Opposite
27 Perdão
Notas iniciais

É a primeira noite na qual não consigo encontrar as estrelas no céu de Opposite.
Por um segundo, meus olhos se perdem na atmosfera enigmaticamente nebulosa. Contemplo como as nuvens a preenchem, cobrindo-a por completo, e de repente, até mesmo a Lua. A claridade de nossas chamas permite que continuemos enxergando, porém, só o que está por perto. A cegueira à longa distância me faz estremecer, no entanto, não só ela. A risada malígna de meu pai ainda ecoa pela orla, tornando-se cada vez mais audível e indicando sua aproximação.
Toda a coragem que consegui reunir para chegar até aqui morre em um único segundo. Sinto meus batimentos cardíacos acelerarem, minha garganta secar, minhas mãos tremerem e uma vontade de me esconder que nunca senti na vida. Estou assustada à ponto de chorar, mas faço de tudo para reprimir essa necessidade. Se existe uma coisa que eu detesto é a sensação de vulnerabilidade.
Como esperado, o pânico me faz perder o foco. Minhas chamas se apagam e eu fico totalmente desprotegida. No entanto, Luke logo percebe o meu abatimento e aniquila os três demônios, em minha frente, que estavam prestes a me atacar.
– Obrigada. – Agradeço, ignorando a tremedeira.
Ele encara meus olhos com preocupação e segura uma das minhas mãos com força. Suspiro, contente em tê-lo ao meu lado novamente. Estivemos separados por tão pouco tempo, mas pareceu uma eternidade para mim. Nunca pensei que fosse sentir a falta de alguém com essa intensidade.
Luke está prestes a dizer alguma coisa, mas neste exato momento, a voz de Agramon volta a nos aterrorizar:
– Vocês fizeram um belo trabalho, meus guerreiros, mas já é hora de parar. Acho que já é suficiente... – Ele se dirige ao exército demoníaco.
Assim que Agramon termina de falar, imediatamente, todos os demônios ao redor obedecem suas ordens, interrompendo seus movimentos como se fossem robôs. Observamos as criaturas demoníacas se afastarem lentamente de nós e se moverem na direção Sul, de onde estavam vindo.
Ruídos metálicos de espadas se chocando me chamam a atenção e então percebo que os únicos que continuam a duelar são Peter e Elliete. A disputa parece equilibrada, mas, para o meu desespero, a loura passa uma rasteira em Peter, que ao perder o equilibrio e cair, deixa a espada voar para longe.
Um sorriso cruel se forma nos lábios de Elliete quando ela caminha com sua espada pontiaguda até Peter. Os olhos de Peter se arregalam, assim como os meus. Sinto meu coração dar uma cambalhota só de imaginar o que a loura maldita está prestes a fazer agora que o feiticeiro está desarmado.
Por puro impulso, faço um movimento brusco para a frente, no intuito de sair correndo para salvar meu amigo. No entanto, sou puxada para trás por Luke, que segura meus ombros com força. Infelizmente, não consigo escapar dessa vez.
Antes que eu reclame do excesso de proteção e tente me soltar novamente, Luke sussurra, com convicção:
– Emily, ela não vai fazer nada.
Não confio muito no que Luke diz e mordo o lábio inferior, nervosa, observando os movimentos de Elliete, há poucos metros de nós. Ela encosta a espada no pescoço de Peter, que parece tão assustado quanto eu.
– Luke, faça alguma coisa. Por favor! – Berro, agoniada, mas mesmo assim, ele não faz absolutamente nada. Nem ao menos me responde.
Elliete dá uma gargalhada alta com a aflição de Peter e acho que com a minha também. Se eu pudesse, ficaria honrada em colocar fogo no cabelo dessa loura destestável!
Mas para o meu alívio e surpresa ela murmura, entre os risos:
– Hoje, não, lindinho. Hoje, não.
E então puxa sua espada e sai correndo, seguindo as criaturas demôniacas, rumo ao Sul e desaparecendo na escuridão.
As mãos de Luke se afrouxam em meus ombros e finalmente me libertam. Caminho até Peter e o ajudo a ficar de pé.
– Você está bem?
– Estou, Emy. Só um pouco assustado. – Diz e força uma risada. – No fundo, eu sabia que ela não ia fazer nada. Ela estava pegando leve, disso eu tenho certeza.
– O que?! – Fico indignada. – Claro que não, Peter.
– Sim, Emy. Parece que não, mas ela tinha muito potencial pra me destruir a hora que quisesse. Deve ter sido treinada por Agramon, afinal.
Encaro Luke, bem atrás de mim. Ele estava certo no fim das contas... Dou um sorrisinho amarelo e ele revira os olhos, como se dissesse “Eu falei!”.
– Não entendo, Luke. O que fez você pensar com tanta certeza que Elliete não ia atacar, no final?
– Emily, – Luke diz com seriedade. – ela obedece a Agramon. E você não está vendo? Agramon está jogando! Ele não vai tentar matar nenhum de nós, não hoje. O que ele está tentando conseguir aqui é o seu apoio. Agramon quer você como aliada, e não como uma inimiga.
As palavras de Luke fazem um grande sentido, mas também fazem meu estômago doer. Quer dizer, tudo bem, Agramon não está partindo para a violência de cara, só para me conseguir como aliada. Mas e quando ele descobrir que não vou ajudá-lo a dominar Opposite em hipótese alguma? Qual será sua reação? Certamente, nada boa...
– Pessoal, eu preciso de ajuda aqui! – A voz de Nina desperta-me do raciocínio. – Acho que Jeremy está perdendo muito sangue!
Alarmados, eu, Luke e Peter procuramos por Nina em meio a escuridão. Nos guiamos com as chamas dos dois feiticeiros e a encontramos com facilidade. Ruby está com a pequena feiticeira, o que me deixa um pouco mais tranquila.
Nina está sentada no chão, parece mais pálida que o normal e confesso me assustar muito com seu olhar de terror. Mas quando meus olhos pousam em Jeremy, tenho de reprimir um grito.
Ele está desacordado, deitado de barriga para baixo, pousado nos braços de Nina. Porém, o que me choca são os rasgos feitos de fora a fora em seu dorso. São bem compridos, largos e sangram muito. O cheiro metálico me atinge em cheio e faz com que eu me sinta nauseada, sendo obrigada a tapar a boca com as mãos.
– Use um feitiço de cicatrização simples! – Peter sugere.
– Você acha que eu já não tentei? – Nina resmunga, ofendida. – As garras do demônio estavam envenenadas e, por isso, todos os meus feitiços são inibidos. Também tentei usar minhas chamas para lhe dar mais força, mas não foi suficiente.
– Ele precisa de algum antídoto – Luke diz, mantendo a calma. – ou então, as ervas que usamos em Emily quando foi mordida pelo poisonie. O problema é que não tem como arrumarmos nenhuma dessas coisas agora.
Viro de costas, tentando ignorar a ansiedade e pensar em algo útil. Assim que coloco os olhos no exército de lobisomens, tenho uma ideia.
Então, saio correndo, procurando por Blake no meio da escuridão, caminhando na direção de onde viemos. Finalmente a vejo, manejando uma labareda e logo depois, cauterizando ferimentos de alguns lobos. Felizmente, ela já está terminando quando eu chego.
– Blake! – Digo, ofegante. – Um dos meus amigos está ferido e o corte está envenenado. Por favor, preciso da sua ajuda!
Caminhamos juntas até os meus amigos, no centro da orla, e assim que chegamos, Luke e Nina, ainda que sentada no chão, fazem uma pequena reverência.
– Majestade. – Luke cumprimenta, respeitoso como sempre.
Blake sorri, provavelmente estranhando toda a formalidade.
– Por favor, me chamem de Blake. Eu não sou mais sua rainha. – Blake diz gentileza. Então ela passa a examinar Luke. – Você lembra muito o seu pai.
Luke parece um tanto desconfortável com a observação, o que eu não entendo. Ele sempre dá a entender que admira o pai.
– Fisicamente, pode ser. – Murmura, meio receoso. – Mas meu pai é um grande homem, eu nunca seria como ele.
– Eu aposto que é. – Blake rebate. – Luke Gray, se tem uma coisa que fazemos nessa vida é errar. Porém, é muito bonito quando reconhecemos nossos erros e os reparamos.
– Claro, você está certa, Blake
Permaneço quieta, encarando minha mãe e Luke e tentando entender qual é o sentido dessa conversa esquisitíssima. Ao que parece, há algo acontecendo bem debaixo do meu nariz e eu não faço ideia do que possa ser. Estou prestes a fazer uma pergunta, mas a minha cara de interrogação faz com que Blake seja mais rápida e encerre:
– Agora me deixe examinar seu primo.
Blake senta ao lado de Nina e passa a analisar os cortes nas costas de Jeremy.
Uma curiosidade mórbida me enche por inteira e eu tenho vontade de tentar arrancar algo de Luke. No entanto, decido esperar até tudo isso acabar. Uma discussão entre nós no meio da batalha é a última coisa que precisamos neste momento.
– Tenho um antídoto perfeito para Jeremy no acampamento. – Blake diz, colocando-se de pé. – Porém, alguém teria de levá-lo até lá imediatamente... O garoto não está em condições de esperar.
– Você tem alguma sugestão? – Pergunto, agoniada.
– Posso usar Nightmare para levar Jeremy até o acampamento. Deixei três dos lobos vigiando-a. Eles cuidarão de Jeremy e eu voltarei para cá o quanto antes. – Ela diz e então faz uma pausa. – Porém, você terá de segurar as pontas com Agramon enquanto eu não voltar, Emily.
Respiro fundo, nervosa. Enfrentar Agramon ao lado de Blake já seria complicado... Sozinha, então, pior ainda! Coloco uma das mãos no rosto, enjoada com a situação. Por outro lado, Jeremy está correndo risco de vida e eu não posso deixar que ele morra. Não mesmo.
– Tudo bem, Blake. Leve Jeremy.– Concordo, por fim. – E volte o mais rápido possível.
– Voltarei. – Blake diz.
Ela se interrompe por um momento para chamar por Nightmare com um assovio. O cavalo alado que está por perto galopa até nós de imediato. Blake o monta enquanto Luke e Peter erguem o corpo inerte de Jeremy. De maneira cuidadosa, o feiticeiro ferido é colocado no cavalo alado.
– Blake, por favor, não deixe que ele morra. – Nina diz, chorosa, já de pé, bem ao meu lado.
– Ele ficará bem. – Blake responde com um sorriso de compaixão. Depois seus olhos me encontram e o sorriso some. Então, passa a falar com seriedade. – Emily, eu confio em você. Lembre-se que você não está sozinha, que seus amigos e o meu exército de lobos estão aqui para auxiliá-la. E não se esqueça do que conversamos mais cedo.
As últimas palavras de Blake me pegam de surpresa e eu tenho de respirar fundo para conseguir respondê-la. A nossa conversa sobre extravasar, sobre ultrapassar os limites dos meus poderes... Agora que Blake voltará ao acampamento, não haverá mais barreira de proteção para os meus amigos ou lobisomens. Se eu perder o controle, posso colocar a vida de todos em risco.
Concordo comigo mesma, no fundo de minha consciência de que só irei extravasar quando Blake estiver de volta. Até lá, tentarei segurar Agramon ao máximo. Só espero que dê certo...
– Tudo bem. – Respondo, pouco antes de Blake, Jer e Nightmare voarem para longe.
Permaneço calada, olhando para o mar, que está bem mais agitado do que antes, esperando Agramon decidir a hora que vai aparecer.
Os lobisomens caminham na nossa direção e se alinham atrás de nós, preparando-se para lutar quando for preciso. Gostaria de saber identificar qual deles é Logan e Rachel, mas como ainda não sou capaz de fazer isso, acabo desistindo. Felizmente, todos os lobos estão bem. Alguns estavam feridos, mas foram tratados por Blake.
Nina e Peter caminham vagarosamente na direção Sul, tentando descobrir para onde foram os demônios.
De repente, sinto alguém tocar meu ombro. Luke.
– Emily, você precisa ficar calma. – Ele diz e eu me viro para poder encará-lo melhor. Confesso que seus olhos esverdeados me transmitem um pouco de paz.
– Estou tentando. – Respondo, com os nervos à flor da pele. – É a primeira vez que vou encontrá-lo, entende? Estou muito nervosa. – Digo, referindo-me a Agramon.
As mãos de Luke passam a segurar meu queixo com delicadeza. Uma de suas mãos toca a minha maçã do rosto, bem onde Elliete acertou.
– Dói? – Pergunta, massageando levemente meu rosto machucado com seus dedos.
Balanço a cabeça negativamente e deixo escapar um suspiro. A verdade é que a única coisa que sinto é ansiedade.
Luke continua olhando profundamente nos meus olhos, com um ar de tristeza e insegurança. Noto o par de olheiras abaixo de seus olhos, indicando o quão cansado está.
– Eu preciso contar uma coisa. – Finalmente diz.
Meu coração acelera e minha curiosidade fica ainda mais aguçada. Do que diabos Luke está falando?
– O que houve?
– Por favor, só diga que conseguirá me perdoar. – Luke ignora minha pergunta.
Perdoar. Quando estavamos no acampamento dos lobos, Blake disse que eu teria de saber perdoar... Mas o que eu não imaginava é que a pessoa que precisaria do meu perdão era justamente Luke. O que será que ele fez de tão horrível? Nada, absolutamente nada me vem à cabeça. Mas antes que eu possa concluir alguma coisa, ou respondê-lo, Luke se aproxima e me beija com doçura.
É rápido e suave como uma brisa, muito diferente do beijo feroz da noite passada, mas igualmente prazeroso, o suficiente para que os pêlos em minha nuca se ericem e eu fique levemente entorpecida.
Ao perceber a aproximação de Peter e Nina, Luke solta meu rosto e eu me afasto, confusa. Minha cabeça gira em em tantos sentimentos e preocupações, que por um momento, sinto que estou prestes a explodir. Estou feliz por ter beijado Luke, mas curiosa e temerosa pelo seu segredo, além de estar apavorada com a lenta aproximação de Agramon e preocupada com Jeremy.
– Os demônios não se foram, apenas se afastaram. – Peter nos informa, aumentando um pouco a altura da voz para que os lobos também escutem. – Estão posicionados há alguns metros adiante, provavelmente esperando pelas ordens de Agramon.
Engulo em seco e respiro fundo.
– Por que será que está demorando tanto? – Questiono, inquieta.
Porém arrependo-me de ter perguntado assim que um flash de luz branca rasga a escuridão do céu, passando a se aproximar gradativamente. Meu coração se acelera e sinto uma pontada dolorida no estômago.
Percebo os lobos, atrás de nós, apreensivos, porém, continuam posicionados, prontos para o que der e vier.
– Chegou a hora. – Nina murmura, verbalizando a situação e fazendo com que eu tenha consciência de que o que está prestes a acontecer é mesmo real.
Meus amigos parecem tão alarmados quanto eu, apesar de mais controlados. Eles se dividem rapidamente, colocando-se em posição, em uma linha reta, em frente aos lobos, me deixando exatamente no meio. Da esquerda para a direita, estamos enfileirados na seguinte ordem: Ruby, Nina, eu, Luke e Peter.
A luz branca cresce continuamente e passa a tomar forma diante dos meus olhos a medida se aproxima. E então, posso finalmente vê-lo, Agramon, meu pai, montado no que parece ser um grifo. No entanto, não um grifo qualquer.
Lembro-me de ter lido, quando mais nova, sobre os grifos em algum dos livros de fantasia dos quais eu gostava bastante de ler. O grifo reúne em si as características físicas dos dois animais mais fortes do ar e da terra, isto é, possui o corpo de um leão e a cabeça e asas de uma águia.
Percebo que esta criatura, em especial, tem seus olhos negros, não só as íris, mas os olhos por inteiro. Além disso, a coloração de suas penas é peculiar, sendo de um branco fosforecente e fantasmagórico, fazendo com que seja visível no alto do céu, considerando a falta da luz da Lua.
Então, passo a analisar Agramon. Reparo o quão distinto está do jovem pacifista que visualizei nas primeiras lembranças de Blake. Apesar de bonito e de aparentar ser mais novo do que realmente é, o ódio e a maldade são visíveis nos seus olhos azuis acinzentados. Seus cabelos loiros estão certamente mais claros e compridos, ultrapassando os ombros em poucos centímetros. Veste uma armadura prateada, emoldurada por uma longa capa branca, que cai pelas suas costas e segura uma espécie de cetro cuja ponta é ornada com uma pedra negra. Fico tentando imaginar, receosa, o que é que essa aparente arma faz.
Encaro aos meus amigos dos meus lados, Luke e Nina. Nina parece não notar o meu olhar, pelo fato de estar perdidamente imersa na figura de Agramon se aproximando. No entanto, para o meu alívio, Luke me encara de volta. Noto que seus olhos em mim são firmes como se dissessem para não me deixar abalar, ou pelo menos para tentar fingir que não estou abalada.
Volto a prestar atenção em Agramon e me assusto com o fato de estar há poucos metros à frente. Então, o grifo para de avançar, ficando suspenso no ar, na mesma posição.
– Emily, minha filha querida. – Agramon diz, olhando em meus olhos. A voz grave dos meus pesadelos soa novamente, amedrontando-me. No entanto, faço de tudo para não deixar transparecer o quão estou intimidada. – É um prazer finalmente conhecê-la pessoalmente.
– Seria um prazer conhecê-lo também, Agramon. – Consigo dizer com seriedade clareza. – Não fossem nessas condições.
Um sorriso se forma no canto dos lábios de Agramon, como se a conversa o divertisse de um jeito sádico.
– Eu sinto muito por ter mandado que o exército os atacasse. Mas eu precisava fazer com que você visse uma pequena parte dos meus guerreiros. – Murmura, fazendo com que eu fique ainda mais assombrada. Então tudo aquilo que estavamos enfrentando era apenas uma pequena parte do seu exército demoníaco de verdade. Não demonstro nenhuma reação, afinal, me assustar a ponto de fazer com que eu me torne sua aliada é o objetivo de Agramon. – E confesse, não é nem um pouco medíocre, não é?
– Realmente, você tem razão, é um grande exército, Agramon. – Começo a dizer, sem saber bem onde é que vou chegar com as minhas palavras, mas, de repente, tudo o que quero dizer passa a jorrar para fora da minha boca. – Porém, seus guerreiros são demônios. Demônios não possuem consciência própria, Agramon, tudo o que sentem é ódio e, além disso, são cruéis. Eles matam outros seres por puro prazer. Isso é errado, não vê?
O sorriso de Agramon se desfaz com tudo o que acabei de dizer. Apesar de temerosa, me sinto orgulhosa por conseguir enfrentá-lo com minhas palavras racionais. Espero que ele não tenha ficado tão irritado assim, e que tenha conseguido entender o meu lado, o lado da razão.
– Eu pensava exatamente como você, minha filha. Entretanto, estava enganado. – Diz, com seriedade. – Pela primeira vez, fui traído pelos meus dois irmãos, que fugiram e deixaram meus pais serem humilhados e assassinados brutalmente na frente de todos que tivessem interesse em assistir. A minha família era tudo para mim... E foram os próprios feiticeiros os responsáveis por sua destruição. Não foram demônios, que, ao seu ver, são as criaturas mais repugnantes do mundo. – Agramon diz e no fundo, sei que tem um pouco de razão. No entanto, nada justifica criar um exército demoníaco com o objetivo de dominar o mundo. – Depois, foi Blake, sua mãe. A pessoa em que eu mais confiava... Fui apunhalado pelas costas pela mulher que eu amava, Emily. Tudo bem, que ela voltou atrás e me ajudou a escapar da minha condenação. Era para eu ter morrido, não fosse ela e o meu fiel súdito, que concordou morrer em meu lugar. Porém, se esconder de mim, e além disso, esconder você, minha própria filha, de mim, por todos esses anos... Isso também me devastou.
– Blake estava assustada. Ela também amava você, Agramon. – Digo, interrompendo-o. – Você também a decepcionou com a sua mudança repentina. Era um pacifista, e queria ajudá-la a manter a paz em Opposite, mas depois... Inexplicavelmente, tornou-se um tirano. Eu vi com os meus próprios olhos, Agramon vi nas lembranças de Blake.
– Tudo o que eu fiz foi para o bem de Opposite! Para o bem dos feiticeiros. – Agramon defende suas ações no passado, aumentando seu tom de voz e parecendo cada vez mais irritado. – Se eu não fosse autoritário, os brancos e os negros nunca se aceitariam. – Diz, convicto de que o que fez foi o correto. – Nunca seriam o que são hoje!
– Agramon, eu só estou dizendo que não deveria ter pegado tão pesado. O poder o enlouqueceu, eu vi! – Digo.
– Você só viu o que a sua mãe quis que você visse! – Agramon berra, ríspido. Noto que suas mandíbulas estão rígidas e suas mãos tremem de ódio. Confesso ficar ainda mais assustada com tamanha grosseria. – Não entendende que todos aqueles malditos feiticeiros me traíram?! Depois depois de criar a Sociedade do Equilíbrio, depois de lutar bravamente para tirar os verdadeiros tiranos do poder, depois perder o amor de sua mãe porque estava ocupado demais trabalhando na causa, depois de tudo, ainda tiveram coragem de me condenar à morte!
Permaneço calada, sem saber direito o que dizer ou o que fazer. Consigo identificar a mágoa e o rancor nos olhos azuis e sem vida de Agramon. Infelizmente, seus argumentos possuem algum fundamento. Ele, em parte, estava certo, em sentir-se traído. Mas querer se vingar depois de quase vinte anos... Querer criar uma nova ordem em Opposite, dominar tudo, torturar a oposição... Isso é errado. Muito errado.
– Já pensou em tentar perdoá-los? – Pergunto, tentando ser sincera sobre o que eu acho. – Já pensou em tentar usar o seu poder para o bem e tentar provar para todos que estavam errados sobre você?
– Perdão. – Ele pronuncia como se estivesse falando um palavrão. – O que sabe sobre perdoar, Emily? Tenho certeza que é tão orgulhosa quanto eu... Duvido que perdoaria até mesmo a pessoa que mais confia, se tivesse traído-a.
Engulo em seco, lembrando-me de que Luke ainda tinha algo ruim para me revelar, algo que eu provavelmente não me agradaria e que, segundo Blake, deveria ser capaz de saber perdoar. Aparentemente, Agramon sabe sobre isso.
Olho de soslaio para Luke e não sei dizer se ele acabou de estremecer ou se é apenas fruto da minha imaginação.
– Onde está querendo chegar? – Pergunto, levemente irritada.
– Por que não pergunta ao seu fiel escudeiro, Luke Gray? – Agramon abre um sorriso malígno novamente.
Sinto outra pontada no estômago, ainda mais dolorída dessa vez. Meu coração está mais acelerado do que nunca quando encaro a Luke com curiosidade transbordando pelos meus olhos.
– O que está acontecendo?!
Luke desvia o olhar do meu, aparentemente envergonhado pelo seu feito. Respiro fundo e balanço a cabeça, perturbada.
– Já que ele não vai contar, eu mesmo conto! – Agramon ameaça.
Sem saber o que fazer, caminho até Luke e seguro uma de suas mãos, dando-lhe forças para me revelar a verdade.
– Diga, Luke.
Luke respira fundo e ainda olhando para o chão, evitando encarar meus olhos, começa a contar:
– Eu já conhecia Agramon antes de virmos para Arcanum Island, conversamos pela primeira vez, umas duas semanas antes de conhecer você. No entanto, eu não fazia ideia alguma que tratava-se de Agramon Illuminati, afinal, todos sempre acharam que ele estava morto. Para mim, era só um feiticeiro branco misterioso, cujo o rosto eu não conseguia ver com clareza, que aparecia em meus sonhos. Primeiro, achei que estivesse enlouquecendo, mas depois percebi que era alguém realmente falando comigo enquanto eu dormia. – Luke faz uma pausa, porém continua depois de pouco segundos. – Então, em um dos meus sonhos ele disse que sabia onde estava a garota perdida e que podia me levar até ela, contanto que eu lhe fizesse um favor. – Luke faz outra pausa, fazendo a menção de me enlouquecer de curiosidade. – Entenda, Emily, eu estava desesperado. Eu precisava encontrar a garota perdida o mais rápido possível, só faltam dois anos para o meu prazo se esgotar! Todos estavam me pressionando. Então eu concordei.
– O que Agramon pediu que fizesse?
– Ele pediu para que eu levasse a feiticeira branca, a qual encontrei tentando descobrir onde estava a garota perdida, até ele. Você, Emily. – Luke conclui, desta vez olhando para mim.
Meus olhos se arregalam com o susto e tapo a boca com as minhas mãos. Tudo o que sinto nesse momento é um aperto no coração. Dou um passo para trás, afastando-me instintivamente.
– Então você planejava me entregar desde o começo, em troca da suposta garota perdida? Se você sabia que eu era uma feiticeira branca, então aquilo na boate em New York foi uma atuação? E, espere aí, quando eu estava confusa com os meus sonhos com o Agramon você fingiu que não acreditava em mim?
Luke fecha os olhos e abaixa a cabeça, concordando. Arfo, ignorando a ardência em minha garganta e a minha visão embaçada pelas lágrimas que marejam meus olhos.
Por que é que isso está acontecendo? – Questiono, em minha mente. A verdade é que estou destruída e meu coração está partido. Lembro-me de todas as vezes em que Luke prometeu que me ajudaria a encontrar a minha verdadeira família, mas o que ele planejava fazer de verdade era me vender em troca da informação valiosa sobre onde estava a garota perdida.
– Sinto muito, Emily. Você não faz ideia do quanto. – Ele dá um passo para frente, em minha direção, mas eu recuo, tomada pela decepção. – Eu me arrependi do que estava fazendo no momento em que percebi como me sinto quando estou com você. E como você é incrível. – Luke passa a mão pelos cabelos, nervoso. – Sentimentos influenciam, lembra? Você me disse isso ontem à noite. E, sim, eu concordo com você. Mas, no caso, me influenciaram a fazer a coisa certa! Ontem, quando me encontrou na entrada daquela caverna... Eu estava lá por que havia acabado de informar Elliete que havia desistido de entregá-la. Eu desisti por causa do que eu sentia, e na verdade, você era a própria garota perdida. Agramon estava me enganando desde o começo.
– Você é um mentiroso! – É tudo o que consigo dizer enquanto algumas lágrimas despencam de meus olhos e rolam pelo meu rosto. – Eu acreditei em você, eu confiei em você, eu senti por você o que jamais senti por outra pessoa na minha vida! E você... – Grito, sem conseguir concluir a frase.
Meus amigos, ainda em suas posições, parecem impressionados com a revelação. Nina está tão surpresa quanto eu. Ela e Jeremy não deviam saber sobre nada também.
Olho para Luke sem conseguir reconhecê-lo. Sempre o vi como o cara politicamente correto, ético, moralista. Eu estava totalmente enganada...
– Eu também sinto por você o que jamais senti por outra pessoa na minha vida. E a pior parte é vê-la sofrendo por minha culpa. – Luke diz, entristecido. – Você não faz ideia do quanto estou arrependido! Eu devia ter ouvido meu pai! Só ele sabia de tudo, e disse que eu estava sendo imoral. Ele tinha razão! Se eu pudesse voltar atrás... Mas eu não posso. Então, tudo o que posso fazer é pedir perdão. Sei que está machucada e com ódio de mim, sinceramente, eu também estaria...
– Cale a boca, Luke! Não quero ouvir mais nada de você! – Rosno, sem pensar, tomada pelo ódio.
Passo uma das mãos trêmulas de raiva em meu rosto, limpando as lágrimas e volto a olhar para Agramon, que assiste toda a cena. Assim que o visualizo, uma ira descontrolada enche-me da cabeça aos pés. A culpa é toda dele, afinal. Se sabia onde eu estava, por que não foi simplesmente até New York e me sequestrou? Ele sabia bem que eu não concordaria em ajudá-lo em seus propósitos sujos e, provavelmente, arquitetou esse plano mirabolante de fazer com que eu me sentisse traída, para me sentir exatamente como ele se sentiu. Agramon havia brincado com as minhas emoções só para poder usufruir do meu poder. Inacreditável!
– Agora que sabe qual é a sensação de ser traída, Emily, se coloque no meu lugar. – A voz grave de Agramon ecoa pela orla, deixando-me ainda mais irritada.
– Cale a boca, você, também! – Berro, não me importando em elevar o tom de voz. A verdade é que não estou mais dando a mínima para nada. – A culpa disso é toda sua!
Os olhos de Agramon se arregalam e ele parece incrédulo com as minhas acusações.
– Minha culpa?! Estou tentando abrir seus olhos, Emily, porque querendo ou não, sou seu pai e me importo com você. – Ele começa a dizer de forma controlada, mas então passa a vociferar. – A verdade é que esses seus amigos só usam você. Não enxerga? Aposto que quando chegarem em Raven Place com a garota perdida em mãos, terão seus cargos de guerreiros elevados e seus nomes serão conhecidos em todas as ilhas de Opposite.
Respiro fundo e engulo o choro ao ouvir o que Agramon diz.
– Emy, isso não é verdade. – Ouço Nina sussurrar, próxima de mim. – Não dê ouvidos a ele.
Continuo fuzilando Agramon com meu olhar furioso e tentando controlar as malditas lágrimas, que insistem em brotar nos cantos de meus olhos.
– Até mesmo Blake, Emily, quer usá-la para cumprir a maldita missão de unir os feiticeiros negros e brancos. – Agramon faz uma pausa, provavelmente escolhendo as palavras certas para usar comigo. – Venha comigo. Se una a mim, minha filha. Você pode ter a aparência de sua mãe, mas tem o temperamento igualzinho ao meu. Eu prometo que a vingança contra todos que nos traíram será doce e que juntos vamos colocar Opposite e até o mundo humano em seus devidos eixos.
Após fazer o convite, Agramon me encara com esperança em seus olhos. A fúria queima dentro de mim e estou prestes a explodir em palavras mas a voz de Blake finalmente retorna ao cenário, fazendo com que eu fique um tanto quanto aliviada.
– Não seja baixo, Agramon. – Ela diz, se aproximando de nós, no alto do céu, montada em Nightmare – Você sabe que nada do que está dizendo é verdade.
Agramon arregala os olhos, surpreso. Então, um outro sorrisinho malicioso cresce em seus lábios:
– Ora, ora. Quem está vivo, uma hora aparece, não é mesmo, Blake?
– Pare de jogar sujo com a minha filha! – Blake esbraveja, tomada pelo ódio – Eu amo Emily mais do que tudo nesse mundo, e por sua causa, fui obrigada a sacrificar minha presença durante a infância dela, só para que você não a encontrasse e a utilizasse em seus planos horrendos!
As palavras de Blake fazem com que eu sinta uma compaixão enorme por ela. Todo o resquício de mágoa que senti durante toda a minha vida, por ter me abandonado, quando pequena, é destruído. E algo em sua figura íntegra e valente, me fazem admirá-la ao extremo.
– Blake, Blake... Você age como se fosse a pessoa mais moralista desse mundo, mas não se esqueça que escondeu a filha de um pai durante anos. Isso não se faz, Blake. Eu nunca a machucaria, o que diz é um absurdo. No entanto, acho que Emily merece mais do que uma mera feiticeira poderia ter. Seus poderes são incríveis e não deveriam ser desperdiçados. – Agramon faz uma pausa e então volta seu olhar frio e distante para mim. – Mas agora que está crescida, é ela quem decide, não é mesmo?
Respiro fundo, tentando manter a calma, mas é inútil.
– Eu posso estar me sentindo traída, destruída, devastada, mas eu nunca faria alguém sofrer por pura vingança. – Abro a boca pensando em dizer uma coisa, mas o que sai acaba sendo um pouco mais ríspido do que eu espero. A ira dentro de mim cresce, junto com meu tom de voz. – Você é doentil, Agramon! Nunca mais repita que meu temperamento é igual o seu, por que eu não sou nada parecida com você!
Junto as sobranchelhas e o fuzilo com o olhar, esperando por alguma reação. No entanto, o sorriso cruel de Agramon se alarga em seu rosto.
– Pobre filha, não sabe o que está dizendo. – Ele diz, avançando vagarosamente para mais baixo, aproximando-se. Noto que todos ao meu redor ficam tensos, prontos para me proteger se Agramon tentar alguma coisa. – Mas é claro! Você não sabe como é se vingar, porque provavelmente nunca se vingou na sua vida...
– Chega, Agramon! – Blake rosna, aproximando-se de mim, também. – Deixe-a em paz. Lute comigo!
– Guerreiros, ataquem-nos! Acabem com todos, exceto minha filha e seu escudeiro. – Agramon ordena, ignorando Blake.
Vejo as figuras negras ao fundo se aproximarem com rapidez, vindo em nossa direção. Meus amigos e os lobos também não ficam parados, quando me deu conta, todos já estão lutando novamente. Até mesmo Blake, que lança chamas nas criaturas demoníacas do céu, ainda montada em Nightmare. Porém, eu e Luke permanecemos no mesmo lugar.
Luke saca sua espada e coloca-se em minha frente, de forma protetora.
– Emily querida, vou dar a primeira oportunidade de sentir o quão saboroso é o sabor da vingança... – Agramon murmura, ainda sorrindo. Então, finaliza berrando algo que faz meu coração saltar. – acabando com a vida desse feiticeirozinho medíocre que traiu sua confiança!
As coisas acontecem mais rápido do que posso processá-las e quando me dou conta, Agramon, montado no grifo demoníaco, dá um rasante na direção de Luke, apontando seu cetro para ele. Vejo, em câmera lenta, algo parecido com um raio, escapar da pedra preta no cetro e atingir, em frações de segundos, Luke como se fosse um chicote.
Luke é lançado para trás, gritando em agonia. Ele atinge o chão com força, com as vestes já ensanguentadas.
O grito de Luke ecoa em minha cabeça, fazendo a menção de me enlouquecer. Meu coração dá um salto, minhas mãos se fecham em punhos e eu berro:
– Pare, Agramon! Por favor, PARE!
Agramon me ignora, voltando a se aproximar e pronto para o próximo rasante. Ele ergue o cetro novamente e diz, entre um riso e outro:
– Vamos ver o quanto ele aguenta.
Meu desespero e preocupação se misturam à fúria, e então, quando eu menos percebo, acontece.
Sinto algo dentro de meu ser começar a esquentar, borbulhar, ferver e não demora muito até que a sensação se espalhe para o meu corpo inteiro.
É uma sensação diferente de todas as outras que já senti na vida, diferindo, inclusive, da sensação de estar em chamas. Quando estou em contato com o fogo, minha pele não arde. Mas o que sinto percorrer minhas veias agora, queima de forma assustadora.
Apesar do ardor, a dor de meu poder é estranhamente convidativa e me faz sentir forte como nunca. Consigo perceber meu lado fogo, meu lado água, meu lado terra e meu lado ar, cada um com suas características distintas.
É como se eu pudesse controlar exatamente todos os elementos aos mesmo tempo. Decido tentar algo novo desta vez e sem pensar muito, uno os quatro: fogo, água, terra e ar. Consigo sentí-los se mesclarem, dentro de mim, como se criassem um quinto elemento,aumentando o ardor por todo o meu corpo e a sensação de força.
Meus membros tremem frenéticamente e então eu abro os olhos, berrando e explodindo em em clarão branco, que me cega e se espalha por toda a orla.
Apesar de tudo, esse é definitivamente um sinal de perdão.
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