Oposição - Série Stellium [DEGUSTAÇÃO]
4 Capítulo III
— Morre, desgraçado! Morre, morre! — Collet esbravejava, apertando todos os botões do controle ao mesmo tempo.
Estava perdendo. Mas é claro que estava perdendo, havia pegado o personagem mais fraco para lutar, não havia como ganhar lutando com um boneco que tinha suas barras de força muito abaixo de seus adversários. E a culpa era dele, claro. Escolhera-o por engano, mas nem pensara em trocar o personagem, pelo contrário. Era tão pretensioso que achava que iria ganhar mesmo assim: Não tem problema, sou um bom jogador. Usando os macetes certos, conseguirei ganhar! E por isso passava por aquele sufoco naquele momento. Se tivesse voltado e escolhido o seu preferido, estaria bem menos estressado e teria menos risco de quebrar o novo controle. Era o quinto somente naquela semana. E, se ele continuasse apertando-o com força, logo a semana se encerraria com uma máxima de seis quebrados. A sua sorte era que seus pais não tinham problema com dinheiro.
Estava sentado no sofá de couro da sua sala, com vários pacotes de comida e jogos de videogame espalhados por todos os lados. Estava tudo tão desarrumado que parecia que havia passado um furacão por ali. Um verdadeiro caos. Mas nem Collet e nem seus pais se importavam com isso. Tinham escravos para quê? Aqueles humanos imprestáveis teriam que servir para alguma coisa, e nada mais justo do que eles limparem a bagunça que ele fizesse. Quando ele acabasse aquele jogo, iria mandá-los arrumar a sala. Ou então quando o jogo acabasse com ele.
— Não acredito! — Tacou o controle no chão, enquanto as letras que anunciavam que ele havia perdido brilhavam vermelhas e azuis na tela. O controle se espatifou pelo tapete, soltando peças para tudo quanto foi lado. — Que merda, não acredito que eu perdi! — Collet jogou o corpo com força contra o sofá, visualizando o teto de madeira e arranhando o couro com suas garras afiadas. — Nunca mais pego essa droga de personagem, nunca mais! — Fechou os olhos, martelando a cabeça contra as almofadas.
— Você mereceu perder — disse uma voz atrás dele. Collet abriu os olhos, mas não procurou ver de onde vinha a voz, apenas continuou olhando para o teto. — Pegou o pior lutador e ainda saiu apertando todos os botões. Pareceu um humano jogando. — A voz saiu fria, apenas mudando o tom de voz para pronunciar a palavra “humano”, que saiu com um nojo declarado.
Collet desistiu de ignorar o dono da voz e olhou para trás, forçando o olhar mais assassino que conseguia fazer. O que encontrou foi uma cópia sua, como se estivesse de frente para o espelho. Collet observava atentamente suas semelhanças. Não dava para negar, eram realmente irmãos gêmeos. Tinham olhos tão amarelos que pareciam duas lamparinas acesas, que acabavam sendo ressaltados por suas peles negras, de um tom não tão escuro, mas não chegavam a ser claros, lembrando caramelo. Os cabelos eram lisos, de um laranja intenso, como se estivessem pegando fogo e pudessem queimar ao menor toque. Collet percebia que, a única diferença entre os dois era o cabelo até o ombro de Brunott, enquanto o seu era curto e bem comportado, e o olhar. O olhar do irmão gêmeo era mais frio, mais desprovido de emoção do que o de Collet, que parecia que irradiava uma energia enérgica pela íris. Poderiam, sim, serem gêmeos, mas eram bem diferentes em termos de personalidade.
— Não me compare com um humano, irmão. — Collet franziu os olhos. — Eles não têm inteligência suficiente nem para segurar um controle!
Brunott soltou um sorrisinho de lado, cruzando os braços.
— Pois foi isso que você me pareceu agora há pouco. Parecia que você não tinha cérebro. — Fechou os olhos, balançando a cabeça. — Francamente, perder desse jeito? Mais uma vez isso mostra o quanto você é mais impulsivo que racional.
Collet bufou, soprando a franja.
— Tá bom, tá bom. — Queria finalizar aquele assunto irritante o mais rápido possível. — O que você quer? Veio só me irritar?
Brunott debruçou-se no sofá, olhando para o irmão gêmeo.
— Na verdade, eu vim te tirar da frente dessa televisão. Vamos fazer alguma coisa, andar pelo vilarejo, sei lá. Está um dia ensolarado demais pra ficar enfurnado dentro de casa!
Collet olhou para Brunott, mas desviou o olhar para o sofá, pensativo. Queria sair de casa? Não, estava tão bem ali, confortável em seu sofá, jogando videogame e se enchendo de porcarias... Por que iria querer sair e andar por um vilarejo cheio de terra, com demnos e escravos humanos andando por todos os lados? Collet sempre fora muito ativo, era verdade, mas naquele dia em especial estava morrendo de preguiça. Só sairia daquele sofá por um bom motivo.
— Eu não sei, Brunott. Estou com uma preguiça e... — Collet começou, se esparramando pelo sofá para mostrar o quanto estava aconchegado ali.
Brunott suspirou, deu de ombros e virou de costas para ir embora.
— Tudo bem, vou sair com a Isabelle sozinho, então... — disse indiferente, andando em direção à porta e soltando alguns olhares para onde o irmão estava. Sempre dava certo, não seria agora que não daria.
— ... O que estamos esperando então? Vamos logo! — Saiu do sofá em um pulo, ajeitando a roupa um pouco amarrotada. — Já perdi mesmo, dane-se essa droga de jogo.
Brunott sorriu sozinho, ainda de costas para o irmão. Era incrível, sempre quando ele queria convencer o gêmeo a fazer alguma coisa, era só colocar o nome de Isabelle no meio. Era automático, ele aceitava na hora. Se Brunott chamasse Collet para ir ao Céu e falasse que Isabelle iria, ele aceitaria sem pestanejar. Collet era tão tapado e apaixonado que nem percebia que seu irmão gêmeo usava daquele detalhe para manipulá-lo, o que ele considerava ótimo.
— Vamos buscá-la na casa dela, eu já a avisei que iríamos sair. — Brunott virou-se para o irmão, que vinha até ele. Olhou para a televisão ligada, com o menu de escolher personagens de luta brilhando na tela de plasma. — Vai deixar a televisão ligada assim?
Collet olhou para ele, assustado, como se ele tivesse acabado de fazer a pergunta mais insana do mundo.
— Ué, qual é o problema de deixá-la ligada? — Arqueou as sobrancelhas. — Por que preciso me dar o trabalho de desligá-la se as escravas podem fazer isso por mim?
Brunott o encarou com uma expressão óbvia.
— Porque elas não sabem como desligar uma TV, lembra? — Estalou os dedos na frente de seu rosto, tentando trazê-lo de volta à realidade. — Lembra que elas não sabem ler, escrever e não são autorizadas a aprender a mexer em aparelhos eletrônicos?
Collet rolou os olhos.
— É, eu me lembro. — Deu de ombros. — E continuo achando que o problema não é meu. Não é culpa minha elas serem humanas e burras. — Soltou o ar pesadamente. — Agora podemos ir embora? A gente não tinha que ir à casa da Isabelle para buscá-la e fazer sei lá o quê?
O outro concordou. Era verdade o que ele havia dito, se as humanas não conseguiam desligar uma simples TV— mesmo que não tivessem autorização para isso —, o problema era delas. Não seriam eles que teriam o trabalho de desligar o aparelho por causa da inoperância de escravos.
Collet não esperou por uma resposta do irmão, sabia que concordava com ele. Por serem gêmeos, muita coisa não precisava ser dita, era quase uma telepatia a forma de comunicação dos dois. O que agradava muito a ambos, já que não perdiam tempo com diálogos desnecessários.
— Vamos, daqui a pouco o sol vai embora — disse Brunott, dando de ombros e passando pela porta. Collet o seguiu, logo ficando ao seu lado para ganharem juntos as ruas do vilarejo de demnos.
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