Opostos Perfeitos
51 Capítulo 50
Notas iniciais
Capítulo 50
Narrado por Rafa
Alguma coisa estava errada, eu sabia. Camila ainda não estava comigo, alguma coisa estava errada e os meninos tinham sumido e não apareciam mais. Nenhum pai tem uma filha e simplesmente “precisa sair um pouquinho”. Eu sabia que alguma coisa havia acontecido. E o pressentimento não era nada bom.
— Eu quero saber da minha filha, Jú, chama a enfermeira por favor.
— Se acalma Rafa, eles vão trazer ela assim que puderem trazê-la.
— Não, Jú! Aconteceu alguma coisa, eu sei! — me levantei da cama.
— Rafa, pelo amor de Deus, fica nessa cama, você teve uma filha há três horas e já quer sair correndo pelo hospital!
— Aconteceu alguma coisa com a minha filha, vocês estão me escondendo alguma coisa! Eu quero minha filha! — falei quase chorando, aquele sentimento de perda estava muito forte dentro de mim.
—Rafa, está tudo bem. — Jú falou e segurou minha mão. — você precisa descansar um pouco logo vão trazer a minha afilhada aqui. — Jú sorriu.
Naquele momento uma enfermeira entrou no quarto.
— E minha filha?
— Ela teve que ficar na UTI. — A mulher falou sem muita convicção. — você precisa descansar Rafaella, a médica pediu para te dar um remédio. — Ela se aproximou com a bandeja e me deu um comprimido e um copo de água.
Eu não queria tomar mas também sabia que não conseguiria tirar o comprimido da boca sem que Fer e Jú vissem já que estava uma em cada lado da cama. Engoli.
A enfermeira saiu e algum tempo depois me senti sonolenta, ela havia me dado um calmante.
— Eu não quero dormir, quero ver minha filha. — murmurei quando o sono estava tomando conta.
— Você precisa descansar um pouco, amiga, logo a Camila estará aqui.
Então, a escuridão foi tomando conta enquanto eu perdia os sentidos. Adormeci. Estava totalmente escuro quando acordei, lá fora já era noite, não sabia ao certo o horário, mas parecia madrugada pelo silêncio da rua, sem movimento de carros.
A lua iluminava um pouco o quarto e pude ver Enzo sentado na cadeira a um canto, ele estava de olhos abertos olhando o céu, a testa enrugada e uma mão apoiada no queixo como se estivesse preocupado com alguma coisa.
— Enzo... — murmurei baixinho como a voz me permitiu.
— Você está acordada? Precisa descansar, amor... — ele levantou e veio até mim.
Segurei sua mão e vi um brilho em seus olhos, ele estava chorando.
— O que aconteceu com a nossa filha? — perguntei me erguendo na cama. — Camila está bem?!
— Está tudo bem, amor.
— Enzo, não minta para mim. — pedi.
Ele ficou em silêncio por um bom tempo.
— Bianca esteve no hospital, ela... ela levou a Camila.
Eu fiquei sem reação, parecia ter congelado. Bianca estava com a minha filha.
— A polícia já está procurando ela por toda parte, o pai da Bianca também. Nós vamos encontrá-la. Eu juro.
Comecei a chorar baixinho sem saber o que fazer, Enzo me abraçou. Alguns minutos depois uma enfermeira entrou no quarto e Enzo me fez engolir outro comprimido, um tempo depois, novamente o sono tomava conta de mim.
O dia estava claro e o sol alto quando acordei, na cadeira ao canto estava a Jú agora. Ela percebeu que abri os olhos e se levantou.
— Jú, preciso sair daqui, preciso achar a minha filha! — falei me erguendo na cama.
— Não Rafa, você precisa ficar na cama. Todos estão procurando a Camila e nós vamos encontrá-la, você precisa se recuperar bem e não ficar se agitando, você sabe disso. — ela falou fazendo com que eu voltasse a deitar.
— Eu estou bem, tenho certeza que já posso andar! É uma perda de tempo eu ficar aqui sem fazer nada!
— Rafa...
Outra enfermeira entrou no quarto e veio até mim com uma bandeja de café da manhã. Comi sem vontade nenhuma depois do discurso que a Jú fez sobre eu dever me alimentar que assim eu me recuperaria mais rápido. Depois a enfermeira voltou para pegar a bandeja e me deu outro comprimido, dessa vez não engoli. Deixei-o em baixo da língua e depois me deitei, enquanto a Jú perguntava alguma coisa para a enfermeira tirei o comprimido da boca e escondi em baixo do travesseiro sem ninguém ver.
A mulher saiu do quarto e Jú ficou perto de mim na cama, meu celular tocou naquele momento e eu o peguei da mesinha ao lado e atendi.
— Você quer ver sua filha de novo? Encontre-me atrás da construção velha dos barcos. Em meia hora. Sozinha. Se eu ver a polícia ou qualquer outra pessoa que seja com você, eles podem até me pegar, mas você nunca mais vai ver a sua filha, não viva pelo menos.
Então ela desligou o telefone antes que eu dissesse qualquer coisa.
— Quem era? — Jú perguntou vendo minha cara, tratei de disfarçar.
— Não sei, acho que foi engano.
— Tem certeza? Você está com uma cara estranha.
— O cara estava falando outra língua eu acho...
Eu precisava dar um jeito de sair dali, logo. Mas a Jú não deixaria eu me levantar da cama...
Fiz que ia me levantar e ela me segurou.
— Ei, onde pensa que vai?
— Estou com sede... vou tomar água...
— Não, eu pego uma água para você na cantina, não tem copos no bebedor do corredor... fica deitada que eu já volto.
Jú saiu e eu me levantei da cama rápido, realmente não me sentia mal e isso não importava naquele momento, eu precisava ir pegar minha filha.
Coloquei bem rápido minha calça e a blusa que estavam em uma cadeira e escrevi em um papel: “Bianca me ligou, eu não podia contar se não ela mataria Camila. Vou buscar a nossa filha. Sei que é perigoso, desculpe. Eu amo você”.
Deixei o bilhete em cima do meu travesseiro e peguei o elevador de serviço porque a Jú voltaria por um dos outros dois com certeza. Saí do hospital sem encontrar ninguém conhecido e peguei um táxi, que por sorte parou bem na hora que saí do hospital.
Dei o endereço e pedi que ele fosse logo, olhei pela janela do carro e vi a Jú na janela no quarto gritando meu nome.
O taxista me deixou no local, paguei e desci. Comecei a caminhar em direção a parte de trás do antigo pavilhão de barcos, Bianca estaria em algum lugar por ali.
— Bianca! Estou aqui! Cadê a minha filha?! — gritei procurando ela.
Por uns minutos aquilo tudo pareceu uma pegadinha infeliz do destino, não parecia haver ninguém ali. Alguns minutos depois, Bianca saiu por uma porta amassada. Ela tinha uma arma na mão.
— Bianca... por favor, não faça nada com minha filha, por favor. — pedi indo em direção a ela.
Bianca colocou a arma na cabeça de Camila.
— Se você der mais um passo... — ela ameaçou.
Parei onde estava na mesma hora.
— Bianca, você não vai atirar nela... você não é assim, por favor...
— Você não sabe o quanto eu odeio você. — ela falou, seus olhos estavam injetados.
— Tudo bem, você me odeia, mas minha filha não tem nada a ver com isso, por favor...
— É, mas se algo acontecesse com sua filhinha você e o Enzo não ficariam juntos... você culparia ele por ter deixado sua filha sozinha no berçário e ele culparia você por ter vindo até aqui sozinha, como um ratinho indo buscar o queijo na ratoeira. — Ela gargalhou. — Não sei o que o Enzo faz com uma garota tão estúpida como você...
— Me devolva minha filha e vá embora de uma vez por todas Bianca... Isso pode acabar aqui e ninguém vai se machucar...
— Ah, sim, e todos viveremos felizes para sempre? — ela falou com um falso sorriso.
— Bianca...
— Cala a boca! — ela gritou. — Não te chamei aqui para ficar de papinho com você. Te chamei aqui por um único motivo. Matar dois ratinhos de uma vez só.
— Faça o que quiser comigo, mas leve a Camila para o hospital... por favor... ela precisa ficar no hospital...
— Já mandei você calar a boca! — ela gritou outra vez. — Eu vou fazer o que quiser com você e vou fazer o que quiser com a sua filhinha aqui também. Você é muito burra de ter vindo aqui sozinha, vão demorar horas, talvez dias, mêses para te encontrar. E até lá... até lá eu já estarei longe. Estou até pensando em levar Rebeca comigo... — ela olhou para a minha filha.
— Bianca, eu preciso levar a Camila para o hospital, por favor.
— O nome dela é Rebeca! E agora ela é minha filha! — Bianca gritou.
Ela estava fora de si e eu não sabia como lidar com aquilo, só queria a minha filha bem e longe da Bianca.
— Bianca... — dei um passo a frente.
— Pare ai mesmo! — ela ameaçou apontando a arma para mim desta vez.
— Você não precisa fazer isso, Bianca, solta essa arma, me da a Camila e vai embora, vai recomeçar a sua vida em algum lugar longe daqui... eu prometo que ninguém vai atrás de você, faço todos prometerem isso, eu te dou dinheiro se você quiser...
— Dinheiro? HAHAHAHA, você acha que eu preciso do seu dinheiro?! — ela falou com nojo na voz.
— Eu dou qualquer coisa que você queira, Bianca, só me prometa que vai deixar a Camila no hospital...
— Eu quero vingança, Rafaella. Eu quero ver você morrer, Rafaella, é isso que eu quero e é isso que eu vou fazer, só estou decidindo se mato a sua filha ou não. — Falou com simplicidade como se escolhesse torta ou bolo.
— Por favor... deixe a Camila... — Ela me cortou outra vez.
— O nome dela é Rebeca! — Bianca gritou. — E eu até gostei da carinha dessa coisinha aqui, com certeza consigo vender ela por um bom preço, mas com essa sua insistência, estou tentada a fazer você ver ela chorar. — Bianca tinha um olhar sádico no rosto.
Naquele momento ouvimos um carro entrar no pátio de onde estávamos, Bianca me olhou com muito ódio e começou a erguer a arma, eu estava a uns dez passos dela e no mesmo instante comecei a correr, ela atiraria na minha filha.
Tudo aconteceu muito rápido, Bianca me viu correr e a arma desviou de Camila para mim, ao mesmo tempo o carro parecia estar tão perto que por um momento pensei que havia sido atropelada, escutei o estouro de um tiro no mesmo momento em que me agarrava a Bianca e puxava minha filha dos seus braços, caí no chão, protegendo meu bebê com o corpo, havia poeira levantada pelo carro, barulho e vozes, entre elas reconheci Enzo gritando meu nome, ao mesmo tempo, junto ao meu peito o choro da minha filha e depois a escuridão tomando conta de tudo.
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