Operação Zumbi
7 07 - Doutor Estranho
Tentei não demonstrar preocupação enquanto caminhava até o shopping com Parker e Luke ao meu lado me ajudando a não forçar o pé machucado, Jason que ia alguns passos a frente e Tori e Tony que vinham logo atrás de mim. Estava em silêncio forçando a não parecer preocupada, será que o soldado médico que me atendesse seria complacente e me ajudaria? Ao invés de na melhor das hipóteses, me banir da Cidade? Para todos os efeitos, não demonstrei sentir dor, apesar de sentir muita, iria parecer normal quando chegasse a ala médica para mostrar que eu estava bem. Ignorei os olhares assombrados dos civis que passavam por nós durante o caminho, para eles os soldados eram como Deuses e os Betas como Semideuses, nós não nos machucávamos, éramos imunes ao vírus e ver um de nós machucado ou aleijado como eu estava, era um choque de realidade que não estavam prontos para terem.
Quando chegamos nas portas deslizantes do shopping Jason diminuiu os passos para ficar um pouco a nossa frente, esse era o código para que todos soubessem que o assunto era urgente. Passamos pelo térreo, usado para pequenas lojas dividas entre roupas, remédios e alimentação para quem precisava, com mesas e cadeiras por quase toda aquela área. Era basicamente para os civis que precisavam de roupas novas e devolviam as antigas para que fossem para outras pessoas, ou se precisavam de remédios se os sintomas não eram tão sérios para subirem para a ala médica. Soldados cuidavam de cada loja mantendo a ordem de quem chegava e quem saia, e das pessoas que sentavam nas mesas para comer ou descansar da pequena caminhada.
Fomos até as escadas rolantes em direção ao primeiro andar. Jason chamou alguém pelo rádio avisando que estava subindo com um ferido, quando chegamos ao topo das escadas dois soldados esperavam por nós com jalecos brancos. Vi que um deles estava atrás de uma cadeira de rodas, a cada passo para perto deles me deixava nervosa e preocupada apertando forte a mão que segurava prendendo a respiração com o cheiro terrível do produto que usavam para esterilizar o andar. Não demonstrei fraqueza, dor e muito menos que poderia vomitar a qualquer momento, apenas fiz o que todo Beta principiante tinha de fazer, fingir ser forte.
— Nós vamos esperar aqui. – Parker disse afrouxando sua mão do meu aperto. Olhei em direção a ela encontrando nossas mãos cruzadas e pela primeira vez percebendo que estava segurando a mão de Parker todo esse tempo. A mão suada e quente que estava afrouxando a cada segundo ao perceber que eu encarava demais.
— Ela vai ficar bem. – um dos soldados médicos disse quando sentei na cadeira fugindo de qualquer toque intimo.
— E vocês virão comigo. – Jason avisou para o restante do meu grupo.
— Eu vou ficar bem. – falei para todos que me observavam apreensivos, ignorei seus olhares amedrontados e prometi a mim mesma que iria ficar boa.
— Se você quiser, a gente pode ficar. – Parker disse a mim.
— Não precisa. – respondi sem conseguir olhar para ele.
Os soldados médicos me levavam para o primeiro corredor até a primeira sala, eu sabia que naquele corredor os médicos tratavam de algo menos maligno, diferente do segundo corredor que tinha péssimos rumores sobre ele. Fui deixada em uma sala branca e iluminada com apenas uma mesa, uma cadeira e uma maca. Sentei na maca movendo o pé machucado, aliviada por ainda ter o domínio sobre ele, estava quase levantando para tentar andar quando um vulto branco parou na soleira da porta.
— Ora, ora o que temos aqui?
— Vitor, o jaleco branco não lhe cai bem. – falei fazendo-o sorrir entrando na pequena sala.
Vitor era um garoto que morava ao lado de nossa casa quando éramos civis, ele havia aprendido quase tudo o que sabia com meus pais, tinha tudo para ser um ótimo Beta, mas preferiu seguir na medicina. Eu diria que, se meus pais estivessem vivos, estariam orgulhosos dele, afinal, o tinham como um filho e eu, um irmão mais velho. Vitor se aproximou de mim sentando na maca ao meu lado, me fazendo lembrar daquele gesto quando éramos crianças e ele sentava ao meu lado na cama pequena quando cuidava de mim enquanto meus pais saíam em uma Busca.
— O que houve? – perguntou erguendo o queixo em direção ao pé machucado.
Pensei na possibilidade de mentir e seguir a mesma história que Luke havia contado a Jason, mas sabia que Vitor também foi um Beta, também participou das reuniões no muro e tudo – ou quase tudo – que eu estava passando agora, ele saberia se eu estivesse mentindo mas como qualquer pessoa ali, ele ainda era um soldado, tinha o dever de seguir as regras e informar ao Governador se algo, ou alguém, estava ameaçando a vida de todos, mesmo se esse alguém fosse eu.
— Cora? – me chamou. – Você está pensando demais, Coralina. O que aconteceu?
— Cai de alguns poucos metros e devo ter... Não sei, quebrado? – perguntei dando de ombros, tentando parecer despreocupada. Vitor me encarou erguendo uma sobrancelha.
— Se estivesse quebrado você estaria se contorcendo de dor. Está sentindo dor?
— Sim. Muita, mas posso suportar. – Vitor suspirou pesadamente, pulou para fora da maca como um adolescente, que ele não era mais, indo até a mesa.
— Vou da a você alguns analgésicos.
— Não, você precisa fazer com que essa cor suma. Eu preciso voltar a andar sem assustar qualquer um que passe por mim.
— Aconteceu quando você estava lá fora, não foi? – ele perguntou de costas para mim.
— Talvez.
— Droga Cora! – Vitor exclamou virando para fechar a porta. – Você sabe o perigo que isso pode causar?
— Sei. Eu sei. E você precisa me ajudar. – supliquei encarando seus olhos castanhos. – Eu cai em algumas latas de lixo, pode ser que...
— Cubra suas pernas, vou te levar a um amigo meu.
Cheguei a duvidar que Vitor me levaria ao Governador ou o Presidente, cheguei mesmo a pensar que estava banida da Cidade e iria morrer de verdade. Mas então, ao invés de descemos pelas escadas rolantes, seguimos para o corredor dois onde o caso era realmente grave. Não olhei para as salas de portas abertas enquanto passávamos para não ver o que faziam ali, continuei respirando normalmente travada demais para demonstrar medo ou qualquer outra coisa.
Vitor parou na penúltima sala de porta fechada, na parte escura do corredor onde nem mesmo as luzes tinham coragem para iluminar. Mantive a calma. Não era grave. Eu iria sair dessa. Ele abriu a porta mas não entramos, paramos na soleira da porta observando a sala limpa, porém bagunçada com papéis, pastas e copos de café que dividiam espaço na mesa, havia uma maca com instrumentos médicos jogados de qualquer jeito nela, duas cadeiras e uma estante abarrotada de livros. Vitor e eu trocamos olhares e então colocamos apenas a cabeça para dentro a procura do médico. Para minha infelicidade ele estava parcialmente escondido atrás da estante de livros segurando alguns papéis na altura dos olhos, estava tão concentrado neles que não nos notou até Vitor limpar a garganta assustando o médico. Ele sorriu se aproximando de nós erguendo os papéis.
— Estava tão distraído com isso que não vi vocês. – ele disse arrumando desajeitadamente os instrumentos na maca. – Você viu a apresentação de John, Vitor?
— Sim senhor. Como estão os resultados dos experimentos? – Vitor perguntou entrando na sala, puxando delicadamente meu braço para segui-lo.
— Experimento? – sussurrei para ele, agora curiosa.
— Não tão bons. – o médico respondeu nos observando encostado na maca. – Estamos testando alguns antídotos para remédios, talvez até a Cura. – ele disse a mim.
— Uma cura? – perguntei surpresa, nunca sequer havia escutado a chance de existir uma cura.
— Doutor. – Vitor interrompeu indiferente, como se aquele assunto não fosse tão interessante assim. – Nós viemos aqui para vê-lo.
— Muito bem, do que precisam? – o médico desviava seu olhar para nós dois esperando quem falaria primeiro.
— Ela caiu e torceu o pé. – Vitor disse fazendo o médico olhar instintivamente para meus pés, descalços e um deles roxo e inchado.
— Não é nada demais. – respondi rapidamente, no instante em que Vitor disse: – Acho que é sério.
— Preciso ver melhor. Você pode sentar na maca, por favor? – e assim o fiz, sentando na maca quando o médico puxou uma cadeira sentando em minha frente. Com cuidado ele puxou minha perna repousando meu pé machucado em sua coxa, analisando e estralando a língua. – Está bem feio. Se você viesse assim que caiu, poderia ser mais fácil ajudar.
— O senhor sabe como é, Betas nunca admitem que algo está errado. E eu confio no senhor para manter esse assunto em sigilo, o senhor pode compreender? – o médico e Vitor se encaram me deixando de fora da conversa silenciosa que tinham. Até Vitor completar. – O responsável por ela não estava presente, não precisamos fazer um grande circo com isso.
— Compreendo. Como se chama mocinha? – perguntou voltando para mim.
— Cora.
— Coralina Chadwick. – Vitor disse com firmeza, me fazendo rolar os olhos.
O médico, por outro lado, recuo ao ouvir meu segundo nome e não tentou – ou não conseguiu – esconder sua surpresa mesmo estando em minha frente ou na de Vitor, me observava em silêncio deixando um clima estranho e misterioso. Se fosse por causa dos meus pais, se ele os conhecia, esta não seria a atitude certa a se fazer, normalmente os soldados tiram o chapéu e o põe no peito como condolências, mas nunca ninguém chegou a ficar me encarando como um louco.
— Isso não é doença, é meu sobrenome, está bem? – falei fazendo Vitor sufocar uma risada. O médico piscou como se voltasse a realidade.
— O que ela está fazendo aqui? – o médico perguntou a Vitor, me ignorando completamente e me deixando intrigada a tal ponto que havia esquecido a dor, a única coisa que pulava em minha mente era o modo como o médico havia se chocado ao ouvir meu nome.
— Como eu disse, o senhor pode ajudar. – Vitor respondeu.
— Sim, sim, sim. Eu entendo. Me desculpe por isso. – ele disse se virando para mim voltando a parecer normal como antes. – Sente dor?
— Muita.
— Sente algum corte?
— Não, ele só parece está apodrecendo.
— Não está apodrecendo. – ele respondeu com um tom de voz e sorriso como se estivesse falando com uma criança. – Seu corpo só está respondendo de um modo diferente a uma simples torção. Eu tenho o que precisa. – ele disse se afastando em direção a sua mesa.
— Obrigado Doutor. – disse Vitor.
— Você conheceu meus pais? – perguntei não aguentando segurar aquela frase na garganta. O médico parou o que fazia erguendo seu olhar para mim, mas foi Vitor quem respondeu.
— Todos conheciam seus pais, Cora. – o médico concordou com a cabeça. Parecia grato por não ter tido a chance de responder.
— Pronto. Aqui está. – o médico disse, Vitor se aproximou para ver o frasco pequeno que o médico segurava em minha frente.
— O que é? – ele quis saber.
— É um anti-inflamatório com analgésico. Vai fazer voltar ao normal e ajudar com a dor.
— Anti-inflamatório? Não seria mais eficaz algo mais forte? – Vitor quis saber. Eu já estava ficando irritada com Vitor naquele momento, como ele poderia duvidar do médico que tinha nas mãos algo que melhoraria meu pé? Se eu estivesse sozinha ali, já teria tomando mais de um comprimido.
— Eu não sei se ela poderia tomar algo mais forte. – o médico disso sem olhar para mim.
— Porque?
— Se o organismo dela for igual de Camile, acho que ela realmente não pode tomar algo mais forte.
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