Opostos Perfeitos
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Capitulo 3 – Coração acelerado
Narrado por Rafaella:
Esse Enzo está achando que é quem? Que se foda ele ser filho do dono disso aqui, eu só estava tentando ajudar, mas quer saber? Tonta fui eu. Ele continua sendo o idiota da academia, eu que fui burra em esquecer disso. E esse jeito ''eu sou o dono do mundo'' dele, ah, por favor, tenha dó. Que se exploda ele também. Irresponsável. Ele pode ficar dormindo até a hora que quiser, o máximo que acontece é um xingão do papai, enquanto eu quase fui despedida por causa de cinco minutos.
– Onde você estava? — Betina perguntou quando cheguei a minha mesa.
– Em reunião com o Machiello.
– Ah! E como foi? Fecharam negócio?
– Sim, e com vantagens para a gente ainda. — Sorri.
Betina era uma mulher de meia idade, mas parecia ser bastante descontraída apesar de levar seu trabalho a sério. Eu sabia que seriamos amigas ali. Conversamos mais um pouco sobre a reunião e depois ela me deu algumas tarefas, resolvi tudo direitinho. Enzo não saiu da sala dele e eu, para falar a verdade, me senti melhor assim. No final do dia, meu expediente acabou, fui até o carro e só ai lembrei que estava com o pneu murcho, quando cheguei lá vi um cara mexendo no pneu.
– Ei! — chamei a atenção dele, depois vi que era o Guilherme. — Ah, achei que fosse algum ladrão.
Ele deu risada.
– Não, é que o Enzo pediu pra mim ver se podia dar um jeito nisso, porque ele tinha visto que estava murcho e tal... Ai vim dar uma olhadinha e posso trocar ele pra você se tiver um estepe ai.
– Ah, sério? Valeu, Guilherme! — agradeci pegando a chave para pegar o pneu reserva no porta-malas.
– Nada de Guilherme dona Rafaella, só Gui já tá bom de mais, ok?
– Ok. — sorri. — Então Rafa está bom pra mim também ok?
– Fechado.
Gui tirou o pneu e trocou-o para mim. Isso com certeza seria demais para o grande Enzo, então ele mandou o amigo sujar as mãos com o pneu.
– Se o Enzo viu, porque ele mesmo não veio trocar? Ele é tão metidinho assim?
– Mau agradecida hein? — ele disse brincando. — Não, é que a Bianca ligou pra ele, ele ia vir aqui te ajudar mesmo, mas aquela garota lá não larga do pé dele...
– Ah... pois é, eles combinam.
– Mais ou menos... — ele discordou. — depende de que ponto de vista você olhar.
– Hã? — perguntei confusa.
– O Enzo é rico, ela também... Mas eles não tem tanta afinidade assim, porque ele adora a praia, por exemplo, e ela prefere bronzeamento artificial. — ele imitou uma patricinha na última parte.
– Só você mesmo! — dei uma gargalhada.
– Pronto, serviço acabado. — ele ficou em pé.
– Valeu mesmo. — agradeci. — te pago como, cheque, cartão ou dinheiro vivo? — perguntei brincando.
– Bom... eu não ia cobrar nada, mas já que insiste, pode me fazer um favor... — Gui disse e sorriu, ai tinha coisa.
– Hum... — dei risada. — fale.
– Pede para o Enzo deixar eu levar a irmã dele no cinema na sexta.
– Eu? Tá doido? Eu não posso pedir nada para ele não, e se possível, não abro mais a boca perto dele, a não ser que seja assunto da empresa. — falei ficando um pouco triste.
– Ué? Porque?
– Porque eu não tenho nada a ver com a vida pessoal dele. — falei como se fosse óbvio.
– Mas ele está te devendo um pedido de desculpas, não está?
Depois as mulheres que são fofoqueiras, ele já tinha contado tudo para o Gui.
– Acho que não... eu não devia ter me intrometido mesmo. — dei de ombros.
– Então... mas pelo que eu sei, se for para você desculpar ele, sem ele gastar com nenhum presente nem nada, — Gui riu. — então, você podia dizer que se ele me deixasse sair com a Fer na sexta você desculpava ele, né?
– Ai meu Deus. — dei risada da carinha fofa que o Gui fez. — pode deixar, vou fazer isso caso ele desça do trono encantado dele para me pedir desculpas. O que eu não acredito que vá acontecer, mas... — sorri.
– Acho que devia acreditar... — ele riu. — Enzo está vindo para cá. — ele apontou com a cabeça.
– Aff. — reclamei, não estava afim de ter que, eu, pedir desculpas de novo.
– Hum... deu certo ai? — ele se dirigiu ao Gui, sobre o pneu.
– Aham.
– É, então, eu vou indo, obrigada, Gui. — falei e me virei, só ai percebi que o Enzo estava bem atrás de mim, bastante perto.
– Opa. — ele disse dando um passo para trás e me encarando com um sorriso.
– Desculpa. — falei de cabeça baixa.
– Não, me desculpa você. — ele segurou meu braço de leve, o toque da mão dele me deixou de um jeito estranho, olhei em seus olhos.
– Tá, tudo bem. — respondi.
– Não vou precisar dar nenhum presente? — ele riu de um jeito torto lindo.
– Cof, cof. — Gui fez que tossiu ali atrás e eu dei uma meia risada.
– Na verdade, você podia deixar o Gui levar a Fer no cinema sexta, né? ai eu desculpo você. — falei assim, como quem não quer nada.
– Hã? — ele disse confuso e depois olhou para o Gui.
– Viu, isso que dá ficar fazendo fofoca com amigo. Ele sempre se aproveita de alguma maneira. — falei, e eu e o Gui rimos.
– Ah é né filho da mãe, bonito isso· — Enzo riu. — tá de boa então, ele sai com a Fer na sexta e você sai comigo.
– Bele... O quê? — arregalei os olhos.
– É. Você também foi meio intrometida, não foi? Então, também tem um preço a pagar. — ele riu.
– Rá-rá. Sonha. — falei e fui para o meu carro.
– Ih, vou trancar a Fernanda em casa e o Gui não vai poder sair com ela... — ele ameaçou num tom de brincadeira.
– A Fer é bem grandinha para tomar as próprias decisões, sabe Gui, acho que você tem que pedir direto para ela, porque se esperar ajuda desse ai, você está perdido.
Gui deu risada enquanto eu entrava no carro sorrindo também, Enzo deu um sorriso. Liguei e dei a partida, fui dando ré devagar e ele bateu no vidro do meu carro, abaixei.
– Sexta-feira, nove horas. — virou as costas e me deixou ali feito boba. Ouvi uma gargalhada do Gui.
– Pode esperar sentado então. — gritei enquanto Enzo ia para o carro dele.
Ele não virou para olhar, mas de alguma forma eu sabia que ele estava com um sorriso no rosto. Fui para casa.
– Ei, e ai, como foi o primeiro dia? — Jú perguntou assim que entrei no apê, estava deitada no sofá.
– Você não vai acreditar. — encarei ela.
– O que? Me conta! — ela disse sentando de curiosidade já.
– Não, me deixa tomar um banho antes. — ri.
– Rafaella Belmontt, não brinca comigo! — ela disse parecendo furiosa. — O que aconteceu naquela empresa? Que sorriso é esse? Foi tão bom assim passar o dia com a cabeça em papéis? E... onde você almoçou?
– Calma, calma! — dei risada. — Preciso de um banho, já volto.
– Ok. Mas nem pense em deitar na cama depois desse banho, porque eu vou jogar água fria em você! — ela ameaçou e eu ri.
– Tá, então faz alguma coisa para a sua amiga linda comer, depois te conto ai.
– Abusada. — ela riu. — só faço porque também estou com fome.
Fui tomar meu banho, depois sentei na sala com a Júlia, ela fez torrada e tomamos coca junto.
– Vai, conta, como foi lá? Gostaram de você? — perguntou.
– Foi legal, é ótimo o serviço, não é tão pesado quanto eu achei... e bom, adivinha quem é o filho do meu chefe?
– Quem? — ela arregalou os olhos e ergueu uma sobrancelha.
– Ele.
– Você está brincando né? — ela fez um ''ó'' com a boca. — O da academia?
– O da academia. Ele mesmo. — concordei com a cabeça.
– Uau. — primeiro ela pareceu estar nas nuvens, ai ela voltou com uma ideia louca. — É destino!
– O que é destino? — perguntei confusa.
– Você e ele!
– Tá doida? Bebeu? O que tinha nessa coca? — ri.
– Vocês se esbarram na academia, no dia seguinte você baba por um cara, que é ele, depois se encontram em uma boate e no outro dia você vai parar no mesmo lugar que ele trabalha! — ela disse como se fosse óbvio.
– Você, definitivamente, é louca. Foi a mais pura coincidência!
– Aham. — ela disse irônica, eu ri.
– Ele quer sair comigo na sexta.
– Sério? — os olhos dela se arregalaram de novo.
– É. Mas não vou.
– Você é a doida aqui. — ela riu. — O cara é rico e absolutamente lindo e está afim de sair com você...
– Esquece Jú. Eu trabalho para o pai dele, é óbvio que ele só quer uma garota para uma noite e além do mais, se eu fizer isso vou ser despedida depois, porque a alucinada da Bianca não vai aceitar o quase namorado dela dando mole para uma simples estagiária...
– Hum... ele namora essa Bianca?
– Não, ele pega ela, mas não namora. Pelo menos foi isso que ele disse no almoço...
– Almoço? — ela ergueu a sobrancelha com um sorriso travesso.
– É, almocei com ele. — virei os olhos. — o pneu do carro furou...
– E não é destino né? — ela riu.
– Cala boca Jú! — joguei a almofada nela e dei risada.
Mais tarde fui dormir, apesar de não parecer eu estava muito cansada daquele dia, dormi logo.
O resto da semana se estendeu e eu comecei a sentir uma certa irritação pelo Enzo. Garoto realmente molenga, chega atrasado sempre, parece que não conhece o despertador, eu levanto uma hora antes de vir para o serviço e ele chega sempre atrasado. Na empresa vive na salinha de café se entupindo de cafeína. Eu odeio café. O cabelo dele sempre desajeitado, e a mania de roer as unhas. Eu não suportava a ideia de ir trabalhar numa empresa como aquela com meus cabelos num estado de choque e minhas mãos parecendo a refeição do dia. Não que eu ligasse para essas coisas, eu não ligava, aquele cabelo bagunçado deixava o sorriso torto ainda mais lindo. Simplesmente reparei nas diferenças entre nós dois. Do modo como ele levava as coisas na brincadeira ali, enquanto eu me esforçava ao máximo até a parte dele preferir café quente e eu água gelada.
Chegou a sexta-feira, acordei bem mais cedo que o de costume, por causa da academia. Cheguei lá e fui caminhar como sempre fazia de inicio. Todas as esteiras ali daquela ponta estavam ocupadas, mas eu sabia que tinha outra sala com mais esteiras e outros equipamentos onde tinha também um pequeno ringue de box, para as aulas do esporte. Fui até lá e até preferia aquela sala, era onde eu caminhava no antigo horário da academia. Dois caras estavam treinando lá em cima, mas eu nem olhei, liguei a esteira e comecei a fazer caminhada de costas para eles.
– Esquece, não vou te deixar ganhar hoje. — um disse.
– Você não me deixou ganhar na sexta. Eu que sou bom.
– Vai sonhando, eu que deixei você ganhar uma. — dava para ouvir as respirações dos dois e alguns sons de golpes enquanto eles falavam. Eu podia jurar que conhecia aquelas vozes, se elas não estivessem tão ofegantes.
– Ei, porque parou? — um disse.
– Ora, ora, olha quem veio assistir nosso treino, Gui. — senti o tom de brincadeira na voz dele.
Ah, Não.
Virei para trás devagar e vi o Enzo deitado por cima das cordas do ringue, apoiando os dois braços sobre elas.
– Aff. — virei os olhos. Não estávamos na empresa, não tinha porque ser legal com ele. Ele me irritava.
– Rafa! — Gui disse alegre e saiu do ringue vindo até mim.
– Oi! — sorri feliz por pelo menos o Gui ser legal.
– Tem uma garrafa de água ai? — ele riu e me fez segurar um sorriso nos lábios. Encarei o Enzo e não aguentei, tive que dar risada.
– Rá-rá. — ele disse fazendo cara feia. — Vamos terminar o treino ou tá difícil?
– Tá com pressa pra beijar a lona? — Gui zoou.
– To com pressa pra te fazer beijar a lona. — ele disse piscando.
– Já vou ai te botar para dormir.
– Aham. To esperando, quer que eu sente? — apesar da ironia na voz dos dois eles estavam só de brincadeira.
– Vai lá, Gui. Coloca ele no chão. — dei risada.
Gui voltou lá para cima, reafirmou as luvas de box nas mãos e colocou a proteção de volta na boca. Eu parei a esteira e me virei para olhar. Enzo me encarou com um sorriso que eu considerei meio ''fica olhando gatinha''. Virei os olhos e os dois começaram a se movimentar pra lá e pra cá, trocando as pernas.
Gui ameaçou um soco, Enzo desviou, pude ver a concentração no rosto dele. Meio segundo depois ele havia derrubado Gui na lona com um golpe e ficado por cima, ameaçou o soco e parou com a luva na frente do rosto do Gui rindo.
– Touche! — ele disse como se fosse esgrima e não boxe.
– Ah, droga. — Gui reclamou e depois levantou emburrado.
– Eu disse que não ia deixar hoje. — Enzo riu.
– Semana passada eu ganhei e você sabe. — Gui deu de ombros.
– Mas foi a única vez. — Enzo piscou se achando o tal.
– Mas ganhei. — Gui disse e riu.
– Ah, não fode. Eu estava de cabeça cheia.
– Pois é, a Bianca dando o ultimato é foda. — ele riu.
Eu fiquei meio assim... estranha, por estar ouvindo a conversa dos dois, então virei para o outro lado e voltei a andar na esteira.
– Ei, Rafa, não quer tentar uma luta com o campeão aqui? — Gui apontou para o Enzo. — tenho certeza que você derruba ele.
Eu olhei espantada para os dois, quase caí da esteira em movimento.
– Você está louco? — perguntei de olhos arregalados – Eu não! Deus me livre!
Eu não gostava de lutas, nem como esporte, achava muita brutalidade aquilo tudo, diferente do Enzo, que parecia amar aquilo lá.
– Eu sou bom, mas não precisa tremer também. — ele riu da minha cara de pânico.
– Eu não estou tremendo! — falei.
– Mas está com medo. — ele deu de ombros.
– De quem? De você? — dei uma risada.
– Então sobe aqui. — ele riu e mordeu o lábio inferior com um sorriso torto.
– Pega minhas luvas. — Gui tirou as luvas vermelhas das mãos e desceu do ringue. — Sobe aí.
Eu exitei, mas acabei subindo só por causa da cara idiota do Enzo, era como se ele dissesse que eu não era capaz de dar um simples soquinho nele.
Subi no ringue decidida a colocar o bebê para dormir, mesmo sem ideia nenhuma de como fazer isso.
– Deixa que eu ajudo com as luvas. — Gui disse me ajudando a colocar aquelas coisas estranhas e prendê-las firme nos meus pulsos. — Pronto.
– Valeu.
– Quer uma aula teórica antes? — Enzo deu uma risada leve, zoando. Mas bem que eu aceitaria alguma teoria já que não tinha ideia de nada.
– Não é só meter um muro nessa sua cara feia ai? — retruquei. Ele riu.
– É. Só precisa me acertar um soco.
– Vou te acertar mais que um. — murmurei.
– Vou lá fora comprar uma coca. — Gui disse e deixou nós sozinhos ali naquela sala, em cima do ringue, prontos para a briga.
– Não te incomoda o fato de que vai tentar dar um soco na cara do filho do seu chefe? — ele sorriu batendo as luvas umas nas outras e dando pequenos pulos.
– Está com medo de apanhar de mim e está procurando uma desculpa? — provoquei.
O sorriso que ele deu foi simplesmente perfeito, torto, olhos brilhando. Me senti até um pouco sem ar.
– E se eu te acertar um soco?
– Você não é tão forte. — sorri, sabia que ele não me bateria mesmo se fosse o caso, faria como fez com o Gui, pararia antes... — Mas posso acertar de verdade, ou tem que parar como você parou antes?
– Você pode tentar me acertar de verdade. — ele riu.
Tentei imitar um pouco o que ele estava fazendo, pelo menos com os pés... dei leves pulinhos enquanto trocava o peso do corpo da perna direita para a esquerda e da esquerda para a direita.
– Vem. — ele disse com um sorriso apontando para o rosto.
Eu não conseguia ir porque simplesmente não sabia como fazer aquilo.
– Não diga que está mesmo com medo de acertar o filho do chefe. — ele parou de se mexer e colocou as mãos na cintura.
Foi o suficiente para minha irritação voltar. Fui para cima dele.
– Ah, cala boca. — tentei um soco, ele desviou ainda rindo.
Tentei outro, um pela direita, outro pela esquerda, ele só desviava e dava risada das minhas tentativas em vão de acertá-lo.
– Caralho! Volta aqui! — agora aquele idiota estava correndo pelo pequeno ringue e eu correndo atrás dele, feito duas crianças.
– Nem me pegar consegue... — ele ria.
– Fica parado então, ai você vai ver! — ameacei.
Na mesma hora ele parou e virou na minha direção, eu ainda estava correndo, foi tudo muito rápido e eu bati contra o corpo dele. No choque ele segurou meus braços, mesmo com as luvas e nossos rostos ficaram incrivelmente perto, até podia sentir sua respiração ofegante na minha boca.
– Então... — ele sussurrou. — Estou parado.
– Então... — sussurrei também. — Ganhei.
Ele me olhou confuso, sem entender, olhei para baixo e ele abaixou a cabeça também, eu tinha erguido meu joelho pelo meio das pernas dele e levado até perto do seu amiguinho. Sorri com irônia para ele erguendo uma sobrancelha.
– Louca. — ele disse de olhos arregalados.
– Ei, sem ofensas, dê graças a Deus por eu não ter dado ouvidos a parte que você disse ''você pode tentar me acertar de verdade'', se eu tivesse ouvido, você estaria se contorcendo no chão agora.
– Devo te agradecer por isso? — ele disse depois de dar risada do que eu tinha dito.
– Não. Só deitar no chão por livre e espontânea vontade, para mostrar que eu ganhei.
– Eu não, você não me derrubou. — ele deu de ombros.
– Ah, é? Então se prepara, porque dessa vez vou acertar de verdade. — falei me afastando dele e me preparando para recomeçar a nossa briguinha.
– Vou tomar mais cuidado agora. Não sabia que você era boa nisso. — ele riu.
Recomeçamos aqueles movimentos, eu o imitava e de repente me senti vendo um filme com essas lutas e fui para cima dele tentando acertar de novo, depois de três movimentos meus, senti ele agarrar meu corpo de algum jeito e depois me derrubar no chão. Mas não senti dor nenhuma, ele tinha feito de um modo fácil de cair, eu acho. Toquei a lona e ele ficou de quatro por cima de mim, as duas pernas deixando minha cintura entre elas e as duas mãos dos lados da minha cabeça.
– Quem venceu? — ele disse com o maldito sorriso torto no rosto.
Não falei nada, simplesmente usei toda a força que consegui juntar e empurrei o corpo dele para o lado, ficando por cima, meu rabo de cavalo já estava meio solto, segurei ele pela gola da camisa e com a outra mão ameacei o soco como ele havia feito com o Gui antes.
– Eu venci. — falei com um sorriso nos lábios, afinal ele não tinha feito a ameaça do soco em mim, então a luta não estava acabada. Nos encarávamos.
Ele abriu um sorriso que me deixou louca, parecia de prazer. Enzo abriu os dois braços esticados em cima da lona do rigue.
– Venceu. — seu sorriso se espalhou mais ainda pelo rosto com os olhos fechados que depois se abriram. — Mas esse é só o primeiro round.
Joguei o meu corpo para o lado do dele na lona e fiquei encarando o teto alto da academia.
– Ah não, sério. Não aguento mais. — reclamei.
– Que molenga.
– Eu? — olhei ele incrédula.
– Claro, imagina você num ringue de verdade, não ia durar nem meio minuto.
– Rá-rá. Se você trabalhasse com a disposição que tem para o ringue, com certeza acordaria na hora.
Parece que falei merda, ele me olhou sério, suspirou e ficou calado.
– Foi... mal... — falei.
– Tudo bem. — ele disse olhando teto, eu tinha virado meu rosto para olhar o dele. Ele continuou. — é que... ninguém entende.
– Entende o quê?
– Que não é isso que eu quero.
– Como assim?
– Bom, eu queria sim seguir os passos do meu pai, ser um grande empresario e blá blá blá, mas antes disso eu queria poder sair daqui, conhecer outros lugares, ir para outros países... porque daqui a algum tempo, quando eu tiver que assumir tudo aquilo lá, eu não vou poder fazer isso, não vou ser jovem como sou agora, não vou ter essa disposição e nem vou poder largar o trabalho para sair por ai pelo mundo. Eu só queria poder aproveitar um pouco da minha vida agora em vez de ter que ficar trancado naquele escritório o dia inteiro. Fala sério, você nunca quis sair por ai, pra algum outro lugar sem compromisso algum? — ele virou o rosto e me encarou, aquilo parecia tão... natural. Apesar de todas nossas diferenças, eu também queria poder fazer aquilo.
– Eu sempre quis ir para outro país, sempre sonhei em ver neve... aquelas montanhas verdes enormes, os picos de gelo... — fiquei imaginando e revendo mentalmente filmes que já havia visto e desejado poder estar dentro da tela para viver naqueles lugares. — Mas você pode. — completei falando a ele.
– Posso? — ele riu como se aquilo fosse loucura minha.
– Claro que pode. Pode falar isso para o seu pai, pode pedir alguns dias para ele, ele vai ouvir e, além do mais... você tem dinheiro para isso. — enfatizei a palavra você, porque para mim aquilo estava muito longe de acontecer.
– Se fosse tão fácil... — ele riu.
– Qual o difícil?
– Meu pai, nunca, vai aceitar isso. Ele acha que eu devo ficar aqui agora, que agora é a hora para eu prestar atenção na empresa, que mais tarde talvez ele não possa explicar tudo com tanta clareza... ou seja, está ''fora de cogitação'', como ele mesmo disse.
– Ah... — suspirei. Era estranho estar conversando com ele daquele jeito, bastante estranho.
Na empresa, na semana que passou eu evitei o máximo de contato com ele porque ele me irritava só de olhar para mim. Eu o achava um completo preguiçoso. E agora estávamos em um ringue de boxe conversando quase que como amigos.
– Você disse que queria ver a neve, é sério? — ele riu.
– Ah... um dia talvez eu consiga ir, é um sonho. — falei ignorando a risada boba dele e depois me sentindo mais boba ainda por falar desse ''sonho'' completamente bobo.
– Se eu pudesse iria para o Caribe. — ele riu da irônia, eu querendo neve e montanhas, e ele querendo areia e mar.
– Não seria tão ruim ir ao Caribe um dia, mas ainda sim prefiro a neve.
– É, não seria tão ruim ver a neve de novo também. Acho que até iria gostar. — ele virou outra vez o rosto para mim e eu fiz o mesmo, encarando ele. Sorri leve.
– Tenho que ir, minha hora já deve estar acabando. — falei desviando os olhos e levantando. Estava totalmente fora de qualquer plano meu me envolver com qualquer pessoa da empresa, que não fosse por amizade.
– Ei, Enzo. — Gui estava acabando de chegar ali na sala. — Más noticias. — ele riu.
– O que é? — ele disse sentando e virando os olhos.
– Espera, quem ganhou? — Gui perguntou.
– Alguma dúvida? Eu é claro. — dei de ombros.
Gui começou a rir e eu acompanhei.
– Rá-rá. — Enzo disfarçou mas acabou rindo depois sim.
– Então, o que eu ia falar... Bianca está vindo aqui. — Gui disse fazendo sinal com o dedo e apontando para trás.
– Ah, cara. Que saco — ele fez uma careta.
Desci do ringue e fui pegar minhas coisas na esteira.
– Amor! — a patricinha que tinha ido ao escritório na segunda deu seu gritinho.
– Bianca... — a voz do Enzo não estava animada. Será que eles já tinham conversado sobre o ''bolo'' que ele deu nela no almoço de segunda?
– Então, já pensou no que eu te disse? — ela perguntou se aproximando dele.
– Não muito.
– A Enzo! Tá na hora já.
– Me dá mais um tempo valeu. — ele reclamou.
– Quanto tempo? — Bianca perguntou com uma certa raiva.
– Um ano.
– O quê? — ela gritou e a vozinha dela era irritante.
– Ei, tem mais gente fazendo academia aqui. — Gui disse se referindo a mim e a ele eu acho...
Ela desviou os olhos do Enzo e eles foram parar em mim, me olhou de cima abaixo, eu devia estar toda descabelada.
– O que ela faz aqui? — Bianca me olhava com cara de desdem.
– Ela está fazendo academia, tem algum problema nisso? Que eu saiba é um estabelecimento público. — Gui defendeu.
– Bom... não... mas digo, o que ela faz aqui nessa sala, não é fechada quando vocês treinam?
Opa. Eu não sabia dessa...
– Não tinha esteiras suficientes lá fora, então ela veio pra cá. — Enzo deu de ombros. Como ele sabia disso?
– E não podia fazer outro aparelho? — Ok. Ela estava me irritando.
– Na verdade não podia não. Queria fazer esteira e apesar deles fecharem a porta da sala, ela continua sendo pública para qualquer um que pague pela academia. — falei calma.
A garota me olhou com muita raiva, mas eu não estava na empresa, não deixaria ela me esnobar.
– Hum. — ela murmurou de mau gosto e me ignorou. — Então, Enzo, um ano é muito tempo. Dois meses está bom?
– Meio ano. — ele tentou.
– Três meses é o máximo!
Enzo suspirou.
– Beleza, três meses e penso na resposta.
– Não! Três meses e você toma uma atitude!
– Cara, não me enche. — ele disse levantando do ringue sem olhar ela.
– O que? Enzo eu vou falar com seu pai!
– Bianca, escuta aqui. — ele foi até ela. — Eu não vou pedir você em noivado dentro de três meses. Espero que entenda isso. Não vou.
Tomei um choque estranho ao ouvir a palavra noivado. Ele tinha me dito que eles não namoravam, então como...
– Vá pensando na ideia, ok? — ela pareceu se acalmar. — Pense com carinho, por mim, por nós dois. — de repente a cobra estava dócil. Ela passou as mãos de leve pelo rosto dele e deu um selinho mais que demorado nos lábios dele. Senti náusea vendo aquilo.
Bianca soltou o Enzo, deu uma última olhada feia para mim e saiu dali. Dei um suspiro fraco, joguei a cabeça para trás e prendi o cabelo num novo rabo de cavalo, mais firme agora. Peguei minha bolsa e fui saindo da sala.
– Ei... — Enzo chamou, virei. — Quero a revanche.
– Hum... eu tenho que ir pra casa... tomar um banho e ir trabalhar... — falei para os dois.
– Até depois. — Gui disse e sorriu.
– Mas ainda vou ter a revanche? — Enzo perguntou.
– Vamos ver. Não custaria nada te derrubar de novo. — dei de ombros e consegui dar um sorriso sincero. Gui deu risada, Enzo fez uma careta boba.
Fui para casa feliz, mas achei estranho o fato de ficar me lembrando daquela hora no ringue todo tempo, primeiro quando ele ficou por cima de mim, depois quando eu fiquei por cima dele e o que mais ficava na minha cabeça eram as palavras dele, sobre sair, aproveitar a vida...
Cheguei em casa e fui tomar um banho, comi alguma coisa e saí para o trabalho. A manhã foi calma e o Enzo chegou atrasado como sempre.
– Oi. — ele disse quando entrou e me viu.
– Bom dia. — sorri profissionalmente.
– Olá Beth.
– Bom dia, Enzo. — ela tinha essa intimidade de não precisar usar ''senhor'' na frente.
– Como está o chefão? Mau humorado como sempre? — ele perguntou brincando.
– Enzo... não fale assim. Você provoca também, custa chegar na hora um dia?
– A culpa não é minha se me atrasam lá na academia. — ele deu de ombros e olhou pra mim.
– Nem vem, eu fui para casa, tomei banho, comi e ainda cheguei aqui na hora.
– Que eficiência. — ele tirou saro.
– Não, isso se chama ser pontual e ter responsabilidade.
– Hum. — ele dizia ainda em tom zombeiro.
Enzo foi para a sala dele.
– Rafa, querida, cuide como fala com o Enzo, ele é bom em despedir as pessoas aqui. — ela alertou.
– Não foi ele quem me contratou. — dei de ombros.
– Mas ele tem autoridade para mandar você pra rua. — ela disse.
– Duvido que ele faça isso. — ri.
– Porque?
– Ele quer uma revanche no boxe. Se ele me demitir eu boto ele na lona de novo. — falei rindo, Beth riu também, depois perguntou:
– Vocês fazem academia juntos?
– Só agora, eu tive que mudar de horário por causa do trabalho, e só tinha mais hora em sextas...
Tagarelamos mais um pouco, Beth era muito legal comigo, passei a almoçar com ela num restaurante não muito longe da empresa e que era normal, nada de extravagante.
De tarde o serviço e o calor aumentaram, acabei de fazer um relatório e fui na salinha separada beber água.
– Não toma toda a água não. — Enzo disse entrando na sala, quase engasguei.
– Fica quieto. — resmunguei.
Enzo parou ao meu lado e serviu um copinho de café.
– Cafeína de mais da mau halito, sabia? — falei, eu detestava café.
– E você vai me beijar por acaso? — ele disse sorrindo.
– Não, idiota. Mau halito se sente assim, por uma conversa de perto.
– To com mau halito? — ele disse fazendo uma concha com a mão na frente da boca para ver se tinha algum cheiro.
– Não. — acabei rindo dele. — Eu só estou avisando.
– Amo café. — ele disse enchendo mais um copinho.
– Odeio Café. — resmunguei de volta.
– Não sabe o que é bom... — ele também resmungou.
– Sei sim o que é bom.
– Eu sou bom? — a cara dele era safada.
– Nunca provei você. — dei de ombros.
– Então prova. — ele veio se aproximando de mim.
– Ei, gente, nove horas hoje né? — Gui disse entrando ali, depois parou. — atrapalhei alguma coisa?
– Não. E não. — falei e cruzei os braços.
– Atrapalhou sim. — Enzo deu uma risadinha leve.
– Não atrapalhou absolutamente nada. — falei séria. — e não vou sair com vocês hoje a noite.
– Ah, como assim? A gente já combinou, nove horas to passando na sua casa. — Enzo disse.
– Você não sabe onde eu moro.
– Aí que você se engana. Sei exatamente onde mora.
– Como? — falei confusa.
– Para trabalhar aqui você preencheu a fixa com seus dados né cabeça. — ele riu.
– Dados aos quais você não devia ter acesso. — rebati.
– Eu tenho acesso a tudo aqui. — ele piscou.
– Aff. — virei os olhos.
– Ah Rafa, vamos, vai, chama a Júlia e o Leandro se vai te deixar melhor, mas vamos lá, se não ele vai fazer bico pra mim levar a Fer...
– Foi mal, Gui... — fiz uma careta. — não to afim de sair com ele.
– Por favor? — Gui fez um bicão. Suspirei.
– Tudo bem. Nove horas, mas eu vou chamar a Jú e o Lê mesmo. E não pense você – apontei para o Enzo – que estou indo por vontade própria.
– Tudo bem se não quiser ir. — ele deu de ombros. — companhia eu arrumo.
– Beleza então, to liberada.
– Não, não, agora você já disse que ia chamar seus amigos lá... então vamos ir. — ele falou rápido.
– Saco. — reclamei. — beleza então, nove horas e vê se não se atrasa.
– Deixa comigo. — Enzo sorriu.
Saí da sala e voltei para o meu trabalho. O resto da tarde passou logo, de noite em casa, tomei um banho e chamei a Jú pra ir junto para o cinema, ela ligou para o Lê. Nos arrumamos e ficamos prontas, as oito e quarenta a campainha tocou, devia ser o Lê, fui abrir.
– Entra ai. — falei. Lê entrou e logo atrás veio o Caio.
– Jú? — Lê chamou e já foi para o quarto procurar ela.
– Caio? — perguntei meio de surpresa.
– Oi amor. — ele sorriu e já veio me beijando.
– O que você está fazendo aqui?
– Ué, vou para o cinema com vocês. — ele deu de ombros.
– Não... mas... — fiquei confusa, como eu ia dizer que eu iria de acompanhante do Enzo? Caio ficaria incomodando.
– Algum problema? — ele perguntou.
– Não, tudo bem... entra.
Caio sentou no sofá, Jú e Lê vieram para fora. Dali a pouco a campainha tocou de novo.
– Oi gente. — sorri ao ver só a Fer e o Gui ali.
– Oi. — Fer me deu um beijo na bochecha.
– Oi. — Gui cumprimentou da mesma maneira. — Podemos ir já? Enzo tesá no carro esperando...
– Vamos. — falei e chamei o pessoal.
Descemos todos e eu fui pegar o meu carro.
– Posso dirigir, amor? — Caio pediu chegando perto de mim.
– Caio, não me chama de amor... por favor. Só Rafa. Nós não namoramos, não temos nada, então... E eu não gosto disso. Por favor, ok?
– Hum... tudo bem.
Enzo saiu do carro dele assim que chegamos lá em baixo, primeiro ele estava com um sorriso, assim que viu o Caio parando do meu lado o rosto dele parecia um ponto de interrogação.
– E ai, Enzo? — Jú cumprimentou.
– Opa! — ele sorriu desviando os olhos de mim e do Caio.
– Fala cara. — Leandro e ele fizeram um toque de mão.
– E ai... — Caio também cumprimentou com um toque de mão.
– Beleza. — Enzo respondeu meio estranho.
– Oi. — falei para o Enzo também cumprimentando.
– Podemos conversar? — ele disse me olhando como se falasse ''o que significa isso?''
– Fala ora. — Não tinha mais ninguém do nosso lado.
– Por quê tem um cara a mais nesse grupo e aparentemente está contigo?
– Porque eu disse que ia chamar meus amigos, então...
– Então eu vou ficar de vela?
– Você ia ficar de vela de qualquer jeito. — dei de ombros.
– Rá-rá. — Enzo virou os olhos e foi para o carro dele.
Comigo foram Jú, Lê e Caio, e no do Enzo, a Fer e o Gui.
Chegamos no shopping e escolhemos um filme de terror.
– Adoro ver os monstrinhos comendo as tripas dos outros! — Jú disse pulando enquanto íamos para a fila do cinema.
– Credo. — reclamei.
– Mas é medrosa mesmo, é a parte mais legal a hora que eles arrancam as pernas do cara e tomam o sangue dele! — Enzo falou me botando medo.
– Eca! Que nojo! Não tem outro filme não? Odeio filme de terror.
– Ah, vai dizer que quer ver Titanic agora? — ele virou os olhos.
– Melhor do que esse filme ai. — dei de ombros.
– Aff.
– Não fica com medo não, eu te protejo. — Caio veio pegando minha cintura.
– Caio... — censurei.
Enzo fechou a cara para a cena e depois entrou na sala do cinema.
A ordem ficou como a ordem da fila em que estávamos, Júlia, Lê, Gui, Fer, Caio, Eu e Enzo.
As cenas do filme eram violentas e voava sangue por todo lado, uma hora deu aquela musica de suspense e do nada apareceu um cara na tela, dei um grito enorme assim como outras pessoas, mas nenhum superou o meu, agarrei forte com uma mão o braço do Enzo e com a outra segurei firme o do Caio. Caio e Enzo deram risada de mim, mas eu não soltei os braços deles.
De repente senti a mão do Enzo sobre a minha, olhei para o lado, ele estava com os olhos fixos na tela, mas seus dedos faziam um carinho por cima da minha mão e aquilo me acalmou de alguma forma. Ele olhou para o lado e encontrou meu olhar, eu sorri, ele também. Depois voltamos a olhar para a tela.
– Quer pipoca? — Enzo perguntou baixo pra mim.
– Não vai achar ruim ir lá comprar? — perguntei.
– Não, você vai junto. — ele me encarou e sorriu.
– Ah, beleza, então vamos porque eu estou quase vomitando desse filme já! — me virei para o Caio. — Caio, vou ali comprar pipoca, já volto.
– Aham... — ele disse sem nem me olhar, estava fixo no filme.
– Vamos. — sorri.
Enzo se levantou e saiu depois eu segui ele, ainda bem que ele estava na ponta. Saímos da sala escura e fomos para a parte onde tinha a mulher vendendo pipoca.
– Pois não? — ela perguntou com um sorriso todo derretido para o Enzo. E daí que ele realmente ficava bonito com um jeans e uma camiseta polo, a mulher não precisava engolir ele com os olhos praticamente.
– Um grande de pipoca doce. — ele sorriu, a mulher foi preparar depois de quase derreter com o sorriso dele. — Quer mais alguma coisa? — ele perguntou para mim.
– To com sede, mas pode deixar que eu mesma compro... — falei e ele me cortou.
– E uma coca também. — chamou para a mulher.
– Eu quero pagar.
– Nada disso, eu vou tomar também... eu pago.
– Aff.
Enzo pagou e a gente sentou em uma mesa ali fora ao invés de voltar para dentro da sala do cinema.
Peguei umas pipocas na mão.
– Pipoca doce me arrepia, prefiro salgada. — reclamei.
– Prefiro a doce. — ele deu de ombros. — mas se quiser compro uma salgada pra você...
– Não precisa.
– Ah, deixa de ser boba... o que tem eu pagar uma pipoca?
– Nada ué, mas eu tenho dinheiro para isso.
– Aff. Ainda aquela história? Achei que tivesse me perdoado depois da flor. — ele deu um sorriso. — Vai, deixa.
– Tá, tá. Compra o que você quiser. — dei de ombros.
– Até um presente pra você?
– Porque você ia querer me dar um presente?
– Por dar. — ele deu de ombros.
– Doido. — murmurei.
– Vai, vamos dar uma volta aqui pelo shopping, ai você escolhe alguma coisa.
– Não, obrigada. Vamos voltar lá pra dentro antes que a galera venha procurar. — levantei.
Enzo veio atrás de mim e antes de entrarmos na sala escura do cinema, mas ao mesmo tempo já estando dentro de uma parte escura ele me encostou na parede e segurou minha cabeça em suas mãos.
– Quantas flores eu teria que te dar se te beijasse agora? — ele sussurrou no meu ouvido, senti um arrepio.
– Nem pense nisso. — protestei.
– Muitas?
– Muitas mesmo. — falei séria.
Pude perceber que ele sorriu, talvez só estivesse me provocando, ou testando... De qualquer modo, eu não estava afim de beijar ele. Bom, na verdade eu estava muito afim de beijar ele, mas Enzo era o filho do meu chefe, não seria uma boa ideia, além de que eu não passaria de um brinquedo na mão dele, já que a tal Bianca iria virar a noiva em três meses.
Me soltei dele e entrei na sala do cinema, sentei de volta no meu lugar e o Caio me olhou feio.
– Foi pra onde com esse ai? — ele disse só para mim.
– É da sua conta? — rebati.
Caio me olhou e depois voltou a olhar para a tela de braços cruzados.
Mais tarde saímos todos da sala escura e nos reunimos em volta de uma mesa, comemos pizza e ficamos conversando, depois fomos todos para casa, paramos na frente do meu apartamento e da Jú.
– Vamos subir gente? — Jú convidou.
– Não vou poder ficar hoje, tenho que trabalhar amanha. — Caio falou.
Caio trabalhava como modelo e ajudava o pai dele em outros negócios.
– Eu nem precisa convidar né... — Lê disse abraçado na Jú.
– Quer ficar um pouco? — Gui perguntou para a Fer.
– Opa, claro! — ela logo concordou.
Em pouco tempo a Fer já tinha se tornando uma boa amiga para mim e para a Jú, nos falávamos todos os dias no msn ou por telefone.
– Então eu fico também. — Enzo sorriu.
– Amor... não quer ficar lá em casa hoje? — Caio perguntou só para mim.
– Caio, já disse para parar com essa de ''amor''. E não, não vou dormir lá, e você também tem que acordar cedo e eu tenho que ajudar a Jú limpar a casa, então...
– Tá, tá. — ele reclamou. — boa noite então.
– Boa noite.
– Ei, me faz um favor? — ele pediu.
– Fala.
– Não fica de papo com esse Enzo ai, valeu?
O quê? O Caio está ficando louco? Tá querendo mandar em mim agora?
– Eu acho que já passou da hora de você dormir Caio. Tchau. — virei as costas e fui subindo para o apartamento.
Escutei o pessoal ainda dando tchau para o Caio. Peguei um elevador e antes da porta fechar o Enzo entrou rápido ali e as portas fecharam com nós dois lá dentro.
– Brigou com o namoradinho, foi? — ele disse se divertindo.
– Caio não é meu namorado e isso não é da sua conta.
– Que brava. — ele segurou o riso, mesmo assim pude ver ele rindo de mim.
– É hora de criança estar na cama, sabia?
– O que você tá fazendo de pé então? — ele respondeu.
– Morre infeliz. — resmunguei mau humorada.
– Quanta agressividade! — outra vez ele ria de mim.
– Enzo, me faz um favor? — encarei ele – Cala essa boca.
– Porque você não cala? — ele chegou perto de mim me deixando encostada na parede do elevador, sua respiração na minha, aquele calor tomando conta de mim...
A porta abriu.
– Com... com licença... — falei empurrando ele. Droga, outra vez eu senti aqueles músculos sob a camisa polo leve.
Enzo me puxou para fora do elevador e me encostou na parede, ficou com o corpo a centímetros do meu. Ele veio se aproximando, senti o queixo dele roçando no meu pescoço e me arrepiei. Por vontade minha mão direita foi parar na nuca dele e puxei de leve seus cabelos, ele abriu um pouco a boca e mordeu de leve minha orelha, quase desmaiei com a sensação e o arrepio.
– Enzo! Para... — falei tentando censurar, tentando ser convincente, tentando mentir, não queria que ele parasse.
– Hmm. — ele murmurou ainda sentindo o cheiro do meu cabelo e dando mordidinhas na minha orelha e pescoço.
– Enzo... — coloquei minhas mãos nos ombros dele e o afastei, meus olhos ainda estavam fechados com aquela sensação.
Abri os olhos devagar e ele estava me fitando com um sorriso do tipo ''você adorou né.'', quase chutei as bolas dele. Mas também, burra fui eu, o que eu queria? Queria que ele abrisse os olhos devagar, que ele sentisse alguma coisa diferente só porque deu uma cheirada no meu pescoço? Francamente Rafaella, você já é bem grandinha para ficar sonhando com príncipe encantado.
Fiquei de costas e peguei a chave para abrir a porta, o outro elevador se abriu e o resto do pessoal saiu de lá.
– Hum, não sei não, esse pessoal que fica desaparecendo assim, de uma hora para a outra sabe... — Jú comentou com o Lê e eu vi que ela estava me zoando.
– Rá-rá. — olhei pra ela com cara feia.
Entramos em casa.
– E esse pessoal que fica chegando na hora errada sabe? — Enzo disse entrando na brincadeira e a Jú riu.
– A gente pode descer de novo, se vocês quiserem. — ela sorriu.
– Júlia, cala boca. — mandei o dedo do meio pra ela.
– De boa Rafa, podem ficar a vontade. — até a Fer ajudou aquele povo.
– Ela tem medo de mim... — Enzo deu de ombros.
– Medo de você? — segurei para não rir dele. — vai sonhando.
– Não tem medo então? — ele provocou.
– Nenhum pouco.
– Então vem aqui. — ele disse e mordeu o lábio me encarando.
– Prefiro ir para a minha cama. Boa noite. — falei e fui para o meu quarto.
– Cama? Ótima ideia. — Enzo veio atrás de mim, parei no corredor e olhei para ele me seguindo.
– Tá indo aonde?
– Pra sua cama ué.
– Sai daqui, Enzo. — botei as mãos na cintura parada na frente do meu quarto.
– Poxa, que maldade, convida e depois desconvida? Que feio. — ele fez cara de ofendido.
– Rá-rá. Que dó de você. Vai a merda Enzo, não te convidei em momento nenhum. Eu disse que EU iria dormir.
– Poxa Rafinha... — ele foi chegando perto de mim e fazendo biquinho. Enzo colocou um braço na porta onde eu estava parada e se inclinou na minha direção.
– Pelo menos um beijinho de boa noite eu ganho né? — fez cara de cachorro sem dono.
– Você não ganha nem meio beijinho. — dei um sorriso irônico.
– Não saio daqui enquanto não ganhar.
– Vai dormir ai então e eu te aconselho a sentar. — fechei a porta do meu quarto na cara dele.
– Rafa... Rafinha... — ele começou a bater na minha porta.
– Cala a boca idiota, vai embora! — reclamei enquanto ia tomar um banho.
Entrei no banheiro e tomei um banho de dez minutos sem molhar o cabelo, coloquei meu pijama, que é um shorts curtinho e uma blusinha de alcinha curta também, azul bebê. Saí do banheiro e joguei a toalha numa cadeira, fiz um novo coque no cabelo, deixei meio solto, peguei meu note e sentei na cama.
– Já dormiu? — o Enzo ainda estava ali na porta, deu três batidas.
– Já, agora dá no pé.
– Não posso, quero meu beijo de boa noite. — outras batidas na porta.
– Não enche!
– Rafinha...
– Cala boca!
– Rafinha... Eu não vou te deixar dormir hein.
– Vai a merda, Enzo!
– Rafa, seja boazinha e me dê boa noite, não vai morrer por causa disso...
– Cai fora.
– Só depois do meu beijinho.
Ele ainda estava batendo na porta. Fiquei quieta e ele se aquietou ali também, cinco minutos depois outras batidas.
– Ainda to aqui.
– Azar o seu.
– Não vai mesmo me dar boa noite?
– Boa noite. — falei quase gritando ali da minha cama.
– E o beijo?
– Se fode idiota!
– Então tá.
Escutei os passos dele saindo dali, finalmente ia poder dormir!
Desliguei o note e coloquei do lado da cama, deitei a cabeça no travesseiro e fechei os olhos.
– Rafaella, Rafaella, ou, ou, ou Rafaella! — dei um pulo da cama. O Enzo estava ali do outro lado da porta com duas tampas de panela, eu acho, batendo uma na outra e fazendo um barulhão desgraçado.
– ENZO! — gritei pulando da cama, — SAI DAQUI!
– Lá, lá, lá, o nome dela, é Rafaella... — ele ainda batia as tampas uma na outra, escutei risadas lá da sala, devia ser o Gui e o Lê com as meninas, incentivando o palhaço.
– Rafa, dá jeito no Enzo! — a Júlia gritou lá da sala.
– Se eu abrir essa porta você não vai ver o sol nascer amanha, Enzo Machiello! — ameacei.
– Não, deu previsão de 30 graus pra amanha, vou ver o sol sim. — ele disse zoando.
– Eu to falando sério, posso até perder meu emprego, mas vou colocar a sua cabeça de exposição lá na sala garoto!
– Nossa, como ela é revoltada! — ele estava rindo – vem tentar a sorte.
– Vai a merda caramba! — gritei de novo, ele tinha conseguido me deixar com muita raiva.
– Que isso hein? Como teu namoradinho aguenta essa raiva toda? — outras risadas.
EU. VOU. MATAR. ELE.
Fui em direção a porta e abri ela com tudo, o Enzo estava escorado na parede em frente ao meu quarto de braços cruzados.
– Opa, resolveu dar meu beijo? — ele deu um sorriso que me fez esquecer todo resto por um instante.
– Você. — apontei pra ele. — Fora da minha casa, agora!
– Depois do meu beijo. — ele deu de ombros.
– Cara de pau. — encarei ele.
– Maravilhosa. — Enzo disse baixo me olhando dos pés a cabeça e mordendo o lábio.
Olhei pra ele com uma sobrancelha erguida.
– Dá pra ir lá pra sala e parar com esse barulho, por favor? — falei cínica.
Enzo apontou para a bochecha dele pedindo o beijo.
Suspirei e me dei por vencida. Me aproximei dele e fiquei na ponta dos pés, segurei a cabeça dele com as duas mãos só para ter certeza que ele não iria virar o rosto, dei um beijo na bochecha e me afastei.
– Posso dormir agora?
Ele sorriu torto e ficou me olhando. Virei para voltar para o quarto, as mãos dele envolveram minha cintura e ele me empurrou para dentro, me virou e beijou perto da minha boca, as mãos forte dele faziam pressão na minha cintura enquanto eu ficava totalmente perdida com os lábios dele na metade dos meus. Enzo me soltou e saiu do quarto fechando a porta e me deixando ali dentro parada, quase imóvel.
Meu coração havia acelerado de um jeito estranho, eu tinha esquecido como se respirava. Dei três passos pra trás e sentei na minha cama, coloquei a mão na metade do meu lábio que ele tinha dado o selinho e um sorriso estava formado ali, meu corpo todo tinha ficado arrepiado.
Deitei na cama e só acordei no sábado de manhã pelas dez horas.
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