Opúsculo

1 Hearing Damage


Notas iniciais
Aconselho você escutar "Thom York - Hearing Damage"Leia até o final, sua pré opinião pode estar errada!Aceito criticas.

Ela se aproximou e colocou uma das mãos na parte de trás do meu pescoço me trazendo lentamente pra perto de sua boca.

— Escuta, eu...

Mas não consegui terminar o que eu tinha começado a falar, nem um segundo depois eu conseguia me lembrar de o que eu pretendia falar para ela; Dava-se pra ouvir os pingos de chuva na lataria do carro. Ela estava quente, mas a temperatura parecia cair a nossa volta, gota por gota.

“É um sonho” — Eu sorri.

Estávamos ofegantes, as janelas embaçadas pela nossa respiração. Sabe aquela sensação de estar sonhando a mesma coisa pela segunda vez?
Eu não tenho tanta experiência assim no departamento de beijo, mas o dela era diferente, era incrível como parecia que nossas bocas já se conheciam.

Sua língua acariciou meu lábio inferior pedindo passagem, eu entreabri os lábios devagar, estava cada vez mais frio ali, a única coisa que fazia o calor aumentar era me pressionar mais forte contra ela. Mas isso, com certeza, só fez as coisas piorarem já que sem perceber minha mão estava embaixo de sua blusa subindo aos poucos. Não chovia em West Coast fazia meses, mesmo sendo a única cidade de Hidden States com o clima propicio não havia previsão tão próxima pra chuva, deve ter sido todo o refrigerante que tomei antes de dormir.

Eu senti sua mão correndo pela costura do meu jeans enquanto a gente se beijava, sabia que era só uma questão de tempo até que aquela mão boba decidisse entrar na calça; Ela não dizia nenhuma palavra como da primeira vez e por mais que eu tentasse não conseguia enxergar seu rosto, estava tremulo e borrado, como se eu estivesse bêbado ou passando por um daqueles flashbacks momentâneos de filme.

O carro se mexeu e ela parou instantaneamente assustada, olhou pelos vidros a procura de algo e mal percebera que havia derrubado os cadernos no chão do carro que estava molhado. Ela ainda olhava pela janela, aquilo havia cortado todo o clima de uma só vez, apesar de que não era culpa dela estarmos num local isolado à beira de um penhasco, peguei uma de suas folhas assustado ao perceber a data escrita por extenso “20 de dezembro de 1968”.
Ela se virou bruscamente puxando a folha da minha mão, devia estar envergonhada já que sua letra não era uma das melhores que eu havia visto, mal percebemos o vulto que vinha pela traseira do carro; O rádio ainda tocava música, a mesma da primeira vez. Tentei me concentrar em meio aos movimentos dela.

“Thom York” — Deduzi. O que não ajudava nada naquele momento.

Ela estava decidia a continuar o que havíamos parado quando o carro tremeu novamente, dessa vez o tranco foi maior. Virei assustado pra trás mas já era tarde, um homem armado usando uma capa surgiu repentinamente disparando na nossa direção, tentei me abaixar mas era tarde demais, apenas ouvi um ultimo grito dela e tudo se escureceu.

Eu havia morrido novamente.

——

Abri os olhos assustado, eram 7:50AM e eu iria perder o voo se não me apressa-se, aquela foi uma manhã normal de sábado em Brampton. Nada fora do normal. Nada que me fizesse suspeitar que aquele fosse o dia que a minha vida ia mudar para sempre. Nada mesmo.
Claro que eu sabia que o voo para West Coast sairia em menos de uma hora e que o caminho para o aeroporto era meio complicado por causa das ruas engarrafadas dessa cidade mas continuei fitando o teto por uns instantes, o quarto estava escuro mas eu podia sentir a pequena brisa que o clima de Brampton proporcionava, não sabia definir, era um calor com brisas frescas. Ainda não tinha me acostumado.
Me levantei ainda com os fones de ouvido, precisava parar de dormir ouvindo Thom Yorke no replay, aquele sonho viera me perturbar novamente.
Andei até o banheiro cambaleando e com os olhos semiabertos até chegar à frente do espelho, encarei minha própria imagem e não consegui me reconhecer, estava pálido e com os olhos vermelhos, realmente aquele trabalho de história pras férias havia acabado comigo de propósito já que eu havia decidido deixá-lo pra ultima hora.
Creio que ninguém nunca foi fã de acordar cedo, eu não ligava se fosse pra fazer viagens com meus tios ou até mesmo ir pros parques em Roaring Heights era acordar cedo pra ir pra escola que me fodia. Lembro que meu tio tinha que fazer cócegas nos meus pés para eu sair da cama nos dias de semana.

Menos aos sábados pensando bem.

Eu acho que o meu tio sentia o mesmo. Sobre os sábados quero dizer. Ele era sempre o primeiro a acordar no nosso apartamento nos dias de semana, mas ele acordava extra cedo nos sábados e ao invés do café da manhã de aveia com açúcar mascavo que ele fazia para mim diariamente, ele fazia torradas e bacon.

Terminei de escovar os dentes e fui checar minhas malas novamente, tudo estava arrumado. O relógio despertou 8:10, havia me esquecido que meu tio tinha pedido um taxi pra hoje já que sua reunião importante havia caído no mesmo dia dessa viagem estúpida. Ele me avisou que o taxista estaria me esperando na porta do prédio logo cedo e eu não dei ouvido, tanto que ele precisou buzinar várias vezes até eu aparecer na sacada e sinalizar que estava descendo.

Bebi o resto de suco que havia sobrado da mesa de café enquanto ia para o elevador, pois minhas malas estavam lá.

Disseram que em West Coast havia carvalhos. Eu não acreditei, mas foi o que me disseram. Disseram que já do avião eu poderia vê-los. Eu sei perfeitamente que o sul de Hidden States há carvalhos. Não custa lembrar que não sou um completo idiota.

Eu assistia os reality shows de lá, entre eles um sobre sobrevivência nas densas matas do sol da cidade.
Meu tio havia me avisado pra por os suéteres horríveis que ele havia me dado na festa de ação de graças na mala, claro que eu neguei mas não houve discussão.

— Não senhor. — disse ele. — Você precisa deles. Do seu casaco também, você está indo pra cidade mais fria do estado garoto! Estou enviando carne e não quero receber um picolé quando você voltar.

Tio Ben sempre tinha piadas sem graças em estoque.
O casaco amarelo-pus que ele me dera quando voltamos de Vermont County um mês antes ainda estava intacto, já que eu não tinha usado. Ele me ajudou a colocar as bagagens no porta-malas do taxi, e não trocamos muitas palavras, tio Harold não se importava em descer na rua envolto de seu roupão xadrez azul extravagante que ele insistia não jogar fora.

Nossa família nunca foi boa com casamentos, tanto que meus pais e minha tia haviam morrido inverno passado num acidente de carro ao qual só eu sobrevivi, não costumávamos tocar muito naquele assunto, mas tio Bem fez questão naquele momento.

— Ei rapaz, tenho certeza de que eles estariam orgulhosos de você agora. — Ele falou com um pouco de dificuldade, não acreditei quando vi seus olhos encherem d’água. — Não se esqueça de ligar, estarei esperando.

Ele franziu o bigode de uma forma engraçada, eu sorri e dei-lhe um abraço, iria ser bolsista a partir daquele momento e além de tudo estaria sozinho.

— Juízo!- Ele sorriu novamente. — Camisinha não é vergonha pra ninguém. — Ele disse jogando umas em mim.

O taxista espiava pela janela rindo.

— Ok tio!- Tentei não rir. — Estou precisando é de uma camisinha pro coração. — Nós rimos, eu não me lembrava de onde havia ouvido essa, mas quebrou o clima triste.

Terminamos de arrumar tudo e eu entrei no taxi, tio Ben me dera uma boa quantia em dinheiro.
Depois de uma série de eventos históricos, crises, confusões em congressos e outras baboseiras políticas os Estados Unidos fora divido em dois estados principais, Hidden States e o próprio United States.
Ainda usamos o dólar, já haviam entrado em discussão para definir uma moeda diferente a Hidden, já que não existia mais o Canadá e estávamos crescendo em igualdade econômica com os Estados Unidos. Estamos longe da fronteira com eles, temos nossa própria cultura e história aqui, mas o respeito é mutuo.

Uma boa aula de história e geografia com meu antigo e entediante professor ira ajudar vocês a entenderem melhor.

——

Claro que eu não obedeci ao tio Ben e assim que o taxi partiu eu tirei o casaco amarelo, já tinha ouvido boatos sobre as novas escolas de West Coast e não eram nada receptivas.

Eu morava lá quando criança, antes do acidente eu estudava no mesmo colégio pra qual prestei a bolsa e por isso é que eu estava usando minha jaqueta de couro preto, me sentia mais seguro comigo mesmo, todo mundo tem uma roupa que se acha mais “bonito”. Poderia tê-la mandado com o resto da minha mudança, mas eu me sentia melhor com ela no corpo.

De modo que lá estava eu naquele taxi, com uma jaqueta de motoqueiro, vendo a estrada pela janela e por mais indesejável que tenha sido, ouvindo Thom Yorke.
O taxista insistia em ouvir uma musica religiosa e cantar o mais alto que podia enquanto batucava o volante, encostei a cabeça no vidro e pensei comigo mesmo: “Genial. Musica repetida e batuques! Não podia estar acertando mais, exatamente como achava que ia mesmo...”.

...Para não dizer ao contrário.

Chegamos ao aeroporto e lá estava ele pra me receber, parecia estar furioso mesmo sabendo que eu não era bom com horários.

— Onde você estava Sam? A gente pode perder a passagem pro “mundo colorido”. — Ele insistiu o verão todo de que West Coast seria o palco inicial pro seu novo harém, já que na nossa cidade ele falhava constantemente, sua ênfase em mundo colorido me assustou.

— Não dormi bem!- murmurei fazendo força pra não rir e tirar uma das malas do taxi. — Você poderia me ajudar, não? — Olhei pra Steve imóvel.

— Cara, eu realmente estou com um bom pressentimento. — Ele disse sorrindo. Ele me ajudou a colocar as malas no carrinho e fomos fazer o check-in e etiquetar tudo.

Steve me lembrava muito um ator famoso dos Estados Unidos, Dylan O’brien se eu não me engano, o cabelo curto com um pequeno topete, sobrancelhas escuras e eu sorrisinho sarcástico que eu odiava.

Os pais dele eram executivos em Brampton o que o ajudou a entrar fácil na escola e me forçar a fazer a prova pra não ter que ir sozinho.

Depois de arrumarmos tudo, fomos embarcar.

Demorou um bom tempo até o piloto decolar, Steve havia me dito que tomara remédios para dormir e que logo estaria apagado por causa do seu constante medo de altura. Fiquei meio aborrecido com o fato de eu ter concordado em ir estudar milhares de quilômetros longe de todos que eu conhecia, me obrigando a sair do colégio no meio do segundo ano; a abandonar minha única família e ir pra High West College com Steve.
Essa última foi a parte mais tranquilizante na verdade, eu e Steve crescemos juntos e foi por ele que decidi fazer a maldita prova.

O voo durou mais ou menos 3 horas, deu tempo de ouvir toda a minha playlist e pensar no quão bom teria sido se o avião tivesse caído. Estavam todos lá para nos receber quando desci do avião, Ed, Amanda e um homem que aparentava ser algum monitor ou algo assim.

— Sam!!!

Mesmo se eu não tivesse escutado Amanda berrando meu nome quando passei pelo portão, não tinha como deixar de vê-los, minha nova família. O monitor fazia Ed segurar aquele enorme cartaz grande dizendo “Sejam bem-vindos” com uns corações coloridos e glitter, que estava na cara que havia sido Amanda.
Todos os passageiros que saíam do avião passavam por ali e ficavam dizendo ”Olha só que gracinha!” e sorrindo para mim com aquele olhar enjoativo.
É isso aí. Não podia mesmo estar acertando mais, seria um “excelente” ano.

— Tudo bem — fui dizendo, enquanto me aproximava depressa da minha nova família. — Agora podem abaixar isso aí.

Amanda pulou em mim, enquanto Steve ainda passava pelo portão meio sonolento sob o efeito dos calmantes.

— Eu não via a hora Sam! Você mudou tanto. — Os olhos dela brilhavam Amanda sempre se empolgava fácil, passei um tempo ali com ela enquanto Steve colocava suas malas no carro do monitor e Ed colocava as minhas, ele não tinha mudado muito também, o mesmo cabelo ruivo lambido pro lado e um pequeno vão entre os dentes.

— Você não mudou nada!— Ela me acertou no braço direito logo em seguida. — Pelo menos aprendeu a bater. — assumi, realmente havia doído.

Cumprimentei os outros dois e partimos para o dormitório, havíamos viajado a manhã toda e estava na hora do almoço. Amanda tagarelava sem parar, não pude deixar de notar o uniforme que ela usava eles haviam caprichado naquele ano. Ed estava com uma camiseta com gola branca e um suéter preto por cima com detalhes brancos na gola do suéter e botões saindo debaixo do braço e cruzando o peito.
Eu já havia estudado com eles, mas após uma ligeira observada parecia estar diferente.
A estrada do aeroporto até a escola era curta.
Entramos pelo portão principal do colégio, parecia militar, haviam guardas e muita segurança na entrada mas não tivemos nenhum problema. Subimos uma pequena rua que levava a escola, envolta dela havia árvores, todos estavam conversando no carro, mas não consegui desprender minha visão da pequena mata envolta; Imagens do meu sonho vieram a minha cabeça, o beijo e toda a sensação que tive. Peguei-me sorrindo e ainda distraído murmurei:

— Foi bom pra caralho!- Todos ficaram em silêncio.

— Vejo que ainda não perdeu sua boca suja Sam. — Dessa vez o monitor falou, sua voz parecia calma e autoritária.

— Desculpe! – Balbuciei. Amanda já estava rindo.

— Espero que tenha feito o trabalho inicial de história! Porque muitas coisas mudaram por aqui Sam, muitas.

Não dei atenção.
Pelo estacionamento todo, que evidentemente tinha um sistema de irrigação, havia arbustos enormes com flores vermelhas gigantescas, quase sempre ao redor dos carvalhos incrivelmente altos e grossos. Depois, olhando melhor as flores, eu descobria que eram hibiscos. E os estranhos besouros que ficavam pairando em volta, com um zumbido, não eram besouros coisa nenhuma, mas beija-flores.

— Ok senhores, irei deixa-los aqui enquanto resolvo a papelada dos garotos. — O monitor disse se despedindo ao parar o carro. – Levem com vocês apenas o necessário, as malas serão inspecionadas e enviadas aos seus quartos hoje mesmo.

Steve havia dormido no carro o pouco que ainda lhe restara do avião e se assustou quando acordou e viu a enorme escola, era bem maior do que informava no site e sua decoração preta, branca e vermelha não eram nada amigáveis.
Amanda correu cumprimentar um grupo de garotas que passava ali por perto e Steve seguiu Ed até a entrada do dormitório.

E eu? Bem... Respirei fundo, pois sabia que seria um longo ano dali pra frente.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.