Operação Spemily
29 Capítulo 29 - Eu Te Conheço, Hanna Marin
Notas iniciais
Aria suspirou aliviada quando a porta do quarto foi fechada pelo Doutor Miller, dando a ela e Hanna o primeiro momento a sós em semanas.
— Ah loirinha... — Sussurrou aproximando-se da maca para poder acariciar os cabelos que costumavam ser tão perfeitos e agora pareciam ressecados e sem vida.
— Não fala assim, baixinha. Ainda não sei mudar o volume dessa coisa. — Disse Hanna apontando para seu novo aparelho auditivo e tentou soar o menos falsa possível ao rir da própria piada horrível.
— Eu te conheço, garota. — Aria permaneceu séria, ainda fazendo carinhos suaves em sua melhor amiga. — Essa “máscara Hanna Marin Para Momentos Complexos” pode funcionar muito bem com as outras pessoas, mas comigo é diferente. Sei que você não tá legal, então...
— É, eu sei. — Respondeu soltando um muxoxo. — Te odeio por isso, mas também te amo demais.
— É, eu sei. — Por um segundo se permitiu sorrir, então fechou a expressão mais uma vez e pediu. — Me diz o que tá sentindo. Não precisa fingir quando estamos sozinhas.
— Nem imagino como descrever a sensação de estar ciente que em três ou oito anos, eu vou ficar surda de verdade e esse aparelhinho vai ser inútil. — Hanna começou a desabafar, porém sem deixar seu tom demonstrar toda a fragilidade que sentia. — Mas o doutor Miller já me disse que nada pode ser feito pra resolver isso. Nesse caso, eu acho que é melhor pra mim continuar fingindo sim. Vai que uma hora eu começo a acreditar.
— Ou você pode acabar depressiva e com um trauma não superado que vai voltar pra dizer boo na hora mais inesperada. — Expôs com as sobrancelhas arqueadas. — Hanna, você não precisa ser tão forte o tempo todo.
— Aria, eu preciso sim. — Decretou com um olhar bastante determinado. — E vou ser. Por vocês, pela minha mãe e, talvez principalmente, por mim. Eu não vou fraquejar.
— Vou respeitar a sua decisão porque sei que nada muda essa sua cabeça dura, mas eu tenho minhas condições. — Montgomery sentenciou, tão irredutível quanto sua amiga.
— Que são? — Marin revirou os olhos, porém com um pequeno sorriso nos lábios pela certeza crescente de que tinha alguém com quem contar até o fim.
— Tira a máscara e desaba comigo agora. — Pediu suavizando a expressão. — Aposto que até vai conseguir construir uma armadura mais forte depois disso.
Depois de um discreto suspiro, Hanna se afastou um pouco para o lado e fez sinal para Aria se deitar também. E assim que ela o fez, aconchegou-se no corpo menor que o seu, porém um conforto superior a qualquer outro no mundo.
— Eu vou ficar surda. Surda. — Retrucou finalmente se permitindo parecer abalada. — Não importa quantas vezes eu repita, ainda parece surreal. Me imagino falando alto demais de um jeito irritante quanto menos eu ouvir e todo mundo vai me odiar antes de descobrir que eu tenho problema. Vou ser uma pessoa detestável.
Sem querer, uma risada baixa escapou pelos lábios da Montgomery. — Sei que é bem indelicado rir agora, me desculpa.
— Tá tudo bem, eu não ligo, mas... Meio que fiquei boiando. Qual é a graça? — Marin questionou com as sobrancelhas franzidas.
— É que você é a Hanna Marin, a maior e mais linda cabeça dura que eu já conheci em toda a minha vida. — Assegurou, beijando-a na testa logo em seguida. — A palavra impossível sempre soou aos seus ouvidos quase como um desafio. Eu sei que assim que você mergulhar de cabeça naquelas aulas que a sua mãe anda pesquisando na internet, vai conseguir aprender super rápido como ler os lábios, controlar o volume da voz, falar em BSL*. Aposto cinquenta dólares aqui e agora que até o aparelho auditivo parar de ajudar, você vai tá tão boa em tudo isso que ninguém nem vai notar que você é surda.
*BLS é a sigla para British Sign Language, a língua britânica de sinais.
— Acha? — Questionou com um início de sorriso brincando nos cantos de seus lábios.
— Tenho certeza. — Aria manteve o tom firme e encorajador, pois acreditava mermo em suas palavras. — E quem sabe você possa até encontrar vantagens nessa nova condição.
— Vantagem em ser surda? — Foi a vez de Hanna rir. — Qual seria?
— Bom... — Murmurou, parando um instante para pensar, então disse. — Se imagine discutindo com alguém daquele jeito que mais dois minutos você vai acabar esfaqueando, mas a pessoa insiste em continuar falando e falando e falando sem parar. É só se virar de costas e voila, fim de conversa.
— É... Só que quando eu comer alguém eu não vou poder ouvir os gemidos. Isso vai ser uma droga porque você sabe que essa é a melhor parte. — Contra argumentou.
— Caramba, loirinha. Eu quero te botar pra cima e você quebra minha banca assim. — Aria riu não apenas pelo rumo que a conversa começava a tomar, mas também pela linguagem nada delicada usada para abordá-lo.
— Tudo bem. — Hanna também riu, com dois toques de diversão e um de amargor. — Dizem que quando perdemos um sentido, os outros ficam mais apurados. Então imagine como vou sentir os toques quando eu der.
— “Quando eu der”. — Repetiu em tom de repreensão. — Eu te deixo uma semaninha sozinha em Rosewood e quando volto já tá com uma boca suja desse jeito. Imagina é o tipo de companhias com quem você tem andando.
— Ué. Falei de comer tem nem dois minutos e você não disse nada, mas falar de dar não pode? — Indagou sorrindo e arqueando uma sobrancelha.
— Não pode. — Sentenciou. — Eu fico com ciúmes.
Pela primeira vez em dias, Hanna riu alto, arrependendo-se logo em seguida por conta das costelas quebradas, e resmungando. — Ai ai ai ai ai.
— Tudo bem? — Questionou com os ombros ficando tensos de preocupação.
— To ótima, só esqueci que não posso forçar o tórax assim. — Respondeu sentindo um pouco de dor, mas ainda com ar de riso. — Agora... Vem cá, chega mais perto pra eu falar uma coisinha no seu ouvido.
Aria se mexeu um pouco, certificando-se de que não machucaria sua amiga, então se inclinou e murmurou. — Hm?
— Porque ciúmes? É pra você que eu quero dar. — Disse com seu tom mais sedutor, e concluiu em um sussurro. — Muito.
— Não me provoca assim, loirinha. — Pediu depois de sentir cada pelo de seu corpo se arrepiar. — Só agora me caiu a ficha. A gente tá em um hospital tendo uma discussão filosófica sobre as vantagens e desvantagens de dar e comer alguém sendo surdo.
Hanna riu de novo, porém dessa vez se controlando para não sentir dor. — Nós somos muito retardadas.
— Definitivamente somos. — Concordou também rindo.
(...)
No dia seguinte, Aria passou o dia dividindo o tempo entre dar atenção para a melhor e amiga trocar mensagens misteriosas, saindo algumas vezes do quarto para atender ligações sabe-se lá de quem.
Hanna sentia-se cada vez mais intrigada, porém sempre que tentava descobrir do que se tratava, a morena desconversava e se esquivava, até que a loira desistiu para evitar somar frustração à suas outras dores.
Alguns dias se passaram e sempre que Aria ficava de acompanhante, continuava com o mesmo comportamento estranho, assim como durante os horários de visita. Inclusive naquele momento.
— Hanna, qual é a dela com esse celular? — Emily questionou franzindo o cenho de leve quando Aria saiu do quarto para atender mais uma ligação misteriosa.
— Não faço a menor ideia. Eu já perguntei um monte de vezes, mas ela desconversa e foge do assunto. — Replicou dando de ombros, em seguida fazendo uma de suas frequentes piadas para tentar se lidar com seu futuro. — Não posso gastar os meus de três a oito anos de audição discutindo porque minha amiga tem assuntos particulares.
Fields apenas soltou uma risadinha constrangida e concordou com a cabeça, porém dizendo. — Mas que isso é esquisito, é, né?
— Com certeza. — Enfatizou abrindo bem os olhos.
— Ah, a Aria ficou diferente mesmo desde que rompeu com o Ezra. — Spencer entrou conversa com um sorriso despreocupado. — Deixa ela.
— Pera aí, pera aí, pera aí um minuto. Fala mais devagar que eu acho que não escutei direito. — Pela primeira vez em dias, Hanna falou sobre audição sem o intento de sátira. — Ela tá diferente desde o que?
— Desde que terminou o namoro com o Ezra. — Spencer falou de maneira mais clara.
— E quando foi que isso aconteceu? — Indagou sentindo-se totalmente confusa.
— Ué, ela não te contou? — Emily também estava sem entender, afinal acreditava que Hanna havia sido a causa disso.
— Voltei, meninas. — Aria ressurgiu no quarto com um sorriso inocente, alheia a toda aquela conversa. — Então, eu queria perguntar, mas com tudo o que aconteceu, a gente acaba se esquecendo dessas coisas mais superficiais, né? O baile de formatura tá chegando e...
Porém desse momento em diante, Hanna começou a encarar Aria de uma maneira diferente, tornando o clima do quarto muito mais pesado e tão denso que chegava a ser quase palpável, fazendo assim o tempo passar arrastado e extremamente desconfortável até o fim do horário de visitas.
Quando, por fim, o Doutor Miller surgiu para avisar que elas deveriam ir embora, Emily e Spencer se sentiram aliviadas. Aria, todavia, estava determinada a ser a acompanhante para saber o que havia acontecido para Hanna estar daquele jeito. E acabou conseguindo, apesar da velha insistência de Ashley para ficar.
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