Operação Roleta Russa
32 Armadilha

Quando os olhos negros se abriram, a Donna não sabia onde estava, havia apenas a escuridão e um frio desconfortável ao redor. Ela tinha caído em uma emboscada, isso era certo.
Soltou um palavrão em italiano, enquanto notava que algemas a prendiam. Se encontrava sentada no chão, os braços para trás ao redor de uma viga de ferro. O ambiente que a cercava parecia algum espaço não utilizado da Plataforma de Petróleo desativada. A considerar pelo som do mar vindo lá de fora, era possível que estivesse no nível mais baixo do lugar.
Mas não foi com isso que se preocupou. Afinal, antes que a fumaça a dopasse, havia finalmente entendido qual era o plano do Representante: ele queria James.
E, considerando que o homem era agora o líder da Hydra, nada de bom viria disso. Ainda era incerto para Roxanne quais os exatos planos de Frederik. Será que ele queria ativar novamente o controle mental do Soldado Invernal?
Não... aquele homem parecia esperto demais para insistir em algo que foi o maior erro da Hydra, o programa Soldado Invernal havia dado vergonhosamente errado, o recente fracasso de Strovalenko deixava isso bem claro. Sendo assim, James só poderia ser útil de uma forma.
Ele tinha o supersoro nas veias.
— Inferno! — Roxanne sacudiu as mãos com urgência para tentar se soltar, mas não conseguiu mais que o barulho de metal batendo contra metal.
Era sua culpa. James estava em perigo e foi a própria Donna quem deixou acontecer. Abaixou a guarda e agora perderia o homem que amava. Era o pior erro que já havia cometido.
Encostou a cabeça na barra de ferro às suas costas. Como podia ter sido tão estúpida? Nunca devia ter entrado naquele helicóptero, não sem avisar sua equipe... Mas, se fosse honesta, nem sabia se ainda era digna da lealdade de seu círculo de confiança. Havia expulsado Francesco da organização para a qual ele havia dedicado toda sua vida. Mandou Corinne para longe. Deixou Nick no escuro sobre todos os planos.
Havia destruído as bases da organização que lutou para recriar. Como tudo se manteria de pé depois disso? Como continuariam sendo leais? Não apenas seus Conseglieres, mas todos os outros, as Mamas, Os Outsiders, Os Homens Feitos, a Sicília no geral.
Devia ser a Donna, mas se sentia apenas uma garota tola. Estava perdendo tudo que amava, totalmente no fundo do poço. Deu de si naquela missão e agora sequer sabia se podia ou não confiar em Damian.
Será que ele sabia daquela emboscada?
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Ele abriu os olhos ainda grogue, seu corpo inteiro pesado e uma nevoa em sua mente que o impedia de pensar com clareza.
Onde é que estava mesmo?
O ambiente claro o fez levar a mão automaticamente ao olho, ou melhor, ele tentou, mas nunca chegou a completar o movimento.
— Que merda é essa? — Damian Domenichelli sacudiu o braço, que estava preso em uma maca de ferro.
— Não se preocupe, meu filho. Vai acabar logo. — O rosto de Frederik apareceu na frente do garoto, e logo a maca mecanizada estava se erguendo um pouco, dando a Damian ampla visão do laboratório.
Olhou ao redor rapidamente, enquanto seu raciocínio começava a trabalhar depressa. A última coisa que lembrava era de estar com Roxanne e Bucky na cozinha quando foram intoxicados com gás e agora... Damian não conhecia aquele lugar.
Porém, a julgar pela estrutura era bastante óbvio que ainda estavam na Plataforma de Petróleo. Sabia que o pai tinha uma sala secreta em seu quarto, mas sempre pensou que fosse apenas uma dessas coisas de gente velha, pornografia talvez. Nunca imaginou que fosse um laboratório inteiro tão bem equipado, cheio de maquinário e computadores de última geração.
Mas o pior... Bucky estava ali, também preso em uma maca, desacordado e cheio de fios o conectando a máquinas e um desses monitores médicos, enquanto o braço de vibranium tinha sido arrancado dele e se encontrava do outro lado da sala.
— Por que está fazendo isso, pai? — Perguntou, um tanto desnorteado, sem conseguir acreditar naquela decepção.
Além disso, onde estava Roxanne? Ela não podia ser vista em lugar algum daquele grande cômodo moderno, e Damian duvidava muito que estivesse solta em qualquer lugar da Plataforma.
— Não existe Hydra sem um super soldado. — Frederik explicou em um tom calmo e casual. — O erro do Strovalenko foi querer dar uma segunda chance para um ativo defeituoso.
Damian não precisou de uma explicação mais extensa, tudo ali naquele ambiente deixava bem claro o que estava acontecendo. Seu pai queria tirar o soro do super soldado das veias de Bucky.
— Não precisamos de nada disso. — Tentou argumentar. — Podemos refazer a Hydra, transformá-la em algo bom.
— A Hydra sempre foi algo bom, meu filho. — O mais velho rebateu, como se aquela fosse uma verdade óbvia. — Você e eu faremos dela espetacular, grandiosa. Chegaremos onde seu bisavô não conseguiu chegar.
Damian tentou manter a calma, controlar suas emoções, sabia que contrariar seu pai abertamente não era uma boa coisa. Haviam várias fraturas em seu corpo para provar.
— Mas e o Bucky? — Questionou, temendo já saber a resposta.
— Bucky tem nas veias algo que é propriedade da Hydra, eu só vou pegar de volta. — Frederik agiu como se fosse simples. Como se estivesse certo. — E vou dar pra você.
Damian franziu as sobrancelhas de forma indignada. Já sabia que seu pai era sistemático, severo e controlador. Estava ciente de que o homem usava métodos pouco ortodoxos de treinamento. Porém sempre relevou esse lado...
Enxergava agora que havia se enganado a vida toda, criado fantasias para justificar o injustificável. Como podia ter sido tão tolo em acreditar que Frederik permitiria que ele transformasse a Hydra em algo verdadeiramente bom?
Roxanne estava certa o tempo todo.
— Eu nunca quis ser um super soldado. E eu ainda não quero. — Tentou fazer seu pai ver a razão.
— Mas você vai ser. — Frederik deixou bem claro.
Damian respirou fundo, fechando os olhos por um segundo, porque tudo aquilo era uma verdade muito difícil de engolir. Seu pai era um grande bosta.
Todos aqueles anos... Todo o treinamento abusivo; o isolamento forçado; o afastamento do convívio social; as noites em claro aprendendo a como surrar, destruir, atacar, matar; as surras por motivos tolos; os hematomas; os ossos quebrados; a solidão angustiante...
Sua vida foi guiada por uma criação abusiva, manipulada por um homem que só queria usá-lo. Frederik nunca foi melhor que o Dom Vicenzo.
A verdade é que Damian havia matado o pai de Roxanne por bem menos até.
Abriu os olhos, precisava se soltar.
— Então era tudo sobre pegar esse soro? — Perguntou para ganhar tempo, enquanto agia para se soltar das travas que prendiam seus pulsos na maca. — Você não queria que eu reencontrasse a minha irmã, certo?
— Sua irmã é só uma cria do pai dela, tudo que ela quer é se vingar de mim. Você é só um peão no meio dessa empreitada da Donna. Nada mais. — Frederik respondeu em tom paternal. — Eu sempre quis o soro, mas nunca houve um jeito de conseguir. Até tentei comprar de Madripoor, porém deu tudo errado, e foi bom, logo eu descobri que aquele soro é inferior. Sendo assim, só existia um soro realmente bom disponível... Nunca teria armado esse reencontro se não tivesse interesse no Soldado, já sabia que ela não seria boa para você. Mas, ela era a isca certa nessa situação. Nunca conseguiríamos que o Soldado abaixasse a guarda sem ela por perto. É como eu sempre disse, sentimentos são uma fraqueza.
Damian se odiou um pouco por ter passado a vida toda acreditando em mentiras tão óbvias. Todas as vezes que quis procurar a irmã, seu pai não permitiu, e agora ficava bem claro o motivo. Roxanne nunca estaria ali se ela e Bucky não tivessem um relacionamento. Relacionamento esse que ficou claro quando a morte falsa de Barnes veio à tona. Todos da Hydra ficaram sabendo do caso da Donna, Frederik também, por ter vários informantes. Depois ele conseguiu informação privilegiada de Madripoor e achou o momento perfeito para matar dois coelhos com uma só cajadada.
Invadir o casamento para eliminar Strovalenko e retomar o poder da organização, e então usar isso para trazer Roxanne e Bucky para a plataforma.
Ninguém suspeita de um sequestro quando o sequestrador sorri e dá pequenos regalos. Damian foi apenas isso; a balinha usava para atrair uma criança para a van preta.
Porém, o garoto entendeu algo naquele momento, o grande lema da Hydra "sentimentos são uma fraqueza" não passava de uma balela manipuladora. Sentimentos eram exatamente aquilo que dariam forças a Damian para ver toda a manipulação e lavagem cerebral emocional que havia sofrido.
Por isso os agentes iniciantes tinham que criar e matar um animal de estimação. Porém, Damian nunca cumpriu essa missão. Ou melhor, ele cumpriu sim, pelo menos aos olhos do pai... Na verdade o cachorro estava livre, perfeitamente seguro na casa de um dos trabalhadores da plataforma.
Foi a primeira fez que o garoto enganou Frederik. Ele podia fazer de novo.
— Você a matou? — Perguntou, notando que estava fortemente preso e não daria pra se soltar discretamente.
— Claro que não. — Frederik fez um gesto displicente com a mão direita, enquanto mexia na aparelhagem médica. — Eu a coloquei em um lugar seguro, assim se o Soldado se descontrolar teremos uma barganha apropriada.
— Entendi. — Fingiu estar cooperando, seus olhos focando no soldado desacordado na mesa ao lado e em toda a aparelhagem que o cercava. Barnes estava sedado, isso era óbvio, porém, todos aqueles instrumentos de tirar e armazenar sangue eram um indicativo preocupante. — O Bucky... vai morrer, não é?
Estava bem claro que a intenção de Frederik era tirar o sangue do soldado para, de alguma forma, extrair o soro e aplicar em Damian. E o garoto sequer duvidada da capacidade do pai de fazer isso, afinal, pelo visto o velho estava trabalhando nisso a muito tempo.
— Ele é apenas uma baixa de guerra. Efeito colateral. — Frederik declarou como se fosse nada.
— Não estamos em guerra, pai. — Tentou uma última vez e, como se fosse um sinal do próprio Ares, os alarmes dispararam e as luzes vermelhas começaram a piscar.
— Sempre estivemos em guerra, garoto! — A resposta veio irritada e convicta, mas dada a reação de Frederik ele não fazia ideia do motivo do alarme. Damian também não. — Agora relaxe, vai acabar logo. Daqui a pouco você será o melhor supersoldado que esse mundo já viu.
O garoto respirou fundo, pronto para fazer o que era necessário. Se debateu na maca, o barulho atraindo a atenção de Frederik.
— Deita, filho, não precisa ter medo, vai dar tudo certo. — O mais velho se aproximou alguns passos.... e isso era exatamente o que Damian queria.
Agilmente deslocou o polegar esquerdo, usando essa tática para libertar a mão e agarrar o pai pela camisa, dando uma cabeçada nele, para conseguir a vantagem de se soltar por completo quando Frederik cambaleou para trás.
— Eu não tenho medo, eu só percebi finalmente que o seu certo e o meu são opostos. — Pulou da maca e passou a mão direita por debaixo da bancada do computador, desconfiando que haveria uma arma escondida por ali.
Sempre havia. Frederik tinha armas em toda a parte.
— Olha aqui, garoto... — O homem ainda pressionava o nariz ensanguentado quando se deu conta que estava na mira. — Mas que merda é essa?
Os dois se encararam através do cômodo, os olhos faiscando.
— Você não vai atirar em mim. — Frederik sorriu apaziguador, erguendo as duas mãos lentamente, enquanto dava pequenos passos para a esquerda. — Eu sou o seu pai.
— Que tipo de pai faz do filho um assassino? — Damian retrucou, também caminhando lentamente, em um jogo que parecia uma dança quadro a quadro.
Se fosse qualquer outra pessoa o garoto já teria puxado o gatilho. Porém, matar o pai dos outros? Isso era fácil. Matar o próprio pai, mesmo que ele fosse um babaca manipulador? Damian ainda tinha um coração.
— Eu te fiz forte, garoto. — O velho praticamente cuspiu. — Mas pelo visto, não te fez forte o bastante. Um dia com a sua irmã e você virou um garotinho chorão. Acha que eu não vi aquela ceninha no jantar?
— Você tem me espionado? — A resposta foi uma acusação. Mas ele já devia saber, não é?
Os dois já haviam se movido pelo cômodo de tal forma que estavam bem mais perto, porém era Frederik quem tinha acesso à mesa do computador agora.
— Achei que não dava pra confiar em você, pelo visto eu estava certo. — O homem meneou a cabeça de forma crítica, então seu olhar se tornou algo que Damian conhecia muito bem. Frederik queria machucá-lo. — Mas já que gosta tanto da sua irmãzinha, melhor se deitar nessa maca e fazer tudo que eu mandar, ou ela vai acabar morrendo afogada.
Ele apertou um botão na mesa do computador e a tela começou a exibir o código de evacuação. Ele estava destruindo a Plataforma.
Era um sistema de segurança bastante útil. O lugar inteiro tinha sido modificado para isso. Na primeira etapa o nível mais baixo começaria a drenar água para dentro do lugar, isso inutilizaria qualquer prova eletrônica, que pudesse ser cobiçada por uma agência governamental. Além disso, a urgência da evacuação geraria uma oportunidade para a fuga antes que a segunda etapa iniciasse.
Uma fuga que devia incluir Frederik e Damian, quando os dois estavam do mesmo lado.
Mas isso não era mais verdade agora, estando de lado oposto ao do pai, o garoto veria a segunda etapa em primeira mão. Se não agisse rápido, quando as bombas começassem, ele estaria bem ali pra sofrer a explosão.
Porém, se Roxanne estava correndo o risco de se afogar, então ela só podia estar em um lugar...
Damian abaixou a arma e a entregou para Frederik, jamais arriscaria a vida da irmã. Se aproximou da maca, porém assim que se deitou a mesma arma estava apontada para sua testa.
— Achou mesmo que seria fácil assim? Você me decepcionou, filho. — Cuspiu a palavra como se fosse um xingamento. — Encontrarei outra pessoa pra ser meu Caveira Vermelha.
Já tinha apoiado o metal frio na cabeça do mais jovem quando algo grande e redondo voou no ar e o atingiu direto no braço, jogando a arma longe.
— Pois eu prefiro que não tenha Caveira Vermelha nenhum. — A voz masculina soou alto. — Não é uma figura histórica das melhores, se quer saber.
— Se afaste do garoto! — Outra voz veio em seguida.
Assim que Frederik deu um passo para trás, olhando de esguelha para a arma no chão, Damian saltou da maca, rolando pelo piso e alcançando o revólver primeiro. Ele não pensou, tinha sido treinado para isso afinal, apenas puxou o gatilho.
O tiro certeiro fez com que o corpo de Frederik despencasse para o chão, seu sangue fazendo uma poça aos pés do mais jovem.
— Damian? — Ele ainda encarava o cadáver de seu pai, quando esse homem entrou em seu campo de visão.
Era ligeiramente familiar, mas o garoto não lembrava com clareza.
— Primeiro e único. — Disse sem emoção. Tinha acabado de matar o próprio pai. Não devia se importar, foi treinado para nunca ligar para as mortes que causava, no entanto, aquela situação era diferente. Frederik merecia, verdade, ainda assim, foi a primeira vez que Damian ponderou que devia tirar férias dessa coisa de ser assassino.
— Francesco Grecco. — O homem vestindo terno se apresentou. Era italiano, sem dúvida. — Trabalho pra sua irmã... Trabalhava. — Ele fez uma careta quando corrigiu. — É complicado.
— Eu ainda trabalho pra Donna. — Outro cara disse de forma casual. Damian achou curioso que a cabeça dele não tivesse um único fio de cabelo. — Sou o Nick, à propósito.
— Foco! — Uma mulher estralou os dedos quando passou por eles. Cutucando Frederik com a ponta do coturno. — Bom trabalho, garoto.
— Essa é a Corinne. — Nick apresentou rapidamente.
Eram da máfia, com certeza, isso explicava o alarme de intrusos.
— Bucky... — A outra voz sussurrou e só então Damian ergueu a cabeça.
A primeira coisa que viu foi o grande pedaço de metal circular, preso na mesa do computador central. A coisa vermelha azul e branca agora arrancava faíscas do sistema computadorizado e era com certeza o que havia batido na mão de Frederik para salvar Damian.
Um escudo.
— O que aconteceu com ele? — A mesma voz questionou, fazendo com que o mais jovem virasse lentamente na direção da maca de Bucky.
Puta merda! Puta merda! Puta merda! Damian já sabia quem iria ver, afinal só havia um homem vivo digno de portar aquele escudo de vibranium.
E ele estava ali, no meio do laboratório, tirando os fios do corpo de Bucky, vestindo a roupa mais irada de todas.
— Você é o Capitão América... — O garoto balbuciou em choque completo. Tinha acabado de ser salvo pelo Capitão América em pessoa!
Sam Wilson ergueu o olhar e Damian se deu conta da urgência da situação. Não era hora de bancar o fanboy. Limpou a garganta rapidamente e arrumou a postura.
— Ele está sedado. — Informou, apontando a aparelhagem.
— Bucky... Bucky? — O Capitão sacudiu os ombros de Barnes, mas era evidente que o sedativo era bastante potente.
— Como chegaram aqui? — O mais novo questionou, enquanto via os outros vasculharem a sala.
— Ele enviou um SOS em código morse pro meu Red Wing. — Sam explicou, batendo suavemente no rosto de Bucky. — E tem um rastreador nanotecnológico no celular dele. Aprendemos com a sua irmã.
— Daí ele reuniu a gente. — Francesco completou, apontando para Wilson.
— Quando o Capitão América chama, você só vai. — Nick explicou, trazendo o braço de vibranium.
— O que é essa luz? — Corinne apontou quase ao mesmo tempo.
Damian sequer ouviu a pergunta, estava um tanto atordoado, não só porque o cadáver de seu pai estava ali no chão, mas também porque não costumava interagir com tanta gente. E, mesmo quando interagia, nenhuma dessas pessoas era o próprio Capitão América. Um Vingador em carne e osso, com traje e tudo!
— Ele não acorda. — Sam reclamou, visivelmente frustrado.
— Vamos tacar adrenalina no coração dele. — Corinne sugeriu, analisando os suprimentos médicos.
— Isso não é perigoso? — Nick e Francesco fizeram a mesma pergunta.
— Só tem um jeito de saber.... — A única mulher presente já estava preparando a seringa.
A tensão que se espalhou no ambiente era totalmente palpável. Porém, se Damian fosse honesto, ele estava achando muito divertido assistir todas aquelas pessoas lidando com a crise que tinham em mãos.
Corinne fincou a seringa no meio do peitoral de Barnes e não demorou muito mais que dez segundos para que ele abrisse os olhos feito um trem desgovernado.
Foi Sam quem apoiou as duas mãos nos ombros do Soldado e o fez se acalmar.
— Você veio... — Foi a primeira coisa que Bucky murmurou assim que controlou um pouco a respiração. Havia um misto claro de alívio e surpresa em seu tom.
— Você chamou. — Sam apenas encolheu os ombros, com um grande sorriso no rosto.
— Qual é a do Bromance? — Damian sussurrou para Corinne que estava mais perto e a moça só ergueu as mãos, fazendo uma careta que dizia claramente "sei lá".
Bucky olhou ao redor, recuperando seu braço e o colocando de volta no lugar, fazendo um movimento rápido, girando o ombro no eixo para testar o encaixe.
— Legal! — Damian sussurrou baixinho, atraindo o olhar azul.
Barnes focou no garoto, então no corpo no chão, então no garoto de novo, enquanto cumprimentava Francesco, Nick e Corinne.
— Você está bem? — Analisou o mais novo dos pés à cabeça, e foi a primeira vez que alguém se importou o bastante para perguntar algo assim a Damian. Ele assentiu, sem conseguir formular uma só frase. — Certo, e onde está a Roxanne?
— Ela está lá embaixo, tem um corredor de saletas que serve pra prender pessoas, e que também funcionam como entrada para a drenagem de água. Meu pai disse que ela se afogaria, então a Rox só pode estar lá. — O mais novo respondeu, atraindo todos os olhares.
— A Donna vai se afogar e você só falou agora? — Francesco soltou em tom incrédulo.
— Relaxa, demora um pouco pra água atingir um nível alarmante. Dá pra desligar o protocolo de evacuação. — Damian apontou para a mesa do computador central. Não costumava ficar nervoso em situações de crise, tinha sido treinado para isso. — É só colocar o código.
Parou na frente do computador semidestruído, no entanto, quando teclou o código nada surgiu na tela. Merda...
— Então... — Soprou sem jeito. — O computador central tá bem ferrado. E como não dá pra parar o protocolo de evacuação, tudo aqui vai inundar e depois explodir. Acho que meio que a gente tem um problema que eu não previ...
O tempo de Roxanne estava acabando.
— Típico da Hydra. — Bucky soltou nada satisfeito, puxando o escudo preso na mesa e o entregando ao Capitão.
— Certo, vamos lá pegar a Donna. — Francesco decidiu, seu tom denunciando a urgência da situação.
— Eu vou. — Barnes não deixou qualquer espaço para discussão. — Tirem o Damian daqui.
Começaram todos a caminhar direto para as escadas, já que os elevadores foram bloqueados por causa do protocolo.
— Qual é? Eu posso ajudar! — O mais novo protestou, afinal queria ir junto também.
— Eu sei. — O ex-sargento respondeu com um olhar compreensivo. — Mas sua irmã ia querer que você ficasse em segurança.
— Vamos, garoto. — Sam deu um toque no braço de Damian para que eles se apressassem escada acima, então olhou para Bucky. — Vamos esperar vocês o máximo que der.
— Eu vou pegar minha garota e alcanço vocês. — Ele garantiu, já correndo para os níveis inferiores.
— "Minha garota"? — Damian fez uma careta. — Que piegas e retrógado.
— Ele é dos anos 40. — Nick deixou no ar, enquanto eles começavam a subir a fim de chegar ao topo da plataforma. — Piegas e retrógado é meio que a configuração patrão, não é?
— Você tem um ponto.
Piegas ou não, velho ou não, Damian só queria que Bucky realmente conseguisse resgatar Roxanne a tempo.
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O alarme não soava mais, porém as luzes vermelhas piscavam sem parar, dando uma visão um tanto macabra da cena. Água vertia do chão com certa rapidez, adentrando naquela saleta da plataforma em uma velocidade alarmante.
Roxanne estava de pé agora, as mãos soltas das algemas, graças à tática básica de deslocar o polegar. O problema é que havia uma porta de ferro bloqueando sua saída e o nível de água já havia passado bastante de seu peitoral e seguia subindo sem parada.
Já tinha decifrado o mecanismo da tal sala, tudo ali era projetado para deixar a água fluir por dentro da construção, talvez um sistema de segurança que visava destruir o lugar em caso de invasão ou necessidade de queima de arquivo.
Toda a sala metálica tinha compartimentos no chão pelo qual a água se infiltrava, provavelmente vinda de um sistema de drenagem direto do mar. Além disso, a porta de saída também tinha essa pequena abertura na parte inferior, que deixava apenas o espaço suficiente para que o liquido fluísse para o restante da Plataforma.
Era visível que Frederik havia pensado em tudo, ele fez uma prisão perfeita, que mataria qualquer prisioneiro primeiro, e ainda acabaria com o lugar.
Roxanne mergulhou, tentando pela décima vez escapar pelo espaço que era destinado para a água, porém apenas seu braço passava para o outro lado.
Não havia nada ao redor que pudesse usar para abrir a porta de metal. E chutar o material também não surtiu efeito.
Seu tempo estava acabando.
Voltou para a barra na qual estava presa, tentando quebrar o material para que o usasse na porta, mas isso também não adiantou. A água continuava entrando sem parada, Roxanne teve que tirar os pés do chão para que não afundasse. Logo a sala inteira estaria inundada e não haveria espaço nenhum para respirar.
Sabia que não podia desistir, ainda assim, isso não mudava a verdade. A água continuou entrando, até que fez com que ela batesse a cabeça no teto, menos de dois palmos a impedindo de ficar totalmente sem espaço para respirar. Subindo e subindo. O desespero de estar sem saída tomando conta dela.
Pela primeira vez a Donna não tinha um plano, não tinha nada...
E então ela ficou totalmente submersa.
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Bucky descia as escadas tão rápido que mal via os andares passando, apenas um lance o separava do nível inferior agora.
Vai dar tempo, vai dar tempo. Era tudo que rodava em looping em sua mente. Porém, assim que virou a curva da escada ele viu que a coisa era pior do que havia imaginado.... A água já havia engolido metade dos degraus.
Ele continuou, tentando não dar espaço para que o desespero tomasse conta dele. Porém ali a inundação já batia em sua cintura, o deixando muito mais lento do que ele gostaria e fazendo com que um pergunta macabra tomasse conta de sua mente: se ali já estava daquele jeito, como estaria a sala em que Roxanne ficou presa?
Se esforçou pra ir mais rápido. A cada porta no caminho que era aberta, mostrando apenas um cômodo vazio, a tensão aumentava ainda mais, oprimindo seu peito de um jeito que seria paralisante se ele não estivesse tão focado em achar a mulher que amava.
— Roxanne! — Gritou, torcendo para que qualquer som lhe guiasse para o lugar certo, porém não houve resposta alguma.
Aquele lugar era imenso, cheio de salas fechadas vertendo água do chão, que pareciam feitas exatamente para confundir alguém que estivesse tentando salvar um prisioneiro. A cada porta aberta mais e mais água adentrava o corredor, a enxurrada repentina atingindo Barnes em cheio todas as vezes e sendo a merda de um empecilho para que ele avançasse mais rápido. Será que aquele maldito Frederik havia mesmo pensado em tudo?
Bucky havia visto o corpo caído no chão em cima de uma poça de sangue, não sabia quem havia matado, mas desconfiava que aquele era o estilo de Damian. O garoto teria muita merda pra processar.
Mas eles sairiam daquela merda de ratoeira da Hydra e teriam tempo. Damian ficaria bem, ele teria a irmã pra apoiá-lo. Barnes sabia que iria encontrar Roxanne. Não havia outra opção afinal.
Ele não viveria sem a mulher que amava.
Parou em frente a outra porta e socou o metal com o punho de vibranium. Felizmente Frederik não havia usado o tal adamantiu em todas as partes daquele labirinto macabro.
A enxurrada atingiu Barnes de novo, porém, dessa vez havia um corpo boiando na água... Roxanne.
Ele não precisou sequer pensar para pegar a italiana nos braços e colocá-la na melhor posição para que pudesse respirar. Seu coração estava disparado de puro pânico, Roxanne estava totalmente mole, desacordada.
Fez o melhor para voltar para as escadas de novo, havia aberto salas demais e o nível da água estava alto em excesso agora, porém, assim que avançou os degraus, tentou encontrar o lugar mais seco possível para apoiar o corpo da mulher que amava.
Sabia que não tinha muito tempo, a inundação avançava pelas escadas sem parada e, segundo Damian, logo haveriam explosões. Rezando para dar certo, ele começou a massagem cardíaca, intercalada com a respiração boca a boca.
— Vamos lá, italianinha, vamos lá! — Soprou, totalmente apavorado. Não podia perdê-la, não podia.
Quando o corpo feminino se sentou em um salto, tossindo água ao mesmo tempo em que tentava buscar oxigênio, Bucky soltou um suspiro de profundo alivio.
As íris negras e azuis se encontraram, não levou nem dois segundos para que ele envolvesse Roxanne em um abraço, só então notando o quanto estava trêmulo e assustado. Ela o apertou também, se agarrando a Bucky com angústia.
— Tudo bem, estou aqui, você não está sozinha. — Murmurou, acariciando os cabelos longos e molhados, sabendo muito bem como sua italianinha se sentia. — Mas agora temos que ir, tudo bem?
Ela assentiu, e ele a amparou escada acima, enquanto a água já batia nos calcanhares deles.
— James... — A voz feminina ainda estava rouca, mas a preocupação no tom era perceptível. — O Damian... ele?
— Ele está bem. — Barnes garantiu. — E ele está com a gente. Do lado certo.
O suspiro de alívio foi audível, porém os dois não pararam de subir.
— Como vocês conseguiram fugir? E o Frederik? — A italiana disparava as perguntas. — Me desculpa ter te envolvido nisso, James.
— Nada disso é sua culpa. Eu vim porque quis, lembra? Agora, respondendo sua pergunta: Sam invadiu o lugar com o pessoal. — Explicou com simplicidade, porém deu a próxima informação em tom firme. — E o Frederik está morto.
Roxanne ficou em silêncio por alguns segundos. Talvez absorvendo que o homem que ela caçou a vida toda não havia caído por suas mãos.
— Espera... você disse que o Sam está aqui? — A questão veio alguns segundos depois, em um tom claro de surpresa.
— Pois é, está pensando que eu sou só um rostinho bonito? — Bucky quis dar uma descontraída no clima. — Eu mandei um sinal em código morse.
— Então era isso que você estava fazendo no jantar?
— Estratégia de guerra. — Ele sorriu de canto, parando por um segundo para que ela tomasse fôlego. Faltavam só dois andares agora, eles chegariam ao topo em breve.
— Nada mal. — Roxanne elogiou. — Quem diria que...
A frase ficou sem fim quando uma grande explosão fez a Plataforma inteira tremer.
Bucky trocou um olhar com a Donna, prestes a dizer o que estava acontecendo, porém sequer conseguiu formular as palavras; outra explosão estourou há poucos metros deles.
Os corpos foram lançados no ar, antes mesmo que Bucky conseguisse puxar Roxanne para perto. Ele agarrou uma das mãos dela com firmeza, porém, os dois foram pegos pelos destroços, perdidos naquela mistura de fumaça e fogo, enquanto o chão se abria abaixo de seus pés.
Não deu para pensar, não deu para planejar uma evasiva. Não deu tempo de nada. Bucky se sentiu cair e então parou, seu corpo sofrendo um pequeno tranco.
A próxima coisa que viu foi que estava pendurado, a plataforma tinha se divido no meio, metade dela despencando para o mar lá embaixo. Barnes encarou a queda escura, tendo um déjà vu nada agradável. Não era como meses atrás quando caiu meia dúzia de metros na neve fofa, era como estar olhando para sua morte nos anos quarenta outra vez. Lá em baixo, apenas o mar agitado e os destroços da explosão.
— James! — Roxanne chamou e ele piscou algumas vezes antes de erguer a cabeça.
Os dois estavam pendurados.
A Donna primeiro, segurando o metal que levava a um dos pavimentos com uma das mãos, enquanto a outra estava fechada ao redor do braço de vibranium de Bucky.
Era a pior posição possível.
Da forma que estavam não importava que Barnes fosse um supersoldado, sua força não fazia a menor diferença, seu único ponto de apoio era Roxanne, e qualquer movimento faria a mão dela escorregar lá de cima.
Ela tentou puxar seu próprio corpo para o pavimento mais seguro, porém não tinha força o bastante para isso com apenas uma mão, já que estava segurando todo o peso de Bucky também.
Os destroços caíam ao redor deles, faíscas e fumaças por toda a parte, focos de incêndio nos destroços da plataforma que despontavam no mar.
A chance de descer todos aqueles metros e sobreviver era muito baixa. Não havia um chão liso no meio de uma floresta, nem a neve fofa do Canadá para amortecer a queda, também não eram apenas os destroços de um porta avião em um rio de Washington. Era mar aberto, com metal de uma Plataforma de petróleo inteira por toda a parte. Cair da altura de um arranha-céu no meio daquilo poderia partir um corpo em dois. Talvez nem mesmo o supersoro resistisse a isso.
Bucky prendeu a respiração, entendendo rápido demais o que tinha que ser feito.
— Roxanne... — Soprou com a voz quebrada, e os olhos negros o encontraram já cheios de lágrimas.
— Não! — Ela deixou bem claro, tentando puxar o corpo masculino, mas isso só fez com que sua outra mão deslizasse lá em cima.
Ao longe, em outra parte da plataforma, as explosões continuavam. Não havia tempo.
— Donna... — Ele tentou de novo.
Ela precisava usar a outra mão para se segurar na borda, ou acabaria caindo. A única chance de Roxanne era soltar Bucky.
— Não ouse! — Ela ordenou em um soluço desesperado, quando ele tentou mover sua mão de vibranium para se libertar.
— Olha só, eu vou sobreviver, juro. — Mentiu, não tinha certeza disso, não com todos aqueles destroços lá embaixo. Mas se era a única chance de Roxanne, então ele mentiria mil vezes. — Você tem que me soltar. Dá pra deslizar daqui até lá usando a base.
Não era verdade também, a base da plataforma estava há metros de Bucky, na posição dele não tinha como pegar impulso para se agarrar ali e usar o braço de vibranium para descer devagar. Além disso, os destroços já tinham atingido o mar lá embaixo, não havia um só ponto de apoio em todo o caminho.
Era queda livre. Só isso.
Mas havia uma chance, Bucky tinha que confiar nisso, não é? Era só uma queda, ele já tinha sobrevivido antes. Podia improvisar no caminho.
— Nem morta. — A Donna deixou claro, travando os dedos ao redor do punho de vibranium de tal forma que os nós dos seus dedos ficaram brancos. — Se for pra cair, vamos cair os dois juntos.
De jeito nenhum.
Com chance ou sem, Barnes preferia morrer do que arriscar a vida da mulher que amava.
— Italianinha... — O tom agora era apenas uma súplica, os olhos azuis nublados pelas lágrimas.
Não tinham tempo. Será que essa era a merda da maldição dos dois? Sempre estavam roubando momentos um com o outro, fadados a um final trágico desde que haviam se conhecido.
— Não me deixa, por favor. — A forma como Roxanne pediu aquilo fez o coração de Barnes se partir em mim pedaços.
Mas ele não podia permitir que algo acontecesse com ela, eram pelo menos uns 150 metros do ponto onde estavam em queda livre até o mar. Ela não tinha a menor chance. Seria como se caísse de um prédio de 50 andares.
— Eu te amo. — Garantiu, um nó travando sua garganta quando tomou a decisão. — Io ti amo più di ogni altra cosa, Donna mia.
"Te amo mais do que qualquer outra coisa." Foi isso que disse... antes de bater a mão direita no começo do ombro de vibranium e fazer o braço desencaixar.
E então ele caiu. A vida passando diante de seus olhos enquanto o grito de Roxanne cruzava o ar.
Não havia onde se segurar, onde apoiar o pé para parar a queda de alguma forma, não havia nada a fazer, apenas esperar o veredito do oceano...
Não fechou os olhos, o sofrimento da mulher que amava preso em suas retinas até que a escuridão e a distância a engolisse.
Bucky já tinha caído de uma altura exorbitante uma vez, ele sabia que teoricamente era rápido, talvez uns míseros cinco segundos até que seu corpo atingisse os destroços que estavam afundando no mar, porém, ele também sabia que a teoria era distorcida pela percepção do cair infinito.
Era como contar os metros em ordem decrescente, enquanto toda sua vida passava diante de seus olhos. 150 metros. 100 metros. 50 metros. Ele finalmente fechou as pálpebras pronto para o impacto.
Já havia perdido um braço, sabia que doeria, que ele sentiria tudo.
No entanto, o impacto nunca veio. Barnes se sentiu ser agarrado pelas roupas, perto o bastante do mar para sentir os respingos.
— Cara, não posso sair de perto por dois minutos e você faz merda, que merda. — Sam resmungou de forma divertida, enquanto puxava Bucky para cima.
Uma aeronave pairava perto do ponto mais alto e, quando Barnes foi jogado para dentro, Roxanne já estava sendo acolhida por Francesco e envolvida em um cobertor.
Foi por um triz. Bucky bateu no ombro de Sam em agradecimento.
Estavam em um cargueiro da aeronáutica, a porta lateral ainda aberta e todos ali reunidos em segurança.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Roxanne perguntou surpresa, vendo seus três conseglieres.
— Se a Donna precisa de mim, eu venho. — Francesco assegurou. —Eu sempre vou vir.
— É isso que ele disse. — Corinne encolheu os ombros de forma casual, sentada por ali com Nick que também concordou.
— Até que enfim, hein? Achei que vocês estavam regravando Titanic. — Damian soltou descontraído, mas ninguém riu.
— Muito cedo, garoto. — Sam murmurou, passando pelo mais novo. — Mas foi uma ótima piada.
— Caramba, gente, a vida de vocês é cheia de problema o tempo todo. Que loucura. — A voz de Joaquim Torres veio lá da frente, provando que era ele quem pilotava. Certamente Wilson havia pedido um favor para o amigo.
No entanto, Bucky deixou isso de lado, quando notou a forma como era encarado pelos olhos negros. Roxanne estava brava, era visível.
— Italianinha... — Ele tentou começar.
Ela se colocou de pé, fazendo com que todos os outros se afastassem, o cobertor escorregou de seus ombros. Estava encharcada dos pés à cabeça, assim como Barnes, e ainda tinha na não o braço de vibranium dele.
Ele assistiu enquanto ela cruzava a distância que separava os dois. Previu o que aconteceria, mas não tentou impedir, apenas ficou ali parado enquanto levava uma bofetada da sua própria mão de vibranium.
Aquela merda era dura mesmo. Ele sequer tentou formular uma explicação. Sabia que tinha feito Roxanne viver um momento horrível e, por mais que sua intenção fosse salvá-la, com certeza ela estava revoltada. Ele também estaria, se a situação fosse inversa.
O que Bucky não previu, no entanto, foi que a Donna lançaria o braço de vibranium pela porta aberta, direto no mar lá embaixo.
Na verdade, ninguém previu aquilo.
— O próximo braço que a gente conseguir pra você não vai mais desgrudar do seu corpo, a menos que eu mesma arranque ele com um machado, entendeu? — Roxanne deixou bem claro.
— Sim, Donna mia. — Bucky assentiu, mordendo o sorriso para disfarçá-lo.
Não deu certo, então ele apenas assumiu que amava demais aquela mulher e a enlaçou pela cintura, para finalmente poder beijá-la. Amava quando ela ficava bravinha.
Quando se separaram ele ainda levou um tabefe no peitoral.
— Desculpa. — Murmurou, roubando outro beijo dela. — Da próxima vez eu obedeço.
Roxanne apenas estreitou os olhos, mas dava pra ser o sorrisinho escondido no canto de seus lábios.
— Então deixa eu ver se eu entendi, Rox... — A voz de Damian fez com que eles se virassem na direção do garoto, enquanto a porta se fechava automaticamente e a aeronave se afastava da plataforma destruída. — Você acabou de jogar fora um braço biônico feito do metal mais raro do mundo, que vale na casa dos bilhões?
— Alguma coisa contra? — A Donna rebateu, cruzando os braços.
— Não, senhora. — Damian abriu um sorriso cínico. — Posso até fazer outro, sou bom com essas coisas.
— Virei cobaia agora, é isso? — Bucky rebateu incrédulo, ganhado um olhar de advertência de Roxanne. — Claro, Damian, vai ser muito divertido. — Corrigiu, fingindo adorar a ideia e arrancando uma risada de todos.
Estavam bem. Isso era tudo que importava.
A Donna cruzou o espaço até o irmão e o abraçou apertado. Para Barnes, todo o resto valeu a pena. Estavam voltando para a Sicília.
Todos se sentaram, os sorrisos persistentes no rosto, o clima de vitória evidente.
— E aí, posso ver seu escudo? — Damian perguntou diretamente para Sam.
— Não. — Wilson rebateu com um sorrisinho sarcástico.
— Nem queria mesmo. — O garoto deu de ombros, mudando de lugar e se sentando ao lado de Barnes para então surrurar: — Fala pro seu amigão do peito me deixar ver o escudo?
— Não vai rolar, moleque. — Bucky negou, trocando um olhar com Sam e prendendo o sorriso também.
— Dinossauro velho, feito de sucata! — O mais novo rebateu, tão birrento quanto um garoto de cinco anos e isso fez com que todos caíssem na risada.
Eventualmente Damian pôde ver o escudo, é claro, mas não dava pra perder a piada.
Barnes percebeu que tinha uma família ali. A sua família.
Ele havia demorado décadas para encontrar seu lugar no mundo, mas agora, pela primeira vez o futuro parecia um bom lugar para se conhecer.
Enquanto as conversas paralelas envolviam os presentes, Roxanne acariciou a nuca de Barnes e os dois roubaram aquele pequeno segundo apenas para eles.
— Se tentar se matar de novo... eu juro que te mato. — Ela deixou claro, arrancando um sorriso ladino dele.
— Eu não ia morrer, sou duro na queda, literalmente. — Desconversou. Mas entendido. Pode deixar, eu nunca mais vou te deixar, Italianinha.
Essa era uma promessa que ele com certeza cumpriria.
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