Notas iniciais
Cheguei! Antes de de tudo eu queria agradecer a Lady Wolf pela primeira recomendação da fic aaaaaa!!!! Tive altos surtos com a surpresa! Muito obrigada de verdade sua linda! Eu tô muito feliz de saber que você tá gostando da história. Não sei nem o que dizer, deixou meu coração quentinho!! Agora vamos ver como anda o Senhor Bucky Barnes e as férias forçadas dele na Sicília Boa leitura!

Sete dias. Cento e sessenta e oito horas. Uma semana.

A percepção de tempo passou a ser algo confuso para Bucky Barnes no dia em que ele caiu daquele maldito trem, em meados dos anos 40. Anos na criogenia podiam ser um simples piscar de olhos; minutos naquela cadeira elétrica, enquanto palavras macabras eram entoadas, se tornavam uma eternidade de tortura.

Um cara inteligente, que Barnes não lembrava o nome, disse uma vez que o tempo é algo relativo. Talvez fosse verdade...

Porque a semana passou depressa ali na Sicília e ao mesmo tempo Bucky sentia que estava estagnado lá por uma eternidade. Era dúbio, talvez como tudo que cercava aquele lugar.

A Operação Roleta Russa não tinha feito nenhum grande progresso até então. Sim, Barnes revistou a casa dos Domenichelli, em mais de uma noite até, mas não encontrou absolutamente nada de relevante. Apenas armas escondidas em lugares estratégicos. Típica coisa de mafiosos ou agentes secretos.

O único lugar que ainda não havia conseguido entrar era o escritório da mansão, um cômodo fechado com uma tranca eletrônica que necessitava de senha, que o Soldado foi incapaz de abrir de qualquer outra forma.

Podia usar a força, verdade, mas isso acabaria com o propósito de ser discreto, além disso se nada houvesse de relevante no lugar ele teria destruído seu disfarce por nada.

Não era uma opção.

Teria que esperar que o escritório fosse aberto e quem sabe podia decorar a senha para usar durante a noite. Porém Roxanne sequer olhou para aquela maldita porta naqueles sete dias.

Restava a Bucky esperar então, manter o disfarce e deixar que as coisas acontecessem sozinhas.

Era uma verdadeira merda.

Não havia conseguido qualquer contato com os Estados Unidos também, nenhuma oportunidade havia surgido para isso, e usar o telefone dos Domenichelli daquele jeito, mesmo na calada da noite, podia ser muito arriscado por diversos fatores.

E, sendo sombra da Donna da Máfia o tempo todo basicamente, não sobrava espaço para escapar para lugar nenhum em busca de um telefone descartável.

Era mesmo uma maldita questão de esperar.

Esperar...

Esperar...

Esperar...

Preso em seu disfarce estoico sequer podia fazer perguntas, ou mesmo reclamar como o bom velho centenário que era. O Soldado Invernal parecia um trunfo quando aquela missão começou, mas depois daquela semana filha da puta Bucky odiava seu alter ego gelado e inútil ainda mais.

Sim, ele xingava agora, xingava pra caralho dentro da própria mente, porque afinal não havia nada mais o que fazer e isso estava lhe deixando louco aos poucos. A voz rebelde que havia ganhado lugar em sua cabeça naqueles sete dias, acumulava várias palavrinhas sujas em seu repertório.

Steve ficaria horrorizado.

Não que Bucky um dia tivesse sido o garoto com a boca mais limpa do Brooklyn, mas ele havia crescido cercado de irmãs e seu melhor amigo era um tanto conservador, então Barnes acabou acostumando a “olhar a língua”, como diria Rogers. E os palavrões ficaram de lado no curso do tempo, esquecidos no gelo talvez.

Porém não estava mais nos anos 40, Barnes não estava cercado de suas irmãs e não havia um melhor amigo para advertir sua mente a cada deslize mal-educado, mesmo o maldito gelo havia derretido porque ali naquela ilha idiota fazia um calor infernal. Estava preso na Sicília em uma missão estagnada, atado a um disfarce que o sentenciava em um quase voto de silêncio, sendo sombra da mulher mais poderosa da Itália.

Tinha a porra do direito de xingar, nem que fosse mentalmente.

A verdade é que uma boa e longa sequência de palavrões era a única coisa o impedindo de mergulhar na insanidade...

Era tudo culpa do tédio. Bucky sabia disso, mas saber não tornava mais fácil evitar nada. Porque o tédio — essa porra de bichinho sorrateiro e traiçoeiro — tinha o poder de se infiltrar na mente de Barnes e levar os pensamentos dele pela mão para um passeio por lugares muito... tentadores.

Era exatamente isso que acontecia naquele momento, um nível abaixo do casarão do vinhedo Domenichelli, dentro das instalações completas de uma academia. O Soldado Invernal estava simplesmente sentado em um dos bancos do lugar, enquanto uma certa italianinha corria na esteira.

Era só o tédio escorregando para dentro do cérebro de Barnes como uma droga opioide, acendendo dentro dele uma certa chama inapropriada apenas por diversão. Era só isso. Nada mais... Tédio acumulado fazendo com que os olhos dele lhe traíssem as vezes e ele focasse no corpo suavemente curvilíneo.

Roxanne era uma mulher de rotina, todos os dias daquela semana ela havia acordado as cinco da manhã para chegar no vinhedo as seis em ponto. Então ela trabalhava exaustivamente, seja na administração do lugar ou em seus “outros negócios”, não parava para o almoço, porque fazia suas refeições entre respostas de e-mail, ligações e outras coisas assim. Seu único horário irregular era aquele, o momento que ela descia para o subsolo afim de fazer uma ou duas horas de exercícios físicos, dependia do movimento do dia, as vezes de tarde, as vezes de manhã, as vezes antes de ir embora. Em um desses dias ela dividiu em dois turnos de uma hora, e em um par de vezes Corinne apareceu para um treinamento de combate.

E quando deixava o vinhedo, sempre depois do sol sumir no céu, ela por vezes ainda passava na casa das pessoas, como fez na noite anterior, quando levou pessoalmente suprimentos básicos para uma família na periferia da ilha.

Não que ela fosse uma santa filantropa, bem longe disso, Bucky já havia observado o bastante do lugar para saber que apesar do comércio do vinho ser algo dentro da lei, que provinha trabalho honesto para todas as “Mamas”, haviam sim coisas ilegais acontecendo, tráfico de obras de artes e joias por exemplo, ou falsificação de documentos, principalmente os de imigração para os Estados Unidos, cujas encomendas vinham do mundo todo. Roxanne não lidava com drogas, mas com agiotagem e jogos de azar sim, embora Barnes tenha assistido a Donna perdoar duas dívidas aquela semana apenas porque julgou que a família realmente necessitava do dinheiro.

Ela continuava sendo uma contradição constante de crimes e gentilezas. Mas agora ele sabia que havia uma ordem milimétrica no caos da italianinha.

Sua linha moral parecia clara agora, ela protegia seu povo, aqueles leais a ela eram a total prioridade. E para que tudo isso seguisse de pé havia uma equação muito simples: A capacidade de proteger outros era uma questão de ter dinheiro e poder o bastante, ou seja, todos os negócios ilícitos que Roxanne comandava de frente e com mão de ferro eram para esse propósito. Fortalecer a máfia italiana, para que ela cuidasse do povo da Sicília.

Era como se a Donna tivesse trazido os conceitos mais básicos daquela sociedade de volta. Porque no inicio a máfia Siciliana — ou Cosa Nostra como eles chamavam ali — era conhecia exatamente por esse detalhe, uma organização que tinha certas responsabilidades sociais, já que o governo nunca foi muito bom em suprir a necessidade de seu povo. Havia algo de dever e honra ali. Eles por eles.

Ninguém gostava do governo ou das autoridades naquelas terras.

Tudo isso parecia ter sido resgatado por Roxanne e modernizado de algumas formas mais inclusivas, excluindo ideias machistas e sexistas e fazendo das mulheres parte integrante da organização. Ela havia trazido de volta a honra e o dever, mas também jogou uma luz de renovação no império que havia reerguido durante o blip.

Ah, sim. Essa parte Bucky havia conseguido descobrir, ouvindo aqui e ali discretamente. Desde a época do avô de Roxanne a Máfia Italiana havia se tornado apenas um conglomerado de crime organizado que visava somente o lucro e dava um grande foda-se para o povo. Quando Vicenzo assumiu como Dom ele intensificou esses negócios, porém por causa das invasões alienígenas no globo e toda a coisa dos heróis impactando o mercado negro ele perdeu o rumo e faliu totalmente.

Era isso, quando Thanos estalou seus dedos havia apenas a sombra de uma máfia italiana, sobrevivendo de sua reputação, afogada em dívidas.

Haviam algumas lacunas nos cinco anos seguintes, mas Roxanne literalmente havia reerguido um império em ruínas, tornando a máfia novamente tudo aquilo que ela havia nascido para ser, só que com melhorias.

E tudo isso viria abaixo, quando a Operação Roleta Russa fosse finalizada.

Porque afinal, com honra e dever ou sem, a Máfia italiana era na prática uma organização criminosa. A lei tinha que valer para todos, certo?

Barnes não sabia como se sentir sobre isso, ele preferia abster, focar em coisas que ainda não entendia daquele quebra-cabeças, como por exemplo: onde o noivado de Roxanne com Strovalenko se encaixava em tudo aquilo?

Uma semana e nenhuma explicação, Viktor não havia aparecido na Sicilia de novo, embora tivesse ligado para a noiva duas vezes, apenas para dizer que os negócios com as armas demorariam um pouco mais e que Vicenzo — que aparentemente nada sabia sobre o resgate das garotas no porto — estaria com ele durante esse tempo. Na verdade, o líder da Hydra não parecia muito feliz em dizer isso.

Mas também, quando é que aquele “nazistinha de merda” — como Corinne amava chamar e Bucky havia adotado — estava feliz com alguma coisa?

Nenhuma das duas vezes que ele ligou disse algo amável para a noiva, não que ela tenha dito também, embora tenha sido dócil e educada... Na verdade a postura de Roxanne mudava tão bruscamente ao lidar com Viktor que era impossível para Barnes não notar agora.

Ela estava com aquele merda por quê?

Qual era o plano por trás disso? Por que manter aquele noivado quando claramente não amava aquele homem?

Bucky chegou a cogitar que seria um noivado forçado, mas não parecia haver ninguém naquele mundo capaz de forçar Roxanne Domenichelli a fazer algo que não queria, isso era algo muito certo, mesmo tento observado a Donna por apenas uma semana.

E ainda assim, apesar das perguntas sem resposta, do marasmo de informações, da Operação estagnada, da incerteza massacrante... Nada disso importava, não naquele exato momento ao menos.

Por que Bucky tinha simplesmente esquecido tudo isso quando o tédio acenou em seu cérebro, fazendo com que seus olhos focassem em algo mais interessante e imediatamente recompensador...

Roxanne Domenichelli correndo naquela maldita esteira.

Estava calor naquele dia, era meio de tarde e a Donna desceu para seus exercícios, Barnes se sentou no lugar de sempre, porque desde a primeira vez tinha sido instruído a não ficar ali parado e de pé.

Tentou desviar o olhar, mas a verdade é que naquele instante o corpo da italianinha parecia um maldito imã. Suas coxas torneadas subiam e desciam em um trote rápido, totalmente expostas por causa da roupa que Roxanne usava...

Bucky não tinha ideia de que tecido era aquele, mas a coisinha fina e resistente da cor branca se agarrava em todas as curvas de Roxanne. Todas elas. A parte de cima era apenas um top sem decote e a parte de baixo um shorts curto que parecia projetado para ressaltar aquilo que ele cobria.

Inferno de italianinha.

Ela tinha mesmo que ser bonita em todos os ângulos?

Barnes sabia que seus pensamentos atuais eram apenas um efeito colateral de seu tédio, mas era difícil dissipar as sensações que as ideias intrusas causavam nele. Difícil pra caralho mesmo.

O cabelo escuro de Roxanne balançava de um lado para o outro, preso em um rabo alto, a postura dela impecável, seu olhar focado e sua cabeça erguida. Ela não tinha visão do Soldado de onde estava, mas ele tinha toda a visão que quisesse dela e isso estava sendo um problema particular naquele dia...

Desviou o rosto, tentando focar em outra coisa, mas a verdade é que nada parecia mais interessante do que o corpo de Roxanne Domenichelli no meio daquele cômodo cheio de aparelhos de musculação.

Que caralho.

Não era a primeira vez que isso acontecia, a verdade é que apreciar a beleza de Roxanne havia se tornado um hábito viciante e inoportuno, como fumar um cigarro depois de uma xicara de café apenas para relaxar.

Por mais que Bucky se policiasse ou se condenasse, seus olhos buscavam por ela furtivamente em qualquer oportunidade. Por que ela tinha que ser tão atraente?

Era frustrante por muitos motivos diferentes, um deles Bucky só havia descoberto em uma dessas manhãs, e ainda estava tentando entender por que de fato lhe incomodava. Dizia respeito a forma como Roxanne lhe tratava desde aquela conversa enigmática que os dois tiveram na mansão Domenichelli, logo depois que ela salvou as meninas no porto.

Não que ele fosse tratado mal, muito pelo contrário inclusive, era só que...

— James? — A voz feminina interrompeu o curso de seus pensamentos e o fez se colocar de pé no mesmo instante.

Se aproximou da esteira, Roxanne ainda corria, Barnes entrou no campo de visão dela, os olhos negros encontrando os azuis, e analisando o Soldado por alguns momentos.

— Está muito calor hoje, acho que podemos dispensar o terno essa tarde, pode ser? — Ela declarou naquele tom amável e condescendente que já era habitual quando falava com ele. Bucky odiava.

Ele apenas assentiu, tirando a peça e a pendurando em seu braço, não usava gravata há uns dias, segundo Roxanne podiam deixar a peça apenas para ocasiões mais importantes. De fato estava calor naquele dia, então ficar apenas com a camiseta branca não era nada ruim.

— Tomou água? É importante se manter hidratado em dias quentes. — E lá estava... O detalhe que vinha frustrando Barnes na forma como era tratado naquela última semana.

Roxanne se preocupava com o bem estar dele, isso devia ser bom, afinal ser o Soldado Invernal nas mãos de alguém cruel que desconsiderasse a humanidade e visse apenas a arma seria péssimo. Porém aquele jeito protetor e condescendente irritava Barnes além do que ele podia explicar.

Porque a Donna era educada e protetora com todos a seu redor, verdade, mas ela também tinha pulso firme, ela dava ordens, ela respeitava as pessoas, falava com eles de igual para igual. E com o Soldado Invernal era diferente...

Por vezes ele se sentia tratado como uma criança. Era exatamente isso, ela cuidava das necessidades dele como alguém cuidaria de uma criança de oito ou dez anos. Não, na verdade era até mais frustrante que isso, porque Sophia — uma das garotas resgatadas naquele dia no porto — ainda estava sob os cuidados das Mamas e frequentemente estava ali na vinícola e apesar de tratar a menina com zelo e cuidado, assim como fazia com o Soldado Invernal, Roxanne também conversava com a menina, era extrovertida, respondia perguntas, brincava, ria. Barnes não tinha nada disso.

O Soldado Invernal estava claramente sob a proteção da Donna, ela se preocupava com coisas que ninguém se preocuparia, quando ele se alimentava, se dormia o bastante, se estava cansado, com calor, com frio, basicamente dando a ele a mesma atenção que uma criança que não sabe se cuidar sozinha precisa. Mas a ele não ofertado nenhum sorriso de covinhas nas bochechas, nenhuma conversa casual, nada. Na maior parte do tempo Roxanne sequer olhava para ele, a menos que precisasse pedir que ele se sentasse ou que fosse perguntar algo relativo a seu bem estar.

Era irritante. Não devia ser, mas era.

E ele sabia muito bem que seu disfarce impossibilitava que tivessem alguma interação normal, uma conversa de verdade ao menos. Mesmo assim isso não tornava menos frustrante estar uma semana vivendo aquilo.

Às vezes Roxanne até esquecia e fazia uma pergunta que exigia uma resposta que não podia ser dada, mas assim que ela se dava conta do que tinha feito ela reformulava.

Barnes se pegava pensando que seria bom receber uma ordem firme dela pelo menos uma vez...

Não que ele quisesse dar uma de assassino particular da Máfia, mas naquele ponto até carregar os caminhões com barris de vinho parecia atrativo. Algo que ele pudesse fazer de verdade, usando a força. Mas Roxanne nunca pedia nada a ele, quer dizer, as vezes tinha um “me passe essa caneta”, ou algo assim, mas nada real, eram tarefinhas bobas e infantis nada digno de um homem.

Ele estava ficando louco. Sentia isso.

E ele se tocou finalmente do motivo de sua irritação, a frustração que se espalhava por seu corpo talvez tivesse a ver com o tédio daquela maldita missão, verdade, mas não era apenas isso. No fundo era uma ofensa para o ego de Bucky ser tratado e visto como uma criança aos olhos de Roxanne.

Queria ser visto como um homem.

E isso nada tinha a ver com alguma visão machista que o colocava acima das mulheres ao seu redor, não, era mais sobre ser visto de igual para igual. Se Roxanne lhe tratasse como ela tratava Corinne ou qualquer uma das Mamas ele estaria satisfeito. Mas ser tratado como criança era ultrajante.

Havia outra coisa também, algo que se arrastava sorrateiramente por baixo da pele de Barnes, se espalhando por suas veias como veneno, lhe intoxicando aos poucos, ele ainda não queria admitir, mas já sabia exatamente o que era.

Roxanne era totalmente imune a ele.

Isso não parecia tão visível no primeiro dia, quando ela ainda estava tentando alcançar o homem por trás do Soldado, mas depois da conversa na mansão os olhares analíticos e qualquer proximidade inapropriada haviam desaparecido totalmente. Roxanne não olhava para Barnes para além do interesse médico e humano, o fato de tratá-lo como uma criança se refletia nisso também.

Enquanto os olhos gélidos eram atraídos para as curvas femininas como imãs, e aquela inegável atração queimava Bucky de dentro para fora, ela estava totalmente indiferente a ele.

Nada. Não havia nada.

Essa era de fato a facada derradeira no ego de Bucky Barnes. Porque não se lembrava da última vez que havia sido ignorado daquela forma por uma mulher. E isso nem devia importar naquela ocasião, mas porra, incomodava pra caramba.

E o fazia pensar. Se ele não estivesse parado na frente dela naquele instante como Soldado Invernal, Roxanne notaria que ele tinha dois botões da camisa abertos e estava dobrando as mangas até os antebraços?

Barnes sabia que era um pensamento traiçoeiro e perigoso, mas era algo impossível de evitar.

Roxanne continuaria imune e desinteressada se ela soubesse que ele era bem mais que um Soldado controlado e fadado a ser uma arma sem vontades?

Barnes espantou esse pensamento problemático. Ela tinha um noivo e era rainha da máfia, seu interesse por ele não faria diferença e aquela atração dele por ela era apenas isso, uma atração passageira e tola, causada pelo tédio e pela beleza inegável de Roxanne. Ele precisava tirar isso da cabeça e focar no que realmente estava fazendo ali.

Era uma missão, não férias na Sicilia.

— Bom Parmeggio! — Niccolo Pissani entrou no espaço com a mesma energia de uma música animada.

A primeira coisa que fez foi seguir direto para cumprimentar sua Donna, enquanto Corinne entrava logo atrás, os olhos entediados de quem não aguentava mais o amigo.

— Garoto da Hydra... — Ela passou por Bucky com um mover quase cordial de cabeça e também parou perto de Roxanne. — Frank conseguiu ligar pra ele hoje, por isso a animação. — Explicou para a líder da máfia, enquanto Nick balbuciava uma música qualquer e imitava passos de dança.

— Dance comigo, Bello. — Ele estendeu a mão para o Soldado, usando um apelido que tinha se tornado comum naqueles últimos dias, e que significava “lindo” em italiano. — Hoje o dia está lindo!

Obviamente Bucky sequer se moveu, o que não impactou em nada Niccolo.

— Quem sabe amanhã... — Ele encolheu os ombros, antes de continuar em seus passos de música pelo lugar.

Corinne apenas revirou os olhos com um suspiro frustrado, enquanto Roxanne voltava a correr, sendo analisada pela francesa.

— Ainda bem que você nunca teve que fugir de ninguém na sua vida, Roxie. — Ela comentou em um misto de deboche e decepção. — Uma galinha manca correria mais rápido que você. — Tocou o painel da esteira e isso fez com que a velocidade aumentasse. — Anda, mulher, força nessas coxas.

Ela deu um tapa estralado na bunda de Roxanne e por algum motivo nada puritano o barulho, aliado a reação audível da italiana fez com que o corpo de Barnes arrepiasse inteiro mais rápido do que ele foi capaz de controlar. Sua mão direita chegou a formigar...

Roxanne foi levada ao seu máximo no decorrer dos próximos cinco minutos, mas isso não chegou a ser uma surpresa, porque toda vez que Corinne estava presente ela exigia demais da italianinha.

Passado esse tempo a esteira foi desligada e Roxanne parou, apoiada no aparelho, totalmente ofegante enquanto bebia uma garrafinha de água que Nick lhe entregou.

— Não olha pra mim com essa cara. — Corinne declarou quando os olhos de obsidiana pousaram nela. — Você pode até estar preparada para o seu mundinho da Máfia, mas se vamos mergulhar de cabeça nas merdas da Hydra, melhor se preparar muito mais. — A francesa pousou os olhos em Barnes então. — Devia pedir pro garoto de recados do Strovalenko te mostrar uns golpes, isso te mostraria o que aqueles nazistas de merda têm na manga.

Bucky tentou não franzir as sobrancelhas, aquilo significava que eles estavam se preparando para lutar contra a Hydra? Não fazia muito sentido ser noiva de Strovalenko se o intuito era esse, certo?

Seus pensamentos ficaram sem resposta, Roxanne tinha acabado de pousar os olhos nele por um instante bem curto, para depois focar em Corinne de novo, nada satisfeita.

— Ele não está fazendo nada, umas sessões de treinamento não vão ferir nenhum dos direitos humanos... Eu acho. — A francesa deu de ombros erguendo as mãos em rendição. — Mesmo porque, nem que você quisesse conseguiria machucar um supersoldado.

— O jeito que você me subestima é reconfortante, Corie. — Roxanne disse com ironia

— Ela é desrespeitosa, isso sim... — Niccolo alfinetou.

— Nem um nem o outro. Eu sou realista. — Corinne retrucou de forma simples, ainda focada na Donna. — Você pode dominar o mundo se quiser com o seu cérebro, mas convenhamos que suas habilidades de luta não te fariam entrar nos Vingadores.

Roxanne riu de canto, negando de um lado para o outro.

— Ainda bem que eu nunca quis entrar nos Vingadores, não é mesmo?

— Além disso, o próprio Tony Stark não era um grande lutador, o trunfo dele era ser um gênio bilionário com brinquedinhos muito interessantes, então seu argumento não procede. — Nick defendeu a Donna com o nariz empinado e o sorrisinho de quem ganhou a discussão.

As vezes eles eram tão casuais e amigáveis uns com os outros que era fácil esquecer que todos os três faziam parte de uma organização criminosa. Algumas vezes, inclusive, Bucky sentia vontade de se envolver na conversa deles.

Mas isso era apenas outra estupidez de merda causada pelo tédio.

— Bom, a menos que você tenha uma armadura vermelha e dourada, munida de armamento militar e de um reator nunca antes reproduzido, escondida de baixo da sua cama, Stronzo, eu continuo certa e você errado. — Corinne devolveu superior, os braços cruzados e um sorriso no canto dos lábios.

— Eu não tenho, mas conheço alguém que pode arrumar uns brinquedos bem legais e por sorte ele voltou para casa hoje e quer se encontrar com você, Donna. — Niccolo respondeu, focando em Roxanne e agindo como se falasse de alguém que todos ali conheciam.

— Giovanni está de volta? — A italianinha de fato entendeu de quem falavam.

Mas Barnes não fazia ideia de quem era o tal Giovanni.

— Me ligou faz uma ou duas horas e eu já marquei a reunião para hoje a noite. — Nick informou prático.

— Ótimo. — Roxanne assentiu.

— Ainda bem que o garoto da Hydra está por aqui, porque honestamente, eu não suporto aquele ricaço metido a conquistador e o velho decrépito e bizarro que anda com ele. — Corinne comentou com uma careta.

— Quem vê você iria, mesmo se o James não estivesse aqui. — A resposta da italianinha tinha um tom divertido, as covinhas evidentes em suas bochechas.

No fundo Bucky teve que admitir para si mesmo que era interessante ver a Donna da máfia fluir entre tantas personalidades distintas que se completavam como um quebra-cabeças. Ela era um daqueles enigmas que ninguém consegue largar até ter desvendado...

E isso provavelmente era um grande problema para Bucky Barnes.

— Não iria, mas agora vai soar como uma substituição oportuna e não como falta de educação da minha parte. — Corinne continuou com a conversa e Roxanne apenas deu risada.

— Pode ir pra casa Corie, você e o Pierre deviam tirar o dia de folga hoje, eu e o Nick damos conta. — Ela ordenou naquele tom amável que tinha com os seus subordinados e deu a conversa como encerrada. — Vou tomar um banho, já volto.

Bucky acompanhou o corpo feminino entrar no banheiro e por uma fração mínima de segundo ele chegou a ter esse pensamento tolo, rebelde e intruso, questionando como seria estar debaixo da água quente com Roxanne Domenichelli.

Porra, que inferno de italianinha.

Barnes deu aas costas para o banheiro e se afastou alguns passos, sua postura se mantendo firme em seu disfarce, afinal Corinne e Niccolo ainda estavam ali.

Não podia deixar sua mente ficar lhe sabotando daquela forma, tinha que focar na missão... Mesmo que a missão estivesse mais estagnada que lesma morta.

— Ainda acho um absurdo que ela não use as vantagens que o garoto da Hydra pode oferecer... — Ouviu Corinne sussurrar em italiano.

— Ela também não usa as vantagens que o Pierre pode oferecer e você não acha isso um absurdo. — Nick rebateu.

O “caso Pierre” era apenas outra incógnita a ser resolvida ali na Sicilia, o marido de Corinne trabalhava na vinícola, ele era o responsável pelo transporte do vinho, mas estava mais do que claro que esse era seu único serviço, algo limpo e totalmente dentro da lei. Ele não participava dos assuntos da máfia como a esposa.

Mas não havia nenhuma pista do motivo. Outro mistério que Barnes não sabia se seria ou não relevante para a missão.

Naquele ponto ele já estava começando a perder as esperanças e achando que nada ali na Sicilia seria útil, ficar tão perto de Roxanne Domenichelli e de sua beleza estupidamente tentadora apenas foderia com a cabeça dele aos poucos.

— Não é a mesma coisa... — Corinne ainda estava em sua conversa com Niccolo.

O italiano apenas focou nela por alguns instantes, como se seu olhar pudesse dizer mais que uma frase inteira. A francesa por sua vez soltou um som irritadiço e se afastou do colega.

— Eu prefiro o Frank, sabia? — Ela lançou como se aquilo fosse uma grande ofensa.

— Mas ele prefere a mim, então não faz diferença. — Nick rebateu com a certeza de quem diz a pura verdade.

Corinne revirou os olhos em uma postura que lhe era bem típica. Na maior parte das vezes Barnes na verdade se identificava com ela, com certeza, se pudesse, faria tantas caretas de tédio e irritação quanto a francesa.

— Que seja... — Ela deu o assunto por encerrado e puxou outro, dessa vez em inglês. — Se algo acontecer hoje dê uma boa facada no velho por mim.

— Pode deixar. — Niccolo assentiu e era como se a simples ideia de esfaquear alguém o deixasse imensamente feliz.

Bucky começou a ponderar se o encontro daquela noite com o tal Giovanni seria um problema. Mas a quem queria enganar afinal? Era a porra da máfia, sempre haveria um problema, certo?

Corinne tinha acabado de entrar em seu campo de visão, embora não parecesse muito feliz com isso.

— Se as coisas saírem do controle, eu espero que você tire a Roxanne viva e a salvo de lá. — Ela declarou, cruzando os braços.

— Giovanni jamais tentaria contra a vida da Donna. — Nick retrucou muito seguro.

— Pode ser... — Ela moveu os ombros. — Mas não estava falando com você.

O olhar castanho dela encontrou o do Soldado, eles quase nunca se encaravam e ela tinha falado diretamente com ele talvez duas vezes naqueles sete dias, nunca para algo importante como aquilo....

— Isso é uma ordem, senhora? — Bucky questionou em sua postura fria.

Corinne fez uma careta de profundo desgosto, como se a simples ideia de dar uma ordem direta ao Soldado Invernal lhe enojasse.

— Eu odeio você, sabia? — Ela jogou irritada, sem confirmar a ordem. — Faz o que você quiser, saco.

Pelo visto levaria a sério aquilo que havia dito uma semana antes, “ela não daria ordens para o garoto de recados da Hydra nem que sua vida dependesse disso”.

Saiu batendo o pé, enquanto Niccolo ria abertamente.

— Não liga, não. Ela odeia basicamente todo mundo, você não é a exceção. — Ele disse descontraído. — Vem, vamos achar umas uvas maduras para o lanche da tarde.

No fundo Barnes ficou feliz de seguir o italiano, afinal não queria estar naquela academia, quando Roxanne saísse do banho com os cabelos molhados, envolta em vapor e espalhando seu perfume enigmático por toda a parte.

Seria abusar de sua sanidade...

───── ⋆★⋆ ─────

Já passava das oito da noite, a lua estava alta no céu da Sicilia e Bucky Barnes se encontrava de pé no corredor, parado do lado de fora do quarto de Roxanne. Em breve eles sairiam de encontro ao tal Giovanni, por isso o Soldado trajava terno completo com gravata.

A porta se abriu e Barnes instintivamente prendeu a respiração, nunca chegou a cogitar que uma mulher pudesse ficar tão sexy em um terninho, mas Roxanne Domenichelli tinha esse dom. As peças eram bem cortadas, perfeitamente ajustadas no corpo feminino, as pequenas riscas de giz alongando a silhueta da italiana e o decote do paletó emoldurando os seios médios. Ela não estava usando nenhuma blusa ou camisa por baixo?

Bucky deixou essa pergunta inapropriada de lado, arrumando a postura segundos antes que os olhos negros encontrassem os seus.

— Podia ter me esperado lá embaixo... — Ela disse de forma simples, analisando o soldado de cima a baixo com aquele olhar neutro de quem apenas confere um manequim.

Barnes tentou não se importar com isso, com a frieza clara, era tolo desejar qualquer interesse vindo de Roxanne, não só porque, para todos os efeitos, ele era apenas uma arma controlada, mas também porque ela tinha um noivo. Não era certo que ficasse dando atenção a outros homens.

Precisava controlar seu ego, não era mais os anos 40, nem todas as mulheres ficariam impressionadas com seu sorriso de canto...

E, de toda forma, nunca havia sorrido daquela forma para Roxanne Domenichelli. Não podia fazer isso afinal.

— Está torta, posso? — Ela apontou a gravata dele, o fazendo emergir de seus pensamentos intrusos.

Bucky não esboçou reação alguma e Roxanne pareceu se lembrar de quem ele era, dando um suspiro pesado e cansado. Lidar com o Soldado Invernal parecia abalar a italianinha mais do que ela queria demonstrar.

A verdade é que ele poderia ter arrumado a gravata por si próprio quando a colocou, o nó já estava feito, então não havia dificuldade alguma naquela tarefa. Porém aquela parte rebelde de sua mente lhe aconselhou a deixar a peça bagunçada de propósito...

Era ridículo e inapropriado, mas Bucky convenceu a si mesmo que depois de uma semana sendo a arma perfeita ele podia se permitir fazer algo que queria fazer, apenas pelo simples prazer de querer.

E queria Roxanne em seu espaço pessoal, com as mãos o mais perto do corpo dele possível...

Então, sim, fez de propósito, porque sabia muito bem que o resultado seria a italianinha ali tão perto que o perfume indecifrável dela entorpeceria seus sentidos.

Foda-se.

— Então... — Ela disse, enquanto focava na gravata e na gola da camisa, seus dedos roçando no pescoço de Barnes despretensiosamente, mas sendo o bastante para espalhar uma dezena de arrepios no corpo masculino. — Giovanni é um velho amigo da família, deve ser uma reunião tranquila, mas se algo der errado eu e o Nick vamos resolver tudo. Não precisa se envolver.

Roxanne bateu as mãos nos ombros do terno masculino, como se ajeitasse o tecido. Bucky se irritou um pouco com o quão distante e neutra ela parecia. Disse que não deixaria mais seu ego assumir o controle, porém foi impossível impedir.

— Eu tenho ordens de te manter segura, se algo der errado e isso arriscar essa segurança eu preciso me envolver. — Ele declarou, antes de ponderar as próprias palavras.

Isso atraiu o olhar abissal de Roxanne, por uma fração de segundo ela vasculhou o rosto dele em busca de algo mais, algo que Bucky quis dar de bom grado, antes de lembrar que estava em uma maldita missão para derrubar não só uma organização nazista que o tinha torturado por décadas, mas também a máfia da qual a própria italiana era a rainha.

Voltou a sua postura fria, xingando todos as piores palavras que conhecia, enquanto não deixava nada transparecer em seu semblante.

— É, você precisa. — Roxanne comentou desgostosa, dando um passo para trás. — Realmente não posso pedir algo que faça você desconsiderar essa ordem de Strovalenko?

— Não. — Bucky disse firme.

— Certo... — O olhar escuro da Donna voltou para sua usual frieza. — Então vamos torcer para que seja apenas outro encontro tranquilo com Giovanni.

Ela saiu na frente, uma certa decepção e revolta emanando de si a cada passo. Barnes ainda não conseguia imaginar o motivo exato pelo qual o Soldado Invernal causava aquelas reações na Donna da máfia, porém ele entendia que tinha algo a ver com a inercia e a incapacidade de fazer coisas por vontade própria. Parecia ofensivo para Roxanne que ele fosse apenas uma arma controlada...

E isso o levava direto para um pensamento perigoso: a dinâmica entre os dois mudaria se ele pudesse revelar que era senhor de seus próprios desejos?

Se Roxanne soubesse que Barnes tinha total domínio sobre o próprio livre arbítrio ela pararia de vê-lo como uma criança que precisa de cuidados e proteção e finalmente olharia para ele como um igual? Como ele olhava para ela?

Bucky tentou fugir dessa linha de raciocínio enquanto descia as escadas e deixava a mansão Domenichelli ao lado da italianinha. Não importava afinal. Estava ali como o Soldado Invernal e aquela era a única parte dele que Roxanne poderia ou iria conhecer, essa era a missão.

Ele estava caminhando para o sedan de sempre, quando a voz feminina lhe alertou:

— Hoje usaremos um carro diferente, James.

Mudou o rumo de seus passos e seguiu Roxanne para a lateral da mansão, onde havia a garagem coberta que estava sempre fechada. A porta do lugar se abriu por um comando do celular e Bucky precisou de alguns instantes para não deixar que seu queixo caísse.

A máfia tinha muitos carros, todos perfeitamente guardados em uma garagem na vinícola, uma infinidade de sedans, SUVs e outros tantos blindados, mas aquele carro diante dos olhos de Barnes não era como nenhum outro, certamente.

Parecia algo que se vê apenas em revistas, ultramoderno, incrivelmente rebaixado, com rodas grandes e impactantes e todo o design atrativo e extremamente luxuoso. Era um puta carro. Provavelmente uma fortuna sobre rodas, com a pintura inteiramente fosca e preta, como um puma no meio da escuridão. Roxanne tirou um controle digital do bolso e as luzes do carro se acenderam, enquanto a capota abria o deixando conversível e ainda mais impressionantes. Os neons azuis pareciam destacar todos os lugares certos. Haviam apenas dois lugares, bancos de couro bem trabalhados e um painel tecnológico em detalhes cromados e luzes também azuis.

O Cadillac de Corinne LaRue era um clássico, verdade. Mas aquele carro... porra, aquele carro estava um nível acima!

Bucky não podia admitir em voz alta, mas seria um prazer pessoal colocar as mãos no volante daquela belezinha enquanto afundaria o pé no acelerador para vê-lo roncar na estrada...

— Eu dirijo hoje. — Roxanne massacrou os doces sonhos dele com três simples palavras, e uma sucessão nada educada de palavrões cortou a mente de Barnes.

Sem muita escolha ele se moveu ao redor do carro, sentando-se no banco do passageiro e notando que pendurado no retrovisor da frente, como se fosse um chaveiro, havia um ioiô. A peça era metálica, e embora imitasse a roda de um carro de luxo, pintada de vermelho, parecia o tipo de detalhe que destoava do ambiente. Quer dizer, só a cor já falava por si só, já que tudo ao redor tinha detalhes azuis, porém era mais do que isso, a peça parecia gasta, como se tivesse sido usada e jogada no chão diversas vezes, além disso, por que um brinquedo tipicamente infantil?

Bucky absorveu mais essa pergunta sem resposta enquanto via a estrada passar rápido diante de seus olhos...

Cruzaram a ilha em silêncio, Roxanne totalmente absorta em seus próprios pensamentos e Barnes analisando o perfil dela pela visão periférica vez ou outra. O perfume indecifrável dela vinha com o vento as vezes, os cabelos negros voando rebeldes na direção de Bucky e o aroma invadindo o olfato dele como uma droga opioide extremamente viciante.

Gostaria que aquele inferno de italianinha não tivesse aquele maldito cheiro de mulher bonita.

Mas não era apenas o perfume de rosas e algo mais; eram os lábios fartos e convidativos; o maldito decote que puxava o olhar azul-gélido toda vez; o corpo esculpido para atormentar os pensamentos dele; os olhos abissais nos quais parecia tão bom se afogar. Tudo nela era perturbadoramente sensual e atrativo.

Até a porra do jeito como ela segurava o volante daquele carro estupidamente caro naquele instante, sentada ali com a postura firme de quem é dona do mundo e de quem sabe que pode dar ordens a qualquer um, mas ainda assim está acima dos outros e por isso simplesmente não quer dar ordens ao Soldado Invernal, era inoportunamente afrodisíaca.

Roxanne era a rainha, sentada em um trono, e por um instante de descontrole e raiva Bucky chegou a se perguntar como seria foder com ela em cima daquela porcaria... Tão logo esse pensamento cortou sua consciência, trazendo uma imagem vívida do corpo feminino em baixo do dele, Barnes arrumou a postura e recriminou sua mente sabotadora.

Maldito tédio de merda.

Ele apertou os punhos, ignorando a reação de seu corpo para sua imaginação idiota e xingando uma sucessão de palavrões mentais, como se isso pudesse aliviar a raiva e tensão que vinha se acumulando nele na última semana.

Socar um idiota qualquer seria um ótimo jeito de lidar com aquela merda toda, mas Roxanne nunca daria uma ordem dessas, então restava a Bucky aceitar sua situação atual. Era uma grande bosta, mas ainda assim era melhor do que estar derramando sangue em nome da Hydra...

Ou seja, mesmo sua revolta parecia tola e um tanto infantil, como se ele estivesse reclamando de barriga cheia, já que o único problema real era domar os próprios pensamentos e aquela atração chata que sentia pela Donna da máfia.

Era isso então, apenas uma atração chata e inoportuna, e honestamente, no histórico de Bucky Barnes, uma coisa dessas era nada, teve atração física por mais pessoas do que podia contar em todos os dedos de seu corpo, homens e mulheres, todos esquecidos no tempo, logo Roxanne seria igual.

Não era grande coisa. Na verdade, era até bom, um sinal de que estava muito mais perto de ser quem sempre foi, que estava emergindo de toda a merda na qual a Hydra havia lhe afogado. A própria doutora Raynor diria que aquele tipo de coisa era progresso.

Ter atração por Roxanne não significava nada, ela era uma mulher bonita, fim. Ele estava no controle de sua própria mente e de seu próprio corpo, a missão seguia sendo prioridade, nenhuma italianinha sensual mudaria isso...

Não havia motivos para tanto drama.

Barnes entrou em um consenso consigo mesmo e observou o carro virar em uma rua sem saída, onde uma grande mansão tomava conta do espaço. Não era tão grande quanto a dos Domenichelli, verdade, mas ainda assim era obviamente a casa de alguém com mais dinheiro do que precisaria para toda uma vida.

Havia um sedan conhecido parado ali na frente, Niccolo Pissani aguardava encostado no capô, vestido com seu habitual sobretudo e rodando uma faquinha de caça nas mãos. Assim que viu o veiculo de Roxanne ele entrou no próprio carro e o portão se abriu momentos depois.

Barnes não chegou a se impressionar com o lugar, talvez porque tivesse se acostumado ao luxo dos Domenichelli, mas era obviamente uma estrutura moderna e luxuosa que causaria desejo ou inveja em muita gente.

— Tem armas no porta-luvas. — Roxanne disse enquanto estacionava o carro. — Pode pegar pra mim?

Bucky moveu um pouco o corpo e fez o que lhe era pedido, encontrando duas Glocks sem muita dificuldade. Roxanne pegou uma delas e pediu que ele mantivesse a outra por precaução, então desceu do carro.

Depois da operação no porto nenhuma outra arma tinha sido dada ao Soldado, então ele ficou satisfeito por colocar a Glock em sua cintura logo depois de também descer do veículo. Por ser quem era certamente não precisaria daquilo, mas precisar e querer eram duas coisas diferentes e essa distinção se tornava cada vez mais clara conforme o tempo passava e ele seguia fingindo ser o Soldado Invernal.

— Prontos? — Roxanne perguntou, olhando de Nick para Bucky uma única vez e então se virando para seguir na frente. — Vamos ver o que Giovanni Marchesi tem para nós hoje...

As portas da mansão se abriram e os três foram recepcionados por uma mulher vestida com aqueles trajes típicos de empregada, avental branco e tudo, não era algo curto ou degradante, mas Bucky achou meio retrógrado e prepotente que alguém vestisse seus funcionários daquela forma...

— Bem-vindos a humilde residência Marchesi... — A moça disse solícita em um inglês que parecia perfeito demais para que ela fosse italiana.

Roxanne agradeceu e deu um passo para dentro da grande sala de estar, um pequeno homem apareceu lá no fundo, era velho e franzino, com óculos pendurados na ponta do nariz e cabelos grisalhos. Aquele era o tal Giovanni?

— Donna! — Uma voz retumbante cortou o ar, vinda do lado oposto.

Outro homem surgiu então, — o tipo bonitão charmoso, — trajando roupas de grife, um casaco pesado com a gola deixada propositalmente alta. Não devia ter muito mais que quarenta e poucos anos, Era alto, tanto quanto o próprio Bucky, talvez um pouco mais até. Seu porte atlético ficava evidente por causa da camisa abaixo do casaco, colada nos lugares certos. Ele passou os dedos longos pelos fios loiros ondulados, bagunçando o cabelo despretensiosamente enquanto sorria e entrava no cômodo com a certeza de que roubaria toda a atenção do ambiente. Seus olhos eram como fendas, as íris azuis analisando Roxanne como um predador que encontra a presa.

— Cada dia mais linda! — Ele agarrou ambas as mãos da italiana, depositando um beijo ali, demorando os lábios na pele dela e erguendo seu olhar como se lhe prometesse todo tipo de obscenidades.

Barnes enrijeceu o maxilar, sua postura dura, seu queixo proeminente, algo ácido corroendo suas veias. Quem aquele idiota pensava que era?

— Giovanni. — Roxanne sorriu receptiva e Bucky decidiu naquele instante que o rosto bem barbeado do anfitrião pedia um bom soco. — Bom te ver de volta sem segurança, disse que queria me ver?

— Sempre quero o prazer da sua companhia, minha amada Donna. — O homem teve a audácia de dizer, se aproximando ainda mais de Roxanne. — Mas também lhe chamei porque tenho coisas de minha última viagem que podem te interessar.

Enquanto Barnes tentava, sem sucesso, encontrar motivos justificáveis para descontar sua raiva no loiro metido, sem que isso estragasse seu disfarce, Roxanne estava totalmente alheia a isso, seus olhos negros piscaram devagar na direção de Giovanni, mas ela nada disse além de focar no homem velho e franzino no fim da sala.

— Com certeza se lembra do meu Contador. — O loiro apontou em um movimento floreado.

— É sempre um prazer, senhorita Domenichelli. — O mais velho moveu a cabeça em um cumprimento e então pareceu notar seu erro rapidamente. — Donna.

Giovanni não pareceu gostar daquele deslize, seus olhos revelando isso por um milésimo de segundo, antes que ele se voltasse para Roxanne apontando a direção em um gracejo exagerado.

— Vamos, por favor. — Sua atenção pousou em Nick logo em seguida. — Trouxe aquele licor que você tanto gosta, Niccolo.

Só então Barnes percebeu que o italiano tinha um enorme sorriso no rosto, como se a simples presença de Giovanni fosse um evento a parte. Bucky sentiu o impulso de revirar os olhos, mas se conteve. Certo, o idiota loiro era bonito, ele podia admitir isso, mas não era pra tanto.

Notou que os olhos do homem pousaram em si, analíticos e curiosos.

— Vejo que renovou seu pessoal, Donna. — Giovanni comentou, dando um leve sorriso de canto para o Soldado, mas focando totalmente em Roxanne em seguida.

Ela não respondeu, dando os primeiros passos na direção outrora indicada. Barnes não soube dizer se o silêncio vinha do fato da italianinha estar deslumbrada com a beleza loira de Giovanni, ou se ela simplesmente não se importava o bastante com as perguntas dele para lhe dar qualquer informação.

Era muito difícil decifrar aquela mulher.

Ela continuou a caminhar com o homem exatamente a seu lado e Barnes deu o primeiro passo assim que Niccolo fez o mesmo, estavam a alguns metros do tal “Contador” no fim da sala, quando notou o olhar extremamente interessado.

— É o Soldado Invernal? — O velho questionou em um misto de curiosidade, interesse e surpresa, algo como ganancia brilhou em seu olhar e Bucky se sentiu imediatamente desconfortável. — Poderíamos aproveitar o encontro para discutirmos uma negociação apropriada para...

A fala do homem foi interrompida quando Roxanne parou na frente do Soldado, seu tom frio cortando a sala como uma lâmina afiada:

— Coloque seus olhos nele ou sequer pense nele novamente e eu asseguro que será a última vez que vai pensar ou olhar para qualquer coisa na sua vida.

Sua ameaça veio seguida de um movimento rápido de Niccolo, a pequena faca de caça dele foi puxada para fora de sua manga e havia um sorriso animado em seu rosto. Sim, ele gostaria de fazer aquilo.

Mas Bucky não chegou a focar nisso, não quando a postura protetora de Roxanne lhe impactou bem mais. Ele com certeza não precisava de alguém para lhe defender de um velho franzino, mas porra, aquilo foi sexy pra caramba.

— Queridos, vamos ter calma, sim? — Giovanni ergueu as mãos de forma apaziguadora, um sorriso cortês em seu rosto. — Asseguro que meu velho amigo não quis ofender ninguém.

Roxanne se moveu, voltando a caminhar e medindo o velho de baixo acima para logo em seguida pousar seu olhar abissal no dono da casa.

— Pode deixar que eu decido quais comentários são ou não ofensivos quando direcionados a minha famiglia. — Ela rebateu, sem deixar espaço para objeções. — Ensine seus associados a educação e a hierarquia italiana, antes que eu me assegure que você não tenha mais associado nenhum.

Barnes sabia que para mafiosos a palavra “famiglia” queria dizer um pouco mais do que o óbvio laço sanguíneo. Era um termo para indicar aqueles que estavam sob a proteção direta da Donna. E ele não sabia como se sentir sobre isso.

— Certamente, mia Donna. — Giovanni assumiu uma postura submissa, chegando a baixar a cabeça em respeito, e então voltando a indicar o caminho. — Podemos?

Roxanne não disse mais nada, passando pelo velho Contador como se ele fosse menos que um verme e seguindo em frente.

— Eu quis assegurar que seria a primeira a ver minhas novas mercadorias, antes que eu as levasse para Madripoor ou as oferecesse para outros compradores. — O anfitrião começou a discursar. Era um comerciante de armas provavelmente, Barnes presumiu, lembrando da conversa entre Nick e Corinne mais cedo.

— É o mínimo que eu espero de você. — A Donna declarou fria.

Giovanni empurrou uma porta dupla no fim da sala e eles se viram em um cômodo amplo, que tinha uma infinidade de coisas expostas. As paredes repletas de peças específicas que indicavam que o homem não era um simples comerciante e armas, ele vendia e colecionava raridades.

Haviam itens da invasão de Nova York ali, coisas que Barnes só reconheceu porque tinha ouvido falar sobre, lanças Chitauri, pedaços de armaduras, partes robóticas e desativadas de Ultron, armas que eram claramente de uso exclusivo da SHEILD, e tantos outros itens do mesmo estilo, inclusive armas da Hydra.

Pela próxima meia hora Giovanni mostrou itens recuperados da batalha contra Thanos, coisas que ele não podia ter, mas que havia conseguido de alguma forma.

Em um dado momento, enquanto Nick bebericava o tal licor que Bucky mantinha em mãos sem provar, Roxanne pareceu se irritar com a falação de Giovanni.

— Então você me chamou até aqui para ver coisas que já vi antes? — Ela lançou entediada, claramente nada surpresa com uma arma de procedência alienígena que Giovanni exibia como um tesouro, mesmo que não funcionasse.

— Ah não, o que eu te trouxe dessa vez é de fato uma raridade. — Ele assegurou animado, acenando para seu Contador que permanecia em um canto e o homem lhe trouxe uma maleta.

Bucky se deu conta que o titulo do velho não devia ser literal, talvez fosse apenas um tipo de codinome ou algo assim.

— Presumo que já ouviu falar do escudo do Capitão América? — Giovanni declarou de repente.

Barnes foi sugado para o discurso, seu coração batendo aos saltos de um jeito desconfortável. Será que Sam estava bem?

— Assim como todo mundo. — Roxanne ainda não parecia impressionada ou interessada.

— Um disco feito do metal mais leve e resistente do mundo, vibranium... — O anfitrião declarou teatral.

— Onde quer chegar? — A italianinha cortou, usando um tom que exigia praticidade.

— E se eu dissesse que pode ter algo forjado desse metal... — Os olhos cinzentos de Giovanni brilharam e seu sorriso era o de quem oferece o melhor dos tesouros.

Bucky percebeu que não tinha a ver diretamente com Sam e relaxou um pouco, embora ainda estivesse interessado, talvez até mais que a própria Roxanne.

— Está roubando de Wakanda agora? — A pergunta dela tinha um quê de acusação nada impressionado.

— Não, é claro que não. Não se rouba de Wakanda e saí vivo para contar a história. — Giovanni riu de forma quase nervosa.

— Então? — A Donna questionou impaciente.

— Como sabe, depois da segunda batalha contra Thanos muita coisa ficou nos destroços, inclusive algumas lanças Wakandanas, cujas pontas são feitas de vibranium. — O homem começou a explicar. — Um dos meus contatos recolheu várias relíquias da batalha, ele inclusive leiloou o traje do Ronin em Nova York não faz muito tempo... Ele tinha algumas pontas de lança e eu mandei projetar algo que acho que será de seu agrado.

Ele abriu a maleta e um par de braceletes dourados brilhava lá dentro. A primeira vista eram peças delicadas que passariam facilmente como acessório, embora Bucky soubesse muito bem que aqueles pedaços de metal moldado poderiam parar até mesmo balas de calibre alto, porém quando Roxanne examinou um dos braceletes de perto ele se mostrou algo mais...

Embora fossem finos, havia um pequeno compartimento escondido neles, que quando acionados impulsionavam uma faca para frente, eram então tanto uma proteção quanto uma arma extremamente discreta e letal, visto que as lâminas — segundo Giovanni — também eram de vibranium e poderiam perfurar praticamente qualquer coisa.

— É vibranium mesmo? — Niccolo também examinou as peças, havia certa admiração em suas íris.

Bucky não conseguia dizer só de olhar, ele duvidava um pouco que fosse, mas no fundo queria tocar nos braceletes e usar sua mão esquerda para ter certeza. Mas não podia pedir uma coisa assim, então...

— James... — Roxanne chamou, estendendo na direção dele uma das peças. — Por favor, poderia amassar isso?

Foi interessante notar que os dois haviam pensado na mesma coisa.

Ele pegou o bracelete e o forçou usando a mão de vibranium, o material não cedeu, Barnes colocou um pouco mais de força, era mais do que o suficiente para um metal comum se quebrar um entortar. Ele forçou mais, chegando ao limite, era mesmo vibranium. Sabia que por ter uma mão inteira daquele metal além da força de um supersoldado a peça não resistiria muito mais, pensou em prosseguir, afinal deixar uma arma feita de algo tão resistente nas mãos da rainha da máfia não parecia prudente. A ordem de Roxanne era vaga o bastante para que ele prosseguisse sem arriscar o disfarce...

Porém lhe ocorreu que deixar um bracelete que parava balas com uma italianinha irritante que tinha mania de se meter em tiroteios talvez não fosse assim tão ruim. O que ela poderia fazer com as lâminas embutidas na peça afinal?

Bom, ela poderia matá-lo... A resposta lhe ocorreu depressa, afinal uma facada normal não seria grande coisa para um supersoldado, mas uma facada de vibranium podia ser fatal, com certeza.

Mas ela nunca chegaria tão perto assim para esse tipo de golpe, então não fazia diferença.

Devolveu o bracelete, esse gesto sendo o suficiente para que Roxanne atestasse a veracidade do metal.

— Então o que achou? — Giovanni questionou em expectativa.

— Útil. — A Donna declarou neutra, colocando a peça de volta na maleta e entregando para Niccolo. — Como sempre, a qualidade de suas mercadorias não decepciona.

— Achei que apreciaria o presente. — O loiro sorriu galanteador.

Bucky acabou revirando os olhos em uma reação descuidada, por sorte ninguém prestava atenção nele naquele instante.

— Presente? — Roxanne repetiu seca. — Não acho que seja a denominação apropriada para algo pelo qual terei que pagar. — Ela focou em Giovanni com certo cinismo na voz. — Ou pretende me deixar partir com os braceletes de vibranium sem obter nenhuma vantagem em troca?

— Foi força de expressão, mia Donna. — Ele respondeu amigável, claramente desconversando e usando o clima casual para se proteger. — Sei que entende que negócios são negócios.

— Entendo perfeitamente. — A Donna fez um sinal e Niccolo tirou um pequeno saquinho de veludo preto do bolso interno de seu sobretudo.

Segundos depois eram derramados sobre a mesa de vidro uma dezena de pequenos diamantes azulados extremamente brilhantes. Os olhos do velho Contador faiscaram de interesse e ele se aproximou sem ser chamado. Roxanne deu um último olhar frio para o homem e se afastou alguns passos.

— Foi um encontro proveitoso. Nos veremos novamente em uma ocasião mais oportuna. — Ela deu aquela reunião por encerrada, se movendo em direção a porta.

Bucky largou seu copo intocado de licor em qualquer lugar, feliz por irem embora.

— Esperava que ficasse para jantar comigo. — O loiro idiota ofereceu com um sorriso cheio de segundas intenções.

Roxanne mediu o homem de cima abaixo de forma tão desdenhosa que foi quase cruel.

— Como você bem disse, negócios são negócios. Sei que entende. — Ela repetiu a frase dele de segundos antes. — Sei onde fica a saída.

Fez muito bem para o ego de Bucky notar que, por mais que fosse tratado como um garotinho que precisa de proteção, isso ainda era cem vezes melhor do que ser tratado como Giovanni. Roxanne não caia nos sorrisos bonitos de qualquer loiro boa pinta. Isso era ótimo.

Barnes se irritou com o fluxo dos próprios pensamentos. Aquilo não era uma maldita competição para chamar a atenção da Donna da máfia, caramba.

Além disso, é claro que a italianinha não dava bola para qualquer idiota em seu caminho, ela tinha um noivo... Bucky quase riu disso, dispensando o argumento tão logo lhe veio à mente. Roxanne não gostava de Strovalenko daquele jeito.

Certo?

A lufada de ar fresco que atingiu o rosto de Barnes quando ele, Niccolo e a Donna saíram da mansão não ajudou em nada a refrescar sua mente, não sabia porque estava focando tanto em detalhes inúteis. O interesse de Roxanne no noivo ou em qualquer outro homem não era relevante.

Bucky não devia se importar com isso... Era apenas seu ego falando mais alto.

— Não gosto daquele velho. — A Donna declarou com uma pitada de irritação na voz, quando parou ao lado do carro de Nick.

— A Corinne também não gosta. — O italiano respondeu com um dar de ombros casual. — Podemos matá-lo.

Roxanne pareceu ponderar aquela opção por um segundo, então negou.

— Por enquanto mande alguém ficar de olho, se eles se envolverem com algo mais do que mercadorias, tomaremos providencias. — Ela ordenou de forma prática. — Não é producente perder a lealdade de Giovanni por enquanto, nosso próximo negociante pode preferir falar com outras pessoas primeiro.

Barnes tinha que admitir que as vezes o raciocínio lógico daquela mulher era impressionante e inteligente. Ela entendia muito bem o jogo que estava jogando e talvez por esse exato motivo estivesse dominando o tabuleiro.

— Sim, Donna. — Niccolo assentiu de imediato e eles se separaram ali.

Roxanne voltou para casa dirigindo novamente, calada como sempre era dentro de um carro, simplesmente alheia a presença de Bucky ali ao lado, perdida nos próprios pensamentos...

Quando chegaram na mansão o local estava vazio novamente, naquela semana Barnes havia percebido que nem sempre Benedetta dormia no lugar, então pelo visto aquela seria outra noite solitária.

Roxanne tirou os sapatos na entrada, caminhando descalça pelo piso frio, com a maleta contendo os braceletes de vibranium nas mãos.

— Amanhã levo isso para a vinícola. — Ela disse em voz alta, se dirigindo para o escritório.

Era a primeira vez naqueles sete dias que a italiana fazia a simples menção de abrir aquela porta. Bucky se aproximou alguns passos, absolutamente atento a senha que foi digitada e a guardando na mente.

Enfim conseguiria vasculhar o local, se tudo desse certo faria isso naquela noite ainda.

Roxanne voltou para a sala momentos depois, difícil dizer onde ela havia guardado a maleta, no entanto isso não importava realmente.

— Quer um drink? — Ela perguntou casual, se dirigindo a uma garrafa de whisky sobre um dos moveis da sala. Coisa de gente rica.

Ah sim, com certeza Bucky gostaria de uma boa dose de álcool em seu sistema, mesmo que não fosse fazer efeito como ele gostaria. No entanto não podia apenas dizer isso, então respondeu dentro de sua maldita farsa:

— Se a senhorita achar que é necessário.

Roxanne pousou os olhos nele, suas íris negras ganhando aquela profundidade esmagadora de dias antes e o emergindo totalmente em um enigma sem resposta. Ela parecia decepcionada, talvez até triste.

— Necessidade não era bem a questão, mas enfim, as vezes eu esqueço... — Ela moveu os ombros sem nenhum ânimo e virou seu copo de whisky, não oferecendo a Bucky o drink outra vez. — Acho que podemos finalizar o dia.

Subiram as escadas um após o outro, como era de costume naquela semana.

— Boa noite, James. — Roxanne declarou, quando ele parou na porta de seu quarto.

— Boa noite. — Ele respondeu, mesmo que não precisasse.

O olhar dos dois não se encontrou nem por sequer um momento curto, antes que ela abrisse a própria porta e sumisse de vista. Bucky ainda ficou ali no corredor por dois ou três segundos ruminando sua frustação latente.

Não devia ficar tão ofendido por não ter a atenção daquela mulher, foda-se.

Ele entrou no próprio quarto, sentando-se na cama e notando que ainda estava com a Glock. Isso era bom. Não demorou muito para que, como em todas as outras noites, o som do chuveiro do cômodo oposto soasse através das paredes.

Bucky esperou por um tempo, colocando as informações daquele dia no lugar, e a arma sobre a cômoda, antes de entrar para o próprio banho, lavando o corpo sem nenhuma pressa, deixando que a água quente lhe trouxesse alguma clareza de pensamento, mesmo que isso não tenha acontecido de fato.

Depois, sem camisa e vestindo apenas uma calça de moletom — a peça mais confortável naquele combo de roupas caras, — ele apenas esperou, esperou por horas a fio, totalmente quieto, imerso nos próprios pensamentos, planejando seus passos seguintes com cuidado.

Assim como todas as noites ele desceria silenciosamente e com a senha que tinha visto Roxanne digitar ele finalmente poderia vasculhar o escritório, esperando de verdade encontrar algo útil lá.

A missão precisava prosseguir, não podia continuar estagnada daquele jeito.

Era mais de meia noite quando ele pegou a Glock, colocou na cintura e abriu a porta sem qualquer ruído. Não se preocupou em vestir uma camiseta, afinal não pretendia ser visto por ninguém, não podia ser visto.

Seus pés descalços desceram os degraus da escada sem fazer um único barulho e ele chegou na porta do escritório sem qualquer problema. Digitou a senha e obteve acesso ao cômodo, agradecendo a luz da lua entrando pelos vidros que clareavam um pouco as coisas.

Começou a vasculhar, tudo que tinha ali eram livros, material típico de escritório, nenhum único computador a vista, nada muito tecnológico, alguns documentos e anotações nas gavetas indicavam que aquele lugar não era usado desde antes do blip.

É claro que não, Roxanne tinha o próprio escritório na vinícola...

Começou a se frustrar, continuando a procurar algo de relevante por toda a parte até que achou um cofre atrás de um quadro. Era coisa das antigas, de modo que Barnes não precisava saber a senha porque sua audição um pouco mais aguçada e o treinamento da Hydra o ajudavam a abrir aquela coisa como um ladrão profissional. Era fácil até, apenas ouvir o som enquanto girava a trave numerada para um lado e para o outro.

Ele conseguiu abrir o cofre sem problemas. A primeira coisa ali era a maleta que Roxanne havia trazido da casa de Giovanni. Depois disso uma porção de documentos. Certidão de nascimento, carteira de vacinação e tantas outras coisas que indicavam vários pagamentos para que a existência de alguém fosse apagada do mapa.

Bucky pegou a certidão de nascimento, o nome no topo fazendo seu coração bater depressa. Damian Domenichelli...

Uma foto caiu do meio do papel e Barnes a segurou antes de ir ao chão. Um garotinho lhe encarou de volta, cinco anos, talvez menos, seu cabelo castanho claro estava bagunçado e o pequeno sorria, a típica dentição infantil o deixando ainda mais adorável. Havia algo de familiar em seus traços, embora seu olhar castanho cinzento não fosse conhecido.

Em suas mãos, no entanto, havia algo que Bucky reconheceu imediatamente, um ioiô que imitava a roda vermelha de um carro de luxo...

Então aquele era o Damian?

— Eu não acho que qualquer coisa dentro desse escritório vá te ajudar a fugir daqui... — A voz feminina arrepiou cada um dos pelos no corpo de Barnes.

Ele se virou rapidamente, arrancando a Glock da cintura e a apontando para a porta do escritório. Tinha ficado tão entretido em sua descoberta que parou de prestar atenção no que acontecia ao seu redor.

Que merda!

Os olhos abissais de Roxanne lhe encararam na penumbra, ela também tinha uma arma em mãos apontada diretamente para Bucky. Entrou no cômodo cautelosamente, o dedo no gatilho enquanto ele se movia alguns milímetros por vez, totalmente focado nela também.

Não haveria uma desculpa boa o bastante naquele momento. Ele havia arruinado tudo.

Roxanne usou a mão livre para acender um abajur perto da porta, a pouca iluminação quente sendo tão cruel com Barnes quanto a arma apontada para ele. A italianinha estava descalça, os cabelos um pouco bagunçados, vestindo nada mais que uma micro camisola que misturava seda e renda branca, nada por cima, mesmo o contorno do bico de seus seios era visível naquele momento.

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Bucky engoliu em seco, mais intimidado com isso do que com a arma na mão dela. Sua mente perdendo o foco por um momento, totalmente incapaz de inventar uma mentira. Ela achava que ele estava fugindo, então não sabia que era tudo fingimento, mas isso não ajudava em absolutamente nada.

Ele tinha mesmo ferrado tudo.

Com certeza a morena havia levantado por um motivo qualquer, ouviu o barulho no escritório quando desceu as escadas e pegou uma das armas escondidas pelo caminho.

Ela se moveu, do seu lado esquerdo uma pequena mesa de canto, seus olhos focados no rosto de Bucky, duros, sérios, ela piscou uma vez e então abaixou a arma.

— Também não acho que minha arma vá ser útil contra um super soldado, certo? — Ela moveu os ombros, colocando a Glock sobre a mesinha sem tirar os olhos dele. — E você honestamente não parece que precisa de uma automática pra vencer suas lutas, estou errada?

Não, Bucky não precisaria, então ele também abaixou sua arma, ainda sem saber muito bem o motivo. Já estava tudo perdido mesmo, então não fazia mais diferença, talvez fosse isso.

— O que acha de tomarmos aquele drink agora, James? — Roxanne pareceu satisfeita com a atitude dele, se movendo em direção a uma garrafa de whisky que também estava disponível naquele cômodo.

Ela se moveu alguns passos enchendo o copo sem pressa, cada movimento de suas mãos fazendo com que sua camisola branca parecesse ainda mais curta, a luz do cômodo transpassando o tecido e dando a Barnes a visão perfeita da silhueta feminina, mesmo que não houvesse transparência de fato.

— Ou será que eu devo te chamar de Bucky? — Roxanne se aproximou dele, apenas o espaço do braço dela os separando.

Só então seus olhos negros pareceram notar como Barnes estava vestido, ou melhor, como ele não estava vestido. Se pudesse decidir, talvez ele nunca tivesse mostrado seu dorso nu para alguém daquela forma, não depois do braço metálico, as cicatrizes expostas não eram algo bonito de se ver...

Ainda assim, naquele momento, enquanto as íris de obsidiana subiam devagar para encontrar o olhar gélido, Bucky se esqueceu disso, assim como esqueceu que havia fodido com a Operação Roleta Russa e que provavelmente estava com a vida em risco naquele instante. Porque Roxanne Domenichelli olhou pra ele. Olhou de verdade. Não como se ele fosse uma criança que precisa de proteção, ou como se ele fosse apenas um puxa-saco que não vale um segundo do tempo dela...

Ela olhou como se eles estivessem no mesmo patamar. Talvez não um olhar de desejo, verdade, não ainda, mas a curiosidade quente dela queimou Barnes de dentro pra fora, seu ego se regozijando com aquilo mais do que um dia ele admitiria.

Bucky não sabia o que aconteceria naquela noite, mas aquela parte rebelde de seus pensamentos cantarolava que, fosse o que fosse, ele não se arrependeria de ter destruído o maldito disfarce Invernal...

Notas finais
Uma semana e o Bucky ativou totalmente o modo "full pistola" kkkkkkk, me divirto á beça não vou mentir. E aparece que ele já ferrou tudo... Será que tem como escapar disso? O que será que vai rolar agora? Semana que vem eu vou com essas (e muitas outras) respostas. Beijos e até!