Roxanne encarou as portas abertas do elevador e respirou fundo antes de finalmente dar o primeiro passo. Estava no andar do Representante, ainda não sabia muito bem o que estava procurando ali, mas tinha certeza que havia algo para encontrar.

Aquele homem não podia ser bom. Tinha que haver algo mais naquela aproximação. A Donna não costumava errar ao analisar as pessoas, principalmente seus inimigos.

Começou a andar cautelosamente pelo espaço, estava escuro e silencioso ali, o que tornava a busca ainda mais complicada. Sua visão foi se acostumando aos poucos, de modo que ela foi distinguindo esse amplo cômodo cheio de estantes com livros por todos os lados. Nada ali na penumbra parecia muito ameaçador, mas Roxanne sabia que era cedo para chegar a essa conclusão, havia muito mais para ver.

Andou pelo espaço e sentiu algo de estranho, não chegou a explorar o andar superior, mas por lá o ambiente no geral parecia bem mais amplo do que ali embaixo...

A luz se acendeu de repente e a italiana parou onde estava.

— Me procurando? — A voz masculina veio quase divertida e a Donna se virou com o queixo erguido.

O Representante estava encostado em uma porta adjacente, os braços cruzados e um sorriso de canto.

— Você disse que eu poderia andar por onde eu quisesse. — A jovem rebateu em tom superior.

— Eu disse. — O homem concordou apenas. — E você pode. Quer investigar minha suíte também? — Apontou para o cômodo atrás de si.

— Nem morta. — Roxanne cruzou os braços, sem conter sua expressão enojada. Mesmo assim, se moveu alguns passos estratégicos a fim de ver através da porta aberta. Era mesmo um quarto. Mas nada exageradamente grande.

Talvez tivesse calculado mal o tamanho do lugar...

— Veio aqui me interrogar? — O Representante foi certeiro.

— Isso incomoda você? — Roxanne sabia que a forma mais certa de fazer alguém cair em contradição era deixar a pessoa falar, por isso fez a pergunta e se virou para as estantes, examinando os livros.

— Não me incomoda. Já estava preparado para isso. — Frederik Schmidt respondeu casualmente, ainda encostado no batente de sua porta. — Você não seria a Donna da Máfia Italiana se confiasse em qualquer um.

Foi muito simpático e ao mesmo tempo precavido. Podia parecer bom à primeira vista, com todas as respostas certas, mas isso só deixou a italiana ainda mais desconfiada.

Quanto mais perfeito parece um homem, menos ele é...

— Então, você é pai do Damian? — Puxou o assunto, examinando os títulos dos livros nas prateleiras. Não havia ficções, todos eram livros didáticos, ela estava passando por um estante inteira de livros de genética naquele instante.

— Sou. — O Representante respondeu simples.

— Como isso aconteceu?

— Você é bem grandinha, Roxanne, acho que sabe como esse tipo de coisa acontece. — O homem debochou, usando um tom dúbio.

A jovem engoliu a própria bile quando ela formou um nó ácido em sua garganta.

— Então você quer que eu acredite que você e a minha mãe se amavam? — A pergunta foi mais agressiva do que a Donna teria desejado.

Ela não se importava de verdade com a resposta. Sabia que o Representante era um maldito abusador. Nunca duvidaria da sua própria mãe, não sobre algo tão sério assim, ainda mais quando ela já estava morta e não poderia reforçar a verdade.

— Amor? Não, bem longe disso. — Frederik riu de canto. — Mas ela sabia que eu era um mal menor. — Ele finalmente se desencostou do batente e deu um passo para mais perto de Roxanne. — Ela estava pronta para fugir comigo. Seu pai descobriu e a matou, depois disso eu peguei meu filho e o levei para longe daquele homem. Vicenzo nunca foi muito confiável.

— Por isso você o matou? — A pergunta tinha uma acusação implícita que não pareceu afetar o Representante.

— Eu? — O homem colocou a mão no próprio peito antes de corrigir: — Damian.

— Porque você mandou. — Ela parou de olhar para os livros e encarou o maldito nazista. — Da mesma forma que mandou meu irmão ficar longe de mim todos esses anos.

— Eu fiz o que tinha que fazer para proteger meu filho, pode me culpar por isso?

Odiava que Frederik Schmidt parecesse tão calmo daquele jeito, tão no controle de tudo. Não era um bom sinal.

— Nunca fui uma ameaça para o Damian. — Roxanne fez questão de deixar claro, a raiva em sua voz era palpável.

— Eu não tinha como saber disso. — O homem encolheu os ombros. — Esperei o melhor momento para aparecer. Veja pelo lado positivo, você não teve que se casar com um idiota.

Cínico maldito.

A Donna sabia que não estava com a vantagem naquela conversa, era como se o Representante já soubesse quais seriam as perguntas, por isso nunca titubeava nas respostas. Ele estava totalmente preparado para aquele encontro.

Voltou a caminhar entre as estantes, notando que haviam exemplares em várias línguas de um livro escrito pelo próprio Hitler. De jeito nenhum que aquele homem deixaria Damian transformar a Hydra em algo bom.

— Qual é a coisa com assumir a liderança da Hydra? — Questionou do nada, desejando que esse assunto fizesse o Representante deixar a máscara cair.

— Ela é minha por direito, cansei de deixar pessoas incompetentes lidarem com uma organização que podia ser a maior do mundo. — A resposta veio rápida e segura. — Tenho certeza que entende isso, não é?

— A Hydra e a Máfia italiana são completamente diferentes. — A Donna rebateu de imediato, um tanto ofendida com a comparação.

— Nascemos para grandeza, Roxanne. Está no nosso sangue. — Ele estava quase ao lado dela agora.

— E o Damian? — Ela parou, encarando o Representante de cabeça erguida. — Onde ele se encaixa nisso tudo pra você?

— Não existe Hydra sem Caveira Vermelha. — A resposta foi seca demais para alguém que enchia a boca para dizer que era pai. — Eu o criei para ser o melhor. Tenho preparado o garoto para esse momento, ele será o ícone perfeito para reescrevermos a história da nossa organização, o símbolo de uma nova era. Ninguém vai se atrever a ficar contra nós.

Aquilo não era amor paterno, aquilo era só um homem velho usando um garoto como se ele fosse uma coisa e não uma pessoa. Roxanne conteve o ódio que ferveu em suas veias e fingiu controle.

— Ele quer fazer algo melhor, não concorda com as atrocidades que acontecem. — Deixou no ar, voltando a seu ato de analisar os livros despretensiosamente.

— Damian certamente tem muitas ideias. — Frederik riu de canto.

— E você concorda com elas? — A Donna já tinha sentido o descaso, porém, fez a pergunta em voz alta mesmo assim, seus dedos correndo por um dos livros.

— Onde está querendo chegar, Roxanne? — O Representante pousou a mão sobre o exemplar. Tão perto agora que havia invadido o espaço pessoal da italiana. — Por que não diz de uma vez que veio até aqui saber se eu sou confiável, se sou um bom pai...

— Você é? — Ela respondeu apenas, sem se deixar intimidar.

— Diferente do seu pai, eu quero que meu filho seja grandioso. Inigualável. Durma tranquila sabendo que nisso você pode confiar.

Aquela frase ficou pairando entre eles por alguns instantes. Havia algo de tensão nos olhos do Representante agora, como se pela primeira vez ele estivesse incomodado com a presença da Donna.

— E em todo o resto? — Ela fingiu não notar nada de errado.

— Não acho que importa a minha resposta, não é? — Frederik soou impaciente. — De todo jeito você não vai confiar em mim. Você é esperta demais pra isso. Mas, no fim do dia, eu nem preciso que você confie.

Ele estreitou o olhar, perto e ameaçador demais para que a italiana não se afastasse um passo.

— Acho que ninguém nunca te disse, mas eu vou dizer, querida. — Soprou em tom venenoso. — Você não é tão importante assim.

Roxanne sentiu que estava prestes a ser atacada, ela viu o desejo violento nos olhos do Representante. E, foi só então, quando ficou parada ali, apurando os sentidos para se preparar para uma possível briga, que ela notou...

Havia uma brisa soprando em seus pés, coisa pouca, quase imperceptível. Mas, considerando que o vento suave vinha de baixo apenas, havia algo do outro lado da estante.

Por isso o Representante estava tenso; não era o assunto, era o lugar onde ela estava.

— Agora, por que não vai fazer algo mais útil com o seu tempo? Ficar com o seu irmão, por exemplo. — Ele jogou, apontando a saída, como se tivesse escolhido não atacar. — Afinal, não foi pra isso que você veio até aqui?

Roxanne se moveu, seus olhos discretamente descendo para o chão, vendo o piso raspado em um padrão bastante específico. Era uma passagem secreta.

Ela saiu em passos controlados, sua mente se amontoando de perguntas: o que o Representante estava escondendo atrás daquelas estantes? Por que ele decidiu não atacar? Qual era o objetivo final? Damian fazia parte disso tudo?

A Donna entrou no elevador sem nenhuma resposta, o coração aos saltos de preocupação. Podia não ser nada. Podia ser apenas algum segredo básico da Hydra. Ou podia ser uma armadilha...

Mas uma armadilha para o quê?

Quando as portas metálicas se abriram novamente, a italiana deu de cara com outra pessoa.

— Damian... — Foi impossível não sorrir.

O garoto estava parado na frente do elevador com uma expressão um tanto impaciente, mas suas sobrancelhas se franziram em desconfiança assim que ele viu a irmã mais velha.

— Onde você estava? — Questionou, mas sequer precisou que ela respondesse, chegando à conclusão certa sozinho. — Ah, sim, você foi investigar o meu pai... — Seu tom expressava claro desgosto.

— Eu precisava saber se ele era confiável. — Roxanne não mentiu.

— Mas não adiantou, não é? — Damian rebateu amargo. — É claro que não, porque no fim do dia não importa o que ele diga ou faça, você nunca vai confiar nele.

A Donna respirou fundo, não podia dizer que o garoto estava errado. A verdade é que jamais aceitaria o Representante.

— Ele te sequestrou quando você era só uma criança. — Declarou, como se isso explicasse tudo.

Como podia dar o beneficio da dúvida para um homem que havia destruído sua família? A dor de ficar sozinha depois que a mãe morreu e o irmão foi levado não era algo que Roxanne podia apagar.

— Ele me resgatou de um pai horrível que matou minha mãe. Isso não é o bastante pra você? — Damian claramente tinha outro ponto de vista.

— Ele abusou da nossa mãe! — A mais velha rebateu revoltada.

— Isso não é verdade. — O menino deu um passo para trás, atingido por aquela declaração. — Meu pai não é um mentiroso.

Então Damian também sabia, provavelmente tinha conversado com o Representante sobre aquilo. De certo o maldito nazista havia se feito de inocente.

— Então nossa mãe que era? — Roxanne questionou, tentando uma abordagem diferente.

O mais novo abriu a boca para responder, a expressão passando de revoltada para transtornada quando ele pareceu não encontrar um argumento. Estava bem claro que o menino não queria falar mal da mãe, porém, também não queria encarar a verdade.

— Por que você não pode deixar o passado pra trás e apenas admitir que eu tive uma boa vida? — A pergunta veio falha, entrecortada.

— Uma boa vida? Preso aqui? — A Donna devolveu calmamente. — Aposto que você nem teve uma infância. Você foi treinado pra ser uma arma, um símbolo de uma organização nazista.

— Para... — Os olhos de Damian marejaram, como se a verdade fosse algo muito pesado para que ele carregasse nos ombros.

Só então Roxanne entendeu. Não era que ele fosse cego a tudo que sofreu, Damian escolheu a negação. Talvez tivesse escolhido desde muito cedo, afinal tinha apenas cinco anos quando foi levado. Ele decidiu ver o lado bom do pai, mas talvez nem soubesse que estava fazendo isso, talvez fosse apenas uma forma que seu cérebro havia encontrado para não sucumbir ao trauma.

Pensar que nada era tão terrível. Fantasiar que podia fazer da situação algo melhor. Assim como achava que podia transformar a Hydra nos Novos Vingadores. Tudo isso era apenas uma defesa natural de Damian.

Ele havia crescido em tamanho e músculos, mas ainda era só um menino tentando sobreviver sem enlouquecer...

Roxanne sentiu vontade de abraçar o irmão, de prometer que tudo ficaria bem, de arrastá-lo dali de uma vez por todas. Porém, quando Damian deu um passo para trás, evitando o contato, ela entendeu também. Ela era a inimiga ali, a pessoa destruindo um mundo de fantasia perfeito no qual ele era amado pelo pai, no qual tudo aquilo tinha valido a pena.

Damian estava se autopreservando, porque encarar a verdade sem o filtro colorido que ele havia colocado nela seria doloroso demais.

E era Roxanne ali, tentando fazer isso a força.

Ela deu um passo para trás então, precisava de mais tempo, por mais que fosse arriscado ficar naquela maldita plataforma. Precisava encontrar um jeito de se aproximar de Damian aos poucos, de forma menos brusca, só não sabia como fazer isso.

Um barulho a esquerda fez com que os dois irmãos Domenichelli olhassem ao mesmo tempo. James vinha da direção dos dormitórios.

— Você estava demorando. — Ele declarou, assim que seu olhar encontrou o de Roxanne e ela sorriu automaticamente.

— Eu estou bem. — Garantiu, quando o americano se aproximou um pouco mais.

Damian alternou o olhar entre o casal, focando na forma como Barnes pousou a mão na cintura de Roxanne instintivamente.

— Ô, Sucata, eu ainda 'tô aqui, respeito. — O garoto jogou em um misto de deboche e... diversão?

Roxanne franziu as sobrancelhas, estranhando a interação.

— Não se preocupe, Pirralho, segurar vela é um dom milenar, você vai desenvolver essa habilidade depois de algum tempo de pratica. — James sorriu e embora houvesse sarcasmo em suas palavras, seu tom era amigável.

O que estava acontecendo ali? Roxanne tentou entender por que os dois pareciam tão bem entrosados do nada.

— Você é um velhote insuportável. — Damian rebateu naquele tom amistoso. — Eu vou descer pra ver se o pessoal sabe o que aconteceu com a internet, às vezes cai assim mesmo, mas está demorando mais que o normal pra voltar.

— Vai lá. — James puxou Roxanne um pouco para o lado, assim o menino podia entrar no elevador. — Eu estava pensando... Devíamos jantar todos juntos. Que acha? — Perguntou direto para o mais novo. — Sua irmã faz um ótimo macarrão.

A Donna conteve um sorriso, tentando fingir que não ficou emocionada com o quão doce foi aquela atitude do americano.

— Carbonara? — Damian questionou, mas dava pra notar que ainda estava um pouco reticente.

— Posso fazer se você tiver os ingredientes. — Ela assegurou, torcendo para o irmão que aceitasse.

Damian encarou Roxanne por alguns instantes, talvez ainda estivesse muito irritado e chateado com ela para aceitar.

— Tenho certeza que podemos dar uma trégua pra jantar. — Barnes sugeriu casualmente.

— Trégua? — O menino estreitou os olhos em um misto de interesse e desconfiança.

— Sabe, nada de falar a palavra "pai", "Hydra" e por aí.

Damian sorriu ao ouvir a explicação do mais velho, mas focou na irmã, ainda desconfiado.

— Eu posso fazer isso. — Ela garantiu, por mais que fosse contraproducente para o seu plano de tirá-los dali o mais breve possível, era uma oportunidade única de se aproximar do irmão.

— Você vai contar uma história dos Vingadores? — O mais novo focou em James novamente.

— Se você quiser... — O americano encolheu os ombros de forma displicente.

— Bom... eu preciso jantar, então... — O menino decidiu por fim, antes de apertar o botão do elevador.

As portas metálicas se fecharam e Roxanne sorriu, focando no rosto de James logo em seguida.

— Como você fez isso?

— Eu sou cativante, as pessoas não resistem. — Ele envolveu a cintura dela com as duas mãos, fazendo com que os dois ficassem de frente. — Falei com o seu irmão enquanto você estava lá embaixo. Ele é um bom garoto, Italianinha. Vamos tirá-lo dessa. Vai ficar tudo bem.

Os ombros dela relaxaram um pouco em puro alívio, não sabia que precisava tanto ouvir alguém dizer aquelas exatas palavras. Isso lhe deu um pouco mais de confiança e otimismo.

— Falou com ele por uns instantes e de repente vocês são amigos? — Brincou, colocando os braços nos ombros do americano.

— Amigos não, mas eu o respeitei e ele me respeitou de volta. — James respondeu com certa seriedade.

— Está dizendo que eu não o respeitei?

— Você está tentando entrar na vida do menino com os dois pés na porta. Ele é só um adolescente, com certeza não vai gostar desse tipo de tratamento.

— E você virou especialista em adolescentes agora? — Roxanne estreitou os olhos de forma divertida.

— Eu tive irmãs. — Barnes respondeu apenas.

A Donna sabia que ele estava tentando ajudar, fazendo o melhor que podia para que ela tivesse o irmão de volta. Isso fazia o coração da italiana aquecer de forma reconfortante.

— Obrigada. — Pousou um beijo casto nos lábios de James e ele sorriu, os olhos fechados, como se aproveitasse essa sensação porque tinha sentido muita falta dela.

— Presumo que não tenha descoberto nada lá embaixo, não é? — Ele perguntou, quando os dois começaram a caminhar em direção à cozinha.

Roxanne narrou a conversa e contou suas suspeitas. Falou sobre a sala secreta no andar do Representante e a sensação de que era tudo uma armadilha, mesmo sem nenhuma prova.

— É a Hydra, sempre tem algo secreto rolando por debaixo dos panos. Mas você tem razão, pode não ter a ver com a gente. — O americano opinou, depois de ouvir o relato rápido.

— E se tiver? — A Donna questionou preocupada, enquanto examinava as coisas que tinham na geladeira e armários. Notou alguns ingredientes que a fizeram sorrir. O tempo era curto, mas, quem sabe...

— Bom, vamos descobrir quando chegar a hora. Hoje vamos ter que deixar de lado, aproveite a noite com o seu irmão. — James sugeriu, se aproximando e pousando um beijo na testa dela.

Roxanne entendeu o tom e o olhar pesado, mais uma vez eles estavam roubando tempo ali, só que agora com Damian, afinal, se tudo fosse uma armadilha, acabasse em luta e tragédia, então era impossível prever o resultado final.

Podia ser seu primeiro momento de paz com o irmão... mas também podia ser o último. Essa possibilidade deixou Roxanne muito tensa, mas ela tentou deixar essa sensação de lado assim que Damian entrou no cômodo.

Ela já estava trabalhando em um creme de mascarpone para a sobremesa de última hora, enquanto deixava a água do macarrão esquentando. O garoto deu uma olhada rápida, mas seu foco principal era James.

— Não sabem o que rolou com a internet. — Avisou em um misto de decepção e irritação. — Às vezes esse pessoal pode ser muito incompetente. Aposto que no complexo dos Vingadores ninguém ficava sem internet.

— Não olha pra mim, nunca morei lá. — O americano deixou claro. — Mas em Wakanda nunca faltava wifi, isso eu garanto.

— O que vocês faziam no seu tempo? — Damian perguntou interessado.

— Tinha cartas e, durante a guerra, mandávamos mensagem em código Morse através de rádio. — Barnes explicou neutro.

— Eu tenho um desses! — O menino apontou, como se tivesse acabado de lembrar.

Saiu correndo da cozinha e voltou com um desses rádios antigos que funcionam por frequência. Roxanne observou enquanto os dois rapazes mexiam naquele cacareco como se fosse a coisa mais interessante do mundo.

Não pôde evitar sorrir, esquecendo por um instante que estava em uma possível armadilha e apenas apreciando o momento. O homem que ela amava e o seu irmão perdido conversando e trocando algumas farpas divertidas bem ali, pertinho.

Era como a realização de um sonho.

Roxanne quis guardar esse momento em um quadro mental para que nunca fosse esquecido.

Enquanto fazia a sobremesa, ficou ali, olhando James enviar uma mensagem em Morse, que nunca seria ouvida por ninguém, tentando ensinar a Damian os códigos mais usados durante a guerra.

Era perceptível que o garoto gostava da atenção e o quanto ele ficava empolgado tendo o cérebro desafiado daquele jeito.

— Isso é muito legal, tecnologia pré-histórica. — Damian comentava empolgado, depois de uma infinidade de minutos. — Acho que vou te chamar de Buckyssauro daqui pra frente.

— Rá, rá, rá. Muito engraçado. — James devolveu com um revirar exagerado de olhos, então bateu no ombro do mais novo de forma amigável. — Agora vamos ali ajudar sua irmã, vai.

Os dois deixaram o rádio de lado e foram na direção de Roxanne. Barnes adentrou o ambiente da cozinha de conceito aberto e já foi achando formas de ser útil, enquanto Damian se debruçava sobre o balcão, a fim de enxergar o que a irmã fazia.

— Que isso? — Questionou com curiosidade, assistindo enquanto ela montava a sobremesa a base de creme mascarpone.

— Tiramissu. — Roxanne respondeu um pouco tensa. Não sabia se o garoto lembraria.

— É minha sobremesa preferida. — Ele declarou em um misto de surpresa e animação.

O fato de Damian ter guardado isso, fez uma chama de esperança se acender no peito da Donna.

— Eu sei. — Ela sorriu, tentando conter a emoção que a recordação trazia. — Mas você não podia comer muito, por causa do café.

O mais novo não respondeu, talvez não lembrasse dessa parte, mas continuou assistindo cada passo com atenção.

— Benedetta me ensinou a fazer. — Roxanne contou, pronta para explicar quem era a mulher.

— Você ainda tem a mesma governanta? — Damian provou que se lembrava disso também.

— Sim, ela que cuida de tudo lá em casa. — A mais velha tentou ser casual, principalmente ao dizer a próxima frase. — Você pode passar lá pra fazer uma visita qualquer hora, se quiser.

— Uma visita? — A pergunta veio com cautela.

A Donna estava tentando ir devagar; sempre sonhou em levar o irmão para morar na Sicília, porém, agora queria que Damian sentisse que tinha uma escolha, que podia ir e vir. Estava indo com calma, assim como James aconselhou.

— Claro, eu não posso ficar aqui morando na sua casa pra sempre, né? — Tentou um tom descontraído e leve. — Da próxima vez, você que vai me ver, pode ser?

— Se eu puder... — O garoto soprou tão baixo que Roxanne teve certeza que não podia ter ouvido.

Ela ergueu o olhar e Damian ficou imediatamente tenso, se moveu desconfortável e, sem dizer nada, se afastou dela, focando em Barnes:

— E a minha história sobre os Vingadores?

Roxanne quis perguntar o que havia de errado, quis saber se ele era forçado a ficar naquela plataforma o tempo todo. Porém, obrigou esse impulso a permanecer sob controle. Ela daria outro jeito de descobrir.

— O que você quer saber? — Barnes respondeu em tom casual. — Lembrando que nunca fiz parte oficialmente dos Vingadores.

Pelo visto ele conseguia lidar com toda aquela situação muito melhor que ela. Roxanne agradeceu internamente por ter o americano ali, enquanto colocava o tiramissu no congelador, para acelerar um processo que levaria pelo menos duas horas na parte normal da geladeira.

— Não te aceitaram porque você já é um velho caquético e devia estar aposentado? — Damian debochou com uma risadinha divertida.

— Engraçadinho. — O mais velho rebateu sarcástico, porém, contou a história mesmo assim.

Falaram sobre a luta contra Thanos, sobre como Barnes acordou em Wakanda e se juntou aos exércitos de T'challa e atravessou um portal para encontrar Steve, Tony e Thor no campo de batalha, junto com alguns poucos Vingadores que haviam sobrevivido ao primeiro estalo.

Ele também contou sobre Steve Rogers ter lutado com o martelo do deus do trovão nessa ocasião. Relatando o que o velho amigo lhe contou depois que haviam vencido, sobre como tinha erguido o Mjolnir sem nem pensar, apenas no impulso de salvar o próprio Thor.

— Isso é muito mais legal do que ter um supersoro! — Damian estava empolgado como um garoto que é levado no parque pela primeira vez. — Sem ofensas.

— Nenhuma ofensa. — James respondeu neutro. — Conheço um cara que diz que o desejo de ser um supersoldado não vem de boas pessoas.

Damian sorriu, como se aquela frase revelasse algo pessoal sobre ele. Para Roxanne, que assistia a cena, ficou parecendo que o garoto ficou orgulhoso de si mesmo por não querer o supersoro.

— Mas Steve Rogers era um supersoldado. — O mais novo declarou de repente, como se tivesse acabado de se dar conta que a afirmação não casava tanto assim.

— Pois é, mas Steve era uma exceção, talvez por isso tenha conseguido erguer aquele martelo. — James apenas encolheu os ombros.

A Donna teria ficado ali pra sempre assistindo os dois conversando. Seu coração nunca esteve tão quente, batendo de modo reconfortante no peito. Ela queria aquilo, queria todo dia.

— Você acha que teria erguido? — Damian prosseguiu a conversa de forma animada, alheio aos pensamentos íntimos da irmã.

— Eu? Nem pensar. — Barnes rebateu como se fosse óbvio.

— E se usasse o braço de vibranium?

— Acho que não. Steve disse que Tony tentou erguer usando uma parte da armadura e não funcionou.

Roxanne riu de canto, nunca tinha se dado conta do quão paternal e nerd James podia ser. Era encantador. Pelo visto, sempre haveria um detalhe novo sobre ele para descobrir e se apaixonar.

— Não deve ser legal morar com o Thor... — Damian ponderou de repente, colocando a mão no queixo como se estivesse pensando em algo muito importante. — Imagina se ele esquece o martelo em cima da privada?

As risadas dos três se espalharam pelo ambiente ao mesmo tempo.

— Que piada besta. — Barnes apontou com certo sarcasmo, arrumando sua postura.

— E riu por que então? — O mais novo acusou em tom superior.

— Porque é tão besta que fica engraçada.

— Eu achei uma ótima piada. — Roxanne declarou, ganhando um sorriso de Damian. — Agora coloquem os pratos, por favor.

Arrumaram os últimos detalhes em conjunto, se sentando ao redor da mesa de jantar. Para Roxanne era o mais perto de ter uma família completa que ela chegou em muitos e muitos anos, ela tentou dominar a emoção, principalmente quando viu Damian se sentar e olhar ao redor, seu rosto jovem denunciando que ele nunca tinha feito uma coisa dessas.

O garoto era evidentemente solitário.

Um nó travou a garganta da Donna e ela tentou seu melhor para não chorar ali na frente do irmão mais novo.

— O cheiro está ótimo. — James comentou em tom descontraído, enquanto ao mesmo tempo alcançava a mão dela debaixo da mesa, apertando os dedos femininos com delicadeza, em um gesto claro de apoio.

Se serviram de carbonara, comendo em um silêncio confortável por alguns minutos.

— Como é viver lá na Sicília, sabe, agora que você mudou tudo? — Foi Damian quem puxou o assunto.

A Donna ficou feliz em contar tudo, sobre as pessoas, as mudanças, o sendo de comunidade, o trabalho com as crianças. Barnes emendou falando da vinícola e de detalhes que apenas um estrangeiro poderia notar, mas que fizeram os olhos de Damian brilharem.

— Acho que vai ser legal passar por lá uma hora dessas. — O menino deixou no ar despretensiosamente e Roxanne tentou controlar sua reação animada.

Era um começo.

Ela serviu a sobremesa e fingiu focar em seu próprio prato, mas estava atenta a cada movimento de Damian. Ele levou o garfo até a boca e paralisou, seus olhos enchendo de lágrimas automaticamente.

Um silêncio pesado se espalhou entre eles, pela primeira vez Barnes não conseguiu encontrar algo que quebrasse o clima, ao mesmo tempo em que Roxanne também não sabia como reagir.

Damian engoliu o tiramissu, pousando seu garfo no prato, em um misto de choque e algo mais que era muito difícil descrever, mas partia o coração da irmã mais velha de forma devastadora.

— Ninguém conseguia fazer desse jeito... — O garoto soprou. — Ninguém.

Ele tentou prender o choro, mas falhou nisso, um soluço estrangulado escapando de seus pulmões enquanto todo seu corpo começava a tremer.

Roxanne entendeu que a memória afetiva daquilo tinha sido demais para Damian. Tudo estava voltando e, talvez pela primeira vez, tinha se tornado impossível carregar o peso de ter crescido longe de casa.

Ela se colocou de pé e deu a volta na mesa, se aproximando do irmão mais novo e o envolvendo em um abraço que foi prontamente correspondido. Roxanne apertou Damian um pouco mais, acariciando seus fios escuros enquanto apenas deixava o garoto chorar em seu colo, como se ainda fosse um menininho.

Prometeu para si mesma que cuidaria dele, que nunca mais o abandonaria. Seus olhos escuros procuraram os de James, e o azul gélido refletiu o mesmo sentimento. Eles protegeriam Damian a qualquer custo.

— Rox? — O garoto soprou algum tempo depois.

— Sim? — Ela se afastou minimamente, para que pudessem se olhar.

Damian respirou fundo, incerto por um momento, até que finalmente declarou:

— Eu quero voltar pra casa.

Roxanne sorriu, o alívio finalmente atravessando seu corpo enquanto ela assentia. Não queria soar precipitada, mas estava pronta para sair daquele lugar imediatamente.

Porém, sequer teve tempo de verbalizar isso, um alarme estridente começou a tocar, todas as luzes piscando vermelhas enquanto tudo ao redor — todas as janelas e entradas — era bloqueado por chapas de metal.

— O que está acontecendo? — James já estava em estado de alerta.

— O prédio entrou em modo de confinamento... — Damian respondeu e, a julgar por suas sobrancelhas franzidas, também não estava entendendo nada. — Eu não sei o que está acontecendo, eu juro.

Barnes e Roxanne trocaram um olhar tenso, começando a procurar uma saída, enquanto o barulho insistente do alarme e as luzes vermelhas aumentavam ainda mais a sensação de pânico e urgência.

O punho de vibranium atingiu a chapa de metal que bloqueava a saída, porém nada aconteceu. Nem sequer uma marca.

— É inútil tentar abrir assim, as portas foram reforçadas pra suportarem até vibranium, é um metal sintético que foi desenvolvido através de uma amostra do metal wakandano. Chama Adamantium. — Damian explicou, gritando acima do alarme. — Faz pouco tempo que meu pai implementou a nova segurança.

Algo estalou na mente de Roxanne. Ela paralisou onde estava. A respiração fora do prumo, o coração aos saltos.

— Mas que merda é essa? — James xingou, quando uma fumaça esbranquiçada começou a sair do sistema de ar.

— Era mesmo uma armadilha... — A Donna balbuciou em choque, enquanto todas as peças se conectavam em sua mente. — Eu só não... não vi o alvo.

O timing do Representante, a preparação, a sala secreta lá embaixo, as palavras dele... tudo fazia sentido agora.

James correu até Roxanne, a puxando para um canto junto com Damian, enquanto tentava conseguir um lugar seguro da fumaça. A Donna começou a sentir a letargia dominar seu corpo e, a julgar pela forma dura como Damian piscava, ele também não aguentaria muito. Tinha sedativo no ar, com certeza.

Barnes amparou o corpo feminino quando as pernas dela falharam. Roxanne olhou para o rosto do homem que amava totalmente em pânico. Tinha cometido um erro. Um erro tão grande que ela não sabia se teria concerto.

— Isso não é sobre mim, eu não sou tão importante. — Tentou explicar, mas sua voz já falhava. — Isso é sobre você, James...

Ainda era incerto o motivo, mas era isso que o Representante queria, com certeza.

E tudo ficou escuro.