Orbis: Nascimento da Sombra
1 Capítulo 1: A pequena sombra acordou.
Ao pôr do sol, observava-se a luz que entrecortava a silhueta de um menino, sentado em uma pedra, munido de uma vara de pescar rústica e fina. Quem observava pela trilha do pequeno bosque Campestro que se localizava anterior ao mar, onde o menino pescava, notava logo a pequena sombra que se projetava. Assim como o dia se acabava e o sol morria, a sombra só crescia, e como crescia...
O restante da luz morrendo, brilhava a pele escura do garoto, revelando estranhas cicatrizes, e a quem é muito perceptível, nota que a luz não alcança os machucados ocultos em seu coração.
Na luz, se via também seu cabelo de um tom louro e arrepiado, como a coroa de um rei. Algo que se diferenciava totalmente do resto daquele jovem, era como a luz no fim do túnel, da existência, de uma alma que ainda não era perdida, mas se perderá um dia... Para sempre?
O tão proclamado garoto se chama Shado. Será esse o incrível herói de uma épica estória, que salva princesas indefesas, derrota monstros malignos ao lado de um fiel escudeiro e, que no fim, salva o mundo de todo o mal? Ou será ele, meu caro leitor, um tirano malvado e sem escrúpulos em um decadente conto, que estupra pequenas garotas em sua mais bela fase, faz sucumbir aos seus pés os mais honrosos heróis se aliando aos mais temíveis monstros e, que no seu fim, destrói o mundo ao seu redor e tudo que há nele, levando suas mais obscuras sombras para engolir as forças benignas de uma vez por todas? Eu não sei, afinal isso depende de você leitor, depende de como você vê o mundo a sua volta, pois isto não se trata de uma simples estória fantasiosa em que tudo acaba no melhor em um fim feliz, ou tudo termina em um final triste e deprimente. Se trata de uma estória humana, onde o planeta Terra não existe, os países não existem e nem mesmo os seres humanos tal qual conhecemos existem, por isso, esta nossa estória é uma das mais humanas que você verá. Porque é assim que nós humanos somos, meu amigo, um ser do bem que é mal, ou será um ser do mal que busca ser do bem? De fato não sei ainda, mas de uma coisa eu sei, e creio que você também, meu querido amigo leitor: o ser humano é um ser belo, e como é belo ser...
Shado estava compenetrado, triste em seu afazer de pescar, odiava isso, fazia isso todos os dias, não porque era obrigado a fazer isso, mas para ter como sobreviver. Ele odiava de verdade pescar os peixes e ter de vendê-los depois, ou comer (afinal era vegetariano), este garoto gostava era quando os via e os pegava em suas mãos calejadas, via como eram livres no imenso oceano único deste mundo: o grande Homini. Era um oceano que se estendia por todo o mundo, e quem sabe até para além dele... Nosso garoto gostava de conversar com os peixes também, e os ouvir, afinal esse sempre era o seu talento: tinha a capacidade de falar com qualquer animal. Os peixes lhe diziam muitas coisas sobre o mundo além da imunda cidade baixa de Porto Prata, bosque Campestro que rodeava a cidade e a montanha Cornum Deam, falavam também de seu rei, o Deus de todos os mares, e consequentemente, de todo o oceano: a baleia Magno Hiacinto. Enfim, falavam de coisas que Shado nunca imaginaria que pudessem existir, e isso provocava nele uma vontade de se aventurar por todo aquele mundo. No lugar onde vivia: a grande Redo, era chamada tanto por reduins, simbras e insanlares como Orbis. Mas os peixes diziam que nas Terras élficas era chamada de Kósmos, e as criaturas aquáticas chamavam-na de Segie. E até diziam que nas terras ao sul, terras que ninguém conhecia, chamavam o mesmo planeta de Jikelele. “Porém, quem era o povo do sul?” Shado perguntava-se, afinal já viu pessoas que eram reduins, simbras, insanlares e até mesmo elfos, não conhecia qual raça era a sua, mas também não sabia quem eram os habitantes do sul, “será que são como eu?”, indagava.
Os peixes foram quem deram a ideia a Shado, para que ele os pesque e os venda, pois diziam que ele era o único a quem eles dariam a vida, devido à sua gentiliza com eles, sempre os tratando com carinho e afeto. Pode parecer estranho para vocês leitores, um ser vivo dando seu corpo como alimento para outro totalmente diferente, mas os animais deste mundo tinham uma filosofia diferenciada de nós humanos daqui da Terra, e até dos humanoides de maneira geral que dominavam a Terra desse universo diferente. Eles sabem dos seus papéis no seu estado natural. Os peixes sabem o que podem comer, assim como sabem que podem se tornar alimento para outros seres; as aves sabem que podem voar pelos céus e as serpentes e salamandras sabem de sua condição permanente de rastejar pelos chãos, mas nem por isso, aquelas são invejadas por estas; Dragões e seres místicos, entendem sua força e singularidade, por isso se reclusam e vivem geralmente isolados dos humanoides, só saindo para se alimentar e cumprir com seja lá qual chamado da natureza os atinem. E os humanoides... Esses meus caros leitores, não os entendo, até porque sou um humano, e nós temos essa capacidade né? De procurar tudo sobre tudo aquilo que nos cerca, mas nos esquecemos de olhar para nós mesmos e descobrir os nossos próprios mistérios, que são tão numerosos quanto os mistérios que nos cercam. Os humanos, diferente dos outros animais, eles não sabem sua função, mal sabem a função dos outros que o cercam e nem querem saber o que é o verdadeiro significado de função, a única coisa que querem saber é criar funções, afinal querem criar tudo, mas mal sabem, que muitas coisas que “criam” já foram criadas, e essas “crias” na verdade são descobertas feitas por eles, de um plano maior que nem eles imaginam, ou se imaginam, criam as mais variadas formas, para satisfazer seu ego e sua vontade de criar aquilo que já foi criado. Criam e criam, mas não sabem reconhecer sua importância para o universo. Os outros animais compreendem sua função e a realizam, mas os humanos, tentam impor uma utilidade, criando-a a seus moldes do que acham que é real, e não aquilo que de fato é real, e pior, criam utilidades para os outros que o cercam, se achando no direito de fazer isso. Pobres humanos, tão pequenos e ao mesmo tempo tão pretensiosos. O que é maior para vocês, meus amigos, um honroso rei, ou uma pequena e trabalhadora formiga operária?
Desculpem-me leitores, se vos ofendi, era e não era minha vontade. Quando disse aquilo no último parágrafo, queria pensar, queria fazer vocês pensarem também, sobre nós mesmos, afinal, não sei se sabem ou não perceberam, mas parece que desaprendemos ao ato de pensar, nos dias atuais não pensamos muito mais, as coisas simplesmente se localizam na frente de nossos narizes ou ao alcance de botões, próximos de nossos dedos. Perdemos aos poucos, o que nós seres humanos temos de melhor... Bom, leitores, creio que perceberam que eu fui bem grosseiro ultimamente com vocês, generalizei nossa raça, mas foi para vocês verem com facilidade o que quero dizer, mas sei que temos muitos bons representantes da nossa espécie, tanto nos tempos decorridos, como atualmente, afinal já dizia um sábio lutador: “O potencial evolutivo dos seres humanos é infinito, não nos julgue pelo que somos agora, nos julgue pelo que somos capazes”.
Voltando a nossa aventura: os peixes diziam para Shado que aquilo era uma simples “troca equivalente”, enquanto lhe davam suas vidas, Shado lhes deu um motivo para viver. Que amistosos esses peixes são! E Shado aos prantos, levava-os no seu carrinho rústico de madeira em direção ao cais de Porto Prata. Chorava, pois apesar de ver a gratidão dos peixes em servir-lhe, ele não gostava da ideia de ter servos, ele sempre desejou o bem aos mais fracos e oprimidos, como ele mesmo era. Mas não os recusava, pois eles não eram alimento para ele, mas sim para as pessoas que amava: os miseráveis mais felizes de todo o mundo, cada um dos habitantes da cidade baixa, também conhecida como Porto Cinza, o cemitério imundo. Onde quem morava lá não eram corpos. Muitos que os vissem, falariam: “antes fossem mortos, sofreriam menos”. Lá moravam... Pessoas.
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