Notas iniciais
Oie! Achei que hoje tava um dia muito apropriado pra gente conhecer a Roxanne, então aqui estou... (dia apropriado = minha ansiedade atacada) Vamos ver no que o senhor Barnes tá se metendo... Boa leitura!

O jato particular que sobrevoava o mar Jônico naquele instante era uma aeronave de luxo, poltronas de couro claro, muito espaço, taças de cristal, drinks, e todo tipo de coisa que pareciam um tanto inúteis para Bucky Barnes.

Ele mantinha a mão direita pousada sobre a coxa, a expressão séria e fria, totalmente inabalável, mas o punho estava fechado no intuito de conter o sangue que escorria do ferimento e já tinha empapado sua calça negra.

Estava sentado em uma poltrona, havia uma pequena mesa em sua frente, mas a ele não foi oferecida qualquer bebida ou comida, nem mesmo água. Não que Barnes estivesse preocupado com isso...

Depois da decolagem, não foi difícil reparar que haviam sete pessoas no avião: um piloto e um copiloto; duas aeromoças, gêmeas, ambas loiras e altas, extremamente bonitas, quase como se tivessem saído de uma revista, mas que vestiam algo pouco profissional e um tanto degradante; Frank, sentado na poltrona do outro lado do corredor, também de frente pra uma mesa, porém com as costas viradas para onde o rosto de Bucky seguia focado; era ali, no fundo da aeronave, que Strovalenko estava naquele instante.

Enquanto o italiano ao lado comia e bebia, o líder russo trocava a camisa suja de sangue por uma limpa, sem se importar com quem visse ou não. A área em que estava, ao invés de poltronas, possuía sofás compridos, que facilmente serviriam de cama se necessário.

Viktor Strovalenko tinha algumas tatuagens nas costas, braços e tronco, coisas que Bucky não pôde analisar muito bem, porque os olhos de Frank estavam focados nele.

O líder da nova Hydra ainda não tinha abotoado a camisa limpa quando as duas aeromoças se aproximaram, uma delas trazia um copo de whisky na mão direita e o entregou a Viktor, antes de colocar as mãos no corpo dele.

Ele não tinha uma namorada, noiva, ou algo assim?

Bucky desviou o olhar para a janela, quando a segunda loira se aproximou o bastante. Ambas se ajoelharam na frente de Strovalenko, já trabalhando para abrir-lhe a calça, sem se importar com quem pudesse ver o que fariam.

— Da próxima vez você vai querer se sentar de costas. — Frank soprou, o sotaque italiano carregado e uma risadinha irônica, provando que aquele tipo de atividade era algo corriqueiro.

Era por isso que Viktor mantinha aquelas gêmeas por perto?

Barnes procurou não demonstrar qualquer reação, apenas manteve os olhos focados no mar que passava depressa lá embaixo, ignorando que a alguns metros de onde ele estava as loiras se envolviam no tipo de atividade que devia ser privada.

— Isso me leva a pensar... — Frank se levantou de onde estava e se sentou na poltrona bem na frente de Bucky, do outro lado da pequena mesa. — Você, em toda essa frieza invernal, que só acata todas as ordens cegamente, só transa se mandarem?

O italiano analisou o Soldado todo pensativo, mas Barnes não se preocupou em responder, não precisava, a menos que Strovalenko ordenasse.

— Considerando que eu realmente não acho que a Hydra se preocupa com a sua diversão sexual... — Frank continuou falando, mas até que isso era bom, porque abafava os sons nada discretos que vinham no fundo do avião. — Então você nunca transa. Isso é triste...

Bucky teria revirado os olhos se pudesse, mas obviamente não fez isso, continuou inabalável, vendo terra firme surgir no horizonte.

— Um desperdício... — O monólogo prosseguiu e Barnes teve a impressão que Frank só queria se distrair do que Strovalenko fazia com as gêmeas. — Mas pelo menos você fica de pau duro, não é? Claro que fica... Homens em coma ficam, não acho que te ferraram tanto assim.

Frank o analisava com a curiosidade de uma criança que vê um animal exótico no zoológico, porém Bucky permanecia impassível, como se nada no mundo fosse capaz de lhe irritar. Contudo, já teria socado a cara do italiano se pudesse.

— Nesse caso, cuidar do seu prazer individual está permitido ou seria preciso uma ordem pra isso? — Frank ponderou pensativo, enquanto apoiava o queixo na mão. — Amico, non volevo essere nella tua pelle...

Amigo, eu não queria estar na sua pele. Era isso que Frank tinha acabado de dizer em um italiano perfeito, Bucky teria rido se pudesse. Pois é, ele não gostaria...

Os olhos de Frank seguiram para o mesmo lugar em que os de Bucky estavam, lá fora na paisagem que surgia no horizonte, e ele arrumou a postura.

— Estamos chegando, chefe. — O italiano declarou, sem virar o rosto para trás e logo voltou para o próprio lugar.

Viktor não respondeu, estava virado quase de costas para eles, as calças parcialmente arriadas e as mãos segurando os fios loiros das gêmeas, controlando os movimentos que elas faziam...

Lá embaixo, a terra estava cada vez mais próxima, uma grande ilha com praias limpas e costa rochosa em alguns pontos. Certamente era a Sicília.

Bucky nunca estivera ali, mesmo agindo sob ordens da Hydra. Era um lugar muito mais bonito do que ele imaginava, totalmente diferente das paisagens vistas na América do Norte. Tinha cores mais fortes, muito mais casas do que arranha-céus e as ruas pareciam mais estreitas também...

Logo as duas loiras passaram em direção a cabine, limpando seus batons borrados com lenços de papel, e Viktor se aproximou do Soldado enquanto fechava as calças.

— Saía. — Ele acenou para Frank de forma seca e rude e logo o italiano os deixou sozinhos, também seguindo para a cabine.

Strovalenko se sentou na frente do Soldado Invernal, mas não lhe dignou qualquer olhar.

— Suas ordens são as seguintes, Soldat. — Declarou sem emoção, como quem fala com uma máquina. — Você vai ficar a serviço de minha noiva na Sicília, ou onde quer que Roxanne decida ir... Oficialmente sua missão é ser o novo guarda-costas, siga todas as ordens que receber dela, a menos que essas ordens entrem em conflito com as que lhe darei agora. Entendido?

Merda! Ficar preso na Itália com a filha mimada de um mafioso não era, de forma alguma, o que Bucky pretendia, como tiraria informações do líder da Hydra se não estivesse por perto?

Porém Barnes se manteve firme, não podia demonstrar sua frustração, sabia que aquela operação não era simples ou rápida, então podia esperar... Ficar ao lado dos Domenichelli, principalmente da garota, não soava nada produtivo, mas ele se manteria firme no disfarce.

— Extraoficialmente você vai espioná-la para mim, onde vai, com quem vai, o que faz. Quero saber de tudo. — Viktor continuou e foi uma surpresa e tanto ouvir aquilo. Ele não confiava na própria noiva? — Roxanne é ardilosa e eu tive que matar os últimos homens que coloquei a serviço dela. Mas já que ela não pode lhe ameaçar, chantagear, comprar ou conquistar, sinto que é o recurso perfeito para esse trabalho.

Bucky absorveu as palavras e ordens com atenção. Obviamente havia problemas entre o casal, e talvez pudesse se beneficiar disso, selecionando as informações que transmitiria para o líder da Hydra. Seu objetivo principal era voltar para perto de Strovalenko o mais breve possível e se não houvesse o que espionar na Sicília, também não haveriam motivos para que um recurso valioso como o Soldado Invernal ficasse de babá da Herdeira da Máfia.

Além disso, Strovalenko claramente não gostava da noiva. Se gostasse não estaria se divertindo com as duas loiras minutos antes.

— Se dirija a ela apenas em inglês, Roxanne não fala russo e direi que italiano não está dentre suas habilidades. Ela se sentirá à vontade para falar coisas importantes na língua materna, mesmo com você por perto, e assim descobriremos seus segredos. — Viktor passou as últimas informações, tinha mesmo montado o plano perfeito... se Barnes não estivesse apenas fingindo, é claro.

O russo não esperou uma resposta, confiava que tinha sido ouvido e compreendido e assim deu a conversa por encerrada. Levantou-se e saiu do campo de visão do Soldado, indo trocar palavras com o piloto enquanto Frank voltava para seu lugar e as gêmeas russas passavam por eles para sentar-se no fundo da aeronave.

Bucky olhou a ilha da qual se aproximavam rapidamente, estaria preso ali até que novas ordens viessem... e como derrubaria a Hydra atado aos caprichos da filha de um mafioso?

Roxanne Domenichelli era uma incógnita nas pesquisas que Barnes tinha feito naquelas últimas semanas, a jovem perdeu a mãe aos dez anos, depois disso foi criada em um internato caríssimo, na Itália, mas fora dos limites da Sicília. Em um primeiro momento parecia totalmente afastada dos negócios escusos do pai, Bucky até chegou a pensar que ela os desconhecia.

Se mudou para os Estados Unidos assim que completou a maioridade. Roxie, como passou a ser chamada nos rastros online que a equipe de Valentina havia recuperado, foi aceita em Harvard para estudar medicina — algo que Sam tinha dito ser um grande feito — e lá permaneceu até os vinte e dois, época do estalo de Thanos. Naquela semana em particular ela havia embarcado em um avião para Paris, provavelmente viagem a passeio a julgar pelo monitoramento de gastos do cartão de crédito.

Depois disso ela desapareceu, a primeira impressão era que tinha virado poeira junto com metade do universo, mas a equipe de inteligência do Alto Conselho foi capaz de encontrar registros de um voo privado partindo de Paris para a Sicília, pago em dinheiro, no nome de Francesco Greco. Então Barnes tinha a teoria de que a garota havia voltado para sua terra natal no momento da crise que Thanos causou, e de lá não mais saiu.

O que ninguém conseguia calcular, era em que ponto a aliança com Strovalenko havia acontecido e nem o motivo disso. Eles eram namorados antes e noivaram durante a época do estalo? Ou o envolvimento dos dois havia acontecido apenas nesse último um ano depois que todos haviam voltado?

Obviamente existia muito de interesse naquele relacionamento, disso Bucky tinha certeza, era uma aliança mútua da qual ambas as Máfias se beneficiavam. Mesmo que Strovalenko claramente não respeitasse ou confiasse na noiva...

Quando pousou na Sicília, Barnes sabia que encontraria todas as respostas para aquelas perguntas, só não tinha ideia se isso seria útil ou não para o objetivo principal da operação. De toda forma, a partir daquele momento tinha outra missão: Roxanne Domenichelli.

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A propriedade dos Domenichelli mais parecia uma fortaleza, por causa de sua localização. Uma estrada entre as montanhas era o único acesso possível, e embora o lugar fosse cercado de todos os lados por essa paisagem, ainda assim possuía portões de aço e muros altos fortificados. O terreno então se estendia para todos os lados, com muito verde, principalmente palmeiras; havia também um jardim de cravos vermelhos — que Bucky pôde ver do banco do passageio do blindado onde estava, — ele também reconheceu um tipo de labirinto a direita, as paredes cobertas de trepadeiras e o teto entrelaçado em alguns pontos por ervas daninhas e, logo no fim da pequena estrada de pedras que começava no portão, tinha a construção imponente, clássica e um tanto extravagante da residência, que naquele instante estava banhada pela luz alaranjada do nascer do Sol. Porém, para além do que seus olhos gélidos podiam ver, o cheiro forte de maresia lhe indicava que a praia estava bastante próxima.

Não se surpreenderia se houvesse um acesso direto para a areia e o mar, também não ficaria nada surpreso da praia ser totalmente privativa, cercada pelas rochas que compunham a paisagem do lugar.

Frank, no banco do motorista, tinha um olhar de aprovação, mas nenhum sorriso em seu rosto bem barbeado. Atrás, com o celular em mãos, Strovalenko exibia uma postura indiferente. Nem parecia prestes a ver a mulher que supostamente amava.

Quando o carro foi estacionado, ao lado da grande fonte com anjos de pedra e em frente à residência, Bucky teve oportunidade de analisar melhor sua estrutura. O local conservava um ar clássico e antiquado em sua arquitetura externa, mesmo que alguns detalhes, como as janelas e portas trouxessem um tanto de modernidade para o ambiente como um todo.

Na soleira da porta, embaixo da proteção de uma enorme varanda, uma senhora aguardava. Era velha, pequena e enrugada, tinha ares severos e olhos fundos, cinzentos como seus fios curtos arrumados à perfeição. Vestia-se inteiramente de azul-marinho, um vestido de botões, pesado, sem qualquer decote, corte reto, muito distinto, que lhe descia até abaixo do joelho, onde as meias-calças escuras podiam ser notadas.

— Buongiorno, signore Strovalenko. — Ela saudou em um italiano perfeito e ofereceu um sorriso a Viktor que era educado, mas não parecia verdadeiro. — Non stavamo aspettando...

O líder da Hydra a interrompeu bruscamente enquanto se aproximava.

— Já disse para falar comigo em inglês, Benedetta. — Ordenou firme e seco, sequer pousando os olhos na mulher, apenas fazendo um gesto para que o Soldado Invernal lhe seguisse.

Frank também já tinha descido do carro e esse sim recebeu um sorriso honesto da senhora chamada de Benedetta.

— Desculpa, signore. — Ela se apressou em receber o russo que avançava pela varanda. — Italiano é minha língua mãe, eu não...

— Não me importo. — Viktor cortou novamente e passou pelas grandes portas de entrada como se a casa fosse sua. — Minha noiva está lá em cima, presumo. — Não esperou qualquer resposta, apenas olhou por cima do ombro para se certificar da posição de Barnes. — Vamos, Soldat.

Bucky viu que a senhora tentou argumentar, mas foi impedida por um sinal dócil de Frank. O Soldado não teve escolha então, a não ser seguir Strovalenko escada a cima. Mal tendo tempo de reparar na decoração luxuosa, nos lustres de cristal ou no quão moderno o interior da mansão parecia, se comparado ao seu exterior.

Viktor caminhava em passos firmes e intempestivos, algumas sacolas de lojas que Bucky não conhecia na mão direita. Eram coisas que o russo trouxera direto do avião.

O andar superior da mansão era um grande e amplo corredor com várias portas fechadas de ambos os lados, mas nem por isso deixava de conter mais luxo do que uma pessoa normal precisava. Strovalenko só parou quase no fim dele, mas não bateu na porta, apenas girou a maçaneta e entrou sem se anunciar. Bucky não pensou antes de segui-lo, afinal não havia ordem para que esperasse...

Imaginou que veria um escritório ou algo desse tipo, mas ao contrário disso o que se abriu diante de seus olhos foi um amplo quarto iluminado pela luz natural vinda da varanda aberta de onde o mar podia ser visto. Primeiro Barnes processou a cama imperial com os lençóis revoltos, e só então se deu conta da figura feminina sentada a esquerda da porta, de frente para uma penteadeira.

Roxanne Domenichelli, seu primeiro impulso foi pousar os olhos nela, enquanto Viktor se aproximava, só então Bucky a viu de fato, e percebeu que certamente não devia estar naquele quarto... A jovem mulher, que ele só tinha visto por fotos, não estava descente o bastante para receber a visita de um homem estranho.

Usava uma lingerie negra, ou ao menos foi assim que Barnes categorizou a camisola de seda curtíssima, trabalhada em renda no busto. Ele desviou os olhos, esperando a advertência que com certeza receberia de Strovalenko, por ter ousado colocar os pés dentro do quarto de sua noiva.

— Achei que bateria na porta pelo menos quando estivesse acompanhado. — Roxanne declarou, o sotaque italiano pronunciado em algumas sílabas, embora seu inglês fosse perfeito. — Ou ao menos mandaria que seus homens respeitassem minha privacidade.

Seus olhos evitaram o Soldado Invernal, enquanto ela se envolvia em um robe preto também de seda, que estava displicentemente jogado sobre a cadeira em que permanecia sentada. O fechou bem mais que o máximo, cobrindo os seios e as pernas rapidamente e cruzando os braços na frente do corpo.

— E eu achei que seria melhor recebido depois dessa longa semana, minha querida noiva. — O tom de Strovalenko tinha um quê de crítica implícita. Ele jogou as sacolas na cama e sequer se preocupou com o Soldado ali parado.

— Lhe receberia apropriadamente se tivesse avisado que viria, adorado noivo. — Roxanne respondeu e sorriu dócil antes de ser rudemente beijada, mas Bucky não viu nada disso pois tinha os olhos longe da cena em sua postura fria.

Sim a herdeira Domenichelli fazia parte da máfia e era um alvo, mas ainda era uma mulher, merecia o mínimo de respeito.

— Esteja sempre preparada para minha chegada, como uma boa futura esposa, e não teremos problemas. — Strovalenko retrucou, segurando o maxilar da moça. — Não se preocupe com isso. — Jogou a mão displicentemente na direção do Soldado. — Não é um homem, é uma arma. Não tem desejos, ambições ou vontade própria, faz apenas o que eu mando.

Tinha um certo tom perverso na voz do líder da Hydra, Bucky não pôde deixar de notar.

Viktor estendeu a mão direita para noiva e ela a aceitou, porém sem tirar o braço livre da frente do corpo. Os dois se aproximaram um pouco de Barnes, que continuou inabalável, com os olhos presos em um ponto qualquer da paisagem que podia ser vista através da varanda aberta.

— Soldado Invernal. — Strovalenko declarou, enquanto Roxanne ficava vários passos para trás e voltava a cruzar os braços na frente do corpo. — Já deve ter ouvido falar em seus tempos na América. Eu o comprei hoje.... Recuperei de um ladrão, na verdade.

— Você comprou uma pessoa? — O tom de Roxanne, um tanto contrariado, fez com que o russo lhe encarasse nada satisfeito.

— Uma arma. — Corrigiu irritadiço, dando dois passos ameaçadores na direção dela e parando repentinamente. — E como disse, não comprei, recuperei. Ele ficará a seu serviço em minha ausência, obedecerá às suas ordens e vai te acompanhar em todo lugar, não te deixará sozinha em só minuto, segundo minhas instruções.

Bucky sentiu os olhos da herdeira Domenichelli em si por um longo momento.

— Não gostou? — Havia um desafio implícito na voz de Strovalenko.

— Achei que tínhamos concordado que eu não teria mais um de seus homens como guarda-costas. — Roxanne respondeu, e apesar das palavras contrariadas seu tom era manso.

— O Soldado Invernal não é um homem. Você é surda por acaso? — Viktor agarrou o maxilar da noiva com a mão direita, um gesto violento que acabou fazendo com que Barnes focasse a atenção neles por instinto.

Roxanne fechou os olhos, como se esperasse por algo que não veio de fato, o russo apenas a largou, quase um empurrão na verdade, e se afastou dela.

— Não precisaremos nos preocupar com aproximações indesejadas de uma arma. — Ele disse naquele tom crítico outra vez, ao mesmo tempo em que Bucky podia sentir um certo desdém em suas palavras. — E não ouse retrucar. Vamos fazer da forma que eu achar melhor.

— Com certeza, adorado noivo. — Roxanne concordou mansa outra vez, mas agora que estava com a atenção nela, Barnes viu algo na postura feminina que não casou com isso. — Sei que só quer o melhor pra mim.

Ela pousou os olhos no Soldado por um momento, mas Bucky já tinha voltado para a mesma postura fria e distante de antes.

— Lhe trouxe outros presentes além disso. — Strovalenko apontou o Soldado com um movimento de cabeça e com a mão direita mostrou as sacolas na cama. — Quero que use durante o café da manhã.

Bucky ouviu a voz feminina agradecer sem muita empolgação, Roxanne já tinha passado de seu campo de visão, estava atrás dele, mas mantinha certa distância.

— Ele está ferido. — Ela declarou de repente, provavelmente tinha visto o sangue na mão que o Soldado mantinha pousada nas costas, junto com a de vibranium. — Por que não mandou que cuidassem do ferimento dele?

Os olhos verde-veneno de Strovalenko se ergueram na direção da noiva, a raiva era quase algo que podia ser sentido dentro do quarto.

— Qual parte disso ser apenas uma arma, você não entendeu? — Ele ergueu o tom, dando alguns passos ameaçadores na direção de Roxanne e lhe agarrando o braço esquerdo. — Isso não sente dor, assim como não sente remorso ou misericórdia, seu mandar que pule, vai apenas perguntar de que altura.

Bucky fechou o punho de vibranium no intuito de manter a postura impassível. Sim, Roxanne era parte de uma família criminosa, cúmplice de tudo que ali faziam com certeza, tão suja quanto todos eles, mas ainda era a noiva de Viktor, o russo devia respeito a ela.

— Acaso está preocupada? — Strovalenko questionou com deboche ameaçador na voz.

— Com o meu carpete persa que vai ficar manchado de sangue? Certamente. — Roxanne lançou com desinteresse e foi praticamente jogada em direção a cama, quando o noivo lhe largou repentinamente.

Ela ajeitou o robe e cruzou os braços como se absolutamente nada tivesse acontecido e isso fez com que Viktor a ignorasse, seguindo para o Soldado Invernal.

— Para cada gota do seu sangue que cair no carpete, quebre um osso do seu próprio corpo. — Ordenou com um sorriso sádico no rosto.

Qual era a porra do problema daquele cara?

— Sim, senhor. — Barnes respondeu sem se abalar, de toda forma o sangue seco já tinha feito uma barreira no ferimento, se mantivesse a mão quieta não teria problemas.

— Te aguardo lá embaixo para o café. — Strovalenko apontou a noiva em um tom nada carinhoso. — Use o que comprei, quero vê-la vestida com isso.

— Vai ser um prazer, adorado noivo, sabe que amo seus presentes. — Ela abriu um sorriso manso, que Bucky não se preocupou em olhar.

O russo não esboçou qualquer reação, apenas se dirigiu para a porta, quase atropelando Benedetta que vinha chegando naquele momento, com um cabide coberto por uma capa preta.

— Diga a Dom Vicenzo que o aguardo lá embaixo. — Viktor se dirigiu a senhora sem olhá-la de fato. — E traga o que gosto de comer.

Bucky presumiu que Benedetta fosse a governanta da casa ou algo assim. Típica coisa de gente rica demais, exatamente como o cabide coberto que ela trazia e colocou cuidadosamente em cima da cama.

— Ah... — Viktor voltou, como se lembrasse de algo e apontou para a noiva. — Dê as ordens apenas em inglês, o Soldado não entende italiano.

Roxanne assentiu. Não parecia desconfiar que estava sendo enganada pelo futuro marido.

— Comece a seguir suas ordens, Soldat. E não saia de perto dela. — Strovalenko ordenou, antes de deixar o cômodo, sumindo pelo mesmo corredor que tinham vindo.

A herdeira Domenichelli suspirou, o maxilar enrijecido e o nariz erguido, em uma postura drasticamente diferente da dócil de momentos antes, descruzou os braços e deixou que o robe se abrisse normalmente no corpo, sem se preocupar que o Soldado Invernal ainda estivesse ali ou com o decote e as pernas expostas.

Bucky imaginara que a jovem mulher estava escondendo o corpo por causa dele, mas a forma como agiu assim que Viktor virou as costas deu a entender que não era isso. Era como se ela estivesse se escondendo do próprio noivo.

Isso seria estranho, não é?

Percebeu Benedetta trocar um olhar pesado e cheio de significados ocultos com a patroa.

— Imaginei que me pediria um desses. — A governanta apontou o cabide na cama, dizendo as palavras em italiano, mas Bucky compreendeu com clareza. — Frank explicou que teria um novo acompanhante.

Os olhos de Roxanne Domenichelli pousaram no Soldado Invernal, mas ele permanecia com os dele focados longe dela, frio e impassível.

— É o que parece... — A noiva de Strovalenko declarou em italiano, certamente pensando que Barnes não entenderia, então se virou para a governanta, continuando em um tom doce. — Mas sim, você acertou minhas vontades, como sempre, Benedetta. Obrigada. Agora vá, por favor. Melhor fazer o que Viktor quer.

A senhora não pareceu muito contente com isso, mas concordou, se aproximou da mais nova e tocou-lhe o rosto com carinho, antes de perguntar:

— Vai ficar bem, Bambina?

A herdeira Domenichelli afirmou com um movimento curto e sorriu para a governanta de forma doce, Bucky pôde ver porque focou os olhos nelas por um instante. Roxanne tinha covinhas nas bochechas quando sorria daquela forma, e até pareceria apenas uma menina se não usasse aqueles trajes íntimos e sensuais além do aceitável.

Aquele decote chamava atenção demais, Barnes só queria que ela fechasse outra vez o robe de seda, como estava enquanto Strovalenko permaneceu no quarto...

Assim que Benedetta deixou o cômodo Roxie fechou a porta e suspirou. Bucky não se moveu, atento ao ferimento em sua mão para que não sangrasse e esperando por ordens. Era estranho estar ali, não se lembrava do Soldado Invernal em uma situação como aquela, isso porque só o tiravam da criogenia para assassinatos, e não para servir de babá pra qualquer Italianinha herdeira da máfia.

Ouviu gavetas serem abertas, mas não se virou, mafiosa ou não Roxanne merecia alguma privacidade. Barnes ainda não sabia como a dinâmica deles se desenrolaria, mas até que recebesse alguma ordem contrária tinha que ficar perto da herdeira Domenichelli.

Tomara que ao menos saísse alguma informação produtiva dali...

Estava com isso em mente quando o corpo feminino parou diante do seu, estendeu-lhe algo e Bucky baixou a cabeça no reflexo, para ver o que era. Grande erro. Isso tornou impossível ignorar o decote logo ali há poucos centímetros de seus olhos; seios médios, redondos e empinados, emoldurados por renda negra...

Merda.

Barnes achou que estaria imune a esse tipo de coisa, depois de todas as atrocidades que tinha vivido nas mãos da Hydra, depois de ter sangue inocente nas mãos, esqueceu totalmente quem um dia tinha sido e isso incluía garotas e todos os seus melhores atributos. Mas aparentemente não era de ferro ou de gelo como sugeria sua alcunha. Ainda gostava muito de um bom par de seios.

O problema foi descobrir isso ali, naquele momento, porque tivera tempo o bastante desde que tinha voltado a ser ele mesmo — ou o mais perto disso possível — e nunca tinha pensado nisso. Mas estava pensando naquele momento...

Quer dizer, tentou encontros online e toda essa coisa, mas era mais sobre conhecer alguém de forma simples e não em levar as coisas adiante de forma mais íntima.

Caramba, quanto tempo fazia que não tocava em uma mulher?

— É pra sua mão. Pega, por favor. — As palavras tiveram um sentindo devasso na mente de Bucky, isso até que Roxanne moveu o braço e só então ele lembrou de onde estava.

Puta merda, aquilo com certeza não podia acontecer de novo.

Felizmente sua inercia momentânea foi compreendida como “falta de ordens” pela Herdeira Domenichelli e seus olhos baixos estavam apenas no que ela tinha na mão... Que era um lenço branco de algodão, Bucky enfim se preocupou em olhar.

Usando a mão de vibranium, pegou o que lhe era oferecido, um tanto surpreso com o gesto de generosidade gratuita. Mas procurou permanecer em sua postura, mesmo quando apertou o lenço contra o ferimento na mão direita.

Notou que Roxanne acompanhou o movimento de forma analítica, focando em todo o sangue seco na pele dele.

Bucky aproveitou esse momento para medí-la com mais atenção: era um pouco mais baixa que ele, uns dez ou quinze centímetros talvez, ou seja, mais alta que a média das mulheres; seus cabelos que pareciam ainda mais escuros do que nas fotos, desciam em ondas desconexas pelos ombros e paravam um pouco acima dos seios...

Sim, ele estava olhando exatamente para esse ponto outra vez. Que merda.

— Qual o seu nome, Soldado? — Ela perguntou sem erguer a cabeça, mas Barnes estava tentando dizer a si mesmo que não podia ficar olhando os seios da filha de um mafioso daquele jeito. — Gosto de ter minhas perguntas respondidas quando as faço, por favor.

Roxanne ergueu os olhos e, como Bucky tinha acabado de fazer o mesmo, foi a primeira vez que as íris se encontraram. O negro abissal era como um céu sem estrelas, como um lago calmo no meio da escuridão completa, Barnes não tinha a menor ideia de como, mas, embora tudo que existisse ali fosse a ausência completa de cores, a impressão de quente e congelante era mutuamente transmitida por aquele olhar...

— Soldado Invernal. — Ele respondeu seco, firme, apenas uma informação passada a um superior.

Roxanne franziu as sobrancelhas naturalmente arqueadas e então assentiu, mas não parecia muito satisfeita.

— Perguntei seu nome, não sua alcunha, codinome, título ou sei lá que tipo de coisa é essa... — Ela devolveu em um tom normal, muito diferente da agressividade do noivo.

Bucky não gostou, não queria dizer seu nome para o inimigo, mesmo sabendo que Strovalenko já tinha essa e qualquer outra informação sobre si. De toda forma não precisaria dizer... afinal, como Soldado Invernal ele não devia lembrar de nada, nem mesmo do próprio nome.

— Não tenho outro nome, apenas esse. — Informou, sem mudar em nada a postura. — Sou o Soldado Invernal ou apenas Soldat.

— Não você não é. — Roxanne retorquiu neutra. — O Soldado Invernal é apenas o produto do que a Hydra fez com você. — Ela analisou o rosto dele atentamente com seus olhos de obsidiana.

Parecia saber demais sobre o assunto, para alguém que não tinha esboçado qualquer reconhecimento na frente de Viktor...

Bucky se sentiu estranhamente desconfortável com a proximidade, mas tentou não se mover. Roxanne parecia ver através dele, através das mentiras e do disfarce, quase como se visse sua alma com clareza. Quando ela deu um passo para trás, despretensiosamente, Barnes quase suspirou de alívio.

— Apesar do que que você, a Hydra ou o Viktor pensam, eu não acredito que você seja uma máquina. Mesmo considerando o braço de metal... — A ouviu dizer casualmente, como quem fala do tempo, enquanto se afastava em direção as gavetas da cômoda outra vez e depois para pegar o aparelho celular que estava sobre a penteadeira.

Bucky não tinha ideia de qual era a intenção daquela conversa, mas Roxanne Domenichelli se mostrava bem diferente do noivo a cada segundo que passava.

— Você é um ser humano. — Ela continuou de forma prática e se colocou na frente dele com o celular e também uma caixa metálica em mãos. — E como todo ser humano, o que você tem na cabeça é um cérebro muito complexo e cheio de sinapses nervosas, não um HD que pode ser apagado e preenchido com outras informações mais úteis.

Onde aquela mulher queria chegar? Bucky esfregou a mão tão forte que tirou o sangue seco e obviamente sentiu o liquido quente escorrer, o segurando firmemente com o lenço para que não caísse no maldito carpete.

Enquanto isso Roxanne tinha os olhos no aparelho eletrônico entre seus dedos.

— James Barnes... — Ela disse de repente, bem devagar como se testasse a sonoridade e um arrepio quente e inapropriado correu o corpo do Soldado. — Sargento James Buchanan Barnes... É o que diz aqui ao menos. — Ela balançou o celular e focou os olhos negros nas íris azuis, como se buscasse por algo a mais ali.

Bucky tentou não expressar nenhuma reação, mas decidiu que odiava a internet e suas facilidades. A vida era mais fácil quando as pessoas não tinham qualquer informação na palma da mão.

— Agora que já resolvemos a questão do nome, acho que prefiro te chamar de James, é menos fantasioso... Por aqui não ovacionamos esses heróis coloridos e seus nomes de brinquedo. — Roxanne declarou naquele tom prático demais que tinha. Como se tudo na vida fosse absurdamente simples. — Você se importa se eu te chamar assim?

Sim, me importo, a mente de Barnes retrucou com irritação, não queria seu nome na boca da futura primeira-dama da Hydra. Mas não tinha escolha.

Na verdade, aquela pergunta simples no fim da frase era uma surpresa, afinal ninguém ligava se o Soldado Invernal se importava ou não com qualquer coisa.

Isso porque, teoricamente, ele não devia se importar com nada.

— Como desejar, senhorita. — Respondeu de forma simples, afinal era o que mais se encaixaria em seu disfarce naquele momento.

— Certo então, James. — Roxanne sorriu de forma satisfeita e estendeu a caixa metálica para ele. — Quero que se sente e cuide desse ferimento, por favor.

Bucky levou alguns segundos para processar a ordem tão... humana. De fato, diferente de Strovalenko...

Pegou o que lhe era oferecido e se sentou na frente da penteadeira, então abriu a caixa metálica que continha todos os itens necessários. A Italianinha era estudante de medicina, ele sequer devia estar surpreso.

Enquanto Barnes lidava com o ferimento da melhor forma que um soldado com dedos de metal pouco delicados podia fazê-lo, Roxanne Domenichelli abria os presentes sobre a cama.

— Caspita. — Bucky a ouviu xingar baixinho em italiano.

O que ela tinha nas mãos era uma lingerie vermelha que fazia as peças que ela usava no corpo parecerem muito mais descentes. Havia também um vestido da mesma cor. Se é que dava pra chamar aquilo de vestido.

Bucky a observava através do reflexo do espelho da penteadeira, enquanto continuava a mexer no ferimento. A Italiana parecia muito irritada, mas respirou fundo por alguns segundos e simplesmente foi como se virasse outra pessoa, colocou todas as peças na cama rapidamente, tirou fotos delas e depois as guardou de volta nas sacolas. Foi nesse momento que ela se virou para o Soldado, enquanto ele imediatamente voltava a encarar a própria mão.

Sentiu quando ela se aproximou, podia ver as pernas expostas pela visão periférica, — belas coxas aliás, — ela o cercou por alguns segundos, como se estivesse muito atenta ao que Bucky fazia.

— Você é péssimo nisso. — Declarou de repente, usando um tom contrariado e soltando um suspiro pesado. — Vai ficar uma cicatriz horrorosa e vai levar uma eternidade para fechar como deve.

Pensou em dizer que não se importava com cicatrizes, e que seu organismo acelerado cuidaria do resto, mas o Soldado Invernal não retrucava seus superiores. Isso estragaria totalmente o disfarce.

Roxanne Domenichelli puxou uma das cadeiras da varanda e se sentou bem ao lado dele. Perto demais.

— Se vai mesmo me proteger, não importa o quão turbinada seja uma das suas mãos, a outra também vai precisar estar em bom estado. — Ela declarou de forma prática e estendeu a mão para o Soldado. — Me deixa cuidar disso?

Era uma pergunta mesmo ou era apenas uma ordem disfarçada?

De toda forma Barnes estendeu a mão perfurada para ela, que examinou a perfuração com um olhar analítico antes de começar a trabalhar de forma muito organizada. A primeira coisa que fez foi limpar o ferimento.

Estavam muito perto, os joelhos quase se tocando, felizmente ela tinha fechado o robe antes de sentar, mesmo assim Bucky analisou a figura feminina por alguns instantes...

Talvez estivesse errado sobre ela, talvez fosse apenas uma moça normal com uma péssima família, que acabou metida em tudo aquilo sem querer. Era quase certo que não era como Viktor, talvez sequer gostasse do noivo.

Então por que ainda estava ali? Por que não voltava para a América do Norte?

O que prendia Roxanne Domenichelli na Sicília?

Barnes teve que conter a dor mínima de algo ardido colocado dentro de seu ferimento, provavelmente algum tipo de antisséptico, por isso respirou controladamente. E a Italianinha estava tão perto que foi impossível não perceber que ela cheirava a rosas, como um buque de flores vermelhas, porém com algo mais no fundo que foi impossível distinguir no momento.

No entanto ela se encontrava focada demais no que fazia para notar Bucky lhe analisando de todas as formas...

Depois de limpar o ferimento ela colocou uma pomada quase transparente nos próprios dedos.

— É um anestésico. Para os pontos. — Avisou em um tom apaziguador, quase como se precisasse tranquilizá-lo. — É gelado.

Ela deslizou os dedos delicados na palma dele e depois no dorso da mão masculina, um arrepio quente correu o corpo de Bucky e ele tentou espantar essa sensação de si mesmo.

— Eu não sinto dor. — Declarou impassível. Porque o Soldado Invernal de fato não devia se importar com aquilo. Ele só gritava quanto estava nas sessões de eletrochoque.

— Todo mundo sente dor, James. — Roxanne respondeu prática e direta, como se fosse a dona de toda a verdade do mundo. — Certamente seu cérebro apenas foi doutrinado a suprimir isso. Mas existem níveis de dor que nem mesmo um cérebro treinado seria capaz de ignorar.

Bucky não respondeu, mas sabia que a Herdeira Domenichelli não estava errada.

Ficaram em silêncio então, ela começou a dar pontos na mão dele, com uma delicadeza quase irreal, seu toque era tão leve que o Soldado sequer sentia desconforto.

— Como fez isso? Foi uma luta? — Ela perguntou, enquanto ponteava o outro lado.

— Autoinfligido. — Barnes respondeu, voltando a analisá-la com cautela.

Se a conversa implicasse no envolvimento de Viktor ele queria ver a exata reação de Roxanne. Isso diria muito sobre ela.

— Por que? — A pergunta veio acompanhada pelos olhos de obsidiana que focaram no Soldado de um jeito constrito.

— Foi uma ordem. — Ele revelou como se isso não importasse realmente.

Sentiu a mão de Roxanne tremer de encontro a sua, ela fechou os olhos por um instante e respirou fundo, como se já soubesse o que viria a seguir.

— Do Viktor? — Questionou, baixando a cabeça para terminar o curativo.

— Parcialmente. — Bucky confirmou na postura impassível de seu disfarce.

A Herdeira Domenichelli ficou calada por alguns segundos, prendendo os curativos no lugar com a mesma delicadeza com a qual tinha feito todo o resto.

— Isso é a cara dele... — Disse finalmente e seu tom crítico não passou despercebido.

Talvez ela não fosse mesmo tão terrível como o noivo.

Roxanne se colocou de pé assim que acabou, recolhendo a pouca bagunça e jogando o necessário no lixo.

— Agora gostaria que se trocasse, por favor. — Ela pediu, apontando o cabide coberto com a capa sobre a cama. — Se vamos andar juntos, prefiro que não chame tanta atenção. — Declarou de forma prática e os olhos dos dois se encontraram quando Bucky se colocou de pé. — E por gentileza, não demore, Viktor não gosta de esperar.

Era estranho que todas as ordens dela soassem como pedidos e não como exigências... Em todas as lembranças que tinha da vida como Soldado Invernal, ele não se recordava de alguém que houvesse lhe tratado daquela forma.

— Pode usar o quarto ou o banheiro, vou estar no closet. — Ela apontou a porta ao lado e depois entrou em outra, sumindo da visão de Barnes.

Ele pensou em se trocar no banheiro, mas se a noiva de Strovalenko descesse primeiro seu disfarce estaria perdido. Porque o Soldado Invernal se trocaria em qualquer lugar e com isso ganharia tempo.

Foi o que fez então, se despiu das roupas táticas e com certeza se surpreendeu ao encontrar dentro da capa um terno negro completo. Se vestiu rapidamente, calças primeiro e o próprio sapato em seguida, então vestiu a camisa e o terno, só então fechando tudo.

Mas sua pressa foi desnecessária, já que Roxanne só deixou o closet quando ele estava lutando com a porcaria da gravata. Fazia décadas que não tinha que usar gravatas, nem se lembrava mais de como se fazia um nó descente.

A noiva de Strovalenko usava um macacão verde musgo de um tecido leve, mas com corte pesado, não tinha qualquer decote e as mangas eram curtas. Era uma peça elegante de fato, mas era um tanto feia, e não parecia ter muito a ver com a mulher que o vestia.

Mas talvez só estivesse pensando isso porque tinha se acostumado com o belo e nada discreto decote da lingerie.

— Bom... se a intenção era “não chamar a atenção”, eu certamente errei ao escolher um terno. — Ela sorriu, exibindo as covinhas em suas bochechas e analisando o Soldado da cabeça aos pés. — Vamos conseguir uns sapatos apropriados pra você depois...

Se aproximou dele, e como não usava salto ainda existia uma certa diferença de altura entre os dois. Estavam bem perto outra vez, mas felizmente não havia um decote para ofuscar a atenção do Soldado.

— Benedetta e Frank acertaram mesmo seu tamanho.... — Ela anuiu em aprovação, então estendeu a mão direita em direção a gravata no pescoço de Barnes. — Posso?

Outra vez uma pergunta. Obviamente Roxanne não era burra, sabia muito bem que o Soldado seguiria ordens sem piscar e faria tudo que ela quisesse, então por que continuar com as perguntas retóricas e as pequenas gentilezas?

Ele afastou as mãos para que ela tocasse sua gravata. Isso os deixou tão perto que era quase como se estivesse se afogando no perfume indecifrável de rosas e algo mais. Ela tinha cheiro de mulher bonita, se é que isso fazia algum sentido...

Roxanne fez o nó sem tirar os olhos do rosto de Bucky, analítica de um jeito estranhamente invasivo. O que ela estava procurando? Seja o que fosse, não ficou claro se ela encontrou ou não, porque assim que o nó ficou pronto a Herdeira Domenichelli deu alguns passos para trás.

— Agora vamos, James. Meu adorado noivo está esperando. — Ela disse prática e firme, porém nada feliz.

Enquanto avançava dois passos atrás dela no corredor, Bucky só desejou que aquele dia trouxesse uma resposta definitiva para sua primeira pergunta dentro da Operação Roleta Russa.

Roxanne Domenichelli era ou não alguém de boa índole?

Notas finais
Bucky passou nem meia hora do lado da Roxanne e já tá "mas tadinha, ela não é como eles, ela teve passado triste" kkkkkkkkkk mais iludido que eu. Mas será que é isso mesmo... Já posso dizer que a Roxie tem umas cartas na manga pra revelar ainda e que temos muitooo pra conhecer dela pela frente. O próximo dá uma amostra disso. Agora eu oficialmente postei o capitulo inteiramente escrito que eu tinha, então não volto tão rápido (mas a gente sabe que não vou aguentar até setembro), então... Beijos e até breve!