Orgulho e Vampiros
2 Flores de aço
Duas semanas se passaram, e a casa estava cada vez mais cheia. Primos, tias, velhas conhecidas de minha mãe — todos chegavam com malas, histórias, risos forçados e expectativas em excesso para a cerimônia. As criadas corriam de um lado para o outro, e a cozinha exalava cheiros de bolos, carnes e tensão. Gente entrando, saindo, falando alto, rindo alto... e comendo como se fosse a última ceia. Minha mãe estava num estado de nervos. E, claro, ainda não tinha escolhido o vestido.
— O azul lavanda me envelhece. O ameixa parece luto! — ela resmungava pela milésima vez, enquanto rodeava o espelho da sala como uma coruja em vigília. — Talvez eu mande buscar um novo em Port... Sim, algo que diga “importância”, mas sem parecer que estou tentando demais.
— Talvez diga apenas “desespero”, mãe — murmurou Rosalie, sem levantar os olhos do bordado que costurava com precisão militar.
Rosalie permanecia imperturbável. Alta, de postura impecável e beleza quase escultural, era o retrato perfeito de uma noiva nobre. Sua pele era alva como porcelana, seus cabelos dourados sempre arranjados com perfeição, e seus modos... bem, seus modos eram afiados como agulhas escondidas em seda. Rosalie não se emocionava — ela calculava.
— Espero que o capitão Emmett saiba no que está se metendo — cochichei para mim mesma, do sofá.
— Eu ouvi — disse ela, sem desviar os olhos. — E sim, ele sabe. E está mais do que disposto.
Antes que mais uma briga silenciosa se instaurasse, ouvimos o barulho das rodas da carruagem no cascalho da entrada. Alguém havia chegado.
— Ai, não... — suspirei, reconhecendo a voz esganiçada antes mesmo de vê-la.
— Isaaaa! — Jessica Stanley desceu da carruagem praticamente pulando, com um chapéu torto e um sorriso escandalosamente largo. — Pensei que nunca voltaria de Port Angeles!
— Que decepção, né? — brinquei, indo ao seu encontro.
Ela me abraçou como se nos separássemos há décadas, e não apenas uma estação.
— Me conta tudo! Os bailes, os vestidos, os rapazes! Você dançou com algum conde? Alguém te pediu em casamento? Recebeu cartas apaixonadas?
— Só de livreiros — respondi, rindo. — E de uma senhora que queria me apresentar ao filho dela, que parecia um sapo com casaca.
Mike, o irmão dela, desceu logo depois, ajeitando a gravata e olhando em volta como se Forks fosse o fim do mundo.
— Isso aqui ainda cheira a terra molhada e tédio — disse ele, meio ranzinza.
— Isso é porque é terra molhada e tédio, Mike — respondi. — Bem-vindo, primo.
Ele me lançou um meio sorriso e, então, soltou, como quem não quer nada:
— E vocês souberam dos assassinatos?
O salão ficou em silêncio por um segundo.
— O quê?! — perguntou Jessica, com os olhos arregalados.
— Três pessoas mortas nas últimas duas semanas, aqui em Forks. Um guarda, um cocheiro e uma criada. Todos encontrados sem uma gota de sangue no corpo. Literalmente. Como se tivessem sido drenados.
— Ai, por favor, Mike! — protestou minha mãe, que acabava de entrar com um pratinho de biscoitos. — Isso são histórias pra assustar crianças.
— É verdade — ele insistiu. — Estão dizendo que pode ser um animal selvagem. Ou algo... mais estranho.
— Ah, pronto — resmungou Rosalie. — Agora ele vai sugerir que é um fantasma ou um demônio.
Mike ergueu as mãos, teatral.
Jessica, percebendo que o clima estava mais pesado do que vestido de veludo no verão, tentou mudar de assunto do jeito mais sutil que conseguia (ou seja, nada sutil):
— Ouvi dizer que um duque foi morar ao lado da sua propriedade, Bella... — disse ela, com a voz cheia de intenções e sobrancelhas saltitando.
Mike revirou os olhos tão forte que quase caiu da cadeira.
— Ah, não! Lá vem o delírio romântico...
— Não é delírio, Mike, é informação privilegiada! — rebateu Jessica, batendo o leque no joelho. — Minha mãe contou que ele herdou a propriedade dos Cullen, aquela mansão escondida entre as colinas, lembra?
— Lembro de ser assombrada, não herdada — murmurou Mike, cruzando os braços. — Aposto que ele é outro nobre falido fingindo ser importante.
— Ele é um duque de verdade! — Jessica insistiu. — Jovem, bonito, solteiro... e dizem que fala italiano fluente.
— Deve ser porque é italiano — Mike fez uma careta e virou para mim. — Sério, Bella, você devia tomar cuidado. Esta cidade não está mais segura como antes.
— O que o Mike quis dizer é que alguém deveria aproveitar que está cercada por homens bonitos e se comprometer. Assim, não vai mais andar por aí sozinha.
— Os mortos ou os vivos? — perguntei, fingindo inocência.
— Os vivos, de preferência! — respondeu Jessica, arregalando os olhos. — E, de preferência, os solteiros, com títulos, posses e, se possível, uma biblioteca particular.
— Aí sim — Rosalie disse baixinho, sem tirar os olhos do bordado. — Pelo menos algo útil.
Mike bufou e levantou da cadeira.
— Não sei o que é pior, o tédio de Forks ou os sonhos de vocês com rapazes.
Na parte da tarde, a casa se transformou em uma espécie de clube fechado. Meu pai, animado como raramente se via, preparou um “lanche de cavalheiros”, como ele chamava. O que, na prática, significava uma mesa abarrotada de queijos fortes, carne fria, charutos e bebidas caras que ele só abria quando queria impressionar.
Os convidados eram todos homens — primos, vizinhos, amigos de infância de sobrancelhas grossas e vozes graves, além de dois senhores que ninguém sabia exatamente de onde vieram. Mas o grande evento do dia, claro, era a presença do duque.
Sim, o duque.
Quando ouvi o criado anunciar seu nome no salão, seguido da comoção sutil — aquele tipo de silêncio que faz barulho —, senti a espinha gelar.
— Ele veio! — sussurrou Jessica, praticamente pulando ao meu lado, com o leque tremendo nas mãos. — Você acha que ele vai falar comigo?
— Acho que ele mal lembra que você existe — murmurei, antes de perceber que havia falado em voz alta.
Ela me lançou um olhar mortal. Revirei os olhos.
A verdade era que eu não suportava a ideia de vê-lo ali, entre os convidados, agindo com falsa polidez, encarando meu pai como se ele fosse uma figura de circo. Depois de tudo. Depois do que ele disse. Depois do que havia acontecido na capela.
Então, decidi escapar.
— Mãe, não estou me sentindo muito bem — anunciei, levando a mão à testa, teatral.
— Ah, não diga que pegou o que a prima Elinor teve... — ela murmurou, distraída, mexendo no chá.
— Pode ser... vou tomar um ar no jardim.
Ela assentiu sem olhar. Perfeito.
Saí pela porta lateral e fui direto para o jardim dos fundos, onde as rosas recém-podadas exalavam aquele cheiro doce e amargo de fim de tarde. O ar fresco fez bem — ou teria feito, se eu não tivesse encontrado ele de novo.
Edward estava ali.
De pé, próximo à pérgula de heras, com uma taça de cristal ainda na mão, olhando para o céu como se estivesse medindo o tempo pelo movimento das nuvens. Não fez menção de sair quando me viu. Nem de falar. Só me olhou.
Fiquei parada. Por um instante, considerei dar meia-volta. Mas havia algo nele — uma pergunta não dita, um olhar faminto e contido — que me prendeu ao chão.
— Inventando indisposição também? — perguntei, por fim.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Eu diria... evitando multidões.
— Ah, então somos dois.
— A diferença é que tenho uma garota me vigiando da janela.
Virei o rosto, e lá estava Jessica, espiando atrás da cortina de renda. Abaixou no mesmo instante, mas era tarde demais.
— Ela acha que você é um príncipe disfarçado. Com poderes mágicos e uma biblioteca secreta.
— E você? O que acha que sou?
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