Operação Roleta Russa
30 Damian

Roxanne já havia passado por mais coisas que a maioria das pessoas. Naquele ponto de sua vida ela não pensava que algo poderia deixá-la paralisada de choque.
Mas era exatamente assim que ela estava naquele momento...
Seu rosto salpicado de sangue, a barra de seu vestido empapada do líquido rubro e viscoso, que escorria da cabeça de Strovalenko e empoçava aos pés dela. E, bem na sua frente, Damian.
Analisou o garoto, ele parecia bem; forte e saudável. Não tinha muito do menino que era quando foi levado anos antes, mas era ele. Os mesmos olhos que Roxanne conhecia tão bem e com os quais sonhava às vezes. Era seu irmãozinho.
A julgar pela aparência, mais jovem do que esperado para a idade que ele devia ter agora, era possível que tivesse sido blipado. O que significava que ele estava com apenas dezenove ou vinte anos...
Roxanne quis se aproximar, envolver o garoto em seu abraço e dizer que ficaria tudo bem. No entanto, nada parecia mal para ele. Damian estava perfeitamente confortável ali, do lado do homem que o havia sequestrado.
Enquanto isso, ao redor, alguns membros se levantaram, sacando suas armas. Porém, não passou batido para a Donna que parte dos homens ali sequer pareciam surpresos com a aparição do Representante, quase como se esperassem por isso. Pelo visto ele já tinha pessoal infiltrado. Certamente foi assim que soube a hora e o local do casamento. Não era sequer um choque se dar conta disso.
— Não sejam burros de se deixarem levar por falsos líderes, que usurpam os ideais dessa organização em prol de glória pessoal. — O Representante discursou, nada intimidado com as armas apontadas. — Viktor Strovalenko nunca foi digno de se tornar uma das Cabeças da Hydra.
Os olhos de Roxanne subiram para o segundo andar e ela conseguiu ver James escondido nas sombras. Discretamente fez um movimento de negativa com a cabeça. Ele não podia interferir. Não era seguro.
Enquanto isso, Damian se afastava dela para se aproximar ainda mais do maldito Representante, que continuava a falar. A Donna não sabia se o garoto estava sendo controlado, ou que merda estava acontecendo ali, então não tinha muita escolha a não ser escutar e tentar enxergar a verdade nas entrelinhas.
— Tudo que esse homem alegou ter feito, não era de seu próprio mérito. Vocês merecem alguém melhor. Alguém que possa guiá-los por uma nova era... — O homem estendeu a mão, tocando o ombro do irmão de Roxanne, para que ele se aproximasse um pouco mais. — Meu filho. Damian. O novo Caveira Vermelha.
Como é? A Donna teve que piscar diversas vezes dado o choque. Filho?
Sentiu vontade de avançar naquele velho maldito. Trincou os dentes, sabendo que bater de frente com o Representante, justamente ali, no meio de todos aqueles homens, não daria certo. Mas não foi fácil ver Damian sorrir, como se estivesse feliz de estar ali com seu sequestrador, e todo aquele circo de horrores fosse apenas um passeio no parque.
— Hail Hydra! — O garoto gritou com a mesma animação que alguém diz o nome de uma banda de rock no meio de um show.
O estômago de Roxanne ficou tão embrulhado que ela achou que poderia vomitar ali mesmo. Isso não podia estar acontecendo.
— Acha que vamos aceitar sua liderança, só por causa de um sobrenome? — Um dos homens se impôs com ousadia.
A Donna o conhecia, era o braço direito de Strovalenko, membro leal da Máfia Russa. No entanto, ele mal teve tempo de respirar outra vez, porque uma bala certeira atingiu seu cérebro em questão de minutos. Damian o matou também.
— Mais alguém quer falar alguma coisa? — O garoto questionou, com a arma ainda fumegando em mãos e um sorriso cínico no rosto. — Então, vamos lá, é a vez de vocês agora. Como se fala? — Colocou a mão no ouvido, em um indicativo de que queria escutar a voz de todos.
— Hail Hydra! — O coro cortou o ar, enquanto as posturas eram ajeitadas.
— Perfeito. — O Representante declarou satisfeito. — Entraremos em contato para mais instruções em breve.
O homem acenou uma despedida educada com a cabeça, e começou a caminhar para a saída.
— Bom... — Damian abriu os braços de forma descontraída, enquanto ainda estava parado ali no meio. — Parece que esse casamento virou um funeral. — Riu da piadinha mórbida como se ela fosse mesmo engraçada, em seguida, pousou os olhos em Roxanne. — Você vem, maninha?
A Donna ainda estava desnorteada. Aquele nunca foi o Damian que ela pensou que encontraria, porém, sabia que se deixasse o garoto sair por aquela porta, havia uma chance enorme de nunca mais encontrá-lo novamente.
Seja lá para onde seu irmão fosse, ela teria que ir junto...
Pulou o corpo de Strovalenko caído a seus pés e começou a andar em direção à porta também. A calda discreta de seu vestido arrastando sangue pelo chão, conforme ela andava.
Podia sentir os olhos de Barnes em si o tempo todo, queria virar e se despedir, prometer que ficaria bem, pedir que ele não fizesse nenhuma besteira. Mas sabia que se erguesse a cabeça naquele momento isso revelaria a posição do americano e, por mais que ele tivesse o treinamento do Soldado Invernal, não era seguro que aparecesse ali na frente de todos aqueles homens da Hydra.
Fica onde está, James, por favor. Era a única coisa que Roxanne podia desejar em silêncio, enquanto atravessava as portas.
Do lado de fora, no grande gramado à frente da mansão, uma aeronave pequena e moderna estava pousada. Então era assim que eles haviam chegado ali. Com certeza aquele tipo de transporte era silencioso o bastante para que ninguém dentro da cerimônia ouvisse e, a julgar pelos homens estrategicamente posicionados do lado externo, o Representante já havia infiltrado sua equipe entre os convidados.
Roxanne olhou para trás, não conseguia acreditar que tinha acabado de fazer as pazes com James e sequer poderia dizer adeus. Porém, não havia tempo para lamentações. O Representante estava na rampa de acesso à aeronave e Damian parado no meio do gramado agora. Por mais que o homem mais velho tivesse insinuado que sabia que Barnes havia sobrevivido, não era uma boa ideia confirmar isso.
A Donna passou ao lado do irmão, tão perto agora que sentiu vontade de tocá-lo, chegou até mesmo a parar por um instante.
— Pode convidar seu amante pra vir também, se você quiser. — Damian deu de ombros casualmente e o comentário pegou Roxanne de surpresa. — Ou eu devia dizer namorado? — O garoto colocou a mão no queixo por um instante, seu tom algo entre o sarcasmo e o cinismo. — Depois que o futuro marido vira presunto, o amante é promovido? — Ele pensou por uns instantes, mas não chegou à conclusão alguma. — Bom, sei lá.
Sorriu para a irmã, não algo reconfortante e compreensivo, estava mais para um sorriso travesso e divertido. Ele se afastou dela alguns passos em direção ao salão.
— E aí, Braço de Sucata, vai vir ou não? — Gritou para o nada, colocando as mãos ao lado da boca para que o som propagasse melhor.
A julgar pela postura do Representante, ele em nada se surpreendeu com a atitude do mais novo.
Então eles sabiam que James estava por perto.
Roxanne não precisou se perguntar como Damian tinha conhecimento do romance dela com o americano. Se haviam homens infiltrados, essa certamente foi uma informação repassada. No entanto, como ele tinha ciência que Barnes ainda estava vivo e que se encontrava ali na propriedade?
Desejou que James não aparecesse, que permanecesse escondido, afinal seria a decisão mais estratégica. No entanto, evidente que aquele americano impossível sempre escolheria a opção mais impulsiva... Isso ficou provado quando uma janela no segundo andar se quebrou, espalhando vidro para todo lado.
O corpo masculino saltou lá de cima, pousando com um pé na frente e um joelho no chão em um baque seco que fez com que todos os homens ali na parte externa sacassem suas armas.
O coração de Roxanne começou a bater desesperado, James era um alvo fácil ali.
— Não atirem. — A voz imperativa do Representante cortou o ar e as armas não abaixaram, mas a postura dos homens se tornou menos ofensiva.
— Maneiro. — Damian soprou, observando de longe.
Logo em seguida, seus olhos procuraram pelo maldito velho que o havia sequestrado e os dois pareceram trocar algumas palavras com um simples aceno de cabeça.
— Você precisa de um minuto? — O garoto questionou, pousando sua atenção na irmã. — Vai lá.
Então era isso que ele estava pedindo ao Representante? Um tempo extra?
Roxanne não parou para pensar demais sobre isso, apenas começou a caminhar rapidamente na direção de James, enquanto ele cortava o espaço até ela.
— Não faz isso. — Pediu, assim que conseguiu tocá-lo, com medo que tudo se tornasse uma chacina em questão de segundos.
— Eu vou com você. — Ele declarou de modo firme.
— Você não pode. — Ela tentou argumentar.
— Por que?
— Porque eu não confio nele. — Moveu a cabeça discretamente na direção do Representante.
— Mais um motivo pra eu ir junto. — James deixou claro, estava irredutível, as mãos pousadas na cintura feminina de forma protetora.
Mas era Hydra, não um passeio no shopping, Roxanne não queria arriscar.
— Eu preciso que você fique. — Ela tentou parecer muito mais segura do que estava. — Preciso que volte pra casa e alerte os outros.
James riu de canto, como se conseguisse ver por trás das palavras de Roxanne.
— Você só está tentando me deixar em segurança. Não vai funcionar. — Declarou categórico. — Se você vai, eu vou também. E Se você precisa avisar os outros, então mandaremos uma mensagem. Não vou me separar de você de novo, de jeito nenhum.
A Donna percebeu que não convenceria o americano, ainda mais na frente de todo mundo, com o tempo contra eles. Além disso, eles estavam correndo o risco de serem fuzilados ali no meio.
— Tudo bem. — Deu o braço a torcer, embora isso só tenha aumentado sua preocupação.
Não sabia o que enfrentaria seguindo o convite do Representante daquele jeito. Estava tudo muito fácil, com certeza era uma armadilha.
— Até que não demorou tanto assim a DR de vocês. Que ótimo. — Damian comemorou enquanto o casal se aproximava. — Vamos voar!
Roxanne trocou um olhar com James, a apreensão nas íris escuras dela refletida no azul gélido. O americano também percebia que tudo ali era estranho demais. Havia um plano por trás de tudo aquilo, restava saber se Damian fazia parte disso ou não...
O Representante encarou o soldado de longe com uma expressão neutra, então subiu na aeronave primeiro. Nada poderia ser lido em seu rosto e a Donna sabia muito bem que isso era suspeito.
Estavam entrando em uma ratoeira gigante e, pela primeira vez, ela se questionou se estava fazendo a escolha certa. Será que aquele Damian na sua frente valia o risco, quando esse risco era perder James?
Como se adivinhasse os pensamentos dela, a mão de vibranium envolveu os dedos femininos com carinho. Só então o casal também subiu a rampa, logo atrás do garoto mais novo.
Se viram dentro de um ambiente pequeno, lá na frente o Representante já havia assumido os controles e, ali atrás, os assentos estavam colocados frente a frente, de modo que quando Roxanne se sentou ao lado de James, Damian assumiu o lugar que lhe deixava cara a cara com a irmã.
— Apertem os cintos. — O Representante ordenou com uma voz amigável demais e logo alçou voo.
A Donna encarou o rosto do garoto que havia procurado pelos últimos anos, ainda era difícil de acreditar que aquele era o Damian, principalmente quando ele parecia tão à vontade ali, sentado em uma aeronave da Hydra.
O garoto de olhos castanhos-cinzentos com um toque de azul focou na irmã, se espalhando um pouco mais no assento despretensiosamente.
— 'Tá com uma coisa na cara. — Gesticulou com o indicador, provavelmente se referindo aos respingos de sangue.
Roxanne lembrou que Strovalenko estava morto agora e sequer se comoveu com isso. Apenas usou o dorso da mão pra tentar se livrar dos vestígios. Enquanto isso, as íris de Damian alternaram para Barnes, que também encarava o garoto fixamente.
— Onde você estava todo esse tempo? — A Donna finalmente criou coragem para fazer a primeira pergunta, mesmo sabendo que daquela distância o Representante com certeza ouviria. — Eu te procurei por toda a parte.
Precisava atestar se Damian estava sendo controlado de alguma forma. Porque, a julgar pela maneira como se portava e pelo fato de saber que os dois eram irmãos, ele não parecia estar sob nenhum tipo de controle mental...
— Eu estava em casa com o meu pai. — O garoto respondeu casualmente.
— Ele não é seu pai. Ele te sequestrou! — Roxanne retrucou irritada, seu sangue fervendo muito mais rápido do que ela podia controlar.
Damian assistiu aquela quase-explosão com uma expressão neutra.
— Ah é, você não sabe, não é? — Ele franziu os lábios de forma constrita. — Ele é o meu pai, Rox. Somos apenas meio-irmãos, eu e você. Quando o seu pai descobriu, mandou matar a nossa mãe e me entregou pro meu pai biológico, porque obviamente não criaria o filho de outro homem. Nunca fui sequestrado.
O choque foi mais atordoante do que um soco direto na cara de Roxanne.
— Isso não é verdade... — Ela soprou, tentando se agarrar a qualquer convicção.
Revisou suas lembranças de infância, tentando encontrar qualquer coisa que refutasse essa afirmação. Porém, não havia nada. Absolutamente nada. Aquilo podia muito bem ser verdade.
Nunca ficou muito claro para Roxanne o motivo pelo qual Vicenzo mandou apagar todos os traços de Damian, porém, se o garoto fosse filho de outro, fruto de um adultério... isso explicava tudo.
Tudo que a italiana pensou saber estava desmoronando bem diante de seus olhos.
— É verdade sim. — Damian assegurou casualmente. — Por isso eu matei o desgraçado. Até deixei o corpo dele lá na Disney pra que você soubesse que eu estava pensando em você. — Soltou aquela verdade mórbida com a mesma casualidade de alguém que diz ter mandado uma carta. — Não me diga que não entendeu o recado?
A respiração da Donna saiu do prumo, o choque tomando conta do seu rosto.
— Você matou o nosso pai?
— Seu pai. — O mais novo corrigiu. — Não finja que ele não mereceu, Rox. Aquele homem nunca foi um bom pai. Inclusive, sabia que ele foi te dedurar? Foi assim que ele morreu.
A italiana piscou devagar, a mão de James pousando nas costas dela suavemente, como se ele só quisesse lembrá-la de que ela não estava sozinha ali.
Os olhos de Damian acompanharam o movimento, mas ele nada disse.
— Ele contou pro meu pai que você estava tentando encontrar a gente. — Explicou, ainda em tom casual. — Velho inútil, como se a gente já não soubesse.
— Você sabia? — A Donna franziu as sobrancelhas, cada vez mais chocada.
— Desde que você se aproximou do Strovalenko meu pai estava ciente das suas intenções e eu também, claro. — A resposta foi como uma facada.
Todo aquele tempo em que ela viveu em total desespero... Seu irmão estava ciente de tudo?
— Eu estou te procurando desde que eu tinha catorze anos, Damian. — Declarou em tom indignado e magoado.
Foi a primeira vez que o garoto pareceu afetado, se remexeu desconfortável e desviou o olhar.
Roxanne se deu conta que, talvez a coisa de eles serem meio-irmãos até podia ser verdade. Ainda assim, isso não dava ao Representante direito de manter Damian tão longe por tanto tempo. Havia algo mais ali. Será que o garoto não percebia isso?
— Se esse homem é seu pai, se você não foi sequestrado, por que você nunca veio atrás de mim? — Fez a pergunta mais importante.
— Não era o momento. — Damian disse apenas, como se isso fosse a reprodução das palavras de outra pessoa.
— E foi você quem decidiu isso? — Roxanne rebateu ácida.
Damian podia não estar sendo controlado, mas ele com certeza foi manipulado. Não é? A Donna tentou se agarrar a esse pensamento, porque qualquer outra possibilidade era dolorosa demais para acreditar.
O mais novo deixou a irmã sem resposta, focando em James por mais alguns segundos.
— Então você é o famoso Soldado Invernal? — Perguntou, mudando totalmente de assunto.
— Bucky. — O mais velho corrigiu em tom neutro.
— Bucky... — Damian testou, fazendo um barulhinho com a boca no "Bu", para então encarar o americano de forma pouco impressionada. — Você não parece tão bom quanto dizem.
— Eu não sou nada do que as pessoas dizem. — James rebateu, quase sarcástico.
— Que pena. — O mais novo apenas encolheu os ombros.
— Como sabiam que ele estava vivo? — Roxanne questionou, aproveitando aquela oportunidade.
— Informantes em Madripoor. — Damian explicou sem rodeios e, ao ver o casal trocar um olhar, logo completou: — Não se preocupem, não é a loirinha.
Para a Donna era fácil presumir que uma ilha cheia de mercenários venderia informações sobre o homem dito como Soldado Invernal. Era provável, inclusive, que um dos aliados de ocasião de James, que o havia ajudado a descobrir o lugar onde Roxanne se casaria, fosse também um informante do Representante. Isso explicaria como eles sabiam que o americano estava nas dependências da propriedade.
No entanto, aquela resposta tão clara e rápida provava que Damian não estava tentando esconder coisas deliberadamente, o que só tornava tudo ainda mais estranho.
Roxanne não consegui acreditar que o Representante era um homem bom, aquilo não podia ser apenas ele promovendo um encontro entre irmãos. Tinha que ter outro motivo.
Mas qual?
Isso fez a Donna relembrar o discurso dado pelo homem chamado Frederik Schmidt no momento em que ele interrompeu o casamento. Por que só tentar assumir a Hydra justo agora?
Focou no irmão, tentando decifrar onde ele se encaixava em todo aquele jogo de xadrez, enquanto o garoto tirava um pacote de chiclete do bolso e começava a mascar, fazendo uma bola vez ou outra.
— Damian... — Roxanne chamou, resolvendo usar uma abordagem direta. — O que você está fazendo?
— Mascando chiclete... — Ele respondeu como se fosse óbvio. — Quer um?
— O novo líder da Hydra? — Ela trouxe o assunto para o foco.
— Ah, isso aí... — O mais novo abriu um sorriso. — Legal, né?
— Legal ser líder de uma organização nazista? — Foi James quem rebateu de forma incrédula.
— Isso é coisa do passado. — Damian fez um gesto displicente com a mão, focando na irmã. — Fala pra ele, Rox.
— A Hydra faz atrocidades com as pessoas, Damian. — A Donna deixou bem claro.
— A Máfia Italiana também. — O menino rebateu, como se não visse sentido no posicionamento da irmã mais velha.
— Não é a mesma coisa. — Ela devolveu seca.
— Como que não é? Você pode liderar sua própria organização criminosa, mas eu não posso liderar a minha? — Ele soou irritadiço.
— Eu mudei a Máfia Italiana pra melhor, Damian. Fiz dela um bom lugar. Apesar dos crimes. — A Donna explicou de forma ponderada.
— E o que te faz pensar que eu não posso fazer o mesmo com a Hydra. — O garoto cruzou os braços emburrado.
Como era possível que ele não visse a problemática? Será que acreditava mesmo que podia fazer algo bom com aquele antro de maldade? Era assim que o Representante estava enganando o garoto?
— Primeiro, porque a gente tá falando de uma organização nazista que é símbolo de tudo de mais podre que tem nesse mundo. — Roxanne tentou explicar. A Hydra nunca seria boa, infelizmente essa era a verdade. — Segundo, você claramente está sendo manipulado.
— Então você é dessas... — Damian soou chateado e irritado ao mesmo tempo. — Pois fique sabendo que eu fui criado para ser um líder que eles amem e respeitem. Se eu disser que vamos fazer diferente dessa vez, nós vamos, a Hydra pode virar a porra dos Novos Vingadores se eu mandar.
James caiu na risada do nada, fazendo com que os irmãos Domenichelli focassem nele.
— Ah, não era piada? — Perguntou, quando viu os olhos do mais novo se apertarem de raiva.
— Acho que minha irmã nasceu pra ser viúva mesmo. — O garoto soltou, prestes a sacar a arma.
— Damian! — Roxanne repreendeu.
— Tenta a sorte, Pirralho. — Barnes riu de canto, nada intimidado.
— Parem! — A Donna não conseguia acreditar que os dois começariam a brigar ali no meio de uma aeronave em pleno ar.
Damian fez uma careta de deboche, mas voltou a se encostar, braços cruzados e um bico enorme, como se apenas fosse um garotinho ainda.
Roxanne suspirou, pela primeira vez vendo o irmão do qual tanto tinha sentido falta ali. Talvez ainda houvesse esperanças pra ele afinal...
— Chegamos. — A voz do Representante os respondeu.
Em questão de minutos a aeronave estava pousando. Assim que Roxanne desceu pela rampa, ela se surpreendeu com o destino. Estavam no meio do mar, sobre o que um dia devia ter sido uma plataforma para extrair petróleo, mas que claramente havia sido reformada.
Então era ali que Damian estava todo aquele tempo? É claro que nunca o encontrou antes.
— Ah, lar doce lar. — O garoto assobiou alegremente, colocando as mãos atrás do pescoço enquanto caminhava de forma descontraída.
Haviam pousado na cobertura da plataforma, então pegaram um elevador para descer. Os quatro dentro do pequeno cubículo, o assobio despreocupado de Damian sendo a única coisa quebrando o silêncio desconfortável.
Roxanne analisou o homem conhecido como Representante, mas ele parecia alheio a isso, mal se importando com ela ou com James ali ao lado. Logo pararam em um dos andares e ele abriu passagem para que saíssem.
— Mostre o quarto para sua irmã e o namorado dela, filho. — Pediu, pousando a mão no ombro do garoto e ficando ali dentro do elevador enquanto o restante desembarcava. — Sejam bem-vindos e fiquem à vontade. Enquanto voávamos pra cá, já mandei que cuidassem das instalações de vocês, mas...
— Deixa eu adivinhar, mas não podemos acessar um certo andar, não é? — Roxanne completou de forma ácida, encarando o velho com o queixo erguido.
— Na verdade, vocês podem andar por onde quiserem, eu só ia dizer: mas tomem cuidado para não cair no mar. É muito, muito fundo nessa região, e tem tubarões também. — Ele sorriu, como se fosse o homem mais amável da face da terra. — Agora com licença, preciso descansar, ando muito velho pra esse tipo de missão. Mas achei que não era justo te deixar casar com o homem errado, querida. Sua mãe não gostaria disso.
Roxanne trincou os dentes com a ousadia daquele velho maldito em citar a mãe dela. Mas foi pior ainda ver como ele focou em Damian.
— Nada de ficar acordado até muito tarde jogando vídeo-game, entendeu? — Instruiu paternal, mostrando que teve uma vida inteira com ele.
— Sim, pai. — O garoto assentiu enquanto as portas se fechavam.
A Donna ficou parada ali por um instante, contando para onde o homem estava indo através das luzes do elevador. Último subsolo.
Só então seguiu Damian, que foi falando de tudo conforme andavam ali. Aquele andar tinha sido todo convertido para uma grande casa com quartos, salas, cozinha e todas as dependências necessárias para que alguém vivesse ali com o maior luxo possível. Tudo cercado por janelas de vidro blindado do chão ao teto, que davam vista para o mar lá embaixo.
— Vocês ficam aqui. — Ele abriu a porta de uma das suítes. — O pessoal já deve ter deixado roupas pra vocês.
— Tem mais gente aqui? — James questionou, certamente se inteirando de possíveis ameaças.
— Sim, tem um monte, trabalham nos andares inferiores. — O garoto explicou sem qualquer rodeio. — Mas aqui o pessoal não vem muito, é meu andar e eu gosto de privacidade.
Roxanne não gostou da resposta, não porque havia algo errado na forma como Damian a deu, mas porque ela deixava bem claro que estavam presos com um pequeno exército da Hydra, em uma armadilha de vidro e ferro, metros acima do mar. Não era bom.
— Damian, temos que sair daqui agora. — Segurou o braço do menino, decidida a subir pelo mesmo elevador, roubar a aeronave e voar para bem longe dali.
— 'Tá maluca, mulher? — O mais novo se esquivou com uma careta. — Eu não vou a lugar nenhum, acabei de chegar.
— Damian, esse homem... — Ela tentou argumentar, para fazê-lo entender.
— "Esse homem" é o meu pai. — O garoto rebateu irritado. — Eu pensei que você ficaria feliz, sabendo que fui criado por um pai melhor que o seu. Pelo menos ele nunca me bateu.
Roxanne deu um passo para trás e respirou fundo. Não era esse Damian que esperava encontrar depois de tantos anos de busca. E, a julgar pelo olhar do mais novo, ela também não era a irmã que ele estava esperando.
— Meu pai me avisou que você não entenderia nada, e ele estava certo... — A voz do mais novo veio, claramente decepcionada. — Tentamos ser legais, impedimos você de casar com um idiota. Eu até aceitei que você namora um velho de cem anos sem fazer careta. — Apontou para James rapidamente, porém o americano não esboçou reação. — Mas você só está me julgando desde o momento em que soube que eu vou ser o líder da Hydra.
— Damian... — Roxanne tentou explicar. Como era possível que tivessem se tornado tão diferentes?
— Foi um erro te trazer aqui. — O garoto declarou amargo, virando as costas e se afastando.
— Damian... — Ela fez menção de ir atrás, mas as mãos cuidadosas de Barnes não permitiram.
— Deixa ele ir, Roxanne. — O americano pediu em tom compreensivo. — Debater com ele não vai adiantar agora.
A Donna concordou, mesmo que a contra gosto. De toda forma precisava tirar aquele vestido ensanguentado e pensar melhor no que fazer.
Sempre imaginou que reencontrar Damian fosse ser totalmente diferente disso. Pelo visto, estava muito errada.
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Bucky não se sentia bem naquele lugar. E, como poderia? Uma base secreta da Hydra no meio do mar, liderada pelo próprio neto do Caveira Vermelha... Isso era loucura.
Na verdade, ele gostaria de ter pedido para Roxanne nunca entrar naquela aeronave, porém, sabia que ela não desistiria do irmão. Portanto, estavam presos ali, até que encontrassem um jeito de convencer Damian a colaborar.
Barnes ainda não havia formado uma opinião concreta sobre o garoto. Ele podia tanto ser a cria perfeita da Hydra, quanto apenas mais uma vítima da organização. Era difícil prever. No atual momento, o irmão mais novo de Roxanne era apenas um problema. E isso era péssimo.
Enquanto a italiana estava no banho, Bucky remoía seus próprios pensamentos e tentava — sem sucesso — contato com alguém da Sicília. Não tinha um só ponto de sinal ali e isso podia se tornar um problema a longo prazo. Mais um, no caso.
Que inferno.
Era quase ridículo pensar que Strovalenko estava morto agora, mas isso acabou não fazendo nenhuma diferença. A única pessoa que Bucky realmente queria matar, acabou sendo assassinada pelas mãos de outra pessoa. Seria até engraçado, se não fosse meio frustrante.
Ele jogou o celular sobre a cama e passou as mãos no rosto, se colocando de pé para procurar o maço de cigarros no sobretudo que havia deixado jogado na cômoda.
A suíte na qual estava com Roxanne não era diferente de qualquer quarto de hotel de luxo, não fosse pela janela de vidro, que exibiam o mar escuro. Bucky já havia revistado tudo em busca de escutas ou câmeras.
Depois do rastreador de nanotecnologia que a Donna havia usado, ele estava mais preparado para esse tipo de aparato também. Tinha um pequeno dispositivo integrado em seu celular que podia detectar esse tipo de tecnologia e, embora houvesse rastro disso naquela propriedade, o quarto em questão estava limpo.
Não estavam sendo vigiados.
Mesmo assim, Barnes acendeu um cigarro e deu uma nova averiguada no cômodo só para garantir. Estavam em território inimigo e prevenir era a única vantagem que eles tinham.
Uns cinco minutos depois, Roxanne saiu do banho, usava uma das roupas que haviam deixado ali para eles, calça tática preta e camiseta, nada fora do normal. Ainda assim, Bucky sorriu quando a viu, apreciando a forma que o perfume dela se espalhou pelo ambiente junto com o vapor.
Tinha sentido tanta falta dela que ainda doía.
No entanto, o sorriso no rosto se foi, assim que notou a preocupação e tristeza pesando sobre o semblante da italiana. Apagou sua bituca de cigarro e se aproximou dela, pousando ambas as mãos nos ombros femininos e afagando ali como um gesto de apoio.
— Não era pra ser assim. — A Donna lamentou com um menear de cabeça. — Eu tenho certeza que esse velho maldito encheu a cabeça do Damian de mentiras... eu só...
Ela parou, um suspiro pesado escapando de seus pulmões. Não devia ser nada fácil descobrir que o homem que ela mais odiava no mundo, era justamente pai biológico do irmão dela.
Bucky queria fazer algo para resolver tudo aquilo em um passe de mágica, porém, não havia caminho fácil ali. Teriam que enfrentar aquilo, não havia outra solução.
— Você imaginava que encontraria um garotinho que precisaria ser cuidado e protegido; resgatado, não só de um cativeiro, mas também de algum tipo de controle mental. — Barnes adivinhou tudo que se passava na cabeça da italiana. — Não cogitou que encontraria um rapaz de opiniões fortes que foi doutrinado a vida toda.
— Eu estava preparada para lidar com o controle mental. — Ela concordou, soltando outro suspiro pesado. — Imaginei que ele tinha sido sequestrado e estava sofrendo, não jogando videogame em uma mansão no meio do mar.
Bucky acariciou o rosto feminino com delicadeza.
— Só porque não parece uma prisão, não quer dizer que não seja uma. — Opinou de forma calma. Sabia que com a Hydra as aparências costumavam enganar.
Roxanne deitou um pouco a cabeça em direção a palma masculina, como se precisasse daquele contato mais do que de qualquer outra coisa naquele instante.
— O que eu faço? — Ela questionou e, era de partir o coração que fosse apenas uma garota confusa ali, e não a Donna cheia de planos que havia enganado o mundo todo há alguns meses.
— Vem cá... — Bucky puxou o corpo feminino e o envolveu em seu abraço, beijando o topo da cabeça de Roxanne com carinho. — Vamos dar um jeito. Juntos. Eu prometo.
Ela escondeu o rosto no peitoral dele, o apertando contra si como se temesse que de uma hora para outra os dois não estivessem mais juntos novamente. Barnes só podia agradecer por ter se reconciliado com a mulher que amava, bem a tempo de estar ali em um momento como aquele.
Nunca se perdoaria se ela estivesse passando por isso sozinha.
— E se ele não for mais o meu irmãozinho? — A voz da italiana saiu embargada. — E se ele tiver mesmo se tornado essa pessoa que vai contra tudo que eu acredito?
— Ele é só um menino, Roxanne. — Bucky soprou, acariciando os fios escuros lentamente. — Ainda existe esperança. Temos que acreditar que existe.
A Hydra não podia vencer. Não podia destruir mais vidas desse jeito.
— Aquele velho maldito envenenou a cabeça dele, James. — A italiana ergueu o rosto e se afastou um pouco, para que os olhos negros encontrassem os azuis. — Tenho certeza.
— Eu concordo. — Ele assentiu convicto.
Roxanne se afastou alguns passos, começando a andar de um lado para o outro, claramente pensando. Bucky sabia que ele seria mais útil se também estivesse colocando a cabeça para funcionar, porém, fazia tanto tempo que não via a Italianinha que apenas não conseguiu tirar os olhos dela.
A amava tanto que chegava a doer. Precisavam resolver tudo aquilo para terem uma chance de serem felizes juntos.
— Ele não nos trouxe aqui por nada, eu preciso descobrir o motivo. — A Donna declarou com convicção.
— Você quer confrontá-lo. — Barnes adivinhou.
— Um confronto ainda não, talvez o velho só queira que eu cometa um erro, para que ele envenene o Damian ainda mais contra mim. — Ela ponderou. — Melhor ter uma conversa "casual", e dar uma investigada no lugar.
— Tudo bem, eu vou.
— Não, eu preciso fazer isso, James. Entender em que tipo de armadilha a gente caiu, conversar com o velho cara a cara.
Bucky respirou fundo e, embora preferisse manter Roxanne o mais longe possível do tal Representante, ele concordou:
— Tudo bem, então vamos.
— Eu tenho que fazer isso sozinha. — A italiana pousou as mãos nos ombros masculinos, quando viu que ele não tinha entendido.
— De jeito nenhum eu vou te deixar sozinha com aquele cara, já disse. — Barnes foi categoricamente contra.
— Com você lá ele nunca vai baixar a guarda. — Ela argumentou calmamente. — O Representante não vai me matar. Ele está bancando o bom pai com o Damian.
Bucky se remexeu desconfortável. Não gostava da ideia, mas Roxanne tinha um bom ponto. E ela era a Rainha da Máfia afinal, já tinha visto sua forma de agir e sabia que era boa com interrogatórios.
— Se você não voltar em uma hora, eu vou colocar esse lugar abaixo pra te achar. — Deixou bem claro e isso fez com que a italiana sorrisse de leve.
— Eu sei. — Ela pousou um beijo casto nos lábios dele. — Obrigada.
Se foi alguns minutos depois, prometendo que voltaria em breve. No entanto, Bucky avisou que não pretendia ficar ali parado, então, vestiu seu sobretudo e saiu para explorar o andar.
Seguiu o sinal de nanotecnologia que vinha daquele piso, parecia um bom lugar pra começar. Foi passando pelos cômodos luxuosos e modernos. Logo chegou nesse amplo espaço de conceito aberto, que fazia às vezes de um salão de jogos, conjugado com uma academia e sala de treinamento. Havia um grande tatame, sacos de boxe e pesos do lado esquerdo, enquanto do lado direito, uma televisão grande ocupava quase toda a parede.
— Maneiro, né? — A voz jovial se espalhou no ar e Barnes se virou a tempo de ver Damian se aproximando. — Esse é o meu paraíso particular. — Ele abriu os braços para exemplificar.
É uma prisão muito luxuosa, isso sim, Bucky ponderou, mas resolveu não verbalizar esse pensamento.
Ao invés disso focou em Damian, o garoto era praticamente da altura de Roxanne, tinha alguns traços que lembravam os dela; como os lábios, formato do rosto e cabelos. No entanto, seu nariz e, principalmente, seus olhos eram bem diferentes. Havia um toque de azul em suas íris.
Damian estava com o dorso nu, exibia um peitoral e braços definidos, mas sem músculos exagerados, porém, o que realmente chamava a atenção eram as diversas marcas de tamanhos diversos que cortavam seu corpo.
— Por que as cicatrizes? — Bucky perguntou sem rodeios.
— Treinamento. — O garoto apenas encolheu os ombros.
Não parecia incomodado com a presença do mais velho. Apenas passou por ele e foi para o outro lado, se posicionando na frente dos sacos de areia para dar alguns socos.
— Sinto muito. — Barnes soprou, imaginando bem o que o menino havia sofrido em todos aqueles anos.
— Eu não. — Era difícil dizer se Damian realmente não se importava, ou se só agia dessa forma para parecer corajoso. — Eu sou mais forte que geral, por causa disso. Fiz o programa de treinamento básico da Hydra, o do Soldado Invernal e até alguns módulos da sala vermelha.
Meu Deus. Bucky sentiu dor física só em ouvir isso.
— Nenhuma criança devia passar por uma coisa assim. — Opinou, parado ali com as mãos nos bolsos do sobretudo.
— Eu não sou criança. — O garoto rebateu com um nariz erguido, dando um soco forte no saco de areia, como se isso provasse alguma coisa.
Bucky se deu conta que contrariar não ajudaria em nada.
— Agora não é, mas quando ganhou mais da metade dessas cicatrizes, aposto que era. — Indicou, fingindo não se importar.
— Fiz o que eu tinha que fazer. — Damian respondeu conformado.
Era como se nunca tivesse pensado no quão errado foi tudo que havia passado naqueles anos.
Bucky respirou profundamente, o garoto socava sem parar, ágil e com postura, sabia o que estava fazendo. Tinha sido treinado para ser uma arma, e isso por si só já era muito suspeito. Um pai bom de verdade não faria algo assim com uma criança.
Como o garoto não falou mais nada e Barnes também não fazia ideia do que dizer, ele fez menção de se virar para sair.
— Sabia que meu pai fala que eu sou uma versão melhorada de você? — Damian puxou o assunto de repente.
Será que ele não queria ficar sozinho ou era só impressão? Bucky não soube a resposta, mas conseguia imaginar o quão deprimente era crescer em um lugar como aquele, totalmente isolado do mundo.
— Então você tem o super soro? — Questionou casual, se encostando ali por perto.
— Não, cara, que ultrapassado isso. — Damian fez uma careta. — Ter um super soro é igual usar hack no Fortnite. Sem ofensa, velhote.
Barnes franziu as sobrancelhas de forma confusa.
— Você não sabe o que Fortnite, né?
— Não faço a menor ideia.
— Caramba, você é muito velho mesmo. — O garoto riu. — Vou te mostrar.
Ele abandonou o saco de areia, caminhando para a área da televisão. Pulou por cima do sofá, pegando sua camiseta sobre o encosto e a enfiando pela cabeça enquanto ligava toda aquela aparelhagem.
— Ué, está sem internet... — Pareceu surpreso ao dizer aquilo.
Ou seja, ficar sem comunicação ali não era normal. Bucky guardou essa informação na mente, enquanto o garoto mexia em suas aparelhagens, como se desligar tudo da tomada fosse resolver o problema.
Não resolveu.
Enquanto esperava, Barnes olhou ao redor. Haviam vários consoles abaixo da televisão, como se o garoto fizesse coleção deles. Considerando que ficava ali preso na maior parte do tempo, videogames deviam ser sua única distração...
Os olhos azuis foram atraídos para um ponto vermelho sobre a mesa de centro. O capacete com o qual Damian havia invadido o casamento estava ali. Não era nem de longe tão feio quanto o crânio do primeiro homem a usar a alcunha de Caveira Vermelha. Bucky ainda se lembrava do pavor que sentiu quando viu o arqui-inimigo de Steve arrancar a pele falsamente humana de seu próprio rosto, para revelar a atrocidade rubra que havia por trás.
Na ocasião, foi a coisa mais bizarra que o ex-sargento já tinha visto. Agora, no entanto, depois de Thanos e de todo o caos que havia dominado o mundo, o Caveira Vermelha era quase uma caricatura.
— Qual é a do capacete? — Apontou, aproveitando que estava ali e tentando conseguir alguma informação útil.
— É um símbolo. — Damian deu de ombros de forma displicente, mas abriu um sorriso divertido para dizer a próxima frase. — E vermelho é a minha cor.
— É um péssimo símbolo. — Barnes ponderou de forma honesta.
O garoto encarou o capacete por alguns instantes, deixando a aparelhagem da internet de lado.
— Pelo menos fui eu mesmo que fiz. — Declarou em tom superior, pegando a peça com orgulho. — O seu braço foi dado por outra pessoa, se um dia você perder ou estragar, fodeu tudo. Ainda mais agora que você está morto.
— Você tem um bom ponto. — O mais velho não se importou em admitir. — É feito de quê?
— Agora é nanotecnologia. — Damian explicou, e parecia muito contente em poder falar isso. — Desenvolvi nesses último seis meses, estudando os vídeos do Homem de Ferro na armadura que ele usou nos confrontos contra Thanos.
Ah, sim, nano tecnologia, isso explicava o que o dispositivo havia captado... No entanto, Bucky focou em um detalhe mais impressionante:
— Você desenvolveu nanotecnologia olhando vídeos do Tony Stark?
— Eu tinha tempo livre e aprendo rápido. — O menino rebateu com um sorriso presunçoso. — Sou foda.
Era apenas uma criança feliz por seus feitos.
No entanto, a genialidade de Damian não chegou a ser uma surpresa, ele era irmão de Roxanne afinal, e a Donna tinha um cérebro excepcional, claro que seu irmão também seria um prodígio em alguma coisa. Porém, havia mais um detalhe naquele relato que deixou Barnes intrigado.
— Então você gosta do Homem de Ferro? — Perguntou neutro. O garoto havia crescido na Hydra afinal, era surpreendente que gostasse de qualquer Vingador.
— Você não? — Damian rebateu como quem ouve uma pergunta tola. — Ele é irado.
Bucky se limitou a sorrir de canto. Talvez houvesse salvação para o menino afinal.
— Ah, é... — O mais novo pareceu se lembrar de algo importante. — Você matou os pais dele, maior chatão isso.
— A Hydra me obrigou. — Barnes aproveitou a oportunidade. Nunca havia admitido em voz alta que foi obrigado a tudo aquilo, sempre assumiu a culpa, porém, agora parecia importante deixar isso às claras para Damian. — É esse tipo de organização que eles são.
— Eles eram. — O garoto corrigiu. — Vão ser diferentes quando eu assumir oficialmente.
Ele queria mesmo mudar a organização... Interessante.
— Foi isso que seu pai disse? — Bucky questionou casual.
— Não exatamente... — O tom tinha uma pitada de decepção que não passou despercebida. — Ele fala que quando chegar o momento nós veremos.
Ficava cada vez mais claro que o Representante estava manipulando e usando Damian para alguma coisa. Mas pra quê?
— Então você quer assumir a Hydra pra ser um líder melhor? — Barnes deu mais corda para o assunto, dando a volta no sofá e se sentando.
— Algo assim... — Damian concordou, voltando a mexer em seus videogames. — Esse aqui funciona sem internet mesmo.
— E acha que vai dar certo? — O mais velho não deixou que o foco se perdesse.
— Deu certo pra minha irmã, não é?
— Deu, mas ela teve que ir contra o próprio pai pra isso e, sejamos honestos, é diferente com a Máfia.
— Vocês ficam falando isso, mas eu ainda não vejo como pode ser tão diferente assim. — O garoto rebateu irritadiço.
Bucky pensou por um segundo, puxando um cigarro antes de começar a explicar:
— A Hydra foi criada em cima de massacre, sofrimento e sangue. As bases dela são coisas ruins, nunca foi apenas uma simples quebra de leis, que às vezes nem são justas. A Hydra é apenas um bando de homens que pensam ser superiores a todo o resto, e que estão dispostos a matar, controlar, torturar, sequestrar e várias outras coisas, apenas para estarem no topo.
Damian estava olhando pra ele agora, os olhos estreitos, como se não gostasse do que estava ouvindo. Barnes não se intimidou com isso, deu um trago e soltou a fumaça antes de continuar:
— A Máfia Italiana, por outro lado, foi criada para proteger o povo em primeira instância, ela veio da necessidade de prover onde o governo falhava. Começou como uma sociedade secreta de cavaleiros que tinham um código de honra bem claro. Sempre houve o crime, verdade, sempre houve violência também. Mas ela não foi criada para massacrar um povo rival, e sim para proteger sua própria gente. — Deu uma pausa, vendo que tinha a total atenção do mais novo. —Com o tempo, a Máfia se perdeu e foi virando bastante misógina e problemática, até que faliu por causa do Vicenzo. Então a sua irmã resgatou alguns mandamentos, recuperou a honra, lembrou a todos qual era o objetivo. — Foi impossível não sorrir ao falar de Roxanne. — Funcionou na Máfia Italiana, porque as bases não eram corrompidas.
— Como você sabe disso? Você nem é italiano. — Damian fez pouco caso, mas dava para notar que era só pose.
— Tive um tempo livre nos últimos seis meses. — Bucky encolheu os ombros. — Daí aprendi história italiana. Acho que vai ser útil...
...quando eu casar com a sua irmã. Pensou em completar, mas achou que era o momento errado pra isso.
— Então está me dizendo que a Hydra nasceu corrompida? — O garoto resumiu do jeito mais simples possível.
— Exato.
— E não dá pra fazer rebranding? — Os olhos do mais velho franziram ao ouvir o termo, por isso Damian completou: — Reposicionamento e ressignificação de marca, limpeza de imagem e tals.
— Se você pegar uma garrafa de veneno, jogar o líquido fora e encher com suco de laranja, isso não quer dizer que ela se tornou uma garrafa de suco, ou que deixou de ser algo perigoso. Não é?
— Eu prefiro refrigerante mesmo. — O menino encolheu os ombros com desdém. Claramente apenas uma criança ainda, não importava que tivesse uns vinte anos, pelas contas de Barnes. — Você explica as coisas igual velho.
— Eu sou velho. — Riu de canto. — E você ainda é muito novo, por isso não sabe de tudo. Mas até que você é legal, pirralho.
Damian abriu um sorriso genuíno, revelando mais uma característica que lembrava sua irmã; tinha covinhas nas bochechas. No entanto, ele nada disse, apenas baixou os olhos para seu controle e logo focou na televisão, onde um bonequinho de chapéu vermelho e bigode entrava em canos, montado nas costas do que parecia um dinossaurinho.
— Posso te dar um conselho? — Bucky perguntou depois de alguns segundos, e isso fez com que o mais novo pausasse o jogo. — Cuidado. O pior tipo de prisão é àquela que te faz pensar que você está livre.
— O que isso significa? — Damian franziu as sobrancelhas.
— Você sabia que algumas vezes o controle mental falhava e eles tinham um procedimento mais sutil pra me dominar e controlar, para que ficasse mais fácil me submeter a uma nova sessão de eletrochoques? — A resposta fez com que o mais novo parecesse ainda mais confuso, mas Bucky logo prosseguiu: — Nem sempre eles eram violentos, às vezes sentavam na minha frente com uma voz suave e diziam que o meu trabalho era um presente pra humanidade. Que eu estava moldando o século. Eles me tratavam como se eu fosse especial, importante. Me levavam a acreditar que eu estava fazendo a coisa certa, apenas para que eu abaixasse minha guarda e eles fritassem minha cabeça, pra me obrigar a fazer todas as atrocidades possíveis.
O olhar de Damian oscilou, mas ele manteve a postura. Bucky não costumava falar daquelas coisas abertamente, ainda mais para alguém que havia acabado de conhecer. Porém, sentiu que o garoto precisava saber...
— Nem sempre a Hydra precisa de choques, agulhas e tortura para controlar você. — Revelou seriamente. — Eles só sobreviveram todo esse tempo, porque são muito bons manipulando com um sorriso no rosto. Como acha que se infiltraram no governo dos Estados Unidos?
Damian não respondeu, mas ficou pensativo. Enquanto isso, Bucky se colocou de pé, estava quase na hora combinada com Roxanne e ele precisava estar à postos, caso ela não voltasse para o quarto.
— Você é um moleque esperto, pirralho. E você é irmão da mulher mais inteligente que eu já conheci na minha vida. Com certeza tem um pouco dela em você. Pense com a sua própria cabeça, não com as ideias que eles te doutrinaram a ter. — Aconselhou, antes de começar a se afastar.
— Meu lugar é aqui. — O mais novo jogou no ar, e foi triste que aquilo parecesse apenas o eco da voz de outra pessoa.
— Seu lugar é aonde você quiser estar, garoto. — Bucky retrucou com um sorriso compassivo. — Aqui entre nós, eu gostaria que escolhesse a Itália, não só porque acho que devia colocar os pés no chão e ver gente, e lá tem de fato as melhores pessoas. Mas porque isso faria sua irmã feliz. Ela te ama, pirralho. Pensa nisso.
Acenou uma despedida e deixou o garoto sozinho.
Damian não era uma pessoa ruim, ele só tinha que fazer a escolha certa...
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