Orgulho E Amor
1 Orgulho e Amor
O Sangue Negro e Azul foram criados e fundados por dois irmãos que se odiavam, mas que eram muito inteligentes, inteligentes o suficiente para perceber que separados era uma situação muito pior do que juntos, assim como as suas associações. Uma dependia da outra para manter o equilíbrio entre os assassinos e caçadores. Então, no inicio ambas associações viviam no mesmo prédio. Assassinos e caçadores se encontravam todo o tempo e por essa razão sua relação podia chegar até amizade, porém nada além disso. A relação amorosa entre eles era proibida não apenas para evitar brigas futuras, mas também evitar a união entre as associações, evitar que elas se tornassem uma. Mesmo que esta fosse uma das normas mais importantes, a maioria não ligava para ela principalmente os líderes. O ódio que assassinos e caçadores nutriam um pelo o outro nunca os permitiu cruzar a linha até que duas pessoas totalmente opostas resolveram se apaixonar e quebrar as regras.
- Qual é o seu sonho, Lara? – a garota desviou a sua atenção do livro que segurava e olhou para o garoto que lhe dirigiu a palavra. Ele era alguns centímetros mais alto que ela, aparentava ter 25, tinha cabelo curto, desarrumado castanho e um maravilhoso par de olhos castanhos.
- Gabriel, seu miserável! – ela bateu o livro na cabeça dele. – Quem mandou você crescer mais ainda? Só se passaram quatro dias desde a última vez que nos vimos e você cresceu mais cinco centímetros?! Isso é um absurdo!
- Para de viajar. – ele afastou o livro. – E não mude de assunto.
- Eu não estou mudando de assunto. – ela fez bico. – Apenas acho que o fato de você ser mais alto do que eu ser muito mais importante que a resposta para uma pergunta que não tem nada de interessante.
- Isso é mudar de assunto. – ele se aproximou dela. – E pare de mentir. Eu não cresço um centímetro desde que completei 21 anos e eu tenho certeza que você reparou isso ou por um acaso estava prestando atenção em outra coisa nestes últimos anos? – seu rosto ficou um pouco corado, mas o rapaz não reparou e ela o encarou séria.
- Agora é você quem esta mudando de assunto. – ela o afastou, empurrando-o e começou a caminhar e ele a acompanhou. – Meu sonho? – ficou pensativa. – Por que isso de repente?
- Mera curiosidade. – fez uma pausa. – Quero confirmar uma coisa.
- ... – começaram a escutar uma gritaria de garotas um pouco mais a sua frente. Lá estava um aglomerado de garotas olhando em uma mesma direção e gritando de emoção como se alguém famoso estivesse passando. Só depois de alguns minutos os dois conseguiram ver o motivo de tanta confusão e não ficaram nenhum pouco surpresos ao vê-lo, já esperavam que fosse ele. O “Príncipe dos caçadores”, Eric Donson, o garoto mais bonito, inteligente e frio das duas associações. O perfeito garoto, o perfeito príncipe.
- Eu realmente não sei o que essas garotas vêem nele.
- Nem eu. – a garota respirou fundo. – Se elas o conhecessem de verdade perceberiam que ele não tem nada de “Príncipe” que é apenas um garoto rico, metido, mandão, insensível e orgulhoso.
— Tudo o que um príncipe é. – Gabriel olhou para a garota que estava com uma expressão de brava por ter sido contrariada. – Mas, Lara, você fala como se o conhecesse bem. – “MUITO BEM! Provavelmente melhor do que qualquer um aqui, mas eu não posso dizer nada.”, pensou ela, “Porque além de humilhante é uma promessa que fiz... Quando tempo será que terei que aguentar isso?!”
- Acha que eu preciso conhecê-lo para saber que ele não passa de uma farsa? – disse friamente. – Coisa ruim como ele eu consigo reconhecer de longe e a única pessoa que eu desejaria nunca conhecer seria ele.
- Bom dia, senhorita Orgulhosa. – a sua voz era calma e harmoniosa, tão perfeita que chegava a irritar e pensar que na verdade estava sendo irônico. Há alguns anos atrás, Lara teria explodido ao escutar essa voz e teria olhado para aquele garoto de cabelos pretos arrumados, alguns fios de cabelo sobre os olhos profundos e pretos e feições de um príncipe que em outra vida deve ter sido um anjo e gritado até acabar com a raiva, porém os anos lhe deram experiência e principalmente o controle, tudo o que ela precisava para vencê-lo. – A senhorita não deveria dizer nunca, pois pode acabar pagando língua.
- Senhor serpente de duas caras... – ela imitou o seu jeito de falar tão perfeitamente que parecia estar cumprimentando um velho amigo se não fosse pelas palavras ditas. – Há quanto tempo esta escutando a conversa alheia? Deve saber melhor do que ninguém que isso é muito indelicado da sua parte.
- Peço desculpas em relação a isso, mas o assunto de que tratavam chamou a minha atenção. – ele riu. – Ser o principal ponto da conversa de uma senhorita como tu é realmente interessante já que acredito que você me considera “um garoto rico, metido, mandão, insensível e orgulhoso.”
- Percebo que o senhor tem bons ouvidos. – ela riu. – Felizmente você tem razão, mas devo admitir que o levante desse assunto se deve apenas ao fato infortúnio de tê-lo encontrado cercado por garotas de péssimo gosto e não por nutrir algum sentimento grotesco pelo senhor. – “Começaram... Eles começaram a se xingar com ironias.”, pensaram todas as pessoas menos os dois que se encaravam sorrindo um para o outro.
- Eu nunca indagaria que a senhorita nutri algum sentimento por mim, ainda mais um grotesco. – fez uma pausa. – A propósito... a que garotas você se refere? – todas as garotas começaram a chorar e a resmungar dizendo que o príncipe nem se quer dava importância a presença delas.
- Pare com brincadeiras, Eric. – Lara disse seriamente. – Estou falando desse bando de garotas atrás de você que ao em vez de estar estudando ou treinando perdem o seu tempo correndo atrás de um metido como você e além disso fazem a maior confusão no meio do corredor impedindo a passagem dos outros! Isso já esta até dando dor de cabeça! – as garotas começaram a tremer de medo.
- Se é assim... terei o prazer de levar todas as garotas que estiverem atrás de mim até o professor responsável. – todas as garotas começaram a correr o mais depressa possível para bem longe dali. – Acho que então elas teriam a punição que merecem. – assim que ele se virou, não havia ninguém. – Viu? Eu disse que não tinha nenhuma garota, não disse?
- Ah! Estou cansada de ter que ficar falando com você! – ela se virou e puxou o braço de Gabriel. – Vamos embora, Gabriel.
- Lara. – ela parou e virou a cabeça para Eric. – Tem compromisso hoje à noite? – ela o olhou surpresa e sem entender.
- Você esta brincando, não é? – ele apenas sorriu.
- Perguntar não ofende. – ela trincou os dentes. – Até, senhorita Orgulhosa. É sempre um prazer encontrá-la. – ele olhou para Gabriel e este o olhou também. – Gabriel.
- Eric. – ele virou-se e continuou sem olhar para trás. – Lara...
- Gabriel, você perguntou qual é o meu sonho, não é? – ela o interrompeu. – Pois bem, meu sonho é MATAR AQUELE PRINCIPE BASTARDO! – enquanto falava trincava os dentes. – Isso é insuportável! ELE é insuportável! Eu ODEIO tudo nele. A sua voz irritante, o seu sorriso irônico, o seu jeito, o seu cabelo e os seus olhos pretos. Eu o odeio.
- Não acha que esta exagerando um pouco? – ela o encarou com os olhos de uma assassina prestes a matar a primeira pessoa que falasse alguma coisa.
- Não vai me dizer que você esta do lado dele...
- Não é isso. – ele arrumou o cabelo dela. – Eu apenas não tenho nada contra ele. – aproximou-se dela. – Mas, isso mudaria se ele decidisse se aproximar da coisa de que mais me importo. – Lara o olhou sem entender.
- Do que você esta falando? – ele se afastou e suspirou.
- Nada não. – ao se virar, o brinco com forma de serpente que usava brilhou ao encontrar com a luz do sol. – Vamos ou iremos nos atrasar para a aula. – a garota correu para acompanhar o passo do rapaz. No seu pescoço estava um colar com um pingente em forma de serpente, idêntica com a do brinco de Gabriel.
- Ah, vamos, Gabriel... – fez voz de gato. – Que coisa é essa que você esta falando? Fiquei curiosa agora...
- Já disse que não é nada.
- Gabriel... – eles continuaram a seguir em frente.
Lara e Eric eram os melhores alunos das duas associações e por isso acabaram se tornando eternos rivais. Lara se tornou a melhor assassina com 16 anos e era a primeira da lista para assumir a liderança do Sangue Negro. Era conhecida como a “Lua das trevas” por causa da cor do seu cabelo claro que ora parecia castanho claro ora loiro escuro. Eric era o melhor caçador de assassinos desde os 14 anos e o único herdeiro do trono do Sangue Azul. Sua família era formada pelas gerações dos lideres dos caçadores, descendentes diretos do irmão que fundou esta associação. Era chamado de o “Príncipe” por causa de sua beleza, jeito, mas principalmente por causa do seu sangue nobre. Vidas opostas e destinos opostos. Uma razão suficiente para torná-los rivais, é o que a maioria das pessoas pensava.
- Eu realmente não sei o que você vê naquele tal Gabriel. – Eric estava sentado em um banco de madeira, limpando uma arma enquanto Lara fazia alongamento.
- Sério? Ele disse a mesma coisa sobre você. – o rapaz parou de movimentar as mãos e a olhou com uma expressão de incredulidade.
- Ele disse que não sabe o que você vê em mim?
- O quê? – ela esticou os braços e sorriu como se tivesse acabado de escutar uma piada. – Não. Não, não. Ele não estava falando de mim e sim das garotas que te perseguem. – logo em seguida fez uma cara de brava. – Por que você me perguntou se eu tinha compromisso hoje à noite se já sabia que a gente ia vir aqui treinar? – ele riu.
- Só para ter certeza. – respirou fundo. – Talvez você já esteja enjoada de mim... – ela trincou os dentes e parou de se alongar.
- EU JÁ ESTOU EJOADA DE VOCÊ FAZ ANOS... – parecia que ela ia enforcá-lo, porém se recompôs rapidamente e voltou aos seus alongamentos. – Mas... promessa é promessa. Tudo vai acabar assim que eu me formar este ano.
- Tem razão. – guardou a arma e deitou-se no banco. – Lara...
- O que foi? – perguntou sem olhar para ele pois estava abaixada tentando alcançar os pés repetidas vezes.
- Diga-me o que é que você vê no Gabriel. – ela respirou fundo.
- Eu já te disse. – levantou-se e o encarou. – Gabriel é o meu melhor amigo, nos conhecemos desde que éramos crianças e sou muito grata de tê-lo conhecido, mas nada além disso. Por que você sempre insiste em fazer essa pergunta? – Eric se levantou.
- Para deixá-la irritada. – ela ia falar algum xingamento, porém ele continuou. – Vamos começar o treinamento antes que você fique enferrujada.
- Sim, professor Eric. – disse de mau humor.
A verdadeira relação entre os dois melhores estudantes das duas grandes associações era Professor e Aluna. A diferença de idade era de apenas 2 anos, mas Eric tinha um conhecimento que o fazia parecer que era 10 anos mais velho que Lara. Tudo teve o seu inicio quando estes dois se conheceram há anos trás, neste mesmo lugar que na época não passava de um esconderijo para ambos por motivos diferentes.
A família Donson, a principio era composta pelos pais, uma irmã mais velha, Eric e uma irmã mais nova até que Sarah, a irmã mais velha, adoeceu e morreu. Poucos anos depois Nina, a mais nova, foi atropelada e ficou em coma desde então. Mesmo que as duas irmãs estivessem em boa saúde, Eric continuaria a ser o único herdeiro já que a família Donson por gerações e gerações dava apenas o trono para o primeiro filho masculino da família. Esta era a tradição da família.
Mesmo ainda sendo apenas uma criança Eric entendia tudo o que acontecia a sua volta porque possuía uma mente muito madura, por isso tinha nojo da própria família e queria ficar o mais longe possível dela. Às vezes chegava a odiar a si mesmo por causa disso. Queria encontrar uma desculpa para se afastar dos seus pais e para se manter neste mundo foi aí que descobriu que digitando os códigos certos no elevador da ala sul do prédio chegava a uma grande sala abandonada em que do seu teto circular dava para ver as estrelas. Esta sala era para qualquer tipo de treinamento seja físico ou mental e pelo estado em que se encontrava deveria fazer anos que alguém não entrava ali. Este se tornou o seu esconderijo, até que um dia como qualquer outro ao sair do elevador escutou uma voz de uma menina.
- Ninguém merece... Minha pontaria não serve para nada. – a menina de 11 anos, cabelos claros estava de frente para os seus alvos segurando armas afiadas e mortais. – Desse jeito não vou passar no teste... Ai, ai, ai...
Ao ver a cor dos seus cabelos, Eric logo reconheceu quem era. Um dos órfãos que tinham sido recomendados pelo antigo líder do Sangue Negro que faleceu ao protegê-los. Lara Hardwood, seus pais morreram quanto tinha 1 ano de vida e até os 5 viveu em um orfanato. Entrou para o Sangue Negro com 10 anos e é uma das melhores alunas de sua idade, mas pelo visto não vai ficar com essa fama para sempre. Ele ficou ali, observando-a durante algum tempo por mera curiosidade até que percebeu que as mãos dela estavam sangrando e ela continuava a treinar sem ligar para as feridas. Eric pegou uma faca e atirou na direção da mão levantada de Lara. A faca carregou a arma e fincou na parede.
- Não acha que já treinou o bastante? – disse descendo as escadas. – Se continuar assim vai acabar perdendo as mãos, ou melhor dizendo, decepando-as. – ela o encarou com raiva.
- Isso não tem nada haver com você, idiota. – ele ficou surpreso com a reação dela. Ninguém tinha a coragem de se quer olhá-lo com raiva, muito menos em xingá-lo. Supôs então que esta garota provavelmente não sabia quem ele era, porém ficou feliz com este fato. – E como foi que você chegou até aqui?
- Pelo elevador. – disse enquanto a analisava. – Como achei que ninguém vinha aqui passei a tratá-lo como o meu esconderijo.
- Sério? Eu pensei a mesma coisa! – seu sorriso era tão inocente e bonito que por um segundo Eric ficou sem palavras. – Este um ótimo lugar para treinar, mas... – riu. – Como pode perceber, eu não sou lá aquelas coisas... Vou acabar sendo reprovada se continuar assim.
- Você só precisa se concentrar mais. – pegou uma das armas afiadas e colocou na mão dela posicionando com delicadeza. – Tente mais uma vez, com calma e concentração. Respire fundo se quiser. – Lara fez como ele orientou e jogou acertando perfeitamente. Deu um grito de alegria e uns pulos.
- Eu consegui! Eu consegui! – sorriu e abraçou o menino que ficou petrificado com esse contado. – Muito obrigada! Você daria um ótimo professor, sabia? Qual é o seu nome?
- E... E... E... – ainda estava no estado de surpresa.
- E? Estranho nome... Muito prazer, E! Eu sou Lara. – o garoto ficou se perguntando por que a tinha ajudado e por que queria ajudá-la de novo. Nunca tinha sentido aquilo antes. Para falar a verdade nunca tinha sentido nada de feliz depois que a sua irmã mais velha morreu, então por que sentia aquilo agora? Por causa daquela estranha menina? Não fazia sentido. Acalmou-se e avaliou a situação. Ficar daquele jeito não ajudaria em nada, então ele decidiu testar as suas teorias de modo cauteloso. Se iria mesmo fazer aquilo, ninguém poderia saber de suas verdadeiras intenções nem mesmo aquela garota de cabelos claros que ora parecia castanho claro ora loiro escuro.
- Que tal fazermos um trato? – sugeriu com educação de um nobre príncipe. – Vou te ensinar tudo o quiser até a sua formatura e em troca você não poderá contar a ninguém sobre esse lugar ou sobre a nossa relação. – sorriu. – Assim, além de se formar você se tornará a melhor. Que acha? – os olhos dela brilharam como estrelas.
- Sim! Sim! Sim! Sim! – pulou de felicidade. – Vamos fazer esse pacto! – pegou uma faca muito afiada. – É preciso de sangue, né? – antes que Lara tentasse fazer alguma loucura, Eric além de tirar a faca das mãos dela em um movimento rápido, jogou-a para bem longe. – Uau! Nem deu para ver! Você vai me ensinar isso, não vai?
- Vou, mas por favor nada de ficar querendo se cortar! – “Que idiota!”, pensou. – Eu falei trato e não pacto. Você é surda?
- Então, como vamos firmar o trato? Achei que com sangue ia ficar legal... – “Ninguém merece. O que ensinam hoje em dia para essas crianças?”. – Ah! Já sei! Vamos fazer uma promessa! – mostrou o dedo mindinho.
- Promessa?
- É! Coloca o seu dedo em volta do meu. – fez como ela pediu. – Pronto! Quem quebrar essa promessa vai sentir mil agulhas no dedinho. De verdade! – riu. – Vamos ser bons amigos. – se afastou.
- Isso, eu já não posso prometer.
- Por quê? – ele riu e deu um sorriso maldoso.
- Você vai descobrir. – deu as costas. – Até, Lara. – subiu as escadas. – A propósito, meu nome é Eric.
- Eric... Eric... Eric... – a voz de Lara o fez acordar. Estava deitado no banco e olhava diretamente para os olhos dela. Agora que os observava de tão perto, percebia que não haviam mudado nada desde a época em que se conheceram. Continuavam brilhantes como estrelas. – O que você esta olhando?
- Seus olhos. Acabei de notar que continuam iguais aos da época em que te conheci. – passou os dedos sobre o rosto dela. – Você realmente é bonita. – o rosto começou a ficar rosa e ela se afastou fingindo que estava bem.
- É claro que eu sou. – falou séria. – Não preciso de você para ter certeza disso. – ele sorriu deixando-a mais irritada.
- Então... – aproximou-se do ouvido. – Por que você ficou com rosto rosado de vergonha? – um golpe certeiro ia acertar bem no lado esquerdo do rosto de Eric, porém ele foi rápido e bloqueou o ataque da perna com os braços. Antes que tentasse mais um ataque, ele a abraçou fortemente. – Já te disse. Nunca ataque com as suas emoções. Você fica totalmente vulnerável.
- E eu já te disse para parar de falar essas coisas, principalmente sussurrando no meu ouvido! – estava mais vermelha, mas agora parecia que era por causa de raiva que sentia nas veias. Por estarem tão próximos, Eric conseguia sentir o coração de ambos batendo em ritmos muito acelerados. Resolveu ariscar a fazer uma pergunta que talvez aumentasse as suas esperanças ou as esmagaria.
- Lara, por que você não gosta que eu faça isso?
- Porque... – fez uma pausa. – Falando desse jeito, até parece que você tem sentimentos estranhos por mim. – ficou surpreso. Abriu a boca para dizer as palavras que guardava há séculos, mas nada saiu, nem uma letra. Ainda não estava na hora. – Mas, é só idiotice minha, não é? – ele a soltou e se afastou.
- Claro. Afinal, por que eu teria me apaixonado por uma incompetente como você? – ela trincou os dentes. – Pelo menos escolheria uma com um temperamento melhor.
- Eu vou acabar com essa sua personalidade de meia-tigela!
- Pode tentar. – e eles começaram lutar.
O tempo passou tão rápido que Lara ficou surpresa quando chegou o dia da formatura. Foi exatamente como ela sonhou. A melhor caçadora de todos os tempos. Tudo girou em torno dela. A sensação era agradável mesmo sabendo que aquilo duraria apenas um dia. Não se importou. Estava formada e livre as aulas terríveis do Príncipe. Finalmente havia se livrado daquela promessa, porém tinha que admitir que ele a havia ajudado muito. Devia pelo menos um agradecimento. Ao se livrar dos intermináveis parabéns de pessoas que nunca tinha visto em toda a sua vida e dos professores começou a procurar por uma cabeça alta e de cabelos pretos. Encontrou-o parado, apoiando as costas na parede ao lado de uma grande cortina vermelhava. Estava usando roupas formais e olhava distraído para a multidão sem dar atenção a nada. Antes de se aproximar, Lara verificou se continuava em um estado impecável. Queria surpreendê-lo e fazê-lo implorar por perdão por ter dito que era impossível imaginá-la vestindo um vestido. Quando percebeu a presença dela, ele a encarou surpreso, justamente a expressão que ela desejava, porém ele sorriu parecendo já esperar por aquilo.
- Meus parabéns, senhorita Hardwood. – segurou gentilmente a mão dela e a beijou. – Se formou como eu esperava. – ele a olhou. – Esse vestido ficou perfeito em você.
- Obrigada, mas estou um pouco decepcionada.
- Por quê?
- Achei que você fosse se ajoelhar e implorar por perdão por ter sido tão idiota por me constranger ao dizer que não conseguia me ver em um vestido. – respirou fundo. – Creio que o elogio que recebi de um professor de eu conseguir o que quisesse com esta minha beleza foi um tanto exagerado ou será que seria melhor dizer equivocada?
- Eu concordo com ele. – olhou surpresa para Eric. – Quer que eu me ajoelhe para prová-la da verdade?
- Deixa de ser idiota. – ficaram em silêncio durante um tempo. – Obrigada. Por tudo o que fez por mim nas aulas de treinamento. Não vou mentir que não foram divertidas, mas também não vou negar dizendo que não foram uma tortura. – fez uma pausa. – Vou sentir falta... daqueles dias.
- Eu também. – a voz dele era séria e fria.
- Que bom! – se afastou da parede. – Foi para isso que vim atrás de você. – sorriu. – Mesmo que eu te odeie mais do que qualquer outra coisa, tinha que te agradecer.
- Lara! – Gabriel a estava procurando no meio da multidão.
- Tenho que ir. – se virou e começou a se afastar, mas uma mão segurou o seu pulso e a puxou. Tudo ocorreu muito rápido. Com a mão direita, Eric puxou a cortina para escondê-los de todos e com braço esquerdo envolveu a cintura de Lara enquanto surpreendi-a com o toque de seus lábios nos dela. Aquilo foi tão inesperado que ela não teve qualquer reação, apenas deixou-se a mercê daquele rapaz lindo de morrer. Quando suas bocas se afastaram, ele estava com um sorriso brilhante que ela nunca tinha visto antes. Era tão encantador que não conseguia parar de olhá-lo.
- Espero que este ódio não dure para sempre.
- Aí esta você. – a voz de Gabriel a vez se assustar. – Estava te procurando por todas as partes. – ela o encarou. – O que foi? – ela virou a cabeça e percebeu que não havia ninguém na sua frente. Estava sozinha perto da cortina que estava na mesma posição em que a havia visto pela primeira vez. – Esta procurando por alguma coisa?
- Não... apenas achei... – olhou novamente para a cortina e para a parede a sua frente. – Acho que estava sonhando acordada.
- O quê?
- Nada. – virou-se e pegou no braço do amigo. – Vamos voltar a festa! Só se forma uma vez na vida. – eles riram juntos.
- Isso é verdade, pelo menos por aqui. – Eric os via se afastando com um olhar frio e uma áurea sombria. Logo desviou o olhar para o pequeno objeto que segurava. O colar com pingente de serpente. Teve vontade de quebrá-lo em mil pedaços, mas não o fez porque sabia o quanto aquilo era importante para uma certa pessoa. A garota que estava apaixonado.
Na próxima vez que ambos se encontraram no esconderijo de ambos, já fazia duas semanas desde a formatura. Lara havia percebido o desaparecimento de seu colar e o procurou que nem uma louca durante uma semana, porém na segunda perdeu todas as esperanças de encontrá-lo. Quando viu a serpente nas mãos de Eric deu um berro.
- Por que você não me devolveu quando o encontrou?! Eu o estava procurando que nem uma louca! Pensei que nunca mais o veria...
- Fiquei sem vontade. – ela ia gritar para xingá-lo, mas ele continuou. – Eu precisava dele para provar que aquilo não era um sonho.
- Aquilo o quê? Que sonho?
- Ah... eu esqueci como a sua memória é uma porcaria... Duas semanas devem ter apagado tudo. – respirou fundo. – Não tenho escolha. Terei que fazer aquilo de novo.
- Quer parar de me ignorar e me diz...! – o beijo a impediu de continuar. – O que pensa que esta fazendo?!
- Apenas refrescando essa sua memória. – Lara o encarava surpresa se lembrando imediatamente do sonho que teve na formatura. – Lembrou?
- Aquilo... não foi um sonho?
- Não. Foi bem real. Até a parte da língua. – deu um tapa. – Isso doeu. Só falta me dizer que ficou com raiva porque roubei o seu primeiro beijo.
- Seu bastardo! Para a sua informação aquele não foi o meu primeiro beijo, ainda bem e eu estou com raiva porque pelo visto você não dá a mínima para os meus sentimentos e me beija quando bem entender.
- Se eu não desse a mínima já teria destruído este colar faz tempo. – refletia. – Não acredito que aquele não foi o seu primeiro beijo... Tinha certeza que foi... – encaro-a. – Quem foi?
- Gabriel. – a áurea sombria apareceu novamente e a jovem se divertia com a situação. – Foi antes de entrarmos para o Sangue Negro, enquanto vivíamos nas ruas. – deu um sorriso maldoso. – Para falar a verdade, acho que o dele foi muito melhor do que o s... – Eric a fez parar de falar colocando o dedo sobre os lábios dela.
- Não me faça perder a cabeça por causa daquele imbecil, Lara. – aquelas palavras a surpreenderam de uma maneira tão impactante que ela chegou a colocar a mão sobre o rosto dele sem perceber.
- Você realmente esta com ciúmes? – ao ver a surpresa nos olhos de Eric, percebeu o que estava fazendo e abaixou a mão rapidamente. – Desculpe, não sei por que fiz isso. – afastou-se. – Eric, por que você me beijou? – ele abriu a boca, porém fechou logo em seguida. Estava confuso entre dizer a verdade ou mentir. Seus olhos se encontraram e ele se decidiu.
- Porque eu gosto de você e não quero entrega-la a ninguém, principalmente para o Gabriel. – trincou os dentes. – Só de olhar para ele sinto vontade de matá-lo milhares de vezes. Odeio o jeito que ele a olha, odeio quando a toca, odeio o fato de vocês terem uma ligação tão forte e eu não poder fazer nada contra isso. Resumindo, eu o odeio mais do que qualquer coisa nesse mundo. – Lara o encarava incrédula. – Sinto muito, mas é isso o que eu sinto e não pretendo mudar mesmo que seja você que me peça.
- Bem, já imaginava que você sentia... algo não amigável pelo Gabriel, mas nunca esperei que fosse algo tão sério. – ficou pensativa. – Espero que ele não sinta a mesma coisa por você.
- Se ele descobrir sobre o nosso beijo com certeza vai sentir. – Eric parecia se divertir com esse pensamento, o que arrepiou Lara. Imaginou uma cena nada atraente: ambos se encarando de forma fria e com ódio a flor da pele, pegam as armas e a luta começa. O fim seria apenas sangue espalhado por todos os lados. Ela tratou de esquecer aquilo imediatamente.
- Pare com brincadeira sem graça. – falou olhando para o outro lado. – Não me faça imaginar vocês dois se matando. Não quero ter pesadelos esta noite, muito obrigada.
- Perdoe-me, não era minha intenção. – a voz dele demonstrava o seu arrependimento. Olhou para o colar que segurava e respirou fundo. Aproximou-se dela e colocou o colar em volta do pescoço claro de Lara com delicadeza e gentileza. – Sente-se melhor?
- Sim... – segurou o pingente. – Mas, como você...?
- Sempre que você se sentia desconfortável, começava a mexer nesse pingente e se acalmava aos poucos. – passou a mão pelos cabelos negros. – Não é nada de mais. Eu apenas prestava atenção em você por curiosidade.
- E agora?
- O que você quer dizer?
- De agora em diante... qual será a nossa relação? – ele não respondeu. – Tanto você quanto eu sabemos que o namoro entre caçadores e assassinos é totalmente proibido. Se alguém descobrir...
- Se você gostasse tanto de mim quanto eu gosto de você, eu pouco me importaria com as regras. – deu um sorriso travesso. – Afinal, regras são feitas para quebrar, não é? – ela permaneceu calada. – Então? O que você pretende fazer, Lara?
- Eu... eu não acho que o amo.
- Nem eu. – ficou surpresa. – Mas, você gosta de mim?
- Sim, por mais estranho que possa parecer.
- Mais do que o Gabriel? – não conseguiu evitar o riso.
- Sim. – ele sorriu e ela ficou feliz com isso. Aproximou-se dele com pequenos passos e colocou a mão sobre o seu rosto. – Sabe, eu nunca admiti algo em voz alta porque tinha raiva de você e desse seu jeito de príncipe. – sorriu como se tivesse escutado em elogio. – Você é o garoto mais bonito que eu já conheci em toda a minha vida. É tão perfeito que chega a assustar. – ele riu. – Qual é a graça? – arrumou os cabelos claros.
- Você é a mesma coisa, mas não sabe disso porque não se olha no espelho. – fez uma pausa. – É tão bonita que sempre tira o meu fôlego, mesmo não tendo a elegância de uma nobre. Tem alguma ideia da quantidade de garotos que se matariam só para fazê-la sorrir? Para beijá-la?
- Não e não quero saber. – segurou a gola da blusa dele. – Agora calado. Quero experimentar uma coisa. – aproximou-se e beijou com força. Dessa vez houve correspondência de ambos os lados e por isso o beijo foi totalmente diferente dos anteriores. – Isso é muito... Eu não tenho palavras, mas é muito bom e estranho.
- Engraçado, pensei a mesma coisa. – brincou com os cabelos dela. – Concordamos com algo. Isso deve significar alguma coisa.
- Claro. – voltaram a se beijarem.
O relacionamento dos dois se resumia em duas faces. Na escola era o de sempre, troca de xingamentos e de ódios como inimigos mortais. Já no esconderijo, chegavam tão desesperados para se beijarem que se esqueciam completamente do resto. Como se no mundo só existisse os dois. No fim, deitavam-se no chão da área de treinamento, colados um no outro, olhando o seu estrelado, vendo o tempo passar sem ter nenhuma vontade de se levantar ou de se afastar da pessoa ao seu lado. Um tempo depois que ambos começaram a ter esse relacionamento, um incidente aconteceu. Lara chegou no esconderijo na hora de sempre, porém Eric ainda não tinha chegado então ela resolveu brincar com uma bolas de tênis tentando bancar uma equilibrista. Uma das bolas caiu para longe e começou a rolar em direção a arquibancada. Ela caminhou até a bola acabando que descobrindo uma área escondida pelas sombras das arquibancadas, um corredor estreito. Caminhou até o fim e percebeu a existência de uma porta entreaberta. Entrou percebendo estar em uma sala cheia de moveis e outras coisas. Parecia um pequeno apartamento. Em uma mesa havia algumas fotografias, Lara as olhou curiosa e ficou surpresa ao reconhecer Eric junto com duas garotas muito parecidas com ele. Era ele pequeno, sorrindo agarrado a irmã mais velha e segurando a mão da mais nova que tentava sorrir, mas parecia ser muito tímida. O primeiro impulso que teve foi de roubá-la, porém sabia que ele notaria a falta da foto infelizmente. Ouviu um barulho vindo atrás de si e virou-se quase tendo um infarto ao se deparar com a imagem perfeita de Eric com os cabelos molhados vestindo apenas uma toalha grande branca e os músculos molhados a amostra. Quando ele a percebeu, ficou surpreso, mas se divertiu ao ver o rosto dela ficar vermelho.
- Como você entrou aqui? – ela não estava escutando, ainda admirava toda a pessoa dele. Precisou que ele repetisse a pergunta para voltar a realidade. Tentando evitar olhá-lo novamente, virou-se para o lado oposto.
- A porta estava aberta. A bola de tênis. Foi isso.
- Você deve estar se perguntando que lugar é esse.
- Não... Não estou me perguntando nada... – ele riu.
- Esta pensando em mim do jeito que estou agora? – viu ela tremer como se tivessem jogado água fria nela e depois Lara balançou a cabeça de um lado para o outro com violência.
- Não! De jeito nenhum! Seria muito pervertido da minha parte!
- Não acho isso. – começou a abotoar a blusa. – Eu pensaria a mesma coisa se tivesse te visto assim. – riu. – Que imagem não seria?
- Calado! Nada de imagens indecentes minhas. – enquanto não falavam nada ele terminava de se vestir. – Você vai para algum lugar?
- Sim, infelizmente. Tenho que resolver algumas coisas da minha família. – respirou fundo. – Desculpe, não vou poder ficar com você hoje.
- Não tem problema. – disse alegre. – Você vai se tornar o próximo líder dos Sangue Azul, tem os seus deveres e eu entendo. Este é quem você é e se eu não aceitar seria a mesma coisa de não aceitá-lo. – mordeu os lábios. – Acha que vai conseguir voltar cedo? – abraçou-a pelas costas.
- Vou tentar ser o mais rápido possível. – segurou o queixo dela e a beijou. – Pode ficar a vontade. Aqui é como se fosse o meu quarto. – riu. – Não aguentava viver no meu lá em cima. Era muito... irritante. – beijou a testa dela. – Até. – entrou no elevador e as portas se fecharam.
Lara estava sem forças, por isso caiu de joelhos no chão. Agora sem a presença de Eric aquele lugar parecia nenhum pouco interessante, lembrava-lhe mais um cômodo qualquer sem graça. Juntando as forças que havia lhe restado se arrastou até a cama casal e caiu sobre ela como uma pedra. Tinha o cheiro dele e ela logo caiu no sono. Pouco tempo depois as portas do elevador se abriram e Eric saiu apresado.
- Esqueci de pegar as chaves. – pegou as chaves e viu Lara adormecida. – Ela só dá trabalho. – pegou um cobertor e colocou sobre o corpo dela, porém inesperadamente ela o segurou puxando-o para o lado dela. – Isso foi estranho. – tentou sair dos braços de Lara. – É sério, Lara. Eu tenho que ir. Solte-me. – ele dizia isso porque sabia se ficasse muito tempo ali mudaria de ideia.
- Não... eu não vou te soltar... – parecia sonolenta. – Não quero te perder... Não posso te perder... Porque se não... – lágrimas saíram de seus olhos fechados. – Eu te amo. – Eric ficou surpreso. – Idiota, metido, besta, príncipe de meia-tigela, serpente de duas caras, mentiroso, sem vergonha e atrevido, mas... eu te amo mesmo assim. – as lágrimas ainda rolavam. – Não me abandone. – ele soltou as chaves a passou a mão pelo rosto dela.
- Não vou. – abraçou-a e ficaram daquele jeito até Eric cair no sono.
Ao acordar, Lara abriu os olhos e percebeu que estava em um lugar totalmente diferente do seu quarto. Onde estava? Foi então que se lembrou de tudo e finalmente notou Eric ao seu lado, abraçando-a com os olhos fechados. Teve ímpeto de empurra-lo, mas logo mudou de ideia porque gostava de ser abraçada daquela maneira e também a visão de seu rosto dormindo era irresistível. Começou a se perguntar como tinha conseguido odiá-lo por tanto tempo, como não tinha percebido antes o quanto se importava com aquele príncipe adormecido. Aproximou-se lentamente inclinando a sua cabeça e então seus lábios se encontraram em um beijo quente e macio.
- O que esta fazendo, senhorita Orgulhosa? – perguntou abrindo os olhos sem aparentar sentir nenhuma surpresa e ela sorriu.
- Roubando a sua virtude enquanto dormia. – respondeu segurando o terno que ele vestia. – Por que não foi resolver os seus problemas de família?
- Alguém não deixou, segurando-me com uma força inacreditável. – passou a mão pelos cabelos dela. – Não que eu esteja reclamando. Foi muito melhor ficar aqui com você do que ir me chatear com as pessoas lá em cima. Obrigado, Lara. – a puxou para si e beijou-a demoradamente. – É melhor você ir antes que notem a sua falta.
- E se eu quiser ficar?
- Eu vou te atacar.
- Estou falando sério, Eric.
- Eu também. – começou a se levantar. – Se você continuar a ficar assim tão perto de mim, eu sei que não serei capaz de me controlar, então... É melhor você ir... – Lara o puxou de volta para a cama e o beijou. – Você sabe o que esta fazendo?
- Claro que sei. Impedindo que você fuja de mim.
- Eu não estou fugindo.
- Então prove. – ele respirou fundo e se sentou ficando bem próximo dela. Inclinou-se e a beijou de um jeito que nunca havia beijado antes. Começou pela boca e depois foi para o pescoço. Lara começou a desabotoar a camisa dele, porém ele segurou a sua mão e colocou a outra sobre o colar de cobra que usava.
- Se quiser que eu continue, tire este colar. – nada ela disse, apenas tirou o colar e colocou-o do lado do abajur. – Pensei que você ia se recusar.
- Azar o seu. – tirou a blusa que usava. – Agora terá que continuar. – tirou o terno dele e desabotoou a camisa.
- Não me entenda errado, Lara. – ele segurou o rosto dela e se aproximou. – Estou feliz que você não tenha se recusado. – a camisa caiu. Eric ficou sobre ela beijando o seu pescoço lentamente. – Lara?
- O quê? – perguntou com o rosto vermelho e os olhos semifechados.
- Eu te amo mais do que você me ama. – ela riu.
- Quem disse que eu...
- Sua boca. – tocou os lábios dela delicadamente. – Enquanto você dormia. – ele sorriu ao ver o rosto ficar mais vermelho do que antes. – Por que você esta brava?
- Eu... eu não devia ter tido isso. – Eric se aproximou mais.
- Por que não? – seus olhos se encontraram e lágrimas saíram dos olhos que brilhavam com as estrelas. Ele ficou muito surpreso ao ver as gotas.
- Porque mesmo que nós estejamos apaixonados, tudo isso vai acabar não importa o que sentimos. – seus lábios tremiam. – Nós nunca ficaremos juntos. Não podemos quebrar a regra.
- Nós já a quebramos. – falou com um pouco de raiva no tom da voz.
- Não, nós apenas a pulamos. – fez uma pausa para respirar fundo e limpar as lágrimas com a mão. – Podemos estar juntos agora, porém... quem garante que continuaremos assim no futuro?
- Eu não vou mudar. – ela o encarou. – Nem os meus sentimos por você. Faria qualquer coisa para te provar isso. – seu hálito de pasta de dente era bem forte e Lara o adorava. – O que quer que eu faça? – colocou os braços ao redor dele.
- Apenas continue o que estava fazendo como se eu não tivesse falado nada. – o beijo foi significativo, mas rápido como se este tivesse sido um aperto de mão firmando algum acordo entre os dois.
- O que não daria para ver a cara dele quando descobrisse as coisas que você me fala... – Lara riu de verdade.
- Você é terrível.
Acordar nos braços daquela pessoa era a melhor coisa que já tinha feito em toda a sua vida e se sentiu realmente feliz pela primeira vez em anos. Fechou os olhos e se aproximou mais dele que a abraçou gentilmente. Nada falaram porque palavras não precisavam ser ditas. Ambos dormiram novamente com um sorriso nos lábios.
Um dia, Lara estava tão feliz e distraída que nem percebeu que alguém a seguia enquanto se encaminhava para o esconderijo. Assim que entrou no corredor escondido pelas arquibancadas ela escutou alguém chamar o seu nome.
- Lara, eu sei que você esta aqui. Apareça. – falou Gabriel com uma expressão muito zangada ainda procurando pela amiga. Lara estava prestes a sair do corredor quando alguém tampou a sua boca com a mão e a abraçou.
- Parece que ele a seguiu. – disse baixo. – Que desprezível.
- Eric, não...
- Não se preocupe. – sorriu e beijou a testa dela. – Não irei fazer nada... Desde que ele não nos encontre. – ficaram algum tempo em silêncio até que Gabriel respirou fundo.
- Tudo bem. Sei que foi errado da minha parte te seguir, mas realmente não tinha outra opção. De que outra maneira você iria me escutar? – fez uma pausa. – Vou direto ao ponto. Eu sei que você e Eric estão namorando. – isso a surpreendeu. – Você e ele podem fingir muito bem na frente dos outros, mas não me enganam. Eu te conheço melhor do que ninguém. – Eric trincou os dentes. – Você é a minha melhor amiga e é justamente por isso que vou te contar a verdade. Eric vai se casar com a irmã mais nova na semana que vem. Todos estão falando sobre isso e se você tivesse prestado um pouco mais de atenção... – ele parou e riu ironicamente. – O que estou dizendo? Você esta completamente apaixonada por ele, não é? Como poderia prestar atenção nos outros se só consegue pensar nele? – suspirou. – Estou decepcionado. – assim que ele falou essas palavras Lara começou as deixar lágrimas caírem dos seus olhos. – Apenas termine com ele e o esqueça. É a única coisa que poderá fazer para consertar essa besteira. – virou-se e foi embora. A jovem ficou encostada na parede e Eric ficou na frente dela.
- Lara...
- Naquele dia... Quais eram os problemas de família que você tinha que resolver? – perguntou encarando-o firmemente. – E não se atreva a mentir para mim.
- Eu nunca menti para você. – respondeu sério. – Era o meu noivado.
- Entendo. – limpou o rosto com a mão. – Parabéns. Sua família deve estar muito...
- Eu não dou a mínima para o que a minha família sente. – interrompeu seriamente sem encara-la. – Parei de me importar desde que mataram a minha irmã mais velha. Eles sempre fazem o que bem entendem sem ligar para os sentimentos dos outros e principalmente para os meus. – seus olhos se encontraram. – Lara, o único motivo que tive para não lhe contar sobre isso foi porque não tinha certeza do que sentia por mim. – sorriu. – Eu sempre te amei desde a primeira vez em que nos vimos aqui. Nunca vou parar de amá-la, não importa o que aconteça. Então... se você não me ama, não me importo com o resto e muito menos com quem vou me casar. – aproximou-se. – Mas... se você me ama, eu juro que abandono tudo só para poder ficar com você.
- Você me amaria mesmo se ficasse gorda? – Eric ficou surpreso.
- Desculpe, o quê?
- Só responda a pergunta. – ele sorriu e riu.
- Duvido que você consiga essa proeza, porém mesmo que isso aconteça nada mudaria. – encostaram as testas. – Eu ainda te amaria. – ela o puxou e o beijou demoradamente até perderem o folego. – De onde você tirou essa ideia de ficar gorda?
- Ah... – seu rosto ficou vermelho. – Acho que você não é o único que esconde certas coisas... – ele continuou a olha-la sem entender. – Nos próximos meses irei ficar gorda mesmo que não coma nada. – Eric arregalou os olhos.
- Você... você esta falando sério? – afirmou balançando a cabeça. Ele sorriu, segurou-a pela cintura e a levantou. – Não acredito! Não acredito!
- Certo, certo, certo... Mas será que daria para me colocar no chão? Não gosto de ficar girando no ar. – ainda segurando-a pela cintura ele a trouxe para bem perto de si. – Nós estamos ferrados. – ele riu com vontade.
- Que pessimismo terrível. – seus rostos ficaram bem próximos. – Este não é um comportamento digno da famosa Lua das Trevas.
- E acho que ninguém esperava que o Príncipe dos Caçadores sorrisse desse jeito. – seus lábios se aproximaram e se beijaram. – Vamos convidar Gabriel para ser o padrinho? – colocou-a no chão.
- Certas coisas têm os seus limites. – estalou os dedos. – Vou mata-lo por tê-la feito chorar daquele jeito e mesmo que ele sobreviva nem morto vou querê-lo perto do nosso filho.
- Depois resolveremos sobre isso. – estava pensativa. — Temos outras coisas para nos preocuparmos.
- O que seria?
- Qual de nós dois sairá da Associação.
Após muita discussão, Eric concordou em contarem tudo para Gabriel para que ele pudesse ajuda-los. A ideia era enganar os superiores com uma falsa morte. Lara abandonaria o cargo de líder e se casaria com Eric tendo o cuidado de não sair de casa dizendo que possuía uma saúde frágil.
- Esse é o plano de vocês?
- Dela. – corrigiu Eric bravo. – Eu não concordei com esse plano.
- Calado. O que você acha, Gabriel?
- Ridículo.
- Exatamente o que eu disse, mas ela não me...
- Por quê? – interrompeu-o e o ignorou.
- Porque vocês não precisam se casar ou abandonar a Associação. Só continuem fazendo o que faziam até agora se é isso o que querem e ponto. – fez uma pausa. – Para quê complicar a situação? Não faz sentido algum, a não ser que tenham algum motivo para...
- Eu estou grávida. – ele arregalou os olhos.
- Você esta brincando.
- Não estou. – ele se levantou da cadeira e começou a ficar andando de um lado para o outro. – Gabriel... Não tenho tempo para um dos seus momentos!
- Momentos?
- É complicado. – Lara se colocou na frente dele impedindo que continuasse a andar. – Olha, eu sei que você deve estar surpreso...
- Surpreso? Eu estou chocado! Como você teve a coragem de dormir com aquele cara?! – apontou para Eric. – Pensei que tinha dito que preferia morrer a dormir na mesma cama com alguém.
- Eu tinha dez, Gabriel.
- E quem disse que usamos a cama?
- Eu vou te matar, seu desgraçado! – começou a se aproximar.
- Vai tentar, nervosinho. – ela ficou entre os dois e os socou.
- Já chega! – gritou irritada. – Não estou nenhum pouco a fim de perder o meu tempo vendo vocês dois se matarem só porque são uns imbecis orgulhosos. – respirou fundo. – Gabriel, desculpe se sou uma decepção para você, mas eu realmente amo esse idiota e pela primeira vez em muitos anos eu estou feliz, de verdade. É como se eu finalmente tivesse achado o lugar em que pertenço. – sorriu. – Eu sei que você consegue me entender. – quando seus olhos se encontraram, ele sorriu bem de leve. – Eric...
- Não me olhe desse jeito. – abraçou-a fortemente com os olhos fechados. – Eu não posso aceitar esse plano, simplesmente não posso.
- Já falamos sobre isso.
- Não acredito em você. – afastou-se para olhar o rosto dela. – Ser uma Assassina é mais importante para você do que eu ser um Caçador. Você lutou para ser o que é hoje e eu não. – segurou o rosto dela. – Por que você quer tanto desistir do seu sonho? – ela segurou a mão dele.
- Porque eu tenho outro mais importante. – sorriu. – Além do mais, ninguém ligaria para a morte de uma órfã como eu. Só vocês dois. Esta é a parte mais importante do meu plano.
Tudo saiu como tinham planejado. Ninguém se importou de investigar a fundo a morte de Lara mesmo que ela tenha sido a escolhida para ser a próxima líder do Sangue Negro. Ela e Eric se casaram em uma pequena igreja na cidade natal dela com apenas uma testemunha, Gabriel. Alguns meses depois, nasceu Nicolal.
- Que azar. – comentou Gabriel. – Ele tem a cara do pai.
- Ele não é a coisa mais linda que você já viu? – Lara tinha o bebê nos braços e brincava com ele sorrindo. O jovem a observou e depois voltou a encarar o bebê que ria.
- Seria... se tivesse puxado as suas feições. – ela riu e o colocou no colo dele. – Ei! O que você pensa...? – a criança o encarou curiosa e depois riu colocando as mãos no seu rosto.
- Ele gostou de você.
- Não brinque dessas coisas, Lara. – olhou para os lados. – Se Ele escutar... – Nicolal segurou a sua camisa. – Que estranho. Você é totalmente diferente dele. – o bebê riu e Gabriel passou a mão pela sua cabeça.
- Por que você esta segurando o Nicolal, Gabriel? – perguntou uma voz sombria atrás dele.
- Pergunte a sua esposa. – começou a brincar com ele.
- Voltou cedo, querido. – beijaram-se.
- É que eu senti que algo ruim iria entrar aqui. – segurou a mão dela. – Por que você sempre o convida para vir aqui quando não estou?
- Isso é obvio. Não quero que vocês destruam a casa. – abaixou-se e pegou Nicolal. – Olha quem voltou. – ficou esticando os bracinhos na direção do pai que o beijou na cabeça. – Sabia que ele gostou do Gabriel?
- Inacreditável. Já esta corrompendo o meu filho desde cedo?
- Exagerado. – levantou-se. – Já resolveu aquele problema?
- Sim. E você?
- Claro. – colocou a mão no bolso e tirou um colar com um pingente de forma de serpente. – Um presentinho para você. – colocou nas mãos de Lara que estava surpresa.
- Como...?
- Ser o líder do Sangue Negro tem as suas vantagens. – sorriu e depois voltou a ficar sério. – É um presente de despedida que Eric me pediu para te dar.
- Despedida? – a palavra quase não saiu. – O que você quer dizer?
- Eu não vou poder voltar para te visitar. Não é normal os líderes das Associações se verem com tanta frequência. – fez uma pausa. – Já estão até começando a espalhar alguns boatos...
- Que se danem os boatos!
- Lara... – começou Eric.
- Isso tem cara de ser a sua ideia. Por que esta fazendo isso? – voltou a encarar o amigo. – E por que você concordou com ele? Achei que vocês nunca conseguissem se entender já que não possuem nada em comum...
- Nós temos. – falou Gabriel.
- Sério? O que é?
- Você. – respondeu Eric colocando a mão sobre a cabeça dela. Gotas transparentes começaram a sair dos seus olhos.
- Mas...
- Eles não podem saber que você ainda esta viva e nós não vamos dar nenhum motivo para eles se meterem onde não são chamados. – limpou as lágrimas com os dedos. – Tente entender, Lara. Este é o caminho que nós três escolhemos. – abraçou-a. – Vou sentir sua falta.
- Eu também. – afastaram-se e Gabriel passou a mão na cabeça de Nicolal que segurou o seu dedo.
- Acho que vou roubar o seu filho.
- Tente para ver o que vai lhe acontecer. – afastou-se.
- Já me convenceu. Até. – abriu a porta. – Eric. Se não cuidar dela direito... – virou o rosto. – Eu vou roubá-la de você.
- Isso não vai acontecer.
- Espero que não. – saiu e fechou a porta.
Infelizmente, o pesadelo que ambos tentaram evitar aconteceu por causa de um mero descuido. Anos depois, o sentimento de saudades de Lara foi maior do que o seu senso de preocupação e por isso saiu escondida de casa para visitar Gabriel e isso levou as duas irmãs, as Guardiãs, a matá-la colocando algo na comida deixando-a com o sistema imunológico baixo, propensa a qualquer tipo de doença. Ela morreu de gripe.
- Quem a matou?
- Gabriel.
- Ela não morreu porque tinha uma saúde frágil! Nós inventamos isso como uma desculpar para não sair de casa, então como ela pode ter morrido por causa de uma gripe?! – socou a parede. – Por que ela...? – algo molhado descia pelo seu rosto. – Por que ela...?!
- Gabriel, controle-se e me escute. Eu preciso confirmar uma coisa com você. – fez uma pausa. – Lara alguma vez foi visita-lo?
- Claro que não! Ela sabia que... – parou de falar e fez uma cara de surpresa. – Teve uma vez em que adormeci no sofá e quando acordei estava coberto por um lençol. – sentou-se no chão. – Não... Não pode ter sido ela...
- Foi ela. Eu tive que sair uma noite e quando voltei ela estava ensopada. – sentou-se no sofá e colocou a mão sobre o rosto. – Perguntei por que estava daquele jeito. Ela sorriu e disse que adorava chuva.
- Foi culpa minha. – encostou a cabeça sobre os joelhos. – Por minha culpa ela... Por que ela fez uma besteira dessas, mesmo sabendo que estaria...?!
- Ela te amava. – fez uma pausa. – Você era a única família que tinha restado para ela. – abaixou o braço. – Eu deveria ter percebido, mas ela sabia atuar tão bem quanto eu. Nós somos os culpados, Gabriel. Nós dois.
- O que você disse para os seus filhos?
- O que acha? A verdade. Lara morreu por causa de uma gripe. – respirou fundo. – Isso me lembrou uma coisa. Quero que me prometa que não contará a ninguém e principalmente para os meus filhos o verdadeiro motivo da morte de Lara.
- Que diferença isso vai fazer?
- Tudo. Qual é a sua resposta?
- Não vou fazer isso por você.
- Então não faça. Faça por ela. – ficaram em silêncio.
- Eu prometo.
- Obrigado. – parecia cansado. – Ela esta no quarto. – caminhou até a porta. – Desculpe, Gabriel. Eu sei que você a amava tanto quanto eu. – nada disse. – Ela me disse algo antes de morrer. Ao lado do corpo dela irá achar uma caixa. Ela é sua. – Abriu a porta e saiu. Lá estava ela, tão pálida quanto a própria cor dos lenções e os cabelos claros que ainda pareciam mudar de cor de acordo com a claridade. Havia uma caixa preta em cima da cama ao lado dela. Ele a pegou e a abriu. Estava repleta de envelopes. Pegou um e abriu.
“Quero ser a chuva e o vento.
Quero ser as nuvens e o arco-íris.
Quero ser o sol.
Porque assim poderia te ver e te alegrar.”
Abriu outro envelope.
“Aqui vou eu, tentando escrever algo que faz sentido. Ai, ai, ai. Sou péssima. Acho que nunca consegui te agradecer por tudo que fez por mim. Obrigada, obrigada e obrigada. Seria mais divertido se eu pudesse falar isso para você pessoalmente, mas... Te adoro, Gabriel. Saudades.”
Respirou fundo e abriu o último.
“Querido Gabriel, depois de tantas tentativas acho que finalmente consegui escrever uma carta de verdade. Sou grata por ter te conhecido e por ter passado a minha infância ao lado de uma pessoa tão esquisita como você. Sou feliz aqui, mas sinto que falta algo. Você. Pode parecer um pouco egoísta da minha parte, mas te amo tanto quanto amo Eric. Ele é o amor da minha vida e você é a família que sempre quis ter. Quero os dois do meu lado. Mas isso nunca acontecerá. Saudades! Adeus, Lara.”
Assim que terminou de ler, viu que gotas transparentes caíram na carta tão bem escrita borrando as letras. Colocou a carta perto de si e olhou para o corpo inerte na cama.
- Idiota. – passou a mão pelos cabelos claros que ora parecia castanho claro ora loiro escuro. – Você é uma tremenda idiota, Lara. – aproximou os fios dos seus lábios e os beijou. – Mas eu te amo e sempre amarei. – aproximou-se e beijou a testa dela. – Bons sonhos.
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