Operação Jardim Secreto
22 Lótus
Notas iniciais
— Acharam eles? — Alya perguntou, vendo Alix, Mylène e Ivan se aproximarem.
— Nem sinal da Mari nos camarins femininos — a garota de cabelos róseos respondeu e a blogueira conteve o riso, por um instante se atentando mais para a purpurina que ainda estava espalhada por toda a pele da amiga que com a informação que ela passava. Ela já não vestia a roupa de fada, mas o brilho aplicado em sua derme era persistente, aparentemente. — Ou em qualquer outro lugar — a patinadora acrescentou, franzindo o cenho ao ver que a aspirante a jornalista a encarava de forma estranha.
— O mesmo com o Adrien. Procurei em todos os lugares — Mylène declarou.
Alya trocou um olhar desconfiado com Nino, que estava apoiado com os cotovelos na grade de proteção ao seu lado. Por trás dele, era nítido que Juleka e Rose também ostentavam olhares especulativos.
Após o término da peça, os adolescentes que compunham a equipe amadora de atores foram assediados por diversos repórteres cuja entrada foi franqueada nos bastidores durante a peça. Entre os mais perturbados, estavam Alya e Nino, que acabaram por protagonizar o beijo apaixonado no final, e o Sr. Chevalier, que era a razão de tudo aquilo. Claro que, se Adrien e Marinette estivessem no local, seriam assediados na mesma medida ou mais. Entretanto, eles haviam simplesmente desaparecido.
Quando finalmente se livraram da imprensa, os adolescentes se trocaram e seguiram para o camarote destinado à equipe, mal chegando a tempo do anúncio da desistência da imobiliária em relação à compra do Jardim. A notícia foi recebida com algazarra por todos eles, e foi nesse momento que ressaltada a ausência do modelo e da aspirante a estilista.
Alya perguntou por eles e apoiou-se na grade após as respostas inconclusivas de seus colegas presentes, a tempo de ver Ladybug e Chat Noir anunciando o show de Jagged Stone e partindo, saltando sobre o palco, um de cada lado.
Sabendo que os amigos nunca perderiam um show de Jagged Stone a menos que algo importante acontecesse, ela enviou mensagens que perguntavam por eles a Mylène e Alix, que ainda não haviam chegado, mas as garotas não tiveram melhor sorte.
— Quer procurá-los? — Nino perguntou.
Normalmente, Alya negaria de pronto, esperançosa que o sumiço dos amigos pudesse significar que finalmente haviam se entendido. Mas ela ainda estava receosa em relação à toda confusão causada pela “Operação Jardim Secreto” e temerosa que Marinette pudesse se meter em outra confusão que destruísse seus sentimentos e autoestima ainda mais.
Por outro lado, ela viu de longe, assim como vários de seus colegas, quando os dois esclareceram as coisas e fizeram as pazes. Então talvez existisse uma chance de progresso ali, e ela nunca se perdoaria se qualquer pessoa interrompesse no momento errado.
— Não — respondeu por fim, digitando uma breve mensagem em seu smartphone. — Eu estou enviando uma mensagem para ela. Por enquanto, vamos confiar que eles estão bem — explicou, apertando a opção “enviar”. — Manda uma para o Adrien também — pediu ao namorado. — O show está começando e eu quero cobrir o máximo para o Ladyblog — emendou, abrindo a câmera no aparelho e começando a configurar a câmera.
— Certo — Nino assentiu, também enviando uma breve mensagem para o amigo.
— A Mari é durona — Alix comentou, enquanto a amiga não iniciava a filmagem —, só parece mole — acrescentou. — Superou desastre após desastre nessa história toda e ainda ajudou a salvar o jardim e as memórias daquele senhor. Aposto que agora deve estar com o “príncipe” dela, atrás de alguma árvore por aí — emendou risonha, assinalando as aspas com os dedos.
— Ah, seria tão bom se acontecesse! — Rose exclamou sonhadora, Juleka assentindo em concordância. — Um verdadeiro final feliz!
— Espero que a euforia do festival ajude e a impeça de travar no último momento. Como sempre — Mylène acrescentou e foi como se uma nuvem negra pairasse sobre o grupo de amigas. Conhecendo a personalidade de Marinette, elas estavam bem cientes dessa possibilidade.
— Vocês deveriam se preocupar menos e dar um pouco de crédito ao Adrien — Nino comentou, de forma relaxada.
— Ah, claro! — Alya retomou a palavra. — Vamos confiar no senhor “não enxerguei os sentimentos óbvios da garota que senta atrás de mim por todo esse tempo” — ironizou, até mesmo se esquecendo da filmagem que precisaria realizar em breve.
Nino rolou os olhos para cima.
— Mas ele não tem agido de forma tão passiva ultimamente, não é mesmo? — indagou, vendo o semblante da namorada crispar em contrariedade, enquanto as demais meninas assumiam expressões contemplativas. — Além do mais, precisamos lembrar que não são apenas os sentimentos da Marinette a serem considerados. Adrien também precisa agir de acordo com o que sente. Não adianta forçar para ele algo que ele não quer, e se ambos estiverem alinhados em seus desejos, podem finalmente se resolver sem a nossa ajuda — concluiu seu discurso, e Alix simulou palmas em brincadeira.
— E se eles se resolverem, podemos considerar que no fim das contas eu ajudei — gabou-se a patinadora, recebendo de imediato quatro pares de olhares irritados das amigas.
— Você quer dizer, acertando a cabeça do Adrien com a nossa conversa e explodindo a “Operação Jardim Secreto”? — Mylène indagou, arregalando os olhos em seguida, ao perceber ter dito mais que deveria.
— Ah, então foi a Alix que atingiu o Adrien naquele dia — Nino comentou, entre risos.
Alya bateu com a palma na própria testa, antes de se manifestar:
— Sério Mylène? Nós conseguimos passar por tudo isso sem uma palavra a respeito da “Operação Jardim Secreto” e você bota a boca no trombone justo agora? — reclamou.
— E vocês reclamando da minha pontaria — Alix zombou.
— Ah, para! Não é como se a gente já não tivesse deduzido tudo isso — o DJ apontou. — Vocês só estão confirmando o que todos já sabíamos — revelou, no que Ivan, e até mesmo Nathaniel, que havia recém chegado, concordaram com a cabeça.
Alya suspirou, frustrada. Ela tentou, mas não poderia realmente proteger a amiga para sempre, ainda que se sentisse parcialmente responsável por, no anterior, ter sugerido que Marinette contasse seus sentimentos as outras colegas de sala e ajudado a planejar a “Operação Jardim Secreto”, antes apenas um plano bobo para fazer com que a amiga Adrien dessem uma volta juntos, que acabou se desdobrando em uma série de desastres.
Ademais, Alix estava certa. Marinette havia passado por cima de todas as dificuldades recentes, ignorando as próprias dores pelo bem comum. De muitos adjetivos que poderia usar para defini-la, “fraca” definitivamente não estava entre eles, e embora sua trapalhice habitual costumasse minar seus planos. Se ela descobrira maneiras de fazer tanto pelos outros, talvez devesse descobrir como fazer ao menos um pouco por si mesma.
— Eu sei que você consegue, amiga — murmurou por fim, antes que uma notificação de uma mensagem de Marinette aparecesse na tela de seu smartphone.
A blogueira saiu da câmera para o aplicativo de mensagens, onde em uma série de textos a jovem estilista narrou que havia resolvido dar uma volta no jardim e que voltaria em breve.
Alya franziu o cenho, preocupada por sua amiga caminhar sozinha pelo jardim à noite, mas quando Nino lhe mostrou no próprio celular que Adrien havia lhe mandado um conjunto de mensagens semelhantes.
A morena não pôde evitar de abrir um sorriso malicioso e responder a amiga com um emoji que espelhava sua expressão, antes de finalmente tornar a abrir a câmera para registrar o show já em andamento.
…
Assim que apertou a opção “enviar”, Adrien colocou o celular no bolso do casaco de sua fantasia e seguiu seu caminho. Ao menos agora, Nino não lhe encheria de perguntas em relação à razão de seu sumiço, o que lhe deixava apenas com a missão de voltar para a área do show.
A música lhe dava uma noção da direção que deveria seguir, mas não é como se houvesse muitos caminhos transitáveis entre as intrincadas árvores da parte mais densa do jardim. Ele se lembrava de ter ouvido Sr. Chevalier comentar que já que não tinha forças para cuidar de uma grande área cultivável, tratou de preencher as outras áreas com mudas e sementes das mais diversas espécies arbóreas e torceu para que a chuva fizesse o resto. Com quase duas décadas de espera, o resultado floresceu em um bosque impressionante.
O pensamento lhe trouxe uma onda de satisfação, por saber que havia contribuído, de alguma maneira, para salvar o jardim, que era tão precioso para seu guardião, lavando o estresse das últimas semanas. Houve momentos em que ele realmente temeu não conseguir ajudá-lo e ver o jardim sendo substituído por um condomínio luxuoso qualquer, que soterraria as lembranças mais preciosas do velho.
E, por que não dizer, as suas.
Pois por mais breve e difícil que aquele período tivesse sido, Adrien também juntara uma coleção de momentos memoráveis naquele mesmo jardim, que ainda se tornou, de alguma maneira, o elo que impediu que ele e Marinette sucumbissem à mágoa e se afastassem completamente um do outro.
Involuntariamente, sorriu.
Ele podia até ter contribuído, mas não negaria que se não fosse pela energia e determinação da jovem estilista, talvez não tivesse coragem de seguir adiante.
Ainda lhe espantava o magnetismo que ela exercia sobre as pessoas à sua volta, atraindo-as para que lutassem e seguissem adiante, confiando em um futuro positivo, mesmo que os próprios sentimentos estivessem quebrados.
Ela era mesmo “vento”, como Sr. Chevalier dissera. Impetuosa, mas gentil.
E mesmo que ele relutasse; que se sobrecarregasse com todas as dúvidas em relação à identidade de seu primeiro amor e a colega de classe que tinha sentimentos por ele e já não saia de seus pensamentos, não podia negar que definitivamente estava sendo conduzido para algo.
Embora as dúvidas estivessem gradualmente se convertendo em certeza.
Se se esforçasse um pouco, Adrien ainda conseguiria sentir o familiar toque no nariz, que sua lady usava para afastá-lo cada vez que se aproximava para tentar um beijo matreiro.
Porém, dessa vez não havia sido Ladybug que realizara o conhecido gesto, mas Marinette.
O que inevitavelmente despertou o adolescente a sensação de déjà-vu e fez com que repentinamente se sentisse em meio a uma situação muito corriqueira.
Ele ainda refletia sobre isso, quando o som de vozes se sobrepuseram à música alta e fizeram com que entrasse automaticamente em alerta e se escondesse.
Ninguém poderia vê-lo ali, voltando da mesma direção que Chat Noir sumira.
— Então é essa a sua resposta? — ouviu uma voz masculina conhecida questionar, o que fez com que ele espiasse por trás do tronco que o ocultava.
Adrien se surpreendeu levemente ao avistar Maurice e Srta. Bustier parados em uma clareira, de frente para o outro.
— Exato — a voz da educadora denunciava chateação, mas também emanava firmeza. — Por mais que eu ainda te ame, não vou me submeter a esse tipo de relacionamento novamente. Você me acusava constantemente de não dar valor ao nosso noivado em razão do meu trabalho, quando era um dos culpados da minha falta de tempo, exigindo mais e mais atenção, não se contentando que eu me dedicasse a outras áreas da minha vida. Tudo isso porque se recusa a procurar ajuda psicológica — discursou, a tristeza evidente em seu semblante.
E embora Adrien não pudesse ver a expressão de Maurice, que se encontrava de costas, era notório por sua postura que encontrava-se desapontado.
O garoto não pôde deixar de se entristecer por ele. Compreendia que sua professora tinha razão, mas sabia que Maurice era um cara legal e, apesar de tudo, uma rejeição nunca seria fácil de lidar.
— Caline, eu… — Maurice tentou, em tom desesperado, mas foi interrompido.
— Eu não posso lidar com isso! Não posso assumir a responsabilidade de juntar os seus pedaços se você vai continuar se recusando a procurar ajuda profissional, Maurice! — a mulher continuou. — Entretanto, não vou recusar meu apoio e amizade se você decidir dar o primeiro passo. Mas para o nosso amor, isso é um adeus — concluiu.
O jovem modelo decidiu que não poderia continuar ali, sentindo-se mal por ter ouvido uma conversa de teor nitidamente particular. Assim, decidiu se afastar cuidadosamente no momento em que Maurice começou a implorar para que a Srta. Bustier reconsiderasse, mas a parca luminosidade foi o suficiente para impedir que visse o galho que se partiu quando pisou em cima.
— Você ouviu isso? — a professora indagou, ao ouvir o estalo ruidoso, e Adrien decidiu correr na direção oposta antes que tivesse que enfrentar o constrangimento de ser descoberto ouvindo a conversa.
— Pretende continuar correndo até onde? — a voz irritante de Plagg questionou, fazendo com que o loiro parasse, ao mesmo tempo que o Kwami deixava seu casaco, os olhos verdes fluorescente sendo a única parte de seu corpo que podia ser contemplada com nitidez, dada a lugubridade ambiente.
Finalmente pensando com clareza e sem os efeitos da adrenalina, Adrien se deu conta que adentrara ainda mais na parte desconhecida do jardim.
— Eu me perdi — murmurou, incrédulo.
— Gênio — o minúsculo gato debochou.
— Droga — ignorando a zombaria da criaturinha, praguejou, pegando de volta seu celular e abrindo o GPS.
Não havia trilhas registradas na área do jardim, de modo que, selecionando como destino a casa do Sr. Chevalier, recebeu um percurso em linha reta, que dificilmente funcionaria entre as árvores.
Uma vez que não tinha qualquer alimento para Plagg, transformar-se novamente estava fora de questão, não havendo outra opção que não tentar caminhar de volta. Ao menos ele se manteria orientado pelo GPS quanto à direção correta e o kwami também poderia flutuar sobre as árvores e ajudá-lo a seguir o caminho certo, pensava enquanto ensaiava os primeiros passos, quando o som de vozes chamou sua atenção.
Antes que pudesse perguntar por alguém, um ponto luminoso resplandeceu na mata densa e refletiu no que deduziu ser o lago.
Adrien sentiu-se culpado a princípio, mas viu a curiosidade levar a melhor sobre ele por não poder evitar de caminhar em direção à luz, a ansiedade crescendo por ter uma boa noção do que encontraria.
...
Havia uma coisa que Marinette deveria ter planejado melhor: a roupa que permaneceria após desfazer sua transformação.
Em seus esforços para garantir que teria tempo de arrumar o cabelo em suas maria-chiquinhas habituais antes de retornar ao palco — sua maior preocupação —, ignorou completamente que, caso se transformasse com o figurino, da bruxa Lótus, também o usaria após dispensar os poderes de Ladybug.
Isso não seria grande problema se ela tivesse se destransformado nos bastidores, ou mesmo próximo aos camarins. Mas na necessidade de fugir da imprensa, dos olhos da equipe e tirar eventuais desconfianças a respeito de sua verdadeira identidade, optou por simular que deixou o local do festival, saltando sobre o palco e embrenhando-se pelo bosque logo atrás.
Ela já havia dado sorte em ninguém tê-la visto se esconder para assumir o manto da super heroína, e preferia fazer as coisas com mais cautela dali em diante.
Foi o que pensou, mas não julgou o quão difícil seria se mover por entre as árvores com seu vestido negro volumoso. Especialmente porque agora se encontrava em local diverso do pretendido anteriormente.
Marinette nunca planejou ir muito longe. Apenas se embrenhar um pouco mais em linha reta, a frente do ponto em que caíra ao saltar sobre o palco, tomando o cuidado de evitar a direção em que vira Chat Noir seguir. Todavia, bastou que ela colocasse os pés no chão para liberar a própria transformação, para que escutasse algo que definitivamente não esperava ali: vozes.
Pior ainda: as vozes conhecidas da Srta. Bustier e de Maurice.
Em um esforço para não denunciar sua presença, a jovem estilista se escondeu atrás de uma grossa árvore e acabou por escutar, sem querer, uma conversa que partiu seu coração.
E embora estivesse profundamente chateada pelas duas pessoas que aprendera a considerar tanto e que, nitidamente, encerravam seu capítulo juntos, não pôde evitar sentir-se mal por ouvir algo que não devia, pelo que tentou se afastar discretamente.
Mas claro que seu vestido enorme a faria tropeçar em sua barra. Ela tinha sorte por apenas bater em uma árvore próxima, e não despencar no chão como normalmente acontecia.
— Você ouviu isso? — o questionamento da Srta. Bustier foi a última coisa que percebeu antes que disparasse a correr.
Correu sem rumo definido, apenas levantando a saia do vestido, sentindo-se a própria princesa de contos de fada, fugindo pela floresta em suas roupas glamourosas.
Entretanto, naquele caso, ela era a bruxa, e não havia nada de realmente emocionante em correr com um traje que apenas provocava retardo em sua locomoção.
Quando julgou estar longe o suficiente, parou, não querendo danificar o modelo criado em parceria com Gabriel Agreste, que seria leiloado para financiar a reforma do jardim. Ao lembrar-se disso, mais uma vez lamentou sua falta de planejamento em não ter preparado uma roupa para usar depois de sua transformação. Ela poderia ter escondido um vestido ou algo assim no bosque previamente, mas isso não faria diferença no fim das contas, raciocinou, se acabasse se encontrando com Maurice e a Srta. Bustier.
Conformada com sua situação, constatou que havia problemas mais urgentes para se preocupar.
— Ah, não — gemeu frustrada, ao se dar conta não havia observado a direção para qual ia e agora não fazia a mínima ideia de onde se encontrava. Afinal, nunca tinha explorado profundamente aquela parte do jardim antes, ainda mais devastada e selvagem que aquela que habitualmente visitava com Adrien e Sr. Chevalier.
— O que foi, Marinette? — Tikki perguntou, saindo das dobras de suas vestes.
— Eu não sei onde vim parar! — exclamou, exasperada, olhando em volta, na esperança de avistar qualquer ponto de referência familiar. Entretanto, sua consternação cresceu pela pouca iluminação local, que não permitia que visse muita coisa.
Resignada, apanhou o celular de seu decote para conferir o GPS, agradecendo ao menos por ter tido o bom senso de pegá-lo antes de se transformar.
Graças a isso, conseguira mandar, antes de se perder, uma mensagem com uma desculpa qualquer para Alya, o que a pouparia de perguntas incômodas sobre sua ausência mais tarde.
Era o que acreditava, até o emoji de sorriso malicioso que podia ser visto na notificação que denunciava a resposta de Alya, mostrar-lhe que as coisas não seriam tão fáceis assim.
— O que ela quis dizer? — questionou, abrindo o aplicativo de mensagens, momento em que percebeu as inúmeras outras notificações que havia ignorado até então, uma delas chamando sua atenção de forma especial.
— Eu pensei que fosse conferir o GPS, Marinette! — Tikki alertou.
— Eu já vou — disse ela, antes de abrir a conversa referente à Chloé e apertar o “play” no áudio que ela havia lhe mandado.
Não se surpreendeu por ouvir uma chuva de insultos, que previsivelmente, acabou com uma leve ameaça:
“[...] Eu não sei o que você armou para mudar o fim dessa peça ridícula e terminar com o Adrienzinho, mas saiba que isso não é um conto de fadas, Marinette. Escreva minhas palavras: vocês não vão ficar juntos no final”.
Marinette suspirou enquanto abaixava o celular, o qual jazia pressionado com força desnecessária por sua mão direita.
Claro que Chloé não deixaria a mudança no fim da peça — outrora protagonizada por ela — passar em branco e tentaria estragar sua felicidade.
— Você sabia que se chatearia. Não devia nem ter ouvido o áudio — Tikki criticou.
— Eu sei — respondeu ela, apoiando as costas contra uma árvore, enquanto soltava outro suspiro chateado.
— Vamos, Marinette, não deixe isso te abalar! — A Kwami tentou animá-la. — O importante é que vocês conseguiram salvar o jardim e deixar o Sr. Chevalier feliz! — lembrou.
A jovem de cabelos negro-azulados sorriu em resposta, permitindo que seu interior se enchesse novamente com a satisfação decorrente dos eventos daquela noite.
Tikki estava completamente certa. As ofensas de Chloé eram muito pequenas em comparação à felicidade de ter conseguido ajudar o velho jardineiro, pelo que não se deixaria abalar.
Ainda era vívida em sua mente a emoção de ouvi-lo dizer que haviam conseguido, enquanto era abraçada junto a Chat Noir.
“Vocês dois conseguiram, afinal”.
Repetir a frase mentalmente, fez com que ela sobressaltasse, no entanto.
Pois o velho não disse como se estivesse conversando com dois heróis que lhe eram conhecidos por serem famosos, mas sim como se falasse com duas pessoas muito próximas.
O que trouxe de volta os pensamentos confusos e improváveis que vinha tendo ultimamente.
Não que a reação de Adrien durante o teatro tenha ajudado a afastá-los.
Marinette não ignorou que após afastá-lo de si, empurrando seu nariz com o indicador, os olhos verdes se arregalaram em surpresa.
Mas o que lhe surpreendeu, realmente, foi a maneira que ele respondeu a sua represália:
“Como quiser, my lady”.
A lembrança lhe trouxe um arrepio e, antes que pudesse evitar, a garota viu-se estapeando a bochecha, para que pudesse manter seus pensamentos coerentes.
Não era hora de continuar com suposições absurdas sobre a identidade do seu parceiro de time.
— O que foi agora, Marinette? — Tikki indagou, preocupada.
— Nada — respondeu a jovem estilista. — Precisamos voltar — lembrou, erguendo novamente o celular, com a intenção de consultar o GPS, quando algo chamou a sua atenção.
Especificamente, um reflexo prateado em uma superfície ondulante.
— O lago! — exclamou.
Admirada pelo luar espelhado na água, a adolescente aproximou-se, tanto por curiosidade, já que nunca havia parado para contemplá-lo antes, quanto no intento de ver se próximo à margem aberta conseguiria identificar o local do festival. Afinal, sabia que o lago se estendia até a área que o Sr. Chevalier mais trabalhava, embora não fosse visível em razão das inúmeras árvores multicores. Contudo, ao chegar mais perto, foi outro elemento que captou toda a sua atenção, motivando-a a se aproximar ainda mais.
— Cuidado Marinette! — a Kwami alertou, ao ver que a garota estava muito próxima à beirada. — A terra não costuma ser firme nesses lugares — acrescentou.
Marinette escutou o aviso, mas não achou que houvesse problema em acender a lanterna do celular e se inclinar um pouco, a fim de confirmar se as pequenas formas que ondulavam sob as águas tratavam-se mesmo do que pensava.
Isso porque ela não esperava uma nova sequência de estalos que denunciavam à aproximação de alguém.
Não houve tempo para troca de instruções.
Percebendo o que acontecia, Tikki escondeu-se entre as roupas da portadora, antes mesmo que ela pudesse endireitar a postura.
Aliás, endireitar a postura definitivamente estava fora de questão, uma vez que Tikki estava certa em dizer que as terras que circundam águas não são firmes. A garota comprovou o fato pois, em seu movimento brusco, sentiu o chão ceder sob seus pés e o corpo perder o equilíbrio antes que pudesse raciocinar. De repente, a água parecia bem mais perto.
— Cuidado! — a voz conhecida veio junto com um puxão em seu cotovelo, que levou seu corpo para trás bruscamente, até que chocasse as costas em algo firme.
O pulso de Marinette disparou absurdamente, o que fez com que ela levasse ambas as mãos — uma ainda sustentando o celular com a lanterna ligada — ao peito. A respiração estava irregular e o calafrio ainda percorria seu corpo, enquanto sua mente registrava que ela não havia despencado na água, como, por uma fração de segundo, teve certeza que iria.
— Você está bem? — a pergunta fez com que ela processasse outras coisas sobre a situação, como as duas mãos que a seguravam firmemente seus braços logo acima do cotovelo; a presença de outro corpo pressionando o seu inteiramente por trás e, é claro, a quem pertencia aquela voz.
— A-Adrien? — gaguejou, completamente constrangida com a proximidade, sem coragem de virar o pescoço e confirmar sua suspeita.
A risada que ele soltou foi suficiente para isso, no entanto, assim como para que a vida retornasse ao seu corpo amolecido pelo susto e a impulsionasse a romper o contato e se afastar dele.
Claro que ela esqueceu que ainda estava na beirada do lago e desequilibrou para trás, fazendo com que terminasse agitando os braços como asas, na vã e cômica tentativa de evitar a queda, enquanto soltava um grito estridente.
Por sorte, Adrien conseguiu enlaçar sua cintura a tempo e, dessa vez, puxar-lhe para uma distância segura da margem. Tudo isso enquanto gargalhava com vontade.
A jovem sino-franca escondeu o rosto nas mãos, tentando fugir de tanta humilhação, porém ao vez que o loiro não cessava de rir, acabou inflando as bochechas e fazendo beicinho, enquanto cruzava os braços.
— Espera, você está chorando? — perguntou indignada enquanto o iluminava com a lanterna, vendo-o secar os olhos. — Não é para tanto! — declarou.
— Desculpe — pediu ele, tentando controlar a risada residual. — Acho que depois de todo o estresse das últimas semanas, estou com riso frouxo — justificou, lançando-lhe um olhar simpático, e Marinette finalmente riu com ele.
— Bem, não tenho como argumentar contra isso — comentou, desativando a luz do aparelho, sentindo novamente o alívio de saber que o Jardin D’eau estava a salvo relaxar-lhe o corpo, enquanto se apoiava na árvore atrás de si.
— Que bom que tudo deu certo no final — o modelo falou, o alívio pontuando cada palavra. — Mas agora é sério: você está bem? Não se machucou? — indagou com preocupação genuína, passando as mãos pelos braços da garota, como se para garantir que não estivesse ferida.
A adolescente agradeceu aos céus por ter desligado a lanterna e retornado à escuridão ambiente, pois desconfiava que sua face havia atingido um tom incrível de vermelho, dada a intensidade que queimava.
— E-Estou bem, Adrien — gaguejou. — F-Foi só um susto.
A fala errática da colega de classe, fez com que o loiro finalmente compreendesse a situação em que se encontraram. Ele estava praticamente inclinado sobre ela, enquanto passava as mãos pelos braços cobertos pelo tecido trabalhado do longo vestido negro.
Além disso, estavam completamente sozinhos.
Sem ninguém por perto.
Em um bosque escuro.
A realização fez com que se afastasse de forma abrupta.
— O que está fazendo aqui, afinal? — questionou, tentando iniciar uma conversa para quebrar o constrangimento.
Marinette engasgou com a própria saliva. Ela não havia se preparado para a possibilidade de ser questionada enquanto ainda se encontrava na floresta, simplesmente porque não esperava por isso. Mas talvez, usar uma desculpa semelhante a que deu a Alya funcionasse, pensou, antes de dizer:
— Eu queria fugir dos repórteres e entrei no jardim, mas acabei me perdendo.
Embora a pergunta tivesse sido proferida apenas com o objetivo de espantar o clima vergonhoso, o loiro não pode evitar de olhá-la de forma desconfiada, em razão de todas as suspeitas que vinha nutrindo. Era como se sua mente procurasse meios de ligar as duas pessoas que tomavam seu pensamento de qualquer maneira, todavia, lembrou-se que Marinette estava um tanto longe do ponto que vira Ladybug adentrar na mata.
O que não significava muito, já que ele também, de alguma maneira, se encontrava em local totalmente diverso daquele que aterrissou inicialmente.
— E você?
Dessa vez, Adrien foi quem teve que conter o impulso de engasgar. Ele não devia ter perguntado aquilo à garota, pensou, pois era natural que ela devolvesse o questionamento.
— Eu meio que fiz o mesmo — respondeu depressa, percebendo que ela também lhe fitou com desconfiança. — Acho que devemos voltar agora — sugeriu, percebendo que, por impulso, Marinette voltou a fitar o lago, o que despertou sua curiosidade. — O que estava tentando fazer, afinal? — indagou.
— O quê? — devolveu, confusa.
— Você quase caiu no lago. — lembrou. — O que estava fazendo?
— Oh, isso? — questionou, parecendo um tanto constrangida, no que o modelo arqueou as sobrancelhas, instigado. — Apenas pensei ter visto uma coisa e queria confirmar.
Ok, ele estava realmente curioso agora, tanto que não demorou a soltar um “por que?”, enquanto fitava a água do lago, a qual notou, apenas agora, parecia abrigar sob a superfície, diversos objetos que ondulavam, que não conseguia identificar.
A jovem de cabelos negro-azulados o encarou, exasperada.
— Não é nada de mais — insistiu.
— Mas você quase despencou no lago para ver — recordou, caminhando em direção à beirada.
Com um suspiro frustrado, Marinette o seguiu.
— Não é nada, realmente — começou enquanto se aproximava da margem em passos cautelosos.
Instintivamente, Adrien manteve-se um pouco atrás dela e segurou a dobra de seu braço direito, temendo que caísse novamente.
A garota tentou não se abalar pelo constrangimento da situação e ergueu o celular com a mão livre, agitando-o para ativar novamente a lanterna.
— Eu só não esperava encontrá-las aqui — contou, direcionando o feixe de luz para a água, fazendo com que os objetos distorcidos pela água se revelassem em diversas flores flutuantes que brotavam do fundo do lago, suas pétalas fechadas para a noite.
— Lótus — disse ela apontando para aos espécimes.
Ele sabia o que elas eram, mas mesmo assim, ouvir Marinette identificá-las em voz alta, despertou algo dentro de si.
Pois uma série de eventos inacreditáveis havia se desenrolado, nas últimas semanas em torno dessa única palavra.
De início provocou desconfiança e discórdia, e então revelações e mágoa.
Finalmente, trouxe a dúvida em relação à duas pessoas, mas isso não já importava pois, naquele momento, Adrien conseguia enxergar apenas uma.
O sorriso brilhante de Marinette transformou-se em uma feição assustada quando ela foi puxada para cima pelo mesmo braço que o rapaz segurava, mas a confusão pelo movimento repentino não poderia se comparar a que ela sentiu no momento em que sentiu os lábios dele pressionarem contra os dela.
Porque Adrien estava beijando-a.
A realização fez com que os olhos azuis se mantivessem arregalados, especialmente porque os verdes que tanto amava mantinham-se fechados, enquanto o rapaz tentava aprofundar o contato.
Finalmente, o corpo de Marinette relaxou e as pálpebras caíram para ocultar as orbes aniladas, enquanto as mãos de Adrien a puxavam contra si e o beijo se tornava mais intenso.
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