Ordinary Girl
23 Capítulo 23 Dividida
Notas iniciais
Se eu estava nervosa por Charlie estar ali, em minha frente, prestes à me dizer algo que eu já sabia mas que não tinha coragem de assumir para mim mesma? Sim, eu estava muito nervosa. Assim que Peter saiu da sala, senti meu coração bater cada vez mais rápido. Eu não sabia o que dizer a Charlie. E também não sabia direito o que ele iria dizer para mim. Continuei apenas sentada no sofá, encarando o chão, e esperando aquele loiro se sentar ao lado e falar o que tanto queria me falar.
Não demorou muito, vi que Charlie havia se sentado ao meu lado. Ele parecia estar ainda mais nervoso do que eu. Mexia as mãos, mexia no cabelo, parecia estar criando coragem para abrir a boca. Minhas lágrimas já haviam secado completamente, eu já havia parado de chorar. Mas, por algum motivo, não conseguia olhar para ele.
Não sabia ao certo o que estava se passando comigo, eu estava com vergonha de Charlie! Logo ele que sempre fora tão próximo de mim.
- Nina... Acho que você já sabe sobre o que eu quero falar com você, não é? — ele perguntou.
Sua voz me deu uma ponta de coragem. Só então levantei meu rosto. E assim que encontrei seus olhos, senti que tudo o que eu pensava, tudo o que eu achava, poderia ser verdade. Desde que Frank e eu começamos a sair, Charlie estava diferente. Agora eu tinha certeza do porquê de tudo isso.
- Acho que sim, Charlie. — digo desviando meu olhar novamente.
Eu não sabia ao certo se queria escutar o que Charlie queria dizer. Não estava pronta para receber toda aquela informação. Tinha medo de perder o grande amigo que eu tinha. Mas tinha mais medo ainda, de que tudo aquilo afetasse a mim. Que me mudasse de certa forma.
Charlie me olhava curioso. Ele coçava a nuca vez ou outra, parecia não saber o que falar.
- Sabe, eu passei tanto tempo ensaiando o que iria dizer para você, e agora simplesmente esqueço tudo. — ele disse e riu.
Ri também, mesmo estando com vergonha.
- Então não se prenda ao que você tinha ensaiado. Simplesmente diga o que você quer dizer. — digo encorajando-o.
Charlie respirou fundo algumas vezes e se pos de pé em minha frente. Pensei em fazer o mesmo, mas talvez não fosse uma boa ideia.
- Não sei quando você percebeu, mas eu gosto de você, Nina. Um pouco mais do que deveria. Não imagina como Peter ficou quando descobriu. Ele queria que eu me declarasse imediatamente. E, acredite, eu ensaiava todo dia enquanto tomava banho. Mas tinha aquele cara que você conheceu no aeroporto, o Frank. Não o culpo por ter se apaixonado por você. Porque isso é uma das coisas mais fáceis do mundo. — Charlie disse se ajoelhando com os dois joelhos na minha frente.
Ri envergonhada novamente. Assim que escutei aquelas palavras de Charlie, senti meu coração bater mais forte.
- Naquele dia, quando fomos buscar você e Claire, não imaginava que, aquilo que eu sentia enquanto era garoto, continuava vivo. Sim, eu gostava de você desde meus 12 anos, Nina. Mas era aquele amor inocente, de criança. Pensava que não iria durar muito. Então eu te vi naquele dia, e tive certeza de que ainda era você. E você cresceu e se tornou uma mulher linda, determinada, mas continua atrapalhada como sempre. Acho que essa foi uma das coisas que mais me chamou a atenção em você.
"Queria ter te falado isso antes. Antes do Frank. Mas você ama ele, e eu não posso fazer nada sobre isso. Pelo contrário, só posso apenas torcer para que ele seja o homem que te mereça. Chego à pensar que talvez eu não te mereça. Talvez eu seja pouco para você. Sempre me enxergou como amigo, nada além disso. Penso que você merece um homem de verdade. E eu não estarei mais aqui a partir do final deste ano. Já está tudo acertado, como você sabe, a Suíça me espera."
Meu coração estava cada vez mais apertado com suas palavras. Nunca imaginei que Charlie fosse capaz de dizer coisas tão lindas assim. Sentia as lágrimas se acumulando novamente.
- Tenho que admitir, já me envolvi com várias mulheres, mas nenhuma delas era como você. Acho que era por isso que meus relacionamentos nunca deram certo. Eu não estava procurando uma namorada, eu procurava uma outra Nina. Mas, encontrar outra com você, não teria como. Não gostei nenhum pouco de quando você e Frank se acertaram, admito novamente. Porém, eu via como você estava feliz e como o amava. Então achei que seria melhor para todos, que esses meus sentimentos nunca fossem revelados. Até hoje, agora de pouco.
Meu coração gelou. Então Charlie realmente havia escutado minha conversa com Peter. Não sabia se devia ficar feliz ou triste por conta disso.
- Eu estava vindo pra cá, porque tinha escutado a porta abrir, então escutei você dizer que me imaginou no lugar de Frank. Sabe o quanto fiquei feliz com isso? Isso queria dizer que minha esperança não fora perdida completamente. — Charlie disse tocando minha mão de leve.
Senti um arrepio assim que sua pele entrou em contato com a minha. Ali, nós dois, depois daquelas palavras lindas dele, não sabia ao certo mais o que estava sentindo. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair de meu peito. Tenho que admitir que ando sentindo coisas estranhas com relação a Charlie esses dias. O coração acelerado, e a pele arrepiada, são algumas delas.
Recuei minha mão e me levantei bruptamente. Não tinha a completa certeza do que estava sentindo. Eu amava Frank, disso tinha certeza, mas Charlie... Ele era o problema. Com ele, meus sentidos ficavam confusos, as coisa pareciam mudar de ângulo. O quanto aquilo era ruim?
- Charlie... Não sei o que dizer. — começo me voltando para ele — Juro que, à alguns minutos, quando estava com Frank, não fora minha intenção. Você simplesmente veio em meus pensamentos. Era como se estivesse lá, o tempo todo. Mas...
"Só agora eu fora perceber", continuo mentalmente. Só então percebendo o tamanho do problema que eu havia arranjado. Charlie estava lá o tempo todo. Em meus pensamentos, em meu coração, mas demorei tempo demais para notar isso. Precisei de um certo empurrão para poder me dar conta do que realmente se passava comigo.
Senti meus olhos voltarem a se enxer de lágrimas. Como eu pude deixar que isso acontecesse? MInha cabeça estava martelando.
- Nina, você ama o Frank? — Charlie perguntou já de pé, se aproximando de mim.
Mordi o lábio inferior com força. Sim, eu o amava. Mas estava com medo daquela aproximação toda de Charlie. Não sabia ao certo o que poderia fazer com ele assim, tão próximo de mim. Nossos pés estavam praticamente juntos. Nossos rostos estavam separados apenas por alguns centímetros.
- Sim, Charlie, eu o amo. — digo sentindo uma lágrima escapar.
Charlie levantou seu polegar e a limpou. Não consegui evitar de não fechar os olhos assim que seu dedo tocou minha pele. Era como se ela soltasse faíscas toda vez que ele tocava em mim.
- E o que você realmente sente por mim? Quero a verdade. — ele disse.
Engoli em seco, não sabia o que responder a ele. Deixe apenas que as palavras fluíssem de minha boca.
- Não sei, Charlie. Antes eu sabia, você era meu amigo, mas... De uns tempos pra cá... — não consigo concluir minha frase.
Apenas encaro o chão. Sabia o quanto aquela aproximação se tornaria perigosa caso eu olhasse em seus olhos. Mas então, sinto que Charlie segurou de leve meu queixo e o puxou para cima, fazendo com que nossos olhares se chocassem. Seus olhos pareciam estar inundados. Pareciam os mesmos olhos felizes que eu sempre conheci. E não os olhos fazios que havia visto nos últimos dias.
Em um momento, seus olhos estavam nos meus, mas no momento seguinte, eles já não estavam mais onde deveriam estar. Pareciam estar em meus lábios. Pareciam não, de fato estavam. Meus olhos fizeram o mesmo trajeto. Desceram de seus olhos e pararam diretamente em seus lábios redondos. Semelhantes à um coração. Eles eram rosados, e carnudos. Mordi o lábio inferior, tentando reprimir meu desejo de beijá-lo naquele momento.
Assisti enquanto Charlie passou a língua ligeiramente dentre eles, umedecendo-os. Senti suas mãos saírem de meu queixo e segurar em meu pescoço desnudo por conta do rabo que eu ainda não havia desfeito. Charlie mantinha o contato visual comigo, mas eu sabia que não seria por muito tempo. Assim que ele colou nossas testas, fechei os olhos imaginando o que aquilo tudo significava.
E então ele me beijou.
Senti seus lábios pressionarem os meus levemente. E, como a ponta de um fósforo, bastou esta faísca para que tudo acendesse por completo. Subi minhas mãos até seus ombros. Não demorou muito até que Charlie aprofundasse o beijo. Fora um beijo lento, cheio de tanta coisa que parecia sequer caber em nossos lábios. Uma de suas mãos desceu até minha cintura e me puxou para mais perto. Eu já não me importava com o espaço em volta. Só queria sentir aqueles lábios.
Em cada toque, cada beijo, eu sentia que Charlie estava dizendo a mais pura verdade. Era como se, todo o sentimento que ele havia descrevido, eu agora estivesse sentindo por completo. Seu beijo era tão bom. Era como se eu estivesse esperando por aquilo a muito tempo. E, internamente, eu sabia que estava. Mesmo Charlie sempre sendo amigo de Peter, eu sempre tive um carinho muito especial por ele. Talvez fora aí onde isso começara.
Mas algo me veio à cabeça naquele momento. Frank. Eu estava beijando outro cara. E ele, como ficava? Parei o beijo no mesmo instante. Não podia fazer isso com ele. Na verdade, não podia fazer com nenhum dos dois.
Charlie me olhava assustado. Ele provavelmente estava se pergunta o porquê de eu ter interrompido o beijo daquela forma.
- Charlie... Me desculpa, certo? Eu estou confusa, preciso pensar. — digo me retirando da sala.
Corri até meu quarto. Não me importei se Claire estava brava comigo ou não, apenas abri a porta e me joguei em minha cama. O vestido, o cabelo, continuava tudo comigo, mas eu estava muito cansada para me livrar de tudo aquilo.
Me pus então a pensar no que acabara de ter acontecido. Eu beijei Charlie. Na verdade, ele me beijou, mas eu não havia feito nada para impedí-lo. E Frank, como ficava? Eu o amava, mas depois daquele beijo, não sabia ao certo se ele era o único. É tão errado assim se pegar apaixonada por dois caras? Ambos são incríveis, e ambos gostam de mim mais do que qualquer coisa. O que eu poderia fazer? Estava tão confusa que mal consegui dormir. Todos esses pensamentos voltavam para minha cabeça assim que eu fechava os olhos.
Bastou cerca de cinco minutos para que eu descobrisse que estava apaixonada por Frank. E mais de cinco anos para descobrir que estava apaixonada por Charlie. Meu único problema no momento era esse, estar apaixonada pelos dois. Era como se metade de mim gritasse por um, e a outra metade gritasse por outro. E eu estava começando a ficar com dor de cabeça de tanto escutar seus nomes.
Chorei, tentei me conscentrar em outra coisa, escutei música, mas nada parecia me ajudar. Eu não queria magoar Frank, e também não queria ver Charlie sofrer. Decidi então, depois de muito pensar, que não contaria para Frank o que acontecera e que tentaria agir normalmente com Charlie. Por mais que isso fosse uma missão quase impossível.
Aquela era minha decisão, deixar as coisas como estão e deixar o tempo arrumar tudo.
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