Ordinárias Crônicas Adolescentes
2 Parte 1- Henrique Cap II
II
A sexta-feira chegou para mim às seis da manhã, com meu despertador apitando mais alto do que eu gostaria me avisando que é hora de levantar e infelizmente ir para a escola. Com certa relutância, consegui levantar às seis e quinze, escovei meus dentes, me enfiei no uniforme e saí correndo com a mochila nas costas ao ver uma mensagem do Matheus avisando que seu pai ia passar de carro para me pegar.
Assim que entrei no carro, me deparei com a cara de raiva do Matheus, como o conheço muito bem, sei que ele o pai brigaram de novo por qualquer motivo bobo, os dois vivem brigando, o pai dele é um pouco enérgico, apesar de ausente, e sempre quer que o meu amigo se esforce mais, o que é totalmente entendível uma vez que ele não é muito esforçado e que é um pouco desatento, mas muito inteligente.
–Bom dia, Roberto, tudo bem com o senhor?
– Tudo bem sim Henrique, e você? Tudo bem com a família?
– Tudo bem sim, graças a Deus. E aí mano?- Me dirigi ao meu amigo.
– De boa – Balbuciou Matheus, me dei conta que aquela seria uma carona silenciosa e desconfortável.
Ao descermos do carro, Matheus já parecia outra pessoa, mudou a cara e parecia a pessoa mais bem humorada que já conheci, colocou seus óculos escuros, se encheu de confiança, fez suspirar todas as meninas da escola mais novas que nós e me puxou para dentro dos portões da escola. Eu não o descrevi fisicamente ainda, ele é baixo, de pele amarelada, olhos verdes e cabelos castanhos desgrenhados o que faz as garotas terem uma queda por ele, além de ser rico e metido a ser garoto desleixado. Para ser sincero, eu adoro esse jeito confiante dele, acho que por isso nos tornamos amigos, porque quando nos conhecemos, na primeira série, eu era doido para enturmar, mas ninguém ia muito com a minha cara e o Matheus era na dele, comecei a conversar com ele e disse como me sentia e ele nos fez, desde então, uns dos garotos mais populares da escola. E, apesar de tudo o que a Melissa e o povo da escola dizem, eu o conheço muito bem e sei que ele é uma ótima pessoa, por isso é meu melhor amigo.
Chegamos à sala e finalmente ele abriu a boca:
– Tá pronto pra hoje?
– É hoje?
– É porra, ‘cê achou que fosse que dia?
– Sei lá, amanhã.
– O fim de semana começa hoje, tem que aproveitar todo o tempo que temos.
– Porra, Matheus, tenho aula de inglês amanhã de manhã, você quer me foder?
– E daí? Quem disse que você vai faltar?
– Eu preciso dormir né.
– Ah larga de ser fresco e relaxa, vai dar tudo certo e você vai pra aula de inglês amanhã, eu também tenho, esqueceu? E a minha é mais cedo que a sua.
– Argh, tá bom né.
– Tu vai gostar, para com isso.
As aulas daquela sexta foram chatas como sempre e assim que bateu o sinal da saída eu e meu amigo fomos correndo para o restaurante, que fica perto da escola, almoçar para podermos dar um cochilo antes de irmos para o cursinho. Deitamos com a mochila debaixo de nossas cabeças como travesseiros em uma aérea aberta nos pátios frontais da escola e decidi falar o que eu estava pensando naquele momento:
– Ow, confesso que tô meio desanimado pra hoje, mas tô achando que vai ser bem divertido, tava sentindo falta de sair contigo.
– Que viadagem! Haha mas é, eu também tava sentindo falta. Aí vem sua amiguinha, vou dar uma volta.
– Beleza.
Melissa atravessava os portões da escola e vinha em minha direção enquanto Matheus se distanciava de mim. Ela é uma menina linda, cabelos longos, ondulados e castanhos, pele bronzeada de sol, olhos também castanhos, baixa e, como eu e toda escola achávamos, bem gostosa. Apesar disso, era uma menina tímida e com baixa autoestima, realmente não entendo porque, no entanto, sendo amigos, tento acabar com toda essa sua insegurança dizendo palavras sinceras sobre sua pessoa, que sempre lhe arrancam um sorriso e me deixa satisfeito em saber que somos amigos.
– Oi Rique, como vai?
– Oi Melissa, eu vou bem e você?
– Péssima, o Vini me chamou pra sair amanhã, ir ao cinema, e eu não tenho o que vestir, não tenho um sapato, não tenho maquiagem, Agrh eu odeio minha vida!
– Credo menina, que drama, claro que você tem, você tem mil roupas, mil sapatos e muita maquiagem, qualquer coisa eu vou ao shopping com você depois da aula.
– Eu não tenho dinheiro Rique.
– Então eu vou na sua casa e a gente escolhe uma roupa que sirva para a ocasião.
– Aí é que tá, nenhuma delas serve, eu odeio minha vida, tudo dá errado, eu quero morrer, enterrar a minha cara num buraco de tatu.
– Hã? ‘Cê é louca!
Primeiro ela me olhou com uma cara de “vou te matar”, mas logo depois caímos na gargalhada e começamos a discutir sobre qual roupa combinava com qual, ela disse que eu era um desastre, o que eu devo concordar, mas pelo menos ofereci ajuda.
Deu a hora de entrar pra aula e nada do Matheus aparecer, comecei a ligar para ele e seu celular só dava fora de área, procurei por ele por toda a escola e o encontrei num banheiro deserto trancado numa cabine, chorando. Eu não soube como reagir, então fingi que não o tinha visto naquela situação e agi normalmente.
– Cara, tá na hora da aula no cursinho, a gente vai se atrasar, para de cagar e vem logo.
– Não tô cagando não, porra.
– Pô, então vamos.
– Eu não tô a fim de ir na aula hoje.
– Nem eu, mas fazer o que, a gente tem que ir.
– Vai você, eu não vou não.
– Matheus, por favor, me fala o que tá acontecendo, cara, sou seu amigo, você pode confiar em mim.
– Não é nada não Cabeça, eu só não quero ir pra aula.
– Beleza, então eu vou indo.
Eu já estava saindo dos portões da escola, pronto para descer o morro e andar umas duas quadras até o cursinho quando escuto passos apressados atrás de mim. Meu amigo chorão vinha correndo ao meu encontro me pedindo para esperar, encostei numa parede e esperei até ele chegar a mim.
– Merda, tô sem fôlego.
– Também, você correu igual um otário não sei pra quê.
– Cabeça, por favor cara, não vai na aula não, vamos dar uma volta comigo.
Eu hesitei ao ouvir a oferta, tentei convencê-lo da burrice que estaríamos fazendo e ele tentou me convencer do contrário. Rei do drama como sempre foi, ele conseguiu me convencer a matar aula e dar uma volta com ele. A partir dessa volta que tudo começou.
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