Operação Roleta Russa
22 Perguntas

Nova York era uma dessas cidades frenéticas com luzes demais e pouca beleza natural. Não era a primeira vez de Roxanne ali e sua opinião sobre o lugar seguia sendo a mesma: ela sempre iria preferir a Sicília. Lá as cores abundantes eram suaves e combinavam, enquanto na cidade dos americanos tudo parecia agredir o olhar. Além disso, o mar deles não cheirava bem, e as pessoas pareciam sempre muito mergulhadas em suas próprias vidas para dar atenção a qualquer um que passasse a seu lado. Porém, esse último fato era uma boa coisa naquela noite de temperatura amena, porque Roxanne até amava a Sicília, era seu lar, seu porto segura, mas na ilha todos sabiam quem ela era e pequenos luxos tolos não seriam permitidos em público, não enquanto estivesse noiva de Strovalenko.
Era difícil saber se ele tinha infiltrado alguém na cidade para ficar de olho em Roxanne, ou podia ter pagado um dos moradores. Nem todo mundo amava a Donna, embora ela tivesse a aprovação e carinho da maioria. Ou podia ser apenas paranoia, estava ciente disso, sua desconfiança natural podia estar lhe sabotando, porém cuidado não era demais nesse caso.
Então não, lá na Sicília ela não podia se permitir pequenos luxos como andar com James Barnes pelas ruas de mãos dadas, mas ali em Nova York ninguém sequer olhava para os dois, principalmente com o ex-sargento ocultando sua mão de vibranium com uma jaqueta e uma única luva.
A Donna sabia que podia ser a última oportunidade que James teria de andar tão livre e casualmente pelas ruas de Nova York. Porque, depois que resgatassem Frank das garras da CIA, seriam personas non gratas naquele país. Se tornariam criminosos procurados.
A bem da verdade, Roxanne ainda não acreditava que Barnes tinha decidido ficar ao lado dela para algo assim... Ele a escolheu acima de tudo, mesmo que isso significasse se tornar um fugitivo na lista dos mais procurados. Esse era o tipo de coisa que a Donna jamais teria pedido a ele, então foi uma surpresa absurdamente comovente James ter escolhido isso por vontade própria.
Era uma prova de amor. Mesmo que nenhuma prova tenha sido exigida.
Roxanne virou o rosto na direção de James, seus olhos se encontrando por um segundo sob as luzes florescentes de Nova York. Ele sorriu, o coração dela saltou uma batida, seus dedos entrelaçados se apertando um pouco mais. Deus, realmente amava aquele homem.
E ela queria viver esse sentimento. Queria de verdade. Estava se jogando de cabeça, enfrentando seus medos e paranoias.
O destino até ali não foi um bom aliado para fazer de Roxanne alguém que saberia como aceitar amor. No geral, com pessoas normais e mentalmente saudáveis, conhecer alguém não era um salto de fé, mas para jovem Domenichelli era exatamente isso.
Então, na maior parte do tempo, ela estava lutando contra seus próprios instintos para se permitir viver tudo aquilo ao lado de James. Não era apenas sobre não aceitar simples momentos de folga, até que ele chegasse. Não eram os pequenos luxos e os desejos que a Donna nunca se permitiu ter, até que estava desejando aquele homem como um pequeno luxo secreto. Era mais que isso...
Era sobre confiança.
Roxanne não confiava nas pessoas, mas tinha escolhido confiar em Barnes. E esse era um trabalho constante que exigia que ela lutasse contra os próprios instintos e traumas. Não podia deixar que os acontecimentos de seu passado sabotassem sua felicidade.
Amar James Barnes era um trabalho árduo, não porque ele fosse difícil de ser amado, mas porque a Donna não se achava digna de amor... Então ela estava sempre duvidando.
Mas não queria duvidar, e esse era o motivo de suas pequenas batalhas mentais. Como naquela tarde, quando Barnes saiu para "pegar o carro" e Roxanne teve um pressentimento ruim. Seu impulso foi seguir o americano e ver a verdade com os próprios olhos. Mas ela escolheu não agir.
Por isso, foi tão difícil ouvi-lo dizer que de fato estava mentindo sobre o carro. Ele tinha ido atrás da Mercadora. Roxanne teve que processar tudo aquilo por um segundo, seus instintos em pânico completo, sua mente lhe ordenando coisas que feriam no âmago. Seu senso de proteção ativou todas as suas defesas.
Precisou parar por um instante. Não podia deixar que suas respostas traumáticas a fizessem reagir de forma dramática. James estava contando a verdade, não tentou esconder nada por mais tempo que o necessário. Ele não era um fantasma do passado de uma jovem de catorze anos.
A Donna racionalizou a situação, se forçou a compreender motivações. Não era uma transgressão. Não era nada realmente grave. Ela escolheu confiar em James contra seus próprios instintos. Escolheu não destruir o que sentia com inseguranças que deviam estar mortas e enterradas.
Não era a primeira vez que fazia isso. Não era o primeiro momento em que interrompia o fluxo do próprio raciocínio para não criar paranoias que destruíssem sua bolha de amor.
Era exaustivo, verdade, mas Roxanne não se arrependia. Amar James Barnes era uma escolha que ela faria todos os dias. E ali, andando com ele de mãos dadas, como se fossem apenas duas pessoas absolutamente normais passeando por Nova York, a jovem Domenichelli soube que tinha valido a pena...
Barnes falava aleatoriedades sobre sua vida dos anos 40, histórias de sua juventude ao lado de Steve Rogers. O vínculo dos dois era inegável, e, mesmo que Roxanne nunca tenha ligado para essa coisa de Vingadores, ela admirou o antigo Capitão América. Qualquer um que capaz de colocar aquele brilho no olhar de James devia ser uma pessoa incrível.
Eles caminhavam pelo Washington Square Park, a movimentação de pessoas ali sendo bem menor que nas avenidas. Logo, o caminho em que estavam se abriu em uma praça circular, no meio dela uma fonte que se derramava em um espelho d'água, as luzes convergindo nos jatos formando prismas diversos com os respingos. Bem na frente, um grande arco trabalhado em gesso, logo abaixo dele uma pequena banda tocando uma melodia amena.
Havia uma certa paz ali, o que podia ser um tanto irônico, considerando o quão caótica era Nova York. A brisa suave soprou o cabelo de Roxanne e Barnes pousou os olhos nela, a expressão masculina não podia ser definida de nenhuma outra forma, a não ser: apaixonada.
A italiana sorriu, envolvendo o braço de James quando eles paravam perto da pequena banda. Havia um casal de vocalistas, um tecladista e um trompetista fazendo arranjos de músicas antigas.
— Quer fazer uma loucura? — Barnes perguntou de repente, os olhos azuis procurando as íris negras.
— Com você? Todas elas. — Roxanne respondeu, embora não tivesse pista alguma de qual era a ideia por trás daquela proposta.
— Tire seus sapatos. — Ele ordenou, um brilho de travessura em suas íris gélidas.
— Sério? — As sobrancelhas femininas se franziram em surpresa. Era um pedido inusitado.
— Não confia em mim? — James riu, já tirando os sapatos e meias.
Roxanne acabou rindo também, resolveu pagar para ver, tirando seus saltos e ficando descalça no chão da praça. Barnes se aproximou da banda e colocou uma nota na caixa que estava disposta ali no chão para recolher gorjetas. Ele murmurou alguma coisa para o vocalista e o homem virou para a mulher a seu lado e depois para o restante dos companheiros. Em seguida, o ex-sargento voltou para perto da italiana, estendendo a mão direita para ela em um convite que logo foi aceito.
Ele a puxou em direção ao espelho d'água, enquanto as primeiras notas do trompete ecoavam pela praça. O vocalista começou a entoar os versos de "New York, New York", no instante em que Barnes pulava a pequena mureta e colocava os pés na água. A fonte continuando a espalhar os jatos por toda a parte.
Roxanne riu, achando tudo aquilo absolutamente loucura, mas também colocou os pés na água, o espelho era raso, mal tocava seus tornozelos. James a puxou para perto, o braço de vibranium envolvendo a cintura dela, enquanto a outra mão se posicionava do jeito padrão de uma dança formal, os dedos dos dois entrelaçados.
Barnes conduziu os passos, ambos rindo um para o outro, enquanto a chuva causada pelos jatos da fonte os alcançava vez ou outra, as pessoas ao redor parando para ver os dois. Os toques animados do trompete sendo o estímulo perfeito para que James fizesse Roxanne rodopiar no meio do espelho d'água. Ele a impulsionou para o outro lado, inclinando o corpo dela e apoiando as costas femininas com o braço em um clássico movimento de dança.
— Eu disse que queria fazer isso com você em público. — Murmurou com os lábios próximos do dela, pouco antes de trazê-la para cima novamente.
— Você disse... — Roxanne admitiu. — Mas não pensei que fosse desse jeito.
— Que jeito? — James questionou, franzindo as sobrancelhas minimamente. Sua mão ainda firme na cintura feminina, conduzindo os passos dos dois no ritmo da música mais animada.
— Como se fossemos protagonistas de um romance clássico em preto e branco. — Ela riu, se deixando levar pelos movimentos que ele ditava. Seu corpo rodopiou sobre a água mais uma vez.
— Eu gosto de filmes em preto e branco. — A resposta veio quando eles estavam frente a frente de novo.
— Imaginei. — Foi tudo que a italiana disse, hipnotizada com a forma como as gotículas de água faziam a luz refletir nos olhos azuis.
A música mudou então. A banda escolheu algo mais romântico e lento. As primeiras palavras de "Unforgettable" vieram, o casal de vocalistas alternando as vozes como na canção original. Roxanne esqueceu totalmente que haviam pessoas ao redor deles, outros casais seguindo o exemplo e começando a dançar na água também. Ninguém ao redor importava. Apenas James Barnes, que agora estava colado nela, fazendo com que se movessem lentamente de um lado para o outro, seus olhos presos.
A letra da música parecia perfeita para o momento...
Roxanne Domenichelli sabia que aquele instante era memorável, mais valioso do que qualquer joia preciosa. Ela notou então que a maior parte de seus momentos com James era assim, inesquecível. Como se ele sempre estivesse se esforçando para fazer cada segundo valer a pena, trabalhando para deixar marcas tão permanentes quanto tatuagens na mente dela.
Ela se abraçou mais forte contra o corpo dele, era um momento tão perfeito, comovente e feliz, mas por algum motivo estúpido um pensamento intruso cortou sua mente. Algo tão bom assim não podia durar, não pra ela.
Tentou se desfazer dessa sensação ruim. Não era nada, apenas seus traumas tentando sabotar sua felicidade. Apoiou o queixo no ombro de James, aspirando o perfume dele como se isso pudesse afastar os fantasmas do passado e ancorá-la na realidade.
Não queria focar em nada pesado ou triste, porém sua mente ecoou esse pequeno pensamento angustiante e melancólico: "Quando ele se for. Quando isso acabar. Essas memorias vão ser cacos de vidro nos quais você vai ter que pisar todos os dias."
Apertou um pouco mais os dedos masculinos, afastando aquele mau-agouro como quem afasta uma mosca insistente. Barnes a envolveu mais perto, quase como se também sentisse a necessidade de se agarrar a ela para afastar um mau pressentimento.
— Eu te amo italianinha, não importa o que acontecer, eu sempre vou te amar... — Ele murmurou, e a honestidade em sua voz foi tão palpável que fez os pulmões da jovem Domenichelli soltarem todo o ar em puro alívio.
Seus lábios se uniram então. Bem ali, no meio de Nova York, tão as vistas do mundo que ninguém de fato olharia para eles. Seguros.
Roxanne não deixaria que os fantasmas do passado e as sombras de um futuro incerto destruíssem aquilo que ela estava vivendo no momento. Escolheria o amor. Escolheria James Barnes acima de seus próprios instintos.
Ela e ele ficariam bem. Eles ficariam juntos.
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O casal entrou no quarto de hotel, rindo de uma bobagem qualquer, os sapatos em suas mãos sendo jogados em um canto perto da porta. Bucky viveria aquela noite de novo mil vezes se pudesse.
Sabia que pela manhã teriam uma árdua missão de resgate, mas não queria que o Sol nascesse nunca por mais egoísta que isso pudesse soar.
Roxanne jogou os braços ao redor dos ombros dele, as roupas dos dois estavam um pouco úmidas por causa da chuva de respingos vinda da fonte, mas nenhum deles estava realmente preocupado com isso.
— Quer tomar um banho de banheira? — A italiana perguntou casualmente.
— Deixa eu ver... — Barnes fingiu pensar, enquanto envolvia a cintura feminina. — Você está mesmo perguntando se quero nossos corpos totalmente nus, colados um no outro, enquanto você vai estar toda molhada?
A risada que ela soltou se espalhou por todo o quarto, e isso fez com que um sentimento bom tomasse conta do coração dele.
— Tem razão, foi mesmo uma pergunta idiota. — A Donna respondeu, movendo a cabeça de um lado para outro. — Vou ligar a água.
Bucky a segurou, no entanto. Roubando um beijo rápido antes de declarar com a voz baixa e grave:
— Não, deixa. Eu vou te preparar o melhor banho de banheira que você já tomou na vida, Donna mia.
Ela mordeu os lábios para conter o sorriso enquanto assentia. Barnes roubou outro beijo antes de seguir para o banheiro, ligando a água quente e escolhendo entre os itens disponíveis algo que fosse cheiroso e fizesse espuma. Foi nesse instante que o telefone da suíte tocou.
— Alô? — Roxanne atendeu. — Sim, é ela. — Um segundo de silêncio e logo a resposta: — Certo, eu vou descer, um segundo.
Barnes já estava encostado na porta do bainheiro, olhando de forma preocupada para a figura feminina, quando Roxanne desligou.
— Problemas? — Ele questionou, sem saber o que esperar.
— Alguma coisa com o cartão que usei pra fazer o pagamento. — Ela moveu os ombros sem grande comoção, caçando a própria carteira por alguns segundos.
— Devíamos ter pagado em dinheiro vivo. — Bucky opinou, nada confortável com a decisão de terem usado um cartão no nome de Roxanne.
— Hoje em dia, pagar um lugar desses com dinheiro vivo levantaria muito mais suspeitas. — Ela argumentou sem parecer preocupada. — Além disso, ninguém está procurando a gente aqui em Nova York. Agir normalmente é a melhor coisa que podemos fazer, e pessoas normais pagam com cartão sem o menor problema.
Era uma resposta bastante lógica, Bucky sabia disso, as coisas não eram mais como há décadas atrás, realmente pagar um quarto tão caro com dinheiro vivo chamaria muito mais atenção. Além disso, Roxanne não era uma criminosa procurada, ninguém sabia que ela era a Donna, então estar hospedada em um hotel de Nova York era uma atividade perfeitamente legal. Mesmo assim, Barnes não conseguia apenas relaxar com isso.
Eles estavam planejando invadir a CIA afinal... Não que a organização pudesse prever o futuro, mas ainda assim, precaução nunca era demais.
— Quer que eu vá com você? — Ele perguntou, enquanto a Donna seguia para a porta. Ela negou com um gesto simples.
— Cuida do banho. Eu já volto. — Disse, prestes a tocar a maçaneta.
Bucky a segurou antes disso, puxando o corpo feminino contra o seu e a prensando na porta atrás deles, um segundo antes de tomar os lábios de Roxanne com volúpia. Suas mãos explorando as curvas dela enquanto ele fodia aquela boca doce com a língua, sem sequer dar tempo para que sua italianinha respirasse.
— Pra você voltar ainda mais rápido. — Declarou em um sussurro rouco, quando se separou dela segundos depois.
— Adoro o quão convincente você é, amore mio. — Roxanne sorriu, mordendo os lábios enquanto seus olhos brilhavam de excitação.
Ela saiu em seguida e Barnes seguiu para o banheiro, jogando um pouco mais de produto na banheira e testando a temperatura da água. Tinha acabado de voltar para o quarto, quando alguém bateu três vezes na porta.
Todos os alarmes soaram na mente do soldado, não estavam esperando ninguém, então qualquer que fosse a visita, aparecendo logo depois que Roxanne deixou o quarto, não podia ser pouca coisa. Agarrou a arma que estava sempre com ele, escondida na parte traseira de sua calça, e se aproximou cautelosamente, enquanto voltavam a bater na porta.
Ele colocou uma mão no gatilho, puxando a maçaneta com a outra, pronto para atacar quem fosse. Ergueu a mira e finalmente abriu a porta, a figura do outro lado lhe deixando em choque completo.
— O que você está fazendo aqui? — Sua voz saiu em surpresa clara, enquanto a arma lentamente era abaixada.
— Vendo se você ainda está vivo... — Sam Wilson respondeu, como se fosse a coisa mais simples de todas.
Ele vestia o típico disfarce norte-americano, boné e moletom. Nada do traje de Capitão América. E por mais que a primeira emoção de Barnes tenha sido ficar feliz ao ver o amigo, Roxanne podia voltar a qualquer momento e isso o deixava absurdamente tenso.
Wilson apontou o quarto, como se pedisse para entrar e Barnes deu um passo para trás.
— Agora eu tenho uma pergunta melhor... — Sam começou, fechando a porta atrás de si. — Por que você está hospedado no mesmo quarto que a herdeira da máfia?
Os olhos escuros focaram em Bucky, analíticos e desconfiados. O ex-sargento apenas se limitou a respirar fundo.
— Você está transando com ela? — A pergunta veio em um misto de surpresa e cautela. Barnes abriu a boca para responder, porém, não foi preciso. — Você está transando com ela!
Os olhos azuis reviraram. Haviam perguntas mais importantes para serem feitas.
— Como você me achou? — Questionou, mudando drasticamente de assunto.
— O Torres disse que permissões de pouso em Nova York foram concedidas para Roxanne Domenichelli hoje. Depois eu só tive que cobrar uns favores pra descobrir o hotel. — Sam encolheu os ombros como se fosse simples. — Estava preocupado com você, achei que monitorar o espaço aéreo podia trazer alguma pista. Pelo visto eu estava certo. — Novamente o olhar analítico estava em Bucky. — Valentina está ciente desse envolvimento? Ela sabe que você está aqui?
Barnes olhou para a porta de forma apreensiva, claro que queria conversar com Wilson, explicar as coisas, tranquilizá-lo, pedir que ele ficasse longe de Valentina e do confronto com a Hydra. Porém, Roxanne voltaria a qualquer momento, e pegar o Capitão América ali dentro do quarto seria a pior coisa que poderia acontecer...
— A garota não vai subir agora, Torres vai atrasar ela. — Sam comentou, como se decifrasse os pensamentos de Bucky.
O ex-sargento entendeu enfim que o telefonema sobre o cartão foi apenas uma distração. Eles tinham alguns minutos então.
— Valentina não sabe de nada. Ela não andava compartilhando muita coisa comigo, então também parei de compartilhar com ela. — Bucky foi honesto e direto. — Ela é diretora da CIA, não existe Alto Conselho.
As sobrancelhas de Sam se ergueram em surpresa, ele parou por alguns segundos pensativo e por fim concordou.
— Isso faz sentido... — Não pareceu muito contente em se dar conta da verdade, mas também não demostrou mais surpresa que o normal.
Talvez já estivesse acostumado com as mentiras do governo americano.
Focou em Bucky novamente então, como se tivesse acabado de lembrar de algo mais importante.
— Mas não muda de assunto? — Declarou, erguendo o dedo em riste. — Qual é a do amante de mafiosa? Ela obrigou o Soldado Invernal? Achei que tinham um acordo e ela sabia que você não estava sob controle das palavras.
— Ela sabe. — Bucky confirmou.
— Então... — Sam começou, e dava pra ver ele se dando conta que o próprio Barnes quis aquilo. — Cara... — Esfregou o rosto meio incrédulo, seu tom se tornando um pouco mais exasperado durante as próximas frases. — Tudo bem, eu entendo, décadas sem molhar o biscoito e tals, mas ela?! A menina é filha do líder da máfia e noiva do líder da Hydra. Você quer morrer?!
Bucky entendia o choque e a reação indignada.
— O nome dela é Roxanne. — Respondeu com a voz calma. — E, acredita em mim, Sam, ela não é como eles. Ela é diferente.
O olhar do Capitão América era o de quem vê um louco dizer sandices, porém uma realização repentina tomou conta de seu rosto então.
— Meu Deus... — Ele soprou no tom de quem acaba de saber de uma tragédia, um tanto de incredulidade vindo em suas próximas palavras. — Você está apaixonado por essa garota?
Barnes não conseguiu evitar o sorriso de canto que surgiu em seu rosto.
— Merda... — Sam entendeu bem rápido. — Isso é ruim, Buck, muito ruim. Ela é a futura primeira dama da Hydra, cara, você é louco?
— Roxanne não suporta o Strovalenko, quer acabar com a Hydra tanto quanto eu. — O ex-sargento tentou explicar. — E ela vai conseguir, Sam, eu sei que vai.
Infelizmente, sabia muito bem que, em uma conversa de poucos minutos, nunca faria Wilson entender quem Roxanne era de verdade.
— A garota é filha de um mafioso, pode ser que ela esteja se divertindo com você agora, mas ela vai te apunhalar pelas costas assim que o pai dela ver que você é um problema. — O Capitão América apontou em tom de alerta. — Cara, o pai dela é o líder da máfia!
Barnes encarou o amigo por alguns segundos, pensando se dizia a verdade. Se havia uma única pessoa no mundo em quem poderia confiar, era Sam Wilson.
— Na verdade ele não é. — Deixou no ar.
— Então quem é que.... — Sam começou, a realização tomando conta de seu rosto em questão de segundos. — Puta que pariu! — Ele se moveu exasperadamente pelo quarto, abaixando o tom de voz para gritar de forma sussurrada. — Você tá de caso com a rainha da máfia?! Você é maluco? Ela é uma criminosa!
Era engraçado ver que em um passado muito recente o próprio Bucky tinha pensado realmente assim.
— Não é ruim como parece. — Tentou explicar, muito mais calmo do que Wilson. — Roxanne não é uma Donna perversa, tudo que ela faz é pra proteger o povo dela.
— E enriquecer no caminho? — A resposta veio afiada.
— Proteção custa caro. — Bucky encolheu os ombros.
Sam pousou os olhos nele de forma incrédula. As mãos correndo pelo rosto em clara exasperação.
— Ela é uma boa pessoa com quem merece bondade. Mas ela leva justiça a quem pratica injustiça. — Barnes tentou explicar de um jeito rápido e curto.
Para que aquela conversa realmente fosse proveitosa e esclarecedora teria que durar horas. Mas os dois não tinham esse tempo.
— Isso é papo de quem quebra a lei. — Wilson apontou como se quisesse provar um argumento.
— Ah, qual é, Sam? — A mão de vibranium se moveu no ar em displicência. — A gente também já quebrou a lei. Até o Steve já quebrou a lei. Não é como se o Governo fossem um antro de honestidade. Você sabe disso.
— Não podemos mudar o mundo cometendo crimes. — O Capitão América disse uma frase totalmente digna de seu manto.
Bucky sorriu compassivo, sabendo muito bem que Wilson estava exatamente onde devia estar.
— Eu não quero mudar o mundo, Sam. Tenho cem anos, estou velho demais pra isso. — Declarou de forma simples, a verdade é que estava cansado de priorizar o que parecia certo e heroico, sendo que isso lhe machucava na maior parte das vezes. Será que era muito egoísmo da sua parte? — Eu só quero ser feliz uma única vez na vida. E a Roxanne me faz feliz.
O olhar de Wilson suavizou, ele deixou que a postura indignada se fosse, não parecia concordar, mas assentiu brevemente.
— E ela sabe a verdade? — Questionou preocupado.
Barnes respirou profundamente e encarou o chão.
— Puta merda, puta merda, puta merda. — O amigo adivinhou de imediato. — Bucky. Você vai morrer por isso.
Os olhos azuis focaram no Capitão América, um sorriso quase melancólico surgindo no rosto do ex-sargento.
— Eu sei. — Declarou conformado.
Os dois se encararam por alguns instantes, as íris escuras de Sam Wilson se enchendo de preocupação.
— E você realmente gosta tanto assim dessa menina? — A pergunta veio com algo mais subentendido nas entrelinhas: Realmente gosta tanto dela a ponto de dar sua vida por isso?
— Eu a amo, Sam. — Bucky assegurou com uma certeza inabalável.
Sam respirou fundo, a compreensão dominando sua postura. Ele negou, rindo de canto e passando a mão no rosto uma vez mais.
— Isso é loucura... — Apontou, mas sua irritação aparente tinha um certo tom de apoio que Barnes podia notar muito bem. Wilson não estava julgando, apenas preocupado. — O que aconteceu com aquele lema seu e do Steve? "Não faça nada estupido até eu voltar?"
Uma risada meio triste escapou da garganta do soldado.
— Acho que no fim da linha, ele deixou um pouco de estupidez comigo. — Encolheu os ombros de forma divertida.
Sam continuava a negar, andando pelo quarto como se pensasse rápido. Parou na frente de Bucky então, o encarando por alguns segundos antes de respirar profundamente, como se apenas aceitasse que nada poderia fazer contra a verdade.
— Certo, então seu plano é derrubar a Hydra e viver de amor e crime? — Colocou seu ponto de vista às claras. Era simplista, mas bastante certeiro até.
— Algo assim. — Bucky concordou com outro encolher de ombros.
— Cara... — Sam apenas continuou a negar, rindo de forma nervosa. — E você acha que ela te ama o suficiente pra relevar o fato de que você começou tudo isso trabalhando para o governo, decidido a foder a organização que ela agora lidera?
Barnes prendeu o ar dentro dos pulmões por um tempo, sentando-se no sofá daquele ambiente que fazia as vezes de uma sala na suíte presidencial. Seus ombros caíram e os olhos azuis se fixaram em um ponto fictício.
— Eu acho que nesse ponto, com tudo que já aconteceu... Não é uma questão de amor. — Confidenciou em tom derrotado, era estranho dizer aquilo em voz alta. Parecia tornar o fim iminente ainda mais real. — Ela é a Donna, não vai poder deixar uma coisa dessas passar.
Sam se remexeu desconfortável.
— Certo, então você vai proteger esse segredo pra sempre, é isso? — Ele questionou, como se essa fosse a única coisa possível de ser feita.
— Não. Isso não seria justo. — Bucky soprou em um fio de voz. — Eu vou contar em breve.
O silêncio sepulcral que se espalhou pelo espaço naqueles segundos provou que Wilson entendeu muito bem o que aquilo significava. Morte certa.
— Você pode deixar uma carta com a verdade e fugir. — Opinou de repente, como se tivesse encontrado a solução perfeita. — Podemos ir agora mesmo, aproveitar a oportunidade. Esquece essa missão.
Os olhos azuis de Barnes focaram no rosto do amigo, um sorriso compassivo nos lábios do soldado.
— Eu não quero fugir dela, Sam. — Deixou claro, nenhum pingo de dúvida em sua voz conformada. — Quando chegar a hora, eu vou contar e permitir que ela me dê a punição que achar certa.
— Que puta baboseira masoquista e suicida é essa, cara? — Wilson rebateu de imediato.
Barnes riu, sabia que o Capitão América tentaria argumentar, mas nada mudaria sua decisão. Ficaria com Roxanne até o fim, morreria nas mãos dela, já estava decidido sobre isso.
Sam chegou a abrir a boca, porém se calou do nada, a forma sutil como moveu a cabeça indicando que ele ouvia algo através do comunicador.
— Ela está subindo. — Declarou apenas.
— Você tem que ir agora. — Bucky se colocou de pé no mesmo instante, o medo batendo em seu coração de forma quase irracional.
Os dois seguiram para a porta rapidamente.
— Você tem certeza do que está fazendo? — Wilson questionou, já com o pé pra fora do quarto.
— Absoluta. — Barnes afirmou com convicção, então comprimiu os lábios. — Desculpe, Sam.
— Boa sorte, Buck. Espero que seja feliz e que ela valha mesmo a pena. — O Capitão desejou, pousando a mão direita no ombro do amigo. — Mas se precisar de mim, sabe onde me encontrar.
— Obrigado. Por tudo. — As palavras saíram com um certo pesar, Barnes tinha certeza do que estava fazendo, porém aquela despedida não deixou de ser dolorosa.
Ali, naquele momento, olhando um para o outro, podia ser um adeus definitivo. Mas havia certo conforto na certeza de que Sam Wilson ficaria bem, ele estava exatamente onde devia estar, carregando um manto merecido. Ele sim mudaria o mundo.
Um movimento mútuo de cabeça e os dois se separaram.
— Capitão? — Bucky chamou de repente, sabendo que tinha uma dívida com Sam que devia ser paga. — Cuidado com a Sharon. Mas você nunca soube disso por mim.
As sobrancelhas de Wilson se franziram minimamente, a confusão em seus olhos escuros. Porém ele apenas concordou, voltou a se afastar pelo corredor em seguida. Era o Capitão América afinal, ele daria um jeito de descobrir a verdade.
Barnes fechou a porta e respirou fundo, estava feliz por ter conseguido se despedir, era como um tipo de encerramento, afinal a única pessoa com a qual ele realmente se preocupava ou tinha apreço era Sam Wilson. Agora, com isso resolvido, Bucky não possuía nenhum outro laço.
Estava pronto para viver com — e por — Roxanne.
Sorriu, voltando para o banheiro a tempo de desligar a banheira já cheia e com a quantidade ideal de espuma. O som da porta veio logo em seguida.
Voltou para a sala da suíte presidencial no mesmo instante em que Roxanne entrava rindo de canto.
— Senti sua falta. — Disse em voz alta, afinal era a verdade, mesmo envolvido em uma conversa muito importante tinha dado tempo de ter saudades de sua italianinha.
— Demorou um pouco pra eles acertarem os dados do cartão e depois um cara que só falava espanhol jurou de pé junto que eu era uma celebridade famosa. — Ela explicou ainda rindo.
Bucky entendeu que Joaquim Torres tinha feito um ótimo trabalho de distração. Mas isso lhe fugiu da mente quando a Donna jogou os braços ao redor de seu pescoço.
— E o meu banho? — Ela perguntou, roubando um beijo dele.
Por um instante, Barnes se perguntou como seria se tivesse conhecido Roxanne em outras circunstâncias... Se aquilo tudo não tivesse começado com ele mentindo, se infiltrando na casa dela por uma missão estupida de um governo que ele odiava, então a felicidade deles seria plena e nada no mundo arriscaria isso.
Porque eles eram bons juntos. Bons e certos um para o outro. Eles se amavam demais. E se não fosse esse pequeno detalhe que Bucky havia deixado virar uma bola de neve, então ele teria uma vida inteira ao lado da mulher que amava.
Era irônico que ele tivesse vivido por cem anos, desejando morrer todos os dias das últimas décadas, mas agora faria qualquer coisa por mais tempo.
A verdade é que nem mesmo o "para sempre" seria o bastante com Roxanne Domenichelli...
E Bucky Barnes não tinha o para sempre, seu destino era uma bomba relógio com a contagem zerada.
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O espaço era frio, não apenas em temperatura, tudo ali era cinzento e sem detalhes. Nada de janelas ou ventilação natural. O pequeno cubículo parecia projetado especialmente para privar a pessoa da noção de tempo, fora isso era tão pequeno que Francesco Greco agradecia por não ter claustrofobia.
Sua localização era incerta, depois de capturado ele foi sedado e já acordou ali, horas e horas a fio sem qualquer contato com quem fosse, nada de comida, água, banheiro, advogados ou direito a ligação. Estava sendo privado de tudo, sabia que era uma técnica de tortura psicológica para deixá-lo mais suscetível ao interrogatório que viria.
Era questão de tempo para que as perguntas começassem, haveria um tanto de cortesia primeiro, algo que o faria pensar que o governo seria razoável naquela situação. Frank já estava ciente que sua falta de cooperação seria punida e cedo ou tarde a violência física começaria.
Ser capturado pelo governo foi um erro grotesco de sua parte. Foi praticamente abandonado por Strovalenko, verdade, porém, devia saber que não podia confiar na competência daquele maldito. Baixou a guarda e agora tinha um problema e tanto nas mãos...
Porém, apesar de tudo, estava tranquilo, a Donna agiria assim que soubesse. Confiava plenamente que Roxanne não o abandonaria. Ela teria um plano de resgate, então, ser mantido ali sem contato era, de uma forma ou de outra, uma boa coisa.
Quando mais tempo conseguisse ganhar, melhor.
O provável era que estivesse no subsolo de algum prédio do governo, o que dificultaria um pouco uma missão de resgate, mas tentou não se preocupar com coisas que não podia controlar. Tinha que manter a mente firme para o interrogatório que logo viria. Era uma luta de sua mente com seu próprio corpo. Fome e sede seriam sua companhia por um bom tempo, Frank sabia disso.
Ele se encostou na parede fria, seu pequeno cubículo não tinha absolutamente nada além da porta de ferro, nenhuma cama, nenhuma privada, nada. Para piorar, seu corpo estava todo dolorido da luta que travou com os agentes do governo na hora da emboscada. Tinham feito um curativo nos ferimentos maiores antes de abandoná-lo naquela cela, porém obviamente usariam a dor dele como ferramenta dali para frente.
Respirou fundo e tentou meditar, não sabia se o silêncio duraria por muito tempo, afinal o provável seria usarem poluição sonora em breve para foderem com a mente dele. Precisava estar preparado para tudo.
Tinha acabado de fechar os olhos, decidindo tentar dormir um pouco para poupar energias quando a porta metálica se abriu em um estrondo. Frank abriu os olhos e uma figura masculina lhe encarava de volta. Conhecia o homem, já o tinha visto na televisão antes mesmo da emboscada. O nome era algo básico que o italiano não lembrava, mas o idiota ali vestido com um uniforme cheio de detalhes, como se fosse um maldito super-herói, tinha carregado o escudo de Capitão América por algumas semanas. E no fim acabou mesmo se transformando em supersoldado.
Não era mais o Capitão América, — esse posto pertencia a Sam Wilson — porém trabalhava para o governo, isso estava bem claro.
Frank não se intimidou com o olhar irritado, tampouco com o fato de que aquele maldito americano tinha força o bastante para quebrar ossos como quem amassava latinhas.
— Poxa, depois de todo esse tempo sozinho me mandam justo um feio. Que ultraje. — Soltou em falsa indignação. — O que aconteceu com a famosa beleza americana?
O loiro não respondeu, agarrou Francesco pelo braço e o arrastou por um corredor cheio de portas também metálicas, até que chegaram em uma típica sala de interrogatório.
O italiano foi algemado na barra de ferro da mesa. E só então uma mulher entrou, enquanto o supersoldado loiro se posicionava no canto da sala.
— Olá, senhor Greco, meu nome é Valentina. Pronto para falar? — A voz feminina questionou, as duas mãos apoiadas atrás das costas.
Frank não sabia quem a mulher era, vestia ternos caros, tinha um cabelo escuro com uma mecha roxa e exibia um sorriso cínico. Seja quem fosse, era importante ali, sua postura dizia isso.
— Falar sobre o quê? — Ele questionou casualmente. — Sobre a crise de meia idade que te levou a usar mechas coloridas com mais de quarenta anos?
A tal Valentina não pareceu gostar do que ouviu, a forma mínima como estreitou o olhar deixou isso claro. Porém, ela assumiu o controle das próprias emoções com rapidez e discrição. Ou seja, era muito boa no que fazia, não era uma simples agente.
— Sabemos que você estava trabalhando em conjunto com a Hydra. — A mulher declarou, tirando uma das mãos das costas, e colocando sobre a mesa uma garrafa cheia de água. — É sobre isso que falaremos.
Os olhos de Francesco foram atraídos para o líquido transparente, sua boca mais seca do que nunca. Enquanto isso Valentina se sentava, apoiando uma pasta de arquivo fechada sobre a mesa. Frank desviou o olhar da água, agindo como se não se importasse realmente. Se aquela mulher era boa, ele teria que ser melhor.
Tomaria quanta água quisesse quando Roxanne o libertasse...
— Você sabia que é absolutamente brega usar argolas grandes e óculos de lente colorida juntos? — Comentou ainda casual, afinal essas peças estavam no vestuário de Valentina.
— Não acho que desviar o assunto vá te ajudar, senhor Greco. — Ela nem piscou dessa vez. Era realmente muito boa.
Frank tinha certeza que estava conversando com alguém muito importante. A julgar pela marca timbrada na pasta sobre a mesa tanto o supersoldado quanto a mulher com a mecha roxa eram da CIA.
— Eu só estou priorizando as urgências. — Ele disse, com um encolher de ombros. — Seu senso de moda e estilo têm que sofrer intervenção urgente.
Valentina sorriu de canto, como se já tivesse lido o perfil psicológico de Frank e não caísse mais nas provocações dele. Ela não o deixaria ficar ganhando tempo.
— Deixe-me explicar a situação delicada na qual o senhor se encontra... — As mãos femininas se cruzaram sobre a mesa em cima da pasta. — Se não cooperar comigo, as coisas vão ficar complicadas.
— Vai mandar o garotão ali me dar uma surra? — Francesco não se deixou abalar.
A mulher pousou seus olhos no americano loiro por um instante.
— Talvez. — Ela disse com um sorrisinho de canto, voltando a encarar Frank em seguida. — Supersoldados e a Hydra tem um longo histórico, não é mesmo?
Ele não respondeu, mas Valentina não parecia preocupada com isso, pegou a garrafa de água, e deu um gole lento e torturante. A boca de Frank parecia ter areia. Estava mesmo com muita sede, que merda.
— Mas você não é da Hydra, é, senhor Greco? — O comentário veio simples e direto. — Sabemos que tem sido um ativo importante da Máfia Italiana pelos últimos anos.
Francesco riu de canto, pensando que tinha entendido a linha de ação de sua interrogadora. Às vezes a CIA era tão básica.
— Então você acha que posso te dar informações da Hydra, porque minha lealdade está comprometida. — Ele jogou, no tom de quem mata charada.
Valentina sorriu, o tipo de sorriso superior de quem está absolutamente no controle de tudo.
— Não. Eu não preciso de informações da Hydra, senhor Greco. — Ela revelou quase cínica.
Essa frase curta deu um nó na cabeça de Frank. Até onde se sabia, qualquer agência de inteligência governamental desconhecia o retorno da Hydra. Sendo assim, aquela missão falha de Strovalenko devia ser o primeiro indício do ressurgimento da organização nazista.
Qualquer autoridade estaria desesperada por mais informações naquele ponto. Nenhuma agência do governo subestimaria a Hydra ou diria não precisar de qualquer conhecimento sobre a organização secreta.
A menos que já tivesse todas essas informações...
Merda, a mente de Frank xingou, quando ele se deu conta que aquela emboscada não tinha sido uma simples coincidência, alguém havia passado informações sobre a missão de Strovalenko para a CIA.
— Você tem alguém infiltrado. — Ele entendeu finalmente.
Existia um agente duplo passando informações para a CIA. Frank fez uma lista mental dos homens de Viktor Strovalenko, haviam muitos suspeitos, mas ele não tinha como ter certeza absoluta de quem era o traidor...
Além disso, havia pouco tempo para pensar, afinal, se não estava ali para ser interrogado sobre a Hydra, que tipo de informação Valentina queria?
— Me fale sobre Roxanne Domenichelli. — A mulher declarou de repente, sem confirmar ou negar que havia um infiltrado. — A garota tem sido uma incógnita em todas as minhas pesquisas, mas sei que esteve perto dela em momentos críticos.
Valentina tirou uma foto da pasta de arquivos, parecia uma imagem capturada por câmeras de segurança, o tipo com péssima qualidade e em preto e branco. Mesmo assim a figura de Francesco Greco era perfeitamente reconhecível. Ele estava em frente a uma clinica de abortos na Itália, prestes a atravessar a rua, seu braço ao redor de um corpo menor, de forma protetora. Roxanne tinha apenas quatorze anos naquela época.
De todas as imagens que Valentina podia usar para comprovar a proximidade de Roxanne com Francesco, aquela era a única que fazia dessa jogada algo baixo e vil.
Frank jamais esqueceria dos olhos apavorados de sua pequena Donna naquele dia, ela já tinha fibra o bastante para levar justiça brutal a quem merecia, porém era apenas uma garota assustada também, com medo das decisões impossíveis que teve que tomar. Ela sempre foi um equilíbrio delicado de força e vulnerabilidade.
Aquela foi uma semana decisiva na vida de Roxanne, uma que a definiu enquanto pessoa, depois de meses de tragédia e enganação. Outros poderiam ter sucumbido a dor, ao trauma, poderiam ter afundado em si mesmos. Alguns teriam se tornado cruéis e frios. A jovem Domenichelli não fez nenhuma daquelas duas coisas. Ela seguiu em frente. E aquela foto era o ponto final de tudo aquilo. Era quase irônico que no instante de maior vulnerabilidade da garota, tenha sido especificamente o momento em que Francesco decidiu que seria leal a ela.
Roxanne podia não saber ainda, mas ele já sabia. Ela seria a Donna um dia. Seria a melhor líder que a máfia italiana já teve.
Então, usar aquela foto em especifico foi um golpe muito baixo de Valentina, mas também foi um tiro no pé, porque Frank se lembrou dos motivos pelos quais havia decidido proteger Roxanne Domenichelli, mais de uma década antes que ela realmente virasse a líder que estava destinada a ser.
Ele sempre estaria ao lado da Donna.
— Ela não tem nada a ver com essas coisas. — Declarou, sua postura relaxando. Agir como se Roxanne fosse apenas uma italiana rica e fútil era o melhor naquelas situações. Todo mundo subestimava uma mulher jovem, então essa era a estratégia mais certeira. — É só uma garotinha mimada ainda. Mas vamos falar dela, talvez você aprenda um pouco de estilo com a menina.
Valentina se colocou de pé, sua postura altiva e superior.
— Mas aí é que está, eu discordo disso. Acho que a senhorita Domenichelli vem jogando uma partida de xadrez perigosa. — Ela declarou de forma muito perspicaz. — Filha do líder da Máfia Italiana, Noiva de Viktor Strovalenko, o chefe da Máfia Russa e também provável líder da Hydra... Ela tem estado perto de homens poderosos, não é mesmo?
Merda. Ficou muito claro naquele instante que Valentina era mais inteligente que a grande maioria dos homens da Hydra. Ela não subestimaria Roxanne apenas por ser uma mulher jovem.
— E eu penso comigo mesma, será que alguém que está tão perto do poder não fica tentada as vezes? — Continuou, enquanto rodeava a mesa, como uma cobra prestes a dar o bote. — Tentada a ponto de matar por isso. Talvez matar o próprio pai, quem sabe...
Francesco acabou rindo. Valentina podia não estar subestimando a Donna, mas ela claramente tinha feito uma leitura psicológica bem errada.
— Roxanne ama o pai dela. Ela nunca faria mal a ele. — Frank não viu problema algum em declarar a verdade.
— Tem certeza? — Valentina estreitou os olhos, como se achasse Greco um completo mentiroso. Como se ela soubesse de algo.
A mulher estava tão segura que o próprio Francesco teria duvidado se não tivesse certeza que a Donna jamais machucaria o próprio pai, não importava o que Vicenzo tinha feito; as atrocidades, o abandono, o fato de que ele era um progenitor frio e incapaz de amar a própria filha. Roxanne nunca tocaria em um fio de cabelo branco dele.
A garota tinha carência de amor paterno, mesmo quando negava, ela faria qualquer coisa pela aprovação de Vicenzo.
Valentina parou na frente de Frank novamente, analisou o rosto dele por alguns instantes e mexeu na pasta de arquivos.
— Encontramos isso na Disney um dia desses, devo dizer que foi difícil não deixar o caso vazar na imprensa... — Jogou outra foto sobre a mesa.
Francesco paralisou totalmente, nada o teria preparado para o que viu estampado ali. Era o cadáver de Vicenzo Domenichelli.
— Você não sabia que ele estava morto. — Valentina declarou no mesmo instante, decifrando a reação de Frank antes que ele próprio pudesse recuperar o controle.
Os dois se encararam, naquele momento ele soube que não era o que a mulher esperava, que a mente dos dois estava se amontoando de perguntas ao mesmo tempo.
Francesco queria focar em Valentina para se preparar para o que a mulher faria ou diria, porém, ele ainda estava chocado demais. Era para Vicenzo estar fugindo ainda, vivendo sua aposentadoria em algum lugar longe de Roxanne e da vergonha de ter perdido o posto de Dom. Não era para o homem estar morto.
— Ah, meu Deus. — Valentina murmurou, como se as ideias estivessem clareando. Então virou para o loiro no canto da sala. — Isso muda tudo, Walker.
Ela se afastou de Frank, estava nervosa, ele pôde notar isso. Passou a prestar atenção na mulher então. Não tinha tempo de se preocupar com a morte de Vicenzo.
— O que? — O tal Walker perguntou, como se não conseguisse ver as coisas pelo ponto de vista de sua superior.
Porque sim, naquele pequeno diálogo Frank havia notado que Valentina era a superior ali. A julgar pela postura talvez ela fosse a grande superior. A diretora da CIA.
— Ele não sabia da morte do próprio Dom. — Ela explicou em tom perspicaz, voltando-se para Greco. — Isso aconteceu tem dias. Impossível um Dom morto por tanto tempo assim sem que a Máfia saiba, seria uma crise.
A mulher estava certa, Frank sentiu que ela faria a descoberta principal muito em breve...
— Quando encontramos o corpo, eu pensei que a garota estava jogando finalmente, que tinha matado o pai para assumir o poder. — Valentina continuou explicando suas suspeitas. — Mas a reação dele, que é o homem de maior confiança dela, muda tudo.
Houve um pequeno instante de silêncio, a diretora da CIA tinha os olhos afiados em Francesco Greco. Ela sabia.
— Mas Roxanne Domenichelli não precisava matar o pai para se tornar a líder da Máfia. Ela já é a rainha deles faz tempo. — A verdade veio e Frank acabou sorrindo de orgulho.
Eles sempre souberam que cedo ou tarde Roxanne seria reconhecida como a Donna, tinham evitado isso por causa dos planos envolvendo Strovalenko. Mas, no fundo, Frank sempre desejou que o mundo visse o quão forte e incrível sua Donna era.
Ela seria uma lenda em breve, ele tinha certeza disso. Logo todos saberiam a forma justa como governava e cuidava de seu povo, todos entenderiam finalmente os lemas verdadeiros da máfia italiana. Roxanne seria temida, admirada e respeitada como devia ser.
Valentina não pareceu gostar de descobrir aquilo, a forma como o rosto dela estava irritado e tenso dizia isso claramente. Aquela reação era meio desproporcional, não era?
A diretora da CIA agia como se ela já tivesse que saber dessa informação há tempos. Como se tivessem mentido para ela. Como se tivesse sido ludibriada.
— Espera. Mas se isso é verdade, então o... — Walker engoliu a palavra seguinte como se lembrasse que não podia dizê-la em voz alta. — A gente já tinha que ter essa informação.
— Pois é. Parece que fomos traídos. — Valentina disse apenas, saindo da sala de forma intempestiva. Walker deu um último olhar para Frank e foi atrás da Diretora da CIA.
Aquela pequena conversa não ficou muito tempo rondando na mente de Francesco Greco. Ele entendeu muito rápido. O agente duplo que o governo americano tinha mandado para dentro da Hydra, não estava entre os homens de Viktor Strovalenko.
O espião... estava na Sicília.
Ou seja...
Bucky Barnes era o infiltrado.
Como se perfeitamente sincronizado, a revelação mental de Frank veio acompanhada do som estridente de um alarme que se espalhou por toda a instalação. As luzes começaram a piscar ritmadamente.
Pelo visto, sua equipe de resgate tinha acabado de chegar...
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