Operação Roleta Russa
4 Questionamentos
Notas iniciais
O cheiro de maresia se misturava ao perfume de café fresco, e o ar gelado das montanhas fazia os cabelos negros de Roxanne Domenichelli balançarem revoltos. Ela caminhava cerca de dez passos a frente do Soldado Invernal.
Ele analisava o ambiente. Estava certo sobre a parte traseira da mansão Domenichelli, ali havia um grande espaço aberto com piscina e área de refeições. Tudo mesclando aquele estilo clássico e contemporâneo que era visto por toda a mansão. E no final, a queda natural do terreno era ladeada por uma varanda com parapeitos de pedra, dali era possível ver o mar metros abaixo. De fato os Domenichelli possuíam uma praia privativa.
Porém, Bucky não tinha tempo de apreciar a vista, logo notou que Strovalenko estava sentado em uma das mesas de ferro junto com um outro homem, Barnes reconheceu de imediato. Vicenzo Domenichelli, o pai de Roxanne, líder da Máfia Italiana.
Era exatamente como nas fotos, tinha por volta dos sessenta e poucos anos, seu rosto era redondo, severo, com algumas rugas e manchas da idade, seus cabelos grisalhos eram rarefeitos por todo o topo da cabeça, lhe dando uma careca quase lustrosa. Ainda assim lá estava ele, com a pose de um magnata, vestindo terno e gravata às sete da manhã, para um desjejum na frente de sua piscina estupidamente grande e chique.
— Buongiorno, papa. — Roxanne cumprimentou em italiano, parando atrás da cadeira do pai e apoiando as duas mãos nos ombros dele para dar-lhe um beijo na bochecha direita.
— Está atrasada. — Vicenzo disse em um inglês carregado de sotaque, sequer lançando um olhar carinhoso para a própria filha que se sentou entre ele e Strovalenko.
Bucky se aproximou, parando por perto e permanecendo de pé, já que não tinha sido dispensado por ninguém. Benedetta também estava ali a disposição dos patrões, cinco passos longe da mesa onde todo o tipo de pães, frutas, queijos, sucos e outras coisas podiam ser vistos.
— Não está vestindo o que lhe dei. — Viktor mediu a noiva de baixo a cima com desgosto, ignorando qualquer outra pessoa que estivesse por perto.
— Isso porque seu adorável presente é ao menos dois tamanhos maior que meu corpo. — Roxanne respondeu com naturalidade e por um instante o casal se encarou, como se medissem mutuamente a reação um do outro. — Mas certamente foi erro da loja, porque você nunca cometeria esse equivoco, não é mesmo?
Barnes tentou não demonstrar qualquer reação, sabia que a jovem Domenichelli não havia provado as peças, mas não era possível dizer se as roupas eram mesmo maiores do que seu corpo ou não. De toda forma era evidente que havia algo estranho naquela declaração, dada a forma como Roxanne interagiu com o presente no quarto. Pontuou isso mentalmente, como um detetive que começa a montar um quadro de pistas...
— Resolverei o problema. — Strovalenko declarou rude e contrariado, era evidente que não estava satisfeito, mas a desculpa de sua noiva pareceu deixá-lo sem resposta. — De toda forma se arrume melhor quando eu estiver presente, suas roupas são broxantes.
Certo que o macacão verde não era um exemplo de sensualidade, mas daí a dizer que era “broxante” talvez fosse exagero. Além de uma grande falta de delicadeza com a própria noiva.
Roxanne não respondeu, mas seu olhar escuro se alagou de raiva assim que Viktor abaixou a cabeça para comer um pedaço de queijo. Bucky guardou mais aquele pequeno fragmento de informação em seu quadro de pistas mental; ambos eram noivos, porém não pareciam nutrir sentimentos românticos um pelo outro. Strovalenko tratava a futura esposa de forma grosseira e a desrespeitava pelas costas, Domenichelli oscilava entre a doce mulher recatada e alguém profundamente desgostosa da presença do noivo. Ela parecia um enigma.
— Então essa é a sua nova aquisição? — Vicenzo Domenichelli questionou e só então Barnes notou que estava sendo analisado.
— Soldado Invernal. — Strovalenko disse sem grande empolgação e ergueu sua cabeça, focando em Bucky pela primeira vez e franzindo as sobrancelhas de forma irritada. — Por que isso está vestido assim? — Seu olhar verde-veneno seguiu do terno de Barnes para o rosto da noiva. — Eu te dei uma arma, não uma Barbie com um guarda-roupa de luxo.
— Você não me deu uma arma, adorado noivo, me deu um guarda-costas. — Roxanne respondeu, enquanto Benedetta servia-lhe café puro. — Já que não é um revólver que posso colocar dentro da minha Prada, tenho que vestí-lo de acordo, não acha?
— Ela não está errada, as aparências são importantes, Strovalenko. — Vicenzo comentou, sorvendo o liquido em sua própria xicara, com os olhos claros ainda no Soldado. — Porém, não acha um desperdício deixar uma arma desse porte nessa posição?
Viktor respirou fundo, a irritação dele exalava de forma estranha, como se o simples fato de alguém fazer um “elogio” para a eficiência do Soldado o tirasse de seu prumo.
— Décadas atrás o Punho da Hydra podia ser um grande trunfo, hoje em dia essa ferramenta se tornou obsoleta. Eu podia cumprir qualquer uma de suas ditas “missões gloriosas” com ainda mais eficiência e rapidez. Mandá-lo em incursões não é de meu interesse. — O líder da Hydra declarou em claro desdém. — O Schwerer Gustav era o melhor canhão da segunda guerra, considerado o maior avanço já feito em uma arma, ainda assim, hoje não passa de metal velho em um museu.
Bucky não sabia se ficava aliviado, porque não seria mandado nas antigas missões de assassinato, ou se ficava preocupado por Strovalenko não se interessar pelo Soldado Invernal o bastante, afinal a missão dependia da proximidade para recolher informações.
A clara prepotência de Viktor estava se mostrando um grande problema.
— Porém é evidente que isso ainda tem suas utilidades, afinal é uma peça controlada que não cairá nos encantos de sua adorável filha. — Ele focou na noiva de forma irritada, para voltar a atenção para o pai dela em seguida. — E no fim, manter minha noiva em segurança não parece um desperdício para mim, Dom Vicenzo. Sei que ela tem seus subordinados, mas prefiro que a vida dela esteja sob a supervisão de ativos mais confiáveis.
— Compreendo. — Foi tudo que Vicenzo Domenichelli respondeu. — Gosto que cuide da minha filha, mulheres precisam de pulso firme mesmo.
Roxanne olhou do pai para o noivo de forma apática, escondendo seu rosto na xicara de café como se precisasse conter suas reações. Quando ela pousou o objeto novamente sobre a mesa havia apenas um sorriso dócil em seus lábios fartos, e nenhuma palavra saiu deles.
E assim foi pela próxima meia hora, com ambos os homens conversando sobre negócios. Haveria um compromisso naquele dia, compra de armas pelo visto e Vicenzo pretendia estar ao lado de Strovalenko. Não que o russo tivesse feito um convite formal.
Bucky estava impaciente, notou logo que ficaria ali, preso na ilha com a italianinha enigmática, enquanto negócios seriam feitos longe de seu conhecimento. Seria um atraso e tanto para a missão.
Tentou encontrar algum consolo no fato de que sempre esteve bem claro que aquela operação duraria por meses, era tudo uma questão de oportunidade e pelo visto Barnes ainda teria que esperar pela perfeita...
— Vamos indo então. Ainda tem que arrumar suas coisas para a vigem, Dom Vicenzo. E eu não quero me atrasar. — Strovalenko declarou, limpando a boca em guardanapo e jogando a peça na mesa ao se levantar.
Ele encarou a noiva de cima por alguns instantes, suas íris verde-veneno sem qualquer traço de carinho.
— Esteja apresentável da próxima vez, assim terei prazer em passar algum tempo a seu lado. — Ordenou seco, como quem fala com um subordinado rebelde.
— Certamente, adorado noivo. — Roxanne respondeu, mas Barnes julgou ter visto o relance de um sorriso satisfeito passar rapidamente pelo rosto feminino.
— Jogue as peças que trouxe para minha noiva fora, comprarei novas em uma loja mais competente. — Viktor sequer deu um olhar de verdade para Benedetta, mas estava bastante claro que a ordem era para ela.
A velha senhora assentiu, murmurando um “sim, senhor” em inglês arranhado.
— Faça minha mala, Benedetta. Depois disso cuide dos seus afazeres de rotina enquanto eu estiver fora. — Vicenzo ordenou também, e a governanta saiu imediatamente para fazer o que lhe foi pedido.
Roxanne se colocou de pé e se aproximou do pai.
— Faça boa viagem, papa. — Ela desejou, dando-lhe um beijo na bochecha.
O homem focou em sua filha por alguns instantes.
— Não faça uma das suas americanizes modernas em minha ausência. — Advertiu sério, em italiano, e Barnes franziu as sobrancelhas, o que aquilo significava?
Roxanne não respondeu, apenas se virou para Viktor em seguida.
— Faça boa viagem também, adorado noivo. — Ela declarou em tom similar, porém não se moveu um só passo na intenção de beijar Strovalenko.
O líder da Hydra apenas assentiu seco e deu as costas. Eram um casal muito estranho aqueles dois.
— Cumpra suas ordens, Soldat. — Viktor disse, sem de fato olhar para Barnes.
Ambos os chefes da máfia se afastaram juntos, cruzando com Frank que vinha da direção oposta naquele instante. O italiano cumprimentou seu Dom educada e respeitosamente, como mandavam os costumes.
— Não demore, suas nostalgias não me interessam de nada. — Strovalenko declarou sem qualquer tato, seguindo seu caminho com o patriarca Domenichelli logo em seguida.
Francesco passou por Bucky e moveu a cabeça de forma amigável.
— Amico... — Cumprimentou de bom-humor, e logo seu sorriso se abriu imensamente quando ele pousou seus olhos em Roxanne. — Mia Donna!
Barnes teve alguma dificuldade de entender o sentido da última palavra, “Donna” significava “mulher”, mas não parecia provável que Francesco Greco estivesse chamando Roxanne de “Minha mulher”. O Soldado presumiu então que era alguma gíria ou apelido e acabou deixando isso de lado, ao ver a jovem receber o italiano de braços abertos e covinhas nas bochechas.
— Frank... — Os dois se abraçaram e ele beijou ambas as mãos dela em sinal de respeito. — Senti sua falta.
Domenichelli foi mais carinhosa com Greco naquele pequeno instante do que tinha sido durante todo o café da manhã.
— Eu também. — O italiano respondeu. — Como está?
Eles se afastaram um pouco, caminhando pela borda da piscina e Barnes ficou onde estava, notando que o tom da conversa diminuiu consideravelmente.
— Acha que vai ser um problema? — Frank questionou em um italiano falado muito rápido. Bucky teve que se concentrar um pouco mais para ouvir melhor. Era óbvio que estavam se referindo a presença do Soldado Invernal.
— Não sei, honestamente. — Roxanne respondeu, ambos pararam no beiral, olhando o mar lá embaixo.
Ela virou o rosto por sobre o ombro e seus olhos escuros procuraram por Bucky, que tinha sua postura militar impecável e encarava o lado oposto, como se sequer estivesse prestando atenção à conversa.
— Viktor disse que ele não entende italiano, acredita nisso? — A herdeira da máfia perguntou para Frank.
Se a questão estava sendo levantada daquela forma, então de fato havia algo a ser falado que não podia ser do conhecimento de Strovalenko. Talvez estar na Sicília não fosse um desperdício de tempo completo afinal...
Enquanto perguntava, os olhos de Roxanne continuaram em Barnes e ele se esforçou ainda mais para permanecer impassível e desconectado da conversa. Era importante que a italianinha acreditasse que podia falar em um idioma que ele desconhecia.
— Bom, provável, a Hydra não é exatamente muito inclusiva, não é mesmo? — Francesco felizmente, por inocência talvez, acabou corroborando com a mentira e seguiu falando em italiano. — Não acha estranha essa decisão de deixar o Soldado aqui?
Roxanne ficou em silêncio por alguns instantes, seus olhos se voltando para o mar como se ela contemplasse toda a situação de longe.
— Não. — Disse por fim, sua voz decidida e firme, mas muito calma. — É de fato algo muito inteligente. Por dois motivos na verdade.
— Explique, porque certamente não tenho tanta visão quanto você, mia Donna. — Frank pediu e Bucky ficou satisfeito, porque aquilo era algo que também queria entender.
Por que deixar o Soldado Invernal longe da ação?
— Primeiro, depois do Andrey, Viktor não vai arriscar de novo. Ter alguém como o Soldado ali ao meu lado é apropriado por esse motivo. — Roxanne respondeu com a certeza de quem diz a absoluta verdade. Quem era Andrey?
Talvez um dos homens a serviço da italianinha que Viktor havia dito que matou?
— E segundo? — Frank questionou e Barnes continuou a prestar atenção, afinal a primeira parte da resposta era algo parecido com o que o próprio Strovalenko havia revelado.
Apenas reforçava que ele não confiava em sua própria noiva.
— Viktor está com medo. — Roxanne declarou com a convicção de um matemático diplomado que diz o resultado de uma equação simples.
— Medo? — Frank soou incrédulo e Barnes no fundo compartilhava desse mesmo sentimento, porém o dele estava totalmente impregnado de curiosidade.
Aquele tipo de informação seria muito útil.
— A volta do Soldado Invernal coloca Viktor em uma situação complicada. — A italianinha declarou simples.
Frank ficou calado por alguns instantes. Barnes tentava ver pela visão periférica a postura do homem e ele claramente não concordava com aquelas palavras, na verdade o próprio Bucky também não concordava.
— Eu não vejo assim, ter o Punho da Hydra é exatamente o trunfo que ele precisava pra unir o pessoal das antigas de novo, não é? Pra finalmente conseguir a colaboração de todo mundo? Pra juntar todo o exército que ele quer e chutar nossos homens de vez? — Greco expressou suas ideias de forma tão rápida e baixa que Barnes teve certa dificuldade de acompanhar.
Strovalenko não possuía o apoio de toda a Hydra naquela ascensão?
Talvez devesse se surpreender por haverem “pessoas das antigas” para unir, mas honestamente, no fundo Barnes desconfiava que aquela “queda da Hydra” era apenas uma ilusão. E talvez tenha sido bom se iludir por todo aquele tempo, por isso demorou tanto para ver o óbvio.
— Pode até ser, mas Viktor é narcisista demais, ele não vai dividir os holofotes com o Soldado Invernal. Cada missão que o Soldado cumprir vai ser vista como um fracasso pessoal pelo Viktor. — Roxanne explicou com a certeza de quem sabe exatamente o que fala. — Tudo que ele conquistou de apoio até agora foi porque se provou um líder que coloca a mão na massa. Se o Soldado Invernal começar a ser a linha de frente nesse tipo de coisa, Viktor perde o seu pódio e cada vitória seria um “conseguiu apenas porque tem um super soldado a disposição”.
Aquilo na verdade explicava muito bem o motivo de Strovalenko ter claro desdém pelo Soldado, e também a razão de sequer ter cogitado colocá-lo na ativa de fato.
Bucky estava certo quando ponderou que Viktor gostava de sujar as mãos.
— Ele de fato tem um ego muito grande para permitir que digam tal coisa... — Frank concordou finalmente.
— E não é só isso. — Roxanne prosseguiu em seu italiano quase sussurrado. — Ele sabe que não é o líder por direito da organização, ele tem a Máfia Russa, mas ele não tem a Hydra, não a Hydra raiz pelo menos. Sendo assim, com o Soldado Invernal sendo o maior e melhor trunfo novamente, isso significa que quem está no poder não importa, basta ter as palavras certas, qualquer um dos velhotes que está escondido pode tirar a liderança de Viktor.
Aquela informação era nova e importante, e não constava nos arquivos. Strovalenko ainda não havia conseguido assumir e unir toda a Hydra, isso era bom.
— Porque com certeza a maioria seria leal aos antigos e Viktor seria apenas o garoto da Máfia de novo. — Frank completou e a morena ao lado dele assentiu.
— Ele seria um membro comum e não a cabeça, como tanto quer ser...
Aquela simples conversa dos dois estava esclarecendo muita coisa para Barnes, ao mesmo tempo em que deixava claro que se aproximar de Strovalenko se tornava cada vez mais uma realidade distante. Teria que cumprir a missão de outro jeito.
— Se o Soldado Invernal é um problema, então por que mantê-lo ativo, porque não colocá-lo na criogenia? — Francesco Greco fez uma pergunta muito pertinente.
A simples menção a ser congelado de novo fez com que o desconforto se espalhasse pelo corpo de Bucky como uma doença terminal. Era como se sentisse falta de ar, mas tinha que continuar ali, parado, e na postura perfeita, não podia se permitir o erro. Além disso, tinha que apurar a audição o máximo possível, já que a dupla falava em um italiano muito rápido e baixo que podia facilmente ser incompreensível caso Barnes não estivesse atento.
— Eu pensei nisso durante o café da manhã. De primeira parecia que era só pra me irritar. — Roxanne respondeu com um mover de ombros que ficou delineado na visão periférica do olhar azul-gélido. — Manter alguém como o Soldado Invernal atrás de mim é uma solução adequada, talvez a melhor chance de me domar como Viktor tanto quer.
— Acha que ele desconfia de algo? — Frank perguntou e a tensão na voz dele deixava clara a importância da pergunta.
— Não do que importa. — A italianinha disse simples.
Então de fato ela estava escondendo algo do noivo. Mas o que seria?
O som das gaivotas na praia lá embaixo se espalhou entre eles por uma infinidade de segundos, Roxanne olhava o mar e Francesco estava pensativo, por um instante curto Bucky se permitiu olhar diretamente para a silhueta feminina banhada pelos tons quentes do sol nascente.
Quem é você Roxanne Domenichelli? Era a única pergunta rodando em looping na mente de Barnes. Ele se forçou a voltar a sua postura, desejando que a conversa prosseguisse e que houvesse uma resposta definitiva entre as palavras que ele ouvia clandestinamente.
— Você disse “de primeira”, então quer dizer que pensou em outro motivo? — Francesco questionou e Bucky agradeceu internamente por isso.
Roxanne parecia conhecer Strovalenko bem, ou seja, qualquer informação vinda dela, que ajudasse Barnes a entender o líder da Hydra era de grande proveito.
— É bem óbvio até. — A morena declarou neutra. — O Soldado Invernal é um problema para o Viktor, mas também é a solução.
Bucky foi incapaz de conter o franzir de sobrancelhas que surgiu em seu rosto por um milésimo de segundos.
— Como assim? — Novamente a pergunta de Greco foi um reflexo dos questionamentos curiosos e surpresos do próprio Barnes.
— O projeto Soldado Invernal é uma falha, Frank. Teria sido implementado mais veze se não fosse. — A herdeira Domenichelli explicou e Bucky tentou não franzir as sobrancelhas novamente.
Ela parecia saber muito mais sobre o assunto do que havia revelado momentos antes no quarto...
— Mas esteve ativo por décadas. — O italiano retrucou, como se não visse lógica alguma naquela frase.
— Não. Eles tiveram uma única cobaia instável ativa por décadas, isso é diferente. — Roxanne respondeu calma e Barnes foi obrigado a concordar, ele foi de fato uma cobaia instável por anos, esse era um dos motivos pra ser mantido tanto tempo em criogenia, podia ser considerado um sucesso para a Hydra, mas sempre foi categorizado com aquela palavra. Instável. — O homem por trás do Soldado já encontrou o caminho de volta para o controle da própria mente uma vez. Ele pode fazer isso de novo.
A última frase realmente surpreendeu Bucky, porque embora a certeza da italianinha fosse explícita, ela não parecia preocupada com essa possível ameaça iminente. A cada instante que passava Roxanne Domenichelli parecia um enigma ainda maior.
Pela visão periférica os olhos gélidos viram Francesco encarar a jovem Domenichelli por alguns instantes, ele parecia ver mais por trás daquelas palavras do que o próprio Barnes era capaz de desvendar.
— Está insinuando que Viktor está esperando pela falha? O que ele ganharia com isso? — As perguntas vieram a seguir, em um tom que misturava surpresa e preocupação.
Como é?
Aquilo seria extremamente inusitado, afinal tudo que a Hydra sempre tentou fazer foi manter o Soldado Invernal sob seu domínio. Sendo assim, Strovalenko desconfiar que Barnes podia emergir do controle mental e não tomar qualquer atitude sobre isso era, de todas as formas, o contrário completo de qualquer coisa conversada durante o planejamento daquela missão...
Bucky começou a ficar ansioso com o rumo que as coisas estavam tomando, e isso só piorava, pois ele não podia se mover ou expressar qualquer uma dessas emoções no momento.
— Lembra quando foi me procurar em Paris? — Roxanne questionou, e embora o assunto tivesse mudado, era como se estivesse falando da mesma coisa.
— Como se fosse ontem... — Frank respondeu neutro.
Barnes presumiu que estavam falando da semana do blip, afinal haviam os registros do tal voo particular saindo de Paris em nome de Francesco Greco.
— Você me disse que as pessoas me aceitariam se eu me provasse digna da lealdade delas, esse seria o melhor jeito de unir o nosso povo durante uma crise. — A herdeira Domenichelli relembrou com um toque de nostalgia na voz. — O melhor jeito é bom, Frank, mas existem outros e você sabe disso...
Houve uma resposta interessante ali, porque aquela pequena frase revelou que a volta de Roxanne para a Sicília foi um pedido de Frank. Ele queria que ela liderasse a máfia na ausência de Don Vicenzo?
Bucky não teve tempo o suficiente de pensar nisso, porque Francesco puxou a conversa para o assunto principal outra vez, fazendo uma conexão no tom de quem mata uma charada:
— Viktor vai unir o velho pessoal da Hydra dando a eles algo em comum para odiar.
— Algo, não. Alguém. — Roxanne se virou, seu olhar escuro pousando em Barnes, que se esforçou para parecer ainda mais impassível e distante. — Um novo despertar de James seria o motivo perfeito para trazer todos os membros reticentes de volta. Porque o único motivo para terem evitado vingança ou confronto contra um fugitivo desse porte até hoje, foi porque Barnes não sabia que a Hydra havia sobrevivido e que vários membros relevantes ainda estão por aí escondidos como baratas.
— É mais importante continuar indetectável do que eliminar um desertor. — Frank completou, e mais do que o mesmo idioma, os dois estavam falando exatamente a mesma língua, como se o pensamento deles se completasse.
Bucky notou algo relevante ali, então Roxanne já sabia quem ele era quando os dois se viram pela primeira vez naquele quarto? O ato de buscar o nome verdadeiro dele no celular foi o quê? Encenação?
Ele se sentiu uma peça de damas solta em um tabuleiro de xadrez, não conhecia as regras, mas era evidente que todos ao redor estavam jogando com ele...
Sentiu raiva e sequer sabia exatamente o motivo, afinal tudo isso sempre esteve implícito quando aceitou entrar na Operação Roleta Russa, estaria no meio de mafiosos e criminosos, certo? Todos mentiriam para ele.
Talvez seu erro tenha sido pensar que Roxanne era diferente daqueles que a cercavam. As gentilezas gratuitas dela não queriam dizer nada.
— Mas agora a oportunidade perfeita de Viktor está bem aqui. — A italianinha prosseguiu. — A partir do momento que James se libertar desse controle mental ridículo, e sabemos que ele vai, porque foi exatamente assim antes, Viktor vai poder dizer que o pior já aconteceu, a existência da Hydra foi descoberta e eles precisam lutar. Além disso uma falha do Soldado Invernal, de novo, é a prova perfeita de que a velha guarda está ultrapassada e que novos métodos precisam ser implementados.
Barnes teve que deixar seu próprio ego de lado, não era hora de buscar sentido nas ações e atitudes da herdeira da máfia, haviam informações mais importantes sendo explanadas naquele instante.
— Isso é tudo que o Viktor quer, ele certamente está planejando uma caçada gloriosa que vai fazer dele, definitivamente, o líder absoluto da Hydra. Ninguém vai se negar a seguí-lo ou obedecê-lo nessas circunstâncias. Não com um fugitivo tão perigoso a solta. — Roxanne concluiu e o tom dela era tão convicto que Bucky sequer pensou em duvidar. — E se Viktor matar o Soldado Invernal nessa caçada...
— Ele vai ganhar a lealdade de todos os que ainda estão reticentes. — Frank completou tenso. — E não vai precisar mais do nosso pessoal.
A morena apenas assentiu e sem querer, aquele quebra-cabeças acabou ganhando mais uma peça... então era isso que o acordo das duas máfias dava a Strovalenko: pessoal.
Barnes recordou dos italianos no hangar, da forma como eles eram superiores em número e tudo fez sentido. Se Viktor não tinha todo o apoio da Hydra, ele precisava de equipe extra e a máfia italiana tinha essas pessoas disponíveis pelo visto.
Mas o que a organização criminosa chefiada por Vicenzo Domenichelli estava ganhando em troca? E o mais importante, por que Roxanne havia concordado em se casar com um homem que claramente ela não amava?
Barnes não tinha nem ideia das respostas para essas perguntas, mas uma coisa ficou bem clara com aquela conversa dos dois italianos. Falhar na Operação Roleta Russa daria a Strovalenko tudo que ele queria.
Era imperativo que o disfarce de Bucky permanecesse intacto.
— Ou seja, temos um problema. — Frank comentou, depois de pensar por alguns instantes.
O Soldado ouviu a risadinha calma de Roxanne e pela visão periférica viu a morena pousar ambas as mãos nos ombros do italiano a sua frente.
— Não ainda, por enquanto vamos seguir o plano e lidar com as coisas conforme forem acontecendo. Não se preocupe. — Declarou apaziguadora, como se não tivesse acabado de pintar uma realidade preocupante com suas palavras há alguns segundos. — Agora é melhor ir, não quero que você fique com problemas.
— Sim, mia Donna. — Frank concordou de imediato, como se a um simples comando da herdeira da máfia ele tivesse guardado todas as suas preocupações dentro de um baú.
Bucky percebeu que seu primeiro pensamento sobre Roxanne, aquele que teve logo que pousou os olhos na foto dela ainda nos Estados Unidos, estava totalmente certo. De fato a italianinha era alguém que vê o mundo queimar e não se abala por isso. A tragédia eminente, aos olhos dela, era mesmo previsível e provavelmente planejada...
— Frank? — A jovem chamou, depois que o homem já havia se virado e estava prestes a passar na frente do Soldado Invernal. — Dobre o pagamento de nossas amigas, por favor.
Francesco deu meia volta com as sobrancelhas já franzidas. Ambos ainda falavam em italiano.
— Dobrar? Elas já ganham cinco vezes mais do que ganhariam trabalhando naquela espelunca, quando tinham que dormir com em média dez homens diferentes por noite. Além disso, você garantiu uma vida com todas as regalias para a família delas. — Ele parecia discordar das ordens que havia recebido.
Bucky começou a ficar curioso com o assunto. De quem os dois estavam falando?
— As duas valem cinquenta vezes mais que isso para mim, Frank. — Roxanne retrucou calma, mas firme. — E elas tem feito um bom trabalho.
O italiano assentiu, como se não pudesse descordar daquela afirmação.
— Trabalharam bastante hoje naquele avião, de fato. — Declarou, deixando claro que faria o que era ordenado.
Espera... eles estavam falando das... gêmeas?
— Quer saber? É melhor triplicar o pagamento delas, a paz que as duas me dão não tem preço. — A italianinha decidiu e dessa vez Francesco Greco apenas concordou, saindo em seguida.
Roxanne Domenichelli estava pagando garotas de programa para transarem com seu próprio noivo? Qual era o propósito disso?
Seja qual fosse, Bucky teve certeza de que Strovalenko não sabia de nada...
O choque com aquela revelação inusitada e repentina fez com que Barnes ficasse desatento por um instante, de modo que ele só se deu conta que Roxanne estava bem na sua frente quando ela de fato invadiu o campo de visão dele.
— Vamos, James. Você precisa tomar um café da manhã reforçado, teremos um longo dia hoje. — Disse apenas, saindo na frente.
Barnes seu moveu para seguí-la, percebendo que, quanto mais ele sabia mais perguntas ele tinha...
Onde é que tinha se metido?
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