Orleans
10 Capítulo 10 - I Really, really, really... Like you.
Muitas coisas na vida são complicadas. Como correr usando saltos altos, acertar a mira de um aviãozinho de papel, apanhar um gato arrisco, encher a boca com mais de dois cupcakes e fazer Samantha Russell parar de rir depois dos primeiros minutos de uma gargalhada insandecidamente decidida a me deixar entre a irritação e uma dupla de idiotas rindo de algo que, aparentemente não deveria ser alvo de risadas.
Estou falando sério. A risada de Sam era bem pior do que uma doença altamente contagiosa. Um deslize e bum! Lá estava rindo junto com ela. Maldição.
— Ai, ai... — ela puxava o ar com dificuldade, dava para escutar pelo telefone, — então você quase puxou os cabelos da prima do seu Carma?
— Não me faltou vontade. Inglesinha metida.
— Prima do nariz-empinado. O que você esperava dela? Beijos e abraços? Talvez um convite formal para serem melhores amigas para sempre?
Pronto. Samantha estava rindo de novo e dessa vez parecia que um porquinho estava com ela, fungando esquisito na ligação. Claro que eu sabia que o nariz de Sam fazia aquele som às vezes, mas era engraçado imitá-la e cair na risada.
— Ela não me tratou mal. Mas também não foi nada discreta. Parecia que ela estava fazendo a marcação de um jogador de futebol com aqueles braços todos e se apertando e segurando e...
— Oh, espere aí. Você está se escutando, Branquela?
— Londres ainda não me ensurdeceu, Sam — tive que rir ainda mais, enquanto rolava na cama para apanhar mais algumas bolachas de canela e chocolate, acompanhamento perfeito para o leite quente que tinha pedido assim que cheguei ao hotel.
— Repete pra mim essa história da marcação de jogador de voleibol.
— Futebol.
— Que seja. A moça estava fazendo marcação... — Sam dava a deixa para que completasse a ideia. Eu devia ter ficado em silêncio, mas minha boca sempre foi muito grande.
— Marcação cerrada! Absurdo! Como se alguém fosse surgir de uma moita no meio do Hyde Park e levar o Carma preso dentro de uma caixa de madeira e correntes, pronto para ser exportado para algum país exótico onde pudesse declamar Shakespeare para os nativos! E os cochichos? Qualquer um que visse ia dizer que eram namorados ou algo ainda mais sério!
— Sei. E você ficou com ciúmes só nessa parte do passeio ou a noite toda?
— Ei! Eu não fiquei com ciúmes nenhum. Talvez um pouquinho, mas só... Acho que ela deveria se comportar um pouco melhor na frente de pessoas desconhecidas, só isso.
— Certo. Em que parte você começa a cair na real de que não está enganando ninguém, Branquela?
— Eu não quero enganar ninguém, oras. Estou dizendo a verdade.
— Exatamente. Não está enganando ninguém, Kate. Eu disse que você estava caidinha por esse tal Carma e Samantha Russell nunca se engana! E depois de todo esse lance de pontos turísticos, café, sorrisos? Branquela, você só está mentindo pra você mesma, confesse.
Mordi a última bolacha e fiquei levemente pensativa. De verdade. E isso é um fato importante, levando em consideração que meus momentos de pensamentos nos últimos meses eram dedicados a problemas de um futuro matrimônio e sobreviver em uma megalópole.
Não estava mentindo sobre nada, menos ainda sobre qualquer sentimento estranho desenvolvido por um homem tão irritante e insuportável quanto o Carma. Tudo bem que ele tinha seus pontos positivos, como ser um herói improvável e ter algumas atitudes surpreendentes quando menos se espera qualquer coisa vinda dele, mas isso não o transforma em um Príncipe Galante. Pior ainda! Não o transforma no MEU Príncipe Galante, e fim de conversa.
— Ele foi gentil comigo uma tarde, educado. Isso não quer dizer nada. Eu também tenho ciúmes de dividir você ou o Lex, com pessoas desconhecidas. Isso é carinho de amigos, sabia?
— Sua crise de julgamento da “prima-malvada”, também não quer dizer nada? Está bem, está bem. Não vou mais falar sobre isso, mas ainda vou rir muito da sua cara quando você me disser: “Samantha Russell, você estava completamente correta. Eu estou caidinha pelo Carma, não como uma crise adolescente de ciumezinho, mas como uma garota apaixonada”.
Obviamente passei alguns minutos xingando Sam por ser tão convencida e mais alguns me lamuriando de que estava com vontade de mais bolachas, mas a preguiça de ligar para o serviço de quarto do Bristol me impedia. Porém me lembrei de comentar uma coisa, um detalhezinho sobre o final da noite que tinha me passado despercebido de toda a minha narrativa indignada sobre a senhorita Juliet.
— Vou almoçar com eles amanhã.
— Com quem? O Carma e a prima-malvada? — Sam engasgou com alguma coisa que estava mordiscando.
— E Luke. Nem tudo nesse mundo inclui apenas Leo e Juliet.
— Leo?— Sam esganiçou, recomeçando a rir — Quem é esse? O nariz-empinado tem um nome e você nem me contou?
— Próspero me pediu pra chamá-lo de Leo depois que pedi que ele me chamasse de Katerina. Foi um acordo pacífico, Sam.
— E funcionou? Quero dizer, o cara é uma íngua inglesa, deve ter feito cara feia de te chamar pelo primeiro nome. Você sabia que isso é muito íntimo, né?
— Funcionou até Juliet aparecer. Daí voltamos ao Sr. Valois e Srta. Dalton.
— Que decepção. Não chore, Branquela.
— Sam! Dá pra parar com isso?
Entre as novas risadas e uma pausa para pedir mais bolachas pelo telefone do hotel, contei para Sam como tudo aconteceu, logo depois de Próspero me tirar do ônibus da city tour como uma donzela em apuros.
Seguimos pelo caminho desde o Green Park até a frente do Bristol, caminhando adiante, passos a frente de Juliet e Luke; que conversavam alguma coisa entre as reclamações da loirinha. Aposto que ela estava me desprezando, nenhuma outra opção chegava à mente. Imagine só que imagem ela tinha de mim, por permitir que seu primo simplesmente me pegasse pela mão sem mais nem menos, e começasse uma caminhada diretamente até meu hotel?
Pra ser sincera, eu não estava nem ligando para o que Juliet poderia pensar ou não. Estar de mãos dadas com o Carma, andando por aí, estava me mantendo tensa suficiente para mal sentir meus ombros, quem dirá escutar meus pensamentos!
Quando chegamos ao quarteirão do hotel, Lucas passou correndo por nós, rindo e falando alto que chegaria primeiro de todos. E qual foi a minha surpresa por ver Juliet correndo atrás dele, com suas sapatilhas nas mãos, equilibradas entre o urso de pelúcia e os livros. Ela ria e convenientemente, ficava linda fazendo isso.
Extraoficialmente, eu a odiava.
O ruivinho e a prima estavam às risadas diante das portas do Bristol quando chegamos, os dois corados nas bochechas e despenteados pela criancice.
— Vocês são muito lerdos! — Luke zombou, abraçando Juliet.
— Nem todas as pessoas precisam correr pela rua para serem consideradas rápidas, Lucas — Próspero suspirou, finalmente soltando minha mão e parecendo notar minha existência. — O Bristol, senhorita Dalton.
— Obrigada pela companhia, Sr. Valois.
— Que pena que passamos pouco tempo juntos, Kate — Luke fez aquele biquinho com os lábios, pulando do abraço com Juliet, diretamente para me abraçar. — Nós podíamos marcar alguma coisa para outro dia, enquanto estiver aqui em Londres ou se decidir ir até York...
— E por qual motivo a senhorita Dalton iria até York, Lucas? — Próspero franziu levemente as sobrancelhas, cruzando os braços.
— Passar o natal com a gente. E com Bruce. Ela me disse que ele está passando as festas com os parentes dele em York e eu pensei...
— Bruce Campbell? — Juliet estranhou.
— A senhorita Dalton e o Sr. Campbell são noivos — Próspero explicou minha mentira usando uma única frase, que pesou mais do que imaginei. No momento seguinte Juliet estava apanhando minhas mãos com um sorriso animado, como se fôssemos melhores amigas.
— Meus parabéns, Katerina! Que inusitada notícia! Vocês deviam ter me contado — ela indicou os primos, que deram de ombros. — Bruce é amigo da família há muitos anos, você será como uma prima para nós!
— Não exagere, Juliet — O Carma bufou, claramente desgostoso com o assunto da conversa — Faz muito tempo que o Sr. Campbell se afastou do convívio da família.
— Não importa. Com toda a certeza Katerina vai passar as festas todos os anos em York, depois do casamento. Bruce sempre vai para lá nos finais de ano e por certo vai leva-la. Podemos nos encontrar sempre!
De onde havia saído toda aquela felicidade entusiasmada de Juliet? Não tenho a menor ideia, mas eu estava dividindo a minha estranheza com Próspero, que parecia ainda mais incomodado do que de costume com qualquer tipo de demonstração branda de afeto.
— É mesmo? — tinha que perguntar.
— Claro que sim! E tenho uma ideia perfeita para comemorarmos este fato tão feliz.
Oh, meu santo Sir William Shakespeare...
Juliet se entreolhou com os primos. Lucas parecia tão contente quanto ela com a ideia de me ver uma vez ao ano em York, enquanto Próspero mal retornou o olhar, mais ocupado em observar os táxis que passavam pela rua.
— Venha almoçar conosco amanhã, Katerina!
— Amanhã? — eu e o Carma falamos ao mesmo tempo. Estávamos mesmo dividindo o pensamento de quão era absurdo aquele convite. Claro que eu tinha meus motivos e ele os dele, mas eu não tinha nenhum desejo de ir almoçar com a alegre e perfeita “Julieta”.
— Eu não sei, estou aqui a convite da minha irmã e possivelmente ela vai passar o dia comigo. Não posso confirmar nada, senhorita Juliet — Sim, estava usando Adria como um álibi. Podem me julgar.
— Pode me chamar apenas de Juliet. Como eu disse antes, quero muito que possamos ser amigas, Katerina. Por favor, venha almoçar conosco amanhã.
— Tenho que lembrar de que temos uma viagem de quase três horas para retornar até York? — Próspero estava tamborilando os dedos sobre o braço cruzado, impaciente (ou ansioso?).
— Ora, Leo. Podemos viajar depois do almoço e evitar o movimento pela estrada. E com certeza Katerina ficará encantada em conhecer seu flat.
— Juliet, não é preciso... Eu realmente preciso confirmar com minha irmã antes de marcar qualquer coisa.
Próspero estendeu a mão em um gesto engraçado que dizia claramente “estão vendo como eu estou certo?”. Luke riu baixinho e me deu um beijo na bochecha.
— Te ligo pela manhã pra confirmar, tudo bem? Assim você fala com a sua irmã e não matamos o Leo de desgosto no meio da rua.
A forma com que Luke gostava de alfinetar Próspero sempre me fazia rir, mesmo que desta vez eu desse razão para a reação do Carma em não gostar nada daquele compromisso arranjado de última hora pela pior razão possível: comemorar o meu suposto noivado com um noivo que nem sabia que estava noivo de novo. Confuso? Minha vida costumava ser assim.
Terminei de relatar esse trecho da noite para Sam e notei que a ligação estava muda. Só torci para que ela não tivesse desligado ou perdido o sinal enquanto fiquei tagarelando por quase vinte minutos de detalhadas impressões sobre os fatos.
— Sam?
— Estou digerindo essa história. A garota te chamou pra almoçar em um apartamento que nem é dela? Assim, do nada? E me explica de onde surgiu Bruce Campbell nessa conversa!
— Não exatamente. Ela ficou bem contente em saber que eu estou noiva. Supostamente. Hipoteticamente.
— Branquela, eu nem quero comentar o quanto a vontade de te dar uns sopapos está me doendo. Onde você estava com a cabeça de me inventar um negócio desses? Você podia estar noiva até do Papa, mas do seu ex-futuro-sei-lá-o-quê Campbell? Pra quê você inventou um negócio desses?
— Eu não inventei, eu só... Menti um pouquinho. Bruce Campbell devia ser meu noivo, não é?
— Mas ele não é, Kate! E ele é de alguma forma, um desafeto do Carma. Você tem noção de que se enfiou em um tremendo problema, Branquela? E quando o Bruce ficar sabendo disso?
— Ele não vai ficar sabendo de nada, Sam. Eu só menti porque o Carma estava me julgando injustamente por estar dentro do carro do Sr. Campbell na noite do concerto. Ele foi um idiota e eu... Eu... Eu...
O restante da frase ficou presa na minha garganta.
Inexplicavelmente, estava com vontade de chorar e aquela sensação estava acumulada no fundo da língua. Aquela mentira, contada sem pensar, estava aumentando a cada dia e piorando ainda mais conforme se espalhava pelas pessoas envolvidas com Bruce e Próspero.
E se Bruce ficasse sabendo?
E se meus pais ficassem sabendo?
Tudo que briguei tanto para conseguir: minha independência, o apartamento, meu trabalho, os amigos... Tudo iria acabar como um passe de mágica. Mas eu não podia simplesmente mandar uma mensagem para Luke e seu detestável irmão, dizendo “Me perdoem pelo transtorno, eu não estou noiva do Sr. Campbell”.
— Eu sou uma imbecil — desabei.
— Pois é, Branquela. Pisou na bola feio. Você precisa contar pro Carma e desfazer esse mal entendido. Até porque desse jeito você vai perder todas as suas chances com ele!
— Samantha!
Só Sam conseguia me fazer rir mesmo quando estava com os olhos cheios de lágrimas e tratando de um assunto sério. Ia recomeçar a explicar todos os meus motivos listados cientificamente de que não havia nenhuma razão nessa insistência dela em falar sobre chances com o Carma, quando o telefone do quarto tocou.
Queria que Sam esperasse na linha, mas ela estava com sono. O fuso horário. Sempre me esquecia dele.
Atendi a ligação da telefonista do hotel, questionando se eu aceitaria receber uma ligação externa e enquanto ela transferia a linha, fui receber as bolachas do serviço de quarto. Assim que voltei, escutei claramente a voz de Adria discutindo com um homem, muito possivelmente Paolo.
— Adria? Adria? — insisti algumas vezes até ela parar de gritar e pegar o telefone.
— Oi, princesa! Boa noite! Atrapalhei seu sono?
— Não, eu não estava dormindo. Estava com a Sam no celular, falando bobagens. Está tudo bem por aí?
— Na medida do possível, não se preocupe — sabia exatamente quando Adria estava mentindo. Ela nunca foi boa nisso. — Como foi o dia com o violinista?
— Movimentado.
— Que bom! Passeou mais pela cidade? Conheceu lugares legais? Estou louca para te encontrar e escutar a sua opinião sobre Londres.
— Londres é fantástica. A propósito, a que horas a senhora pretende aparecer aqui pelo hotel para me pegar e conhecer o seu apartamento? Temos que combinar o almoço de natal, presentes. Preciso saber o que comprar pro seu namorado, se é que ele ainda é seu namorado.
— Ainda — Adria riu alto e o italiano resmungou alguma coisa ao fundo, que ela logo retrucou sem educação. Palavrões em italiano eram amplamente conhecidos por mim, graças às manias de Samantha em imitar Don Corleone. — É sobre isso que eu quero falar com você, Kate.
— Mau sinal.
— É, mau sinal, princesa. Surgiram alguns problemas por aqui, de última hora, coisas que eu preciso realmente resolver. Eu não quero que você passe seu tempo me seguindo dentro de um prédio enfadonho enquanto as horas passam e você perde todas as coisas divertidas da cidade.
— Isso quer dizer...?
Claro que eu sabia o que queria dizer, mas era sempre melhor confirmar. Adria parecia tão tensa e incomodada com aquele assunto que não podia duvidar que estivesse mesmo com problemas sérios. Ao menos tinha a convicção de que o modelo de cueca não estava envolvido com isso. Adria nunca se deixaria dobrar por nenhum homem, mesmo que ele fosse um projeto de deus grego com pouco cérebro.
— Quer dizer que não vou poder te pegar amanhã, Kate. Você sabe o quanto eu fiz de tudo para ter estes dias com você e sair de Roma, mas pelo visto a maldição dos Dalton também me persegue. Mas a antevéspera do natal é toda sua!
— “Problema” é o nosso nome do meio, irmãzinha.
— Realmente, princesa. Vai me perdoar?
— Depende. Vai fazer peru com molho pro almoço de natal?
— Se os bombeiros estiverem de plantão, prometo que farei o possível! E por favor, não compre nada para o Paolo. Finja que ele faz parte da decoração!
Tentei amenizar um pouco mais o clima da ligação contando um pouco da minha impressão sobre o Winter Wonderland, o Globe e os ônibus vermelhos. Ela até riu um pouco, mas Adria devia estar realmente preocupada para não gargalhar dos meus trocadilhos mais infames sobre o desastre dos Dalton em produzir qualquer alimento comestível em todos os feriados.
Quando ela desligou, fiquei com uma sensação fria no peito, um sentimento ruim, uma premonição estranha. O que quer que fosse havia deixado Adria Melissa Dalton muito séria. E isso não era boa coisa.
******
Acordar rodeada de migalhas de bolacha de canela e chocolate, com o celular tocando em algum lugar perdido das cobertas e com meu melhor cabelo “noiva do Frankenstein”, parecia um modo muito feliz de começar mais um dia na minha fofa e deliciosa cama no Bristol.
Meu terceiro dia em Londres prometia: a) um almoço irrecusável no flat do Carma, regado a sorrisinhos de Maria Julieta, ou b) um dia todo, completo, inteiramente meu para fazer o que me desse na cabeça. Existia uma opção c) passar o dia enfiada nas cobertas, observando o Big Ben recortado no céu cinzento daquela manhã londrina, comendo guloseimas e ganhando três quilos por hora. Difícil de decidir.
Porém meu celular já estava decidindo por mim, berrando feito louco embaixo das minhas pernas (quando o encontrei), com o visor em letras brilhantes anunciando uma ligação de Luke.
Atendê-lo ou não atendê-lo, eis a questão.
Lucas possuía aquele poder ancestral de convencer qualquer ser humano com a simples lembrança de seus olhinhos esperançosos, que deviam estar brilhando na espera que eu atendesse o celular. Eu não ia querer desapontá-lo.
Lucas nem me deixou falar. Começou gritando um bom dia e me dando bronca por ter dormido até tão tarde e perdido o café da manhã e a oportunidade de conhecer um dos mercados mais legais da cidade. Sorte que Luke não sabia que eu não tinha nenhuma intimidade com mercados. Era melhor ele continuar me imaginando como uma mulher altamente prendada. Bem melhor.
A melhor surpresa de todas, foi quando ele anunciou que me buscaria sozinho no hotel, de táxi. Pelo menos estaria mais tranquila até chegar ao tal almoço, quando provavelmente meus nervos ficariam a flor da pele durante as horas da refeição e eu precisaria de alguns comprimidos para relaxar depois.
Bastaram quarenta minutos para o telefone tocar e anunciar que um ruivinho falando pelos cotovelos estava me esperando na recepção do Bristol. Fiquei mais animada em estar sozinha com Luke do que com o restante de todas as opções masculinas da minha vida àquela altura. O ruivinho nunca me decepcionava.
E lá estava ele, vestindo um casaco quente e um cachecol verde que combinava muito com toda sua juba cor de ferrugem. Seu imenso sorriso só ficou ainda maior quando me estendeu algumas flores, tulipas vermelhas maravilhosas, embrulhadas com um laço nas cores da bandeira da Grã Bretanha com um delicado penduricalho de uma cabine telefônica e o Big Ben.
— Boa tarde, Kate! Que bom te ver de novo — nos abraçamos. Lucas era tão fofo que dava vontade de guardar no bolso. — Dormiu bem? Já está com fome?
— Obrigada pelas flores, Luke. São lindas! Acho que dormi demais hoje e a falta do café da manhã está rugindo no meu estômago.
— Então vamos embora, o almoço de domingo não deve esperar!
O táxi estava parado em frente ao Bristol, a porta de trás aberta apenas no aguardo da nossa entrada. O motorista, um senhor careca muito simpático, logo nos cumprimentou e me elogiou, perguntando em seguida o que eu estava achando da cidade. Fomos conversando por grande parte do caminho, pelo trânsito um pouco mais tranquilo do que nos outros dias.
Passamos pelo museu de Madame Tussauds e logo vi as placas que indicavam o Regent Park pouco a frente. Ali, era a minha vez de ficar com a cabeça quase para fora da janela, olhando e notando todos os detalhes de cada lugar e sentindo aquela eletricidade boa e ansiosa por cada ponto turístico que reconhecia. Chegamos então na altura do incrível St. Pancras Renaissence Hotel, que parecia retirado de um livro de história. A estação King’s Cross, que era uma agitação completa, me trouxe a lembrança de Lena. Ela teria surtado apenas em pensar na possibilidade de entrar na estação por onde seu bruxo favorito havia passado.
Pegamos então uma rua lateral à estação, um lugar cheio de restaurantes e cafés, gente indo e vindo, um lugar que misturava prédios comerciais e galerias de arte. O táxi diminuiu a velocidade assim que avistou uma pequena praça ao lado direito, uma mera rua particular em formato de U, onde estava uma lavanderia, um mercadinho e alguns caixas eletrônicos.
Luke abriu a porta e desceu enquanto o motorista gentilmente abriu a porta para mim. Do outro lado da rua estava um prédio de apartamentos muito peculiar, com a fachada decorada com pedras cortadas como um assoalho de madeira, todo em tons de cinza. Era bonito, moderno e abrigava uma delicatessen e uma academia no térreo.
— Chegamos!— Luke anunciou, abrindo os braços para indicar exatamente o prédio que eu estava observando. — Gostou?
— É bem diferente do estilo da casa de Nova Iorque — tinha que observar.
— O prédio tem esse design porque muitos estudantes da Universidade de Londres moram aqui. Leo comprou o flat quando estudava na cidade e agora a família toda usa quando viaja para cá. Mais prático.
— Com certeza.
E pensar que eu estava morando em um porão até pouco tempo. Os Valois D’Orleans tinham casas e apartamentos em suas cidades favoritas e eu tinha sorte de não chover na minha cabeça quando o clima mudava. Vida injusta.
— York Way? — apontei para Luke a placa que mostrava o nome da rua, pouco antes de atravessarmos. Ele riu e passou a procurar por algo nos bolsos, uma chave barulhenta que sacudiu perto do meu nariz antes de andarmos até a porta do prédio.
— Predisposição da família — ele riu — Somos de York, viajamos para Nova Iorque e temos um apartamento na York Way.
— Dá pra fazer um trava-línguas com isso!
As chaves tintilavam na porta de vidro que levava para o saguão do prédio e comecei a sentir meu estômago revirar, não de fome (eu estava faminta!), mas daquela ansiedade chata que começava a deixar as pontas dos meus dedos gelados.
Atravessamos o lugar que ecoava cada passo, até o elevador social. Luke estava assobiando alguma música que eu não conhecia e continuou assim até as portas se fecharem e ele apertar o botão do sexto andar, apanhando minha mão livre.
— Nossa, Kate. Você está gelada. Está com frio?
Não estava com frio. O trenchcoat estava quentinho e desta vez não tinha esquecido meu cachecol listrado para reforçar minha armadura contra o frio. Era puro e ridículo nervoso por antecipação. Ou como eu gosto de chamar carinhosamente: frescura.
— Frio? Não, Luke. Está tudo bem, eu tenho as mãos geladas mesmo — mentirosa. Estava ficando expert nisso.
O elevador tocou um bipe e abriu as portas para um corredor de piso frio e paredes claras. Dividindo o corredor estava uma mangueira de incêndio e um extintor, que ficavam ao lado de um aparador de vidro simpático com algumas flores artificiais que tentavam animar o ambiente frio do andar.
Luke tomou a frente e caminhamos diretamente para o apartamento da esquerda, número 61. O cheiro bom de alguma coisa assando e borbulhando, atingiu rapidamente as narinas e me fez sorrir.
— Chegamos! — o ruivinho anunciou assim que abriu a porta branca do lugar, me puxando com ele pela mão.
— Sejam bem vindos! — Juliet surgiu de uma porta, vindo logo me abraçar forte — Como você está linda, Katerina e que flores maravilhosas. Tire o seu casaco, Lucas guarda para você junto do buquê.
— O-Obrigada...
Entreguei o casaco e as flores para Lucas como Juliet disse e me distraí por um momento observando o lugar. Era uma sala ampla com dois grandes sofás com muitas almofadas e uma mesa de centro com um vidro escuro, sustentando algumas revistas e o controle remoto da bela tevê plana que estava presa na parede. A temperatura era aconchegante e o cheiro da comida era ainda mais delicioso ali dentro.
Tentei imaginar como seriam as reuniões da família Valois naquele lugar, com as janelas verticais e uma pequena varanda com uma mesinha e cadeiras. Com certeza deviam se sentar por ali para admirar a noite londrina ou algo assim.
Além da ampla sala bem decorada, havia uma sala de jantar com a mesa já posta perfeitamente, com guardanapos de tecido e um vaso de flores brancas ao centro. A porta por onde Juliet surgiu, era um pequeno lavabo, tão bem organizado e limpo quanto o restante do flat.
— Cadê o Leo? — Lucas disparou assim que pendurou meu casaco e o dele atrás da porta de entrada, colocando as tulipas sobre a mesa de centro.
— Seu irmão está na cozinha, onde mais? — Juliet riu, parecia bem óbvio. Fez um discreto sinal se eu aceitaria uma taça de vinho como a dela, que estava apoiada entre os dedos — Para abrir o apetite, Katerina.
— Não, obrigada, Juliet. Meu estômago está tão vazio que o vinho cairia como a bomba de Hiroshima.
— Que exagero. Vou encher uma taça e você pode bebericar um pouco, para espantar o frio lá de fora.
Juliet pegou uma taça vazia da mesa de jantar e assim que a recebi, Luke me pegou pela mão para outra direção, aumentando a voz depois que passamos pelo ambiente da sala de jantar, diretamente para uma porta que levava para a cozinha.
— Leo, cheguei!
Lucas me soltou e foi na direção do irmão mais velho, que estava de costas para nós, mexendo em algo na pia. Próspero estava sem seus usuais casacos de tweed ou qual fosse o tecido, então foi um tanto... Estranho, vê-lo tão mais informal (e usando um avental, pasmem!).
— Como se toda a vizinhança não tivesse escutado seus anúncios desde que abriu a porta, Lucas — O Carma quase rosnou, secando as mãos em um pano de prato.
O ruivinho pendurou-se no braço dele e beijou sua bochecha apenas para fazê-lo resmungar alguma coisa e espantá-lo de lado. Lucas gargalhava e aproveitava para passar o dedo em uma generosa porção de batatas amassadas que estava sobre a bancada do armário embutido.
— Kate também está aqui — ele voltou para o meu lado e me puxou para frente, para ter certeza de que Próspero havia notado a minha presença. Pobre Lucas, não sabia ainda que o irmão tinha um radar próprio para avisá-lo da aproximação perigosa de Katerina Dalton.
— Senhorita Dalton. —cumprimentou com aqueles modos de menear a cabeça, já que aparentemente eu não devia dar a mão para alguém que estava mexendo na cozinha.
Espere aí. Próspero estava cozinhando?
— Boa tarde, Sr. Valois. A comida está cheirando muito bem.
Céus, ele ergueu aquela maldita sobrancelha e deixou o pano de prato na pia ao invés de me responder. Ajeitou as mangas da camisa xadrez verde escuro que estava usando e virou-se para o fogão embutido, abrindo a tampa de uma larga panela e revirando uma longa colher de madeira lá dentro. Simplesmente ignorou meu comentário.
Lucas já havia se afastado de mim, ficando na ponta dos pés para pegar uma cestinha com pães que estava sobre a última parte do armário (e que eu precisaria de um banquinho para alcançar), apenas para arrancar um naco e mergulhar nas batatas de novo, andando e soprando o conteúdo.
— Vamos pra sala, Kate. Leo grita se precisar de ajuda.
Concordei com Luke apenas mexendo a cabeça e dei as costas, pouco antes de escutar a tampa ser fechada e a voz do Carma surgir entre o chiado de uma frigideira posta no fogo alto.
— Senhorita Dalton?
— Sim, Sr. Valois? — não me virei. Apenas olhei sobre o ombro. Ele tinha me ignorado, oras!
— Prove. Por favor.
Próspero estava parado no meio do caminho entre o fogão e a saída da cozinha, segurando a colher com uma das mãos e a outra mantendo a ponta do avental preto que estava usando, como segurança para que o molho brilhante e fumegando, não caísse no piso. Foi minha vez de erguer as sobrancelhas, não como ele costumava fazer, mas com a boa surpresa daquele gesto.
O molho de carne estava suculento e me aproximei para soprar um pouco na colher antes de provar.
Por todos os bons escritores ingleses! Aquilo estava divino, bem temperado, saboroso, digno de ser comido apenas com as fatias dos pães que Lucas estava roubando para comer com batatas. O gosto era tão incrível que era impossível não sorrir.
— Sr. Valois... Isso está estupendo!
— Ei, por que eu não ganho uma colher para provar também? — Lucas fez um muxoxo.
— Porque você acabaria colocando a colher na boca e de volta no molho, Lucas. Razão suficiente para que você espere até que tudo — Pausou, tirando a cestinha das mãos do ruivo — esteja servido. Agora pegue a salada e leve para a mesa, por favor.
Luke não gostou das ordens do irmão e logo mostrou a língua para ele, como uma criança embirrada. Mas seguiu as instruções, levando a travessa de folhas e o pegador de alumínio para a sala de jantar.
— Quem diria que o senhor cozinharia tão bem, Sr. Valois? — me encostei ao armário, observando-o trabalhar. Era como eu imaginava; meticuloso, organizado, a cozinha sequer parecia ter preparado um almoço completo para quatro pessoas. Me peguei pensando se ele organizava as gavetas com tanto cuidado quanto aquela estante de livros em Nova Iorque. Inevitavelmente imaginei a expressão de desgosto se Próspero olhasse meus armários. Talvez até morresse pelo desprazer.
— Possivelmente a senhorita imaginou que minha vida se resumia a comprar livros ou a cumprir os horários da minha suposta rotina, estou correto? — ele passou a se dedicar a refogar chalotas na frigideira quente, prendendo o pano de prato no bolso de trás do jeans. Sim, ele estava usando jeans. Skinny. E tênis.
Não, eu não vou admitir que ele ficasse bem assim. Senão tenho que admitir que a Terra é redonda e isso seria muito impróprio.
— Acho que sim. Além de colecionar casacos de acordo com os dias da semana, não é?
— Oh, sim. Os blazers e casacos de segunda à sexta. Estes estão de fato, mantidos como um apreço pessoal pelos tecidos especificados, senhorita Dalton.
— Então posso supor que o figurino de hoje é dedicado exclusivamente aos domingos, Sr. Valois? Ou apenas quando decide utilizar seus dotes culinários?
— Ambos, suponho. Os domingos são mais emocionantes do que as sextas, senhorita Dalton.
— Consigo imaginar — ri baixo, enquanto o aroma maravilhoso de legumes e ervas salteadas na manteiga, enchia o ar. Em dois dias por pequenos momentos distintos, Próspero e eu estávamos em trégua. Não havia nossas costumeiras discussões ou seus modos arrogantes e irritantes que me faziam querer sufoca-lo com uma sacola de compras da Barnes & Noble, mas sim uma situação em que pela segunda vez, ele demonstrava o que realmente era.
E definitivamente cozinheiro não estava nos meus mais insanos pensamentos.
— Vocês precisam de alguma ajuda por aqui? — Juliet veio trazendo a taça de vinho vazia para colocar na pia e pegou o pano de prato do bolso de Próspero para limpar a boca — Estava pensando em fazer um pouco de creme para colocar nos legumes, o que você acha, Leo?
— Fique a vontade — ele abriu apenas o espaço para Juliet pegar alguns produtos na despensa e abriu o forno, onde uma carne dourada estava pronta para sair.
Aproveitei a deixa para deixar minha taça na bancada e sair da cozinha. Poderia ter ficado por ali e talvez até ajudado em alguma coisa, mas as minhas experiências com a culinária sempre terminavam em copos e pratos quebrados, dedos machucados, pessoas chorando. Era melhor não arriscar.
Encontrei Lucas debruçado na varanda da sala, olhando o dia cinzento e emburrado lá fora. Quando me notou, sorriu e esticou a mão para que eu fosse até lá com ele. Ficamos de braços dados, vendo as pessoas como formiguinhas na rua com suas sacolas de compras, bolsas, malas, com pressa e vagarosas, com famílias ou sozinhas.
— Estou muito feliz que você veio almoçar com a gente, Kate. Eu disse que faltava você pra agitar um pouco a nossa vida por aqui, não é? — rimos.
— Sou basicamente uma agente do caos nas vidas tediosas e nas rotinas perfeitas das pessoas, Luke. Estou acostumada com isso. Mas eu agradeço demais pelo seu convite e claro, seu carinho.
Ele sorriu, sempre com aquele jeitinho de cachorrinho abandonado; e deitou a cabeça no meu ombro, respirando fundo. Eu adorava a forma com que o perfume dele lembrava uma coisa doce, como se Lucas fosse uma espécie de criaturinha mítica da terra dos marshmellows.
— Kate, a Juliet está se comportando melhor com você hoje?
A pergunta me pegou de surpresa.
— Bom, ela não se comportou mal comigo ontem, Luke. Só acho que ela realmente não gostou muito de mim, então levando em consideração a minha primeira impressão, ela me parece bem agradável hoje.
— Que bom — ele pareceu aliviado.
— Luke, por um acaso Juliet é a garota que não corresponde seus sentimentos? A que você me disse no jantar em Nova Iorque?
Luke respirou fundo, dava pra sentir o movimento no meu ombro. Depois se desencostou de mim e entrelaçou os dedos comigo, parecendo bem interessado em ver a diferença entre nossas mãos.
— Faz muito tempo que gosto da Juliet, Kate. Mas pra ela eu só o primo distante e bobo que parece criança, não dá pra mudar esse ponto de vista.
— Luke, esse é o seu jeito. Se alguém tiver que gostar de você, tem que ser exatamente como você é. Se Juliet não vê o quanto você é um garoto incrível, alegre, doce e gentil, eu tenho certeza de que um dia você vai encontrar alguém que veja.
— Você acha isso?
— Eu não sou do tipo que acredita muito em romances ou finais felizes, mas eu tenho certeza de que coisas boas sempre vêm para pessoas boas. E você é uma pessoa ótima!
— Você também é uma pessoa ótima, Kate. E me desculpe, mas acho que você merece uma pessoa melhor do que o Bruce.
Sorte que não estava bebendo aquela taça de vinho, senão teria cuspido tudo ali. Tinha que aproveitar a chance e contar para Luke que não era noiva do Sr. Campbell!
— Não fale isso, Luke... — ele segurou minha mão bem apertada e depois beijou no alto dos meus dedos, como um verdadeiro cavalheiro.
— Leo me contou sobre o passeio de vocês ontem, no Globe. Ele realmente se comportou bem com você, Kate?
— Seu irmão se comportou muito bem, Luke. Nós nem tentamos nos matar — ri para amenizar.
— Fiquei sabendo. E você fez ele rir! Como conseguiu isso?
— Deve ser algum dom oculto ou alguma coisa relacionada ao teatro. Talvez Shakespeare não quisesse ninguém mais tentando se matar ali além de seus atores encenando suas peças.
— Pode ser. Mas eu acho que além de você ser a única pessoa que consegue ter paciência com o Leo, você ainda não percebeu que ele...
— O almoço está servido! — Juliet bateu uma faca contra a borda de um copo cheio de água. Seu rosto estava corado pelo vinho e ela estava risonha, estranhamente agradável. Pena que não tinha noção de quando não interromper a conversa alheia.
— Almoço! Vamos, Kate!
Como se nada tivesse acontecido, saímos da varanda e fomos diretamente nos sentar à mesa de jantar. A carne que estava no forno agora enchia o ambiente de um cheiro magnífico, rodeada por batatas e aquele molho suculento. Juliet havia feito um creme para a salada e Próspero terminava de trazer para a mesa uma travessa com os legumes na manteiga. Tudo parecia saboroso demais.
Luke serviu meu prato com um pouco de tudo e Juliet encheu os copos com suco de uvas antes de se sentar ao lado do Carma e cochichar algo em seu ouvido, um costume bem particular dela. Quando finalmente todos estavam servidos e acomodados, ela tossiu de lado e acomodou os cabelos loiros para trás das orelhas antes de pegar a própria bebida e erguê-la diante de todos.
— Vamos brindar! Pela gentil Katerina, que aceitou nosso convite e por seu noivado e futuro casamento! E claro, pelo querido Leo e seu almoço maravilhoso. Saúde!
— Saúde.
Se o Guinness Book estivesse presente teríamos ganhado o prêmio de brinde mais sem graça da galáxia. Tudo se resumiu a copos erguidos e uma série de tons de animação variados, desde Juliet — que estava animada com sua genial ideia de comemorar meu noivado fictício, até Próspero, que apenas se limitou a erguer o copo e nada mais.
Parabéns, Maria Julieta. Sucesso como anfitriã.
O almoço transcorreu relativamente bem depois do desastre inicial. A comida estava realmente tão boa que parecia impossível parar de comer, Luke começou a contar uma série de bobagens sobre a viagem que havia feito para a Irlanda no ano anterior e até mesmo Juliet estava se divertindo, parecendo um pouco mais tranquila sem se preocupar em ficar pendurada ou trocando segredinhos com o Carma a cada dez minutos.
Quando todos estavam finalmente satisfeitos e os pratos limpos, Próspero se levantou e pediu que Luke o ajudasse a levar os pratos para a cozinha antes de trazerem a sobremesa. Eu mal sabia se alguma coisa ainda caberia no meu estômago depois de todo aquele banquete de domingo.
Assim que saíram da sala de jantar, Juliet mudou de cadeira de repente, sentando bem ao meu lado e apanhando minha mão. Ela olhou para os lados como se estivesse prestes a contar algo ultrassecreto e deu alguns risinhos, que me fizeram sorrir para ela.
— Me conte tudo, Katerina. Quero saber cada detalhe!
— Detalhe? Do quê? — “não fui eu! Foi o homem sem braço!”.
— Do noivado com Bruce Campbell! Como isso aconteceu? Como vocês se conheceram? Quando foi que ele largou a Beatrice?
— Beatrice? — calma Juliet, você está indo rápido demais para meu cérebro!
— Beatrice Fontaine, a pianista famosa. Você não sabia que eles eram namorados? Com certeza ele a deixou para ficar com você.
O nome não me soava estranho. Só precisava de algum tempo para conseguir me lembrar do rosto que seguia a lembrança.
Santo Keats.
Se Beatrice Fontaine era exatamente quem eu lembrava ser, tudo fazia sentido. Aquela sem vergonha tinha derrubado as bebidas quentes em mim de propósito! Tudo porque ela estava com ciúmes de Bruce! E ainda por cima ela estava se apresentando naquela noite, logo após o solo de Luke. Foi o nome dela que não consegui escutar quando anunciaram o restante da programação da noite!
— Acho que acabo de saber isso — sim, estava em choque.
— Bruce é um ótimo homem, Katerina. Você será tão feliz! — seu primo discorda desta informação, Juliet. Sinto dizer.— Onde está seu anel de noivado?
— Anel?
— Claro! Bruce deve ter comprado um anel maravilhoso para te pedir em casamento, não é? Eu não vi você usando nada ontem, nem hoje. Não me diga que deixou em Nova Iorque?
— Sim, eu deixei — pelo menos não estava mentindo, o anel estava mesmo no meu apartamento — Não me sentia segura andando com aquela pedra por aí.
— Um diamante? — Juliet deu um gritinho animado, seu olhar estava legitimamente feliz. Eu só não sabia o motivo e afirmei a pergunta dela, recebendo um aperto nas mãos com toda a animação.
Os rapazes retornam da cozinha com um pote de sorvete e colheres de sobremesa, eles também estavam conversando alguma coisa antes de voltar a se sentar e por alguns segundos todos os assuntos morreram.
— Posso começar? — Juliet ergueu a colher, abrindo o pote e arrancando uma generosa colherada do sorvete de flocos. Logo, todos estavam comendo assim, direto do pote.
Juliet começou a falar com os primos sobre os preparativos para o natal. Em grande parte da conversa, Próspero permaneceu em silêncio, acompanhando os planos do irmão e da prima com os olhos. Depois, apenas sentenciou que eles deveriam conversar isso em outra ocasião, porque estavam me deixando deslocada.
Concordei. Ponto para o Carma.
Já passava das quatro da tarde quando retiramos tudo da mesa e levamos para a cozinha. Queria ajudar com a louça, mas Luke disse que eu não deveria me preocupar, era uma convidada (e o prédio tinha serviço de limpeza na segunda). Então, nada melhor do que tomar meu rumo antes que qualquer outra revelação acabasse tirando meu sono ou que Próspero começasse a me culpar por estar muito tarde para viajarem para casa ainda naquele dia.
Se bem que Luke ainda precisaria concluir aquela conversa comigo em outra ocasião. Tinha de lembrar de mandar uma mensagem para ele mais tarde.
— Eu gostaria de agradecer muito pelo almoço e a companhia, mas se vocês não se importam, vou pedir um táxi. Quero conhecer mais alguns lugares antes de voltar para o hotel.
— Obrigada mais uma vez por ter aceitado o convite, Katerina. Foi um prazer conhecer melhor a famosa senhorita Dalton, mesmo que ela precise ser salva com frequência — Juliet sorriu, me dando mais um abraço. Que mania de abraçar!
— Pode deixar que eu peço o táxi, Kate — Luke se jogou no sofá, pegando um celular para fazer a ligação. Porém o Carma voltou da cozinha, deixando o avental dobrado sobre uma das cadeiras da mesa de jantar e fez um sinal para o ruivinho parar de discar.
— Não é necessário. Eu mesmo posso levar a senhorita Dalton onde ela quiser ir.
Não não não não não não não. Chega de Valois D’Orleans por um dia!
— Não precisa se incomodar, Sr. Valois. Eu tenho dinheiro para pagar o táxi e como disse, não vou para o hotel, talvez eu aproveite o restante do domingo para conhecer a Trafalgar Square ou Baker Street, ainda não me decidi.
— E pretende confiar no conselho de um taxista para decidir o melhor para o restante do dia, senhorita Dalton? — ele cruzou os braços. Tínhamos um embate.
— Concordo com Leo, Kate. Além de ser muito mais seguro do que pegar um táxi por aí sozinha, sem destino — Luke balançava a cabeça para concordar. Algo me dizia que ele estava tramando alguma coisa dentro daquela cabecinha enferrujada.
Óbvio! Se Próspero saísse para me levar aonde fosse, ele teria algum tempo a sós com Juliet e quem sabe ele tomasse coragem para conversar com ela?
Estava decidido! Faria aquilo por Luke.
— Está bem, Sr. Valois. Eu aceito a sua bondade desta vez.
Me despedi de Luke e prometi que mandaria fotos no natal, principalmente quando Adria estivesse bêbada e dormindo em algum sofá do apartamento. Com certeza não perderíamos o contato e eu me sentia feliz por isso. Só torcia para que Juliet não o magoasse, Luke não merecia isso.
******
Como era de praxe entre nós, bastou entrar no carro para uma atmosfera estranha reinar. Talvez não houvesse muitos assuntos que pudéssemos conversar além de irritar um ao outro.
— Onde deseja ir, senhorita Dalton?
— O que me sugere? O senhor foi meu guia na tarde de ontem e pelo visto terá um pouco deste papel hoje, Sr. Valois.
— A senhorita mencionou Trafalgar Square. Acredito que seja um lugar tranquilo para o fim de tarde e relativamente próximo para retornar para o Bristol antes de anoitecer.
— Tudo bem, irei conhecer a Trafalgar Square. Mas o senhor acha mesmo que devo voltar para o hotel antes de anoitecer? — achei graça na petulância dele. Será que ele achava que eu tinha a obrigação de voltar cedo para o hotel como se fosse uma menininha?
— É o indicado.
A resposta não me surpreendeu, mas não quis retrucar. Sabia que Próspero tinha uma imagem um pouco distorcida das minhas ações e agora levava em consideração que uma mulher comprometida não devia fazer certas coisas, segundo seu pensamento.
Perdi a chance de contar a verdade para Luke na sacada do flat, porém não conseguia imaginar uma forma de dizer para o Carma que não estava noiva. Sabia que ele me odiaria e acima de tudo, teria todos os motivos para me julgar mal como havia feito antes.
Silêncio. Às vezes tinha a impressão de que havia muito mais silêncios entre nós do que palavras, ainda mais se excluirmos nossos debates e disputas, as retóricas e irritações. Realmente não sobra muito mais para somar a lista de “coisas que já tive ou prazer/desprazer de conversar com Próspero”.
Mas naquele momento me achava na obrigação diplomática de acabar com aquele clima insensatamente chato entre nós. Subi o vidro da janela para abafar um pouco os ruídos da rua e inspirei profundamente antes de começar a falar.
— Eu preciso dizer algo, senhor Valois. Sei que sou sempre muito barulhenta e talvez isso soe como impertinência...
— De fato.
Como assim “de fato”?
— O senhor precisa concordar com tudo que eu digo?
— Quando se trata de algumas coisas, acredito que a sinceridade seja o melhor caminho, senhorita Dalton. E realmente, sua preferência por estar sempre falando, indiferente do momento ou do assunto, pode ser visto como barulho ou impertinência por alguns.
— O senhor... Me vê como uma impertinente? — era uma surpresa notar o quanto essa impressão dele estava me incomodando. Bem no fundo (no fundo, no fundo mesmo) estava torcendo para que ele não acabasse me humilhando com alguma manifestação da sua comum maneira de me vencer com as palavras. Por mais estranho que pudesse parecer, Katerina Dalton estava se importando com a opinião daquele inglês insuportavelmente irritante. E isso era inusitado.
Próspero me analisou com o canto dos olhos, sem perder sua atenção no trânsito. Foi um pequeno lapso silencioso, como se a pergunta estivesse intrigando as engrenagens dentro de seu cérebro.
— Impertinente é uma palavra um pouco forte, senhorita Dalton.
— E que outra palavra o senhor usaria então? Pelo jeito concorda que não sei ao certo quando ficar quieta.
— Se eu desejasse que ficasse em silêncio, eu pediria, Katerina. Simplesmente assim.
— Pediria?
— Certamente.
Okay. Agora eu estava surpresa. Próspero não me achava impertinente e continuou sua lógica:
— Acredito que a senhorita não sabe bem quando deve apenas ouvir e quando deve falar. Nem todas as pessoas sabem e isso faz parte de quem você é. Sua falta de travas na língua é que a faz ser a Megera, senhorita Dalton. Caso contrário, que renome a daria?
— Não consigo pensar em nenhuma mocinha Shakespeariana que se encaixe melhor nessa sua descrição de mim, senhor Valois.
— Claro que não. É o renome perfeito.
Sorrimos não um para o outro, mas fazer Próspero sorrir era um feito que eu começava a gostar de fazer. Meu dom.
O Carma mantinha seus olhos na rua e eu me distraí por um momento com um grupo de idosos tirando fotos com chapéus iguais dos da guarda real, pouco antes do carro estacionar próximo da Trafalgar Square.
O motor do carro ainda estava ligado e deduzi que Próspero apenas esperava que eu saísse logo dali e tomasse meu rumo, mas tinha que dizer algo sobre aquele dia.
— Como eu disse antes, preciso dizer algo, Sr. Valois. Preciso... Me desculpar, por todo o trabalho que tenho dado ao senhor desde ontem, sem contar todos os transtornos em Nova Iorque e os problemas que causei entre o senhor e Lucas.
Só obtive um par de sobrancelhas baixas e um olhar um pouco indefinido. Tive a impressão de que Próspero não estava entendendo o que eu dizia. Não dei muito tempo para ele dizer qualquer coisa.
— Além de ser um estorvo no seu apartamento e claramente um aborrecimento para sua prima, que eu também deveria ter me desculpado antes de sair, mas espero que o senhor transmita minhas desculpas para ela. Nós mal nos conhecemos, como o senhor mesmo disse, acho que já passou da hora de pedir estas desculpas ao senhor.
Ele desligou o motor do carro e seus dedos tamborilaram no alto do volante antes de tornar a olhar para mim, claramente medindo as palavras ou tentando ser gentil. Porque será que eu conseguia imaginar seu sotaque britânico me pedindo para sair do carro e finalmente ir embora dali para deixa-lo em paz?
Eu sei, dramático, mas muito possível, ainda mais diante do tempo que Próspero estava levando para dizer qualquer coisa. Pelos bons poetas, o hobby dele era me atazanar ou me deixar em situações constrangedoras!
— Acredito, senhorita Dalton, que a estadia em Nova Iorque teria sido deveras enfadonha se não fosse por todo o trabalho e problemas que nos causou.
Como é?
— Tem certeza? O senhor repetiu tantas vezes sobre o transtorno de sair de sua programação na América por conta de uma desconhecida...
— Realmente. Mas creio que não posso mais rotulá-la como desconhecida, senhorita Dalton. Como antes dito, a senhorita esteve em minha casa de Nova Iorque, estive em sua “toca”, lhe entreguei uma echarpe rosa nada discreta embaixo da chuva fria e agora a senhorita conheceu minha casa em Londres e meus pontos turísticos favoritos. Não dividiria isto com uma mera atendente cantora da Barnes & Noble.
— Não? — (conseguem imaginar minha cara de idiota nesse momento? Pois bem, essa é a melhor descrição possível da minha expressão de completa incredulidade com o que estava ouvindo e acreditem, ficou bem pior depois).
— Não, senhorita Dalton. Mas posso considera-la uma estranha, atrapalhada e problemática amiga americana?
— Amiga, Sr. Valois? — agora eu estava com meu melhor sorriso idiota, confesso.
— Aceita ser minha amiga, Katerina?
Próspero estendeu a mão e apanhou a minha. Se qualquer um visse aquela situação pela janela do carro, acharia que ele estava prestes a me pedir em casamento e por Santo Edgar Alan Poe (!), imaginar isso fez meu estômago congelar.
Precisava parar com aquela bobagem. Tudo aquilo era culpa de Sam, com seu discurso bobo-romântico! Agora eu estava com a respiração presa, a boca entreaberta e sem conseguir piscar; tudo por conta de uma maldita taquicardia sem fundamento!
Impossível. Eu não podia sentir uma coisa esquisita assim por um homem como Próspero... Ou podia? Ele me detestava, eu já tinha desejado que um meteoro de Kripton caísse na cabeça dele e agora seríamos amigos?
— Cla-claro. Fico honrada em ser sua amiga, Leo.
Então aconteceu aquele devastador momento, daquele que alguns escritores passam páginas de lengalenga tentando descrever e não chegam nem aos pés de ser fiéis. Não, não é nada disso que vocês estão pensando, tenho certeza. Mas eu posso adiantar que foram os segundos mais, mais... Sei lá.
As coisas começavam a ficar um pouco nebulosas para me entender também, podem acreditar.
Próspero, ou melhor, Leo olhou diretamente nos meus olhos sem nenhum vestígio daquela geleira comumente encontrada ali e sutil, suavemente e depois da forma mais doce que nunca (em toda a minha existência!) sonhei que ele fosse capaz de fazer, deu um sorriso tão lindo que conseguiu ganhar com méritos, o pódio daquele sorriso do dia anterior no Globe.
Senhoras e senhores, Katerina Dalton estava começando a ter problemas sérios e eles envolviam um inconstante, arrogante e inusitado inglês, que costumava ser bem diferente daquele que estava segurando sua mão naquele instante. Pelo visto “Próspero” havia ficado na América definitivamente.
Aquele era Leopold Thomas Valois D’Orleans. E eu estava prestes a aceitar que Samantha estava certa desde o começo.
— Bom — tossi, para quebrar aquele instante antes que fizesse alguma outra burrada qualquer na minha vida — obrigada pela carona.
Consegui me enroscar no cinto de segurança antes de abrir a porta e depois de um malabarismo desengonçado, sentir os dois pés na calçada, para a felicidade da minha dignidade. Fechei a porta do carro e Leo deu a partida. Mas também baixou o vidro da janela, se curvando um pouco para falar mais alguma coisa.
— Tenha boas festas, Katerina. E uma boa viagem de volta para Nova Iorque.
— Igualmente. Quer dizer, igualmente a parte do desejo de boas festas, não da viagem, já que o senhor vai ficar no país e não vai viajar para muito longe. Mas uma boa viagem de volta para York amanhã... Okay, estou tagarelando.
— De fato, está.
— Acontecesse com mais frequência atualmente, acredite. Não é um hábito — ri com um daqueles sorrisos típicos de filme de terror. Seria capaz de assustar uma manada de gnus com aquela boca tremendo ao invés de um riso sincero. Estava nervosa. Meus dedos estavam suando e que maldição era essa?
Kate, tome o controle de sua vida, mulher! Não se deixe submeter a uma ideia impossível, inconcebível!
— Posso fazer uma pergunta, Katerina?
— Claro. Bem, desde que não seja uma pergunta...
— Redundante, estúpida e completamente desnecessária. Talvez seja, neste caso, apenas uma mera curiosidade.
— O senhor? Curioso de alguma coisa? Talvez neve no natal, pois já é sua segunda curiosidade em dois dias!
— Apenas uma pergunta tola, se preferir assim. Gostaria de saber se leu o livro que emprestei.
— Minha nossa, eu deveria ter trazido de volta, não é? Me desculpe. Ainda não abri nenhuma página, está intacto, exatamente como o senhor me entregou — isso era verdade, diferente do resto das últimas coisas que havia dito para ele.
— Como disse, Katerina: apenas uma curiosidade. Pode enviar o livro pelo correio quando terminar. Lucas pode passar o endereço, se já não fez isso.
— Isso quer dizer que o senhor não tem planos de voltar tão cedo para Nova Iorque?
— Creio que isso seja motivo de júbilo, não? Agora não precisará mais se preocupar com os horários do seu cliente “Carma”, nem mesmo em analisar minhas predileções literárias ou qualquer outra coisa que inquietava suas quartas-feiras.
— Está errado. E por mais que tenha uma lista de bons motivos para preferir que o senhor permaneça na Inglaterra ao invés de desassossegando minha vida em Nova Iorque, tenho que admitir, embora surpresa em dizê-lo, que sentirei falta do senhor em todas as minhas quartas, na prateleira 36, com seus casacos de tweed e os livros de Shakespeare.
O que eu acabei de dizer?!
Havia uma pitada generosa de incredulidade nos olhos de Leo enquanto me encarava depois dessa enxurrada de maluquice que eu tinha acabado de dizer. Se tinha dito a verdade para ele? Cada palavra.
— Podemos então considerar nossa disputa um empate. Pois embora seja a atendente mais petulante e a pessoa mais barulhenta e problemática com quem cruzei em todo o mundo, admito que fará certa falta, Katerina.
— Pelo barulho ou pela petulância? — brinquei.
— Por você.
Recuei um passo na calçada assim que o celular de Leo tocou dentro do carro. Ele olhou a tela e guardou o aparelho, erguendo a mão em um aceno antes de manobrar o carro.
— Até logo, Katerina.
— Até logo, Leo.
******
Comprei um vestido pela primeira vez naquele fim de tarde. Para comemorar meu sorriso imbecil que insistia em ficar cansando os músculos do rosto. Nem me lembro direito qual era o nome da loja, um brechó vintage perdido no meio das ruas de Londres, depois da minha rápida visita a Trafalgar Square – que por sinal, era tão linda quanto imaginei, mas muito lotada.
Tirei algumas fotos para enviar por mensagem para Sam e junto da última delas, com uma cara de pensativa, digitei:
“PS: Samantha Russell, você nunca se engana. Beijos da Trafalgar Square-Londres”.
Caminhei todo o percurso até o hotel Bristol como se me sentisse renovada. Boba, mas renovada. Ver as luzes noturnas se acendendo por Londres, cada enfeite de natal pelas ruas, era um clima mágico sem par e que apenas contribuía para a minha felicidade passageira.
Claro, passageira. Ou existe alguma felicidade duradora na minha vida de azarada Dalton? Era só começar a pensar pelo detalhe de que muito possivelmente, nunca mais veria Leo ou Luke novamente para sentir o sorriso desbotando um pouco pelo caminho.
Tinha que me acostumar com a ideia realista.
E para completar, bastou chegar ao saguão do Bristol para o concierge, Marco, vir apressado na minha direção.
— Senhorita Katerina. Sua irmã ligou duas vezes e pediu para retornar assim que chegasse.
— Ela disse mais alguma coisa?
— Não, senhorita. Parecia preocupada.
Agradeci Marco e apanhei o celular para ligar o quanto antes para Adria. Havia uma dúzia de mensagens de Sam com emoticons, letras maiúsculas e áudios, que eu teria de escutar depois. Disquei o número de Adria com pressa, aquela sensação ruim voltando a me rondar, o pressentimento.
A ligação tocou até cair na caixa postal e assim foi todas as vezes que tentei ligar, até que o celular de Adria não tocava mais, apenas respondia com a voz estridente da mulher da caixa de mensagens. Já estava esperando pelo pior, alguma notícia muito ruim.
Em seguida bateram três vezes na porta do quarto, depois do susto, respondi:
— Não quero serviço de quarto, obrigada!
— Kate, abre logo!— era a voz de Adria. Corri para abrir a porta e abraça-la como se não a visse há séculos. Só me afastei para ter certeza de que ela não tinha nenhuma mancha, nenhum ferimento e estava inteira como sempre.
— Sua irresponsável! Nem parece que você é a irmã mais velha! Por que não atendeu esse celular? Estou ligando há mais de meia hora! Você está bem? O quê houve? Quase me matou de preocupação!
Era minha vez de fazer perguntas sem tempo para Adria responder, e ela riu, fechando a porta assim que entrou pelo quarto e tirou os saltos para se sentar na cama. Parecia cansada, um pouco triste.
— Me fala, Adria! Foi o Paolo que fez alguma coisa?
— Não, não. Meu celular descarregou, princesa. Eu estava na estrada até agora a pouco, tentando falar com você. Quando cheguei à cidade vi que estava sem nada de bateria, por isso passei aqui antes de ir para o apartamento. Eu queria conversar isso com você em um momento mais calmo, mas precisava dividir isso com a minha irmãzinha. Me desculpa por ter te preocupado tanto.
— Você deixou recado de que precisava falar comigo. Pelo amor de todos os Dalton, não me diga que é alguma coisa a ver com unhas quebradas ou vestidos manchados, Adria!
Ela riu e bateu a mão no colchão para que eu me sentasse e respirasse com calma para desacelerar.
— Relaxe, Kate. O mundo ainda não vai acabar.
— Estava com um pressentimento ruim.
— Talvez com alguma razão. Tenho notícias de casa, do papai e da mamãe.
— Você falou com Aida?— assustei. Não falava com minha mãe há muito tempo.
— Falei com a mamãe ontem cedo. Ela não estava nada feliz e ficou longos minutos discursando sobre toda a sua falta de sensibilidade com a família, gratidão, amor pelos seus pais. Você sabe, o discurso básico de Aida. Ela falou muito sobre a falta de consideração do papai em te dar o apartamento sem a permissão dela.
— Nós já sabíamos que ela não ia receber bem essa informação, não é? Aida não sabe perder, muito menos abrir mão do dinheiro da família que ela perdeu com isso.
— O problema, Kate, é que falei com o papai também. Na verdade, foi ele que me ligou mais cedo, querendo saber de você. Ele parecia preocupado e triste.
— Está acontecendo alguma coisa com ele?
Adria fez uma pausa e dava para ler em sua expressão que ali estava o motivo da sua preocupação e possivelmente de um pouco de choro. Ela era forte e durona, mas não podia lidar com qualquer coisa que deixasse Kennedy Dalton triste. Ele também era seu tendão de Aquiles.
— Vovó expulsou-o da companhia, Kate. Exatamente como previmos. Aposto que mamãe fez questão de ir até lá para contar pessoalmente que suas filhas tinham se negado a seguir com os planos matrimoniais da família, apenas para que esse desastre acontecesse.
Agora tinha um bom motivo para me sentar.
— Não achei que ela fosse ser tão desalmada. Pensei que depois de tanto tempo, já tivesse até esquecido dessa história de casamento e herança. Como ela pôde?
— Não sei, princesa. Mas papai está muito triste, mal quis conversar comigo pelo telefone, só fez algumas perguntas sobre você e desejou feliz natal. Estou com medo que ele acabe ficando deprimido ou coisa pior... O trabalho era tudo que ele tinha desde jovem, Kate.
— Eu sei. É tudo minha culpa — suspirei, escondendo o rosto entre as mãos. Sabia que a calmaria poderia acabar, mas não pensei que os Dalton fossem levar a sério a crueldade tradicionalista de apartar o familiar que não seguia os rituais ultrapassados para conseguir sua herança.
— Não diga isso, Kate. Lembra-se do que eu disse? Um dia alguém teria que acabar com essa tradição ridícula. Mas acho que agora precisamos apoiar nosso pai. Estou pensando em viajar até Nova Orleans para falar pessoalmente com aquela bruxa velha.
— Nossa avó? E no quê isso pode ajudar, Adria?
— Talvez eu consiga amolecer aquele coração duro, explicar os motivos da sua liberdade e da minha, de como as coisas mudaram...
— Ou talvez eu possa aceitar esse noivado, Adria. Pelo bem da família. É um sacrifício, mas eu posso me divorciar depois e assim as coisas continuam como estão, todos ficando em paz. Exatamente como te disse antes.
— Nem pense nisso, entendeu? Eu já planejei tudo. Vou arriscar conversar com nossa avó. Não perco nada por tentar.
Ficamos em silêncio e Adria me puxou para que eu deitasse no colo dela, onde ela podia fazer algumas trancinhas nos meus cabelos. Era fácil criar suposições antes, quando estava feliz com o apartamento e segura longe da realidade da família. Mas mesmo sabendo que meu pai poderia tentar encontrar outro trabalho, mesmo que não tão bem remunerado, a culpa voltava a me acertar por dentro da mesma forma de meses atrás, quando o casamento com Bruce ainda era uma realidade próxima.
— Você quer ir comigo para Nova Orleans, Kate? Ainda podemos passar o natal juntas na casa do papai. Ele vai adorar isso, talvez o anime um pouco.
— Não, Adria. Eu vou ficar por aqui. Paguei mais do que devia nessa viagem precipitada e não sei se consigo encarar o papai depois disso. Você tenta consertar as coisas do seu jeito e eu vou pensar no que posso fazer para ajudar.
— A culpa não é sua, Kate. Eu recusei o casamento antes de você, então me sinto bem mais culpada de não ter dado um basta quando tive a chance. Só me refugiei com um casamento fracassado, esperando que tudo desse certo e essa não foi a saída.
— Não diga isso, Adria. A culpa é dessa família torta e essas ideias absurdas. Mas vamos consertar isso, eu te garanto.
Nos abraçamos e Adria ficou comigo por mais algumas horas no Bristol. Jantamos juntas e pude contar para ela as minhas desventuras dos últimos dias pela cidade, o que a fez rir um pouco e melhorar aquele sorrisinho murcho de antes.
Quando Adria veio se despedir, fizemos um acordo de irmãs: cada uma daria o seu melhor para conseguir desfazer aquele problema, custe o que custasse. Pelo visto não eram apenas os aniversários que estavam fadados a serem ruins no meu destino — as festas de final de ano também.
No fim da noite, sozinha na minha cama macia do Bristol, olhando para o teto e tentando remontar mais um dia incomum da minha vida, despenquei em lágrimas. Tudo tinha se juntado em uma bola dentro do meu estômago e se transformado em um choro sentido, que há muito não chorava.
Estava revoltada com a bagunça que me perseguia, com essa maldição que assombrava todas as minhas esperanças de uma vida comum e tranquila, mesmo sem finais felizes. Unindo a isso minha irritação com a tristeza do meu pai, minha raiva pela postura de minha mãe e a minha completa falta de ideias de como solucionar isso; afundei o rosto nos travesseiros e torci para conseguir dormir.
Então um plano surgiu. Peguei o celular e digitei da melhor forma possível, com meus olhos embaçados de chorar:
“Estou com sérios problemas e você é a causa deles. Precisamos conversar. Me retorne quando puder.”
Não me assustei quando minutos depois o celular vibrou com uma resposta:
“Posso te ligar agora? Não estou com sono.”
“Prefiro conversar pessoalmente. Vou passar o endereço do hotel” — respondi, fungando o nariz enquanto digitava.
Parecia uma ideia maluca, desesperada, mas eu sabia que poderia dar certo se eu conseguisse uma ajuda primordial: Bruce Campbell.
Fale com o autor