Operação Roleta Russa
6 Donna
Notas iniciais
O Cadillac antigo de Corinne LaRue estacionou em frente a uma propriedade interiorana, haviam dirigido cerca de três horas até ali, e durante aquele tempo nada de relevante foi dito dentro do veículo.
Barnes sabia que a francesa desconfiava dele e talvez por isso a maior parte do caminho tenha sido dominada apenas pelo som de músicas que o Soldado desconhecia.
A única coisa que ele havia conseguido pescar, entre as poucas palavras que as duas mulheres do banco da frente trocaram, foi que eles se encontrariam com alguém chamado “Nick”, que não tinha reportado mudanças durante a noite, e que ainda não ainda obtivera resultados em sua tarefa, seja lá qual fosse ela...
A propriedade em que estavam era uma imensa vinícola com dezenas de hectares e vinhedos a perder de vista, o cheiro de uvas espalhado no ar dava ao lugar como um todo um clima um tanto romântico.
Então era isso? Roxanne era a proprietária de um lugar que fazia vinhos?
Bucky quase suspirou de alivio, aquilo não explicava as armas e todo o resto, mas talvez não fosse nada do que ele imaginou de início.
Desceram do veículo, aqui e ali várias mulheres de meia idade trabalhavam, gente aparentemente simples que cumprimentava Roxanne com educação e respeito assim que ela passava. Uma mesma palavra em comum era sempre usada para se referir a ela: Donna.
A herdeira Domenichelli por sua vez fazia questão de responder a todas as mulheres, seja com um sorriso, uma palavra educada ou uma pergunta carinhosa sobre a família dessa pessoa.
Eles continuaram andando, Bucky sempre um ou dois passos atrás, basicamente a mesma posição paralela a que Corinne ocupava. Contornaram a sede do lugar, uma grande casa tipicamente rural na qual não foi possível prestar devida atenção já que Roxanne caminhava rápido.
Seguiram por um caminho de pedras por entre os vinhedos, lá no fundo um grande galpão tomava conta de parte do terreno, assim que entraram no lugar o cheiro de vinho invadiu os sentidos de Barnes. Ali dentro, vários processos aconteciam ao mesmo tempo, coisas que um leigo não saberia descrever com precisão, mas que provavelmente eram etapas na produção de vinho. Uma centena de mulheres trabalhava ali, todas já eram senhoras de idade e, assim como as outras do lado de fora cumprimentavam Roxanne com educação e até carinho por todo o caminho.
Seguiram direto por dentro do galpão, adentrando uma antessala adjacente que nada mais era do que um depósito com uma infinidade de barris de madeira alinhados em suportes, que certamente serviam para armazenar vinho. No fim do amplo cômodo havia uma porta dupla de madeira adornada com ferragens contorcidas.
Roxanne entrou na frente e logo a voz masculina um tanto aguda soou animada:
— Vocês chegaram!
Bucky notou o ambiente ao seu redor primeiro, um amplo escritório decorado com móveis de madeira e extremo bom gosto, havia um quê de aconchegante ali, com as poltronas macias e as várias estantes de livros que cobriam quase todas as paredes, ao fundo, atrás da escrivaninha principal que acompanhava uma confortável cadeira vermelha, enormes janelas de vidro transparente exibiam a vista de vinhedos a perder de vista.
— Finalmente, eu estava entediado já! — O mesmo rapaz de antes comentou e embora seu inglês fosse bom, era claro seu sotaque italiano.
Só então Barnes pousou os olhos em sua figura... Era extremamente pálido, ou talvez fosse apenas a impressão causada pelo contraste da pele com os olhos escuros e o fato de que ele não tinha um único pelo ou fio de cabelo visível, nem sequer cílios ou sobrancelhas. Bucky imaginou que devia ser alguma condição congênita.
O rapaz, que estava sentando em uma das poltronas comendo uvas, deixou as frutas de lado e se colocou de pé, era poucos centímetros mais baixo que o Soldado Invernal, porém muito mais magro. Trajava uma camiseta branca simples e calças escuras.
— Mia Donna. — Ele cumprimentou Roxanne da mesma forma que Francesco Greco fizera algumas horas antes e a italiana o abraçou, aquelas covinhas adoráveis enfeitando suas bochechas.
Enquanto observava a cena discretamente, Barnes notou que o rapaz tinha respingos vermelhos tanto na camiseta quanto nos braços, e podiam até estar em uma vinícola, mas aquilo não era vinho. O Soldado conhecia muito bem uma mancha de sangue quando olhava para ela.
— Deixaram uns papeis pra você assinar. — O rapaz apontou displicente para a escrivaninha, e Roxanne se afastou alguns passos para checar.
Em seguida Corinne e o homem trocaram um olhar que era um misto de divertimento e cinismo.
— Stronzo... – LaRue cumprimentou, chamando o rapaz de “idiota” em italiano.
— Chiante... — Ele respondeu em francês com algo que significava “chata”.
Era obviamente uma piada interna em que eles usavam a língua materna um do outro para se ofenderem mutuamente, embora soasse mais como um cumprimento amigável do que como ofensa. Roxanne que examinava os papeis sobre a escrivaninha, assinando alguns deles rapidamente, apenas revirou os olhos, como se aquilo fosse algo frequente entre seus dois subordinados.
— James, esse é Niccolo Pisanni. Um dos meus homens de confiança. — Ela apontou o rapaz, embora ainda assinasse os documentos rapidamente. — Nick, esse é o James, meu atual guarda-costas.
Então era daquele rapaz que as duas mulheres falavam no carro...
— E aê? — O italiano ergueu uma das mãos em um cumprimento casual, mas voltou a focar na herdeira Domenichelli em seguida. — Frank não veio?
— Ele ainda está com Strovalenko, preciso dele lá. — Roxanne respondeu simples.
— Hum... — Niccolo não pareceu muito satisfeito. — E eu preciso dele aqui...
A morena ergueu seus olhos de obsidiana e focou no rapaz por alguns instantes.
— Eu sei. Mas ele está bem, Nick. — Ela usou um tom apaziguador.
— É claro que está, ele ‘tá cercado de homens gatos exalando testosterona, quem não está bem sou eu aqui cercado de estrogênio. — Ele respondeu displicente e no instante seguinte pareceu se dar conta do que disse. — Menos o seu, o seu estrogênio é o melhor de todos, mia Donna.
Roxanne riu de canto, movendo a cabeça de um lado para o outro em negativa, nada irritada com o comportamento de Niccolo.
O rapaz respirou fundo como quem está entediado e então focou em Barnes com mais atenção, medindo-lhe dos pés a cabeça como se finalmente o visse pela primeira vez.
— Se bem que agora que o James está aqui... — Sorriu como quem tem mil e uma ideias em um segundo.
— Ele não faz o seu tipo, Nick. — Roxanne cortou no mesmo momento.
— Como não, claro que ele faz. — Niccolo rebateu de imediato. — Tenho certeza que o James aqui faz o tipo de todo mundo.
— O meu não. — Corinne retrucou, cruzando os braços como se lhe oferecessem um pedaço de carne podre.
— James está fora dos limites. É uma ordem. — Roxanne declarou de forma dura e direta, em um tom dominante que Barnes ainda não tinha visto a italiana usar com ninguém, mas que com certeza combinava com ela.
— Entendi, mia Donna. — Nick respondeu de imediato, tanto um passo para longe de James, mas claramente sendo incapaz de se conter. — Posso pelo menos saber por que?
Roxanne pousou a caneta chique que usava na escrivaninha, antes de finalmente erguer o olhar de obsidiana na direção de Pisanni, havia algo de muito duro em suas íris.
— Por que ele não pode consentir. — Ela respondeu naquele mesmo tom duro e aquela frase curta pareceu espalhar imediatamente um clima tenso e desconfortável na sala.
Bucky não soube exatamente como se sentir sobre aquilo, por todas as décadas em que esteve em posse da Hydra suas vontades foram inexistentes, sua única função era servir. “Consentimento” nunca sequer esteve no vocabulário de ninguém a sua volta, em nenhum contexto.
Mas ali estava ele, fingindo ser seu maior pesadelo uma vez mais, cara a cara com a herdeira da máfia e para ela “consentimento” parecia algo pessoalmente importante.
Ou era apenas alguma mentira bem contada?
Notou que Nick lhe examinava de novo, com atenção de verdade dessa vez, dando alguns passos ao redor de seu corpo e finalmente vendo a mão de vibranium.
— Ele é o Soldado Invernal. — Corinne comentou como se fosse uma acusação. — Você já foi mais observador, Stronzo.
— Como foi que...? — Nick estava prestes a perguntar, mas Roxanne já havia se afastado da escrivaninha em direção a uma das estantes e o interrompeu.
— Corie pode te explicar os detalhes depois. — Disse neutra. — Gostaria que focássemos em coisas mais urgentes agora, se for possível.
— Sim, mia Donna. — Niccolo assentiu, e no instante seguinte Roxanne puxou um dos livros fazendo com que a estante se deslocasse.
Ali atrás uma porta de metal e um sistema digital de segurança moderno eram reconhecíveis.
É claro que não era apenas uma vinícola, Barnes se recriminou por ser tão ingênuo.
A italianinha colocou a mão sobre o visor e a porta metálica se abriu, revelando uma escadaria de pedra em espiral que seguia para o subsolo da construção.
Barnes seguiu os outros três escada abaixo, temendo o que encontraria.
— Ele falou algo de relevante? — Roxanne questionou enquanto descia.
— Absolutamente nenhuma palavra, apenas piadas escrotas e insultos a minha beleza. — Niccolo respondeu. — E olha que eu me esforcei.
— Disso eu tenho certeza. — Corinne comentou em um misto de divertimento e sarcasmo.
Bucky teve o vislumbre de uma teoria. Mas não gostou nadinha dela...
Ao fim da escada, despontaram em um amplo salão com painéis iluminados e tecnológicos onde todo tipo de arma estava exposta, presas por um vidro que certamente era blindado. As travas tecnológicas também diziam a Bucky que apenas pessoas com a digital autorizada poderiam ter acesso aos armamentos.
No entanto eles não pararam ali, seguindo para o fundo do lugar onde outra porta com tranca por digital foi aberta, do outro lado o frio absurdo abateu Barnes. O ambiente era feito de pedra, claramente climatizado e bem no meio dessa pequena sala havia um homem...
Um homem desacordado, acorrentado ao teto e ao chão, de modo que ficasse de pé, mas com os braços para cima o tempo todo. Usava apenas uma boxer e claramente havia levado uma surra e tanto dado todo o sangue seco nele.
— Eu disse que me esforcei. — Niccolo encolheu os ombros sem qualquer comoção na voz.
A teoria de Barnes estava certa, aquilo era um interrogatório. Um em que doses cavalares de violência havia sido usada.
Olhou para Nick Pisanni de soslaio e entendeu as marcas de sangue nele. Unindo com a conversa no carro não foi difícil decifrar que o italiano estava naquela tarefa de obter informações do prisioneiro durante toda a noite.
O estômago de Barnes embrulhou de forma desconfortável. Não havia mais como negar. Roxanne era sim uma pessoa horrível.
Examinou a sala apenas para que pudesse abster do prisioneiro, todo o local era claramente para aquele tipo especifico de atividade, as mesas metálicas com instrumentos específicos de tortura gritavam isso; alicates, martelos, pinças, havia até mesmo uma grande tesoura de cortar correntes de ferro. Tudo ali era como o cenário macabro de um filme de terror.
Mesmo a temperatura fria da sala era uma técnica para causar desconforto...
Por Deus, quantas vezes Roxanne esteve envolvida naquele tipo de crueldade?
Corinne encheu um balde no tanque disponível a direita e caminhou até o prisioneiro, jogando toda a água nele violentamente.
— Hora de acordar, Cretino!
O homem abriu os olhos no susto, observou tudo ao redor rapidamente e então pareceu se lembrar onde estava, a raiva tomando conta de seu rosto inchado e roxo em alguns pontos.
Corinne e Nick deram alguns passos para trás, deixando que Roxanne assumisse a dianteira. E a herdeira da máfia fez isso com a postura fria e calculada de quem sabe que tem o poder, o queixo erguido, o abismo de seus olhos negros tão gélido quanto o inverno da alcunha de Barnes.
Aquela não era a mesma Roxanne dócil que interagia com Strovalenko, no entanto era exatamente essa postura dominante que combinava com ela mais do que qualquer outra.
O prisioneiro focou na italianinha com atenção e interesse, um sorriso lascivo surgindo nos lábios do homem conforme ele analisava o corpo feminino.
— Oh... Olha só o que temos aqui. — O inglês dele tinha traços de um sotaque alemão. — Eu já ouvi falar de você, sabia? A italiana que anda com a escória negra e com os bizarros. — O queixo do homem apontou Corinne e Nick de forma depreciativa. — Seus antepassados teriam vergonha de você, principessa Domenichelli.
Corinne trincou os dentes com a ofensa claramente racista, mas foi Nick quem avançou um passo já sacando sua arma. Roxanne sequer precisou olhar para trás antes de fazer um gesto imperativo com a mão direita, que mandava o italiano ficar onde estava.
— Meus antepassados estão mortos. E aqueles aos quais me alio são ao menos dez vezes mais dignos que qualquer velho decrépito que um dia governou a Sicília. — A herdeira Domenichelli disse em um tom diplomático. — Mas que bom que ouviu falar de mim, senhor Schultz, porque eu nunca tinha ouvido falar de você até que estivesse cruzando meu território fazendo negócios que eu desaprovo.
Ela ainda não tinha se movido, permanecia na mesma postura ereta de antes, mãos nas costas, encarando o homem como se ele fosse nada.
Bucky estava tenso, suas terminações nervosas frenéticas. Era uma tortura ter que encarar tudo de forma inerte e fria.
— Você desaprova? — O prisioneiro riu, como se ele fosse aquele com o poder ali, como se não estivesse acorrentado com as mãos para cima e todo ferrado. — E daí? Seu pai me deu carta branca, desde que eu pagasse uma taxa apropriada.
Espera... Roxanne estava indo contra o próprio pai?
Barnes ficou confuso, suas sobrancelhas se franzindo por um pequeno instante antes que ele se tornasse senhor de suas reações novamente. O que diabos aquilo significava?
— Entendi... — Roxanne assentiu calmamente, nada balançada com o pai sendo citado, ela deu um passo para o lado continuando em seu tom diplomático, que agora possuía um quê de ameaça implícita. — Vejo que ouve uma divergência de informações, mas não importa, você vai me dizer onde está seu carregamento e eu vou finalizar seus negócios aqui na Sicília de forma permanente.
O que será que aquele homem fazia para viver? Traficante de drogas? De armas? Falsificador? Bucky conseguia pensar em uma listinha de coisas ilícitas, mas não era capaz de imaginar o que justificaria Roxanne se posicionar contra o próprio pai, que era também o líder da organização criminosa mais importante daquele lugar.
Ela estava disposta a ordenar que um de seus homens torturasse um prisioneiro para saber daquele carregamento, então devia ser importante.
— Você é pirada da cabeça e muito iludida, menina. — O cara com sotaque alemão riu, como se não se sentisse nenhum pouco ameaçado. — Seu pai vai saber disso e vai te colocar no lugar que você merece. — Ele estreitou os olhos em um misto de ameaça e lascívia. — E como compensação eu vou pedir umas horinhas com você a sós, quando eu meter o pau na sua goela você vai aprender a me tratar direito sua vadiazinha italiana.
Barnes não planejou avançar um passo, o fez por puro instinto, talvez um reflexo do homem que tinha sido um dia e que nunca permitiria que um idiota nojento falasse com uma mulher daquela forma.
Mas tão logo se moveu as íris de Roxanne focaram nele, um misto de surpresa e confusão que logo se tornou apenas um olhar categórico e um mover de cabeça que indicava “não”.
Bucky voltou o mesmo passo, ainda podia justificar aquilo como sendo parte de suas ordens, mas tinha que se controlar mais. Não podia dar outro deslize daqueles.
Roxanne voltou a encarar o prisioneiro, as mãos cruzadas atrás do corpo e um sorriso ladino quando se aproximou alguns passos dele.
— Pelo que vejo você gosta muito do seu pênis, não é mesmo, senhor Schultz? — Havia um quê de venenoso na voz dela. — Eu acho que esse é o motivo perfeito para que me diga exatamente o que eu quero saber. Onde. Está. O. Carregamento?
O alemão encarou a italiana, apenas alguns centímetros separando os dois, ele sorriu de forma asquerosa.
— Ah, quer dizer que você vai me pagar um boquetinho quando eu falar? — Retrucou como se fosse ele no controle ali.
Roxanne não esboçou reação nenhuma, na verdade Barnes se deu conta que ela raramente esboçava, quase como se todas as microexpressões estivessem sempre sob controle absoluto ou como se nada no mundo, não importava o quão ofensivo, desrespeitoso ou obsceno, a afetasse de qualquer maneira.
Ela sorriu calmamente, piscando algumas vezes antes de dar um passo para trás e caminhar até uma das mesas metálicas que não tinha nada além de uma maleta pequena. De todas as mesas no ambiente, cada uma expondo ferramentas de tortura pior que a anterior, aquela era a que parecia menos “ameaçadora”.
Roxanne se encostou ali, parcialmente sentada sobre o tampo antes de voltar a encarar o prisioneiro.
— Quando ouviu falar de mim, disseram que eu fiz medicina? — Ela questionou tão casualmente que era como se falasse do tempo, isso confundiu o prisioneiro, ficou claro na expressão dele. — Eu fiz, pretendia me especializar em neuro. O cérebro é uma coisinha fantástica controlando nosso corpo, sabe?
Ela fez uma expressão inocente que não combinava com a situação e Bucky recordou do instante em que se conheceram e do que a morena tinha dito sobre o cérebro ser algo muito complexo e cheio de sinapses nervosas, não um HD que podia ser apagado e preenchido com outras informações mais úteis.
— Claro que eu tive que abandonar minha formação e voltar para casa quando os infames Vingadores perderam sua importante primeira batalha contra Thanos. Mas mesmo aqui, eu nunca esqueci dessa preciosidade que é o cérebro humano, cheio de sinapses neurais que, dentre muitas outras coisas, são responsáveis por qualquer sensação de dor. — Ela continuou falando como se estivesse em uma conversa casual, mas Barnes teve o pressentimento de que nada de bom viria dali. — É bem curioso pensar que agulhas enfiadas abaixo das unhas de alguém é uma forma mais eficaz de tortura do que uma facada, uma surra ou mesmo um tiro. Acho que é porque causa agonia, tanto quanto causa dor.
Roxanne fez uma pausa, encarando o prisioneiro por alguns instantes com um sorriso dócil que na verdade parecia a promessa de algo muito ruim. E o alemão viu isso também, porque sua postura já não era mais tão segura quanto antes.
— Quando voltei para casa, descobri que homens como o senhor eram um problema. — A italianinha puxou a pequena maleta e abriu. — Então eu desenvolvi isso aqui... — Ela ergueu o que parecia apenas um palito de metal, muito fino e comprido. — É como uma agulha, mas não é para enfiar embaixo de nenhuma unha, na verdade se chama Candiru, porque é inspirado em um peixe da américa do sul, conhecido por entrar no canal da uretra dos homens, que caso você não saiba é esse pequeno buraquinho na sua glande que atravessa todo o seu pênis, e quando o Candiru já está lá dentro ele abre a parte posterior do corpo de modo que se torna muito difícil removê-lo. — Roxanne puxou um dos lados da agulha e isso fez uma infinidade de pequenos “dentinhos” metálicos surgirem por toda a extensão do objeto. — Imagino que deva doer, todas essas lascas cortantes de metal fincando nas paredes do canal da uretra enquanto alguém remove a agulha...
Um misto de agonia e aflição cruzou o corpo de Barnes enquanto ele imaginava tudo que a herdeira Domenichelli narrava. Foi perceptível que o prisioneiro sentiu o mesmo, afinal ele não teve tanto sucesso em controlar suas expressões.
A italianinha estava fazendo tudo aquilo de propósito para que o alemão imaginasse a tortura com um requinte quase cruel de detalhes. Era um jogo mental. E ela claramente era ótima nisso.
— Enfim... — Roxanne apoiou o instrumento de tortura de volta na maleta como se tivesse falado nada demais e sorriu para o prisioneiro com a ameaça escondida no canto dos lábios. — Eu realmente acho que, se aprecia tanto os seus genitais, vai ser do seu maior interesse cooperar comigo, senhor Schultz.
O homem engoliu em seco, mas foi rápido em disfarçar isso, arrumando a postura como se ainda tivesse qualquer controle ali.
— É claro, assim você é uma boa menina e ao invés de me torturar, me solta para que eu volte para minha família. — Ele ironizou, como se já soubesse exatamente cada palavra que Roxanne diria a seguir.
Ela voltou a se levantar, se aproximando dele com a expressão de quem já é a vitoriosa em um jogo que apenas o oponente ainda não sabe que perdeu.
— Ah não, senhor Schultz o ponto aqui é que você já está morto, jamais vai sair desse porão. — Declarou voltando para a postura dominante. — A única coisa em jogo agora é a possibilidade de morrer rapidamente ou em profunda agonia. Sua vida é minha e eu já decretei pena de morte.
Bucky não se lembrava de já ter ficado tão tenso, Roxanne não apresentava qualquer traço de incerteza, era uma jogada ousada não usar a vida do prisioneiro como um trunfo, porque qualquer outro teria oferecido a liberdade como moeda de troca, mas a italianinha claramente tinha suas próprias regras naquele jogo.
Será que ela estava blefando?
No fundo Barnes torcia para que a morena não fosse capaz de nenhuma das crueldades que ameaçava, e ele nem saberia dizer o motivo.
— Você acha que é a chefe? Você não tem culhões pra isso! — O alemão retorquiu com um desdém revoltado.
Roxanne respirou fundo, como se pela primeira vez tivesse se cansado do prisioneiro ou da conversa como um todo.
— Onde está o carregamento, senhor Schultz? — Ela perguntou de novo, a irritação escapando de suas sílabas enquanto fazia um gesto para que Niccolo se aproximasse.
Iam mesmo torturar o homem com aquele objeto da maleta?
— Sua vadia de merda, pode vir! — O prisioneiro gritou ao ver Nick pegar a longa agulha, o medo exalava pelos poros dele, mas estava claro que o homem não diria nada. — Eu não tenho medo de você. Nunca vai conseguir impedir a minha mercadoria de chegar a Madripoor.
Roxanne fez um gesto para que Niccolo parasse e o italiano fez isso imediatamente.
— Madripoor, interessante... — Ela sorriu, os olhos negros brilhando vitoriosos.
Ela tinha descoberto algo? Como?
— O carregamento está no porto, se tivermos sorte não embarcou em navio nenhum ainda. — Declarou, olhando por cima do ombro para Corinne.
A reação imediata de Schultz comprovou a teoria. Barnes ainda não entendia como Roxanne havia matado a charada.
— Você não sabe de nada sua vadia de merda! — O prisioneiro gritou descontrolado, atraindo a atenção de Roxanne que o olhou tão feroz e fria que Bucky sentiu o coração bater em antecipação.
Nada bom viria daquilo.
— Você não vai encontrar nada no porto! — O alemão continuava a gritar enquanto a italianinha rapidamente cortava a distância até uma das mesas metálicas e pegava a grande tesoura de cortar correntes, para então voltar em direção ao homem. — Seu pai vai...
O fim da frase foi apenas um sepulcral grito de agonia. Bucky estava paralisado, sequer piscava. Roxanne Domenichelli tinha simplesmente cortado o pênis do alemão fora usando a grande tesoura....
Ela deu um passo para trás afim de evitar o sangue que jorrava, a expressão fria e austera de quem obteve justiça. O membro flácido do homem estava no chão com o pedaço do tecido da boxer. Roxanne estendeu a tesoura para Nick, que a pegou imediatamente. Schultz ainda gritava de dor e pânico.
Bucky não sabia se estava surpreso, em choque ou enojado, provavelmente tudo junto.
Roxanne Domenichelli não tinha salvação, ela era sádica, ela era como o noivo.
— Eu poderia dizer que isso é para que você aprenda que não gosto de perguntar a mesma coisa duas vezes. — A herdeira da máfia disse com a voz mais calma de todas. — Mas a verdade é que não foi uma lição, você não precisa de nenhum conhecimento extra, porque não teremos um próximo encontro. — Ela estava séria, o queixo erguido como se suas ações fossem corretas e justificáveis. — Isso foi carma. Adeus, senhor Schultz.
Ela deu meia volta, deixando o alemão para trás, que entre seus gritos de dor ameaçava:
— Meus homens vão te matar sua vadia!
Niccolo ergueu a arma, porém Roxanne colocou a mão no braço dele de forma suave.
— Não gaste balas à toa, deixe que ele sangre até morrer. Talvez demore um pouco, mas enfim... Carma.
Era uma ordem, uma muito cruel, que foi obedecida imediatamente.
Um a um eles foram deixando o cômodo, os gritos de Schultz sendo súplicas agora, Bucky foi o último a sair, temeu que suas pernas vacilassem, que seu disfarce caísse por terra. Se sentia impotente traindo as próprias convicções.
Roxanne e Strovalenko se mereciam, essa era a verdade. Valentina e o Alto Conselho estavam certos, os dois tinham que cair junto com suas respectivas máfias e a Hydra...
Precisava encontrar um jeito de cumprir sua missão e de encerrar a Operação Roleta Russa com êxito.
— Acha que a equipe dele já embarcou o carregamento? — Corinne questionou, enquanto eles passavam pelo arsenal, logo depois de fechar a porta metálica da sala de tortura.
Roxanne estava andando mais rápido agora, como se uma parte de sua postura fria e controlada tivesse ficado lá dentro daquele lugar pavoroso.
— Não. Bartô não partiria sem Schultz, investigamos os dois, são parceiros de uma década. Ele não iria a lugar algum, principalmente quando só fazem umas quinze horas que o outro desapareceu. — Roxanne declarou, subindo a escadaria rapidamente.
Adentraram o escritório e a estante voltou para seu lugar novamente. Havia essa urgência latente nos movimentos de todos ali. Como se estivessem correndo contra o tempo para impedir alguma coisa horrível de acontecer.
Não parecia uma reação proporcional para um bando de mercadoria provavelmente roubada, seja essa mercadoria qual fosse...
— Avise as Mamas, e nos alcance no caminho. — Roxanne ordenou para Nick enquanto eles atravessavam o galpão em passos rápidos.
— Sim, mia Donna. — O italiano assentiu, mudando o rumo quando eles alcançaram a ala externa da vinícola.
Menos de dois minutos depois Bucky já estava novamente sentado no banco traseiro do Cadillac, enquanto Corinne acelerava e Roxanne estralava os dedos em uma estranha expressão de ansiedade e nervosismo.
Sério que perder bens materiais ou dinheiro a deixava mais apreensiva do que arrancar o pênis de um homem e abandoná-lo para morrer?
Aquela mulher era horrível!
— Como soube do porto? — Corinne questionou enquanto o veículo cortava a estrada em alta velocidade.
Barnes notou que também queria saber disso.
— Ele citou Madripoor. — Roxanne respondeu prática. — A Mercadora comanda Cidade Alta e não compactua com esse tipo de tráfico, nesse caso o contato de Schultz e Bartô está em Cidade Baixa, os únicos acessos são por água ou por terra com escolta. Mas eles não arriscariam transportar aquele carregamento pela estrada. Então...
Espera. Ela disse “MercadorA”, no feminino? Aquilo não fazia sentido.
Barnes pensou ter ouvido errado, mesmo que as duas mulheres estivessem falando em inglês, talvez fosse o som do motor...
Ele tirou isso da mente e focou apenas no raciocínio de Roxanne, não devia estar surpreso da italianinha conhecer Madripoor, mas ficou um pouco.
— Você raciocina tão rápido que me assusta. — Corinne declarou e o próprio Bucky podia ter dito isso se não estivesse fingindo ser uma arma controlada.
— Se serve de consolo, seus reflexos são muito melhores que os meus. — Roxanne devolveu amigável.
— Já ajuda. — A francesa moveu os ombros em displicência, para depois tocar o retrovisor e encarar o Soldado pelo espelho. — Agora é sua hora, garoto da Hydra. Vamos ver se você é tão bom quanto dizem.
Bucky sentiu o estômago revirar, não queria fazer parte de nada daquilo, provavelmente estavam prestes a cometer mais atrocidades e ele não queria ter esse sangue nas mãos. Mas não tinha escolha, devia obedecer a todas as ordens. Cedo ou tarde sabia que esse fatídico momento chegaria.
— O James não vai participar desse trabalho. — Roxanne cortou de forma simples.
— Como é? — Corinne retrucou em surpresa.
Aquele era o exato sentimento preso em Barnes, que ele lutou para não deixar transparecer em suas feições.
— Ele foi designado para ser meu guarda-costas, mas não é um dos meus homens. — A italiana explicou, se virando para trás assim seus olhos negros encontrariam os do Soldado Invernal. — Você vai me acompanhar, porque essas são as ordens de Strovalenko, mas não quero que dê um só tiro, ou se envolva em qualquer luta, a menos que isso seja para proteger sua própria segurança, estamos entendidos, James?
Aquilo era inusitado.
O alivio se espalhou pelo corpo de Barnes ao mesmo tempo em que a dúvida tomava conta de sua mente. Por que Roxanne estava fazendo aquilo?
— Sim, senhorita. — Ele respondeu sem desviar o olhar e ela assentiu, voltando-se para frente em seguida.
— Ótimo.
Corinne por sua vez, ainda focada na estrada, movia a cabeça de um lado para o outro em negativa, claramente não aprovava a decisão da herdeira Domenichelli.
— Você está deixando seu melhor trunfo fora do jogo. — Ela declarou em italiano, provavelmente achando que Bucky não entenderia. — Ele é um supersoldado.
— Você melhor do que ninguém deveria saber que não acredito em pessoas sendo usadas como trunfos. — Roxanne respondeu, pousando seu olhar de obsidiana na francesa ao seu lado, como se houvesse mais em suas palavras do que o simples significado delas.
Corinne prendeu o ar por alguns instantes, a postura mudando um pouco.
— É diferente. — Retrucou, mas seu tom dizia que nem ela própria tinha tanta convicção assim nisso.
— Não é. — A italianinha devolveu certeira. — Pierre não quer se envolver em nada disso. E o James, enquanto Soldado Invernal, não tem o luxo de um querer. Então é exatamente a mesma coisa.
Bucky encarou a estrada através do vidro para esconder suas reações. O que Pierre LaRue e ele possuíam em comum? Ele notou que não tinha contexto o bastante para entender aquela conversa. Seria apenas mais uma pergunta sem resposta que amontoaria em sua mente.
Porém, contexto não era necessário para entender uma coisa: Roxanne não pretendia ordenar que o Soldado Invernal derramasse sangue por ela. Pelo menos não naquele dia.
Barnes não conseguia acreditar que isso duraria por todo o tempo em que ele permanecesse ali na Sicília. Controlar um supersoldado era uma tentação afinal, a italianinha teria que ser uma boa pessoa para resistir a essa ideia, e aquele dia já havia provado que “boa pessoa” não era um termo que combinava com Roxanne Domenichelli...
Chegaram ao porto finalmente, parando em um local estratégico e pouco movimentado ao lado de um sedan preto. Bucky ficou surpreso de ver Niccolo já esperando ali, trajando um sobretudo por cima da roupa de antes.
— Sua lata velha é movida a carvão? — O italiano debochou de Corinne enquanto se aproximava.
Uma pequena discussão se formou entre os dois, enquanto o porta-malas do Cadillac era aberto e o pequeno arsenal disponível era analisado.
— Já chega vocês dois. — Roxanne ordenou, se munindo de outra arma e também de uma faca que ela escondeu em um suporte na batata da perna. — Vamos entrar em território hostil agora e não sabemos quantas pessoas vamos encontrar e nem que tipo de armas terão, por isso eu preciso que tratem isso com seriedade e não como mais uma das competições dos dois, ouviram? Vamos fazer o rato no laboratório.
Aquela última expressão não fez sentido algum para Barnes.
— Sim, mia Donna. — Nick assentiu, se armando com praticamente tudo que tinha disponível com a agilidade de quem era muito acostumado a lidar com aquilo.
Corinne se manteve calada enquanto prendia um cinto tático na roupa e o abastecia com uma infinidade de facas, além de duas armas nos coldres presos ao peitoral e várias munições.
— Eu prometi para o Pierre que te levaria de volta, Corie. E prometi ao Frank que cuidaria de você, Nick, ou seja, pretendo devolver os dois para seus respectivos pares sem buracos de bala no corpo. — Roxanne falou, olhando para cada um dos dois a seu lado. — Eu não quero nenhum dos dois se machucando à toa, então não façam nada estúpido.
Bucky deve um déjà vu que quase colocou um sorriso em seu rosto, embora ele tenha sido rápido o bastante em redimir isso.
Aquele instinto de proteção não combinava com a mulher que havia deixado um homem para morrer depois de arrancar o pênis dele... Barnes começou a odiar que Roxanne fosse inconstante, era muito difícil não admirar a herdeira da máfia quando ela apresentava algumas atitudes tão nobres para com os seus.
— Ah, que adorável. — Corinne riu um tanto irônica, embora tivesse muito de casualidade e carinho em sua voz. — Sabemos que você ama a gente, não precisa ficar sentimental.
Roxanne revirou os olhos de forma divertida, ainda tinha o esboço de um sorriso e as covinhas enfeitando-lhe as bochechas quando virou na direção do Soldado Invernal. Deu um passo na direção dele e Bucky se viu estranhamente preso nas íris abissais, quase como se estivesse sendo puxado por areia movediça.
— É melhor que se arme apropriadamente para a sua própria segurança. — A morena sugeriu, apontando o porta-malas do Cadillac.
Barnes assentiu, dando alguns passos naquela direção e fugindo do olhar de Roxanne.
— Como se ele fosse precisar... — Corinne murmurou, claramente criticando o não envolvimento do Soldado naquele confronto.
Niccolo olhou para a francesa com a pergunta muda no olhar, afinal não sabia de nada que tinha sido conversado no carro. LaRue apenas moveu a mão em displicência.
— Não pergunta.
Bucky ignorou aquilo, pegando outra automática, além da que já estava com ele desde a mansão, podia ter escolhido outras coisas como granadas de fumaça, ou talvez uma submetralhadora e provavelmente mais pentes de munição, porém a verdade era que ele não queria estar armado, porque não pretendia machucar ninguém se pudesse evitar.
Além disso não era como se realmente precisasse de armas de foto para se defender.
Os quatro avançaram depois disso, Barnes ainda não sabia qual era o plano de ação, mas pelo visto os outros três sim, já que assumiram uma posição triangular, com Roxanne no meio, cerca de dois passos atrás dos parceiros. Aquela dinâmica indicava claramente que eles já tinham feito aquele tipo de coisa antes.
Caminharam em direção ao porto, Bucky um pouco mais atrás, ali a área se abria e desenhas de contêineres de carregamento podiam ser vistos por toda a extensão do lugar. Não precisaram avançar muito mais para encontrar um grupo pequeno de homens, sentados sobre caixotes na sombra de um cargueiro, enquanto jogavam baralho em uma mesa improvisada.
Barnes contou três, todos armados.
Com sorte ele realmente não precisaria se envolver.
— Aqui não é lugar de passeio. — Um deles falou, assim que viu que o quarteto se aproximava. — Vão fazer a orgia de vocês em outro lugar.
— Essa é Roxanne Domenichelli. — Corinne continuou avançando enquanto falava. Os homens focaram na italiana o reconhecimento do sobrenome claro em suas fisionomias. — E nós viemos foder com o seu negocinho de merda.
Antes que qualquer um dos três homens pudesse dizer alguma coisa, Corinne se aproximou o bastante e tão rápido que teve tempo de segurar a cabeça de um deles e bater o nariz do cara contra a mesa improvisada enquanto atirava em outro, Nick por sua vez atingiu o terceiro, no mesmo momento em que uma das facas da francesa acertava a nuca do mesmo cara que ela tinha batido contra a mesa.
Eles eram rápidos e eficientes. Não estavam ali para conversar.
O som dos disparos, no entanto, atraiu a atenção de um quarto homem que estava em um dos cargueiros, os gritos dele fizeram um alarme soar e se espalhar no porto e logo haviam tiros voando por toda a parte.
Barnes correu para um dos lados antes de ser atingido, enquanto Corinne e Nick também se separavam para procurar cobertura, sem parar de trocar tiros com os homens que saiam do cargueiro.
Mais cinco vinham de entre os contêineres no chão, Bucky percebeu que havia perdido Roxanne de vista, a coisa toda saindo do controle mais rápido do que ele esperava. A procurou por todas as direções, vendo que ela se afastava, trocando tiros com dois caras ao mesmo tempo, que disparavam de lugares opostos.
Que merda!
Nick e Corinne, pareciam querer levar o confronto para o meio dos contêineres, o que era esperto porque tirava todos os oponentes de suas posições privilegiadas dentro do cargueiro e os obrigava a descer para o chão.
Porém, aquilo também fazia com que o próprio Barnes não conseguisse mais ter a visão de todos eles. Onde estava Roxanne?
— Merda! — Xingou sozinho, correndo para o meio dos contêineres também.
Não pensou, não planejou, apenas agiu, a adrenalina se espalhando rapidamente por suas veias.
Correu pelo labirinto metálico, se guiando pelo som de tiros, sabia que Nick e Corinne estavam para o lado oposto, nesse caso o confronto que se desenrolava alguns metros a esquerda só podia ser protagonizado por Roxanne.
Continuou seguindo os sons, mas deu de cara com um trio de inimigos. Eles estavam surgindo do nada como formigas, quantos eram afinal?
Bucky não teve escolha a não ser sacar a própria arma, começou a trocar tiros com os três caras, sem mirar neles de fato, na intenção de acabar com a munição deles apenas, afinal ainda não queria machucar ninguém.
Quando o que estava dois contêineres para esquerda parou de atirar Barnes avançou, surpreendendo o homem e o nocauteando com um soco estratégico. Ele não estava morto, só teria uma bela dor de cabeça.
A munição de uma de suas armas acabou e ele teve que prosseguir com apenas uma delas, sabia que se estivesse atirando diretamente no alvo já teria acabado com aquilo tudo, porque teve várias oportunidades para isso, porém ainda se mantinha no propósito de apenas acabar com as balas dos oponentes.
Derrubou o segundo da mesma forma que havia derrubado o primeiro, ainda tentando se guiar pelos sons dos tiros do confronto mais perto de si.
Percebeu que o terceiro homem não estava mais focado nele e continuou correndo por entre os contêineres, os tiros daquele lado haviam cessado.
— Não se mexe! — Ouviu a ordem masculina e irritada uns três contêineres a frente.
No meio do caminho os saltos de Roxanne estavam jogados e uma pequena trilha de corpos.
— Você é uma coisinha escorregadia, não é mesmo? — A mesma voz dizia. — Abaixe a arma e eu vou te levar para o Bartô.
Inferno!
Bucky checou sua munição, uma bala.
Engatilhou, virando a esquina do último contêiner e dando de cara com as costas de um homem uns cinco metros a frente, os cabelos de Roxanne eram reconhecíveis, embora não pudesse ver muito mais dela.
Barnes agiu muito mais por instinto do que por planejamento, mirou na perna do oponente e apertou o gatilho, porém o som de dois tiros cortou o ar. O corpo do cara caiu no chão, um tiro na perna e um bem no meio da testa.
A figura de Roxanne podia ser vista totalmente agora, a arma fumegante e recém disparada ainda erguida, os cabelos escuros revoltos, a respiração ofegante e o rosto respingado de sangue.
Naquele pequeno instante de três segundos tanto o Soldado quanto a italiana continuaram com suas armas erguidas. Ela franziu as sobrancelhas primeiro, obviamente surpresa, embora também houvesse um tipo de curiosidade em seu olhar.
Barnes abaixou a arma, o som de vários passos se aproximando e o murmúrio de vozes masculinas lhe deixando alerta. Jogou a Glock sem munição fora e avançou na direção de Roxanne, ela ainda tinha aquele misto de surpresa e curiosidade no olhar quando o Soldado a puxou para a direita, ambos saindo da linha de tiro e se escondendo entre dois contêineres, segundos antes de mais homens começarem a disparar naquela direção.
A italianinha começou a atirar também, era boa de mira até, mas era um tanto imprudente, de forma que Bucky a puxou de novo, aparando os tiros com o braço de vibranium enquanto ela insistia em acertar o último.
Estavam aparentemente seguros de novo, sozinhos, Bucky estava encostado contra um dos contêineres, seu braço direito ao redor de Roxanne, segurando-a contra si, as costas dela no peitoral dele, suas respirações fora do ritmo.
A italiana virou o rosto na direção dele, ambos tão perto que o perfume indecifrável de rosas e algo mais dela apenas invadiu os pulmões de Barnes sem permissão. Azuis e negros se encontraram, o lago abissal nas íris de Roxanne analisando cada traço masculino como se procurasse algo mais ali.
— O que você está fazendo? — Ela questionou, seus lábios se movendo devagar, enquanto o coração de Bucky ainda batia rápido demais por causa da adrenalina.
— Salvando você. — Ele respondeu como se fosse óbvio, e só quando as palavras saíram de sua boca foi que Barnes se deu conta, havia esquecido totalmente do disfarce que precisava manter.
Roxanne franziu as sobrancelhas, seus olhos absurdamente indecifráveis, embora o esboço de um quase sorriso tenha feito o sinal das covinhas em suas bochechas.
— Tenho ordens do senhor Strovalenko pra te proteger. — Foi a primeira e única coisa que Bucky conseguiu pensar em dizer para manter seu disfarce.
Não era exatamente verdade, Strovalenko nunca chegou a dar essa ordem específica para o Soldado Invernal, mas disse algo assim em voz alta para Vicenzo na presença de Roxanne, então esperava que fosse o bastante para convencê-la.
As covinhas sumiram, o olhar de obsidiana se tornou frio e um tanto desinteressado.
— Certo. — Ela disse simples, e Barnes questionou se havia mesmo uma ponta de decepção no tom feminino, ou se era apenas impressão. — Sendo assim, você pode me soltar agora, não estou em perigo.
Só então Barnes notou que ainda a apertava junto a si, os corpos colados, o antebraço dele apoiado exatamente abaixo dos seios de Roxanne...
A soltou imediatamente, se afastando dela alguns passos.
— De toda forma, obrigada. — A morena agradeceu, os olhos ainda focados no Soldado.
— Só estou seguindo minhas ordens. — Ele voltou para o tom profissional e fio de sempre.
Roxanne assentiu, se aproximando vários passos, ainda media Barnes com atenção.
— Está machucado? — Ela tocou o braço direito dele, um pouco acima do cotovelo, indicando um rasgo no terno.
Bucky sequer havia percebido que levou um tiro de raspão durante o confronto.
— Não é nada. — Ele respondeu, perguntando a si mesmo se alguém poderia fingir um olhar de preocupação, como aquele que estava estampado no rosto de Roxanne naquele momento.
— Certo. — Ela concordou, assumindo uma postura mais prática. — Eu preciso encontrar a Corie e o Nick agora.
Saiu na frente, arrumando o cabelo e o terno, desviando dos corpos no caminho e recuperando seus sapatos.
O som de tiros não vinha mais de lugar algum, mas não foi difícil encontrar Corinne e Niccolo, já que eles estavam parados em um pequeno espaço aberto entre os contêineres, metros a frente, cercados por vários homens fortemente armados.
Barnes contou doze, porém mais cinco surgiram por trás quando ele e Roxanne se aproximaram. Estavam cercados e em desvantagem.
Todos tinham as armas erguidas, exceto por Bucky, por não ter mais uma, e pela própria italianinha, que na verdade tinha a postura calma e segura de quem não teme absolutamente nada.
Barnes percebeu algo relevante ali, nenhum deles estava disposto a atirar de fato, não nela. Roxanne nunca chegou a ser um alvo, nunca esteve em perigo real, os tiros eram apenas um aviso para que ela se rendesse. Foi ela quem disparou para matar.
Se sentiu idiota por não ter notado isso logo de cara, afinal era evidente, ninguém ali arriscaria tirar a vida da filha do líder da máfia italiana, ainda mais na própria Sicília.
— Não gostamos de gente se metendo nas nossas coisas, senhorita Domenichelli. — Um homem assumiu a dianteira, — Além disso, já resolvemos tudo com seu pai. Não entendo essa interrupção e essa bagunça inaceitável.
Roxanne respirou fundo, dando também um passo na direção do homem e fazendo um sinal para que Nick e Corinne recuassem um pouco.
Bucky presumiu que o alemão que havia acabado de assumir a liderança era o tal Bartô, parceiro de Schultz.
— “Inaceitável” é o que sua equipe vem fazendo aqui na Sicília. — Roxanne rebateu muito segura de si, mesmo que estivesse em clara desvantagem ali.
— Nós temos permissão. — Bartô respondeu, avançando um pouco mais, ambos estavam no centro do lugar agora, enquanto todas as armas continuavam erguidas. — Eu desconfio que seja você quem não tem permissão pra estar aqui.
Barnes começou a calcular o que faria quando aquilo saísse do controle e as balas começassem a voar. Ele ajudaria? Ele derrubaria aqueles dezessete homens para proteger Roxanne de novo?
A italianinha riu sem humor, dando outro passo na direção de Bartô, nada intimidada com a presença do homem, mesmo que ele fosse maior e estivesse armado.
— Eu não preciso da sua permissão, ou da do meu pai. — Ela declarou naquele tom que misturava ameaça e diplomacia. — Eu sou uma Domenichelli, essa ilha é minha por direito. E esse povo é meu por dever.
Foi Bartô quem riu dessa vez, porém ele o fez de verdade, um misto de deboche e descaso.
— Ah meu deus, que graça, você está tentando ser o Dom. — Ele desdenhou agindo como se Roxanne fosse uma criancinha querendo assumir a presidência de um país. — Isso aqui é negocio de homem, vai pra casa, garotinha, antes que você se machuque.
A herdeira Domenichelli respirou fundo, sua expressão dura e sua postura ereta.
— Tem razão, você tem um negócio de homens... — Ela não se moveu um só passo. — E ele está acabado agora.
Como se isso fosse um sinal, dezenas de mulheres começaram a aparecer por entre os contêineres, armadas até os dentes, todas de meia idade, a maioria claramente italiana. Barnes reconheceu algumas delas. Eram as trabalhadoras da vinícola.
— Essas são as Mamas. — Roxanne declarou orgulhosa, um sorriso vitorioso e cheio de veneno nos lábios. — Mulheres Sicilianas ou refugiadas, que já estão fartas dos “negócios de homem” no nosso território.
Era um plano. Bucky entendeu finalmente: Nick recebendo ordens para avisar as Mamas, e a coisa toda do “rato no laboratório”... foi tudo de caso pensando, Roxanne queria atrair os homens de Bartô para o meio dos contêineres, queria que eles pensassem estar no controle assim ela poderia encurralar o grupo em um lugar onde teria vantagem numérica e estratégica.
Roxanne nunca precisou ser salva, ela sabia exatamente o que estava fazendo.
As armas dos homens de Bartô foram jogadas no chão e recuperadas pelas Mamas, Niccolo e Corinne tinham a postura de quem já sabia que o resultado seria exatamente aquele, estavam um de cada lado de Roxanne, embora aguardassem cerca de três metros longe dela.
A herdeira da máfia deu outro passo para frente, sua mão se movendo na direção de Bartô, a palma para cima, dando a ele a oportunidade de entregar a arma diretamente para ela.
— A autoridade que meu pai tem aqui na Sicília é tão falsa quanto os teus dentes de ouro. — Ela declarou, recebendo a arma com um sorriso e então se curvando um pouco mais na direção do homem como se fosse lhe contar um segredo, embora suas próximas palavras tenham sido perfeitamente audíveis. — Eu não estou tentando ser o Dom. Eu já sou a Donna.
Dois disparos, Bartô caiu de joelhos com as mãos na barriga, Roxanne ergueu a arma ainda fumegante em direção a testa do homem e puxou o gatilho mais uma vez, o corpo caindo inerte no chão e o sangue rubro tingindo o concreto cinzento.
Os homens de Bartô estavam estáticos, trêmulos, um a um começaram a se ajoelhar, totalmente submissos.
Bucky viu todas as informações das últimas horas passarem por sua mente de novo, a forma como Francesco e Niccolo e tratavam a italianinha; o jeito que ela se portava; a vinícola; o “Donna” que ele simplesmente deixou passar; tudo...
Roxanne Domenichelli não era a Herdeira da Máfia Italiana, ela era a líder deles. A rainha.
— Onde está o carregamento? — Questionou naquele tom dominante.
— Quinto corredor, contêiner azul, com um... um... desenho na porta. — Um dos homens gaguejou, as íris focados no chão totalmente intimidado com a figura de Roxanne.
Se fosse honesto, Bucky também estava um tanto intimidado...
— Por favor tenha misericórdia, Donna. — Outro dos caras suplicou, também sem erguer a cabeça. — Vamos fazer tudo que você mandar.
Roxanne revirou os olhos, parecia enervada com aquela demonstração de submissão, quase como se ter mais de quinze homens ajoelhados diante de si fosse nada, além de patético e irritante.
Mas não era exatamente isso que todo líder mafioso desejava? Submissão absoluta e nada mais?
— Não existe misericórdia em mim. —A voz de Roxanne era como uma estalactite de gelo afiada e mortal. — Especialmente para homens como vocês.
Ela deu alguns passos para trás, enquanto Nick e Corinne se aproximavam os metros restantes.
— Matem todos. — Ordenou em alto e bom som, e as Mamas dispararam sem sequer piscar.
Bucky teve que fechar os olhos por um instante, chocado demais e totalmente impossibilitado de expressar qualquer reação.
Roxanne era dez vezes pior do que ele tinha imaginado... Ela era juíza, júri e carrasco. Matava pessoas com a frieza de quem anseia por vingança, e ordenava fuzilamentos com a altivez de quem faz justiça.
Não havia salvação para aquela mulher.
— Fique e cuide da bagunça quando acabar. — Ela falava com Niccolo quando Bucky voltou a abrir os olhos.
— Sim, Donna. — O Italiano respondeu de imediato.
Roxanne deu meia volta, seguindo na direção indicada por um dos homens agora morto no chão. Corinne foi logo em seguida, e Bucky obrigou suas pernas a obedecerem para ir logo atrás. Cinco Mamas também os acompanhavam, uma delas dando uma nova Glock para a sua Donna.
O estômago de Barnes estava embrulhado de novo, ele começou a se preparar para a revolta que lhe abateria quando visse que mais de vinte pessoas haviam morrido aquele dia por causa de um carregamento ridículo de qualquer porcaria cara que seria contrabandeada em Madripoor.
Chegaram no tal contêiner azul com desenhos. Se bem que o que havia na porta sequer podia ser chamado de desenho, já que eram apenas rabiscos de pênis em diversos tamanhos.
— Está trancado... — Corinne constatou ao ver o grande cadeado que prendia a trava do contêiner.
— Podemos voltar e vasculhar os... — Uma das Mamas estava dizendo, porém o som de três disparos seguidos a cortou.
Roxanne havia acabado de destruir o cadeado.
— Isso também serve. — Corinne comentou enquanto puxava a trava e abria o contêiner.
O gosto de fel tomou conta do paladar de Bucky, ele estava totalmente certo, não havia nada ali, apenas caixas empilhadas do chão ao teto, com estampas de brinquedos infantis. Claro que ele não era estúpido e sabia que com certeza não eram brinquedos, provavelmente eram drogas ou algo assim.
Roxanne encarou as caixas e olhou por sobre o ombro diretamente para o Soldado.
— Você pode? — Ela apontou e ele se moveu, ainda sem saber exatamente o que lhe era pedido.
Era só uma caixa afinal, e nem parecia tão pesada. Levou a mão direita até uma delas, mas sequer se moveu, era como se estivessem todas coladas uma nas outras. Surpreso, Bucky furou uma das caixas com a mão de vibranium puxando de uma vez só e notando que tudo se moveu. Era um tipo de parede falsa...
Ele tirou a coisa toda do contêiner de uma só vez a jogando do lado de fora e, assim que seus olhos focaram na escuridão do contêiner ele não foi capaz de conter sua reação.
Aqueles homens não eram traficantes de drogas... Eles não estavam contrabandeando coisas... Eram pessoas.
Mulheres.
Garotas ainda.
Apenas crianças.
Pelo menos trinta delas ali dentro.
A sensação horrível se espalhou pelo corpo de Barnes, seus olhos enchendo de lágrimas quando ele analisou cada um dos rostinhos encolhidos no fundo do contêiner, todas tremendo de medo, sujas, hematomas visíveis no rosto de algumas, outras com as roupas rasgadas.
Não estavam apenas sendo traficadas, era pior que isso também.
Schultz e seus homens não eram somente criminosos, eles eram claramente sequestradores e abusadores.
— Tudo bem, ninguém aqui vai machucar vocês. — Roxanne assumiu a dianteira, a arma guardada atrás da calça e a voz calma e acolhedora, usando sua língua materna.
Embora claramente houvessem garotas de outras etnias, a maioria ali era italiana, e Bucky lembrou do que tinha acabado de ouvir: “Essa ilha é minha por direito. Esse povo é meu por dever”.
— Está tudo bem. Eu estou aqui pra ajudar. — Roxanne continuou a dizer, agora em inglês, muito calma e pacientemente, então estendeu uma das mãos em convite.
Barnes teve que piscar algumas vezes pra dissipar as lágrimas acumuladas em seus olhos, antes que alguém percebesse.
A primeira menina avançou, pequena e magra, os cabelos claros estavam grudados em seu rostinho sujo, um dedo na boca e os olhos grandes e redondos muito assustados. Devia ter apenas uns oito anos.
Meu deus... Bucky lamentou consigo mesmo, horrorizado demais para sequer se mover.
A pequena muito devagar segurou a mão de Roxanne, se aproximando dela com cautela.
— Oi... — Domenichelli soprou, alinhando os fios da garotinha com delicadeza. — Como você se chama?
— Sofia... — A menina disse baixinho.
— Muito prazer Sofia, eu sou a Roxanne, mas pode me chamar de Rox, se quiser. Não precisa mais ter medo, você vai pra casa agora, certo? — A menina assentiu e Domenichelli olhou para todas as outras que se aproximavam aos poucos. — Todas vocês vão pra casa.
Ela pegou Sofia no colo, mesmo que claramente já fosse uma criança um pouco grande pra isso, e saiu com a garota de dentro do contêiner, fazendo um sinal para que as Mamas ajudassem as outras.
Uma a uma elas foram sendo tiradas, a mais velha delas não devia ter muito mais que dezesseis ou dezessete anos...
Aquilo não era apenas um crime. Era uma atrocidade.
Sofia passou o tempo todo grudada em Roxanne, os braços ao redor do pescoço da morena como se tivesse encontrado ali o seu porto-seguro no mundo. Barnes estava há poucos metros, tentando manter sua postura fria e distante enquanto por dentro era um caos completo.
Já haviam deixado a área de contêineres, e estavam parados nas ruas que davam acesso ao porto, vários veículos estacionados ali, que aos poucos levavam as meninas embora.
Roxanne poderia ter deixado o lugar há algum tempo já, suas subordinadas estavam cuidando de tudo e ao longe, a esquerda, Niccolo comandava uma equipe que havia chegado com um furgão, claramente para recolher os corpos do lugar. Ainda assim, a Donna parecia fazer questão de estar ali até que todas as garotas fossem acomodadas nos carros.
— Algumas não são daqui, estavam sendo trazidas de outros países. Mas a maioria é do interior da ilha, regiões pobres e distantes. — Uma das Mamas parou ao lado de Roxanne para reportar, usando o idioma materno. — Seu pai nunca ligou para esses lugares, nunca foram de valor para ele. Nunca foi vantagem para o Dom estender sua proteção para as áreas mais pobres.
A Donna apenas assentiu, pensativa por alguns instantes.
— Tivemos sorte que as famílias desesperadas reportaram o que estava acontecendo para gente, então. Sabemos que se fossem na polícia não faria diferença. — Ela respondeu por fim, também em italiano.
— Não foi sorte. E não reportaram “pra gente”, foi pra você, Donna. Você fez sua reputação, durante o blip. — A mulher rebateu muito convicta. — As pessoas confiam em você, como não confiavam em um Dom ou em um Domenichelli há muito tempo.
— E eu pretendo honrar essa confiança. — Roxanne garantiu.
Entregou a pequena Sofia nos braços da mulher então, acalmando a garotinha e dando ordens para que as Mamas cuidassem do transporte de todas as meninas de volta para suas casas e famílias, mesmo se morassem em outros países.
Sofia foi a última a embarcar, seu veículo sumindo de vista, enquanto ela acenava do vidro traseiro e Roxanne retribuía ali parada na calçada.
— Seu pai vai saber disso. — Corinne parou ao lado da Donna, mantendo a conversa em italiano e ignorando a presença do Soldado. — E o Strovalenko também vai.
— Eu sei. Deixe que saibam. — Roxanne respondeu séria. — Cansei de brincar de esconde-esconde. É hora de mudar a estratégia.
— Espero que saiba o que está fazendo. — Foi só o que Corinne disse, antes de se afastar também e entrar em seu Cadillac.
Niccolo e sua equipe ainda trabalhavam, mas de longe ele fez um sinal afirmativo para a italiana, que assentiu, atravessando a rua em direção ao carro no qual Pisanni havia chegado ali mais cedo.
— Vamos pra casa, James. — Ela declarou, abrindo a porta e indicando o banco do motorista para ele. — Você dirige, por favor.
Ele fez o que foi ordenado, se sentando atrás do volante e arrumando banco e retrovisor de forma apropriada para sua altura, enquanto Roxanne dava a volta e se sentava no lugar do passageiro.
Quando ele ligou o carro e deu a partida, a italiana se encostou no banco e respirou profundamente, seus olhos perdidos nas ruas, nenhuma única palavra entre eles.
O silêncio deu a Barnes alguns instantes para pensar com maior clareza, e ele acabou notando finalmente, o que vinha fazendo de errado desde que colocou seus pés na Sicília...
Estava analisando Roxanne Domenichelli por uma perspectiva que não fazia sentido. Boa ou má. Heroína ou vilã. Aquela dualidade de opostos, de preto no branco, não se encaixava na realidade em que a italianinha vivia.
Roxanne caminhava na corda bamba dos tons de cinza, ou melhor, tons de vermelho. Vermelho como o sangue que estava sempre na balança por ali, era sempre isso em jogo. Sangue de inocentes, como as garotas prestes a ser traficadas, e sangue daqueles que abusavam de seu poder ou força para fazer da vida de outras pessoas um inferno.
A Donna protegia os seus de forma implacável, sua justiça andava de mãos dadas com a vingança e deixava um rastro carmesim pelo caminho. Era cruel e feio, a punição tinha o mesmo peso do crime de um jeito poeticamente impiedoso e sangrento. Porém, ainda assim, era, de sua própria maneira, justiça.
E que direito Barnes tinha de julgar isso? Roxanne não era uma Vingadora, verdade, mas ela tinha, de uma forma ou de outra, ajudado dezenas de garotas inocentes naquele dia...
Meninas que não teriam sido ajudadas por um heroí com uniforme icônico e nome mediático.
Em algum momento daquele dia, Bucky disse a si mesmo que Roxanne Domenichelli não tinha salvação, porém, ela não precisava ser salva. Ela estava no controle, mesmo quando não parecia estar.
E isso levou Barnes a um pensamento muito importante: Ele não tinha controle algum. Ficou tentando medir a índole e o nível de maldade das pessoas ao seu redor, sem se dar conta de que era ele quem estava mentindo para alcançar seus próprios objetivos, e mesmo que esses objetivos fossem nobres ou heroicos, dentro da história de Roxanne, Bucky era o vilão, o inimigo.
“Não existe misericórdia em mim”. A própria Roxanne tinha dito.
O que ela faria então, quando soubesse que o homem sentado a seu lado era, na verdade, um agente infiltrado, escondido atrás de meia dúzia de mentiras perfeitas e que tinha sido enviado até ali para derrubar não somente Strovalenko e a Hydra, mas também para destruir a Máfia Italiana?
James Buchanan Barnes era o cavalo de troia dentro do império de Roxanne Domenichelli. Aquela Operação não terminaria de nenhuma outra forma, a não ser em sangue...
Era de fato uma Roleta Russa.
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