sua toca de inverno, teria o perdido naquele exato momento em meio as pessoas pelas calçadas da cidade. Segui rapidamente atrás dele, me apertando através da porta estreita da loja para conseguir passar aquela sacola desajeitada.

Não era de se surpreender que ali era a loja preferida de Luke. Claro que se tratava de instrumentos musicais, mas o lugar era tão milimetricamente arrumado que causava uma invejinha (além de medo) por tamanha organização. Os violinos ficavam expostos em uma vitrine de vidro iluminada, como astros do lugar, acompanhado ao lado de violoncelos vermelhos e dourados, guitarras suspensas nas paredes e uma dúzia de outros instrumentos que nem me passam pela memória como deveriam se chamar.

Montados no centro da loja, algumas baterias refletiam a luz de spots bem colocados e lindos saxofones e clarinetes ficavam á sua direita, sem menosprezar uma grande estante de livros, partituras e acessórios.

Um dos atendentes saiu do balcão no fundo da loja e veio cumprimentar Luke com muito entusiasmado em recomendar um conjunto de cordas novas que haviam chego para o natal. Pelo visto, as pessoas daquele nicho tinham o ruivinho em alta conta, como um tipo de celebridade musical local. Concordava com eles, Luke era incrível com um violino em mãos.

Logo que o atendente se afastou, deixei a sacola de compras encostada em algumas caixas de som e amplificadores, para me aproximar de Lucas ainda respeitando seu silêncio. Nunca tinha o visto tão quieto, nem mesmo tão pensativo.

— A loja é linda — tentei quebrar aquela situação ruim.

Os olhos de Luke me encontraram e estavam brilhantes, não de qualquer sentimentalismo bobo, mas de um jeito estranho, nada corriqueiro. Ele respirou fundo, as mãos ainda metidas nos bolsos do moletom canguru, até que finalmente suas sobrancelhas se apertaram para mim.

— Eu não consigo entender. Por que eu nunca soube disso? Estava bem no meu nariz, mais perto do que as minhas próprias sardas e eu não... — ele bufou irritado, tirando as mãos dos bolsos e dedilhando o prato dourado da bateria que estava bem ao seu lado.

— Ás vezes não vemos algumas coisas que estão próximas, Luke. Isso é mais comum do que parece. Acho que é mais fácil enxergar o que acontece à distância.

Acredite em mim, eu sei bem disso.

— Você acha que meu irmão... Que Leo... — ele suspendeu a pergunta. Seu rosto que estava corado de frio até a pouco, parecia brevemente pálido agora.

— Não, eu não acho. Com certeza seu irmão também não notou nada, Luke. E se notou, nunca encorajou.

Lucas desviou o olhar. Parecia tão confuso e irritado, algo revirando dentro dele enquanto seus dedos tamborilavam rapidamente, tintilando aquele som do metal até finalmente bater a mão sobre o prato, que ressoou por toda a loja, mas não pareceu alarmar ninguém.

— Eu estou tão... Tão...

— Furioso. Bravo. Chateado — me aproximei, tocando o ombro dele — Você tem todo o direito de estar, Luke. Mas não vale a pena.

A respiração do ruivinho estava alterada, como se em um segundo pudesse simplesmente sair destruindo a loja toda apenas para extravasar o que não conseguia colocar em palavras. E era muito estranho ver uma pessoa como Lucas ficar sem palavras, sendo que ele sempre teve mais palavras do que qualquer outra pessoa normalmente teria em vida.

— Ele devia ter se imposto antes, ter deixado bem claro que não tinha nenhum interesse. Eu não entendo porque ele não fez isso, Kate!

— Luke, eu sei que seu irmão é uma pessoa muito — (vamos adicionar muito, muito, muito, muito, muito) — difícil, mas você acredita realmente que ele tenha alguma culpa nessa questão?

A resposta pareceu presa na garganta de Luke pela forma dele erguer o rosto para respirar fundo, dando a impressão de que o ar estivesse muito distante dele. Depois, olhou diretamente sobre o meu ombro na direção da porta, me fazendo virar o pescoço para entender o que ele via.

Leo tinha acabado de fechar a porta da Norman’s Music atrás de si quando nos entreolhamos. Um segundo apenas, sem nenhum sorriso, nem o tempo de ficar corada como um tomate pela lembrança da noite passada. Na verdade não tive muito tempo de raciocinar até sentir a mão de Lucas se fechando forte no meu ombro, puxando meu sobretudo de uma forma brusca antes de soltá-lo tão repentinamente quanto o segurou.

Quando olhei para ele, estava pálido como uma névoa, despencando entre as baterias sem a força das pernas para mantê-lo em pé.

— Luke! — Tentei segurá-lo, mas só consegui amortecer um pouco sua batida no chão. Tambores, pratos, surdos, pedais. Tudo se espalhou ao nosso redor e acabei de joelhos no assoalho de madeira, segurando o moletom dele enquanto Leo corria até nós.

O atendente da loja surgiu, assustado e Leo apontou para ele com uma ordem imperativa.

— Uma ambulância. Agora.

— Meu deus, meu deus, meu deus... — eu só sabia repetir, passando a mão pelo rosto de Lucas, tirando seu gorro, esperando que ele abrisse os olhos e sorrisse pra mim dizendo que era uma brincadeira inglesa sem graça. Então seu corpo estremeceu, não exatamente como um calafrio, mas com a força de todos seus músculos, involuntariamente. No instante seguinte começou a se debater e seus olhos entreabertos eram apenas um vazio branco assustador, inexpressivo, convulsivo e violento.

Leo se ajoelhou ao lado do irmão tão rapidamente que não consegui raciocinar o quanto. Passou os braços ao redor dele, sem contê-lo, apenas para virá-lo de lado e apoiar seu casaco logo embaixo daqueles cabelos ruivos. Enquanto tudo em mim era um misto de pânico e desespero, tudo na expressão de Leo era calma.

Mesmo diante do pequeno caos que o ruído da convulsão de Luke causava contra os instrumentos e o chão, a voz do lojista falando com pressa ao telefone e o ruído do meu coração batendo contra os ouvidos; Leo olhava nos meus olhos demonstrando exatamente o que me pedia em seguida.

— Você precisa ficar calma, Kate.

— Eu... Eu... Eu... — estava quase chorando, a garganta apertada, as mãos cobrindo minha boca. Só queria que aquilo parasse. Por favor, parem de judiar do Luke, deuses malvados do universo! Voltem a mirar apenas em mim, como sempre foi a preferência!

— Você sabe onde está minha mãe, Kate? Sabe para onde ela foi?

— Não, não... Ela apenas disse que ia buscar um bolo ou uma torta...

O lojista do Norman’s Music ergueu a voz para informar que a ambulância estava a caminho e Leo agradeceu, pedindo que o rapaz ficasse calmo, exatamente como me pediu segundos antes e que mantivesse a porta da loja aberta para facilitar a entrada dos paramédicos.

— Ele estava bem. Estávamos conversando. Eu não percebi... — comecei a chorar e me sentei sobre uma das caixas acústicas que estava ali perto. Meu corpo estava tremendo, não sentia mais meus pés. Mas escutei quando a sirene do socorro se tornou mais próxima e esperei em silêncio, ainda torcendo para que tudo acabasse.

******

O silêncio da sala de espera do hospital de York é mais torturante do que ficar remoendo todos os pensamentos ruins que tendo protelar meticulosamente. Não quero pensar em coisas ruins, mas infelizmente sou traída a cada vez que as portas do corredor para os quartos se abrem e deixam passar alguma enfermeira ou médico indiferente.

Fazia minutos desde que Janet e Juliet entraram por aquelas mesmas portas e nenhuma notícia retornou desde então, deixando aquele clima apreensivo e mudo entre Leo e eu, sentados lado a lado naquelas cadeiras estofadas de verde. A tensão nele não era tão clara, mas eu sabia que aqueles dedos tamborilando sua perna nunca eram um bom sinal. Seu olhar estava distante, sua respiração pausada. Talvez estivesse brigando com pensamentos exatamente como eu.

Foi repentinamente que Juliet ultrapassou as portas, batendo os saltos de suas botas pelo piso encerado, andando firme até nós dois. Ela esticou os braços, o olhar furioso, e empurrou os ombros do primo mais velho para depois apontar o dedo na direção de seu nariz.

— Por que você permitiu isso? Você sabia que ele não estava se medicando, não é? Seu irresponsável! Desde quanto isso vem acontecendo?

Leo ergueu os olhos e ali estava seu lado frio mais uma vez. Aquele olhar que poderia causar medo e que tinha visto perfeitamente no camarim do concerto em Nova Iorque.

— Não estava acontecendo nada, Juliet.

— Você sabe o que isso pode causar? É claro que você sabe! Você é responsável por ele, sempre soube disso. Ainda não consigo acreditar. Não consigo acreditar...

Ela limpou o rosto, onde as lágrimas de raiva escorriam e chutou com força um dos pés de Leo, em parte para conter um pouco da própria fúria. Então olhou para mim e engoliu o choro como podia, arrumando o casaco nos ombros e jogando os cabelos loiros para trás.

— Eu vou buscar água. Janet disse que vocês podem entrar se quiserem, eles estão no quarto quinze.

A falsa quietude voltou quando o ruído irritante do salto de Juliet sumiu no corredor que estava indicando as máquinas de doces e refrigerantes. Eu compreendia seu nervoso com o bem estar do primo, mas não entendia porque ela culpava Leo daquela forma.

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Com um longo suspiro, o inglês apoiou os cotovelos sobre os joelhos e baixou a cabeça entre as pernas, as mãos espalhando os cabelos para trás. Queria ajuda-lo de alguma forma, mas era difícil auxiliar em uma coisa que não se compreendia exatamente.

— Leo... — toquei seu ombro, sentindo como ele respirava profundamente.

Devagar, ele voltou a se recostar na cadeira, mas não olhava para mim. A frustração fazia parte de seu rosto, mesmo que houvesse calma diante daquela situação. Então ele estendeu a mão, segurando a minha e preferindo olhar para nossos dedos ao invés do meu rosto.

— Lucas sofre de uma epilepsia pós-traumática. Um vestígio de um traumatismo que sofreu há alguns anos, depois de um acidente. Estava bem controlada até esta tarde.

— Eu não sabia disso. Ele nunca comentou nada comigo... Ele... Apenas comentou algo sobre um acidente que você sofreu...

Leo ficou em silêncio e instintivamente desviou os olhos de nossas mãos, talvez tentando não demonstrar o que eu já sabia, sobre sua cirurgia e os movimentos do seu pulso e dedos. Me arrependi de tocar no assunto que ele claramente não gostaria de ter ninguém falando sobre. Demorou um pouco para sua voz voltar a soar, com um tom grave, retomando o assunto sobre Luke.

— Nós concordamos em diminuir a medicação enquanto estivéssemos em Nova Iorque e tudo estava correndo bem. Eu sabia que ele tinha cortado alguns remédios, conforme se sentia melhor. Mas não esperava por isso.

Segurei a mão de Leo com as minhas e encontrei seus olhos. Conseguia ver a culpa estampada neles, por baixo de sua comum seriedade.

— Vai ficar tudo bem, não é? — apertei os lábios, tentando sorrir.

— Sim, vai ficar tudo bem.

Nos levantamos e Leo não soltou minha mão enquanto caminhamos para o corredor dos quartos. Procuramos pelo número quinze por alguns minutos até entrarmos em um corredor verde claro, repleto de quadros floridos e sofás de espera. Um médico estava saindo de lá e fez um curto cumprimento quando reconheceu Leo.

— Como ele está? — me adiantei e o doutor me olhou com estranheza até que Leo balançasse a cabeça, indicando que ele poderia falar comigo.

— Lucas está bem. Está descansando agora, foi medicado. Logo poderá voltar para casa, mas Leopold, — ele franziu o cenho para Leo — Ele vai precisar retomar a rotina de medicamentos.

— Eu sei disso.

— Vocês podem vê-lo. A propósito, Leopold, você tem visto Charlotte desde que voltou?

— Ainda não — ele revirou os olhos.

— Ela perguntou por você ontem, no grupo de apoio. Você sabe o que eu vou te indicar, não é?

Leo assentiu e eles se despediram, quase ignorando completamente a minha presença entre eles. Esperei em vão que Leo olhasse para mim e fizesse mais alguma explicação, mas ele apenas abriu a porta silenciosamente, abrindo espaço para que eu entrasse primeiro.

O quarto estava em uma agradável penumbra, um discreto som dos aparelhos que acompanhavam os batimentos de Luke ecoavam junto da voz discreta de Janet, que estava sentada na cama ao lado do filho.

Luke estava dormindo, mas seu rosto estava marcado do tombo entre as baterias, um corte feio acima de sua sobrancelha, coberto por um curativo e a cor amarelo doentia do iodo. Sua mãe acariciava seu rosto e sussurrava uma canção para ele, sem se incomodar com a nossa presença.

“Você é meu raio de sol, meu único raio de sol. Você me faz feliz quando o céu está nublado. Você nunca saberá, querido, o quanto te amo. Por favor, não leve meu raio de sol para longe”.

Devagar, Janet se vira na nossa direção e exibe um sorriso suave e preocupado, chamando Leo para perto dela. Ela o abraça forte e fala baixo com ele. Eu não me atrevo a escutar o que eles falam, prestando atenção no doce ruivinho adormecido ali.

Vendo a minha proximidade, Janet pega minha mão e acaricia de leve meus dedos.

— Ainda bem que você estava com ele. Podia ter sido bem pior, querida.

— Se Leo não tivesse chegado, eu não saberia o que fazer, Janet.

— Foi um susto e tanto, não é? Com certeza ele vai rir muito de ter pregado esta piada em vocês dois. Mas nada de se culpar, nenhum de vocês. Agora já passou e temos que apenas esperar para leva-lo para casa — ela respirou fundo e olhou carinhosamente para Lucas mais uma vez, antes de entortar os lábios e analisar bem Leo ao meu lado.

Quase um minuto depois de tanto olhar para ele e depois para mim, ela tampou a boca para rir o mais baixo que conseguia.

— Vocês dois ficam bonitos juntos.

— Mãe... — Leo massageou a testa, incrédulo. Não dava mesmo para crer que Janet ainda conseguia fazer algum tipo de brincadeira depois de uma situação tão tensa quanto aquela.

— Estou sendo sincera, não por você ser meu filho, mas Kate fica muito melhor aqui do que ao lado do Sr. Campbell.

— Acho que seu filho bom gosto demais para escolher uma atendente qualquer da Barnes & Noble, Janet — sorri, aceitando a brincadeira dela e consultando Leo com o canto dos olhos.

Ele fez o mesmo, acompanhado da sobrancelha arqueada.

— Mas a senhorita Dalton não é uma atendente qualquer. É uma atendente cantora da Barnes & Noble. — ele sorriu e Janet não entendeu muito bem sobre o que estávamos falando. — Longa história. Longa história.

Ficamos no quarto até que Juliet retornasse com duas garrafinhas de água. Seu rosto estava lavado, mais calmo e com a chegada dela, aproveitei para sair e deixar a família Valois D’Orleans em paz.

Saí do hospital e fui caminhar por um pequeno jardim que existia ao lado da entrada das ambulâncias, onde estava frio com a volta da neve caindo. Mal haviam pessoas pelas ruas agora, todos preferindo se esconder dentro de suas casas quentinhas perto daquele final de tarde.

Subitamente meu celular vibrou e apanhei o aparelho esperando ver alguma mensagem de Samantha para aliviar um pouco a tensão, mas o nome de Bruce estava no cabeçalho do aplicativo.

“Nós precisamos conversar. Me avise quando estiver disponível”.

Me encostei em um dos pilares um pouco mais afastados entrada e comecei a digitar uma resposta. Queria que Bruce fosse mais sucinto em suas palavras, sem a necessidade de nenhum tipo de encontro com ele para resolvermos aquele impasse, mas eu sabia que ele não ia facilitar as coisas enquanto eu estivesse em York.

Bruce tinha agido como um namorado ciumento naquela tarde passada e aquela posição ainda me incomodava.

Mal apertei o botão para enviar, senti alguém encostar o ombro no meu. Não precisei olhar muito longe para reconhecer Leo pela camisa azul que estava usando, possivelmente passando um pouco de frio por estar sem o casaco que tinha usado para socorrer Luke no Norman’s Music.

— Bruce? — ele questionou.

— Sim — guardei o aparelho no bolso da calça. — Está tudo bem lá dentro?

— Sim, estão todos bem. Bruce vem buscar você? — nos entreolhamos. Leo cruzou os braços.

— Não. Ele quer conversar comigo. Sobre o noivado.

— Entendo.

— Eu posso fazer uma pergunta para você? Daquelas que não são perguntas desnecessárias?

— Se eu disser não, você vai deixar de perguntar, Katerina?

— Não.

— Então pergunte.

Enchi os pulmões de ar e tentei manter minha fala calma, nada de atropelos ou de tagarelar. Queria expor o que tinha acontecido e que Leo precisava saber (e eu precisava confirmar).

— Esta tarde, estive conversando com Juliet quando fomos almoçar no Lil Brothers e ela mencionou muito seu nome. Ela questionou a minha opinião sobre você e declarou abertamente como se sente a seu respeito, Leo.

Nenhuma surpresa passou por ele. Estava quieto como antes, apenas escutando meu relato. Queria alguma reação, uma curiosidade ou dúvida pelo menos, mas não ganhei nada, nem mesmo aquele maldita sobrancelha arqueada.

— Ela contou que planeja se casar com você há anos. Que é correspondida e que está apenas esperando que você faça o pedido para ela colocar em prática todos os sonhos que tem desde que era uma menina. Por um acaso o senhor tem ideia disso?

Tudo bem, eu estava me afetando. Tinha que volta a ficar plana naquele assunto, mesmo que fosse incômodo demais fingir.

— Sim, eu tenho conhecimento disso.

— Tem? E o senhor sabia que seu irmão nutre sentimentos por ela? Que ele escutou toda essa declaração de amor apaixonado e possessivo enquanto Juliet pedia desculpas por sentir ciúmes de mim? Por isso nós fomos até a loja de música e estávamos conversando quando ele passou mal. Ele não queria acreditar que o senhor pudesse não ter negado os sentimentos de Juliet. Que por conta da sua negligencia, ela tenha nutrido todo esse amor por achar que era correspondida!

Leo olhou para mim e descruzou os braços apenas para soprar as mãos que estavam frias, tentando aquecê-las.

— O que a senhorita acha que eu fiz?

— Eu não sei. Esperava que o senhor me iluminasse nesse quesito. Se seu próprio irmão que o ama tanto, não sabia ao certo o que pensar, como eu posso saber?

Um vestígio de sorriso surgiu no rosto de Leo e me deixou confusa. Ele estava se divertindo as minhas custas? Aquele assunto era sério!

— Vou começar a pensar que nutre sentimentos por mim também, senhorita Katerina. Isso seria um vestígio de ciúme?

— Ora, seu presunçoso — tive vontade de acertá-lo com aquela pesada sacola com batatas, mas tudo já estava guardado no carro de Leo muito antes. — O senhor pode ter causado o stress que desencadeou a crise do seu irmão, e está brincando comigo? Muito me surpreende, senhor Valois.

— Então, voltamos ao senhor e senhorita. Interessante. — ele constatou e se virou para mim, me causando um calafrio. — Acredita mesmo, senhorita Dalton, que eu teria alimentado apenas por vaidade, os sentimentos de uma garota que apesar de estimar, é apenas uma parente relativamente distante? E que eu feriria meu irmão de uma forma tão desleal como acalentar o amor de uma jovem por quem ele sente tamanho apreço? A senhorita me toma por muito leviano, Katerina.

— Não leviano, mas inconsequente. Em nenhum momento vi o senhor declinar das investidas de Juliet em Londres. Cheguei a pensar que estavam juntos, antes de saber que eram primos.

— Compromissados, a senhorita quer dizer?

— Qualquer um pensaria isso pela forma de andarem juntos por aí!

Leo começou a rir e isso me desconcentrou. Não era possível ficar irritada e inconformada enquanto ele ria diante de mim tão abertamente, nem mesmo manter o foco naquela discussão importante.

— Senhorita Dalton, tem certeza de que não quer rever seus sentimentos sobre mim? Ainda há tempo de evitar um desastre pior da sua imagem.

— Seu... Seu... Insuportável, orgulhoso e egocêntrico!

— Egocêntrico é um novo defeito.

— Posso adicionar muito mais de onde veio esse, acredite. É um absurdo o senhor esperar que eu deva admitir que...

Com um passo, Leo me empurrou contra o pilar e encostou a testa na minha, exatamente como havia feito em sua casa na noite anterior. Minha respiração falhou e o resto da frase simplesmente desapareceu, junto com o restante da lógica.

— Admita, Katerina.

— Isso é um absurdo...— suspirei, tentando reorganizar os pensamentos, mas era difícil pensar naquela posição, com os olhos dele nos meus e sua mão fria tocando meu rosto. O maldito estava me provocando! Quem ele achava que era para fazer isso?

— A senhorita não costuma guardar sua opinião, não é mesmo, senhorita Dalton? Basta dizer que não existe nada em suas perguntas absurdas sobre Juliet que seja ligado a uma pitada de ciúmes e eu prontamente a deixarei em paz.

— Já expliquei todas as minhas razões, senhor Valois.

— Pois bem, então explicarei as minhas. Talvez isso elucide melhor as suas dúvidas quanto a minha índole e minha posição sobre minha prima, senhorita Dalton. Como por exemplo, a minha presença aqui, neste momento. Ou talvez meu contato na noite passada.

— O senhor disse que se preocupou comigo...

— Sim. Mas porque eu me preocuparia com a senhorita se tivesse a garantia do apreço e sentimento de uma pessoa tão mais próxima de mim? Ou porque aceitaria de bom grado correr o risco de qualquer pessoa surgir naquela biblioteca na noite passada, sem me importar quem fosse?

— Mas quando Lucas chegou... — tentei responder.

— Foi você que se afastou, Kate.

Leo estava certo. Fui eu quem recuei um passo e soltei sua mão depois daquele beijo. Eu que ainda tinha uma mentira para desmascarar diante de outras pessoas e não queria correr nenhum risco de deixa-lo em uma posição ruim dentro de sua própria casa. Ele estava certo, como costumava estar e aquilo me fez rir ao invés de ter qualquer outra reação.

— Você está certo. Admito isso.

— Eu sempre costumo estar — lá estava a sobrancelha e eu sorri pela presença dela, tocando o rosto de Leo com os dedos, apenas para contorna-la e não suportar a presença dele sem realizar o meu desejo de beija-lo de novo, abraçando-o pelo pescoço.

Sentir os lábios dele mais uma vez era quase surreal, impensado e perfeito como nunca imaginei, mas algo que eu precisava mesmo que não tivesse admitido. Juliet estava correta em uma das coisas malucas que disse naquela tarde: nós tínhamos uma ligação e não apenas pela forma com que conseguíamos nos entender e desentender, mas pela química inegável que sentia agora em cada pequena fibra de mim enquanto o corpo dele mantinha o meu seguro contra aquele pilar do hospital.

— Admita, Kate... — ele sussurrou com um sorriso, beijando o canto da minha boca.

— Admito... — ri, sentindo cócegas que a barba dele por fazer causava na minha pele.

— Estou escutando.

Reunir coragem e pensamentos enquanto Leo beijava meu rosto, era uma tarefa árdua. Não entendia como ele conseguia manter aquele perfume tão bom em suas roupas e como mesmo com as mãos frias ao meu redor, não me incomodava em nada. Mas não havia sentido em continuar aquela brincadeira, éramos adultos e parte da franqueza que me prometi ter com ele quando contei sobre a mentira do noivado, tinha de ser levada a sério agora.

— Eu admito... Estou seriamente apaixonada por você... Mesmo que isso pareça absurdo demais, mais absurdo que sua prima estar preparando o casamento de vocês.

Ele olhou nos meus olhos e não sorriu. Seus dedos contornaram meu queixo por alguns segundos antes de falar qualquer coisa.

— Se você conhecesse Juliet, não acharia absurdo.

— Então não acha absurdo que uma atendente cantora da Barnes & Noble, que simplesmente atrapalhou suas compras e sua estadia em Nova Iorque, que decorou sua rotina e o apelidou de renomes um tanto absurdos, mentiu e acabou entrando em sua vida e sua cidade natal, possa sentir algo por você?

— Nada absurdo.

— Isso é um tanto convencido da sua parte, senhor Leopold — ri um pouco nervosa, recebendo outro beijo.

— Eu não diria isso, senhorita Katerina. Eu diria que apenas uma atendente cantora tão peculiar, atrapalhada, enxerida, inconveniente, barulhenta e curiosa, poderia chamar minha atenção o bastante para me fazer desejar que ela sentisse qualquer coisa por mim, mesmo que incialmente tenha sido repulsa.

— Um pouco apenas. No início.

— E acima de todos estes defeitos e por mais absurdo que possa parecer; mais absurdo do que uma atendente de livraria possuir um casamento arranjado, acredito que posso dizer que também estou seriamente propenso a acreditar que estou apaixonado por você, Katerina.

— Propenso a acreditar? — ri alto, empurrando-o para trás apenas para poder me arrumar um pouco e disfarçar o quanto meu coração estava disparado naquele instante — Dessa forma, não parece muito verdadeiro da sua parte.

— Caberá a você descobrir.

— Está bem. Eu aceito este desafio, senhor Leopold — me aproximei dele e segurei sua camisa para me erguer um pouquinho e beijar seu rosto, um grande atrevimento vindo de mim.

Então o celular vibrou no meu bolso mais uma vez e fiz um sinal de que ia atender. Não era nenhuma ligação, mas uma série de mensagens de Bruce. Não me pareceu boa coisa e já devia estar bem acostumada com a onda de coisas ruins que se seguiam sempre que uma coisa muito boa me acontecia.

— Será que você pode me deixar no Knight’s Inn? — questionei Leo, que estava apenas esperando se eu iria responder o celular ou não.

— Claro. Aconteceu alguma coisa? — ele segurou minha mão, mas não fez nenhuma outra pergunta, respeitando meu espaço.

— Preciso ir decidir algumas coisas de uma vez. Por mim. E agora um pouco por você também.