Notas iniciais
Eu disse que ia voltar antes de setembro porque não me aguento kkkkk Vamos conhecer o capiroto, ou melhor, o Viktor Strovalenko... Atenção: esse capitulo pode ser desconfortável para pessoas sensíveis a violência, não chega a ser um aviso de gatilho, mas enfim. Tem uma música que toca no capitulo, chama "Lacrimosa" do Mozart, e se vocês quiserem podem ouvir junto, quando a ela for citada no texto, acho que dá bem o clima. O link vai ficar nas notas finais Boa leitura!

Bucky Barnes passou aquelas últimas semanas estudando cada pequena informação que tinha sobre seus alvos. Tentou planejar seus movimentos o máximo possível, considerando a imprevisibilidade daquela missão...

Enquanto isso, o Alto Conselho fazia sua própria parte, para que assim todas as informações parecessem críveis quando o contato de Zemo com a Hydra iniciasse; começou com uma fuga falsa, onde o “Soldado Invernal” se envolveu apenas o bastante para que sua imagem fosse capturada por câmeras de segurança e isso “vazasse” para os jornais. Então pequenas aparições e perseguições rápidas aqui e ali.

A linha de raciocínio e a história que Zemo contaria era simples: ele havia conseguido ativar o Soldado Invernal novamente, atraindo Bucky para uma visita na Balsa, assim tinha acontecido a fuga. Depois disso, os dois haviam escapado e estavam se escondendo das autoridades. No entanto, o Soldado Invernal, apesar de um recurso valioso, chamava muita atenção, além disso, Zemo precisava de dinheiro para continuar fugindo, identidades novas e capital financeiro para desaparecer no mundo definitivamente. Já que mexer em sua fortuna pessoal o tornaria fácil de rastrear, o Barão usaria o Soldado Invernal como um meio para conseguir o que precisava para alcançar seus objetivos: grana.

Alguém devia parabenizar a Condessa de Fontaine por todo esse enredo mentiroso, era mesmo muito convincente.

Assim, nos últimos dias, os contatos monitorados tinham iniciado, estavam em um esconderijo fora do país, tudo conforme o plano. Naquela noite aconteceria a transação e Bucky Barnes seria novamente propriedade da Hydra...

Nesse meio tempo ele tentava se manter frio e impassível, por mais que a ansiedade comprimisse seu peito, era como reviver um pesadelo. Claro que podia ter falado sobre isso com Sam, que estava ali acompanhando cada passo da missão de perto, junto com Walker, porém o Soldado Invernal não possuía qualquer sentimento, então Barnes julgou que seria um bom treino fingir na frente das pessoas que já lhe conheciam.

Se pudesse enganá-los, talvez tivesse uma chance contra a Hydra.

Durante a despedida, Wilson fez uma dezena de recomendações e pediu que Bucky reconsiderasse, argumentando que tinha um péssimo pressentimento sobre aquela operação... E Barnes também tinha, se fosse honesto. Mesmo assim, as duas e meia da madrugada, lá estava ele, entrando com Zemo em um hangar privativo em uma pequena cidade litorânea da Albânia.

Era hora do show...

Bucky começou a analisar o lugar assim que passou pelos portões com o carro que ele dirigia; haviam sete veículos blindados do lado de fora do hangar, porém, assim que entraram no galpão a situação parecia ainda pior; o local mal iluminado contava com trinta homens muito bem armados, e Barnes achou prudente esperar que houvessem ainda mais deles dentro do jato particular estacionado ali dentro.

Olhou ao redor discretamente, mas não viu Strovalenko, por isso presumiu que ele estivesse protegido no blindado estacionado estrategicamente atrás do jato.

Enquanto Zemo descia do carro e se apresentava, Bucky teve que esperar conforme o planejado, por isso ele tirou esses minutos para analisar cada um dos homens com atenção, a diferença entre as duas máfias estava bem explícita na forma de se vestirem. Os italianos usavam ternos cinza, os russos — que supostamente eram da Hydra — tinham equipamento tático aparente. Então, seja lá qual fosse o acordo, a integração entre esse pessoal não era completa.

Além disso, era evidente que os homens da Máfia Italiana eram superiores em número... Bucky guardou essa informação na mente.

Quando Zemo se aproximou, um dos homens tomou a frente; não era tão alto, magro e de rosto comprido, com a testa proeminente, cabelos escuros e porte sério. Bucky o conhecia de nome e de algumas fotos, Francesco Greco, ou apenas Frank, era um primo distante de Vicenzo Domenichelli o líder da Máfia Italiana.

Considerando a hierarquia da Máfia, Frank talvez tivesse um cargo alto por ser tecnicamente da família, mas essa era uma informação que Barnes não possuía, a única coisa que ele sabia sobre Frank era que o homem vinha trabalhando com Strovalenko há algum tempo.

Dada a forma como o italiano se portava naquele instante, ele era um dos homens de confiança de Viktor com certeza, talvez o braço direito. Era Frank quem estava dando as ordens para que dois homens revistassem Zemo...

Depois disso eles se afastaram, de armas ainda em punho, e o sokoviano olhou Barnes por sobre o ombro.

— Soldat? — Chamou, em um russo carregado por seu sotaque nativo.

Bucky pulou do carro e caminhou em direção ao Barão sem hesitar ou sair da postura militar. Parou ao lado do homem, braços cruzados atrás das costas e cabeça erguida. Usava uma roupa tática preta, o braço de vibranium de fora, embora o outro estivesse coberto.

Frank se aproximou também então, mediu o Soldado Invernal com desconfiança velada, ou seria interesse?

— Pode revistar, ele não morde. — Zemo deu um sorrisinho debochado.

O italiano respondeu com outro sorriso, um de canto, quase uma ameaça.

— Talvez quem morda seja eu, Turd. — Misturou inglês e italiano em um tom de advertência.

Zemo claramente não entendeu a última palavra, não falava nada de italiano, era fluente em inglês, alemão e sabia o básico de russo, além, claro, de sua língua materna, sokoviano.

Bucky permaneceu impassível, mas ele sim entendeu o xingamento e no fundo quis rir... Turd queria dizer algo como “seu bosta”. Italiano não era umas das línguas que dominava totalmente no quesito fala, mas ainda assim entendia o bastante. A Hydra fazia questão que o Soldado Invernal fosse poliglota.

Frank deixou Zemo de lado e entregou a arma para um dos capangas de terno cinza, cinco deles se colocaram em posição de ataque quando o italiano se aproximou do Soldado Invernal um pouco mais, quase como se tivessem medo que de uma hora para outra Barnes fosse decidir matar todos eles.

A vontade até estava lá, mas a prudência e o foco no objetivo mantinham Bucky controlado.

Zemo deu a ordem para que Barnes não se movesse e assim Frank fez a revista, apalpando muito mais lugares que o necessário. Mesmo assim o Soldado Invernal não se moveu um só milímetro, porque incômodo ou constrangimento eram coisas para pessoas, e ele não estava ali como uma pessoa, estava ali como uma arma.

Quando Frank se deu por satisfeito em sua busca por problemas, ele fez um sinal e a porta do carro blindado foi aberta...

— Tutto pulito, Signore. — Frank declarou, assim que o homem colocou o primeiro pé para fora do carro. “Tudo limpo, Senhor”, Bucky traduziu automaticamente.

Viktor Strovalenko entrou em seu campo de visão então, fechando os dois botões do terno verde musgo bem cortado. Era um homem imponente sem dúvida alguma, tinha praticamente a mesma altura de Barnes, embora seu corpo fosse mais esguio, era evidente que tinha músculos, mas não tanto quanto o Soldado Invernal.

— Ya uzhe govoril vam govorit' so mnoy tol'ko na russkom ili angliyskom. — Declarou em um russo perfeito, sem dar sequer um olhar descente para Frank. “Já te avisei para falar comigo apenas em inglês ou russo”, era o que significava.

Tão prepotente e arrogante quanto sua postura demonstrava.

— Senhor Strovalenko... é um grande prazer. — Zemo deu um passo para frente e estendeu a mão direita em um cumprimento cordial.

O líder da Máfia Russa e atual cabeça da Hydra deu uma olhada indiferente para o sokoviano, e então se aproximou do Soldado, rodeando-lhe o corpo de forma avaliativa. Bucky não gostava do que via nos olhos daquele homem, era como se suas orbes verdes fossem puro veneno.

— Vejo que trouxe minha mercadoria. — Parou na frente de Barnes com desdém aparente. — Esse é mesmo o famoso Soldado Invernal? Não parece grande coisa.

Analisou o braço de vibranium então, tendo a ousadia de erguer a mão direita e dar um peteleco no metal, como se de fato estivesse avaliando uma “coisa” não uma pessoa. Bucky permaneceu impassível, a missão era mais importante que seu ego naquele momento...

— Acredite, ele é tudo que dizem. — Zemo garantiu, mas foi ignorado uma vez mais.

Os olhos verdes venenosos de Strovalenko permaneceram no Soldado por mais um tempo, Bucky evitou encará-lo, porque não fazia sentido um enfrentamento naquela situação, podia até mesmo estragar o disfarce, no entanto ele nunca imaginou que podia sentir tanta aversão por alguém em tão pouco tempo.

E não era sequer o começo...

Strovalenko fez um sinal e caminhou para fora do hangar sendo seguido de perto por alguns homens, outro sinal e os italianos, incluindo Frank, voltaram para dentro. O líder olhou por cima do ombro e focou em Zemo, que logo entendeu que devia seguí-lo.

O sokoviano fez um gesto e Bucky também caminhou para fora do hangar, ali pararam, enquanto os russos davam uma olhada geral no ambiente e o líder da Hydra avaliava o Soldado Invernal uma vez mais.

— Quais línguas isso entende? — Viktor perguntou em russo, usando um tom baixo que não podia ser ouvido dentro do hangar e agindo como se estivessem falando de uma simples máquina.

— Bom, eu sei que ele fala... — Zemo começou, levemente confuso, mas foi rudemente interrompido

— Não perguntei quais línguas fala, perguntei quais entende. — A voz de Viktor era impassível e firme, embora conservasse um tom cordial, baixo e pomposo que só soava ainda mais prepotente aos ouvidos de Bucky. — Uma arma não precisa falar.

Barnes desejou quebrar cada um dos dentes do líder da Hydra, mesmo assim manteve sua postura militar fria e distante, como se de fato fosse apenas uma arma sem qualquer emoção. Eliminar aquela cabeça faria apenas com que duas surgissem no lugar. Precisava ser mais esperto que isso.

— Inglês, espanhol, português, alemão, russo, latim, japonês, italiano e francês. — Zemo respondeu, seguindo o tom discreto e o idioma imposto por Strovalenko, mas com evidente má vontade. Era o tipo de informação que ele certamente tinha conseguido no livro vermelho da Hydra...

Um que felizmente foi destruído quando o sokoviano foi capturado.

Os lábios de Viktor Strovalenko se moveram no esboço de um sorriso perverso que a Bucky pareceu um péssimo sinal. Ele fez um gesto para os russos e logo voltaram a caminhar para dentro do hangar, se juntando aos italianos. Foi evidente que o homem não queria que aquela conversa sobre idiomas fosse de conhecimento dos membros da máfia italiana...

Já do lado de dentro, voltando às suas posturas iniciais, Strovalenko focou no Soldado Invernal novamente, mas nada em sua postura disfarçava seu evidente desdém.

— Quero uma prova de que isso obedece de verdade. — Disse com a naturalidade de quem fala do tempo.

— Que tipo de prova? — Zemo questionou, enquanto Barnes via que ele estava improvisando ali.

Aquele não era o acordo. A coisa toda já tinha sido fechada, o Soldado Invernal só tinha que ser entregue junto com as palavras gatilho, aquela conversa não fazia parte do plano...

Por outro lado, Bucky sempre soube que assim que ficasse frente a frente com Strovalenko era tudo uma questão de improviso, porque não havia como seguir um plano passo a passo dentro daquela operação, era tudo sobre se adaptar às situações que fossem surgindo.

— Uma irrefutável, é claro. — Viktor gesticulou, e a forma como seus olhos verde-veneno brilhavam não era nada boa. — Não vou te pagar setecentos milhões de dólares por uma mercadoria que é publicamente conhecida por dar defeito, sem uma boa garantia. É o mínimo, considerando o risco que essa transação me traz. Nunca se sabe quando um Vingador estúpido vai bater na minha porta procurando por essa porcaria.

Ele tinha um bom argumento, escroto, mas bom, Bucky podia até ter admitido isso para si mesmo se não estivesse borbulhando de raiva no instante.

— Já lhe disse, depois que Steve Rogers se foi qualquer vínculo com os Vingadores não existe mais. O Soldado Invernal tentou matar todos eles em ocasiões diferentes, não há amizade que resista a isso. — Zemo declarou com uma resposta ensaiada.

Não era de todo mentira, nenhum dos Vingadores se importava com Barnes, mesmo Sam não se importaria o bastante se os dois não houvessem se resolvido depois da partida de Steve. Felizmente isso não era de conhecimento do grande público, assim como a estadia de Bucky em Wakanda.

Ter se mantido fora do radar por todo o tempo se provou muito útil naquele momento...

Strovalenko pareceu extremamente entediado com a conversa.

— Tanto faz. Mande que isso faça algo que nunca faria se não estivesse cem por cento funcional. — Apontou, mostrando que não era apenas um playboyzinho em um terno bem cortado. Ele era esperto.

— Como o quê, por exemplo? — Zemo perguntou.

Barnes não sabia se a aparente calma do Barão era verdadeira ou se era apenas ingenuidade, porque estava bem claro que aquilo não acabaria nada bem.

Principalmente para o Soldado Invernal.

— Mande... cortar a mão direita fora. — Strovalenko sugeriu como se fosse nada.

Bucky não se moveu, sabia que a missão estava em risco, se Zemo ordenasse ele teria que escolher entre manter o disfarce e ficar sem a única mão de carne e osso, ou então abortar a operação e talvez sair dali sem a vida.

De um jeito ou de outro terminava em sangue.

— Claro e no instante seguinte você desiste da compra por eu ter uma mercadoria permanentemente avariada... — Zemo ironizou, provando que era tão inteligente quanto Strovalenko.

— Justo. — Viktor concordou, embora não parecesse realmente satisfeito, fez um sinal para Frank e o italiano lhe entregou uma maleta, em seguida Strovalenko estendeu a mão direita. — Nozh.

Uma faca. Foi isso que o líder pediu e foi prontamente atendido... Com a lâmina em mãos ele se aproximou de Zemo dois passos e abriu a maleta, mostrando a infinidade de notas de cem perfeitamente arrumadas. Em seguida virou o cabo da faca para o homem.

— Diga pra minha nova arma enfiar isso na mão e o dinheiro é seu. — Ordenou com frieza e um certo toque de desdém. — Esse tipo de ferimento não afetará a funcionalidade do produto.

Estava claro que Strovalenko não tinha qualquer apreço pelo bem-estar do Soldado Invernal, nem mesmo no que se tratava do básico que a Hydra sempre teve. Porque apesar das torturas e lavagens cerebrais, ordenar ferimentos autoinfligidos não era uma técnica da antiga liderança.

Pela visão periférica Bucky viu Zemo pegar a lâmina e se preparou para o que viria a seguir, já planejando o melhor lugar para atingir a própria mão sem que danificasse nada importante que fosse lhe causar qualquer dano a longo prazo, como uma veia ou um músculo.

— Soldat... — Zemo se virou e estendeu a lâmina. — Atravesse a mão com essa faca.

Bucky não hesitou, não podia afinal, isso destruiria seu disfarce e qualquer chance de sucesso da missão. Atingiu a mão direita no lugar que julgou mais adequado, rápido e certeiro, um movimento limpo e firme, para que causasse o mínimo de dano de entrada e saída que fosse possível...

Não significa que foi indolor, muito pelo contrário, mas Barnes se manteve firme, comparado a tudo que já havia sofrido nas mãos da Hydra aquilo não era nada. Além disso, seu organismo tinha um fator de cura muito mais avançado que o de um ser humano normal por causa do super soro, uma facada na mão com certeza não o mataria, em questão de dias aquele tipo de ferimento não existiria mais...

Strovalenko pareceu, pela primeira vez, muito satisfeito com o que viu. Fez um sinal com os dedos e logo um dos homens lhe entregou um livro vermelho com uma estrela negra, exatamente igual ao que as autoridades haviam destruído.

Bucky controlou qualquer reação, mas o asco foi tanto que seu estômago revirou de forma enjoativa.

— As palavras gatilho, por favor. — O líder da Hydra entregou o caderno para Zemo junto com uma caneta.

Barnes pôde ver que as páginas estavam em branco, era apenas uma tentativa idiota de seguir a tradição.

— Cuide dis... — Zemo tinha acabado de se virar e estava no meio da ordem para que o Soldado Invernal lidasse com o ferimento em sua mão, quando foi bruscamente interrompido.

— Não. — Viktor ergueu um dedo em riste, e sua irritação ficou bem clara em seus olhos. — Diga pra parar. Isso é uma arma, não tem o direito de sentir dor.

Zemo retirou a ordem e Bucky não teve outra escolha a não ser voltar para a sua posição e deixar que o sangue escorresse de sua mão diretamente para o chão.

Strovalenko estava se mostrando pior do que qualquer um tinha previsto...

Menos de cinco minutos depois o livro vermelho já estava de volta nas mãos do líder da Hydra com as devidas palavras assinaladas. Bucky sabia que os gatilhos verdadeiros seriam usados, Sam havia sugerido que uma versão alternativa das palavras fosse escolhida, mas Barnes sabia que era arriscado, eles desconheciam se havia algum membro antigo entre os homens de Viktor, tampouco sabiam se as palavras tinham ficado gravadas em qualquer outro lugar que não no livro destruído. Arriscar perder toda a operação por uma contradição boba seria burrice...

Depois de outra ordem muda de Strovalenko, três homens trouxeram um tipo de cadeira adaptada, era como uma cadeira de dentista, mas claramente com muito mais funcionalidades. Bucky entendeu de imediato para que servia e não gostou nada disso.

— Pelo que eu sei eletricidade é necessária. — Viktor apontou com um sorriso perverso.

Ele seguiria o maldito procedimento da Hydra de usar choques enquanto proferia cada palavra.

Foi a primeira vez que o coração de Barnes realmente acelerou, testar as palavras em um ambiente controlado sob os cuidados de Ayo era uma coisa, ouví-las novamente enquanto centenas de volts passavam por seu corpo era outra bem diferente... Se não resistisse, todos os seus pesadelos se tornariam realidade.

— Eu consegui sem... — Zemo tentou argumentar, mas foi cortado novamente.

— Eu não dou a mínima. — Viktor declarou impassível e ordenou que o Barão fizesse o Soldado Invernal assumir seu lugar.

Bucky seguiu a ordem que foi dada em seguida, tentando manter o controle de seu próprio corpo, mesmo que naquele instante a preocupação corroesse suas veias com violência. Foi preso, e rapidamente notou que a maldita cadeira inteira conduzia eletricidade, não era apenas sua mente que receberia choques diretos, seria o corpo todo...

E logo veio, as ondas elétricas devastadoras que colocaram todo o sistema nervoso de Barnes em colapso, cada músculo foi atingido, ele perdeu a noção de realidade por um segundo, os próprios gritos se espalhando pelo galpão enquanto as malditas palavras eram recitadas como um mantra macabro:

— Zhelaniye. Semnadtsat'. Rzhavyy. Rassvet. Pech'. Devyat'. Dobroserdechnyy. Vozvrashcheniye na rodinu. Odin. Tovarnyy vagon.

Os choques cessaram, os gritos do Soldado também, as palavras-gatilho deixaram um silêncio sepulcral no galpão; Barnes manteve os olhos fechados por alguns momentos, temendo que sua mente não fosse mais sua... A sensação de déjà vu era assombrosa e aterrorizante.

Três segundos. A alta carga de eletricidade em seu corpo cobrava um preço, porque cada fibra sua doía, mas a dor era boa.

Uma arma não se importava com a dor, mas uma pessoa sim...

— Gotov soblyudat'. — Soprou ao abrir os olhos. Pronto para obedecer.

Nunca aquelas palavras tinham sido tão mentirosas quanto naquele momento. Bucky teria sorrido se pudesse, mas isso estragaria seu disfarce.

Estava feito.

— De pé, Soldat. — Viktor ordenou e o Soldado Invernal se ergueu, ignorando os efeitos dos choques de alta voltagem.

Todos olhavam, havia um tipo de tensão palpável no ar. Uma expectativa que Bucky podia ver nos olhos dos homens de Strovalenko com clareza quase assustadora...

— Negócio fechado, então? — Zemo questionou, quebrando o silêncio que havia se formado entre eles.

Viktor pareceu lembrar que o homem ainda estava ali e lhe lançou um olhar de puro desprezo. Fez um sinal, um dos homens se afastou e ligou o aparelho de som do carro, uma música clássica tomou conta de todo o galpão, violino e orquestra em notas marcantes.

O líder da Hydra deu um passo em direção a Zemo e pegou a maleta de dinheiro que estava por ali. Por um instante Bucky pensou que Viktor entregaria o pagamento para o sokoviano e tudo estaria acabado, mas ao invés disso o homem se virou de costas e deu dois passos em direção ao Soldado Invernal.

— Quebre as mãos dele, para que aprenda a nunca mais roubar da Hydra outra vez. — Ordenou com a voz calma e neutra, como se não estivesse falando de crueldade e violência.

A mente de Barnes teve que trabalhar muito rápido... O que valia mais, o bem-estar de Zemo ou a Operação?

Ele soube, assim que deu o primeiro passo, que não escolheria dessa forma se fosse Sam ali, mas quando se tratava do maldito sokoviano que tinha lhe usado para acabar com os Vingadores... Uma mão quebrada de Zemo valia muito menos que a possível queda da Hydra.

No entanto, Bucky não gostava daquilo, claro que ele sabia que teria que fazer coisas terríveis para manter a Operação, só não pensou que seria tão cedo.

— Espera... Espera... — Zemo pediu, enquanto ele dava alguns passos para trás. — Nós tínhamos um acordo e...

— Eu mudei nosso acordo. — Viktor declarou simplesmente, entregando a maleta de dinheiro para Frank. — Seu pagamento é sua vida, e ainda estou sendo bondoso o bastante em apenas quebrar suas mãos ao invés de arrancá-las do seu corpo.

O Soldado Invernal continuava caminhando lentamente em direção ao sokoviano, torcendo para que a lábia dele fosse o bastante para desfazer aquela situação. Mas a verdade é que, no fundo, Bucky sabia que a Hydra nunca perdoaria alguém por roubar o livro vermelho, ativar o Soldado e, ainda por cima, ter a audácia de entrar em contato para vendê-lo de volta para a organização.

Na verdade, a única surpresa ali era mesmo que Viktor não tivesse ordenado a morte de Zemo.

— Achei que a Hydra sempre honrasse sua palavra. — O sokoviano tentou argumentar. Bucky estava a menos de um metro.

Ao redor as armas foram erguidas e o homem se viu cercado, impossibilitado de fugir.

— Somos a Nova Hydra. — Viktor Strovalenko focou seus olhos de veneno líquido em Zemo. — Traidores e ladrões são devidamente punidos. Mas diferente de meus antecessores, eu quero deixar alguns exemplos e testemunhas. Que vocês da ralé aprendam a ter medo pelo exemplo.

Zemo possou os olhos em Bucky, que permanecia frio como o próprio inverno em sua alcunha. O Barão respirou fundo e, munido de toda sua dignidade, ele apenas esperou...

A mão de vibranium segurou Zemo, os dedos metálicos firmemente presos ao redor do pulso do sokoviano. A música atrás deles aumentou ainda mais. Uma sinfonia macabra...

Bucky quis pedir desculpas, ao menos com o olhar, não tinha qualquer afeto por Helmut Zemo, mas odiava estar no papel de um carrasco... No entanto estava cercado dos homens da Hydra, todos os olhos em si e qualquer pequena oscilação na postura seria notada e poderia colocar tudo a perder.

Precisava focar na missão.

Zemo prendeu a respiração e Bucky apertou os ossos entre os dedos e sentiu quando se partiram, um pulso e depois o outro, o grito de dor cortou o ar e se impregnou nas entranhas de Barnes como um pecado que nunca seria lavado...

— Já é o bastante. — Viktor declarou quase entediado. — Se afaste.

O Soldado Invernal deu alguns passos para trás, agradecendo internamente por tudo ter acabado. Zemo podia se curar de dois pulsos quebrados.

Ele estava no chão segurando as próprias mãos, tremendo de dor, e Bucky permanecia em sua postura impassível como se nada daquilo lhe abalasse, mas seu estômago dizia exatamente o contrário...

Strovalenko deu alguns passos em direção ao sokoviano, parando perto o bastante para encará-lo como quem vê um verme rastejando no chão. Os olhos de Zemo estavam cheios de ódio, mas ele mantinha uma altivez quase invejável, Barnes tinha chegado a temer que o Barão colocasse tudo a perder quando sua segurança estivesse na reta, porém nada disso aconteceu. Talvez ele quisesse derrubar a Hydra tanto quanto o próprio Bucky.

Algumas vezes Zemo podia ser até mesmo digno de admiração.

— Essa foi sua lição. Ninguém rouba da Hydra. — Strovalenko disse frio, olhando o Barão de cima, então sem aviso deu-lhe um golpe certeiro no rosto. — E isso é por ter a audácia de tentar vender a minha mercadoria de volta para mim.

Outro soco. Zemo caiu para trás engasgado e arfando de dor, enquanto Strovalenko tirava o terno caro e dobrava as mangas da camisa branca sem qualquer pressa.

Bucky começou a prever o pior cenário, mesmo antes que o líder da Hydra se aproximasse novamente do sokoviano e desferisse o próximo golpe, segurando-lhe a gola da camisa e atingindo-lhe o rosto, de novo e de novo. A música de fundo chegando em seu ápice, deixando a cena ainda mais macabra a cada nota intensa.

Barnes cogitou intervir, porém o próprio Zemo lhe deu um olhar duro entre um soco e outro. A missão era mais importante...

O brilho nas íris verde-veneno de Viktor era selvagem, seu rosto contorcido em um sorriso sádico manchado com o sangue de Zemo. Outro e outro golpe. Ele gostava daquilo, da violência e da dor no rosto da vítima.

Viktor Strovalenko gostava de sujar as mãos.

O que fazia dele um líder muito perigoso, porque em geral as cabeças da Hydra sempre se colocavam em um pedestal, intocáveis, nunca lidariam diretamente com alguém como Zemo, ainda mais com o Soldado Invernal ali do lado pronto para receber ordens.

Barnes começou a ver a missão se desmantelar diante de seus olhos, Zemo era um criminoso, e de muitas formas também conseguia ser um cretino, e mesmo que o próprio Barão estivesse obstinado em manter a Operação Roleta Russa de pé, Bucky não podia permitir que Viktor o matasse. Teria que agir...

Tão logo ele decidiu intervir, Strovalenko deu um passo para trás, um sorriso selvagem mostrando os dentes perfeitamente alinhados e brancos, sangue manchando sua mão e respingado em seu rosto e em sua camisa alva.

— Senhores, esse é o complemento perfeito para a música perfeita. — Abriu os braços, o corpo se movendo pra lá e pra cá no ritmo das notas clássicas.

Zemo se engasgava no próprio sangue, o rosto rubro e inchado em vários lugares. Cuspiu alguns dentes e encarou o Soldado Invernal com a obstinação de um lorde, ele estava pagando o preço sem pestanejar, Bucky soube que não poderia fazer menos que isso então.

Era mesmo uma missão sem volta.

— Não se preocupe, eu vou permitir que você viva... — Viktor declarou, assumindo uma postura soberba. — Você vai servir de exemplo, para que qualquer um que pense que pode tirar vantagem em cima da Hydra saiba que vai pagar com sangue.

Se afastou um passo, dando aquilo por encerrado, e Bucky quase suspirou de alivio. Não queria Zemo morto, não queria a Hydra derramando mais sangue.

— Somos a nova ordem mundial! — Strovalenko discursou para seus homens, olhando ao redor com a postura imponente. — Chegaremos muito mais longe do que nossos antepassados sonharam em chegar.

Ele possuía apelo, Bucky percebeu de imediato, reparando na empolgação de cada homem ali, ver que seu líder não tinha medo de sujar as mãos certamente inspirava confiança. Strovalenko não era a cabeça da Hydra apenas por ser o herdeiro, ele havia conquistado aquela posição com o sangue dos inimigos.

— Hail Hydra! — Ele gritou, fazendo a pose característica e todos os seus soldados repetiram isso. Mas não os italianos e Barnes guardou essa informação.

Viktor se virou então, fez um sinal para Frank e esse embarcou no jato particular, levando a maleta de dinheiro consigo.

— Dmitri? — Chamou e logo um dos homens, um russo alto e muito musculoso se aproximou. — Prepare a equipe para os próximos compromissos, volto em algumas horas. E deixe esse ser desprezível na porta de qualquer hospital, vão mantê-lo vivo e devolvê-lo para o buraco de onde nunca devia ter saído.

Dmitri respondeu em russo respeitosamente e logo se afastou dando ordens, os homens foram dissipando e Bucky deu uma última olhada para Zemo no chão, vivo, mas muito debilitado, Strovalenko estava mandando o Barão de volta sem saber que desde o começo ele já retornaria para a balsa de todo o jeito.

Apesar do sangue e dos ferimentos Zemo ficaria bem...

E Bucky Barnes estava infiltrado na Hydra.

— Soldat? — A voz de Viktor fez com que Barnes se movesse imediatamente, seguindo o líder para dentro do jato particular.

Lá fora os homens deixavam o galpão em seus carros, Bucky se sentou depois de uma ordem seca e só então lembrou do ferimento em sua mão direita, que ainda não tinha parado de sangrar totalmente.

Mas como Strovalenko nada disse sobre isso, o Soldado não podia fazer curativo algum ainda... O ferimento permaneceria aberto, até que obtivesse permissão para tratá-lo.

No entanto, apesar da violência e do descaso, tudo seguia conforme planejado, Barnes estava perto o bastante de Viktor e, se continuasse assim, logo teria todas as informações que precisava...

— O piloto perguntou qual o destino, senhor? — Frank se pronunciou, ao se aproximar do líder russo.

— Vamos pra Sicília. Vou fazer uma visitinha para minha futura esposa. — Viktor respondeu com um sorriso de canto, enquanto limpava o sangue de suas mãos com um lenço branco. Seus olhos venenosos cariam sobre o Soldado Invernal então. — Tenho um presentinho interessante para ela...

Bucky não gostou do tom ou da insinuação velada.

Seja lá o que viesse pela frente, não seria nada bom...

Notas finais
Música: https://youtu.be/k1-TrAvp_xs Mas cê jura que não vai ser nada bom Bucky? Que coisa não é mesmo! Já tá liberado odiar o Strovalenko viu gente... Mas é isso, Bucky tá dentro e no próximo a gente conhece a Roxanne. O que será que vem por aí? Beijos e até!