Orfeu e as Ménades
1 A fúria da Ménades
Notas iniciais
Pague! Orfeu, pague!
Por não nos querer!
Pague! Com a cabeça pálida,
Fria! Lançada ao rio;
Pague! Orfeu, pague!
Maldita a tua, essa beleza,
Orfeu, pague! A maestria
Do teu encanto; Pague!
Por não amar, e só amar
Á uma mulher.
Jaz, e tarde! Orfeu,
Tua doce ninfa;
Vive, pois, não pereceu
As dores mil de tua lira.
Toque, Orfeu, o nosso líbido;
Ascenda, aqui, a nossa chama!
Deite, homem, em nosso leito,
E entre em nós de forma insana.
Sinta o pulso em nosso seio;
Livre, toque nas nuâncias;
Prove a todas sem receio:
O doce amargo em nossa dança.
Pague, Orfeu, por ser fiel
À ninfa que pro Hades tem partido,
Se sabemos que você já tens sabido
Que seu corpo fez-se pó e foi aos céus!
Pague Orfeu, por irar a nossa ira
Que por vez aos grandes deuses tem irado,
E em teu nome, tão cruel tem nos punido
Transformando em troncos secos de carvalho.
Pague! Pois o vento nos condena!
A antes brisa que lhe ouvia, apaixonada;
Contra nós é turbulenta ventania
Que nos fere de maneira tão selvagem.
Triste ouvimos, rouxinóis entusiasmados
Com talento muito acima do possível,
Só por terem finalmente se encontrado
E se amado na morada dos espíritos.
Enfim, penamos, mas não pena nossa fúria
E inveja da defunta que lhe aflige
Com melodias que à banham de ternura,
Poesia e afeto, em verso triste.
Pague! Na corrente d'água matutina;
Tua cabeça que veleja recitando
O nome de quem ama além da vida
E que na morte vai permanecer amando:
Eurídice... Eurídice...
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