Ordem e Caos

5 Epílogo: Máscaras


O ar sumiu do peito de Akali com o impacto da aterrissagem. Ela se deixou ficar deitada, sentindo dor em partes obscuras do corpo. Ouvia Kennen resmungar mal humorado ao seu lado.

— E hoje era o meu dia de folga...

Quando se certificou que nada ia desatarrachar espontaneamente do próprio corpo, Akali se levantou. O mundo girava e ela sentia fortes náuseas. Apertou o estômago, olhando em volta. Um cheiro forte de morangos invadiu suas narinas.

Era precisamente onde estava: no meio de uma plantação de morangos. Era uma bela visão, a bem da verdade. O Sol nascia, lançando raios de luz por entre as folhas, as frutas emanando um tom intenso de vermelho. Uma leve brisa fazia as folhas farfalharem, e o mundo nunca fora tão calmo.

— Shen?

O homem não parecia estar ali. Ela ficou na ponta dos pés, tentando enxergar através das fileiras de plantas.

Por fim discerniu uma massa escura caída um pouco a direita de onde eles haviam aterrissado. Ela correu na direção dele.

— Shen, você conseguiu! Salvou a gente! Eu não sei nem como... SHEN!

A urgência na voz de Akali fez o yordle levantar. Ele correu para ver o que era.

A shuriken de Zed havia errado Akali, mas acertara em cheio o lado do corpo de Shen. Ele estava inconsciente, e não parava de sangrar.

— Kennen, ajuda!

— Akali, você sabe primeiros socorros, não sabe?

— Sei, sempre tenho um kit comigo, mas não sei se estou com ele hoje…

— Você precisa dar um jeito. Estanque o sangramento dele, cheque a frequência cardíaca e confirme se não tem mais nenhum ferimento sério, eu vou procurar um abrigo para tratarmos dele por lá.

— Certo.

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Estava tudo muito confortável para acordar.

Shen ouvia passarinhos fazendo uma bela algazarra por ali. O cheiro era de feno e morango, e o ar era estranhamente abafado.

Manteve os olhos fechados. Sentia uma espécie de urgência no coração, mas não conseguia se lembrar porque. Um leve desconforto o fez mexer o corpo, e sentiu-se todo dolorido. Por que será que tudo estava doendo, mesmo? Só costumava ficar assim antigamente quando treinava luta com Zed…

Zed.

O santuário.

Seu pai.

A arca.

Kennen e Akali.

Shen abriu os olhos.

Aparentemente, estava em algum aposento escuro, embora pequenos feixes de luz do sol invadissem pelas frestas das paredes de madeira. Mal e mal, conseguia distinguir duas figuras pairando logo acima em seu campo de visão, olhando para ele. Uma era em tons de verde, a outra de roxo. Sentia o ar estranhamente frio em seu rosto.

— Ele está acordando.

—Finalmente, eu já estava cansando.

— Kennen!

— É brincadeira, calma!

Os vultos ficaram mais nítidos e Shen conseguiu distinguir os dois amigos.

— Como se sente? — Perguntou Akali.

— Machucado.

— Somos dois.

— Três. — Acrescentou Kennen.

Ela riu. Shen permaneceu em silêncio.

Por fim, perguntou:

— Onde estamos?

— Em uma fazenda no interior de um estado yordle de Valoran.

— Eu não me lembro de ter tentado teleportar para cá.

— Bem… — Começou Akali. — Acho que você perdeu os sentidos na hora que sua energia fez efeito. Não sei se isso é possível, mas acho que o escudo precisou puxar a mente mais próxima de você, e escolheu um de nós. É a única explicação.

— Mas de quem foi?

Os dois olharam para Kennen, imediatamente. Ele corou.

— Ei, por que eu?

— Você mesmo disse. É uma cidade yordle.

— E só porque eu sou um, significa que eu vim daqui?

— Olha, eu não conheço esse lugar. Nem Shen.

— Ah… É, touché.

Ninguém disse nada. Ele suspirou.

— Ok, eu conheço esse lugar, ok? Era no que eu estava pensando quando tudo aconteceu. Eu estava de mau humor, e sempre penso nisso aqui quando…

Ele desviou o olhar dos amigos.

— ...Quando preciso.

— Bom, de qualquer forma, parabéns aos dois. Salvaram nossas vidas. Zed nunca vai achar a gente aqui. E falando em Zed e achar…

Ela se virou para Kennen.

— Onde diabos você guardou a arca que ele não achou em lugar nenhum?

— Nossa, ele vai demorar muito para achar! — Kennen riu alto. — Escondi embaixo da cama dele.

— Você O QUE?! — Os outros dois perguntaram, indignados.

— Como você sabia qual era o quarto dele, pra começar?

— Simples. Era o único que ninguém mais podia usar. Fui até lá rapidinho e depois deixei marcas no chão de propósito enquanto corria para as torres, para despistar. Ele NUNCA vai tentar olhar embaixo da cama, vai ser incrível.

— Kennen, você é maluco. — Akali suspirou. — Bom, ele ia encontrar a arca cedo ou tarde mesmo… Acho que não importa muito.

Ela encarou Shen, que havia se sentado, apoiando as costas na parede do galpão e fazendo uma careta de dor.

— E aí, qual é o plano?

— Plano? — Ele baixou o olhar. — Não tem plano. Perdemos. Zed tomou o santuário.

Tinha alguma coisa errada com o seu rosto. Passou a mão nele para se sentir melhor, mas as lembranças da noite passada voltavam com força total. Ele fingiu apenas cansaço enquanto escondia o rosto nas mãos. Seu nariz estava gelado.

Seu nariz.

— Cadê minha máscara?

Os dois amigos se entreolharam.

— Desculpe Shen, eu… Nós sabemos que é uma marca de honra e não queríamos tirar, mas você estava com muita dificuldade para respirar e a sua máscara é de metal, e apertada! Precisamos tirar ela. Mas eu guardei, está aqui…

A voz de Akali foi sumindo, com medo de que o colega ficasse chateado, até nervoso. Para sua surpresa, ele sorriu.

— Tudo bem. Eu entendo. Obrigado por tudo que fizeram por mim.

Ela o encarou e sorriu, aliviada. Trocou outro olhar com Kennen, e com um aceno sincronizado, os dois tiraram as próprias máscaras ao mesmo tempo.

Surpreso, ele encarou o rosto completo de seus (agora) melhores amigos pela primeira vez. Kennen era um yordle desprovido de pelos, de pele rosada e um rosto felino, com grandes olhos azuis. Akali tinha um queixo fino e lábios pequenos, e um nariz achatado. Os três sorriram, juntos.

— Agora, somos todos desonrados! Que alegria! — Kennen levantou os braços, fingindo comemorar.

— Não acho que isso conta como desonra. É mais um voto de confiança, acho. — sentenciou Shen.

Ele ficou em um silêncio pesado novamente. Passaram-se vários minutos até que ele voltasse a falar.

— Eu já tinha perdido minha honra. Não consegui proteger o santuário. Não matei Zed. Não vinguei meu pai.

A mão de Akali pousou em seu ombro e ele ergueu os olhos, triste.

— Não protegeu? Shen, você ofereceu sua própria vida para salvar os sobreviventes da irmandade! Você agiu como um verdadeiro líder da Ordem Kinkou. Onde está escrito que você precisa vingar algo? A Ordem Kinkou é sobre manter a Ordem no mundo, e sempre poupar as vidas dos inocentes. Teremos outras chances de recuperar o santuário.

— Como?

— Ora, como?! — Kennen exclamou. — Zed saiu por anos e voltou com um exército. Quem garante que você não fará o mesmo?

— Você só não pode desistir. Sua honra vai se desfazer assim que você desistir de seus objetivos. Enquanto você perserverar, não importa quantas vezes falhe, seu espírito se manterá íntegro. É assim que a nossa ordem funciona.

— E depois de falhar tanto, UMA HORA tem que dar certo, né? — Questionou Kennen, por fim.

Shen encarou os amigos, e por fim riu, pela primeira vez em muito tempo.

— Obrigado. Vocês têm razão.

Depois disso, os três se sentaram lado a lado, comendo morangos. Nenhum dos três fazia ideia do que ia acontecer dali para frente, mas pela primeira vez, não se importavam. Só não podiam desistir.

Nunca.

Notas finais
E enfim chegamos ao fim de Ordem e Caos! Eu gosto muito dessa história num geral, é um dos poucos trabalhos que eu releio e continuo gostando da história e dos personagens. Críticas são bem vindas e encorajadas!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!