Orgulho e negação
3 Let Her Go
Notas iniciais
#hoje
~ Dani ~
Continuei olhando para a mesa ao lado até que ele levantou o olhar e me encarou. Senti algo estranho, mas mantive o olhar firme. Apesar de todas as memórias boas que aquele olhar me trazia, eu jamais esqueceria aquela noite.
– Vocês se conhecem!? – fui despertada pela voz da garota ao seu lado sem conseguir entender se era uma pergunta ou uma acusação – Prazer, me chamo Carla.
– Daniela. Nós... estudávamos juntos.
– Então você deve conhecer o Mat, certo?
– Mat? Claro. – sorri ao me lembrar de todas as nossas aventuras, seus comentários engraçados e de como continuamos a manter contato mesmo depois de tudo.
– Eu sou amiga dele.
Estava me segurando para não perguntar se sua relação com Pedro também era apenas amizade, não que eu me importasse, claro que eu não me importava. Certo?
– É...
– Oi.
Olhei para a direção da voz e notei que Gustavo havia chegado com a nossa comida, não poderia ficar mais aliviada em ver ele, rapidamente puxei o refrigerante da bandeja, enfiei o canudo e o coloquei na boca. Tentei me concentrar na bebida até perceber que todos me olhavam, finalmente percebi que devia fazer as apresentações.
– Gustavo, esses são Carla e Pedro. Esse é o Gustavo.
Os três trocaram apertos de mão e Gustavo sentou com a cadeira meio inclinada em sua direção, que eles não fizessem o que eu estava pensando. Não. Por favor.
– Sentem aqui, tem bastante espaço para todo mundo. – Carla falou o que eu temia apontando para as duas cadeiras em sua mesa.
Antes que eu pudesse protestar notei que Gustavo se levantou e caminhou para um lugar entre Pedro e Carla. Ele acenou para que eu me juntasse a eles enquanto Carla puxou Pedro que estava na sua frente para o seu lado. Dessa forma, ficou apenas uma cadeira vaga para mim entre Pedro e Gustavo.
Eu tinha 3 opções: simular um ataque cardíaco, rezar para que um raio caísse sobre a minha cabeça ou participar de um dos momentos mais constrangedores da minha vida. O primeiro era uma péssima idéia, a pessoa que eu desejava evitar era estudante de medicina e tentaria me ajudar, abriria minha blusa e... definitivamente a pior opção. Já o segundo, eu poderia até ganhar super velocidade como o Flash, ok, escolho essa sem dúvidas e...
– Dani? Está tudo bem?
Percebi que todos me olhavam mais uma vez e sorri para Gustavo enquanto ocupava meu lugar e continuava a esperar pelo raio, é claro.
~Pedro~
Todos começamos a comer quase de forma imediata, ainda bem que ainda não havia precisado falar nada mas, de vez em quando minha mão quase esbarrava na dela quando íamos pegar algo na bandeja e nossos olhares se cruzavam, mesmo não demorando mais do que alguns segundos um no outro.
– Então, vocês se conhecem há muito tempo?
O garoto que descobri se chamar Gustavo perguntou esperando que um de nós dois respondêssemos, ela rapidamente mordeu o hambúrguer e fingiu estar muito ocupada mastigando.
– Nos conhecemos ano passado, no primeiro dia de aula do segundo semestre do terceiro ano, dia 3 de agosto.
Notei que nesse momento ela me olhou com cara de espanto com as bochechas cheias de comida e não pude deixar de sorrir, fazendo com que ela ruborizasse, como senti falta daquilo.
– Licença, tenho que atender.
Carla levantou e fiquei ali sem saber o que falar ou fazer, nunca fui bom em puxar assunto, mas eu tinha que perguntar aquilo.
– E vocês? Faz quanto tempo?
– Que a gente se conhece ou que namora?
As palavras de Gustavo me fizeram engasgar por um momento. Como assim “namoram”? Desde que o vi na fila imaginei que pudessem estar saindo juntos ou qualquer coisa do tipo, não namorarem. Será que ela gostava tanto assim dele? Eu sabia que ela tinha certa resistência a isso de namorar, ela sempre deixou bem claro. E, claramente, ele não a conhecia o suficiente, o pedido não me deixou nenhuma dúvida disso.
– Os dois, eu acho.
– Faz alguns meses. A gente se conheceu na faculdade. E, a gente não namora, ainda.
Senti um misto de alívio e irritação, principalmente com aquele “ainda” e o sorriso que ele deu para ela ao falar aquilo. Ela sorriu de volta ,mas, de uma maneira meio forçada e se levantou.
– Preciso ir ao banheiro, licença.
~Dani~
Abri alguns botões da minha blusa e amarrei o cabelo enquanto passava água no meu pescoço tomando cuidado para não molhar nada, eu sempre suava quando estava nervosa e odiava isso. Odiava ainda mais estar nervosa. Encarei aquela garota no espelho, treinei o meu melhor sorriso de “definitivamente não sinto a sua falta e você não me afeta de forma alguma com suas lembranças”, ainda bem que eu era uma ótima atriz quando o assunto era improviso. Soltei os cabelos, alinhei a roupa e já ia caminhar até a porta quando senti meu celular vibrar: “Estamos na pista de gelo”, era tudo que a mensagem de Gustavo dizia.
Cheguei lá enquanto procurava os três com os olhos e vi apenas os dois garotos encostados na grade e conversando, os dois tinham quase a mesma altura e eram de certa forma muito parecidos e muito diferentes ao mesmo tempo. Gustavo tinha o cabelo cortado em estilo militar, lindos olhos azuis, uma postura relaxada e um sorriso preguiçoso que era quase constante; há alguns meses, se tivessem me pedido para descrever o meu “tipo perfeito”, ele definitivamente atenderia mais que 90%. Já Pedro, possuía um cabelo escuro que sempre parecia precisar de um corte e ficava caindo sobre olhos que eram quase tão negros quanto seu cabelo e costumava aparentar que sempre estava pensando em algo.
– Dani, estamos aqui.
Caminhei na direção dos garotos enquanto procurava por Carla entre as pessoas que patinavam.
– Onde está a Carla?
– Ela teve que ir, alguma coisa com a avó dela.
Aquela foi a primeira vez que de certa forma “conversamos” naquele dia, exceto pelo falo de que aquilo não havia sido uma conversa. Eles retomaram o assunto, algo sobre hospitais, revirei os olhos e fiquei observando as pessoas que patinavam ao som de alguma música que eu não conhecia até que Pedro percebeu o que eu fazia.
– Você quer patinar, não é?
– Patinar? Isso é para crianças. Não vejo a hora de entrar nessa pista.
Ambos riram enquanto eu estendi minha bolsa para Gustavo e corri até a moça que entregava os patins, a proteção e explicava todas as recomendações. Quando terminei de ajeitar tudo e verifiquei o capacete mais uma vez, notei que uma de minhas músicas favoritas havia começado a tocar (Let her go – Passenger).
~Pedro~
Continuamos a conversa, aquele garoto parecia entender muito de medicina, parece que sua mãe era médica. Porém, agora que Dani estava começando a patinar ficava um pouco difícil prestar atenção no que ele falava. Observei todos os seus movimentos, sua leveza, estava encantado. Até que percebi a música que tocava, aquela cuja letra me assombrou por meses.
“Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir
E você a deixou ir...”
– Tenho que ir.
Levantei e deixei o garoto sozinho com uma cara confusa. O que diabos havia acontecido? Eu havia mesmo a deixado ir? Será que eu poderia ter feito algo? A cada dia me convencia mais de que o meu orgulho estragara tudo.
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