Orgulho
1 Prólogo: Estranhos na cidade
É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa.
Pela manhã, as notícias já haviam corrido pela vizinhaça e quando um homem de tal categoria decide se fixar em uma nova localidade, logo as famílias vizinhas assumem que o rapaz como propriedade de uma de suas filhas.
— Caro Senhor Bennet — disse sua esposa, repleta da formalidade de um casamento de seu tempo. — Já ouviu dizer que a Mansão da rua 6 foi alugada a final?
Respondeu que não sabia, sem se quer encarar a esposa.
— Pois foi — assegurou ela. — A senhora long acabou de sair daqui e me contou tudo.
Não havia assunto que poderia lhe interessar menos.
— Afinal não deseja saber quem é o locatário? — gritou a mulher, impaciente.
— Pois me conte, quem é? — seu tom era monotono enquanto virava a página. Escutaria feliz se isso lhe desse alguns minutos de paz. — Você está querendo me dizer e eu não faço nenhuma objeção.
Isso era o suficiente para Senhora Bennet, que se acomodou — espalhafatosamente — ao lado de seu marido, lançando camdas e camadas de tecido por sobre as pernas do marido, ansiosa por lhe passar os informes da vida cotidiana.
— Pois, meu caro, você deve saber que a senhora Long disse que a Mansão da rua 6 foi alugada por um rapaz de grande fortuna, diretamente da Inglaterra. E que, além disso, ele chegou segunda-feira, em um carro elegante para visitar a propriedade. Ficou tão encantado que entrou imediatamente em negócio com o Senhor Morris; Senhora Long falou também que ele entrará na posse do prédio antes do dia de São Miguel e que seus criados devem chegar na próxima semana.
— E qual seu nome? — a empolgação quase infantil de sua esposa, lhe trazia ternos sentimentos.
— Bingley.
— É casado ou solteiro?
— Oh, solteiro, naturalmente, meu caro. — já imaginava a resposta. Nada empolgaria senhora Bennet como um homem — Solteiro e muito rico! Uma fortuna por ano. Que boa coisa para as nossas meninas, não?
Senhor Bennet sabia bem o rumo da conversa, mas ainda assim incentivou.
— Como assim? De que modo isso afeta nossas meninas?
— Caro marido — respondeu com ares de irritação. — Como pode ser tão obtuso? Deve saber que ando pensnaod em casar uma delas...
Como sabia.
— E será esta a intenção do homem ao se instalar aqui?
Levantou-se em um gesto rápido, porém o marido não pareceu se importar.
— Intenção? Não seja tolo... É provavel que se apaixone por uma delas, por isso deve visitá-lo assim que chegar.
— Não vejo motivo para isto. — retrucou — Pode ir com as meninas, ou mandá-las sozinhas. O que julgo ainda melhor, pois o tal Bingley pode preferi-la, visto sua beleza. — respondeu, erguendo os olhos por sobre os aros dos óculos de leitura.
— Está me lisonjeando. — as faces enrubeceram com os elegios do marido, mas seguiu seu pensamento. — Decerto já tive minha beleza, mas já não penso nisso. Quando uma mulher tem cinco filhas crescidas, deve deixar de pensar em vaidades.
— Por certo, mas nem todas as tem como você.
O discurso do marido a fez perder o prumo por alguns minutos, mas não demorou para retomar o discurso.
— Prometa-me que irá visitar o senhor Bingley quando chegar.
Pediu com seu tom mais dócil.
— Não quero assumir esse compromisso. — Admitiu, voltando sua atenção a leitura a sua frente.
— Mas pense em suas filhas. — Implorou, pousando as mãos sobre os ombros do marido. — Seria um ótimo partido para elas. Senhor Willian e a esposa estão decididos a ir, apenas para arruma-lo para suas filhas. Deve ir, do contrário suas filhas estarão condenadas a solidão e a pobreza.
O homem se levantou do sofá, fechando o livro em suas mãos.
— Acredito que seja um exagero de cuidado da sua parte. — respondeu, beijando as faces da esposa. — Tenho certeza que o senhor Bingley ficará feliz em vê-la. Mandarei algumas linhas lhe dando o consentimento de casar com quem escolher, embora acrescente algumas linhas em favor de minha pequena Lizzie.
A menção pareceu aborrecer a senhora Bennet, que levou a mão peito e censurou o marido.
— Ora, Lizzie não é melhor que as outras. Escuto que não possui metade da beleza de Jane, ou do bom humor de Lydia, mas segue manifestanto sua preferência por ela.
— Nenhuma delas tem muito o que lhes recomende. — acrescentou. — São tolas e ignorantes como as outras moças, menos Lizzie, que é realmente mais viva do que as irmãs.
Senhor Bennet não podia negar o pequeno rancor por não possuir um único filho entre seu pequeno séquito de meninas, porém Lizzie tinha a vivacidade que nenhuma outra menina parecia possuir, algo que nunca sabia como por em palavras.
— Como é que pode falar tão mal assim das próprias filhas, senhor Bennet? Principalmente quando sabe que me aborrece e afeta-me os nervos.
— Se engana, minha cara. Não ha no mundo algo que me preocupe mais que seus nervos, tanto que os considero como velhos amigos.
Com o leque mãos, acertou o ombro de seu marido com delicadeza.
— Ora, se desfaz de meu sofrimento, senhor Bennet.
— Espero que você se restabelça e viva bastante tempo — desejou o marido, enlançando a cintura da esposa e lhe depocitando um beijo entre as madeixas que embranqueciam com maior rapidez nesses anos. — para ver muitos rapazes de fortunas anuais se instalando pela vinzinhaça.
Seu olhar tinha uma ameaça velada.
— De pouco adiantar quando o senhor se recusa a visitá-los.
Em um tom mais baixo, sussurrou no espaço entre eles.
— Pois fique certa que visitarei cada um deles.
Senhor Bennet tinha como caracteristica uma personalidade vivaz, curiosa e um humor repleto de sarcasmo, contrastando ao gênio instável e irritadiço da esposa. Após 23 anos de casados, haviam aprendido a remediar as diferenças, mas a preocupação constante em casar as filhas era algo que não conseguiam transpor.
Seu consolo estava em fazer visitas e ouvir os informes sobre a vida cotidiana de seus vizinhos.
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