Operação Zumbi

21 21 - Breve explicação


— Aqui temos nosso próprio restaurante. – Conrad disse me fazendo observar a enorme sala com um balcão que separava a cozinha de todas as inúmeras mesas que estavam alinhadas perfeitamente com espaço suficiente para que caminhassem entre elas. Algumas pessoas que estavam ali, comendo e cozinhando, pararam o que faziam para nos observar.

Subimos três lances de escadas para o terraço, mostrando o céu claro em um azul limpo de nuvens. Corand e Jude pararam próximos a porta enquanto eu e meu grupo caminhávamos em direção ao parapeito, curiosos com o que veríamos. Filas de prédios seguiam até onde nossa vista alcançava e poderia jurar que conseguia ver os muros da Cidade.

— Estamos no que antes se chamava Cidade de Jersey. – Conrad disse respondendo perguntas não feitas. – Como vocês viram, assim como este prédio, temos outros com enfermaria, dormitório e a Fortaleza, onde alguns podem treinar.

Alguns. – Jude disse cruzando os braços. Olhei por um instante para o homem de pele morena, talvez bronzeada com tanto sol que pegavam ali, aquilo me fez erguer o rosto em direção a luz sentindo o calor por todo meu rosto. Não costumávamos desfrutar do sol na Cidade com tanto trabalho para fazer. Olhei de volta para os muros da Cidade tentando adivinhar qual deles eram, sul? Talvez sudeste? Eu não conseguia distinguir.

— Não é tão grande, – Conrad viu quando olhamos para baixo, para a rua. – mas conseguimos fazer o mundo aqui. Pelo menos para nós e para as pessoas que vez ou outra chegam aqui.

— O que? – Luke perguntou se virando para encarar Conrad. Ele nem mesmo conseguiu disfarçar a surpresa no tom de voz e no rosto.

— Há um grupo que viaja pelo país a procura de sobreviventes, eles dão as coordenadas certas para que consigam chegar até aqui. Os pais de Coralina fazem parte deste grupo. – sem sutilezas, todos se viraram para mim. – Quando Jude encontrou vocês, estavam a poucos quilômetros do quartel, vocês são de lá?

— Sim. – Parker respondeu. Direto e ríspido como um soldado.

— São soldados? – Jude perguntou olhando cada um de nós. Sustentei seu olhar tempo demais para ver a cor do seus olhos, as feições pesadas como se não tivesse dormido noite passada.

— Em treinamento. – Tony quem respondeu.

— Como eu disse, preciso saber se posso confiar em vocês. Nós temos pessoas aqui, nem todos são treinados para matar e lutar. Por isso não posso mostrar tudo ou falar sobre, e simplesmente acabar quando os soldados souberem que existimos. – Conrad disse, sempre com tom apaziguador, calmo como um verdadeiro líder. Só não tinha certeza se ele era dócil ou uma ameaça, ao contrário de Jude que era visivelmente uma ameaça para nós.

— Ou que nos façam ser como eles. – Jude resmungou. Visivelmente uma ameaça.

— Nós temos perguntas assim como vocês devem ter. – Luke disse se aproximando do líder deles. – Eu posso garantir que do mesmo modo que seremos sinceros, precisamos da verdade. Confiança é uma via de mão dupla, precisamos ter certeza de que também serão confiáveis.

— Concordo. – Conrad disse disfarçando, sem sucesso, um sorriso ao assentir com a cabeça para Luke. Observei aquele gesto me focando em seu rosto enrugado, a barba mais branca do que os cabelos que se dividiam em fios cinzas, brancos e castanhos. Ele era velho, mas não parecia como os idosos da Cidade que andavam debruçados para frente ou tremiam mãos e braços. Conrad era diferente com seu porte alto, barriga um pouco avantajada marcada pela blusa branca e suja que usava embaixo da camisa de flanela que havia me dado. Um ato de bondade.

— Então se é assim, vou começar: O que estavam fazendo tão perto da Cidade? – Parker perguntou cruzando os braços no peito, encarando os dois homens como um soldado deveria encarar qualquer pessoa que não estivesse à nossa altura. Seu porte era diferente de Jude, quem ele encarava com ainda mais superioridade. Além da visível diferença de idades, Parker parecia menor na frente do homem. Ele parecia um simples civil, adolescente enquanto o homem parecia um soldado. Pensar aquilo me deixou nervosa, me fez abraçar meu corpo desviando o olhar para o horizonte dispersando a sensação de traição com Parker, quem fazia parte do meu grupo.

— Na verdade, não precisamos responder todas as perguntas. – Jude disse em tom de ironia, sorrindo com desprezo para nós.

— Por favor Jude, eu posso cuidar a partir de agora, sozinho. – Conrad disse encarando-o com firmeza por um longo momento até Jude ceder, como se lembrasse quem era o líder ali, concordou com a cabeça e saiu sem ao menos olhar para trás, deixando a porta bater forte em sua passagem. – Eu pedi que fossem aos arredores do quartel... Cidade como vocês gostam de chamar, para checar. – disse para nós. – Sabíamos que entre eles e nós, tudo já foi revistado e não poderia ter qualquer coisa que precisássemos, e apesar de termos um distrito inteiro para averiguar, pelo menos uma vez no mês alguém vai por aquele lado para checar.

— Você sempre soube que o quartel existia? Porque não pediu ajuda para ficar lá? – perguntei intrigada, tentando entender o problema daquelas pessoas que preferiam viver à pura sorte do que entre muros seguros. Conrad, talvez percebendo minhas dúvidas, sorriu para mim caminhando até o parapeito onde eu estava. Ele olhou para baixo para as pessoas que andavam ali antes de responder.

— Todos aqui sabem o que aconteceu, como aconteceu e quem se pôs no comando depois disso. Mas nem todos foram convidados a proteção do quartel. Seus pais sabiam disso, por isso eles acreditavam que haviam mais pessoas do lado de fora e quando eles me acharam, só tiveram a certeza de que outros como eu estavam perdidos.

— É estranho saber que pessoas estão vivendo fora da Cidade. – Tony falou perdido em seus pensamentos. Poderia afirmar que o mesmo pensamento era compartilhado pelas quatro pessoas ali, de imaginar que John foi capaz de negar asilo para outras pessoas.

— As pessoas que estão no comando eram soldados antes disso, criança. – Conrad disse a Tony tentando explicar sua descrença. – Eles estavam presentes quando o tal laboratório foi destruído para tentarem esconder o que faziam lá, mas é claro que não adiantou já que o vírus se espalhou como vento. Por isso o quartel foi criado, por redenção ou culpa, para ajudar pessoas saudáveis. O problema é que nem todos foram salvos. – Conrad olhou para o horizonte como se buscasse lembranças daquela época. – Foi um caos na terra quando mais e mais pessoas eram infectadas, morriam e voltavam canibais. – ele se virou para nós que o observava com atenção. – Vocês conseguem imaginar dormir ao lado da sua mulher que só estava com um resfriado e acordar no meio da noite com mãos e dentes tentando mordê-lo? – É claro que não, foi o que não falei mas nossas cabeças balançando enfaticamente para os lados como resposta. Fiquei intrigada se aquela era uma história real da vida dele ou apenas uma história para nos deixar interessados. – Perdi muitas pessoas que amava, muitos aqui perderam.

— Sinto muito por isso. – Luke disse me fazendo virar para ele, vi Parker fazendo o mesmo como se disséssemos que ele estava louco em mostrar empatia para um estranho que, aparentemente, sabia muito sobre nós.

— E quanto ao grupo que você falou sobre sair a procura de sobreviventes, eles moram aqui? – Tony perguntou fazendo o rumo da conversa mudar. Conrad assentiu com a cabeça olhando para mim.

— Todos moram aqui, apesar de não ficarem por muito tempo. Nós que ficamos aqui temos o trabalho de manter todos a salvo, eles tem seus trabalhos de encontrar pessoas vivas. Alguns deles fizeram parte do quart... Da Cidade, os pais de Coralina por exemplo. Eles nos ensinaram muitas coisas de como sobrevivermos. – de repente Conrad ficou duro ao olhar para mim e então para minha mão enfaixada miseravelmente com um pedaço da blusa dele. – Meu Deus do Céu! – ele exclamou se aproximando de mim, me fazendo dá um passo para trás por instinto. Ele ergueu meu braço quando falou: – Você precisa tratar disso urgentemente, não posso deixar que algo aconteça a você.

Conrad não esperou que eu aceitasse a ajuda ou nem mesmo esperou por uma resposta quando me puxou pelo pulso em direção a porta do terraço, para as escadas passando rapidamente pelo restaurante para o prédio vizinho. Vendo o desespero do pobre homem me fez pensar em falar sobre meu corpo ser imune, mas aquela era uma informação tão valiosa e íntima que eu não poderia compartilhar assim com qualquer um que se mostrasse inofensivo. Conrad abriu as portas duplas que dava para um pequeno hall no térreo e um lance de escadas para o primeiro andar, ele nem mesmo me deu tempo para observar o lugar antes de subir cada degrau com agilidade. Pude ouvir passos atrás de nós que me deixaram menos alerta, sabia que meu grupo me daria cobertura caso alguma coisa acontecesse comigo.

No topo das escadas para o primeiro andar já se sentia o cheiro forte de produtos químicos para esterilização. Era o mesmo cheiro da ala médic na Cidade o que me fez pensar que usavam os mesmos produtos para limpeza ali. Um corredor espaçoso e longo estava a nossa frente, conforme Conrad me levava pude ver várias salas com portas com e sem janelas, as portas com janelas me deixavam ver o que tinha dentro, muitas vezes armários com livros e janela ao fundo, em direção a rua principal de onde viemos. Paramos em uma sala grande e espaçosa, com várias fileiras de macas mostrando que poderiam cuidar de várias pessoas ao mesmo tempo. Havia duas janelas maiores e uma mesa frente a elas com um homem sentado frente a ela. Ele não notou quando paramos na apertura da porta até Conrad pigarrear. O homem se virou, seus cabelos pretos lisos e finos caíam em seu rosto e seus olhos castanhos sorriam junto com a boca, se isso era possível, olhou para Conrad antes de olhar para mim e mudar a expressão de alegre para confuso. Ele era muito jovem, tão jovem para ser um médico, foi o que pensei quando senti seus olhares sobre mim. Tão jovem quanto Vitor era.

— O que temos aqui? – perguntou no instante em que Conrad disse: – Jasper, está livre? – seu olhar desviou de mim para os três atrás de mim erguendo as sobrancelhas em surpresa.

— Todos eles? – perguntou se virando para Conrad. Aquele gesto fez mechas do cabelo caírem nos olhos fazendo-o tirar desajeitadamente.

— Apenas esta. Corte na mão. – Conrad puxou meu braço erguendo a mão enfaixada ao médico. Ele olhou para a mão aberta, o pano com sangue seco, olhando de volta para Conrad. – Estava fazendo o teste hoje e se cortou com vidro da janela. – Conrad respondeu sua pergunta não dita. Olhei para os dois, enquanto o médico tirava o pedaço de pano da minha mão, para admirar como eles conseguiam conversar sem palavras, assim como eu e meu grupo.

— É um corte profundo. – Jasper disse analisando meu ferimento que agora acumulava um pouco de sangue fresco na fenda. – Como você fez isto? – perguntou me levando a maca mais próxima da mesa me fazendo sentar enquanto colocava seus óculos de grau. Conrad ficou ali assim como Parker, Luke e Tony, em uma distância segura e respeitosa.

— Fiz um pedaço de vidro da janela como faca. A medida em que eu tentava decapitar o zumbi, o vidro cortava minha mão. – falei observando o médico puxar sua cadeira de rodas da mesinha para sentar frente a mim. Aquela cena me fez ter um déjà vu ao lembrar de doutor Robson fazendo o mesmo comigo em sua sala.

— Wow, Califórnia. – Tony exclamou me fazendo sorrir gentilmente com sua admiração, sabia que ele guardaria aquela informação. Olhei de volta para o médico que me encarava sério.

— Você sabe que de todas as maneiras foi perigoso, um corte e um zumbi? Não é muito bom ouvir essas duas palavras junas em uma frase.

— Eu sei. – falei desviando meu olhar para o chão, as paredes com papel de parede de peixinhos e o teto com estrelas grudadas, para todos os lugares menos para o médico que limpava o sangue fresco com gaze.

— O que você vai fazer com ela? – Parker perguntou ao ver o que ele fazia. O médico, Jasper, suspirou antes de me encarar por um instante e ajeitar seus óculos se virando para Conrad.

— Limparei, costurarei e talvez darei alguns analgésicos para a dor se for preciso.

— Antibiótico não? – Conrad perguntou cauteloso.

— Não. – meu grupo e eu exclamamos em uníssono fazendo os dois se entreolharem em mais uma conversa não dita. Jasper olhou para o meu ferimento e disse.

— Não vai precisar de algo forte, não parece inflamado.

— Tudo bem. – Conrad disse me fazendo olhar para ele procurando sinceridade em sua preocupação. – Vou deixar você fazer seu trabalho enquanto levo estes rapazes para comer algo.

— Não precisa. Vamos ficar com Cora. – Luke disse rapidamente, apesar de achar que tinha escutado sua barriga roncar.

— Isso não vai demorar. – Jasper quem respondeu. – Em poucos minutos ela estará lá com vocês.

— Tudo bem pessoal. – falei forçando um sorriso apesar de não me sentir confortável estando sozinha ali. – Vão comer e eu encontro vocês daqui a pouco. Eu estou faminta, aposto que vocês também estão. – e com isso concordaram com a cabeça e não relutaram quando Conrad os levou em direção a soleira da porta levando-os de volta ao restaurante.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.