Orleans
16 Capítulo 16 - If I Fell
Okay. Vou correr o risco de parecer leviana uma vez na minha vida repleta de atrasos, azar e problemas. Tenho que fazer isso porque me pareceu muito impossível não pensar em todas as intenções mais absurdas quando Leo virou a chave naquela maldita porta. Simplesmente me esqueci de todo o resto da teoria do caos que estava me circulando nos últimos dias com aquela história de noiva morta, acidente, almoço de natal... E antes que vocês venham me acusando de estar encalhada, carente e absurdamente desesperada, já vou avisando que não é bem por aí.
Está bem. Era um pouco por aí sim, mas quem pode me culpar?
O interessante desses momentos é perceber o quanto sua mente consegue ir longe com apenas alguns segundos disponíveis para reflexão. A chave acabou de fazer ruído na maçaneta e eu já estava profundamente absorvida em tentar me lembrar de qual lingerie tinha vestido naquele dia, quanto tempo fazia desde que tinha me depilado e que raios de conversa era aquela de que eu podia gritar se quisesse? Seria ali o momento ideal de avisar Leo que eu não era adepta de nenhuma técnica de BDSM?
Na verdade tive minhas dúvidas sérias se ao menos me lembrava como é que se fazia o básico (se é que vocês me entendem). Mas a recordação de Adria discursando sobre isso em uma de nossas conversas sobre relacionamentos, era sempre a mais desanimadora de todas as respostas para perguntas assim: “É como andar de bicicleta: abra as pernas, sente, relaxe e aprecie a vista. Ninguém esquece como se andar de bicicleta”.
Ridículo, mas seria funcional se minha maior lembrança envolvendo uma bicicleta não fosse justamente de como consegui me arrebentar caindo de uma. Mero detalhe.
Porém não me parecia que havia segundas intenções naquele inglês de um metro e oitenta e sobrancelha arqueada. Pelo jeito com que Leo se sentou na beirada da cama e inspirou fundo, olhando discretamente para mim, não dava a entender que a coisa se seguiria com uma frase sexy ou um “Katerina, tire suas roupas”.
Longe disso, na verdade.
Depois de voltar para a realidade e aceitar que aquela conversa seria de fato difícil e longa, me acomodar na cama do quarto de Leopold era uma missão quase impossível. Nenhum movimento das minhas pernas parecia ajudar muito e cheguei à conclusão de que poderia sentar no chão — o incômodo era meu e não do colchão macio embaixo do meu traseiro.
Eu compreendia que a conversa entre nós seria daquele tipo que não deve ser incomodada, nem cancelada por nenhum tipo de intromissão. Mas o calafrio que desceu pela minha espinha era mais do que uma mera ansiedade ou intuição de que seria um bate papo sério.
Acho que estava pensando demais.
O Carma silencioso ao meu lado, analisou um pouco a minha expressão, provavelmente procurando algum ponto por onde pudesse começar a falar ou perguntar sobre o famigerado assunto que tínhamos de tratar. Minha única esperança era de que qualquer conversa com Leo fosse melhor do que minha conversa com Bruce Campbell na noite anterior.
Mas eu tinha tantas coisas que queria conversar com ele, pequenas dúvidas que estavam se acumulando e que poderiam servir perfeitamente para iniciar aquele diálogo.
— Posso fazer uma pergunta? — arrisquei, para acabar com o silêncio estranho, ajeitando meu cachecol novo.
— Você faz muito essa questão, já notou?
— Acho que fiquei traumatizada. Sempre penso duas vezes sobre qualquer coisa que queira perguntar, apenas para ter certeza de que não é uma pergunta redundante, estúpida ou completamente desnecessária.
Leo sorriu, visivelmente relaxando os ombros de sua posição. Gesticulou para que eu seguisse em frente.
— Os livros. Por que tantas edições de uma mesma história? Eu não vejo muitas mudanças nelas, apenas quando se tratam de exemplares estrangeiros. E enquanto você estava em Nova Iorque, comprava um livro todas as quartas, sistematicamente. Se fosse apenas uma coleção, o senhor já não teria terminado?
Óbvio que a minha sequência questionadora foi recebida por aquela sobrancelha fatal. Sorte que agora eu a admirava, caso contrário já teria saído correndo pela porta.
— Estava mesmo me perguntando onde havia parado a curiosidade de Katerina Dalton. Conteve-se muito bem.
— Obrigada. Estou melhorando com o tempo — sorri e agradeci fazendo uma meia mesura, já que estava sentada.
Os olhos de Leopold focalizaram as estantes, especificamente onde aquele imenso conjunto de obras Shakespearianas estava acomodada, com suas lombadas de diferentes cores e letras negras, douradas e prateadas. Depois ele se arrumou e apontou para mim quais prateleiras deveria olhar.
As mais altas, continham exemplares visivelmente mais antigos, com lombadas machucadas e até mesmo restauradas. Conforme as quantidades e títulos passavam, ficavam mais novos, coloridos e interessantes.
— Existem três coleções distintas do Bardo naquelas estantes, Kate. A primeira delas pertenceu ao meu avô Charles; o maior culpado pela minha paixão por palavras desde pequeno. A segunda é minha, e muitas pessoas costumavam me presentear com livros quando achavam algum exemplar raro ou em péssimo estado pela idade.
— Então seu avô te transformou em um colecionador obcecado de Shakespeare? Ele deve estar orgulhoso de você.
— Possivelmente. O sonho dele é que eu seguisse sua profissão quando crescesse. Ele lecionava poesia na faculdade de Literatura quando não estava metido pelos campos coordenando a criação de ovelhas e as fábricas. Mas esse orgulho, eu não pude dar a ele.
— E a terceira coleção?
Inconscientemente, já sabia qual seria aquela resposta, mesmo assim era uma necessidade de escutar soar com a voz dele.
— A última coleção era de Bianca. Ela era mais dedicada a colecionar do que eu. Seu pai é um dos curadores no Globe, um bom homem que por sorte não encontramos em nossa visita a Londres. Reginald não reagiria muito bem se me encontrasse por lá.
Bianca. Esse era o nome dela.
Charlotte perguntou para Lucas no hospital se Leo havia visitado Bianca ultimamente e agora eu conseguia visualizar uma lápide com o nome da jovem Lewis acompanhada de alguma frase de efeito que o Bardo tivesse declamado sobre a morte jovem. Talvez algo de Romeu e Julieta fosse adequado. Nem tinha me recuperado daquela pressão ruim de pensar na noiva de Leo e já estava às voltas com aquela sombra mais uma vez.
Não conseguia me decidir sobre o que pensar do assunto.
— Você está completando a coleção para ela? — era o mais lógico a se questionar. Talvez eu estivesse me martirizando com aquelas perguntas, mas acima de qualquer dor imensa que ficasse transpassando minha garganta quando imaginava o sorriso sonoro de Bianca viva, saída daquelas fotos de ainda a pouco; tinha de agir como uma adulta razoável.
— Não mais.
— Acho muito admirável da sua parte, se quer saber. — hesitei um pouco no meio daquela frase. Não sabia como abordar aquilo — É como se fosse um memorial, não é? Uma homenagem a ela.
— É exatamente por esse motivo que parei de adicionar livros à coleção dela, Kate. Não me soa correto permanecer eternamente focalizado em manter viva uma sombra que deve se tornar uma memória, não um memorial.
— Ela foi uma pessoa especial para você, Leo. É compreensível que...
— Esteja presente. Eu sei — ele suspirou, passando uma das mãos pelos cabelos. Era a primeira vez que notava uma inquietação sobre a ex-noiva em Leo. — Porém não acredito que seja de qualquer forma digno de minha parte permanecer alimentando um simulacro. Não me causou nenhum bem antes, tampouco o fará agora.
Leo se levantou, o incômodo vencendo-o visivelmente. Caminhou até uma de suas estantes e retirou do alto dela uma lata antiga e redonda, daquelas usadas para guardar rolos de filmes, indo até a mesa no canto do quarto, erguendo breve a voz para que eu o escutasse perfeitamente.
— Todos os livros que comprei em Nova Iorque, você deve imaginar que não caberiam nestas estantes. Afinal todas as quartas entrava pela Barnes & Noble para apanhar algo que chamasse minha atenção. Adquiri traduções de peças, poemas e sonetos, biografias e romances sobre o Homem. Comprei exemplares machucados, repetidos, velhas reproduções de manuscritos. Paguei por outros romancistas, poetas, cronistas de época, todos divididos entre as estantes que viu em Nova Iorque e as que não conheceu, em Londres.
— Imagino que seu quarto em York Way seja tão repleto de livros como este, senhor Valois. Mas havia tantos exemplares inéditos naquela livraria para atrair sua atenção todas as semanas?
— Alguns. Existiam bons ensaios e outras obras de autores reconhecidos naquela mesma prateleira, que eu aposto que você os conhece muito mais do que eu. Além do mais, a livraria se tornou uma obrigação para mim.
— Exatamente nas quartas? — sorri.
— Exatamente. O horário pontual, além da minha educação natural como deve supor, se deve a um compromisso semanal que contraí em Nova Iorque, que deixava a Quinta avenida como meu último local ao retornar para casa.
— Interessante. Então o senhor se mudou para Nova Iorque a trabalho?
— Exatamente. Logo no início de janeiro, poucos dias antes da minha primeira visita ao seu local de trabalho, Kate.
De onde estava, era possível notar que Leo estava com um suave sorriso no rosto e isso era um pequeno sinal que me deixava mais confortável, como conseguia ver que ele também se sentia. Minhas curiosidades não tinham fim e para cada resposta dele, mil perguntas novas surgiam, mas eu esperava ter tempo de escutar cada uma delas bem resolvidas. Afinal eu não estava pensando em desaparecer da face da Terra tão cedo.
As fotos que estavam sobre a mesa de estudo do quarto, foram guardadas uma a uma dentro daquele rolo de cinema e a tampa de alumínio ficou tranquilamente pelas mãos de Leo, que voltou para perto de mim assim que todo o tampo de madeira estava livre e organizado — com a pequena exceção daquela xícara de café frio, que não tinha exatamente para onde ir naquele momento.
O gesto dele em guardar as fotografias na minha presença, me pareceu gentil. Leo não estava escondendo seu passado de mim, nem mesmo demonstrando que aquela mulher que antes dividiu a vida com ele, era insignificante. Eu conseguia entender, mesmo que sutilmente, que para Leopold o momento de reverenciar Bianca Lewis havia passado. Nada de imensas tristezas ou de memoriais. Ela partiu para um lugar que ele não podia segui-la e cabia aceitar e seguir em frente, assim como cabia a mim compreender que ela estaria sempre um pouquinho presente nele, principalmente em sua reticência de deixar qualquer pessoa se aproximar o bastante de sua vida.
Ele levou um tempo remexendo em todas aquelas imagens bagunçadas dentro da lata quando se sentou bem perto, seu braço roçando meu ombro. Eu conseguia ver todos os rostos lá dentro, misturados, sorrindo, gargalhando. Então Leo apanhou uma delas e estendeu para mim.
Na imagem havia quatro homens abraçados, jovens, usando camisas de um time esportivo que eu não reconhecia. Não era nada difícil encontrar os irmãos D’Orleans ali, principalmente Luke, que tinha os braços sardentos ao redor do pescoço do irmão mais velho e o rosto pintado com dois riscos coloridos que o deixavam parecido com um magrelo guerreiro ruivo dando um grito de guerra. Ele não devia ter mais do que seus treze anos e a camisa parecia larga para ele.
Leo estava rindo na foto, suas mãos tentando segurar o irmão que quase pulava em suas costas. Toda a expressão do inglês me parecia diferente, como se naquela época ele fosse como qualquer outro cara no mundo em uma foto de comemoração, possivelmente meio bêbado com os amigos após o jogo do time favorito. E convenhamos que imaginar isso era bem difícil quando se conhece o Leopold atual. Quase surreal. E não estou falando só do detalhe dele ter cabelos mais longos na fotografia ou de parecer estar se divertindo.
— Minha nossa, esse é você? — apontei, rindo um pouquinho. — Belos cabelos.
— Um dom natural.
— Você devia ser muito insuportável naquela época. Se parece muito com um daqueles caras populares dos meus anos de faculdade.
— Um pouco popular, admito. E convencido. — ele rolou os olhos, parecia saudoso ou satisfeito com a própria mudança.
— Mais do que hoje em dia? Não consigo crer. Achei que Bruce era o popular e insuportável da turma.
Bruce estava na foto, bem ao lado de Leo. Também tinha cabelos mais rebeldes, bagunçados por conta da pose. Estava com o peito pintado nas cores do time e a camisa com as mangas amarradas ao redor do pescoço, no melhor estilo capa de super-herói. Um desconhecido estava abraçado com ele, brindando com uma lata de cerveja.
— É difícil de acreditar que ele não era mais popular do que você, Leo — tive de rir.
— Não era. Bruce era quase minha sombra, se posso dizer isso. Nos conhecemos no colégio, algumas semanas depois que ele chegou em York. Naquela época, Bruce era apenas um estrangeiro deslocado e a maioria dos alunos não o tratava muito bem. O mínimo de respeito que ele recebia, vinha dos adultos que conheciam seu avô ou George.
— Mas George não me pareceu muito inglês. Com exceção do hobbie maluco de sair atirando em coisas voadoras e morar no meio do campo.
— Nem todos os ingleses moram em casas de campo ou atiram em coisas, Kate. Trata-se de um estereotipo antigo, como afirmar que todos prezam a hora do chá ou gostam de pescar nos finais de semana.
— Um belo clichê, eu diria — rimos um pouco, afinal ele morava em uma enorme casa de campo e tinha o bônus de gostar de jardinagem.
— Você parece uma entendida em clichês, Katerina.
— Um pouco. — pausei, degustando do pequeno prazer de ser agora oficialmente uma expert em algo. Mas tinha de retomar o rumo do assunto — Então, você e Bruce eram realmente bons amigos.
— Melhores amigos.
A informação pesou para Leo e isso ficou nítido em seu semblante. Seu último elo com as coisas boas e lembranças gentis do passado claramente o odiava acima de qualquer coisa; e subitamente notei que a perda da amizade de Bruce era algo que fazia parte daquele espinho doloroso que restou da tragédia na vida deles que se escondia por trás de seus gestos frios na presença de Campbell. Toquei a mão dele com um pequeno sorriso compreensivo, acompanhando quando ele voltou a falar.
— Mas você está correta sobre George. Ele não é inglês. Seu pai era e ele herdou a têxtil, assim como todas as terras e propriedades. O velho Sr. Campbell havia se separado recentemente da esposa quando se mudou para cá, tomando a dianteira dos negócios do pai, que faleceu alguns meses depois. Nesta época meu pai estava negociando com o ele, mas com a chegada de George, os negócios nunca deram sucesso.
— Por quê? George tinha algum problema contra seu pai?
— Não particularmente. Ele achava que a ideia do meu pai de unir as companhias, era algo danoso naquele momento. Sempre foi um homem muito rígido e ambicioso, desejava levar a têxtil para fora de York. Fato que conseguiu cumprir alguns anos depois, exatamente quando Bruce chegou à cidade.
— O Campbell-pai realmente me deixou claro ser um homem difícil. Não que Bruce seja muito diferente, mesmo com a relação claramente tumultuada entre os dois. — me lembrava de como aquela curta conversa entre eles havia sido no meu primeiro dia em York. Péssima lembrança.
— Os dois não são parecidos. — Leo balançou a cabeça. — George nunca aceitaria que mais um Campbell se parecesse com ele. E mesmo que Bruce se esforçasse, não conseguia ser muito mais do que é. No colégio, nos conhecemos como adversários no rúgbi, times de classes diferentes. Ele demonstrou o quanto conseguia se esforçar para um objetivo quando me venceu em um campeonato juvenil.
— E viraram inimigos mortais? — ri baixinho e Leo me acompanhou.
— Não, acabamos amigos por conta disso. Eu queria o americano novato no meu time, então tinha que convencê-lo de alguma forma. Fui muito maquiavélico.
— Consigo imaginar.
Entrelacei meus dedos com os de Leo sem notar e fiquei observando como sua mão era longa perto da minha, seus dedos delgados, perfeitos para um músico. A pequena recordação sobre música me trouxe mais uma questão, que envolvia claramente outro musicista.
— Estava pensando... Luke disse uma vez que Bruce sempre invejou você. Agora, fiquei um pouco confusa. Pela forma com que você me conta essas coisas, as disputas entre vocês eram quase saudáveis, sem aquele gosto de inveja inescrupulosa que eu imaginei.
— Lucas tem um gosto mais amargo do que o necessário quando se trata dos Campbell, Kate. Não posso culpa-lo, ele era apenas uma criança que acordou em um lugar muito diferente e tentou assimilar tudo que estava acontecendo. Grande parte desta culpa também é minha. Não estou absolvendo Bruce de sua parcela, nem o tornando um santo.
— Eu compreendo. Mas Luke estava te protegendo, Leo. Você sabe que ninguém nunca vai te amar tanto quanto o seu irmão, mesmo que ele exagere ou tenha entendido qualquer coisa errado.
— Sim, eu sei disso. — Leo suspirou, acariciando minha mão junto da dele, os olhos baixos. — De fato, Lucas não está completamente errado. As disputas esportivas entre mim e Bruce evoluíram para constantes desafios em todas as áreas; fosse no estudo, nos relacionamentos, nos negócios. Mas deixaram de ser tão amigáveis quando meu pai decidiu me colocar a frente dos negócios da família.
— Bruce invejou sua posição? — estava pronta para ficar revoltada. — A família dele também tem uma companhia, por que ele não fez por merecer? Ele devia ter se esforçado pra isso.
— George nunca permitiria que Bruce tomasse conta de seu legado. Para ele era importante que seu primogênito estava conquistando os Estados Unidos. Não fazia sentido algum desprender energia para investir na velha Europa. E Bruce era a verdadeira personificação da Europa para ele.
As duas últimas frases de Leopold foram encobertas por uma névoa estranha nos meus ouvidos. A única coisa que conseguia ecoar dentro da minha cabeça era aquela palavra estranha, comprida e incomum:
Primogênito
adjetivo substantivo masculino: Que ou aquele que nasceu primeiro; o primeiro filho de um casal.
Será que eu estava escutando direito ou Próspero estava trocando as estações?
— Espera. Eu acho que não entendi. Primogênito?
Leo afastou nossas mãos e apontou para a foto que estávamos vendo até a pouco. Seu indicador mostrava o desconhecido na imagem, o homem que estava abraçado com Bruce. Aquilo me deu um severo calafrio na espinha.
— Taylor Campbell, o irmão mais velho de Bruce. Ele comandava as filiais da têxtil nos Estados Unidos.
Devia ter reparado antes naquele homem da foto. A aparência dele não deixava dúvidas de que se tratava de um familiar. Era nítido em seu largo e belo sorriso, na cor de seus olhos, até na forma com que ele segurava a lata de cerveja. Seu rosto estava pintado como o de Luke, mas ia até seus cabelos formando um topete arrepiado e ressecado de tinta colorida.
Mesmo assim, havia algo que não se encaixava naquele contexto. Se Taylor era o filho mais velho de George Campbell, onde ele estava? Por direito, ele deveria ser meu noivo arranjado e não Bruce, correto?
Então, eu me dei conta. Num estalo discreto, quase como um coice dado na nuca: Taylor Campbell também estava morto. Ali estava a segunda vítima de quem Bruce havia falado que a imprudência de Leo causou. A verdadeira causa de aquela amizade ter ruído — Bruce não perderia mais nada para um D’Orleans.
— Então Taylor... — apertei sua mão e ele respirou fundo, afastando os olhos da fotografia.
— Você entendeu agora.
— Entendi. Vocês dois perderam pessoas importantes. Muito importantes. Mas não faz sentido toda essa mágoa por tantos anos. Vocês deveriam ter se unido mais depois de uma tragédia dessas, não se afastado.
— Bruce não aceitou perder o irmão e a melhor amiga em um momento só. Embora desejasse o cargo do mais velho, sempre o amou demais para competir com ele e desejava demonstrar o próprio valor. Ele, Bianca e Taylor eram ótimos amigos; foram os dois que me apresentaram para ela. Por isso Bruce fez todo o possível para que eu fosse acusado e exposto pela direção perigosa, por estar alcoolizado... Fui indiciado por homicídio culposo.
A palavra causava uma sensação ruim. Homicídio trazia aquele peso da morte em uma forma muito mais profunda do que eu conseguia imaginar que seria um acidente de carro. Algo que não foi premeditado, sem intenção.
E para cada nova informação que Leo me dava, mais sentido as ações de Bruce faziam para mim e todos os reflexos da vida deles ficavam nítidos no caminho que a minha vida tomava agora. Poderia começar a me questionar no que fui me meter?
— Você foi realmente condenado, Leo? — não conseguia imaginar aquele homem diante de mim, ferido física e emocionalmente, algemado em uma delegacia qualquer de York. Ele assentiu.
— Logo que saí do hospital. Na época Lucas ainda estava em coma e como se não bastasse, meus pais pagaram um valor muito alto para impedir que eu passasse mais do que algumas noite em uma cela, mas o preço mais caro seria pago por todos nós. O acidente repercutiu da pior forma possível, atingindo a família, amigos, negócios. Os jornais locais, tevê, as pessoas na cidade; todos só conseguiam apontar o horror que eu havia causado a duas pessoas tão jovens e promissoras, tão dignas e maravilhosas. Ninguém tinha medo de levantar a voz e dizer que quem merecia morrer, era eu. Principalmente Reginald Lewis, inconformado com a morte da filha. Um pesadelo sem fim.
Assisti quando Leo passou as mãos pelos cabelos, exasperado, revivendo em um único suspiro, uma pequena parte do que havia sido seu fardo quando tudo aconteceu. Seus dedos se agitaram quando ele descansou os braços sobre as pernas, aquele conhecido tamborilar.
— Mas você venceu tudo isso, Leo.
— Eu aceitei a minha culpa, Kate. Não posso fazer mais do que isso, mas também não posso perdoar Bruce pelo mal que causou a mim e minha família. De certa forma, os Campbell se aproveitaram da nossa desgraça para erguer seu império e isso é inadmissível. Ainda é difícil crer que um homem como ele, alguém que considerei um amigo, tenha sido capaz de se aproveitar de um momento de tanta dor para alcançar seus objetivos. Prefiro acreditar em um golpe do destino.
— Isso explica todo o ressentimento de Luke.
— Lucas é um jovem passional. Quando voltou para casa e encontrou sua realidade virada de ponta cabeça, não reagiu bem. Voltou toda sua raiva contra os Campbell e suponho que continuará assim.
— “O que não tem remédio, remediado está”. Correto? — Alcancei as mãos dele. Não gostava de ver toda aquela luta interna exposta em Leopold daquela forma. Era claro que ele desejava que as coisas fossem de uma forma diferente, que Bruce tivesse ficado ao seu lado e não se tornado um algoz vingativo e rancoroso. Porém a dor modifica as pessoas e eu nunca saberia até onde aquilo tinha movido o filho caçula dos Campbell a mudar.
— Correto. — ele suspirou, beijando os nós dos meus dedos. O ar saía pelos lábios dele com todo o peso de seus ombros. O Carma tinha cicatrizes que só o tempo poderia amenizar.
Dei um sorriso leve, daqueles que tentam remendar alguma coisa na outra pessoa, mas não se dão muito bem. Consertar alguém tão quebrado quanto Próspero, levaria mais do que os 60 segundos de uma cola rápida que se encontra em qualquer mercado. Era um trabalho digno de uma empreita e que eu realmente queria enfrentar.
Apoiei minha perna sobre o colchão para me virar de frente com ele e foi minha vez de respirar fundo, enchendo os pulmões para afastar as lembranças boas e nostálgicas sobre o jovem Campbell e para começar a minha narrativa sobre aquele bate-papo nada amigável da noite anterior. Talvez Leo se lembrasse dos motivos bons para se manter no modus operandi de Britanicus Raptores na presença de Bruce.
Dediquei cada minuto para narrar com detalhes (e um pouco de indignação) as respostas de Bruce e cada uma das opções que tinha sobre meu problema casamentício — se é que isso existe. Assisti um pequeno sorriso nos lábios de Leo quando tive de admitir que até mesmo meu inimigo havia notado meus sentimentos por ele, mas tive que desfazer esse pouco desse orgulho ao contar o quanto nosso envolvimento tinha dificultado as coisas.
Estendi minha narrativa para o primeiro dia em que encontrei o jovem senhor Campbell no Hallow’s Barn e confesso que torci internamente para que houvesse uma pitadinha de ciúmes em Leo depois de todas as narrações, incluindo o quase beijo após o concerto de Luke.
Mas tudo que Leo fez, foi escutar com paciência e ficar brevemente sério enquanto eu gesticulava amplamente sobre os absurdos que poderia dizer para minha mãe sobre o tópico. Concordou comigo em diversos pontos e por fim terminou silencioso, mordendo um canto da boca discretamente (mesmo que eu tenha percebido, obviamente) enquanto pensava.
— Devo dizer que sua vida é mesmo mais movimentada do que imaginei, Katerina.
— Uma atendente de livraria, obrigada a um casamento tradicional, colocada em uma berlinda entre independência ou família. Isso sem mencionar o quanto acabei enrolada quando meu coração entrou nesse jogo todo. — suspirei, em partes por Leo, em partes por meu pai. Ainda estava preocupada com o destino do senhor Kennedy.
— Agora as coisas fazem mais sentido, embora tudo pareça uma grande tragédia grega ou uma peça do destino. Algo digno dos encontros e desencontros de Shakespeare. — ele sorriu, acomodando a coroa de papel que estava na minha cabeça, de uma forma mais correta entre meus cabelos. — E depois de toda essa peça, neste exato ato em questão, qual será a sua resolução, caríssima Katerina?
A pergunta era tão simples, mas pareceu tão exata, que me deixou sem fala por alguns segundos. Qual era a minha real resolução?
Mesmo agora, claramente apaixonada e envolvida por aquele inglês diante dos meus olhos, não desejava que o matrimônio fosse uma saída para meus problemas. De nada me adiantaria mudar apenas de noivos, sendo que toda a questão se tratava de escolhas, não do escolhido.
— Tenho que voltar para casa, primeiramente. E ter notícias de Adria, da conversa com minha avó. Não tenho muitas esperanças da ajuda da matriarca da família, mas vou fazer o possível para colocar tudo a limpo. Em um último caso, meu pai terá que se adaptar a sua nova realidade e quem sabe, minha irmã tenha alguns contatos que possam conseguir um bom novo emprego para ele? Ás vezes algumas mudanças são necessárias na vida, não acha?
Leo aquiesceu. Notei que as mudanças também cabiam para ele, já que em cada pequeno sorriso havia o relance de um homem que estava mudando. Não por mim (mesmo que a ideia me deixasse bem feliz), mas por si mesmo, para deixar uma sombra do passado para trás.
— Seja qual for a resolução do seu problema, caótica e trágica senhorita Dalton, — ele riu baixinho, acomodando o cachecol ao redor do meu pescoço, entrelaçando as pontas com calma. — espero que saiba que estarei aqui a sua disposição. Não acredito que precise da minha intromissão nessa trama e tão pouco julgo necessário me colocar ainda mais entre você e o Sr. Campbell. Creio que seja mais do que capaz de colocar-se em mais problemas e sair deles sem meu auxílio.
— E onde fica meu herói improvável? Achei que fosse se oferecer para vestir aquela armadura do hall, montar um cavalo branco e sair pelos campos nevados de York para vingar meu coração disputado por um acordo mal feito e vencer meu inimigo em nome da honra! — comecei a rir apenas de imaginar a cena, mas também para disfarçar aquele pequeno estremecer que sempre se seguia com a proximidade de Leo, brincando com o cachecol que por pouco não formava uma trança colorida.
— Não creio que Katerina Dalton necessite de um cavaleiro de armadura para salvá-la de um acordo tão ridículo. Tampouco de um cavalo branco ou de um herói. Como disse em uma ocasião anterior, acredito que saiba muito bem como se virar.
— “Mas ninguém está livre de precisar de auxílio em algum momento”, não é? — repeti exatamente o que ele havia respondido para Juliet naquela noite, quando estávamos a caminho do Bristol.
— Então você quer meu auxílio? Muito me surpreende. — ele pareceu estranhar, o arco de sua sobrancelha fatídica dando um breve tom naquela questão.
— Não. Mas fiquei particularmente contente em saber que confia na minha capacidade, Sr. Valois. Mesmo que um pouquinho, por baixo das minhas outras tantas qualidades de conseguir me colocar em problemas.
— Faz parte do seu charme, Kate. Colocar-se em problemas, ter péssimo gosto para algumas coisas e não saber quando parar de falar.
— Isso é um flerte? — olhei nos olhos dele antes de sentir sua mão no meu rosto. Rimos um pouco juntos, e por um breve instante senti que definitivamente estava no exato lugar em que desejava estar. E isso era uma imensa novidade.
— Decididamente. — ele roçou o nariz no meu.
A sensação de poder confiar em Leopold era libertadora. Sabia dentro de mim que aquele homem que tinha escutado todas as minhas lamúrias e conhecido um pouco da minha família e história naquela última meia hora, não desapareceria de um dia para o outro, nem me trataria de forma diferente por conta do que sabia agora. Torcia internamente para que ele também sentisse algo parecido. Que soubesse que por mais que o ciúme ainda me mordiscasse por dentro, nunca o julgaria por seu passado, muito menos por seus erros.
E foi com um pequeno suspiro de tranquilidade que recebi um beijo, fechando meus olhos e pela primeira vez me entregando aos lábios daquele inglês irritante e apaixonante, sem medo de ser interrompida, sem nenhum segredo ou mentiras. Me sentia próxima dele, mais do que simplesmente o fato físico de seu braço ao meu redor ou seus dedos entre meus cabelos. Mesmo com tanto ainda a descobrir, cada pequeno enigma de Próspero me parecia mais um motivo para estar entre seus braços, me aconchegando perto dele quando empurrou para longe a lata de fotos que ainda estava entre nós.
Admito que fazia muito tempo que não me sentia daquela forma, com beijos capazes de me fazer zonza e sem ar, quente e palpitante. Todas as sensações me pareciam novas como da primeira vez, cada pequena descoberta como um mundo inexplorado. Bastava tocar a pele de Leo para desejar não afastar mais minhas mãos dele, ou deslizar meus dedos por seus cabelos e descobrir sem nenhuma surpresa, que desejava afagar aqueles fios sempre.
Não tenho ideia de quanto tempo se passou entre aqueles beijos e pequenos sorrisos, nem mesmo quando foi que tive um surto de coragem e iniciativa em tirar aquela gravata idiota que Leo estava usando (que era muito elegante, mas estava me irritando profundamente) e permitir que ele me livrasse do cachecol, causando um arrepio bem maior do que eu esperava.
Nenhuma outra peça foi tirada e minha sensação era de pura exposição. Apenas um colo descoberto e dois pequenos botões da camisa dele, e me parecia um passo imenso — ou uma crise de ansiedade absurda. Trocamos um pequeno olhar, no silêncio das nossas respirações misturadas, e Leo pareceu ler em mim qualquer pequena insegurança. Tocou meu rosto e beijou o canto da minha boca, depois minha bochecha, deixando demorados beijos até meu pescoço e o discreto decote do vestido das compras na Trafalgar Square. Seus dedos longilíneos afastavam meus cabelos e não me causavam mais calafrios, mas um desejado calor que parecia emanar da minha pele e brigar com a temperatura sempre fria de suas mãos.
Havia uma paciência quase venerada nos beijos dele e não podia amar mais aquilo. Me sentia querida naquele instante, especial de alguma forma pelo respeito que aquele homem tinha em cada gesto, mesmo quando poderia simplesmente agir de forma passional. Um suspiro se perdeu nos meus lábios quando o primeiro botão das costas do vestido se soltou e encontrei os olhos dele, lindos e acolhedores como jamais imaginei que pudessem ser.
E posso dizer que um pequeno clique de “dane-se o mundo” despertou em mim. Não me importava mais com qualquer passado de Leo, nem Juliet, Bruce, Charlotte ou até o próprio Shakespeare. Podem acreditar que também não tive nenhum impulso obsessivo compulsivo de checar a situação das minhas roupas de baixo (mesmo que o pensamento tivesse me surgido, claro) ou uma crise gritante de paranoias. Não, senhoras e senhores... Katerina Dalton estava em um estado de... Como é mesmo que se chama aquilo? Hipnose? Burrice temporária? Elevação?
Ah, sim. Amor. E estava gostando muito.
Deixei minhas sapatilhas no chão acarpetado e puxei as pernas para cima do colchão, sem querer atrapalhar em nada a dedicação que Leo tinha comigo; e contive uma risada muito alta quando ele subitamente apoiou as duas mãos na cama, me derrubando de costas entre algumas almofadas, fazendo a coroa de papel parar direto na minha testa.
Quando consegui parar de rir, ele tirou o brinde prateado do meio dos meus cabelos e meu deu a bela visão de seu sorriso mais uma vez. Aquele sorrir que eu já começava a me sentir dona, que sua boca formava apenas para mim, longe de sua imagem austera para o mundo lá fora.
— Com sua licença, alteza. — jogou a coroa amassada para o chão. Estava debruçado com o corpo ao meu lado, um braço apoiando seu peso e o outro ao meu redor. Nossos rostos tão próximos, dividindo aquele pequeno espaço.
— Por certo, milord. — sussurrei e segurei o colarinho da camisa dele para roubar mais um beijo. Quem imaginaria que os beijos de um carma como Leo, pudessem ser tão maravilhosos? Da mesma forma, quem diria que eu estava ali, deslizando meus dedos pelos botões da camisa dele, abrindo um por um?
Os botões do meu vestido também foram vencidos e logo os beijos de Leo puderam me arrancar mais suspiros ao deixarem meu colo e a linha do decote.
Estava enlevada demais com todas aquelas sensações e a distinta falta de ar que me acometia no momento, para perceber um ruído discreto e baixo, vindo de algum lugar do quarto. Parecia abafado, algo que facilmente ignorei — convenhamos, ninguém quer ficar prestando atenção nos sons do mundo quando se tem Leopold Thomas Valois D’Orleans basicamente entre seus peitos! — então inconscientemente torcia para que aquilo parasse e não começasse a me incomodar demais.
Mas é claro que não parou. E aos poucos fui identificando aquilo como uma música clássica, que foi ficando estranhamente mais alta até que eu identificasse que Leo havia se movido e tirado algo do bolso. O celular, que agora tocava tão alto quanto uma sinfonia inteira, insistia no “Carnaval de Veneza” como uma ignorante e ridícula estraga prazeres até que ele apertasse um botão, silenciando o aparelho que foi logo jogado de lado.
— Me desculpe por isso. Já ouviu falar da Lei de Murphy, senhorita Katerina? — rimos juntos afinal. Uma risada que claramente mudou os planos do momento sexy, mas que fazia mais sentido quando se tratava de mim.
— Algumas vezes. Mas o senhor já ouviu falar das leis Katerina Dalton? São bem piores.
— O caos na monotonia dos meus dias, senhorita Dalton. — foi a vez de ele me roubar mais um beijo, sua mão acomodando meus cabelos.
— Talvez seja melhor assim. Não precisa ser hoje, nem agora. A não ser que o senhor tenha planos de desaparecer enquanto resolvo minha vida na América.
— Não sou eu quem estou noivo — ele ergueu a sobrancelha e ali estava, a triunfal e desejada pitadela de ciúmes que esperei nele aquela tarde toda. — Creio que não tenho planos de deixar este planeta enquanto você luta pessoalmente com seus dragões.
Leo se sentou e gentilmente me ofereceu a mão, me ajudando a sair daquele colchão macio bem a tempo de seu celular voltar a tocar, a música claramente me fazendo rir.
— Nunca perdoarei Paganini por este erro crasso. Que falta de modos.
— É por este tipo de questão que tenho aversão a esses aparatos modernos. — ele resmungava para a música no aparelho, apanhando-o enquanto eu me dedicava a fechar os botões do vestido.
Fiquei sentada na beirada da cama enquanto Leo atendia a ligação com um pouco de rudeza. Tentava me preocupar mais em me recompor do que em escutar com quem ele conversava, mas era inevitável. A princípio me pareceu alguém próximo, talvez Luke tentando se comunicar com o irmão ao invés de arriscar perder a cabeça pessoalmente ao bater na porta, mas depois o tom da voz de Leo ficou um pouco mais brando, mesmo que monossilábico, acabando a ligação com um quase impessoal desligar.
— Pode me ajudar com isso? — apontei o último botão nas minhas costas, perto da nuca. Mesmo estando curiosa, não cometeria a gafe de questionar quem era do outro lado da linha. Tinha de me conter.
Com o vestido propriamente fechado, Leo arrumou meus cabelos e até mesmo ajeitou a coroa de papel sobre eles, ainda que um pouco amassado. Não se conteve em me beijar novamente ignorando meu trabalho em fechar as casas de sua camisa e quase foi enforcado na minha tenebrosa tentativa de dar um nó em sua gravata.
— Não vai me questionar sobre a ligação, senhorita Katerina? — eu conseguia notar o pequeno movimento no canto dos lábios dele, contendo um sorriso durante meu pequeno esforço em calçar minhas sapatilhas.
— Eu deveria?
— Que incomum. Sua curiosidade está de fato mais controlada desde sua chegada a York, Kate. Algum motivo em especial?
— Não espantar você. — sorri e fiquei na ponta dos pés para beijar seu nariz. — A propósito, me esqueci de uma coisa importante. Feliz natal, Próspero.
— Feliz natal, Megera.
Em um timing perfeito, três desengonçadas batidas ecoaram na porta e olhamos juntos na direção dela.
— Leo! Mamãe quer saber se a Kate vai ficar para o jantar! — Luke gritava do outro lado, sem nenhuma necessidade, obviamente para dramatizar um pouco.
— Você vai ficar para o jantar? — Leo apanhou minhas mãos.
— Com toda a certeza.
********
Não tinha como o jantar ser mais tranquilo entre os D’Orleans. Na verdade, a única coisa que estava me inquietando, era a ausência prolongada de Juliet que estranhamente, ninguém fez comentário algum.
O restante se resumiu em uma deliciosa repetição dos pratos do almoço, desta vez ainda mais úmidos e quentes com molho de carne e perfumados com manteiga. Janet serviu tudo com um imenso brilho de orgulho sobre suas criações e dissertou sobre o modo de preparo de um bom peru por mais de cinco minutos.
Recusei a sobremesa daquela vez, com meu tom mais educado e fui obrigada a aceitar que mais de quatro puddings fossem embalados para viagem. Ninguém parecia muito propenso a acreditar que eu não comia por mais do que meu próprio tamanho, mas fiquei feliz em relembrar que haveria bolos para Christine e seu marido, na pensão.
Assim que notei o horário, pedi desculpas a todos, mas tinha de me retirar ou acabaria para fora do Knight’s Inn sem ao menos poder pegar uma troca de roupa. E mesmo tendo um motivo muito agradável em me imaginar passando a noite na maravilhosa casa dos D’Orleans, tinha minha boa educação em alta conta.
— Além de tudo, amanhã retorno para Londres. Meu voo para Nova Iorque está marcado para o sábado de manhã e ainda terei um dia para me despedir propriamente da Inglaterra. — encontrei os olhos de Leo discretamente do outro lado da mesa, enquanto Luke mordia a boca para não começar a rir com o que sabia, já que estava sentado ao meu lado e era basicamente o culpado por tudo aquilo.
Aos poucos, toda a família D’Orleans se movimentou da grande sala de jantar e me acompanhou pelas escadarias ainda em animada conversa até o térreo. Claramente Janet e Luke falavam mais do que todos juntos, discutindo alegremente o quanto eu deveria ter feito uma programação mais longa, para aproveitar dos ares bucólicos medievais de York e todos os seus pontos turísticos, além dos magníficos dias promocionais que se seguiam ao natal (que Janet parecia conhecer particularmente bem em cada uma das lojas principais das Shambles).
Logo que paramos diante das portas, Collins surgiu pelo corredor. Estava bem vestido como de costume, mas com um breve ar festivo e cheirando claramente a amêndoas. Precipitou-se a pegar o — agora meu — cachecol vermelho e o trench coat e ajudar a vestí-los.
— Já de partida, senhorita Kate? — ele acomodou os óculos no nariz ao que abria a porta.
— Sim, Collins. Daqui a pouco volto a ser Cinderela, com direito a abóboras e ratos. É melhor evitar o constrangimento. — sussurrei para ele.
— Será um prazer deixa-la no Knight’s Inn...
— Não se preocupe, Collins. Aproveite o restante do natal. Eu mesmo levarei a senhorita Dalton até a cidade. — Leo vestiu um casaco pesado que estava pendurado perto da porta e bateu amigavelmente a mão sobre o ombro do mordomo. Ambos sorriram.
— Está bem. Então, nos despedimos aqui, senhorita Kate. — Collins abriu os braços e não demorei em abraça-lo apertado, escutando seu riso gentil. Quando me soltou, ajeitou meu casaco, os dois cachecóis e a coroa de papel prateado no topo da minha cabeça. — Faça um bom retorno.
— Obrigada, Collins. Fique de olho nesses meninos por mim. — piscamos um para o outro e mal dei um passo para o lado antes de ser arrebatada por um tornado de fios ruivos.
— A casa é grande, Kate. Dá pra você se mudar com o Tabby pra cá, sabia? Quero ensinar pra ele como atazanar o Pierre. — ele falou baixo, mas não o suficiente.
— Lucas! — Janet riu, mesmo que quisesse realmente chamar atenção do filho caçula por sua ideia de peraltice contra o precioso chihuahua da família.
— Atazanar só um pouquinho, mãe. Pra dar emoção na vida dessa micro bolsa de pelos. — o ruivinho mostrava a língua para o cachorro e Pierre por sua vez mostrava os dentes. Eles definitivamente não se davam muito bem.
— Vou pensar com carinho nessa proposta, Luke. Agora vamos, cadê meu beijo de despedida?
Luke riu como aquelas dúzias de “fados padrinhos” que moravam dentro dele e me apertou num abraço, beijando minha bochecha como um desentupidor de pia. Quando comecei a rir, ele me soltou com seu típico largo sorriso capaz de iluminar qualquer dia.
— Esperamos que volte logo, entendeu? — Janet apontou o dedo para mim e me puxou tão logo Lucas se afastou, me abraçando carinhosamente. Depois ajeitou meu casaco, os cachecóis (Céus, eu parecia tão desengonçada assim que todos tinham que me arrumar?) e fez uma dúzia de conselhos sobre os ônibus da National Express para Londres, taxis para o aeroporto, melhores horários, o clima. Por fim descemos as escadas de braços dados, ela ainda discursando que eu deveria voltar em um próximo feriado e consultando o marido se o calendário americano e o britânico teria alguma data conjunta.
Com um suspiro, Edward D’Orleans me salvou dos braços da esposa e gentilmente apertou minha mão enquanto seu filho mais velho entrava no carro.
— Foi um prazer, senhorita Dalton.
— Obrigada, senhor D’Orleans. E me desculpe por todo o caos. — sorri e ele ergueu pequenos vincos de sorriso, entendendo a pequena referência que fiz a nossa conversa de mais cedo. Abriu a porta do automóvel para mim e a fechou, juntando-se a família que acenou das escadas diante da imensa casa enquanto lentamente nos afastávamos dali, tomando o caminho entre os jardins que levavam para a estrada.
A principio, depois de um respirar profundo e uma sensação acolhedora que ficou comigo por grande parte do trajeto, permanecemos em mais um de nossos habituais silêncios. Leo estava atarefado demais com sua atenção voltada para aquele começo de noite fria de York, para a estrada lisa e o raro trânsito que pedia seu cuidado. Podia ler em seus olhos uma pequena preocupação no volante, talvez algo que agora eu conseguia identificar e que antes encarava como seu pretenso e comum mau humor rotineiro.
O carro parou diante dos portões da pensão e a rua continuava tão deserta quanto mais cedo, com a pequena exceção das luzes coloridas em todas as casas e janelas amavelmente acessas com suas luzes amareladas. Destranquei a porta do passageiro e respirei fundo, olhando para Leo mais uma vez antes de descer e escutá-lo abrir e fechar a própria porta, dando ao volta ao redor do automóvel para pegar a sacola de papel pardo com meus puddings.
— Então, é aqui que nos despedimos, senhor Valois. — chama-lo daquela forma não tinha mais o tom de disputa, mas estranhamente parecia que agora o renome de Leopold era seu sobrenome e não mais o “Carma” ou “Próspero”.
Ele estendeu a sacola para mim e aproveitou meu movimento de apanhar a alça para exatamente no mesmo gesto segurar meu braço, puxando meu corpo contra o dele, diretamente para um abraço. E por todos os bons escritores do panteão literário... Abracei aquele homem com toda a minha vontade.
— Obrigado, Kate. — ele sussurrou, afagando meus cabelos e nos beijamos na calçada, iluminados pelos postes antigos de York. O sabor agridoce da despedida estava nos meus lábios e ainda mais dentro de mim, me contendo para não agir como uma adolescente tola que está com medo de perder o garoto do baile e prestes a me debulhar em lágrimas.
— Não, Próspero. Eu que devia te agradecer. Você realmente não tem ideia do quanto. Por sua confiança, por crer em mim e principalmente...
Leo não me permitiu terminar. Me calou com outro beijo e depois olhou nos meus olhos com um meio sorriso, discreto com o levantar de seus lábios.
— Não se deve agradecer a ninguém por isso. Não é um favor, Katerina, nem mesmo uma dose de piedade e eu espero que saiba que sou sincero e não espero nenhum tipo de compaixão em você também. Não estou mais propenso a acreditar.
— Não está? Isso quer dizer que...
— Não é claro, senhorita Dalton? Com toda a credibilidade que possam ter as minhas palavras e sem nenhuma outra coisa que possa ser mais sincera do que o confuso sentimento de desejar todo o tipo de Leis de Murphy ou de Katerina Dalton em minha vida? Talvez não deva me agradecer por isso, Kate. Talvez você possa agradecer ao destino, que a colocou naquela livraria onde minhas quartas ficaram ligeiramente mais interessantes devido a uma atendente de ridículas botas de borracha amarela.
— Galochas.
— Isso não muda o grau de absurdo em insistir usa-las.
— São lindas.
— Pelas boas musas, Kate! Tais botas mereciam o fogo para deixar de agredir as pessoas por onde passa. E embora você as ache lindas e seu gosto seja deveras duvidoso, prefiro acreditar que um dia, pelos bons ventos, elas desaparecerão — Leopold riu e mesmo que eu não gostasse de ver minhas lindas galochas destratadas daquela forma, tinha de perdoá-lo. Afinal, quando eu encontrasse alguém que detestasse aquelas galochas...
— Vou perdoar esse insulto apenas porque esta é minha última noite em York e não quero terminar tudo voltando as nossas discussões e desavenças, mesmo que haja um pouco de mim que sempre adorou vencê-lo em nossos debates.
— Acredita de fato que alguma vez me venceu em um diálogo qualquer, Katerina? — ele arqueou a sobrancelha, aquela tipicamente dele.
— Diversas vezes.
— Curioso. Não me lembro destas vezes. Talvez em outra ocasião, possa me relembrar.
— Com todo o gosto, senhor Valois. Um dia para listar seus defeitos e outro para relembrá-lo das vezes em que minhas palavras venceram sua teimosia e nariz-empinado.
Como havia feito no quarto de Leo, me ergui na ponta dos pés para beijar a ponta de seu nariz e isso o fez sorrir, seus lábios entreabertos para me dizer algo mais. Contudo nossa atenção foi atraída por uma luz que virou a rua. Um carro escuro que quebrou o silêncio do quarteirão de pensões e estacionou pouco atrás do carro de Leo.
Meus pés abaixaram lentamente, meus olhos estreitando para tentar enxergar pelo vidro escuro do para-brisa antes do motorista abrir a porta e sua mão encoberta por uma luva de couro castanho, surgir por uma fresta da janela.
Aquele grito interno para situações ruins estava como uma sirene de ambulância nos meus ouvidos. Meu instinto farejava alguma coisa e meu sexto sentido era formado como um cão farejador policial. Não havia erro.
— Atrapalho? — a voz do homem nos acertou antes da sua imagem, mas não era necessário ser muito esperto para deduzir que era Bruce Campbell quem estava ali.
A porta bateu devagar atrás dele conforme se afastou do carro e ajeitou o casaco quente que estava usando. Trazia com ele uma pequena sacola com um laço, claramente um presente.
— Bruce. O que está fazendo aqui? — meu corpo estremeceu e Leo segurou meus ombros, sem me deixar recuar um único passo, nem me afastar ou me aproximar do jovem Campbell.
— Vim desejar feliz natal, Kate. Meu pai insistiu em vir também, mas tomou tanto licor durante o jantar que acabou dormindo na sala. Uma pena. Ele ia adorar esse pequeno encontro em um dia tão feliz. — o sorriso de Bruce era ambíguo, como suas palavras e gestos. Talvez uma parte dele desejasse que aquilo fosse de fato um encontro feliz, mas essa parte estava enterrada por baixo do homem inescrupuloso que se apresentou para mim na noite anterior. — Valois. Que bom ver você.
— Campbell.
— Notou como corrigi o seu sobrenome? Kate me ensinou. Ela é uma mulher maravilhosa, tão atenciosa com as pessoas ao seu redor. Pelo visto vocês tiveram um dia adorável.
— Você não tem direito algum de...
Meu corpo avançou na direção de Bruce e foi contido por Leo mais uma vez. As palavras e a raiva que sentia, ficaram borbulhando na minha garganta e só perderam um pouco de força quando olhei para Leopold e encontrei seus olhos com aquele azul gélido mais uma vez.
Agora eu sabia a dor que se mascarava por trás daqueles olhos. Os anos de culpa, vergonha e luto que foram exacerbados pelas palavras de Bruce e todos seus esforços em destruir um homem que já carregaria um pesado fardo por seu erro.
— Foi um ótimo dia. Kate estava prestes a entrar, para cumprir o horário da pensão.
— Tão cedo, Kate? Estava pensando em entrar e conversar, entregar seu presente de natal e saber se vai gostar. Podemos combinar sua volta para Londres também, não é mesmo? Ou você vai estender sua estadia em York? Sei que a cidade é maravilhosa, mas francamente...
— Não temos nada para conversar, Bruce. — fui categórica e segurei as mãos de Leo para sinalizar que ele podia soltar meus ombros. Suas mãos se afastaram, mas ele não moveu nem mais um músculo. — Talvez em outro momento, está bem? Eu preciso entrar.
Me entreolhei com Leo e demorou para que ele tirasse os olhos de Bruce e se fixasse em mim. Estava alerta, exatamente como parecia na noite em que encontrou Bruce em frente ao meu velho porão, claramente tenso desde a linha de sua mandíbula até os dedos agitados.
Eu sabia que as palavras de Bruce, em claro tom de provocação, eram exclusivamente para Leopold. Ele não se importava realmente se eu havia passado meu dia com os Valois D’Orleans, mas o incômodo era em perder e estar diante do homem que havia lhe causado dor com a perca do irmão e de uma boa amiga.
— Me perdoe por isso, Leo. — sussurrei, beijando o rosto de Próspero e me começando a me afastar dele até o portão do Knight’s Inn.
— Kate, espere. Vamos conversar, por favor. Eu te devo um pedido de desculpas pelo meu comportamento. — Bruce se aproximou, mas manteve alguns passos ainda.
— Eu disse que não temos mais nada para conversar, Bruce. Boa noite. — abri o portão do Knight’s Inn e Christine espiou pela janela do primeiro andar, acendendo as luzes da varanda.
— Expulso pela minha própria noiva. Que natal cruel. — Bruce riu, tentando apaziguar meus ânimos com seu sorriso e a péssima dramatização, entretanto dei as costas para ele, apertando as alças da sacola de puddings até os degraus da pensão.
Foi então que Leo rosnou.
— Ela não é sua noiva.
— Não?— Bruce cruzou os braços, sorrindo sarcasticamente. — Ela te disse isso, Valois? Foi com esse tipo de argumento que ela convenceu você a protegê-la do cruel destino que a espera?
Os gestos que Bruce fez com as mãos tornavam todo meu problema uma pequena pirraça infantil. Ao que tudo indicava, eu não passava de uma garota que tinha criado um lobo mau pronto para devorá-la e desesperada para que o caçador a livrasse dos problemas que ela mesma causou.
— Você não percebe o tipo de jogo em que está se metendo, Leopold? Tenho que admitir que você tenha bom gosto, afinal Kate é uma mulher adorável, mas ela está compromissada comigo. Um homem tão honrado e repleto de bons modos , filho de uma boa família como você, deve compreender muito bem isso.
Christine abriu a porta da pensão e deu de cara com meu rosto lívido e uma sacola de papel pardo empurrada diretamente contra seu peito. Tentei sorrir (aquele conhecido desastre aéreo sem sobreviventes) e balbuciei um “Tem puddings para vocês na sacola. Feliz natal” antes de pedir se ela poderia deixar a chave comigo.
— Aquele é o filho de Janet D’Orleans? — ela ajustou o óculos no rosto, acomodando também a sacola no braço ao se espichar para enxergar a calçada.
— Ela não está compromissada com você, Bruce. Não é um jogo. É apenas um teatro de tolices em que você se envolveu mais uma vez. O que vai ganhar com isso? — Leo cruzou os braços, embora ainda pudesse ver seus dedos tamborilando.
— Sim, ele veio me trazer até aqui.— suspirei, torcendo para que ela perdesse o interesse no assunto. — Posso ficar com a chave? Com certeza vou voltar mais tarde e seria ótimo poder entrar para dormir, Christine...
— É o filho de George Campbell, mais uma vez? — a mulher parou no primeiro degrau diante da porta, bem ao meu lado, para ver melhor.
Malditas cidades pequenas e suas pessoas que conhecem todo mundo.
— Isso não é da sua alçada, D’Valois. Só gostaria de pedir que não se envolva. Não vai pegar bem para você acabar em outro escândalo envolvendo minha família, mesmo que indiretamente. Quanto mais minha noiva. — Bruce parou de frente com Leo e cruzou os braços da mesma forma, certo de que não seria contrariado.
— Kate não é sua noiva, Bruce. E se pronuncia Valois. — Leo baixou os olhos e vi nitidamente o ar encher seu peito.
— Como disse?
— Erro de dicção.
O movimento foi muito rápido ou meus olhos estavam muito destreinados, mas o ruído não poderia enganar ninguém. Leo descruzou os braços e simplesmente acertou o nariz de Bruce abruptamente, com um soco que acabou empurrando Campbell alguns passos para trás e em seguida com as costas na calçada molhada.
Christine acompanhou a minha surpresa com uma exclamação abafada e manteve a mão suspensa nos lábios enquanto desci os degraus depressa para alcançar Leo, que deu poucos passos para observar melhor um Bruce Campbell que gemia alguma coisa ininteligível enquanto pressionava o nariz que estava sangrando.
— Leo! — não podia deixar que ele socasse Bruce mais uma vez (mesmo que ele merecesse).
— Faz cinco anos que estou guardando isso pra você, Bruce. Cinco malditos anos querendo te dar um bom motivo para continuar errando meu sobrenome de propósito. E eu espero que seu nariz tenha quebrado o suficiente para te obrigar a colocar esse D’ na frente de cada palavra que disser para o resto da sua vida miserável.
Quando alcancei Leopold e toquei seu braço, senti seu corpo trêmulo por baixo do casaco de frio. Ele não daria mais nenhum soco no rosto de Bruce, nem faria nada além daquilo, mas estava exorcizando seus demônios no momento. E o primeiro pensamento que me veio, foi de como Bruce teve sorte. Se Leopold estivesse com qualquer outra coisa em mãos, o estrago poderia ter sido bem maior. Exatamente como imaginei na livraria quando usou o panfleto de artes para “finalizar” Luke naquele fantasioso duelo de esgrima.
— Filhgo di umhga... — Campbell chiou, sentando na calçada, usando a camisa para limpar o nariz que já tinha inchado como uma batata.
— De uma ótima mãe, que te chamou de filho muitas vezes. De uma família onde você era bem vindo. Eu devia terminar de arrebentar a sua cara, Bruce, mas eu sei que deve ser muito triste ser você. Já me basta isso. — Leo abria e fechava os dedos da mão que usou para acertar Bruce. Os nós estavam vermelhos e com certeza inchariam também, contudo sua atenção era apenas em observar seu antigo amigo quase cambalear para ficar em pé, apoiando a mão contra o próprio carro. — “Alguns elevam-se pelo pecado, outros pela virtude”.
— Você é maluco, Leopold! — Bruce esbravejou, sua voz ecoando por toda a rua de uma engraçada forma anasalada e atraindo alguns rostos curiosos nas janelas das pensões.
— Leo, por favor. Você não precisa disso. — murmurei, abraçando seu braço. Não queria que aquilo se tornasse um circo para divertir os moradores e terminasse por mais uma onda de boatos e palavras que pudessem magoar Próspero e sua família. Lentamente, ele caminhou comigo para perto de seu carro.
Christine estava no degrau diante da porta ao lado de Raymond (que empunhava uma vassoura da forma mais hilária possível, como se isso fosse ajudar em algo) e desceu depressa até a calçada para me alcançar.
— Esperem, vou pegar um pouco de gelo. É melhor vocês dois entrarem em casa. — seu sotaque enrolava algumas palavras para mim, culpa mais do nervosismo dela do que do som britânico.
— Não é necessário — Leo gesticulou.
— Christine tem razão, Leo. Vamos entrar e tomar algo quente, acalmar os ânimos. Você pode ir depois.
Foram alguns segundos de olhares trocados para convencer o inglês a ceder, o bastante para Bruce apanhar o presente caído no chão e cuspir na calçada, ofegando de raiva. Quando abriu a porta do próprio carro, resmungou um pouco mais alto.
— Isso mesmo, “Próspero”. Afinal, não se deve dirigir em um estado nervoso como o seu. Só Deus sabe o que pode resultar desta vez.
Oh, Bruce... Você é muito burro ou muito corajoso mesmo.
Foi um estopim e eu juro que tentei segurar Leo, mas vocês não tem a mínima ideia do quanto é complicado segurar um homem do tamanho dele em um momento de raiva. É quase como colocar uma formiga para conter uma chinelada. Tudo que eu consegui foi repuxar seu casaco e repetir mais de uma dúzia de “nãos” em sequência, na esperança de que ele me escutasse.
Quando Leo se aproximou, Bruce tentou estufar o peito e parecer intimidador. Acredito que estava cogitando acertar o inglês e dar o troco pelo belo nariz de Ronald McDonald que tinha ganhado, porém era muito nítido que a vantagem esportiva de Leo na juventude era algo que o acompanhava, mesmo que não tivesse um físico musculoso.
O porte nobre, os olhos frios, a tensão nos lábios de Leopold, eram o suficiente para causar calafrios — e acreditem, eu sei bem disso. Bastou conseguir se aproximar de Bruce e tudo que precisou fazer foi empurrá-lo contra a porta, segurando-o pelo colarinho do casaco.
— Você se lembra de quem foi que começou uma discussão imbecil sobre méritos e capacidades dentro do carro naquela noite, Bruce? Eu me lembro. Será que você se lembra do motivo da minha distração no volante? Para onde eu estava olhando quando as ovelhas atravessaram a pista?
— Kate, ele está fora de si... É um perigo para as pessoas... — Bruce olhava para mim, forçando um riso nervoso, tentando encontrar algum apoio em acreditar que eu estaria desesperada para impedir Leo.
Infelizmente, assistir finalmente o Britanicus Raptores não tinha preço e apenas balancei a cabeça antes de Leopold segurar o queixo de Bruce para obriga-lo a olhar seu rosto.
— Diga que não se lembra, Campbell. Porque você estava lá e eu me lembro perfeitamente da sua discussão com Taylor saindo de controle no banco de trás. Recordo cada detalhe da voz de vocês. Eu revivi cada segundo daquela noite por anos, então não me venha dizer sobre os resultados. Não ouse se aproveitar da minha dor nem mais um dia, porque eu paguei pelos meus erros e pela desgraça que você me causou; mas você vai conviver com o peso dos seus até o final da sua vida.
Com um passo para trás, Leo soltou o casaco de Bruce e pareceu que o ar voltou a circular entre eles.
— Você estava bêbado. Nunca devia ter dirigido. Você matou aquelas pessoas. Você condenou seu irmão a uma vida limitada. Por sua culpa, sempre fui a segunda opção, um mero copiador dos passos do meu irmão. Se você não tivesse entrado naquele carro com todos nós, Taylor e Bianca estariam vivos!
Estava pronta para intervir agora. Bruce estava indo longe demais e aquele não era o momento para debates, para resolver aqueles fantasmas. Mas vi algo no rosto de Campbell que me impediu: lágrimas. Gotas grossas e incontidas, repletas de alguma coisa que estava encarcerada dentro dele, misturadas com fúria e revolta.
— Mas eles estão mortos, Bruce! Eles estão mortos, nós estamos vivos, a vida continua. Fim da história. “Em certos momentos, os homens são donos de seus próprios destinos”... Você é tão culpado quanto eu.
Leopold deu as costas para Bruce e estendeu a mão, apanhando e beijando a minha. Seu rosto estava corado, seus olhos tristes, sem nenhuma comemoração com o fim daquela discussão. O embate entre os dois revirava feridas de uma amizade perdida, algo que não tinha uma cicatriz definitiva como a ferida da morte de Bianca e Taylor.
No portão do Knight’s Inn, Raymond entregava um dos dois pequenos sacos de gelos que havia trazido para a esposa e Christine ia pé ante pé até Bruce, oferecendo alguma ajuda para aquele nariz feio. Dava para escutar quando ela o aconselhou a ir embora antes que os vizinhos chamassem a polícia.
Acompanhados por Raymond e o saco de gelo restante, entramos na pensão em silêncio. Havia começado a nevar mais uma vez.
*********
Christine nos acomodou em sua sala depois de gritar para os vizinhos tratarem de cuidar da própria vida. Era o terceiro que passava em frente às janelas para tentar espiar qualquer coisinha possível dentro do Knight’s Inn depois da partida de Bruce Campbell.
Raymond fez chá. Um Earl Grey sem nenhum creme ou leite, apenas adoçado, servido em suas preciosas xícaras estampadas pelo rosto da Rainha.
Leopold fez efusivos pedidos de desculpas ao casal Knight até que eles nos deixassem a sós, subindo para seu quarto em pequenos cochichos, provavelmente dando palpites e comentários sobre o emocionante episódio em frente ao seu portão no final do natal. Seria uma boa história para se contar depois.
Assim que ficamos sozinhos, mergulhamos em um longo silêncio, quebrado apenas pelo ocasional bater da colher nas bordas da xícara — um pecaminoso ato que eu cometia todas as vezes que decidia por mais açúcar na tentativa de melhor o sabor do chá. Então finalmente, como o escapar de uma panela de pressão, Leo suspirou profundamente e seus ombros relaxaram.
Era claro o quanto ele estava cansado, mais mental do que fisicamente, caso contrário já teria ralhado comigo pela minha falta de etiqueta ao tomar chá. Não bastasse ter que reviver memórias naquela tarde comigo, a noite o obrigou a encarar seu maior fantasma nos olhos. Leo havia se saído muito bem e eu estava com um imenso orgulho (para não dizer radiante) em relembrar como ele se impôs (e socou) Bruce Campbell.
Samantha ia adorar saber disso. Já conseguia prever o quanto ia rir.
— Como você está? — indiquei sua mão com os olhos. Ele havia colocado o gelo ali por alguns minutos e o inchaço não parecia grande. Christine havia dado a ele um comprimido para dor e avisou que tinha um quarto sobrando, caso Leo desejasse ficar se o sentisse sono. Provavelmente um colateral da medicação.
— Melhor.
— Nunca pensei que veria você acertar alguém daquele jeito. Foi muito surreal. Achei que cavalheiros ingleses duelavam com palavras, não com os punhos. — sorri, deixando minha xícara vazia de lado.
— Um cavalheiro sabe quando deve usar os dois.
— Touché.
Aquilo arrancou um pequeno sorriso dele, mas não um dos belos. Era o suficiente para saber que Leopold estava ali, mas sua mente estava trabalhando, enrolada em memórias e pensamentos como fios de aranha.
Logo seu chá acabou e assisti como ele conteve um bocejo, educadamente.
— Você devia aceitar o convite da Sra. Knight e ficar com o quarto por esta noite, Leo. Está nevando, não seria melhor evitar a estrada?
— Sei melhor do que ninguém que você está certa, Kate. — ele tornou a bocejar. — Por cada bom poeta, o que essa mulher me deu para tomar?
— Chá. — ri, apanhando meu casaco e os cachecóis que estavam na poltrona ao lado. — E uma dose um pouco alta de analgésico. Talvez os arranhões nos seus dedos tenham deixado a senhora Christine preocupada de mais com o seu bem estar, Leo.
— Pois ela deveria me ajudar e não me drogar. Jamais compreenderei totalmente o pensamento de algumas pessoas. Enigmas.
— Você é um bom enigma, Próspero. Agora venha. Vou te mostrar onde fica o quarto antes que acabe dormindo nessa poltrona estreita e acordando com um torcicolo em pleno Boxing Day.
Leopold apanhou seu próprio casaco e seguiu dois passos atrás de mim para a escadaria do Knight’s Inn. Não havia nenhum segredo de estado para encontrar o pequeno quarto no final do corredor, mas indiquei corretamente como chegar lá, onde ficava o banheiro comum no corredor e que horas o desjejum era servido, exatamente como me explicaram quando cheguei.
Satisfeita, parei diante da porta do meu quarto e destranquei a porta, recebendo um agrado do ar quente que o aquecedor tinha criado no interior. Leo parou diante de mim, afastou meus cabelos e beijou minha testa carinhosamente.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Tenha uma boa noite, Katerina. Conte carneiros.
— Carneiros não funcionam, se lembra? — sorri.
— Tente tartarugas.
Fiquei na soleira da porta observando as costas de Próspero pelo corredor e como a camisa se movia junto dele. Aquela seria a última noite em que o teria por perto, provavelmente por algum bom tempo, e aquele pensamento me entristeceu. Seria triste me despedir dele.
— Leo? — ele olhou sobre o ombro assim que o chamei. — Você se importaria de... Ficar no meu quarto?
Estava ficando especialista em atrevimento. A Inglaterra tinha me feito bem.
Senti vontade de rir quando ele ergueu a sobrancelha com um quê de desconfiança profunda sobre o meu convite. Por mais que alguns ótimos pensamentos sobre coisas interessantes em um quarto com um homem interessante me viessem em mente, tinha consciência de que Leopold não duraria mais do que vinte minutos acordado. Se muito. Contudo, meu convite era puramente inocente. Queria ele por perto, apenas isso.
— E o casal Knight? Acha que se incomodarão com isso? Algumas pessoas ainda são muito tradicionais por aqui, Katerina.
— Desde que você não ronque, não me derrube da cama e seja um rapaz comportado, acho que eles poderão relevar minha última noite quebrando as regras da sociedade inglesa tradicional.
Aquilo fez Leo rir baixinho enquanto voltava para minha porta e o recebi com um pequeno beijo, apanhando seu casaco antes de mostrar minhas dependências — que eram bem melhores do que o porão que me abrigava em Nova Iorque.
A lembrança me disparou uma verdade: no último dia inteiro, não havia me lembrado de carregar meu celular comigo. Não havia recebido então nenhuma notícia de Nova Iorque ou de Nova Orleans, de Sam ou Adria. Precisa olhar o aparelho antes de pegar no sono.
Leo estava analisando com um sonolento olhar crítico, toda a desarrumação crítica de uma das minhas malas que estava aberta sobre a cama, enquanto me apressava em juntar todas as peças perdidas por ali e fingir uma suposta organização para acomodá-lo. Tinha sorte da cama do Knight’s Inn ser fácil de arrumar.
Apanhei um dos meus pijamas e pedi que Leo ficasse a vontade enquanto ia me trocar no banheiro. Ele aquiesceu, terminando de digitar uma mensagem para Lucas no celular, avisando simplesmente de que a neve o impediria de voltar para casa. Já conseguia imaginar a altura das risadas que Luke daria em tentar acreditar naquilo.
Escolhi o melhor pijama que tinha na mala. Não era algo primoroso, afinal estamos falando de Katerina Dalton, o que significa calças de moletom estampado de patinhos e uma blusa cinza sem graça, de alcinhas. Estava muito bom. Em caso de emergência, bastaria dizer que estava guardando as lingeries rendadas para outra ocasião.
Demorei um pouco mais em escovar os dentes e tentar acertar os cabelos, e obvio que não me surpreendi nada ao voltar para o quarto e encontrar Leo dormindo.
Tranquei a porta devagar e dei a volta na cama para observá-lo. Era esquisito olhar alguém dormindo, mas aquela era uma ocasião. Leo havia tirado sua camisa e gravata, e pendurado tudo em um cabide separado do lado de fora do guarda-roupa. Seus sapatos estavam perto da cama e o celular no criado mudo, com uma pequena luz piscando que indicava alguma notificação recém-recebida. Seu respirar era profundo e me aproximei para beijar o topo de seus cabelos e admirá-lo.
Deitei ao seu lado com todo o cuidado possível para não acordá-lo e me acomodei nos travesseiros, sorrindo como uma boba em poder encostar minhas costas nas dele e sentir seu calor, sua respiração, seu presente perfume masculino. Se Leo estivesse acordado, provavelmente enroscaria meus pés com os dele e ficaríamos discutindo sobre todo tipo de coisas até o sono ganhar... Ou não.
O fato é que eu não conseguia dormir. A presença do Carma me deixava ansiosa e agitada, tanto que nem mesmo as benditas tartarugas ajudaram. Quem dirá carneiros! Aproveitei então para esticar meu braço e puxar minha bolsa do criado, procurando meu celular. Quando liguei o visor, levei um susto com o número de ligações perdidas e mensagens. Parecia que estive fora do universo nas ultimas 24 horas.
Comecei deletando todo tipo de lixo e anotando mentalmente quem havia me ligado e que era realmente importante. Duas ligações eram de Samantha e o restante categorizava aquela turma de contatos que se lembra da sua existência apenas nas festas de fim de ano. Retornaria todos eles depois.
Adria enviou duas mensagens desejando feliz natal, uma delas acompanhada com uma foto embaçada dela e Kennedy Dalton, se apertando na frente da tela para uma tentativa de selfie. Pelo visto minha irmã tinha bebido seu tradicional porre da noite de natal e por sorte meu pai estava lá para evitar que ela ligasse para algum ex-namorado e fizesse qualquer besteira.
A série de mensagens restantes era de Sam. Começavam muito bem, afinal ela estava empolgada com minha viagem para York a principio, mas depois se seguiram textos enormes e picotados com dezenas de teorias da conspiração que ela havia formado sobre os verdadeiros motivos da minha migração de Londres para o norte.
Na metade delas, choramingava que a Branquela tinha abandonado a melhor amiga no dia de natal e depois seguiam dúzias de piadinhas sobre o que eu deveria estar fazendo de mais importante. E como o conteúdo é quase pornográfico, não pretendo expor aqui.
O que realmente chamou minha atenção foram as últimas mensagens que Samantha enviou, quase no final do dia:
“Branquela, você me deixou uma chave errada. Não consigo entrar no apartamento para pegar a ração do Tabby, sua desnaturada!”
“Kate, vou chamar um chaveiro. O porteiro deve saber dessas coisas, não é? Da próxima vez que você viajar e me deixar numa situação dessas, arranco seus cabelos.”
“KATE, VOCÊ ESTÁ AÍ?”
As letras em caixa alta na última mensagem não eram algo comum para Sam, o que significava que ela estava muito brava com alguma coisa e eu imaginava o tamanho do problema que teria com a porta do apartamento quando chegasse em casa. Mas depois daquela pergunta, seguia uma foto para download e eu esperei pacientemente pelo carregamento.
E ali estava o motivo para a minha insônia total.
Na foto estava Tabby, deitado tranquilo sobre um conjunto das minhas malas e algumas caixas, no meio de um cômodo vazio e branco. Dezenas de coisas estavam encaixotadas ali, junto com alguns móveis desmontados encostados em uma parede. Não entendi imediatamente e precisei de alguns minutos para organizar o que a última mensagem de Sam dizia:
“Kate, venha para casa. Suas coisas foram despejadas, mas trocaram as fechaduras do seu apartamento. Não surte. Me liga.”
Pois é.
Feliz natal, Kate.
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