Ordinary Human

2 Fios de Esperança


Notas iniciais
Gostei muito dos comentários que vieram através do Tumblr e do Nyah! Eu fiquei tão satisfeita com os elogios que irei me programar para postar um capitulo novo todo domingo ♥

Os sonhos se misturam a lembranças perdidas. Sei que nada daquilo pode de fato me machucar, mas sinto a dor e a aflição através dos olhos daquela criança. As pessoas nas ruas correm machucadas, algumas simplesmente desistiram de fugir do caos. Há os gritos ensurdecedores, os pedidos de ajuda de ecoarem na mente, mas acima de tudo, o choro. Fino, estridente, apavorado. Eu vejo a mãe que chora no corpo pálido do filho. A jovem que lamenta perto dos escombros a perda do namorado.

Todas as imagens se misturam no que eu posso jurar ser um inferno. O calor das chamas inexistentes e o gosto de fumaça na boca me deixam perdida no emaranhado da multidão. Eu sei que é chegada a hora mais perturbadora do sonho quando tudo ao meu redor sai de foco em um silencio profundo. A mulher de cabelos tão pretos quanto à fuligem em sua roupa sacode meus ombros com insistência. Há sangue saindo pelos seus olhos e eu me recuso a olha-la por mais um minuto sequer.

Não quero ser obrigada a ter essa imagem macabra gravada na minha mente. Então, acordo sobressaltada na minha cama. A palavra “Corra!” engasgada no fundo da garganta. Minha roupa cinza esta molhada de suor e meu corpo dói como se tivesse entrado em uma guerra durante o sono. Respiro fundo sentindo o ar puro da minha cela e fecho os olhos deixando os pensamentos ruins serem apenas passageiros.

Ouço passos sorrateiros pelo corredor. Abro os olhos e saio da cama em direção à porta. Minha respiração esta pesada o que impede que eu ouça com clareza o barulho que acontece fora da minha cela. Tento controlar o ar que entra e sai, não sei bem o porquê, mas estou ansiosa. Pressiono o rosto molhado no metal frio e escuto.

–Vamos rápido com isso. –sussurrou uma voz masculina e rouca, que logo deduzi ser de Parker. – Não gosto de ir ao CTP durante a noite.

Um silencio interminável, onde o pulsar do meu coração parecia tão mais alto quanto a minha respiração ofegante.

– Prenda os braços dele! –vociferou Parker e por um momento eu me afastei da porta.

Escutei o barulho das botas e corri para a minha cama. Fiquei na ponta dos pés. O suficiente para ver com clareza Parker e mais dois soldados arrastarem Demitri pelo corredor. Ele estava adormecido apoiado sobre os outros, enquanto Parker segurava quase rente ao quadril uma pistola de choque. Um arrepio percorreu traiçoeiro a minha coluna até a nuca. Era uma vontade estranha de saber do que Demitri se lembrava, mas era obrigado a esquecer.

(…)

No dia seguinte não havia ninguém na cela de Demitri. Nem mesmo a luz vermelha estava ligada. Da janela da minha cela eu via a escuridão que vinha da sua e algo dentro de mim deixou um fio de esperança de soltar. Tentei por algumas horas organizar o que era lembrança e o que se tratava de sonhos distorcidos, foi exaustivo e sem uma base da verdade não tinha como saber o que era ilusão. A imagem da mulher indo e vindo, o sangue em seu rosto, a sensação de impotência diante do desespero dos outros. Peguei o porta-retrato sem foto exposto na mesinha ao lado da minha cama e joguei contra a parede. Uma raiva intensa demais para ser contida. Ele se quebrou em madeira, papel e cacos de vidro.

–Se ao menos eu tivesse conversado com Demitri no dia da coleta… –murmurei comigo mesma. Essa era uma das atividades insanas que eu praticava dentro da cela, além de falar sozinha, andar em círculos e arrumar a cama para desarruma-la mais uma vez. – Ou ter a chance de encontra-lo de novo…

Meus olhos caíram sobre os cacos de vidro e uma ideia arriscada iluminou um sorriso no meu rosto. Peguei com delicadeza o pedaço maior e segui para o canto da cela, onde eu acredito que as câmeras não monitoram.

Gentilmente tracei alguns cortes nos pulsos tomando cuidado para não afundar mais que o necessário. Os dentes travados reprimiam o choro que insistia em fazer meus olhos arderem. Soltei o caco de vidro com as mãos tremendo e engatinhei até a minha cama, onde eu sabia muito bem, que as câmeras me observavam. Levantei os pulsos e gritei insanamente, como nunca havia ouvido minha voz, gritei como se eu me visse no mundo de caos que eu encontrava nos meus sonhos.

(…)

Observei o soldado amarrar as minhas pernas na maca, assim como meu quadril e pescoço. Já totalmente imobilizada, com exceção das mãos, o medico veio me atender. Estancou o sangramento, passou alguns remédios que arderam a ponto de me deixar tonta de dor e enrolou ataduras com cuidado. Mantive meus olhos fixos no seu rosto, embora ele não fizesse questão de levantar o olhar. Ele aparentava ser novo, mas seus cabelos quase totalmente grisalhos entregavam outra idade.

Quando olhei ao redor e não encontrei ninguém além de nos dois eu desisti da ideia de ver Demitri. Qualquer esperança de saber mais tinha sumido e o corte dos pulsos talvez não tenha valido tanto a pena.

–Você prefere morrer? –indagou o medico levantando o rosto, o que me pegou de surpresa. – O tratamento aqui é tão ruim a esse ponto?

Fiquei alguns minutos sem reação, sem palavras que fizesse frases com sentido.

–Não sei. –respondi por fim, receosa por estar conversando.

–Por que o corte nos pulsos se você não os fez de direito? –ele me encarou com seus olhos pequenos e acinzentados. Estava mais perto do meu rosto e por isso podia enxergar seu rosto envelhecido. – Fez cortes levianos na pele e gritou como se estivesse sendo esfaqueada, a menos que não exista um bom motivo, então serei obrigado a te transferir para o Centro de Tratamento Psiquiátrico… –ele fez uma pausa e seu rosto ficou sombrio. – Não é um bom lugar para garotas…

Definitivamente não era um bom lugar. Ninguém voltava de lá sem estar mais machucado do que já foi. Ninguém gosta de falar das coisas absurdas que devem acontecer nesse lugar. Mas a palavra Centro de Tratamento Psiquiátrico me lembrava alguém.

“Não gosto de ir ao CTP durante a noite.”

As palavras de Parker foram um sussurro distante na minha cabeça. Era lá onde eu encontraria Demitri. Era lá onde eu buscaria a verdade.

–Doutor, — as lagrimas brotavam em turbilhão pelos meus olhos. Era me permitir chorar por estar sofrendo de verdade. – Eu sonho com pessoas morrendo e acho que estou enlouquecendo.

(…)

Dentro de cada minúscula cela havia uma pessoa suja e machucada com os braços estendidos tentando tocar os soldados ou mesmo a mim. Seus olhos eram suplicantes e as mãos feridas. O ambiente era sujo e úmido. Um lugar totalmente oposto onde eu me encontrava. Grades com uma ferrugem escura as consumindo e paredes de pedra com uma sujeira grossa se acumulando aqui e ali. Um corredor estreito que machucava meus pés descalços e um vento frio de arrepiar os braços. Se não fosse o revolver de Parker colado nas minhas costas eu já teria paralisado e implorado para voltar.

Fui conduzida até um pátio circular com uma ruina de um chafariz sem agua no centro e um teto de vidro empoeirado que por muito pouco não impedia o sol de entrar. Até então, era difícil saber como era os dias e noites, se chovia ou fazia sol. E olhar o céu através daquele vidro me encheu de uma esperança de que eu poderia fugir para algum lugar.

Alguns jovens com roupas cinza iguais as minhas andavam sem rumo pelo pátio. Alguns estavam sentados, outros observavam as colunas de pedra que sustentavam o local e não muito longe de mim avistei Demitri sentado em uma região pouco iluminada. Parker tirou o revolver de perto de mim e se afastou com os outros soldados, eles sussurram entre si e olhava para mim com sorrisos maliciosos. Como o médico disse, não havia garotas no local e isso por um momento me fez fraquejar.

Andei na direção de Demitri já sentindo seus olhos fuzilantes acompanharem cada passo meu, como um predador esperava pelo bote. Sentei ao seu lado e brinquei com um graveto seco. Nos dias de coleta era estritamente proibida briga entre os PROJETOS, mas ali, naquele lugar de loucos, era difícil dizer se alguém me ajudaria caso ele avançasse em mim.

–Demitri. –depois de tanto tentar estar perto dele sozinha, eu não aceitava o fato de não ter planejado nada para dizer. – Me chamo Ella, eu soube sobre as suas lembranças e de que por causa disso veio parar aqui…

Ele nem mesmo pareceu piscar. Suspirei exausta. Quem eu estava tentando enganar? Mesmo que ele soubesse de alguma coisa, os médicos já devem ter apagado metade delas, era tentar tirar informações de um louco que nem deve se lembrar do próprio nome.

–O que você quer saber? –ele perguntou sem me olhar, sem nem mesmo mexer a boca direito. A única mudança que me fez acreditar que ele havia dito algo foi seu dedo indicador apontado discretamente para o chafariz sem agua no meio do pátio. Havia uma câmera pequena implantada no meio do musgo e logo entendi o recado.

Entre as minhas pernas, naquela camada grossa de sujeita no chão eu escrevi a mais breve frase, na esperança de que somente ele entender o meu pedido de ajuda. Ele abaixou o olhar para ler, e lá estava tudo o que eu estava implorando desde o inicio, as palavras:

“Eu não quero esquecer.”

Notas finais
Comentem mais, digam tudo o que estão achando e o que esperam para os próximos capítulos!