Operação Roleta Russa
33 Epílogo

SEIS MESES DEPOIS
Bucky vestiu a camisa clara, fechando os botões enquanto se olhava no espelho. Os dedos de metal, agora puxados para o azul, combinavam perfeitamente com a cor do terno que ele vestiu em seguida.
Estava prestes a se casar.
Se alguém tivesse levantado essa possibilidade seis meses antes, ele teria rido de forma melancólica, afinal, naquela ocasião estava em Madripoor, planejando uma forma de conseguir o perdão da mulher que amava, sem ter a menor ideia se isso daria certo ou não.
Mas agora Roxanne era sua outra vez. Seis meses incríveis, que eles dividiram com a irritante e insubstituível presença de Damian.
As coisas haviam se ajeitado como tinham que ser... Para o restante do mundo Barnes estava morto, e para os Estados Unidos Roxanne era uma inimiga não declarada. Não tinham o suficiente para prendê-la, sem admitir que haviam violado direitos básicos humanos quando capturaram Francesco, então, de uma forma ou de outra, nada podiam fazer legalmente. Além disso, Sam havia informado que a italiana foi peça chave para que as últimas bases da Hydra fossem encontradas e desativadas, os membros restantes da organização nazista também já estavam sob o julgo da lei, graças ao Capitão América. Sendo assim, a CIA deixaria a Donna de lado, desde que ela não ficasse passeando em território norte-americano.
E, já que Roxanne jamais escolheria os Estados Unidos para passar férias, isso nem fazia diferença. Tudo estava resolvido.
Duas leves batidas na porta, fizeram com que Bucky se virasse a tempo de ver Damian passar pelo batente, trajando uma calça social com colete, camisa e gravata, todos escuros. O mais curioso era que usava tênis de solado reto.
— E aí, o que acha? — Rodopiou no próprio eixo para se exibir. Seu cabelo despretensiosamente bagunçado com tanto gel que com certeza podia resistir a um furacão.
— A gravata está torta. — Barnes alfinetou.
O mais jovem puxou o item do pescoço, o jogando em qualquer canto e abrindo dois botões da camisa em seguida.
— Não está mais. — Retrucou, empurrando Bucky de lado para que pudesse se olhar no espelho.
— É assim que pretende levar a noiva no altar? — Outra alfinetada divertida do mais velho.
— Pois eu tenho certeza que ela vai adorar. — Damian retrucou de forma superior.
Sim, Roxanne com certeza adoraria qualquer coisa que o irmão mais novo estivesse usando. Só o fato de poder caminhar para o altar do lado dele seria a realização da vida dela. Uma prova irrefutável de sua maior vitória. Damian estava em casa, vivo e bem. Então, no que dizia respeito à Donna, ele poderia se vestir até de palhaço se quisesse, Barnes tinha certeza disso.
Se casariam na vinícola, uma cerimônia apenas para as pessoas de confiança da máfia. O resto do mundo não importava naquele dia.
— O que achou do braço? — Damian perguntou, se sentando no beiral da janela.
— É um trabalho descente... — Barnes moveu a nova prótese. Estava com ela a pouco mais de duas semanas, ainda encontrando funcionalidades que o garoto havia escondido.
— Descente? — Rebateu ultrajado. — É tecnologia de ponta, adamantium da melhor qualidade, mil e uma funcionalidades.
— Eu não precisava de tudo isso. Uma prótese simples já seria o bastante.
Damian fez uma careta de puro desgosto.
— Você está falando, mas tudo que eu consigo ouvir é "mimimimi" — Fez o gesto com a mão, arrancando uma risada honesta de Bucky.
Na verdade, era sim um trabalho incrível, tinha todos os melhores pontos da tecnologia de Wakanda e vários outros recursos. Barnes estava muito grato por Damian ter trabalhado tão duro naquilo.
O garoto cortou o espaço até o cunhado e pousou dois dedos no pulso metálico, como se estivesse medindo batimentos cardíacos, então deu dois pequenos toques ali, e Bucky assistiu todo o metal sumir, dando lugar a uma mão de carne e osso. Ou ao menos era isso que parecia.
Moveu a palma para cima e para baixo, abrindo e fechando os dedos com evidente incredulidade. Aquilo era possível?
— É uma projeção holográfica. — Damian explicou, orgulhoso de seu trabalho. — O braço de metal é sua marca registrada e chama muita atenção. É bom ter um disfarce eficiente, agora que você está "morto".
Bucky não conseguia parar de olhar, vendo se a imagem falharia, mas era perfeito de fato.
— Isso é incrível. — Foi honesto.
— Eu sei. — O garoto se gabou com um sorriso. — Agora fale com a voz aveludada: obrigado, Damian...
Bucky riu alto, pego de surpresa pela fala inusitada.
— De onde tirou isso de voz aveludada?
— Da internet.
Barnes sorriu, pousando a mão no ombro do mais novo.
— Obrigado, Damian. — Declarou com honestidade.
O garoto era mais fácil de lidar do que a maioria deles teria previsto. Tinha algumas birras, verdade, mas se empenhava em ser útil, e era evidente o quanto ficava feliz de ter sua genialidade reconhecida. Bucky gostava genuinamente dele, não apenas por ser irmão de Roxanne, os dois tinham uma certa conexão.
O que, é claro, não impedia que implicassem um com o outro de vez em quando...
O noivo voltou para o espelho, arrumando os últimos detalhes de sua aparência. Alisou o terno, checou se os sapatos estavam bem lustrados e se encarou de novo. Estava inquieto, queria um cigarro, mas não queria chegar no próprio casamento fedendo à nicotina. Por fim, passou os dedos pelos fios castanhos, os prendendo para trás. Ainda estava com os cabelos mais longos, Roxanne gostava e Barnes amava agradar sua italianinha.
— Você parece nervoso. — Damian comentou, encarando o cunhado.
— Eu vou casar. — Bucky soltou. — As pessoas ficam nervosas quando vão casar.
— Você não é "as pessoas", você já vive com a noiva, dormem e acordam juntos todo dia. — O garoto rebateu da forma mais simples possível. — Só vai ter uma cerimônia pra tornar oficial o que já rola todo dia.
Os olhos azuis encararam o mais novo por alguns segundos.
— É... — Ponderou, vendo a situação por aquela ótica. — Você está certo, Damian.
Talvez estivesse mesmo nervoso à toa. Só queria que tudo fosse perfeito para Roxanne. Queria que o dia dela fosse incrível e inesquecível, tudo que ela podia sonhar.
Bucky queria fazer sua italianinha feliz.
— Eu sempre estou certo, ainda não acostumou? — O mais novo soltou de forma presunçosa, fazendo com que o outro revirasse os olhos.
— Vai lá pegar sua irmã, moleque. — Mandou descontraído.
— Espera, acha que eu vim até aqui só pra dizer "oi"? — Damian retrucou como se a resposta fosse óbvia.
— Pensei que tinha vindo ver como eu estava... — Bucky não sabia se devia ficar ofendido.
— Tenho cara de babá de idoso agora? — O garoto riu de canto.
— O que você quer, Damian?
— Então... eu estava aqui pensando... — Ele hesitou por um segundo, abrindo um sorriso quase inocente. — Você pode aproveitar que o Sam vai estar aqui... pra dizer pra ele que eu seria um ótimo parceiro.
Bucky segurou o sorriso, se fazendo de sério.
— O que te faz pensar que o Capitão América precisa de um parceiro?
— Histórico, ué. — Damian encolheu os ombros. — Steve teve você, e depois teve o Sam. Sam precisa de um parceiro também. Um Robin para o Batman dele.
— Você anda assistindo muita televisão. — Barnes advertiu.
— Negativo. Eu já pensei em tudo inclusive. Eu surjo na cena como braço direito do Capitão, e logo posso liderar minha própria equipe. — Claramente o garoto tinha pensado muito nisso.
— Sua própria equipe?
— Jovens Vingadores, ué... — Ele soltou como se fosse óbvio.
Bucky não foi mais capaz de prender a risada, o garoto vinha falando dos tais Jovens Vingadores cada vez mais frequentemente naqueles seis meses.
— Damian, vai lá pegar sua irmã. — O empurrou para fora do cômodo, fazendo com que o mais novo risse do gesto.
— Falo sério, tem uma galera que eu 'tô de olho já; Clint Barton estava treinando uma parceira e eu acho que eu e ela...
— Tchau, Damian. — Bucky fechou a porta.
— Você vai ver; a minha equipe vai ser mais famosa que a original! — O garoto continuou gritando lá fora. — A gente vai viralizar no tiktok e tudo!
Barnes ficou rindo sozinho, meneando a cabeça de um lado para o outro. O dia a dia com Damian era impagável. O Domenichelli mais novo era extremamente carismático e empenhado, seria mesmo um líder interessante. Além disso, com certeza seria engraçado ver o irmão da rainha da máfia italiana, bisneto do próprio Caveira Vermelha, à frente de uma equipe de heróis.
O mundo com certeza não estava preparado para algo assim.
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Ela atravessou a passarela segurando um buquê de cravos vermelhos, enquanto a suave melodia de um violino dava o tom das passadas. Estava de braços dados com Damian, suas íris escuras alagadas de lágrimas não derramadas, e um sorriso encantador no rosto. Roxanne Domenichelli estava totalmente deslumbrante.
Bucky não conseguia desviar o olhar, de repente parou de importar que tudo ao redor estivesse impecavelmente decorado. Ele nem sequer conseguia lembrar que haviam pessoas ao redor. Tudo que existia no mundo era sua italianinha, caminhando na direção dele, sua noiva, sua futura esposa.
De repente, Barnes tinha tudo que ele sequer sabia que sonhava. Uma família completa.
Não era tradicional, verdade, afinal ele era um soldado centenário com um supersoro raro no organismo, um braço tecnológico e um treinamento que era melhor não citar; Roxanne, por sua vez, era a rainha da máfia, isso já dizia muito; e o Damian? Caramba, o garoto era bisneto do próprio Caveira Vermelha, quem teria previsto? Além deles, haviam Corrie e Pierre, Nick e Frank, que estavam ali na lateral do altar, enquanto a pequena Martinna ficou com Benedetta na primeira fila. Todos com suas histórias distintas, com motivos o bastante para serem os vilões, e ainda assim, eram o conjunto de tudo que Barnes havia aprendido a chamar de família.
Bucky nunca julgou que conseguiria ser feliz novamente, mas aquela cerimônia na Vinícola Domenichelli, com vários membros da Máfia, dividindo o mesmo ambiente que ilustres convidados, como o Capitão América e a Mercadora do Poder, era a prova perfeita de que ele tinha toda a felicidade que podia sonhar bem na palma de suas mãos.
E, pela primeira vez, ele acreditou de verdade que merecia isso.
Para ser mais perfeito, só se Roxanne estivesse cruzando aquele espaço um pouco mais rápido... Precisava tocar nela para saber que não era apenas uma ilusão.
Ela estava realmente muito linda, ele mal conseguia piscar, porque não queria perder um só segundo daquela visão. Quando Damian entregou a mão da irmã, a única coisa que Bucky conseguiu pensar em fazer foi em envolver a cintura feminina para beijar sua noiva.
O pigarro forçado do cerimonialista o fez se afastar minimamente.
— Ah, não podia beijar ainda? — Perguntou com um sorriso ladinho, fazendo algumas risadinhas se espalharem pelo ambiente. — Desculpa.
Barnes gostaria de dizer que prestou total atenção nas palavras da cerimônia, mas seria mentira, tudo que ele conseguia fazer era encarar o perfil de Roxanne e pensar no quão sortudo era por estar se casando com aquela mulher.
E isso nada tinha a ver com o fato de que ela era a rainha da máfia, ou a criatura mais linda do universo. Roxanne Domenichelli era extraordinária em cada pequeno detalhe. Ela tinha muitas facetas, uma parte delas a maioria das pessoas não conhecia, mas Bucky sim, e exatamente por isso ele se considerava tão sortudo.
Não tinham escrito votos, talvez não precisassem de declarações de amor tão públicas assim, começaram aquele relacionamento como um segredo e agora estavam se casando na frente de todas àquelas pessoas, era o máximo que estavam dispostos a compartilhar. No fim, ainda preferiam manter sua pequena bolha de amor cheia de intimidade, era ali que ficavam as juras e as promessas de para sempre.
Trocaram alianças, só então Bucky percebeu que tremia. Quase riu disso, porque era um supersoldado centenário altamente treinado, ainda assim estava tremendo por colocar um anel de ouro no dedo de uma garota bonita. Pelo visto, ainda tinha um pouco daquele rapaz dos anos 40 afinal...
— Desse instante em diante, eu os declaro: marido e mulher. — O cerimonialista declarou. — Agora sim, você pode beijar a noiva.
— Graças a Deus! — Barnes soltou, puxando a cintura de sua esposa para finalmente beijá-la, de verdade dessa vez.
Ao redor, as pessoas começaram a aplaudir e assobiar. Fazendo com que os recém-casados se afastassem, rindo da barulheira.
— Te amo, italianinha. — Soprou, para que apenas os dois ouvissem.
— Te amo, americano impossível. — Ela respondeu. — Obrigada por me mostrar que a felicidade era um luxo que eu poderia ter.
O beijou suavemente, seu olhar negro dizendo uma infinidade de coisas que apenas Bucky poderia entender. Ela estava realizada e genuinamente feliz. Isso era tudo que importava.
No fim, a verdade é que a Operação Roleta Russa foi um completo sucesso. Não da forma como o mundo teria previsto, mas do jeitinho que o destino quis.
Cruzaram a passarela enquanto os amigos aplaudiam e jogavam arroz para cima. Podiam ter corrido, como é costume da maioria dos noivos, porém, não precisavam mais fazer isso...
Bucky Barnes não estava mais roubando tempo com Roxanne Domenichelli. Agora ele tinha o "para sempre" com ela.
FIM
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