Opostos?
6 CAPÍTULO 5 – O passeio
Notas iniciais
Enfim, veojo vocês lá em baixo *:
Dois dias se passaram desde o último susto. Algumas crises de choro, alguns comprimidos esquecidos, mas nada muito grave. Aquele seria um dia especial! O dia em que daria o tal passeio na Galeria do Rock! Nada poderia dar errado, nada iria dar errado.
Lara acordou cedo, como de costume, mas estava diferente, mais animada. Há três meses ela não se sentia tão bem assim. Ela tomou um banho longo e se arrumou da melhor maneira possível: a camiseta da banda favorita, os Ramones, aquele jeans rasgado, o tênis All Star favorito. E, claro, sua usual maquiagem, que já estava até com saudades de fazê-la: os olhos marcados de preto e o batom vermelho. Por fim, os seus cabelos estavam jogados pelo rosto, como sempre.
Há tempos ela não se reconhecia diante do espelho. Quanto tempo fazia? Não importava. Lara estava feliz. Ia passear com Ville, seu amigo, seu grande amigo. Nada mais importava.
Sua bolsa já estava pronta desde a noite anterior. Tinha tudo que precisava: celular, maquiagem, uns calmantes de garantia e a chave de casa. Estava tudo pronto. Só faltava a chegada dele.
O tempo parecia não passar.
7h50...
7h55...
7h58...
8h00...
Atrasado! Desespero!
8h03...
Nada.
8h07...
ELE CHEGOU!
Lara correu em sua direção e o deu o abraço mais apertado do mundo.
- Pensei que você não vinha mais. Você está atrasado!
- Mas nem são 8h10. – estranhou Ville.
- Então são quase dez minutos de atraso. – completou, decidida. – Agora, rápido, vamos! Não quero perder nada desse dia!
Ville sorriu. Ela estava linda, como uma daquelas mulheres que magoou pela vida. Mas e daí? Lara parecia realmente animada. Isso era bom. Era ótimo.
~~~
Eles foram andando pelo bairro. Estavam muito felizes. Ville, por ver a felicidade de Lara. E Lara por estar com Ville. Nada podia estragar isso.
A casa de Lara não era tão longe do centro da cidade, então não demoraram muito a chegar. Quando chegaram, os olhos dela brilhavam como duas estrelas. Ela já esteve lá, algumas vezes com Júlio também, mas daquela vez era diferente. Depois de certo tempo enclausurada em casa, tudo ganhava um brilho diferente, uma cor diferente e a companhia mais que ajudava. Era perfeito.
As voltas nas lojas, as camisetas compradas para si e para Ville, os risos, os comentários sobre os meninos bonitos, as conversas... Ela estava adorando tudo. Então resolveram parar para lanchar. Um hot-dog e um copo de refrigerante para ela, uma porção de batatas fritas e uma xícara de chá gelado para ele, que não gostava de carne
- E então, está gostando do nosso passeio? – perguntou Ville, com um sorriso de orelha a orelha.
- Tô amando! De todos os meus... – Lara fez uma pausa bem-humorada para contar – quinze ou vinte cuidadores, você, com certeza, é o melhor! – os dois riram.
Lara passeou os olhos pelo corredor e logo o seu sorriso se desmanchou: seu Júlio, para seu azar, também estava ali, com aquela outra maldita e um menino de mais ou menos três anos junto, que, para piorar, aparentava ser filho dos dois. Nada mais acontecia em volta. Só parecia existir a visão daquela VADIA acariciando SEU Júlio e aquela criança. Ela sentia a tristeza a corroendo, as lágrimas caindo, a garganta fechando, sua cabeça girando. Ela estava a ponto de cair, quando uma voz a fez voltar a si. Era Ville:
- Lara... – nenhuma resposta. — Lara... – insistiu. – LARA! – gritou. – Tá tudo bem?
- Júlio... Meu... Maldita... – sua voz se esvaía a cada lágrima, ficando quase inaudível. – VADIA!!!
Todos no corredor pararam para ver, inclusive Júlio, que a reconheceu e saiu andando, disfarçando.
Lara estava louca. Respirava forte e profundamente, quase bufando. Ao ver Júlio se afastando, com olhar de reprovação, se levantou, querendo ir a sua direção, mas Ville a puxou e a abraçou. Lara desabou em lágrimas. Tremia muito, soluçava alto. Dava para ouvi-la sussurrando o nome de Júlio e chamando aquela mulher de vadia. Estava descontrolada. Ville pegou os calmantes na bolsa dela do jeito que pode.
- Toma, se acalma. Nós vamos para casa e vai ficar tudo bem, tá? – Ville pegou no queixo de Lara, a forçando a o olhar. – Eu juro. Vai ficar tudo bem.
Lara só concordou com a cabeça e tomou seus remédios.
Ville pediu desculpas para o garçom da lanchonete e entregou uma nota de R$ 50,00, mesmo sem saber o preço total do lanche. Pegou Lara pelos braços e saiu andando, tentando a manter alheia a tantos olhares, o que era difícil, já que ela ainda soluçava alto.
~~~
Eles chegaram a casa de Lara o mais rápido possível. Os remédios já estavam fazendo efeito e ela estava bem mais calma, indo direto ao sofá e sentando-se, calada. Ville sentou-se ao seu lado, fazendo carinho em seus cabelos.
- Está mais calma? – Lara apenas concordou com a cabeça – Então me diz o que aconteceu.
- Eu vi o Júlio, – Ville assustou-se. – Ele estava com aquela maldita. Eu me descontrolei, desculpa.
- Não, não, tá tudo bem. – disse, abraçando-a. – Não precisa se preocupar. O dia foi ótimo ainda assim. Compramos muitas coisas, rimos bastante. Isso foi só um imprevisto. Não precisa se preocupar.
- Você é tão compreensivo... Não entendo. Porque ainda o amo? Porque você tinha que ser só meu amigo? Você é tudo que eu preciso agora. Porque tem que ser tão complicado? – desabafou.
- Não é complicado. Só não tinha que ser assim. – Ville pausou brevemente. – Talvez tenha que ser, mas não agora.
- Como assim “não agora”? Você não é gay? – perguntou, soltando-se do abraço.
Ville deixou escapar essa. E agora? Contar e correr o risco de acabar com tudo, ou não contar e viver uma mentira? Ele sabia que seu segredo não duraria para sempre, mas não imaginava que cairia em duas semanas. Lara não merecia mais uma decepção, já tinha sofrido demais. Mas Ville gostava dela, tinha uma menina muito especial sob seus cuidados, não poderia a magoar. E ela não podia se apaixonar. Ele não merecia receber esse sentimento e não conseguiria retribuí-lo. Era só mais um cretino, que partia corações e fugia por diversão. Ele não podia contar essa verdade suja para Lara e também não podia mentir. Estava num dilema.
Notas finais
Amanhã vocês descobrem!
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