Orgulhosos
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Do ponto de vista de Mai, os dias passavam com uma lentidão cruel.
O tempo lhe parecia quase estático. Horas e mais horas naquela cama, apenas encarando a janela, ou então as paredes, a TV, que nunca parecia ter nada que lhe interessasse. Aquela ociosidade forçada, somada ao efeito dos analgésicos, a deixava entorpecida.
Constantemente, quando acordava de um sono pesado e ainda desorientada, tinha a perturbadora sensação de que estava de novo na mansão de seus pais. Aquele ambiente lhe forçava a lembrar-se da sua antiga vida; todo o luxo, a rigidez de Samantha eram exatamente como ela lembrava dos empregados de seu antigo lar. Ainda que a palavra lar parecesse muito errada para se referir àquele lugar, para ela era mais semelhante a uma prisão.
As memórias de sua família nunca estiveram tão vivas, em todos os três anos desde que escapou, quanto estavam nesses dias na mansão Kaiba. Era-lhe perturbador o fato de estar ali, na casa de Seto Kaiba. Além de ele ser quem era, todas as memórias que aquele ambiente despertava lhe eram insuportáveis, e já havia coisas suficientes a perturbando.
A rotina que tinha no Doma ainda era muito familiar, toda a agitação daquela organização, Valon sempre ao seu lado, se esforçando diariamente para aproximar-se dela.
Lembrar-se dele costumava trazer-lhe um desconforto sutil. O modo como ele a tratava, todo seu empenho em protegê-la. Não fazia sentido Valon se importar tanto. Ela sempre acabava irritada com ele; não parecia certo ele desperdiçar seus sentimentos com alguém como ela. O modo como ele a protegia sem seu consentimento era insuportável, a intensidade dele era sufocante. Ela não sabia o que fazer com toda aquela afeição tão crua, direta, e justamente por isso não conseguia simplesmente ignorá-la.
Ainda que as ações dele por vezes fossem invasivas, algo parecia errado sem ele. Mesmo que o Orichalcos a intoxicasse com pensamentos amargos, intensificando sentimentos mesquinhos, toda a inveja e a fraqueza que a haviam levado a se voltar contra seus amigos, sua mente parecia lhe atormentar menos quando ele estava por perto. Como se a presença dele, por mais incômoda que fosse, ainda a impedisse de afundar completamente nisso.
Frequentemente, quando seus pesadelos com Marik lhe assombravam, era ele que, ao ouvir seus gritos, lhe acordava, tentando lhe acalmar e convencê-la de que aqueles eram apenas sonhos e que ela estava segura. Ele havia até trocado de quarto para sempre conseguir ouvi-la, um gesto que ela nunca pediu, mas que também nunca recusou.
Valon havia visto-a em seus piores momentos, estivera sempre ao seu lado. Mesmo o tratando mal, ele sempre voltava, não importava o que ela fizesse, como se nada do que ela dissesse fosse suficiente para afastá-lo de verdade.
— Idiota... você não deveria... — as palavras escaparam, enquanto ela encarava um ponto qualquer no quarto.
Quando batidas soaram na porta, Samantha entrou com uma bandeja com comida e os remédios. Encontrou Mai encarando as janelas com uma expressão vazia, tão absorta nos próprios pensamentos que não notou a mulher imediatamente.
— Bom dia! — Samantha a cumprimentou, se aproximando com a bandeja.
Mai logo se virou para a mulher, com pouca inclinação a ser cordial naquela manhã. Após quatro dias tolerando a falta de explicações, o modo como ela se esquivava de responder suas perguntas, Mai finalmente tivera o suficiente, e a irritação que antes era difusa agora encontrava um alvo claro.
— Pode levar isso embora, eu não estou interessada em comer. — ela disse com firmeza, apesar da voz fraca.
Samantha suspirou cansada, mesmo sentindo o olhar frio de Mai sobre si, ela seguiu com a bandeja, depositando-a sobre o colo de Mai.
— Você precisa comer, precisa ter algo no estômago para tomar a medicação… além disso, você não tem comido o suficiente.
Mai sabia que ela tinha razão, sentia o corpo mais fraco do que deveria, dadas as circunstâncias, e isso só tornava sua própria resistência mais irritante até para si mesma. A questão é que não tinha tanto apetite, ou qualquer disposição. E, apesar disso, ela vinha se esforçando para comer, tomando os remédios, esperando com alguma paciência pelo momento em que lhe seria explicado o porquê de ela estar naquele lugar. Contudo, a intenção de Kaiba parecia ser a de simplesmente a deixar por ali, sem nenhuma explicação, como se a presença dela ali fosse algo que não exigisse justificativa alguma.
— Não tem problema, também não tenho intenção de tomar esses remédios. — Mai explicou com certa irritação, empurrando a bandeja para longe de si. — A única coisa que eu preciso é de respostas.
— Senhorita, você não pode…
— Não adianta insistir. — disse, interrompendo-a, o tom de voz subindo junto com a irritação que ela sentia. — Já chega de ser tratada como uma criança, eu quero uma explicação. Antes de ter uma, não vou tocar mais na comida.
Samantha engoliu em seco, percebendo que não conseguiria fazer muito sobre aquilo. Não havia saída, teria que contar a Seto Kaiba.
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Quando Seto chegou na mansão, já era tarde, toda a casa estava silenciosa e Mokuba provavelmente já dormia.
Ele subiu direto para seu quarto, planejando tomar um banho e ir logo dormir. Sua mente já calculava o que faria no dia seguinte, enquanto tirava o relógio caro do pulso.
Ainda havia algumas das ações da KaibaCorp para serem recuperadas; o Doma e Dartz já haviam desaparecido, mas ele ainda lidava com as consequências.
Tirou o paletó e o depositou na cadeira, já se preparava para tirar a gravata quando ouviu batidas na porta. Ele ficou surpreso; não esperava ser incomodado.
— O que foi? — ele logo perguntou, ao abrir a porta e deparar-se com Samantha.
— Me perdoe por incomodá-lo a essa hora, Sr. Kaiba. — ela se desculpou, parecendo um pouco hesitante. — É a senhorita Mai, ela não está cooperando. Eu tentei, mas…
— Seja mais clara, Samantha.
— Ela já estava se alimentando mal, mas agora está se recusando a comer e a tomar a medicação. Ela quer saber por que está aqui na mansão e não em um hospital.
— Cuidarei disso. — ele disse após refletir por alguns segundos.
Samantha assentiu e saiu silenciosamente.
Seto saiu em seguida e caminhou pelos corredores até alcançar o quarto onde sua hóspede estava. Não era um quarto longe do seu, de modo que seria fácil para ele saber se ela causasse algum problema, como se a proximidade fosse uma forma de controle preventivo.
Ele abriu a porta sem cerimônia, sua presença rígida preenchendo o espaço. Logo que fechou a porta, seus olhos se encontraram com os de Mai, e eles se encararam por alguns segundos.
Logo sentiu o olhar afiado de Mai sobre si; ela parecia estar esperando. Notou a palidez dela, e ainda assim a firmeza do olhar, que não cedia nem mesmo naquele estado.
— Então... — ela quebrou o silêncio. — finalmente decidiu aparecer.
— Fui informado de que você está se recusando a se alimentar. — ele respondeu enquanto se aproximava.
— Preciso de explicações, é meu direito saber por que eu estou aqui. — ela disse com a voz firme.
— O seu acidente foi causado por uma demolição feita pela KaibaCorp. — explicou, o tom técnico e direto. — A responsabilidade legal recai sobre mim.
— Mas aquele prédio era do Dartz, a sede do Doma, por que... — ela comentou, confusa.
— A KaibaCorp o comprou depois de tudo. — ele disse, interrompendo-a.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Então deu uma risada curta, incrédula.
— Claro. — os olhos dela cintilavam de indignação. — É como no final da Batalha da Cidade, destruindo prédios por puro capricho.
A expressão dele endureceu.
— Cuidado com o que está insinuando, Valentine.
— É a verdade. — a voz dela subiu. — Me machuquei por sua culpa, por essa sua necessidade infantil de transformar tudo em um espetáculo.
O ar se tornou mais tenso, e o olhar dele se tornou ainda mais frio.
— A área já havia sido evacuada, você não deveria estar lá. — argumentou, com um fio de irritação.
— Não tente colocar a culpa em mim, não tinha nenhum aviso.
Seto demorou um instante a mais para responder; realmente não poderia jogar a responsabilidade toda nela.
— Eu não estou tentando te culpar. — ele disse, retomando a frieza habitual.
— Não importa. — ela respirou fundo, lutando para ignorar a irritação que sentia. — Não faz diferença se foi sua culpa, eu só quero ir embora daqui. Eu deveria estar em um hospital.
— Não. — ele respondeu imediatamente. — Não vou correr o risco de a imprensa descobrir que a KaibaCorp é responsável por uma garota machucada, eles não precisam de mais munição.
— Pode ficar tranquilo, eu não planejo causar problemas. — ela disse, cansada, apenas desejando ir embora dali. — Não vou contar a ninguém que meu acidente foi culpa da sua empresa, ...ou melhor, culpa sua. Eu só quero ir embora daqui.
— Você é instável e impulsiva. Age antes de pensar. Não posso me dar ao luxo de confiar em você. — ele disse num tom neutro.
Os olhos dela estreitaram, a irritação a atingindo.
— Você não pode estar falando sério.
— Ficará aqui até se recuperar completamente. Depois assinará um termo garantindo que isso não se tornará um problema. — explicou calmamente.
O silêncio que se seguiu foi elétrico.
— Você não tem o direito de me manter aqui. — ela disse finalmente, tremendo de fúria.
— Não faça drama desnecessário. — ele disse simplesmente. — Aqui você está mais confortável do que em um hospital, está segura. Samantha se certificará de que você tenha tudo que precisar. Recupere-se e isso termina.
— Drama desnecessário? — ela repetiu, incrédula, a voz trêmula não de medo, mas de indignação. — Você não pode me obrigar a ficar aqui!
— Posso. — a resposta foi fria, simples e definitiva.
Aquilo foi o suficiente para fazê-la perder o pouco controle que tentava manter.
Mai afastou as cobertas bruscamente, ignorando o latejar constante no tornozelo. Se ele achava que poderia mantê-la ali contra sua vontade, estava enganado.
— Eu não sou sua propriedade. — disse entre os dentes e se levantou.
Por alguns segundos, sentiu uma pontada de vitória, estava de pé. Então, o pé machucado tocou o chão. A onda de dor a atingiu com violência e ela sentiu suas forças desaparecerem.
A visão perdeu o foco. Os joelhos falharam e o corpo se inclinou para frente. Ela fechou os olhos, preparando-se para o impacto contra o chão, para a humilhação completa.
Mas, antes que ela perdesse completamente o equilíbrio, Seto se moveu instintivamente. O braço envolveu a cintura dela no exato momento em que os joelhos falharam. A outra mão subiu automaticamente para sustentar suas costas.
Não houve queda, apenas choque.
Ela ficou suspensa contra ele, o corpo praticamente encaixado ao seu. A camisola fina não era barreira suficiente contra o calor que emanava dele. O peito dele subia e descia de maneira controlada demais para alguém que acabara de agir por impulso, como se o controle tivesse sido retomado no mesmo instante.
Seto percebeu que a respiração dela estava irregular. O rosto pálido. Os olhos, fechados por um instante, tentando recuperar o equilíbrio.
Então Mai finalmente abriu os olhos e se deparou com o rosto dele, a centímetros do seu.
A proximidade era sufocante. Ela foi envolvida pelo calor do corpo dele e pelo perfume caro, metálico. Notou que o olhar dele parecia diferente, menos cortante, mais atento do que deveria. Ele parecia estar analisando-a.
— Você está be… — Seto deixou escapar, num tom mais baixo, menos afiado.
Ele se impediu de terminar, notando o tom que usava. A consciência da proximidade, o calor do corpo dela sob o tecido fino da camisola finalmente o atingindo com clareza indesejada.
Ele se recompôs imediatamente.
Mai notou a mudança na postura, agora sentindo ainda mais raiva da situação.
— Me solta. — sussurrou, a voz baixa e cortante, mais ofendida pela própria fraqueza do que pelo toque dele.
— Pare de agir como uma criança. — ele respondeu, baixo, controlado.
Sem pedir permissão, ele a ergueu com firmeza calculada, ajustando o peso dela como se estivesse ajustando algo fora do lugar. Caminhou os poucos passos até a cama e a colocou de volta sobre o colchão. Não houve delicadeza excessiva, apenas o cuidado necessário.
— Esse tipo de atitude só confirma meu ponto. — ele disse enquanto se afastava um passo.
Mai o encarou cheia de fúria, sentindo o orgulho arder mais que a dor física.
— Você ficará aqui. — ele continuou, categórico. — Até estar fisicamente apta para sair. E até que eu tenha garantias de que isso não afetará a KaibaCorp.
Cada palavra parecia uma sentença, e o silêncio que se seguiu foi denso.
Então, como se lembrasse de algo, ele se voltou para o criado-mudo. Pegou a bandeja com a sopa que Samantha havia deixado mais cedo. Aproximou-se novamente da cama e, sem aviso, depositou-a sobre o colo dela.
A proximidade repentina a fez prender a respiração.
Ele ainda segurava a bandeja quando se inclinou levemente, o rosto perigosamente perto do dela.
— Coma. — disse, baixo, firme, os olhos azuis fixos nos dela. — A não ser que queira passar mais tempo aqui do que o necessário.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele soltou a bandeja e se dirigiu para a porta, saindo do quarto.
Mai observou a bandeja; suas mãos foram até ela, e uma delas pegou a colher.
— Bastardo! — a palavra escapou ao mesmo tempo em que ela atirou o objeto na direção da porta, fazendo o barulho ecoar no quarto. — Eu não vou aceitar isso.
Mai ficou observando a porta por alguns instantes, a respiração ainda pesada, o peito subindo e descendo rápido demais para alguém que queria parecer no controle. A raiva ainda queimando. Odiava estar tão vulnerável, mas, mais do que isso, odiava aquele homem que achava que podia tomar decisões por ela.
Ela olhou para a bandeja e a afastou de si, ajeitando-se na cama com um movimento brusco. O tornozelo lhe incomodou com mais força, mas a dor não era o pior daquela situação, não era nem o que mais a irritava naquele momento.
Era a incapacidade de ir embora dali, como faria em circunstâncias normais. Estava presa naquela maldita casa, tudo por causa daquele bastardo controlador, e do próprio corpo que agora se recusava a obedecer.
Tudo ainda era muito nítido: a proximidade, as mãos dele firmes demais para serem ignoradas, o modo como ele a segurou sem hesitar. Por um instante ele parecera genuinamente preocupado com ela, o que só tornava tudo mais insuportável.
Ela fechou os olhos por um segundo, como se pudesse apagar a sensação ainda presente na pele, mas aquilo não desapareceu. O calor, a firmeza, a forma como ele se recompôs logo em seguida, como se nada tivesse acontecido, como se ela fosse apenas mais um problema a ser resolvido.
Os olhos se abriram novamente, agora mais duros.
Aquilo não significava nada. Não podia significar.
Ela virou o rosto para o outro lado, recusando-se a olhar para a porta, recusando-se, sobretudo, a reconhecer o quanto aquilo a tinha abalado.
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Seto retornou ao próprio quarto sem diminuir os passos. O som seco de algo atingindo a porta ficou para trás no corredor, abafado pela distância e pela decisão deliberada de ignorá-lo. Não precisava confirmar o que havia sido. Conhecia bem o temperamento de Mai para imaginar.
Enquanto atravessava o corredor amplo da mansão, sua mente já reorganizava prioridades. Projetos, contratos, relatórios pendentes. Era assim que funcionava: compartimentar. Separar o que era útil do que era ruído.
Tomou um banho demorado, deixando a água quente escorrer pelos ombros tensos. Não porque estivesse exausto, Seto Kaiba raramente admitiria algo tão banal, mas porque precisava silenciar a sensação incômoda que insistia em permanecer desde o quarto dela. A imagem de Mai quase desmaiando em seus braços surgia com uma nitidez indesejada, persistente demais para ser ignorada com facilidade.
Vestiu-se para dormir com a mesma precisão de sempre. Movimentos calculados e controlados.
Quando se sentou na cama, o olhar foi automaticamente para o relógio no criado-mudo. 23h47. Ainda havia coisas a revisar pela manhã. Contudo, algo ao lado do relógio interrompeu o fluxo previsível de seus pensamentos.
Uma pequena caixa de couro.
Ele a encarou por alguns segundos antes de decidir pegá-la. Sabia exatamente o que era. Não deveria estar ali e, ainda assim, não a devolvera.
Abriu a tampa e, de imediato, uma mistura de perfumes suaves vindos das cartas o atingiu.
— A estratégia de aromas. — ele concluiu, recordando-se de quando analisara seu perfil de duelista durante a Batalha da Cidade, quando ela era uma oponente em potencial.
Não compreendia como qualquer duelista decente pudesse cair em um truque barato daqueles, mas, considerando que era uma garota como Mai que o usava, fazia sentido.
Seto passou os dedos pelo baralho, percorrendo-o carta por carta com a agilidade de quem reconhece padrões em segundos. Era uma estratégia agressiva, técnica coerente. Não havia improviso, era algo montado com cuidado e cálculo.
Fechou a caixa e a guardou na gaveta do criado-mudo com firmeza, mas não conseguiu impedir que as lembranças viessem.
O duelo contra Marik. Ela esteve a ponto de vencê-lo, sua ruína fora tentar usar o Dragão Alado de Rá sem ter conhecimento de toda a complexidade por trás da carta. Não havia dúvidas de que ela era uma duelista competente, porém muito emocional, fora vencida pelo jogo psicológico de Marik.
E depois… o corpo caído.
A imagem dela inconsciente na arena surgiu com uma clareza desconfortável. Naquele momento, ele apenas ordenara que a retirassem do caminho. Seu próprio duelo contra Ishizu Ishtar precisava começar. Prioridades.
Sempre prioridades, mas agora a situação era diferente.
Dessa vez, não poderia simplesmente removê-la de seu caminho, como um obstáculo qualquer. Aquela garota estava machucada por sua causa, não era mais alguém que pudesse simplesmente descartar. Ainda que não fosse proposital, a responsabilidade pelo acidente era sua. A KaibaCorp, não. Apenas ele.
Se não fosse o acidente, jamais estaria sob seu teto ou sequer precisaria interagir com ela. Ele não saberia sobre todas as mentiras que ela contara.
Não teria visto o olhar dela tão de perto. Tão desafiador.
No passado, já haviam se cruzado superficialmente. Durante a Batalha da Cidade, ele a avaliara como uma possível adversária. Uma duelista competente, nada além disso.
Jamais previra a hostilidade direta, nem a insolência quase imprudente.
Ela não demonstrava medo. Não o tratava com respeito. Não parecia impressionada por seu nome ou por sua posição na KaibaCorp. Pelo contrário, desafiava-o como se ele fosse apenas… um homem.
Não reconhecia o fato de estar ali por decisão dele, sob condições que a mantinham segura e em recuperação.
E isso o irritava.
Ela deveria, no mínimo, ceder diante disso. Mas não. Em vez disso, o confrontava. Acusava-o. E essa resistência contínua, quase obstinada, tornava sua presença mais difícil de ignorar do que seria razoável.
As palavras dela ecoaram outra vez em sua memória. Ele realmente não tinha o direito de mantê-la ali. Sabia disso. Legalmente, moralmente, pouco lhe importava. E, para Seto Kaiba, capacidade sempre fora sinônimo de legitimidade.
Ainda assim, a consciência dessa linha tênue entre poder e imposição o incomodava de maneira inesperada. Mai se tornara um problema no instante em que se ferira por causa dele, e permanecia como tal enquanto não fosse resolvido. E ele não deixaria problemas sem solução.
O que o incomodava era como parte dele reagia com um interesse injustificável cada vez que ela o desafiava e desrespeitava.
Seto recostou-se na cabeceira, o olhar fixo no teto escuro. A lembrança voltou sem sua permissão: sua própria agilidade ao salvá-la da queda, o calor do corpo dela contra o seu.
Ele fechou os olhos, como se pudesse encerrar também aquele pensamento.
Mai Valentine não passava de uma distração temporária, um problema como qualquer outro.
Ele resolveria, como resolvia tudo. E não havia motivo para aquilo ocupar mais espaço do que o necessário.
E, no entanto, algo resistia à própria conclusão.
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