Oracle - The Beginning

22 Capítulo 10 - Oráculo, o ínicio - Parte 6


Notas iniciais
Primeiramente queria agradecer a todas minha leitoras que pediram para eu não parar de escrever, admito que estava desanimado demais com a fic, eu simplesmente não tinha prazer nenhum em sentar na frente do computador e dar prosseguimento a fic. Mas, Oracle é muito importante para mim, e me ajudou demais quando precisei, sim ajudou. E eu percebi que eu amo escrever essa fic, ela é perfeita para mim, cada personagem tem vida em minha cabeça e pedem para não abandona-los. Assim como vocês me pediram... Queria agradecer a Megan que me achou em outra fic rsrsrs. A minha namorada lindona que sempre me deu apoio e me ajuda quando preciso, a Grazi que está sempre a disposição e sempre me anima com suas super reviews e apego a "nossos personagens" ja que são de vocês também, a Ge Black :D que está esperando ansiosa por um capítulo e continua na fic. E é isso, obrigado a todos que leem, de coração. E espero que gostem do capítulo. Um grande beijo. :D

POV ANNA

Depois da lição que Jean deu em Will e da aula chata de química, saímos para assistir a aula de biologia. Andando pelo corredor procurei Lorran ao meu lado e não o vi, esse menino some às vezes, parece camaleão. Deixa para lá, depois ele aparece.

Não gostei de ver Jean sentado com aquela garota na aula de química, ela é estranha. Os meninos podem até achar ela bonita, mas não vejo nada de bom na beleza dela, é muito sem sal.

– Anna! – ouvi Jean me chamar.

Diminuí a passada pelo corredor e esperei ele se aproximar. Sei que tenho que dar uma resposta para ele. Pensei muito a noite, será que eu devo? E cheguei à conclusão que treinar vai me fazer bem, irei me distrair um pouco e também vai me deixar mais preparada, não serei uma presa fácil. Jean acha que posso então eu também acho.

– Fala senhor pegador – brinquei.

– Nem tanto – ele riu. – Me deve algo.

– Sim – falei sem mais.

Ele franziu o cenho e ficou me olhando como se eu fosse estranha.

– Sim para eu lhe treinar ou sim para você me deve algo?

Dei uma risada baixa.

– Sim para você me treinar, bobo – dei um beijo em sua bochecha. – Agora preciso achar Lorran. Nos vemos depois da aula para acertar tudo, já que o senhor anda muito ocupado sentando junto com as vadias da escola.

Pisquei e apertei o passo deixando ele para trás. De longe ouvi uma gargalhada dele. Sinto-me tão bem o ouvindo rir, brincar. Minha admiração por Jean cresce a cada dia, um menino homem. Assim que é minha definição para ele, além de ser meu melhor amigo.

Achei Lorran em frente ao armário dele, tinha esquecido algum trabalho. Fomos juntos para aula de biologia. Assim que entramos sentamos logo na frente. Jean passa por mim rindo, conversando com aquela garota, a Beatrice. Os dois sentam juntos de novo. Ele nunca senta com pessoas repetidamente. Droga. Respirei fundo, calma Anna.

– Amor, vamos ao cinema hoje? – Lorran perguntou.

– Não sei, muito dever de casa – tentei mentir.

– Posso te ajudar com eles. Estou com saudade, já faz um tempo que não ficamos juntos.

É verdade. Faz um tempo que não namoramos direito. Lorran anda muito ocupado fazendo as rondas e estudando. Quando ele arruma tempo, sou quem esta desanimada.

– Pensando bem, vamos ao cinema então – dei um sorriso para ele.

Ele sorriu de volta. Outro sorriso que eu adoro, ele e Jean parece que combinam, os dois tem que sorrir de uma forma tão linda que chega a ser covardia comigo. Dei um beijo rápido nele, não gosto de beijar em público, principalmente em sala de aula.

A professora de biologia entrou carregando uma maleta. Ela sentou em sua mesa e fez a chamada rapidamente. Depois abriu a maleta e tirou uma seringa e vários recipientes que são usados para guardar sangue.

– Hoje vamos tirar sangue, pessoal. Esse sangue vai para o hospital da cidade onde vai ser examinado e vamos saber qual o tipo de sangue de vocês e se vocês tem algum tipo de doença, prevenção sempre.

Olhei ao redor, para todos os caçadores. Não podemos deixar examinar nosso sangue por sermos diferentes, os humanos não podem saber de nós. Não quero nem pensar na hipótese de ficar presa em um laboratório sendo cobaia e tendo que responder milhões de perguntas. Senti Lorran apertar minha mão e olhei para ele, que tinha um sorriso calmo no rosto.

– Professora, me permite ir ao banheiro? – Jean perguntou.

– Logo agora, senhor Konery?

– O corpo pede, não posso controlar.

– Vá, mas volte logo. – a professora disse rolando os olhos.

Ele passou por mim e piscou um olho. Certamente irá dar um jeito de livrar nossa cara desse exame idiota.

Alguns alunos já haviam tirado sangue, infelizmente a coleta de sangue não estava demorando. Droga, cadê Jean?

– Senhorita MacUillis, é sua vez – a professora chamou.

Levantei-me cautelosa e Lorran ficou me olhou preocupado. Achei que ele ia fazer alguma coisa, alguma desculpa para me livrar disso, mas ele só ficou me olhando.

– Com licença, professora – o diretor apareceu na porta. – Desculpe atrapalhar o andamento de sua aula, mas preciso levar alguns dos seus alunos.

– Precisa ser agora, diretor? Estamos recolhendo sangue para os exames.

– Os alunos cujo eu chamarei não precisam fazer o exame, já temos a documentação deles com o exame de sangue recente e tudo mais.

– Ah sim. Sem problemas, diretor – a professora se rendeu sem argumentar.

– Anna MacUallis Schmidt, Bryan Foster Konery, Hector Clarck Mitchell e Lorran Scalzer Maslin. Esses alunos me acompanharão. – dei um suspiro de alivio.

– O senhor Jean Konery está na lista. Por algum acaso encontrei com ele no corredor e ele já esta em minha sala – o diretor avisou e saímos todos.

– Valeu diretor – Bryan agradece já no corredor.

– Me desculpem por esquecer que estamos recolhendo sangue. É muito trabalho.

– Entendemos – Hector falou.

Ficamos na sala do diretor conversando até o final da aula de biologia, depois fomos assistir as ultimas aulas do dia que por sinal foram chatas ao extremo, parecia que o relógio estava com a pilha fraca porque estava muito devagar. Assim que bateu o ultimo sinal peguei meu material e saí da sala, já não aguentava mais ficar na droga daquele lugar. Sorri ao lembrar do dia em que eu e Jean fomos para o lago. Arrisco-me a dizer que foi um dos melhores de minha vida.

Já na saída da escola me despedi de Claire que vai de ônibus com Bryan. Jess pega carona com Hector, óbvio. De longe avistei Jean conversando com Beatrice. Porra, essa menina resolveu grudar nele agora? Vadia.

Lorran me abraçou pelas costas. Virei o rosto de dei um selinho nele.

– O que está esperando? – Ele perguntou.

– Jean queria falar algo comigo depois da aula, mas pelo jeito esqueceu – apontei para onde ele estava.

– Ele está ficando com Beatrice? – Lorran me perguntou e percebi que ele tentava esconder um sorriso.

– Não, não mesmo. Pode ouvir o que estão conversando, não pode? – Foi mais um pedido do que uma pergunta.

– Não vou fazer isso. É antiético – tentou se fazer de bom moço. Preciso o ameaçar de alguma forma.

– Se não me disser o que estão conversando, não vou ao cinema com você. Sabe que quando falo algo, eu cumpro – olhei séria para ele.

– Por que tanta curiosidade?

– Ele é meu amigo e ela é uma vadia.

Lorran suspirou derrotado. Apelo mais ainda usando meu olhar de cão abandonado.

– Tá bom, só dessa vez – advertiu.

Concordei com a cabeça e fiquei em silencio.

– Ele perguntou se ela quer sair com ele hoje, jantar. Ela disse que terminou o namoro há pouco tempo e que não está a fim de se relacionar de novo tão cedo. – Muito bom, vadia. Continue assim que talvez ganhe minha amizade e meu respeito.

– Ele disse que não quer se relacionar, mas que talvez ela precise se distrair e ele pode ser a solução. Pelo menos por essa noite. Ela aceitou o argumento dele e fala que as sete ela vai está pronta, ah, e passou o endereço. – fuzilei os dois com os olhos. Desgraçada.

Como combinado fui ao cinema com Lorran, por sorte Jean e a idiota não foram no mesmo lugar. Foi divertido, realmente precisávamos de um momento nosso. Apesar de minha distração com alguns pensamentos idiotas.

Lorran me deixou em casa as onze, tomei uma ducha rápida e fui direto me deitar, estava exausta. Antes de dormir peguei meu celular. “Onde foi com a Beatrice?” Mandei a mensagem para Jean e caí no sono antes mesmo de ele me responder.

Acordei cedo. Fiz toda rotina antes de sair. Assim que saí na porta, para minha surpresa Jean está com o carro parado em frente a minha casa. Caminhei até ele e parei ao lado do carro.

– O que está fazendo aqui?

– Vamos treinar. Tenho todo armamento aqui – ele fala me pegando totalmente despreparada.

– E a escola? – me recusei a sorrir para ele. Como ele sabia que eu estava doida para fugir da escola por um dia?

– Já cabulamos uma vez, uma segunda não vai matar ninguém. – ele piscou um olho para mim.

Ele se virou e abriu a porta para mim. Apesar de não estar pronta para isso, é melhor do que ouvir professores chatos. Depois que nos acomodamos ele ligou o carro e acelerou.

– Está ficando com a Beatrice? – Perguntei curiosa.

– Rolou só alguns beijos e amassos, nada demais – ele fala como se realmente fosse algo normal. – Nada sério. Foi só uma noite mesmo.

O jeito que ele falou deixou claro que não era nada sério, que só ficou com ela só por ficar mesmo. Menos mal. Enfim, somos apenas amigos mesmo, afinal quem sou eu para achar o que é bom ou ruim para ele?

– Você parece cansado – falei.

Ele estava muito sério. O Jean que conheço sempre sorri ou faz alguma graça, qualquer coisa, mas hoje não.

– Faz tempo que não durmo direito. É só isso. – de novo ele fala como se fosse algo normal.

– Fez ronda na noite passada?

– Sim, depois do lance com Beatrice. Fiquei a noite toda fazendo ronda, passei em casa só para tomar banho e vim te pegar.

– Podemos treinar outro dia. O importante agora é você descansar – falei preocupada.

– Eu estou bem, já acostumei – teimoso como sempre.

– Não vou discutir.

– Relaxa, MacUillis.

Fiquei quieta. Era um desses momentos em que não adiantava discutir com ele. Como não tinha muito que falar, decidi ficar quieta. Fechei a janela já que estava muito frio e o tempo estava piorando. Não demorou muito para nos afastarmos da cidade, estávamos indo para a floresta. Jean deu um logo bocejo e parou o carro no acostamento. Fiquei olhando para ele e depois de ficar quieto um pouco ele saiu do carro dando a volta e abriu a minha porta.

– Vamos ficar muito tempo? – Tentei romper o silencio.

– O suficiente – falou com ignorância.

– Está bem.

Fechei a cara e dei as costas para ele, que em vez de se desculpar foi abrir o porta-malas e pegar as coisas. Idiota. De lá ele puxou uma mochila preta de carregar nas costas.

– Armas?

– Sim, voltamos no final da tarde, senhorita – ele sorriu fraco.

Não é o meu Jean sorrindo. Não é mesmo sorriso, esse é mais cansado e distante, não mostra aquela energia que ele tem nem é muito atraente. Ainda não sei por que de tanta insistência desse treinamento logo hoje que está tão cansado. Ou talvez esteja cansado por ter saído com a menina em vez de descansar.

– Vamos? – Ele perguntou já com a mochila nas costas.

– La para floresta? – Queria ter certeza.

– Onde mais?

Já que não tenho escolha.

– Vamos lá.

Jean andou em minha direção e me pegou no colo. Que ousado!

– O que é isso?

– Vai ser mais rápido, não temos muito tempo a perder.

– Vou enjoar – avisei logo.

Sou um pouco enjoada para transporte, vai piorar com ele me carregando e correndo igual a um super-herói. Não quero jogar tudo o que comi em cima dele, só imaginando eu quero vomitar.

– Respira fundo – alertou.

– Não to pronta, Jean.

– No três – teimou.

– Não! – Gritei.

– Três!

Não deu tempo nem de reclamar, o idiota avançou floresta a dentro comigo nos braços feito uma boneca de pano. Me encolhi mais próximo a ele colando minha cabeça em seu peitoral. O vendo era forte e tão gélido que chegava a doer na pele e deixava difícil conseguir respirar direito.

Abrindo uma fresta em cada olho consegui enxergar apenas borrões de arvores sendo deixadas para trás. Podia aproveitar a sensação, que na verdade era boa, parecia que estava preste a levantar voo ou que estava livre de todos meus problemas. Mas minha ânsia de vomito atrapalha qualquer bom momento que eu podia ter com isso.

Fechei meus olhos esperando e implorando para chegarmos logo onde temos que chegar. Realmente espero que eu consiga ser boa em algo ou será decepcionante demais não atender a expectativas de Jean.

Passamos dez minutos correndo na floresta. Me arrisquei a abrir os olhos novamente e o vento quase me deixa cega. É fascinante como ele segue ou muda de trilha sempre seguindo caminho certo numa velocidade tão alta. Acho que se fosse eu já teria dado de cara numa arvores, ou torcido o pé pisando de mau jeito e provavelmente poderia ter tropeçado nos meus próprios pés.

Jean vai diminuindo a velocidade até que para. Devagar ele me colocou no chão sentada e se abaixou ao meu lado. Dei um gemido de dor e empurrei meus cabelos para fora do rosto.

– Está tudo bem? – Agora ele está preocupado. Que engraçado.

– Nunca vou me acostumar com isso. – comecei a prender meu cabelo em um coque.

Agora que estou parada e sentada consigo voltar a pensar direito e o enjoo começa a cessar. O lugar onde estamos é uma pequena brecha de mais ou menos uma dezena de metros entre as arvores, uma espécie de clareira. Ao contrario das clareiras que vi em filmes, essa não tem nada de especial ou bonito. Parece que foi feita, e não há muito tempo. Da para ver alguns pontos onde certamente tinham algumas arvores que foram retiradas e terra foi jogada para tampar buracos. As arvores retiradas não estavam por perto.

– Gostou do lugar que eu fiz? – Jean sorriu e percebi orgulho em seus olhos.

– Você tirou quantas arvores, garoto? – levantei uma sobrancelha.

– Não muitas. Essa parte não tinha tanto mato por isso escolhi aqui. Está vendo aquela arvore? — Ele apontou para uma arvore grande com galhos grossos e de altura avantajada.

– Sim. É linda.

Ele riu e se deitou no meu colo. Ficou olhando para mim.

– Não perguntei nesse sentido – ele sorriu sendo ele mesmo, o sorriso lindo e radiante. Sempre amo quando ele sorri, por isso não consegui evitar e sorri para ele também. Percebi que estava mais calmo e relaxado.

– Vou fazer uma casa da arvore nela. Nunca tive uma. – falou pensativo.

– E porque não? – Estar sozinha com ele me lembra de exatamente o dia que fomos para o lago.

– Na minha casa da Califórnia não tinha arvores e digamos que mãe não é boa construtora, não como um pai, por exemplo – ele me olha nos olhos, mas ainda está distante viajando em suas lembranças.

– Te entendo. Você não tinha muitos amigos não é?

– Não, só tinha uma amiga na verdade. Mas acho que ela fez o certo em seguir sua vida longe de mim.

– Sempre tem que ser uma menina – sorri sem graça.

– Ninguém era amigo dela e como eu era o mais afastado de todos resolvi tentar uma conversa e a partir daí ficamos amigos – falou.

– E porque ninguém falava coma garota? – Não que eu estivesse amando o assunto, mas eu era curiosa.

– Nerd, usava óculos, aparelho, espinhas no rosto e sem corpo. – ele deu de ombros.

– Nossa.

– Mas sempre a achei linda. O olhar, o modo de falar. E avisei que depois de um tempo ela ia ficar mais linda que qualquer outra menina daquele colégio e os garotos iam fazer fila para ficar com ela – sorriu.

– E ficou tão linda assim? – A curiosidade vai acabar comigo algum dia.

– Não sei. Depois de um mês de aula o pai dela ganhou uma promoção no emprego e mandou ela para fazer intercambio de um ano na Europa. – ele fechou os olhos.

– Ai perderam contato.

– Exato, depois de um mês paramos de se falar. Na época estava meio complicado para ela, até entendo. Acho que ela deve estar voltando para Califórnia em novembro agora – a voz dele é de sono e seus olhos bateram lentamente.

Fiquei quieta e comecei a acariciar seu cabelo olhando em seus olhos que vão se fechando e depois não se abriram mais. Um sorriso instantâneo surge em meu rosto. Teimoso. Sabia que ele estava morrendo de sono, no fim das contas um pouco de descanso não vai fazer mal, afinal o treino pode esperar um pouco.

Jean era um menino muito atraente, percebi desde a primeira vez que o vi. Entendo todas as meninas que vão atrás dele. Fiquei o olhando dormir por meia hora, seu rosto era tão lindo que devia ser proibido ficar tão perto de mim. Algumas vezes desviei os olhos e olhei para algum ponto distante, tentando não ficar vermelha por olhar para ele enquanto dormia. Senti o telefone vibrar em meu bolso e logo começou a tocar “Radioactive” em volume máximo. Jean acordou assustado e se sentou.

– Alô? – falei um “Me desculpe” sem som para Jean.

– Oi amor. Porque não veio a aula hoje? Está tudo bem? – Era Lorran. Revirei os olhos.

– Estou bem, se acalme. Não vou à aula hoje por que estou me sentindo um pouco mal, apenas isso, mas não precisa se preocupar que não é nada sério – menti. Não queria uma briga por telefone com ele.

– Tem certeza?– Falou desconfiado.

– Sim. Tenho certeza. – minha voz estava mais seria.

– Preciso ir agora. Passo na sua casa depois da escola. Tchau.

– Não... – desligou. – Precisa... – Ah, inferno.

Jean se levantou e deu uma longa espreguiçada. Esfregou os olhos para espantar o sono. Eu estava com pena dele por ter acordado desse jeito.

– Desculpa – pedi, me levantando do chão.

– Eu que peço, não devia ter caído no sono. Temos que treinar – falou mais animado.

– Sim, senhor.

Ele abriu a mochila e tirou uma espécie de besta, porem não muito grande e algumas flechas e deixou tudo no chão separado. Procurando mais coisas dentro dela, ele tirou vários dardos de seis ou sete centímetros de comprimento feitos de ferro.

– Vamos explorar seu ponto forte. O arremesso e sua precisão – falou com seriedade.

Acho que ele levou a sério demais aquela coisa com a bolinha de papel. Não sei se consigo sequer segurar uma besta. Já fiz treino com arco por dois meses, minha mãe sempre dizia que puxei minha precisão do meu pai. Mas com o arco era diferente, só via aquilo como diversão, apesar de minha professora me achar excelente e querer me colocar em campeonato com apenas um mês de treino.

– Faz tempo que não atiro. Pode ser arco? Já fiz treino por curto período com arco e flecha – argumentei. Estava apertando minhas mãos por causa do nervosismo.

– Até repor a flecha no arco, você já estará no chão agonizando de dor enquanto um vampiro suga todo seu sangue – Precisa mesmo de toda essa sinceridade? – Porém, com a besta você pode recarregar rápido e ainda ficara com uma mão livre para usar os dardos.

– Acha mesmo que eu vou ter coordenação motora para tudo isso? Sabe que sou desajeitada – Perguntei abismada. Simplesmente não me imagino fazendo tudo isso ao mesmo tempo, fora a parte de ter vampiros me rondando para me matar a qualquer momento. Vou tremer de medo e duvido que vá conseguir mover sequer um dedo.

– Não existe pessoa desajeita. Ou você está distraída com algo ou esta tentando atropelar o presente – ele disse sério.

– Simplifica? – Faço cara de tédio.

– Na hora da ação não pense em nada. Esqueça o que vai fazer em casa a noite, esqueça que tinha algum compromisso, esqueça o tanto de curtidas que tem sua foto de perfil do facebook, esqueça o resto de sua vida para frente e foque tudo naquele momento – ele me olha nos olhos. Uma coisa já era fácil de esquecer, eu não ligava para o facebook mesmo. – Se você errar no presente não terá futuro, certo? — Faço que sim com a cabeça. – Não olhe para o Lorran sendo atacado por um vampiro, ou se preocupe comigo sendo pisoteado por lobos, ou que Evelyn esteja perdendo muito sangue. Deixe tudo para segundo plano e se concentre em seu alvo.

– Mas se alguém me atacar por trás enquanto olho meu alvo? – Suponho.

– Estando focada no campo ao seu redor estará automaticamente focando seu atacante mais perigoso. Seu alvo não vai ser sempre o mesmo, vai variar dependendo da quantidade. Poderá acertar todos se tiver focada em seu objetivo – explicou mais claramente.

– Entendi – tudo era na base do foco. Isso é pior do que eu esperava.

– Hora da pratica – falou e bateu as duas mãos juntas.

Treinamos insistentemente durante horas. Adaptei-me com facilidade a besta achei até mais pratica do que um arco e mais fácil de mirar. Treinamos com alvo perto, longe, media distancia, em movimento, em super movimento, distanciando, se aproximando, saltando, agachando, uma infinidade de possíveis movimentos que poderá ser feito por um vampiro ou lobo. Parece que realmente puxei um pouco do meu pai, ele era um excelente atirador e no treino com Jean quase não errei nenhum.

Quando deu meio dia, paramos para descansar um pouco, sentia meus braços doerem, mas depois de um tempo eu iria acostumar com o peso da besta e o jeito certo de se segurar.

– Perfeito. Botou em pratica o que te falei e você nasceu para atirar, Anna. Sua precisão é absurda – elogiou e parecia orgulhoso.

– Puxei isso do meu pai, ele era ótimo

– O famoso espanta futuro namorado da filha – ele riu.

– Isso – sorri um pouco.

– Esta com fome? – Indagou.

Senti meu estomago praticamente gritar na mesma hora. Que irônico.

– Alguém já respondeu por você – gargalhou.

– Parece que sim.

– Então vamos comer. — Ele pegou a mochila e abriu outro bolso. De dentro tirou duas vasilhas com comida. Me jogou uma e um garfo e abriu a outra para ele. Nem pensei duas vezes e abri a vasilha. Deus. O cheiro era maravilhoso, algum tipo de macarrão com algumas verduras no meio.

– Não disse que tinha trago comida – resmunguei de boca cheia.

– Esqueci – ele deu de ombros e respondeu também de boca cheia.

Comemos rapidamente. Ele ainda pegou duas latas de coca na mochila, abençoada seja essa mochila. Bebemos rapidamente e ficamos sentados descasando um pouco.

– Que horas são? – Perguntei.

– Meio dia e alguma coisa – respondeu olhando no celular.

– Que alguma coisa – Impliquei.

– Trinta e sete minutos e vinte e um segundos, vinte e dois, vinte e três – ele sorria.

– Chega – joguei um pedaço de alguma planta que arranquei no chão.

Jean se levantou e deu uma boa espreguiçada, acho que entendo o motivo desse corpo dele... Tanto treinamento pode deixar qualquer um com o corpo definido.. Me levantei devagar e também dei uma espreguiçada seguida de um leve alongamento. E vamos começar tudo de novo.

Ele se abaixou e pegou um pedaço de tronco no chão, a peça deve ter uns trinta centímetros e está cheia de musgos.

– Concentre-se. Vou jogar essa madeira para cima e você tenta acertar o máximo de dardos e flechas até ela atingir o chão – ele me olhava fixamente confiante em meu sucesso, o que não é nada garantido.

Fiz que sim com a cabeça segurando a besta firmemente na mão esquerda e na mão direita três dardos entre os dedos. Estava suando frio e tentando me concentrar em acertar a madeira.

Jean jogou a madeira para o alto e fixo meu olhar nele. Esperei ela parar antes de começar o seu trajeto de volta ao chão e é nessa parada que começo a disparar os projéteis. Primeiro atirei os três dardos e sem descanso já recarreguei a besta e atirei novamente e joguei mais três dardos que recolhi rápido do bolso e ainda antes que chegasse ao chão disparei mais uma flecha.

– Muito bom – Jean elogia sorrindo.

– Como esperado? – Perguntei orgulhosa.

– Sempre espero muito de você – ele sorriu.

Treinamos um bom tempo este mesmo exercício da madeira a ponto de não sobrar praticamente nada dela. Uma hora se passou e quando estávamos nos preparando para mais uma sessão de treino reparei que minhas flechas acabaram.

– A munição acabou capitão – brinquei.

– Vou pega-las e já volto– ele se virou e foi em direção a um grupo de arvores.

– Como vai achar todas? – A maior parte das flechas que não acertei acabaram indo bem para dentro da floresta. Era impossível de se achar.

– Eu molhei a ponta de todas com perfume. Agora é só deixar o olfato de caçador agir. Já volto – avisou e sumiu entre as arvores.

Mais um dos truques de Jean. Parece que sempre está um passo à minha frente. Suspirei enquanto esperava ele voltar com as flechas. Realmente o local era muito bonito, a minha vontade era montar uma barraca e passar o resto do dia. Simplesmente esquecer os problemas do mundo lá fora um pouco.

Ouvi um barulho e quando olhei para trás Jean já voltava carregando as flechas. Entregou-me todas. Guardei os dardos no bolso e as flechas no suporte preso em minhas costas. Pronta para voltar a treinar.

– Você foi rápido – afirmei.

– Sempre sou rápido – orgulhoso.

– Aposto que consigo te acertar se eu quisesse – brinquei. Ele me olhou e vi seus olhos brilhando, como se tivesse uma ideia.

– Duvido – desafiou

– Não vou fazer isso com você, não quero te matar – avisei sorrindo.

– Espera – ele põe o indicador em meus lábios pedindo silencio.

Não sei o que pode ser, mas a cara dele é de preocupado. Como se tivesse sentido algum cheiro ou ouvido algo próximo a nos, eu não tinha ideia do que poderia ser, mas coisa boa não era.

– Fique aqui, vou investigar algo. — Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ele some novamente. Ah, inferno. Porque você faz isso comigo, Jean? O que ele quis dizer com investigar? E porque ele me deixou sozinha?

Meu coração disparou, parece que a floresta está me vigiando, me sinto sendo o centro das atenções. Mau sinal.

Ouvi um barulho se aproximando, olhei para todo lugar a minha volta, mas não tinha anda além de mato e mais mato. De repente surge um vulto preto, um corpo correndo muito rápido.

Garoto estúpido. Que ideia idiota de me deixar sozinha, sendo que eu acabei de começar o treinamento.

O vulto começou a correr em circulo a minha volta. Instantaneamente comecei a tremer. Tentei ficar calma pensando no que Jean me ensinou. “O medo te torna inútil perante uma situação de risco. Tente lutar contra ele”. Sua voz veio em minha mente.

Peguei a besta e rapidamente coloquei uma flecha, a velocidade dele era incrível. Respirei fundo e mirei com calma esperando o momento certo para atirar, assim que senti que era a hora certa eu atirei. A flecha passou direto. Droga, errei. Tirei três dardos bolso e arremessei em sua direção, errei de novo. Comecei a tremer novamente.

Meu coração estava acelerando cada vez mais a cada flecha que desperdiçava em vão. Quando estiquei a mão até as costas para pegar outra flecha o vulto para de me circular e vem na minha direção. Ele me segurou e sua cabeça se inclinou para meu pescoço. Esperei pela mordida inevitável, mas tudo que ganhei foi um beijo de leve e carinhoso.

– Disse que me acertava... Acho que você errou. – Era Jean surrando em meu ouvido. Tremi mas não sabia se era de medo ou pela proximidade.

– Idiota – empurrei-o com muita raiva. – Meu deus, Jean. Que ideia estúpida! Eu não estava pronta para isso ainda. – queria dar um tapa nele.

– Desculpa, branquela. – Ele ficou sério vendo minha cara de assustada. – Mas é exatamente por não estar pronta que eu fiz isso. Vampiros não costumam ser tão rápidos, mas você não pode deixar o medo te envolver. Na duvida, espere ele vir em sua direção e tente prever o movimento dele.

Respirei fundo tentando fazer minha mente e meu corpo assimilar que foi apenas uma brincadeira idiota de Jean, e ao mesmo tempo um teste para me ver em ação e nesse teste tirei um lindo zero.

– Tem algum ponto onde vampiros são mais vulneráveis? – Perguntei só por precaução.

– Tente acertar no tronco, o efeito é mais rápido e a madeira vai paralisá-lo. Já se for um lobisomem é mais difícil por causa do couro que é quase impenetrável, neste caso tente atingir a parte de dentro da boca, ouvido ou mesmo nos olhos.

– Como diabos eu acertaria dentro da boca de um lobisomem? – Isso era realmente sério?

– Muita concentração e calma – ele fala com se fosse fácil. Eu só conseguia pensar em rir com isso.

Demos prosseguimento no treinamento, já estava ficando cansada, mas esse treino foi melhor. Consegui acertar tudo que ele lançava. Parece mesmo que herdei isso do meu pai. Mas o nervosismo sempre me atrapalhava, e o medo era o que eu teria que aprender a controlar para ficar totalmente boa e concentrada.

– Mais uma vez? – Perguntei.

Começou a garoar e fazer mais frio. Tirei o celular do bolso e vi que já eram quase quatro da tarde. Talvez já fosse a hora de ir embora e deixar o treino para outro dia, se é que vai ter outro treinamento. Não que eu já me sinta boa o suficiente, mas não quero ficar ocupando o tempo dele com isso. Além de ter que estudar, fazer rondas, e quase não dormir, me treinar era algo ainda mais cansativo para Jean. Espero poder retribuir de alguma maneira toda preocupação que ele tem comigo.

Jean fica em silencio tentando perceber alguma coisa, captar algo que só ele consegue.

– Anna, corre – ele pediu e percebi a seriedade em sua voz.

– Não começa a brincar com isso. Sério mesmo, Jean. Aquela sua besteira me deu dor de cabeça – pedi. — Uma já foi demais, duas então...

– Corre – ele fala bravo, mas no mesmo tom de voz.

– Já falei pa...

Antes que eu pudesse terminar minha frase Jean corre em minha direção e me pega no colo, dou um grito fino e os pensamentos fogem da minha cabeça e já estou voando pela floresta. Fecho os olhos e tento reorganizar meus pensamentos.

Ele realmente estava falando sério dessa vez, não faria isso se não tivesse algo atrás de nos. Virei minha cabeça para olhar atrás e não consegui enxergar nada.

Fechei meus olhos de novo e colei minha cabeça próxima ao pescoço de Jean tentando respirar melhor. O enjoo reaparece junto com uma tonteira incomoda. Realmente espero que eu não vomite agora.

Olhei novamente para trás e vi um lobo se aproximando rapidamente. Se Jean não estivesse me carregando ele poderia correr melhor, mas não era esse o caso agora.

– Jean, tá muito perto – avisei próximo a seu ouvido, senti o aperto dele ao meu redor aumentar.

O lobo chegou menos de um metro de nós. O animal praticamente batia nos ombros do Jean em altura, a mandíbula abria e fechava ao ponto em que corria, sua cor de pele era preta e seus olhos de um verde que eu nunca vi em qualquer outro lugar. Se não fosse os acontecimentos, eu poderia falar que ele é um dos animais mais belos que já vi.

Com um salto brusco o lobo acertou a perna de Jean. Depois disso tudo fica escuro e meu corpo começa a ser massacrado e arranhado pelo terreno, fui lançada alguns metros. Meu quadril doía, meus braços estavam muito arranhados, tinha um corte em minha testa e minha calça jeans estava rasgada.

– Corre! Agora! – Jean grita se levantando para confrontar o lobo.

Me levanto rapidamente ignorando toda a dor da queda e começo a correr mancando pela floresta, acho torci o tornozelo. Ótimo! Realmente a situação só melhorava. Mas como era comigo, não esperava menos do que isso.

Tomei uma boa distancia e ainda assim não diminui o ritmo, continuei a me distanciar de onde Jean ficou lutando contra o lobo. Mas porque lobos viriam atrás de mim, ou dele? Eles não têm que se envolver nisso, mas pode ser que... Alex. Aquele desgraçado. Um dia eu ainda mato ele, é a única certeza da minha vida.

Correr e tentar conter as lágrimas ao mesmo tempo em que devo controlar minha respiração é algo muito complicado de se fazer. Estou me sentindo culpada por não ter ficado e ajudado Jean com o lobo, mas sua voz penetrou minha mente de uma maneira tão drástica que não pensei duas vezes antes de correr. Eu só iria atrapalhar ele, não estava pronta para ser útil em uma briga. O tornozelo incomodava muito e o sangue da minha testa se misturou com as lagrimas de agonia que eu deixava pelo caminho. Lagrimas de dor por envolver tanta gente nisso, por Alex ter me traído, por poder perder meu melhor amigo e não poder fazer nada além de fugir.

A vontade de voltar lá invadiu minha mente subitamente. Não, eu não posso voltar,sei que ele é melhor que um lobo idiota. Ouvi um latido se aproximando de mim. Ah, é sério isso? Está escrito “ Venha atrás de mim e acabe com a minha vida! “ na minha testa? Olhei para trás de relance e vi dois lobos correndo na minha direção, um meio marrom e o outro preto com manchas brancas. Estavam se aproximando com tanta facilidade, parecia que eu era uma ratinha contra dois imensos gatos.

“Não vai conseguir fugir, tente atrasar eles até eu chegar”. Imaginei a voz do Jean em minha mente, era um jeito de tomar coragem. A comparação de velocidade era absurda, a qualquer momento um deles poderia saltar sobre mim e me engolir viva.

Seja corajosa, Anna. Você consegue.

Continuei correndo dando mais atenção a minha audição, não precisa ser caçador para escutar as passadas de um lobo gigante. Já percebendo que o lobo iria saltar na minha direção, peguei a besta já colocando uma flecha em um movimento até rápido para mim, sem para de correr girei meu corpo ficando de frente com o lobo e saltei para trás ao mesmo tempo em que ele saltava sobre mim.

Parecia um daqueles filmes onde no momento da ação tudo se passava em câmera lenta. Antes do meu contato com o chão, eu mirei em seu olho esquerdo e apertei o gatilho da besta com raiva, à flecha saiu furiosa, e eu caí rolando no chão novamente. Não sei se acertou, mas escutei um uivo alto e agonizante.

Me levantei e sem me dar ao luxo de olhar para trás continuei a correr mancando, pelo menos não escutava mais os lobos atrás de mim, e assim ficou durante uns dois minutos onde eu corria no meio da floresta desesperada sem saber se estava no caminho certo.

Meu corpo estava altamente dolorido e muito sujo, tinha mato no meu cabelo e minha rouba era pura lama. A chuva era fina e não ajudava em nada, pois às vezes eu escorregava a ponto de quase cair.

Arvores, arvores e mais arvores. Realmente era uma merda morar em um lugar que tinha mais floresta que civilização. Sentia que a qualquer momento os lobos me alcançariam, e eu não queria machucar uma pessoa, muito menos tirar a visão dela, mas eles estavam atrás de mim e eu tinha que me proteger do único jeito que eu sabia. Se pelo menos sangue de Valquíria servisse para algo.

Meu corpo tremia e meu tornozelo implorava por descanso e eu realmente só pensava na minha cama agora, além de ter que correr. Meus dentes começaram a bater um no outro pelo frio e sentia meu corpo perder as forças. Escorreguei numa poça e me caí no chão. Comecei a chorar, não conseguia mais levantar. É assim que tudo acaba? E Jean, será que ele está bem? Será que ele vai me alcançar e me salvar? Queria ser forte e poder continuar a correr, ou mesmo ter força para enfrentar os lobos junto com Jean.

Levanto a cabeça para tentar me reerguer e vejo um vulto se aproximando de mim, estava devagar, mas minha visão estava turva e a camada de chuva fina não ajudava em nada.

– Quem é? – Tentei falar alto, porém saiu em forma de sussurro.

Não pode ser Jean. A pessoa se aproximava com cautela me examinando e então quando chegou próximo correu para mim.

– Anna, Anna! Meu Deus, o que está acontecendo? – A voz era feminina e tive a impressão de já ter ouvido. Deus, que dor de cabeça insuportável.

A mulher me levantou e passou os braços por minha cintura, passei meu braço por seu ombro e começamos a caminhar devagar. A moça tinha um cheiro agradável, doce, porém não enjoativo. Era familiar para mim.

– Anna, me fale o que está acontecendo. Olha o seu estado! – ela me conhecia, pelo menos sabia meu nome.

Forcei minha mente a voltar a trabalhar a meu favor para tentar identificar a pessoa.

– Tem lobos por aqui – ela avisa. – Eles te atacaram? O que estava fazendo dentro da floresta?

– Corra e salve sua vida – falei para ela. Não podia deixar mais ninguém se arriscar por minha causa.

– Como se não soubesse como eu sou. Eu vou me transformar agora e você sobe em minhas costas e segura em meu pescoço, pode apertar o máximo que conseguir, não vai me machucar. Você entendeu? – Evelyn, era ela.

Confirmei com a cabeça. E foi uma coisa bem idiota para se fazer, estava muito tonta e parecia que eu tinha tomado trezentas garrafas de qualquer coisa alcoólica e bem forte. Sentei no chão e me encolhi tremendo de frio. Evelyn tirou seu moletom e me vestiu com muita pressa, depois tirou a blusa, o short, o sutiã e a calcinha.

– Como você consegue ser tão gostosa? – Falei de forma lesada.

– Idiota, não brinca numa hora dessas – ela riu rapidamente.

– Vadia gostosa. Vamos deitar e rolar na lama. Vai ser legal. – falei. Realmente minha comparação com algo alcoólico estava certa.

Evelyn respirou fundo e explodiu em um lindo lobo branco. A pelagem dela era mais branca que a neve e maior que dos lobos idiotas que estão atrás de mim, seus olhos ficavam azuis quase brilhantes, era linda. Ela latiu para mim e se deitou ao meu lado.

– Obrigado pelo que está fazendo por mim. – sussurrei para ela.

Subi em suas costas passando meus braços por seu pescoço e pressionando minhas pernas em seu flanco. A loba se levantou e começou a correr passando rapidamente por muitas arvores. Ela correu em dez segundos o que eu demorei cinco minutos. Eu não fazia ideia do que Evelyn estava fazendo por aqui em um horário em que devia estar na escola, mas não me importava agora, só conseguia agradecer por ela ter me encontrado enquanto eu ainda estava viva. Devia minha vida a ela.

Estávamos rápido, mas logo o lobo preto com manchas apareceu furioso atrás de Evelyn, o outro lobo estava ao seu lado dessa vez. Será que o machuquei demais? E porque estou sentindo pena?

O Lobo manchado, decidi chamá-lo assim, estava babando de tanta raiva pelo que fiz ao amigo dele. Ele chegou rapidamente perto de nos, estava a mais ou menos uns dois metros.

– Evelyn, ele está muito perto. – avisei próximo à orelha de loba dela e olhei para trás novamente. Um metro. – Vai nos alcançar — e olhei para trás novamente.

O Lobo manchado se jogou do lado de Evelyn e saltou conseguindo morder minha coxa. Meu coração nesse momento quase parou de tanta dor que eu senti, eu só conseguia gritar e acabei me soltando de Evelyn e cai de lado de novo rolando no chão. Tudo ficou escuro e me deu vontade de vomitar, senti um cheiro forte de ferro ou ferrugem. Eu sabia que era sangue, e claro que era meu.

Eu não sentia minha perna direita, simplesmente no momento em que o lobo abocanhou-a parei de senti-la. A dor corria do inicio de minha coxa para todo o resto de meu corpo, eu queria desmaiar para não sentir tanta dor. Eu gemia de dor e as lagrimas molhavam meu rosto, minha boca estava cheia de lama, mas eu não tinha forças para levantar meus braços.

Minha vista ainda era embaçada. Evelyn avançava sobre Lobo manchado e os dois rolaram no chão um tentando morder o outro, ele era maior e mais forte, mas Evelyn era muito mais rápida e conseguia desviar das tentativas inúteis do animal.

Fechei meus olhos e tentei mover meu dedo do pé, em vão, pois não sentia ele. Tentei olhar ao meu redor para ver onde minha perna poderia estar, com certeza ele a tirou de mim... Mas não vi nada. Chorar não ia mudar o que aconteceu, mas era a única coisa que eu conseguia fazer além de tentar suportar a dor infernal e escutar Lyn lutando contra o outro lobo. Tudo isso poderia ser evitado, até a morte do pai dela poderia... Se eu não fosse egoísta o suficiente.

Escutei um latido alto e depois silencio. Tentei gritar para Evelyn para saber se ela estava bem, para saber se ainda estava viva, porém minha voz não saia, minha dor era silenciosa e eu só queria dormir para poder parar de sentir dor.

Algo me ergueu no ar e me colocou ao seu corpo, senti uma pontada na perna e dei outro grito sufocado.

– Me desculpe — Consegui abrir um pouco os olhos e ver quem era. Jean. O alivio de saber que ele estava bem percorreu meu corpo. De alguma maneira sabia que ele me salvaria, é sempre ele.

Eu sentia o ar correr a minha volta, mais rápido do que nunca senti.

– Eu estou com medo, eu vou morrer não vou? – consegui sussurrar para ele.

– Não – disse na lata. E voz dele estava diferente. – Não feche os olhos, não ouse fazer isso comigo.

– Estou com sono e tonta – sentia que a qualquer momento eu dormiria, não estava aguentando e minha vista só estava piorando. Queria fazer o que ele pediu, mas estava cansada demais.

– Já estamos chegando. Aguente só mais um pouco.

Minha cabeça girava e minha visão foi ficando cada vez mais escura até o ponto de não consegui enxergar mais nada, então fechei os olhos e tentei abrir novamente. Mas perdi os comandos de meu corpo, não conseguia me mexer, nem escutar nada, e devagar minha mente foi parando de funcionar.

– Mãe, ela abriu o olhos – era a voz rouca de Jean ao meu redor. Por que me acordaram?

Algo abriu minha boca e senti o gosto de ferro passando por toda minha boca rumo a minha garganta. O mesmo que abriu minha boca a fecha e me impossibilita de abrir até que sem escolha eu engulo o liquido quente e nojento que colocaram em minha boca.

Ainda não sentia minha perna e isso era realmente assustador, a dor voltou a emanar para todo meu corpo e ia ficando cada vez pior, comecei a estremecer e me desesperar, gemendo de dor novamente. Queria sair dali de qualquer jeito, queria me matar para parar de sentir tanta dor.

– Ela precisa se acalmar. Nervosa desse jeito o corpo não vai começar o processo de cura acelerada, Jean – era a voz da Mag. O que ela estava fazendo aqui?

– Anna, sei que está acordada e me escutando. Se acalme que tudo vai ficar bem. – A dor na voz de Jean era eminente, parecia que estava chorando por minha causa. – Por favor. Não me deixe também. – ele implorou.

Senti sua mão quente segurar a minha e levar até seu peito, logo em cima do coração. Os batimento cardíacos dele estavam muito rápidos que chegava a ser incomum, já que sentia bater normalmente quando corria a toda velocidade pela floresta. Senti uma gotinha pingar em meu braço e descer lentamente ate meu cotovelo.

– Não chore, você não teve culpa de nada – consegui sussurrar.

Ele respirou fundo e seu coração foi voltando às batidas regulares, comecei a respirar seguindo cada batida de seu coração, e me deixei levar pelo ritmo das batidas. A cada batida parecia que seu coração estava sugando minha dor para ele. A cada tun-tun meu corpo ia relaxando e me fazendo se sentir melhor. Voltei a sentir minha perna o que fez um sorriso instantâneo surgir em meu rosto, não conseguia me mexer direito ainda, porém saber que eu ainda estava inteira era uma sensação maravilhosa.

O sono voltou forte. E Jean colocou minha mão de volta na cama, mas eu agarrei sua mão e não deixei ele me soltar. Abri um pouco os olhos e vi Mag e ele me olhando com sorrisos de alivio no rosto ao mesmo tempo em que manchas de lagrimas os marcavam.

– Descanse, querida. Quando acordar vai está bem melhor – Mag passou a mão em minha cabeça.

Fiz que sim de leve com a cabeça, ouvir isso dela me deixou mais aliviada ainda. Vou acordar e pensar que tudo foi apenas um pesadelo.

– Me desculpe, Anna – Jean beijou minha testa.

– Só... Fique... Comigo. – era só o que eu conseguia falar. Queria poder conversar mais, dizer que não teve culpa e que ele é um anjo em minha vida, contudo meu corpo não tinha forçar nem para dizer uma palavra. Fechei meus olhos e me deixei levar pela boa sensação de que tudo ia ficar bem.

Notas finais
Espero que tenham gostado. E até o próximo o mais rápido possível.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.